O País – A verdade como notícia

Vidal Bila e Emanuel Impissa, administradores dos distritos de Mopeia e Ribaué, respectivamente, defenderam, no penúltimo dia desta edição da MOZGROW, que o desenvolvimento local do agronegócio depende de se conciliar o investimento no pequeno agricultor e na consolidação das marcas agrícolas criadas no país.

 

Os administradores de Mopeia, na Zambézia, e de Ribaué, em Nampula, não têm dúvidas nenhumas: o desenvolvimento local do agronegócio em Moçambique depende da capacidade de se conciliar o investimento no pequeno agricultor e na consolidação das marcas agrícolas nacionais. Na opinião dos dois administradores, os agricultores que produzem em pequena escala são relevantes para o desenvolvimento do agronegócio. Por isso, segundo entendem, merecem uma especial atenção dos diversos intervenientes.

O primeiro a referir-se à importância do pequeno agricultor rumo ao desenvolvimento local do agronegócio foi o Administrador de Mopeia. Na percepção de Vidal Bila, para Moçambique potenciar o posicionamento das marcas nacionais a primeira coisa que deve fazer é investir no pequeno produtor porque “enquanto o pequeno produtor continuar a produzir quantidades que não são suficientes, mesmo que tenha um produto de grande qualidade, não poderá sustentar uma marca. As marcas dos produtos devem ser viáveis e acompanhar a qualidade desses mesmos produtos”. Mas como investir dos produtores de alimentos? Bila esclarece: “devemos, primeiro, investir no pequeno produtor alocando para este equipamentos adequados para produzir em grande escala. Aí, o produtor vai criar a sua própria marca, o que lhe vai permitir levar ao mercado o seu próprio produto. Mas essa marca deve ser consolidada, para que não desapareça ao longo do tempo. A marca deve ser sustentada através da produção e disseminada a vários níveis. Por exemplo, nós temos aqui em Mopeia o arroz Tewe, muito procurado, mas a marca não é sustentável. Porquê? Nós apenas temos o arroz num curto espaço de tempo. As pessoas querem o arroz agora e continuam a tê-lo em pequenas quantidades. Isto tem de ser alterado, para passarmos a ter em longo período. Quem procura leite Parmalat sempre encontra. Precisamos que o mesmo aconteça com o nosso arroz. A marca muitas vezes nos chama”.

Participando no debate deste penúltimo dia da MOZGROW, Vidal Bila realçou que a consistência tem que ver com níveis de produção, por isso “temos de produzir com regularidade, de modo que as pessoas possam apegar-se à a marca e ao produto”.

Mopeia é um distrito da Zambézia com muitas potencialidades na produção do arroz e do milho. Entretanto, explicou Vidal Bila, a indústria é incapaz de cobrir a quantidade de produção. O administrador que há necessidade de se investir em novas tecnologias agrárias para conseguir corresponder à demanda. “Se nós melhorarmos as nossas técnicas de produção, a industrialização far-se-á acompanhar. Vamos ter assegurar a instalação da indústria”.

Não obstante, o administrador de Mopeia criticou alguns procedimentos agrícolas no seu distrito. “Nós temos produtores que colocam no mesmo sítio vários tipos de arroz que, no final, nem se sabe qual é. Precisamos melhorar na selecção das sementes e sermos mais criteriosos. A indústria vai para onde existe produto de qualidade e quantidade. O nosso produtor tem de se preocupar com a qualidade. É preciso produzir para a indústria poder se desenvolver e essa produção deve acontecer continuamente”.

A questão de mercados e dos preços é um desafio. Vidal explicou que, em Mopeia, na época da colheita, o milho, por exemplo, é muito barato. Entretanto, quando chega o momento em que os agricultores precisam de milho, por já não terem em casa, acabam comprando o mesmo milho que venderam barato a um preço alto. Quer isto dizer que naquele distrito os preços não estão bem definidos, “e não temos preços favoráveis ao agricultor”. Ainda assim, antevê: “quando tivermos a qualidade e quantidade desejada de produtos, os preços vão se estabilizar”.

Também virtualmente, participou no debate “Desenvolvimento local do agronegócio” o administrador de Ribaué, na província de Nampula. Emanuel Impissa acrescentou à reflexão a ideia de que, além de se investir na regularidade da marca agrícola, é fundamental ter-se a cultura de a registar e fidelizar o produto. Depois, o agricultor deve especializar-se naquilo que faz. “Temos de nos preocupar em ser uma referência naquilo que produzimos”.

Segundo, Impissa disse que os agricultores devem procurar aumentar a produção e aproveitar os cursos introduzidos ao nível do distrito, de modo que saibam como podem produzir de Janeiro a Dezembro. “Temos de melhorar o acabamento do produto. Se produzimos tomate em quantidade, temos de saber como colocarmos o produto no mercado, de modo que os compradores possam adquir sabendo de onde surge. Temos muitos produtos comprados nos mercados sem que se saiba a proveniência”.

Emanuel Impissa disse que a sua administração encontra-se a conversar com os produtores para que possam ter maior robustez. Espera-se que daí se resolvam questões ligadas à documentação e que se dê valor acrescido às hortícolas ou ao milho. “Queremos que a nossa farinha seja Made in Mozambique e estamos num passo muito avançado. Assim, iremos conferir maior ganho aos produtores”.

Em jeito de aconselhamento, os administradores de Mopeia, na Zambézia, e de Ribaué, em Nampula, no debate moderado pelo jornalista Boaventura Mucipo, disseram que os intervenientes da área agrícola devem preocupar-se em assegurar a estabilidade de acesso dos produtos, garantindo a ligação com o que designam grandes superfícies, que querem sempre regularidade dos fornecedores.

O arquitecto brasileiro, Sidney Quintela, entregou, hoje, ao Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, um estudo por ele realizado na aldeia de Nauela, no distrito de Alto Molócuè, na província da Zambézia, e que foi tese de mestrado na Universidade de Lisboa e que lhe valeu uma excelente classificação final. O estudo teve como base a fase piloto do projecto Sustenta, que, para além do desenvolvimento da agricultura do sector familiar, preconizava o desenvolvimento rural e a instalação de vilas agrícolas no país.

No estudo científico, o arquitecto brasileiro propõe uma nova abordagem de ordenamento territorial e urbanização das zonas rurais, respeitando os hábitos e costumes locais, bem como a cultura local e os materiais usados localmente para a construção de edifícios públicos e habitações, como é o caso dos tijolos de barro queimado.

O projecto tem em conta ainda a principal actividade económica da comunidade de Nauela, que é a agricultura, daí que propõe a construção, dentro do ordenamento, de infra-estruturas que possibilitem a formação e capacitação dos agricultores do sector familiar para melhorarem a sua capacidade de produção, mas também de condições para que eles possam armazenar a sua produção para melhor conservação, processamento e a respectiva comercialização.

A iniciativa inclui, igualmente, a construção de infra-estruturas sociais como centros de saúde, escolas primárias do primeiro e segundo graus, esquadras da polícia entre outros edifícios que apoiam o pleno exercício da cidadania como explicou o arquitecto à nossa equipa de reportagem.

Outra grande vantagem do seu estudo é que irá promover a permanência da população nas suas zonas de origem, evitando o êxodo rural, uma vez que o planeamento vai conferir mais dignidade e potenciar as actividades que eles já desenvolvem localmente.

O estudo estima que a ser implementado o projecto não requer valores monetários avultados, uma vez que custa cerca de 140 dólares por pessoa, o que significa que, na comunidade de Nauela, que conta com pouco mais de 107 mil habitantes, o Estado poderia gastar aproximadamente 15 milhões de dólares norte-americanos para modernizar as condições em que a comunidade vive, e este investimento pode ser realizado de forma faseada. Aliás as próprias casas podem ser construídas pela comunidade de forma evolutiva.

O estudo realizado por Sidney Quintela pode ser implementado em todo o país a uma escala mínima de duas localidades por província, observando as características culturais e antropológicas de cada uma delas para que as próprias comunidades possam se apropriar do projecto e fazerem parte dela tal como aconteceu em Nauela.

E para que o projecto possa sair do papel para realidade, o arquitecto recomenda o envolvimento das autoridades governamentais, as organizações da Sociedade Civil e as próprias comunidades porque o mesmo faz valer as premissas do modelo de desenvolvimento sustentável, porque tem em conta os requisitos de sustentabilidade ambiental, social e económica, para além da sustentabilidade étnica por envolver as questões étnicas e culturais das comunidades envolvidas.

O estudo foi desenvolvido nos últimos três anos e Sidney Quintela diz ser significante para si porque é sobre um povo pelo qual nutre uma especial simpatia desde que pela primeira vez conheceu há quase 13 anos, quando foi convidado a visitar Moçambique pelo PCA do Grupo Soico, Daniel David. Desde lá, tem sido um visitante frequente do país. E por isso espera ver um dia o seu estudo a ser implementado e a contribuir para melhorar as condições de vida dos moçambicanos e influenciar mudanças nas zonas rurais, não só de Moçambique, como nos países da Região Austral de África.

Ressaltar que a iniciativa vai ao encontro das intenções do Governo moçambicano de – através do projecto Sustenta, que está a ser implementado em todo o país com o objectivo de melhor integrar os produtores do sector familiar nas cadeias de valor agrícola e criar vilas agrícolas pelo país – promover o desenvolvimento rural.

O arquitecto brasileiro, Sidney Quintela, entregou, hoje, ao Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, um estudo por ele realizado na aldeia de Nauela, no distrito de Alto Molócuè, na província da Zambézia, e que foi tese de mestrado na Universidade de Lisboa e que lhe valeu uma excelente classificação final. O estudo teve como base a fase piloto do projecto Sustenta, que, para além do desenvolvimento da agricultura do sector familiar, preconizava o desenvolvimento rural e a instalação de vilas agrícolas no país.

No estudo científico, o arquitecto brasileiro propõe uma nova abordagem de ordenamento territorial e urbanização das zonas rurais, respeitando os hábitos e costumes locais, bem como a cultura local e os materiais usados localmente para a construção de edifícios públicos e habitações, como é o caso dos tijolos de barro queimado.

O projecto tem em conta ainda a principal actividade económica da comunidade de Nauela, que é a agricultura, daí que propõe a construção, dentro do ordenamento, de infra-estruturas que possibilitem a formação e capacitação dos agricultores do sector familiar para melhorarem a sua capacidade de produção, mas também de condições para que eles possam armazenar a sua produção para melhor conservação, processamento e a respectiva comercialização.

A iniciativa inclui, igualmente, a construção de infra-estruturas sociais como centros de saúde, escolas primárias do primeiro e segundo graus, esquadras da polícia entre outros edifícios que apoiam o pleno exercício da cidadania como explicou o arquitecto à nossa equipa de reportagem.

Outra grande vantagem do seu estudo é que irá promover a permanência da população nas suas zonas de origem, evitando o êxodo rural, uma vez que o planeamento vai conferir mais dignidade e potenciar as actividades que eles já desenvolvem localmente.

O estudo estima que a ser implementado o projecto não requer valores monetários avultados, uma vez que custa cerca de 140 dólares por pessoa, o que significa que, na comunidade de Nauela, que conta com pouco mais de 107 mil habitantes, o Estado poderia gastar aproximadamente 15 milhões de dólares norte-americanos para modernizar as condições em que a comunidade vive, e este investimento pode ser realizado de forma faseada. Aliás as próprias casas podem ser construídas pela comunidade de forma evolutiva.

O estudo realizado por Sidney Quintela pode ser implementado em todo o país a uma escala mínima de duas localidades por província, observando as características culturais e antropológicas de cada uma delas para que as próprias comunidades possam se apropriar do projecto e fazerem parte dela tal como aconteceu em Nauela.

E para que o projecto possa sair do papel para realidade, o arquitecto recomenda o envolvimento das autoridades governamentais, as organizações da Sociedade Civil e as próprias comunidades porque o mesmo faz valer as premissas do modelo de desenvolvimento sustentável, porque tem em conta os requisitos de sustentabilidade ambiental, social e económica, para além da sustentabilidade étnica por envolver as questões étnicas e culturais das comunidades envolvidas.

O estudo foi desenvolvido nos últimos três anos e Sidney Quintela diz ser significante para si porque é sobre um povo pelo qual nutre uma especial simpatia desde que pela primeira vez conheceu há quase 13 anos, quando foi convidado a visitar Moçambique pelo PCA do Grupo Soico, Daniel David. Desde lá, tem sido um visitante frequente do país. E por isso espera ver um dia o seu estudo a ser implementado e a contribuir para melhorar as condições de vida dos moçambicanos e influenciar mudanças nas zonas rurais, não só de Moçambique, como nos países da Região Austral de África.

Ressaltar que a iniciativa vai ao encontro das intenções do Governo moçambicano de – através do projecto Sustenta, que está a ser implementado em todo o país com o objectivo de melhor integrar os produtores do sector familiar nas cadeias de valor agrícola e criar vilas agrícolas pelo país – promover o desenvolvimento rural.

O acesso à terra continua um grande desafio em Moçambique, em particular para as mulheres que vivem nas zonas rurais. Sem este recurso, a participação feminina no agronegócio é ínfima.

É diante desta situação que as oradoras da segunda edição da MOZGROW debateram o empoderamento da mulher no agronegócio, tendo sido unânimes em apontar o acesso ao financiamento e falta de combinação das políticas de terra à educação, como os principais entraves para a sua maior participação.

Intervindo no debate a quatro, Florinda Isaías, do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais, entende que a nova política de terra, recentemente aprovada pelo Governo, pode mudar o paradigma.

“Neste momento, fala-se da auscultação para a revisão da política de terra, e uma das orientações do Presidente da República é que seja considerada a inclusão da mulher no espaço agrário. Ela (mulher) contribui com cerca de 24% do rendimento do país, pelo que é importante que ela seja empoderada para que contribua ainda mais”, defendeu Florinda Isaías.

A representante do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais indicou ainda que, há uma “cadeia de barreiras” que limitam o crescimento da mulher, em parte, devido o acesso à informação aos mecanismos de desenvolvimento.

“A mulher nem sabe como chegar aos bancos, as taxas aplicadas…ainda existe um trabalho muito grande no sentido de empoderar as mulheres”, realçou Florinda Isaías.

Para a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique (FEMME), Célia Ribeiro, há um baixo nível de literacia, pelo que é preciso contornar os tabus e dar poder de decisão às mulheres.

“É preciso passar muito conhecimento e informação para as zonas rurais, de modo a que as mulheres consigam ter a força de vontade. Elas têm vontade de abraçar as associações, mas porque a predominância é masculina nas zonas rurais, elas não conseguem progredir”, apontou a presidente da FEMME.

De acordo com Célia Ribeiro, “o factor indutor é a solidariedade”, uma vez que para atingir o sucesso é preciso alianças.

“Todos dias entramos numa guerra económica e queremos ter a nossa participação. Queremos que sintam que nós também temos o direito, temos que gastar muita energia para que nos oiçam”, referiu a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique.

Já Flaida Macheze, da União Nacional de Camponeses, indicou que a mulher é sempre relegada ao segundo plano, principalmente, no que toca ao acesso à terra.

“No campo, aquele que é o verdadeiro meio rural em Moçambique, a mulher não tem título (Direito de Uso e Aproveitamento de Terra, DUAT). Quem tem o título é o homem. A informação não chega ao meio rural, a mulher não conhece os seus direitos contemplados nas políticas e leis que temos em Moçambique. Há mulheres com posse, mas são ínfimas. Pelas práticas costumeiras, o próprio líder comunitário acredita que quem deve ter o DUAT é apenas o homem”, indicou.

De acordo ainda com a representante da União Nacional de Camponeses, “o cooperativismo está a falhar em Moçambique”, pois, falta articulação entre o produtor e comerciante.

Por sua vez, a intervenção de Margarida Lemos, uma produtora de hortícolas no distrito da Moamba, na província de Maputo, focou-se nas barreiras e altas taxas de juro nos bancos comerciais.

Margarida Lemos contou que há 12 anos, recorreu a um empréstimo bancário, mas foi preciso “coragem” para não desistir e honrar com as obrigações (reembolso do crédito).

A produtora defendeu a necessidade das instituições de crédito capacitarem as mulheres em matérias de gestão para melhor saberem articular os reembolsos dos empréstimos contraídos junta da banca.

“Nós não chegamos ao financiamento porque não conseguimos redigir um papel como deve ser (cupão de empréstimo, por exemplo). Nós não essa orientação de como fazer um cálculo para termos um cash-flow (fluxo de caixa), perceber as condições do mercado para avaliar se dá ou não suportar um empréstimo”, apontou Margarida Lemos.

Segundo as estatísticas oficiais, as mulheres constituem o maior número nas zonas rurais, cerca de 70%. Contudo, o seu envolvimento no agronegócio é ainda muito fraco.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) entende que Moçambique deve potenciar a agricultura familiar, de modo a garantir a segurança alimentar. A agência da ONU acredita que o país tem um potencial promissor.

Hernani Coelho da Silva, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura em Moçambique, FAO, na sigla inglesa, fez parte de um dos painéis da MOZGROW, onde expressou a relevância da agricultura alimentar.

“A agricultura familiar é uma componente importante no contexto global da produção alimentar. Por exemplo, os dados mostram que a agricultura familiar em si contribui em mais de 50% para a disponibilidade que temos a nível global”, explicou o representante da FAO, apontando outro aspecto relevante deste modelo de prática de agricultura:
“Constitui também um factor muito determinante no que toca à situação socioeconómica, cultural e, também, da dinamização da cultura onde estão inseridos”, disse, tendo assinalado da atenção que o modelo precisa.

De acordo com dados oficiais, Moçambique tem mais de 70% da população que pratica este tipo de agricultura, mas os agregados enfrentam problemas que têm a ver com questões do acesso a sementes melhoradas, insumos e meios financeiros para a modernização das actividades que são tradicionais.

Entretanto, para além da potenciação aos pequenos agricultores, o representante da FAO cita a investigação científica como outro aspecto que deve ser aprimorado.

“Nós temos por volta de 10 zonas agro-ecológicas. Significa que em cada zona há sua característica. Agora, precisamos saber qual é a zona mais apropriada para cada actividade. É daí que não só os pequenos agricultores, mas também as instituições de investigação tornam-se envolvidas”, afirmou.

Para Silva, em meio ao imbróglio que afecta muitos países não desenvolvidos, que diz respeito à existência de produção sem a existência de mercado, nos pequenos agricultores, dois elementos podem contribuir. O especialista refere, como primeiro elemento, a organização dos agricultores.

“Um agricultor pequeno, com um hectar, produzindo menos de uma tonelada, não vai ter essa capacidade de ele próprio levar a mercadoria e vender. Então, precisa de um sistema no qual pode estar agregado e ter um bom rendimento”, explanou.

O segundo elemento seria a parceria. “Ela tem que ver com os modelos de integração já praticados em diversas partes do mundo. A parceira ou entre eles e as empresas, ou entre eles e o Estado”, ilustrou da Silva.

“Um dos problemas que nós enfrentamos em todos países que partilham mesmas características, são essas situações em que o pequeno agricultor não tem essa capacidade, quer em termos técnicos, quer em financeiros, para poder rentabilizar a sua exploração”, lamentou, apontando que os impactos têm sido as perdas excessivas na própria colheita, processamento, armazenamento, para não falar sobre a parte de cadeia de valor da sua segmentação toda a partir do produtor até ao mercado”.

Hernani da Silva da FAO Moçambique falava no painel “Agricultura Familiar e os Desafios da Segurança Alimentar”. A edição na qual participou o representante da agência da ONU foi veiculada na noite de ontem, na STV Notícias.

José Graziano da Silva, antigo director-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defende uma articulação conjugada entre o Governo, sociedade civil e sector privado no combate à fome. O agrónomo entende ainda que o problema da fome no mundo não é causado pela “alta de alimentos”, mas sim “pela falta de dinheiro”.

 

Brasileiro, agrónomo de profissão, homem que já ocupou a direcção máxima da FAO (na sigla inglesa), José Graziano da Silva considera que para a efectivação do propósito “fome zero”, almejado por estados como Moçambique, um elemento é eficaz: “uma forte coordenação”.

“As políticas de segurança alimentar e nutricional são feitas tanto no nível central, como no nível municipal. E se elas não estiverem ajustadas, coordenadas e integradas, elas falham”, alerta José Graziano da Silva.

Nesse sentido, o especialista considera que “não é o governo que acaba com a fome, mas a sociedade”, pois, na sua óptica, “para acabar com a fome há muita coisa que a sociedade e o sector privado podem fazer”.

Ainda na sua perspectiva, o problema da fome no mundo não se deve à falta de alimentos. “Excepto nos países onde atravessam a guerra ou vivem em contexto de calamidades”, sustenta.

“Hoje no mundo sobram alimentos. Nós desperdiçamos muita produção. Perdemos muito do que produzimos”, diz o guru da FAO, assinalando que “o que falta é dinheiro para comprar os alimentos. As pessoas não têm acesso aos alimentos”.

Entretanto, para tornar os alimentos disponíveis aos que necessitam, da Silva diz ser necessário que sejam observados dois aspectos:

“Primeiro, uma articulação entre todos os sectores da sociedade, sector privado, sociedade civil e o Governo”, diz o homem da agronomia.

“Segundo, é pensar que o problema não é só produzir alimentos, o problema é pensar como fazer isso chegar na mesa, principalmente das populações mais pobres”, conclui.

Para além de director-geral da FAO, José Graziano da Silva foi ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome no Brasil. Ontem, o ex-dirigente fez parte de um dos painéis da MOZGROW que debateu o tema “Agricultura Familiar e os Desafios da Segurança Alimentar e Nutricional”.

O painelista debruçou-se em torno de elementos como a necessidade de o país adaptar-se diante das catástrofes cíclicas, bem como sobre o lanche escolar que acredita ser elementar na assimilação de conteúdos.

José Graziano da Silva, que falava através de uma plataforma virtual, congratulou Moçambique por optar pela criação do Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN), um órgão do Estado.

A Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique e o Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária consideram que é preciso investir-se na rentabilidade da agro-pecuária com investigação e financiamento à inovação.

O Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) tem uma missão bem definida. De acordo com a Directora-Geral daquela instituição, Olga Fafetine, essa missão passa por gerar conhecimento e oportunidades para o agronegócio. Com isso, assegurou a dirigente, o que se pretende é garantir que a rentabilidade da agricultura nacional seja aumentada e que os riscos que estão associados à mesma actividade sejam reduzidos, sobretudo os associados à agricultura do sector familiar.

Enquanto se luta por alcançar a tão almejada rentabilidade, Olga Fafetine explicou que o sector agrícola, no país, enfrenta uma série de entraves: “os entraves que têm dificultado o  desenvolvimento do agronegócio em Moçambique são bem conhecidos. Os mesmos estao relacionados com o acesso limitado aos insumos, as sementes, aos defensivos agrícolas, aos fertilizantes e a algum conhecimento das práticas do maneio agrícola recomendáveis internacionalmente”.

Olga Fafetine explicou ainda que Moçambique está a investir, no sector da pecuária, em melhor o material genético, de modo que as produções sejam de boa qualidade e que cheguem de forma segura aos consumidores. Nesse processo, há um trabalho intenso que está sendo feito no país, relacionado com diagnósticos de doenças e com a prevenção de doenças dos animais, com recurso a vacinas.

A Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique disse, neste terceiro dia da MOZGROW, que um dos factores relevantes para o sucesso do agronegócio tem que ver com a capacidade de exploração dos produtos florestais, mas sem degradar o ambiente e a biodiversidade. Do mesmo jeito, os ensaios são igualmente indispensáveis: “o nosso papel é fazer ensaios experimentais até descobrir variadas qualidades [de sementes ou amostras] com melhores atributos em relação aos que já existem”. A ambição do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique é conseguir adquiri qualidades de produtos agropecuários tolerantes às doenças ou a altas temperaturas. “No caso do milho, já temos algumas variedades no mercado que estão a ser muito requisitadas”.

De acordo com a Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique, o negócio da semente é um bom negócio e as empresas deviam investir mais nisso. Essa variadas, quando comprovadas a qualidade, depois, são multiplicadas e conseguem garantir boas receitas aos produtores e ao Estado.

Uma das acções desempenhadas pelo Instituto de Investigação Agrária de Moçambique foi a introdução de variedades que foram tropicalizadas, o que permitiu que agricultores passassem a produzir hortícolas em todo o ano. Nada disso teria acontecido sem investigação ou sem tentativas de melhoramento das sementes ou dos insumos, segundo assegurou Olga Fafetine.

No campo da pesquisa, um dos grandes problemas tem que ver com dinheiro. Sendo uma área exigente, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique tem trabalhado com iniciativas público-privadas para conseguir financiamento à investigação e à aquisição de tecnologias necessárias para o desenvolvimento do sector. O que se pretende é impulsionar o crescimento de camponeses e empresas privadas. Para o efeito, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique disponibiliza informação e serviços, às vezes gratuitamente.

A participar no debate subordinado ao tema “Investigação e pesquisa como catalisadores da transformação no agronegócio” esteve virtualmente o Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), quem partilhou experiências. De acordo com Celso Moretti, a sua instituição tem o papel de apoiar o desenvolvimento sustentável e competitivo das cadeias produtivas de todas as agriculturas, pequena, média e grande. EMBRAPA tem 47 anos no Brasil. Na altura, quando foi fundada, o Brasil importava tudo, alimentos, carne e estava numa situação de insegurança alimentar, sem tecnologias. Foi com a chegada da EMBRAPA que transformaram a realidade agrícola. “Nós transformamos a realidade da agricultura brasileira. O Brasil, em menos de cinco décadas, saiu de um importador para se transformar num dos maiores exportadores de alimentos, fibras e bioenergia. Isso nós fizemos graças a um forte investimento em investigação, pesquisa, desenvolvimento e inovação”.

Segundo lembra Celso Moretti, houve compreensão do Estado brasileiro que era capital que o país desenvolvesse a sua agricultura e o seu agronegócio e que se investisse muito em ciência, tecnologia e inovação. Por isso, nos cinco primeiros anos foram enviados para fora mais de mil pesquisadores. “Eles foram aprender o que havia de mais inovador e trouxeram conhecimentos para desenvolver a agricultura brasileira. Houve muitos investimentos de peso, em recursos humanos e infra-estruturas”.

A cada ano, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária busca apoio do sector privado, recursos por meio de parcerias e contratos. Mas a maior parte do financiamento vem do Estado federal.

Olga Fafetine disse que o IIAM está a estabelecer contactos com a EMBRAPA. Por exemplo, o centro de excelência de algodão que está sendo estabelecido no país tem apoio dos brasileiros. Moçambique tem vários estudantes que se vão formar no Brasil e estagiam na EMBRAPA. “Estamos a tentar contactos com eles para trazer projectos de arroz, com especialistas para o nossos centros. Não temos nada de concreto mas estamos a discutir sobre o apoio ao arroz e a feijões. O centro de Namacurra está a começar a sua operacionalização com alocação de quadros e pensamos inaugurar ou este ano ou próximo, com um centro de referência na pesquisa, importante para Moçambique e para a região”.

Produzir por contratos, conhecer a estrutura de custos dos produtos e investir em armazéns de conservação é essencial para tornar o agro-negócio sustentável. O debate sobre Mercados e Estabilização dos Preços de Produtos, na MOZGROW, aprofundou essas ideias

O agro-negócio é nulo sem a definição do preço e do mercado dos produtos. No entender de Mahomed Valá, director-geral do Instituto de Cereais de Moçambique (ICM), os produtores devem ter ambições económicas e financeiras para saber qual é o seu mercado e que preços praticar.

“O produto moçambicano deve ser agregado valor. Se nós continuarmos sem esta evolução, sem esta transformação, isso nos remete a abaixo de 45 anos, antes da independência, que Moçambique era um mero produtor de matéria-prima para a indústria no mundo, na Inglaterra, caso do chá e de muitos outros produtos”, considera o director-geral do Instituto de Cereais de Moçambique.

Tal fórmula funciona bem quando o produtor sabe a quem vai vender e que quantidades vai vender.

“Um produtor de tabaco não sofre em Tsangano, Marávia, Mandimba, não sofre porque ele já fez um contrato com a Mozambique Leaf Tobacco, produziu tanto, a qualidade tem que ser esta e eu compro a tal preço. Tem que ser este o caminho de Moçambique, já começamos, mas temos que aumentar a escala”, defende Mahomed Valá, referindo-se à produção por contrato.

E para definir um preço competitivo dos produtos é preciso saber quanto custou para produzir, segundo explica Tatiana Mata, directora-geral da Muthiana Investimentos, uma empresa que disponibiliza insumos aos agricultores e facilita o seu acesso aos mercados.

“O produtor tem de começar a saber a sua estrutura de custos e é aí onde começam as dificuldades porque os produtores muitas vezes não têm essa capacidade de se questionar, quanto é que custa semente, quanto é que custa a água para poder irrigar os campos e o tempo que ele e a família dedicam, tudo isso tem de ser calculado para determinar o preço”, explica Tatiana Mata.

Contudo, é fundamental que os agricultores, a todos os níveis, tenham informações sobre o mercado para saber diferenciar os produtos com ou sem determinada qualidade.

Árabe Jonange é secretário da Associação da Feira Ntindo de Mandimba, uma organização que criou este armazém no distrito de Mandimba, na província do Niassa. Compra produtos dos agricultores, conserva neste local e depois vende para Nampula e o vizinho Malawi.

Trata-se de uma experiência, que segundo o secretário, reverteu a tendência de venda de produtos ao Malawi a preços longe de serem competitivos. É que com a falta de locais para conservar os produtos, os produtores, por medo de perder os seus produtos por deterioração, optavam por ir vender naquele país a preços baixos.

Árabe Jonange, Tatiana Mata e Mahomed Valá foram os intervenientes do debate sobre Mercados e Estabilização dos Preços de Produtos esta quarta-feira na plataforma MOZGROW.

 

Moçambique dispõe de políticas públicas para promoção das marcas nacionais, mas a internacionalização ainda é um desafio, num mercado global cada vez mais exigente no que toca a inovação e qualidade dos produtos colocadas à venda.

É neste contexto da globalização, que a directora de Marketing da Delta Cafés, Sandra Veludo, partilhou a experiência desta marca portuguesa rumo a internacionalização, tendo destacado as valências do mercado moçambicano.

A especialista, que participava via plataforma digital num dos painéis da segunda edição da MOZGROW, a partir de Portugal, disse que o mercado moçambicano é “acolhedor” e dispõe de produtos de qualidade.

“Por se tratar de uma marca global, a Delta Cafés teve que se adaptar a realidade local, mas sem desvirtuar a essência da marca”, apontou Sandra Veludo.

Já o director-geral da Good Trade, Diogo Lucas, indicou que os produtores moçambicanos devem estar atentos à dinâmica do mercado global, pois há qualidade nos produtos nacionais, mas falta uma aposta forte na promoção das marcas.

“É preciso apostar mais na publicidade para despertar o interesse nas nossas marcas. Trabalhar para que as nossas marcas tenham mais visibilidade e consistência”, argumentou Diogo Lucas.

Com as tendências do mercado a colocarem a marca como o elo de ligação entre o produtor e o cliente, Emídio Rafael, representante do Instituto de Propriedade Industrial indicou que a instituição está a abraçar uma série de iniciativas inovadoras. O cabrito de Tete é um dos exemplos no que toca a promoção de marca local.

“Neste momento, o cabrito de Tete é uma indicação geográfica…a primeira moçambicana já registada (no Instituto de Propriedade Industrial). O que nós fizemos foi trabalhar com os próprios criadores de cabrito e todos intervenientes da cadeia de produção para estabelecer uma associação. Desenvolvemos com a própria associação, um caderno de especificações do produto”, explicou o representante do Instituto de Propriedade Industrial.

O referido caderno das especificações indica as condições de pastagem do cabrito, suplemento, transporte para o matadouro, processamento e embalagem. No próximo mês (Novembro), o Instituto de Propriedade Industrial vai proceder com o lançamento do teste comercial do cabrito de Tete.

Entretanto, a promoção das marcas nacionais estende-se para outros produtos e regiões, segundo deu a conhecer Emídio Rafael.

O Instituto de Propriedade Industrial está igualmente, a trabalhar no arroz produzido na Zambézia, café de Gorongosa, Ibo e Niassa.

“É uma pluralidade de produtos nacionais com grande potencialidade de conquistar o mercado nacional e internacional. No entanto, é preciso que os produtores entendam que o uso da propriedade industrial para agregar valores a esses produtos é fundamental”, anotou Emídio Rafael.

O trio dos oradores da segunda edição da MOZGROW debateram ainda, o uso de agrotóxicos na agricultura, numa altura em que o mundo recua desta prática por questões climáticas.

Estima-se, que em Moçambique, apenas 5% dos agricultores recorrem a diversos químicos no processo de produção agrícola, como forma de aumentar os níveis de produtividade.

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