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A educação alimentar e nutricional é fundamental para que os moçambicanos aproveitem o máximo os alimentos que estão ao seu dispor, defenderam hoje especialistas na MOZGROW. A conservação dos alimentos é outro elemento fundamental para que haja saúde entre os consumidores.

No debate sobre alimentos seguros e segurança alimentar, nesta sexta-feira, a oficial de programas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Luísa Patrocínio, defendeu que não basta garantir a produção e produtividade dos alimento, é necessário intensificar a educação alimentar e nutricional para que os camponeses aproveitem o máximo daquilo que produzem.

“Nós, por exemplo, vemos que um pequeno camponês tem galinhas, mas os ovos não são comidos por aqueles que mais precisam. Por exemplo, as crianças e as mulheres gravidas. Por questões culturais, os ovos são dados aos homens, aos chefes da família. São estas questões que estão a ser trazidas para se melhorar o uso dos alimentos”, disse a oficial de programas da FAO.

Por sua vez, o agrónomo Khalid Cassam entende que para a produção agrícola global ser sustentável é preciso não só formar o agricultor mas também, criar condições para que ele tenha dinheiro para fazer face aos efeitos negativos das calamidades naturais.

“Como manter a sustentabilidade? É fundamental que um agricultor tenha mais conhecimento e tenha mais capacidade financeira para poder fazer face às diferentes intempéries e diferentes condições que temos na produção agrícola”, defendeu o agrónomo.

Já Mário Mujovo, oficial da Promoção de Segurança Alimentar e Nutricional, SETSAN, entende que a falta de água é um elemento a ter em conta quando se fala do melhor aproveitamento dos alimentos.

“Temos a outra face que é o problema de saneamento do meio, com os problemas da falta de água, então esses problemas entram em cadeia nessa fase da desnutrição crónica”, referiu o oficial da Promoção de Segurança Alimentar e Nutricional, SETSAN.

Através de uma plataforma digital, Ana Paula Thuzine, chefe do departamento de saúde ambiental na Direcção Nacional de Saúde Publica, reforçou a ideia da necessidade de se ter alimentos saudáveis, afirmando que é importante que estes sejam bem conservados em toda a cadeia de valor.

“As praticas que preservem a qualidade dos alimentos é que vão contribuir para que tenhamos uma alimentação segura, isto é, alimentos nutritivos e seguros que não possam causar algum problema de saúde ou agravar o estado da saúde das pessoas”, defendeu a representante da Direcção Nacional de Saúde Pública.

A ministra do Mar, Águas Interiores e Pescas concedeu uma entrevista à plataforma MOZGROW sobre o tema “Pesca sustentável”. Augusta Maíta falou dos desafios na área da pesca artesanal – a que mais contribui na produção global – fez menção à discordância entre alguns dados estatísticos no sector. A governante afirmou que a perspectiva é crescer como sector de produção e ser relevante, sem comprometer a sustentabilidade dos recursos pesqueiros. Todavia, há que admitir que prevalecem desafios “muito grandes”.

A pesca no país é uma actividade secular. Garante a segurança alimentar e nutricional de várias famílias. O sector contribui apenas com cerca de 3% para o Produto Interno Bruto. Até aonde pode crescer a contribuição da pesca no país, com uma contribuição sustentável?

Esta contribuição de 3% de facto também não nos faz justiça. É preciso lembra que este é um sector tradicional e o Ministério do Mar, Águas interiores e Pescas tal como ele existe hoje tem essas duas componentes, uma que é do mar e águas interiores e outra que é das pescas. A componente das pescas já é tradicional: estamos a falar de um sector que já teve uma contribuição no passado de cerca de 30% no PIB mas, por varias razões, o desenvolvimento natural de outros sectores levou a nós acabássemos por ficar com este número quase insignificante, mas que tem um grande potencial para voltar a reclamar o seu espaço dentro daquilo que é um processo produtivo nacional. É preciso lembrar que esta contribuição está influenciada por aquilo que tem sido o fraco aproveitamento integral da cadeia de valor da própria produção pesqueira. Nós como sector estamos a dizer que daquilo que é feito, 90% da produção global vem da produção da pesca artesanal. Mas se formos a olhar a fundo essa produção da pesca artesanal, havemos de ver que temos níveis muito altos de perdas pós captura. Também temos boa parte da informação estatística que não é trazida para o sistema formal e, por outro lado, temos, infelizmente, pelo facto de termos esta longa costa, dificuldade de fazer uma monitoria mais efectiva de tudo que é do mar.

Disse que 90% da produção global vem da pesca artesanal, uma pesca cuja produção não é industrial, não é comercial nos níveis que se deseja para a exportação e garantir maior oferta no mercado. Qual é a visão do Governo para este segmento que actua na pesca de pequena escala ou, concretamente, a pesca artesanal que corresponde aos 90%?

Eu já respondo à sua questão. Eu estava a fazer um enquadramento para explicar por que é que, apesar de termos esta dimensão muito grande de pesca artesanal, temos uma contribuição ainda um pouco não satisfatória do ponto de vista das contribuições para o Produto Interno Bruto. Nós, do ponto de vista por exemplo de exportação, estamos a dizer que cerca de 95% da produção – e como para o sector da pesca e artesanal – ela é basicamente para o mercado interno. Nos últimos tempos tem estado a ganhar também terreno parte dessa produção que é feita a nível do subsector da pesca artesanal e está a ser absorvida pelas salas de processamento. Nós estamos a dizer que não são todos que têm licença e capacidade para se fazer ao mar mas podem, quando os pescadores artesanais estiverem devidamente licenciados e autorizados para fazer as suas pescas. Eles podem adquirir produtos que saem da pesca artesanal e fazer o processamento. A partir desse processamento permitir que tenham acesso a produtos de exportação. Ainda assim, nós pensamos que é um nível muito pequeno. Em termos de visão, nós como Governo estamos conscientes desse potencial enorme que existe na pesca artesanal, mas também temos consciência de que é daí onde vem o nosso maior desafio. Por causa disso, mesmo dentro da lógica do pescador para uma pesca sustentável como é o título do tópico do MOZGROW [pesca sustentável], dentro dessa logica aquilo que estamos a fazer como sector é primeiro assegurarmos que nós organizamos e estruturamos este sector de pesca artesanal. Isso significa em primeiro lugar assegurar que quase todos os intervenientes da pesca artesanal estejam devidamente licenciados e cadastrados para permitir um maior controlo das actividades que estão a desenvolver. Este é um sector que acaba por desenvolver a sua actividade um pouco por toda a extensão do nosso país ao longo desses 2.700 km de costa. O que estamos a dizer é que é muito difícil fazer o controlo deste subsector nestes moldes [a extensão é maior]. Do ponto de vista da visão prevista para este quinquénio, há que também desenvolver infra-estruturas de apoio à pesca, sobretudo do apoio ao subsector da pesca artesanal.

As infra-estruturas são para garantir a integração na cadeia de valores?

Exactamente. É para garantir a integração na cadeia de valores, mas também, sobretudo, para garantir que esse pescado tenha uma maior qualidade e, também, seja possível de aferir, efectivamente, a quantidade real, porque este é outro grande desafio que nós temos como sector. Em algum momento, temos algum tipo de estatística que é dissonante entre si.

Qual é o potencial nacional em termos de recursos pesqueiros?

Bem, é preciso entender que nós quando falamos de recursos pesqueiros dividimos naquilo que são os que provêm das águas marítimas e das águas interiores. Nós estamos a dizer que no global o país tem um potencial avaliado em cerca de pouco mais de 400.000 toneladas. Essa é a estimativa até ao momento com base nos dados dos cruzeiros de investigação que temos estado a fazer.

Em que medidas exploramos esse potencial?   

Neste momento estamos numa exploração óptima. Estamos praticamente acima do potencial que temos explorado e isso também é uma questão que nos preocupa, mesmo do ponto de vista de estatísticas do sector, porque aquilo que é perspetiva é continuar a crescer como sector de produção e ser relevante mas sem comprometer a sustentabilidade dos recursos. Portanto, a nossa preocupação é continuar a trabalhar junto deste grande subsector de onde vem a maior parte de informação estatística daquilo que está a acontecer, para aferir se estamos no caminho certo, do ponto de vista de técnicas de amostragem e para aferir a quantidade efectiva dos produtos que estamos a tirar [do mar]. Segundo, igualmente para termos, efectivamente, a certeza de que esse pescado que está a sair [do mar] está a ir para o consumo, para as salas de processamento e termos uma ideia concreta de quais são as quantidades efectivas que estamos a dizer que acabam de ser absorvidas pelos consumidores no geral, mas também por aqueles que podem, eventualmente, depois fazer a comercialização.

E essa exploração óptima é assim em termos qualitativos ou em termos quantitativos. Qualitativo refiro-me à pesca sustentável?

Bem, se nós estamos a falar por vota de 400.000 toneladas e como sector a tendência tem sido de crescimento, estamos um pouco acima das 400.000 toneladas em termos de projeção. Então, claramente nós temos um problema aí, que tem a ver com a questão de sustentabilidade desses mesmos recursos. Mas como lhe disse, nós temos essa consciência de que precisamos de continuar a trabalhar ao nível das nossas estatísticas para aferir as duas componentes: primeiro precisamos de dotar o nosso instituto de investigação pesqueira de meios e capacidade efectiva para ter acesso àqueles recursos que estão nos mares que nós ainda não tivemos acesso. E quando falamos de potencial de cerca de 400.000 toneladas, nós referimo-nos aos recursos que estão a mais ou menos a cerca de 500 metros quadrados de profundidade. Mas nós sabemos que temos produtos que estão para além dessa profundidade e não temos ainda a capacidade de aferir qual é o potencial efectivo que existe. Isso quer dizer que com melhores condições do ponto de vista de investigação deste manancial podemos ter um pouco mais ou um pouco menos – mas também não há dúvidas de que a nível global do lado da pesca marítima a situação tem estado a atingir um nível de estabilidade. Não é suposto continuarmos a crescer num ritmo aceleirado do ponto de vista de produção, enquanto quando temos cada vez maior pressão do ponto de vista de crescimento da população e de varias outras utilizações. Por exemplo, as que estão a demandar os mares e depois põe-se em causa a própria sobrevivência dos ecossistemas, em princípios depois são responsáveis por continuar a produzir esse pescado. Por causa disso mesmo, nós como sector temos um série de medidas de gestão para precisamente assegurar que mesmo que não seja para acabar [com o problema], pelo menos asseguremos uma estabilidade do ponto de vista de exploração desses recursos.

Há um dado que sugere alguma contradição e pedia que explicasse um pouco mais: tem a ver com facto de estarmos a explorar a capacidade total praticamente em termos de potencial. Outro problema é do lado a contribuição para o PIB, é diminuta comparativamente aos dados do passado, como muito bem referenciou que já chegámos a contribuir com cerca de 30%, mas baixou a nível nacional. Quais são os factores que determinam essa discrepância?

Fazer essa relação directa com o PIB pode não nos trazer uma fotografia mais real, porque é só ver: nós estamos a falar da década em que estivemos a fazer esta contribuição e quais eram os outros produtos de exportação que na altura tinham o mesmo peso que tinha a pesca. Nós estamos a dizer que o camarão de Moçambique, por exemplo, foi sempre uma das grandes bandeiras que o país sempre teve a nível internacional, do ponto de vista de exploração. Mesmo estando a contribuir com esse número que nós consideramos reduzido, o camarão de Moçambique tem um grande valor comercial a nível global. Nós temos um problema de quantidade, mais não é um problema de qualidade. Portanto, se nós continuarmos a imprimir aquilo que são as medidas de gestão que estamos a adoptar, se nós continuarmos a trabalhar junto com a indústria para que a adição de valores se faça em terra, nós podemos também melhorar a nossa capacidade de eventualmente haver aquilo que diz respeito as exportações e que deveria reflectir na nossa balança. Agora, o grande desafio que nós estamos a colocar é que daqui a pouco já temos alguma contribuição, ainda que não seja muito significativa: a industria extractiva daqui a pouco vai saltar, temos a contribuição do sector da agricultura e vários outros sectores de transportes e comunicações e outros que estão a crescer. O nosso posicionamento no PIB também tem muito a ver com a dinâmica dos outros sectores.

E olhando para aquilo que é o conhecimento que existe sobre o potencial pesqueiro, como é que esse mesmo conhecimento é usado para a definição de cotas de licenciamento, por região considerando a potencial de cada região?

Essa é uma pergunta muito importante porque faz parte daquilo que nós consideramos central, daquilo que são as medidas de gestão das pescarias a nível do Governo, aquilo que nós fazemos é anualmente e esse é um exercício que já está a ocorrer. Já temos essa informação e anualmente aquilo que se faz é a avaliação constante dos stocks das varias pescarias que nós temos. Com base nessa informação, que vai sendo acumulada trimestralmente, deveríamos ter determinado quais são as quantidades de produtos pesqueiros que estão disponível para a pesca na campanha seguinte. Com base nessa informação é que nós passamos para a fase seguinte, que é elaborar todo processo da campanha de pesca e tornar claras, por exemplo, as cotas de pesca por cada pescaria, por cada zona de pesca. Isso tem muito haver precisamente com essas medidas de gestão que temos com vista a assegurar a exploração sustentável dos recursos e garantir que vamos preservar estes mesmos recursos, não só para a campanha de pesca mais também para as campanhas seguintes. As cotas são atribuídas mediante a indicação concreta dos stocks disponíveis para uma determinada pescaria.

E quando falamos de pesca sustentável no país estamos a falar de algo que nos satisfaz ou os desafios ainda são muito grandes? 

São muito grandes. É preciso reconhecer que são muito grandes e também reconhecemos que como Governo temos estado a fazer um trabalho muito temendo. Por exemplo, foi lançada, a partir do dia 15 [de Outubro corrente], a veda à pesca ao camarão. A partir do dia 01 de Novembro começa a veda do camarão de superfície no banco de Sofala, na foz do rio Limpopo e, também, na baia de Maputo. Para o caso do caranguejo do mangal, começamos a veda no dia 15 de Outubro e vamos até dia 31 de Dezembro. O Governo aprovou o regulamento da pesca marítima que já prevê os tamanhos mínimos para a captura do caranguejo do mangal. Então, aquilo que fizemos este ano foi basicamente proteger apenas pro-cultura do defeso do mangal. Depois disso, achamos que não há necessidade de proteger porque a legislação já indica que há um tamanho a partir do qual não pode ser capturado [o caranguejo do mangal]. Por isso, é que até 31 de Dezembro há defeso para o caranguejo do mangal. Mas no caso do camarão de superfície nós vamos começar com essa medida de defeso agora no dia 01 de Novembro e vai até ao dia 31 de Março.

Quais são as províncias que se destacam em termos de práticas nocivas para a pesca?

Infelizmente, essas práticas acabam por ocorrer um pouco por toda o lado. Dizemos infelizmente porque nós gostaríamos de ver reduzido este tipo de prática, se calhar eu responderia a sua questão de outra forma: quais são aquelas [províncias] que se destacam por um comportamento mais amigo do ambiente e da pesca sustentável? E nesse caso penso que é extremamente importante valorizarmos os esforços daqueles que tudo estão a fazer para garantir uma pesca sustentável. Aqui, nós queremos destacar a província de Inhambane, que tem também uma tradição [de proibição à pesca], desde o período que nós começamos a imprimir as vedas no país. Estamos a falar das vedas de camarão já desde a década de 90. Desde essa altura, os distritos de Inhassoro e Vilanculos têm uma tradição de fazer uma veda comunitária que lhes permite fazer uma melhor gestão de exploração dos produtos que têm ao seu dispor. Mais fora disso, infelizmente, os outros exemplos não são os mais satisfatórios. Temos um ponto de referência como um grande desafio do ponto de vista de utilização de artes nocivas: estamos a falar do banco de Sofala, com particular incidência para a própria província de Sofala. Aí temos desafios muito grandes porque pensamos que esses desafios também têm muito a ver com a incidência do tal potencial pesqueiro que nós temos nessas regiões.

Apontou para província de Sofala, concretamente na cidade da Beira. Há cenários até de afrontas às entidades que garantem a fiscalização. Os barcos das fiscalizações até chegam a ser vandalizados na cidade da Beira, qual tem sido a estratégia para reforçar a fiscalização neste ponto do país. E fora essa actuação coerciva, que acções estão a ser desenvolvidas para capacitar os pescadores e consciencializá-los para uma prática mais amiga do ambiente?  

Essa questão é extremamente importante porque, de facto, nós como sector, como Governo, chegamos a conclusão de que nem se quer existe a capacidade para actuar de forma coerciva em toda a extensão da nossa costa. Temos a convicção de que por via da educação, sensibilização, capacitação e formação dos membros dos centros comunitários de pesca é que nós podemos encontrar um ponto de equilíbrio. O que tem que acontecer é a acção coerciva ser o último recurso. (…) Foi aprovado recentemente pelo Governo que que as comunidades têm que assumir o seu papel central naquilo que é a defesa e protecção dos recursos [pesqueiros], porque se isso não acontecer qualquer esforço que agente faça do ponto de vista de coerção vai sempre redundar em fracasso, precisamente porque nós temos coincidência de que não é possível fazer patrulha à escala nacional nos moldes que seriam necessários. Portanto, eu penso que o grande segredo que nós temos é temos é continuar a incidir na capacitação dos centros comunitários de pesca e no desenvolvimento das comunidades para que elas chamem a si essa responsabilidade. Nós temos estado a ouvir, vezes sem contas, nos noticiários parte dos pescadores a reclamarem: “nós estamos a ir para costa do sol por duas, três vezes mas não está a aparecer peixe e na praia de Jalane não está a aparecer peixe”. É a hora de cada comunidade começar a perguntar-se por que é que não está a aparecer peixe [no mar]. Essa não é uma solução que há-de vir da dor e do nosso comportamento perante uma pesca irresponsável que está a criar insustentabilidade do ponto de vista de acesso a esses recursos (…). Há esse entendimento de que a veda é uma medida para castigar os pescadores porque eventualmente eles não conseguiram ter uma boa captura na campanha seguinte. Era importante, era de se esperar que o Governo fosse tolerante e compreendesse aquilo que são as suas necessidades. Aquilo que temos estado a transmitir todos os dias para os nossos pescadores e para a sociedade no geral é que se o Governo não intervir vai ser pior na campanha seguinte. Eu dou um exemplo muito concreto: nós, agora, estamos a dizer que aquilo que estamos a fazer em relação à veda não são todos os recursos. São apenas dois recursos específicos, os quais têm um problema. No caso do camarão de superfície nós estamos a dizer que esse recurso biológico que ocorre no alto mar ele migra para a zona estuarina e também para os mangais para crescer. Então, no processo em que ele ainda está a migrar para crescer e depois atingir o tamanho minimamente aceitável para voltar à zona de pesca é capturado com recurso a redes de arrasto. Infelizmente, neste país a pesca ainda é feita por rede de arrasto e o nome próprio diz: é arrasto. Se nós estamos a atirar a rede num período em que o camarão está a fazer o seu processo natural biológico, qual é a chance de na época seguinte encontrar esse manancial, porque aquilo que nós estamos a dizer mesmo dentro das cotas quando nós pomos à disposição é as cotas existentes já foram identificadas. Mas também estamos a assumir uma reserva de reposição para a campanha seguinte. Se não há esse cuidado de em conjunto como país refletimos e sermos nós os primeiros a proteger esse recurso para que ele não esteja numa de insustentabilidade, não só podemos nos queixar de nós próprios, como também somos chamados para encontrar alternativas de responder à essa escassez desse recurso que já não está tão abundante por causa desse nosso comportamento.

Quanto aos resultados desta consciencialização das comunidades não surtir efeitos, em termos de fiscalização o que pode se fazer?

Infelizmente, esse é que é o grande desafio porque vamos continuar a incidir sobre todos os mecanismos que estão ao nosso dispor para assegurar que as comunidades compreendam a necessidade e a importância das vedas, dos defesos e de todas as outras medidas de gestão que o Governo tem estado a adoptar para garantir essa sustentabilidade. Mas se infelizmente nos não conseguirmos lograr sucesso neste processo porque os comportamentos também levam tempo a mudar, vamos ter que intervir de forma que for possível como Estado para assegurar a defesa destes recursos. Nesse sentido, temos estado a trabalhar para reforçar e fortalecer a capacidade da nossa fiscalização e, também, de todos os outros intervenientes, porque como sabe a ação de fiscalização ao nível da veda não ocorre só com os fiscais da pesca. Esta é uma acção que envolve, para além dos fiscais da pesca, todos os outros intervenientes: a destacar a Polícia Lacustre e Fluvial, que também tem um papel crítico neste processo. Estamos a falar das administrações marítimas, estamos a falar das alfândegas por causa do controlo da evasão destes recursos. Toda esta equipa, neste momento está a mobilizar-se para se organizar de modo a entrar em acção a partir do dia em que nós dizermos que começou a veda destes recursos. Não era o que nos gostaríamos, não é o que se espera, mas não havendo outra forma de tratar o assunto, infelizmente nós vamos ter que agir. Falou da cidade da Beira, que, infelizmente, não é um bom exemplo: temos pescadores que fora de compreender a necessidade de preservar o recurso começam a agir com violência contra os fiscais e contra os outros pescadores que já têm a consciência da necessidade de preservar esse recurso, queimando as suas embarcações.
A propósito disso, nós também iniciamos há pouco tempo, um diálogo com a Procuradoria-Geral da República porque também no terreno temos estado a confrontarmo-nos com situações em que os nossos fiscais e toda equipa que está no terreno a operar apreende uma determinada arte nociva a lei é muito clara em relação a isso. Se eu estou a prender uma chicocota, porque esta é proibida por lei. Nem se quer é para ir discutir, é para queimar imediatamente. É o que diz a lei agora. Se é uma arte que é legalmente aceite, mas está a praticar uma pesca fora do período que deveria praticar ou está a praticar a pesca dentro de um recurso que não devia, a lei diz que eu apreendo até que a pessoa pague a multa depois eu devolvo. (…) Como sector ainda estamos em processo de operacionalização dos tribunais marítimos. Os nossos casos têm sido julgados em tribunais comuns e isso tem tido grandes desafios do nosso lado, porque muitas vezes não é compreendido o alcance da legislação pesqueira e as pessoas acabam por ser soltas, pondo em causa e desmotivando o trabalho que uma série de equipas multissectoriais tem estado a fazer para assegurar a defesa dos recursos.

Estas práticas negativas geram uma escassez dos recursos marinhos mas também uma ameaça à segurança alimentar nas últimas décadas, contribuindo também para o aumento e pressão demográfica. Geram ainda uma oportunidade para a prática da aquacultura. Qual é a estratégia do Governo para encontrar respostas neste outro tipo de pesca?

Pensamos que esse também é um ponto central porque há um entendimento de que como Governo (..), as medidas de gestão vão apenas assegurar a estabilidade da sustentabilidade deste recurso, mas não são capazes de aumentar em grande escala aquilo que é o potencial que já dissemos que não muda, pode até variar para duplicar esse potencial. Tendo isso em vista e olhando sobretudo para a questão que coloca sobre o crescimento da população e as necessidades cada vez mais crescentes da segurança alimentar e, sobretudo nutricional, e tendo em conta o alto valor nutritivo calórico que tem a proteína do peixe, nós entendemos que a solução como país está efectivamente na aquacultura. A aquacultura para nós, neste momento, não é apenas um modo de estar de produção, é a alternativa não só para que como sector consigamos nos reposicionar do ponto de vista de contribuição para o PIB, mas também podemos nos reposicionar inclusive por via da aquacultura e inverter aquilo que tem estado a acontecer na nossa balança comercial. Nós ainda temos um grande índice de importação de pescado e acreditamos que ainda neste quinquénio é possível inverter este cenário.

E como é que se vai materializar essa consciência?

Na verdade, é implementando a estratégia e para isso nós já começámos. O Governo aprovou, em Abril, a estratégia para o desenvolvimento da aquacultura e nós estávamos a falar da aquacultura porque ela surge para responder os grandes objetivos do desenvolvimento socioeconómico do país. Mas ao mesmo tempo surge como essa alternativa que fez referência para aquelas actividades de pesca insustentáveis ou para no caso daqueles pescadores que digam que as suas redes eram só para o caranguejo de mangal e neste momento eu não têm outra coisa para fazer. O que estamos a dizer é que a aquacultura também pode servir de alternativa porque a ela tem dupla vantagem. Vai ajudar-nos a chegar muito rapidamente não só no combate à pobreza por via da criação do emprego, mas também sobretudo na questão nutricional. Portanto, acreditamos que temos um grande potencial para melhorar a dieta nutricional dos nossos concidadãos por via da produção em aquacultura e temos um potencial muito grande. Eu fiz referência ao potencial, quer das águas marinhas quer das águas interiores, mas também é como se diz: a aquacultura e a própria pesca em Moçambique é a nossa machamba em meio aquático e essa é a grande diferença na abordagem da agricultura e aquacultura ou da produção em pesca sobretudo a aquacultura. Em quanto usamos a terra para produzir hortícolas, cereais e outros produtos, nós a nossa machamba é o meio aquático.

A machamba em meio aquático tem muitos desafios em termos de acesso aos materiais para produção e também em termos de ração para alimentação dos peixes. Qual é a resposta que o Governo dá ou espera dar a estes desafios considerando aquilo que é o interesse que já existe no mercado para esta prática de pesca?  

Nos temos estado a trabalhar já há algum tempo. Desde o quinquénio passado temos estado reflectir sobre quais são os grandes nós de estrangulamento da cadeia de valor da aquacultura e como é que nós podemos, de forma paulatina, atacar cada um destes nós de estrangulamento. Estamos a dizer que a aquacultura não é uma novidade no nosso país. Na década de 50 havia alguma indicação desse potencial, mas na década 80 já se começou efectivamente a desenvolver-se esta actividade. Por várias razões nunca conseguimos dar o salto e nós pensamos que muito foi feito e aqui não se trata de desvalorizar o esforço que foi feito. Pelo contrário, o que aconteceu no passado foi criar condições para massificar de modo que os demais interessados em operar nesta cadeia conhecessem aquilo que são as vantagens, aquilo que são as grandes oportunidades que estão nesse sector por via da massificação. Nesse contexto, o Governo também entreviu muito no ponto de vista do financiamento a assistência técnica mas voltada para pequenos produtores. Neste momento, do ponto de vista de abordagem, um dos grandes constrangimentos que observamos é que a aquacultura ela é diferente da pesca selvagem, embora esta também exija investimento, porque para eu me fazer ao mar tenho que ter uma embarcação, uma arte de pesca e uma serie de outros artefactos que me vão permitir fazer a pesca na aquacultura. Para além de ter estes insumos, como é o caso dos alvinos da ração, também exige um alto nível de conhecimento técnico e também um grande investimento. Esses investimentos não é só nos insumos, é também nas questões que têm a ver com a biossegurança.

Com que parceiros o Governo conta para potenciar os empresários que têm interesse neste sector?

Neste momento, como abordagem, aquilo que estamos a fazer: primeiro quero dizer que como Governo já entrevimos nos últimos 10/15 anos, de forma directa. Agora aquilo que estamos a fazer é querermos criar as condições para que o sector privado tome nota das oportunidades que estão em toda cadeia de produção da aquacultura. A nossa forma de intervenção naturalmente, como tem sido em outros sectores, é por via de ligações e intermediação para o acesso ao financiamento com custos mais acessíveis para aqueles que querem intervir neste momento. Como Governo criou-se o Fundo para o Desenvolvimento da Economia Azul, o Pro-Azul. É um fundo relativamente novo mas que já está intervir. Para além deste fundo, no passado já houve o Fundo do Fomento Pesqueiro que também fez uma série de intervenções. Mas do ponto de vista de abordagem nós estamos a mudar porque não é esse o papel do Estado: lidar directamente com as carteiras de financiamento, mas o que queremos fazer é nos posicionar numa situação em que nos facilitamos a vida daquele que quer intervir.

Que incentivos o Governo dá para a criação de uma indústria, por exemplo de produção de ração, considerando que a matéria-prima de base existe no país, a soja e o milho, e garantir as facilidades necessárias para que essas indústrias possam gerar mais interesse dos empresários em actuar no sector da aquacultura?

Bem primeiro o que nos fizemos logo a seguir à aprovação da estratégia, ogrande passo foi primeiro ter um instrumento que nos orienta sobre a forma de abordagem. Pensámos que isto era extremamente importante porque aquilo que nós tínhamos antes era uma série de intervenções de uma forma dispersa. Acontecia um pouco aqui um pouco ali. Parte de alguns projectos foi crescendo mas outros com maior incidência estamos a falar em cerca de 8.000 apicultores que estão sempre na perspectiva de subsistência. O que fizemos foi ter primeiro um instrumento que nos permita abordar cada um dos assuntos que constituem os nós de estrangulamento da cadeia. Tendo estes instrumentos, o que fizemos, fomos ter com os produtores e compreender aquilo que nós constatamos (…). Agora era preciso compreender também entre os produtores quais são os seus principais constrangimentos porque a abordagem que estamos a usar para a estratégia que foi aprovada pelo Governo não é muito diferente da abordagem do Sustenta.

Aquilo que estamos a dizer é que já compreendemos que houve um esforço ainda não suficiente, mas existe pelo menos para o conhecimento e massificação. Agora também entendemos que dado o tipo de investimento que é necessário fazer nesta área específica, será necessário um grupo de apicultores que já tenham alguma capacidade instalada para permitir que possam depois trabalhar com os pequenos apicultores que eventualmente façam o fomento. Do ponto de vista de estratégias de intervenção, uma grande novidade é precisamente esta: vamos ter uma perspectiva de intervenção em termos de parceria público-privada e comunidade. Mas também estamos a olhar para centralidades como Governo. Entendemos que olhando para aquilo que é o potencial que o país tem, quer nas águas marinhas, quer nas águas interiores, se nós concentrarmos parte de infra-estruturas que são necessárias para a produção em aquacultura, será eventualmente mais fácil atrair pessoas que já terão acesso à energia e água de qualidade porque também esse é um factor importante e crítico.

Insisto nesta questão do acesso a ração e dos incentivos que possam ser desenvolvidos para dinamizar uma indústria de produção local?

A ração, como sabe, na aquacultura é o factor mais crítico. Do ponto de vista de custo nós estamos a dizer que só ração, em toda a cadeia de produção, comporta cerca de 70% do custo global de produção em aquacultura.

Uma resposta nacional não seria viável, não poderia baixar o custo?

Essa é a perspetiva neste momento. Aquilo que fomos verificar no terreno é que aquelas pessoas que estão a conseguir produzir com alguma qualidade estão a importar a ração e os custos não fazem sentido, tornam o pescado extremamente alto. A solução é precisamente essa: encontrar soluções internas a nível nacional para contornar isso. Nessa base nós tivemos um encontro com alguns importadores de ração mas também com parte dos intervenientes nesta cadeia da aquacultura, para perceber como cada um deles, à sua maneira, criou uma cadeia de valor e fechou o ciclo em si precisamente porque encontrava dificuldades por exemplo de identificar alvinos, abrir o meu negocio e só me concentrar na produção de alvinos. Mas depois como é que eu alimento os alvinos se o custo para isso com uma ração é muito alto (…). Então estas faltas de ligações acabaram por fazer com que esse potencial não surja. Neste momento já começamos a fazer este tipo de abordagem com parte desses que nós chamamos de catalisadores industriais, que é financiar parte daquilo que é a sua intervenção com a condição de que eles possam depois fazer o fomento dessa produção aos pequenos apicultores. Portanto, neste momento, estamos a intervir nesse aspeto.

Temos consciência de que este recurso que temos não são suficientes para abarcar a todos e por causa disso mesmo a nossa estratégia é incidir sobre aqueles que já têm uma estrutura minimamente organizada para que, como condição, possam fazer esse fomento. Aquele que já tem essa estrutura, em princípio também já tem acesso a um mercado. Então, aquilo que nós queremos fazer é assegurar o pequeno apicultor que tiver já a sua produção. Primeiro ele recebe os insumos e transferência de tecnologia que é necessária para ele produzir com qualidade e garantir o mercado. A nossa abordagem, neste momento, vai ter que ser nesta base para ver se conseguimos estimular um pouco este sector. Mas vamos continuar, como Governo, a fazer a extensão e o fomento em pequena escala, porque isso efectivamente é que vai contribuir para a segurança alimentar da nossa população.

E por falar em estimular o sector, a ministra disse nesta entrevista que a aquacultura não é novidade no país. Existe já há 70 anos e na década 60 o país investiu na construção de centros de pesquisa em Sussundenga, Umbeluzi e Inchope, que durante a guerra civil foram destruídos e abandonados. Hoje o que é que temos de centros de pesquisa para além de Chókwè, temos outros com que capacidade e até que ponto conseguem galvanizar aquilo que é a demanda em termos de aquacultura no país?

Bem essas infra-estruturas foram criadas na década 50/60 e havia essa visão de que com base naquilo que era o potencial que existia das águas do interior dos lagos, dos rios das grandes massas de água que o país tinha, podia se colocar estrategicamente esses centros nesses locais, para permitir que se aproveitasse o potencial dessas grandes represas e outros para produzir peixe. Mas como disse e bem, este processo acabou sendo inviabilizado por conta da guerra. Mas os espaços não foram deixados de lado. Como sector temos estado a reaproveitar alguns modo a utilizá-los para levar a cabo aquilo que era o pensamento inicial, de como é que nós podemos usar estes centros para continuar a difundir o conhecimento para o desenvolvimento da aquacultura.

Para além do centro de processamento de Chókwè, existem outros?

Em Sussundenga, por exemplo, nos temos neste momento uma unidade que estamos a fazer a restruturação e vai, agora, beneficiar de uma intervenção em forma de financiamento. Aí a perspetiva é ter uma unidade que se possa aproveitar para a produção de alvinos e de ração. O grande desafio que nós temos é o centro em Chókwè, por exemplo. Usamos o espaço que tinha sido construído no passado para transformá-lo em centro de pesquisa em aquacultura, que é um local de nível nacional. Mas por outro lado, parte dos tanques que existiam naquela altura também está a ser utilizada como centros por parte do Instituto Politécnico de Gaza. Estamos a aproveitar essas infra-estruturas que já existem. Agora se me perguntar se é suficiente ter só um centro de aquacultura em Gaza, podemos dizer que não por causa dos custos envolvidos para tirar os alvinos de Gaza, por exemplo, até Niassa, de Gaza até Nampula.

E por falar nessas iniciativas havia um projeto para a construção de 500 tanques para a criação do peixe tilápia em Sofala, para aliviar a pressão dos recursos marinhos vindos do mar. Mas o projeto não avançou exactamente por causa de questões relacionadas ao acesso aos alvinos e à ração. Que respostas estão a ser desenhadas para esta situação?

Temos uma carteira de projectos em Sofala, mas esse em particular não tenho informação. Mas é natural que situações dessas acabam por ocorrer. As pessoas querem fazer investimento e têm a expectativa de que irão encontrar as condições todas para desenvolver o seu negócio, mas não existindo isso, acabam optando por outras áreas. É precisamente isto que nos queremos como governo neste quinquénio. Por isso é que estamos aqui a dizer que a nossa estratégia, agora, envés de continuar a massificar é pegar aquilo que já existe e ver como é que como governo podemos intervir, apoiando do ponto de vista de acesso ao financiamento (…). Este tem sido um processo contínuo de discussão com o sector privado. Falou muito bem da questão da ração e nos já estamos a fazer negociações com alguns operadores nacionais que já manifestaram vontade também de diversificar a produção de ração. Nos estamos optimistas que vai haver ainda mais concidadãos nossos a olhar como oportunidade este sector da aquacultura, porque é preciso compreender as iniciativas por todo o país. Estamos a falar de aproximadamente 1.500 metros quadrados, dependendo da quantidade de alvinos tem cerca de 400 quilogramas de peixe supondo que quem vende a 170/200 meticais. É um negocio viável que já está provado que é viável. Agora, o grande desafio é que as pessoas têm que ter acesso à informação. Como sector, aquilo que estamos a fazer é nos organizar para que aquele que busca uma informação e apoio específico para a aquacultura encontre em tempo útil.

O país conta com cerca de 30 mil hectares apropriados para o desenvolvimento da aquacultura do camarão marinho, dos quais apenas um pouco acima três mil estão a ser utilizados. É um negocio viável como muito poucos empresários a explorar este sector e existe um plano para maior aproveitamento deste potencial?

Sim, a própria estratégia de desenvolvimento da aquacultura lança este desafio. Nós chamamos a nós como Governo o desafio de ver se efectivamente passamos à realidade este potencial que nos temos. Nos estamos a dizer que são 4000.000 de toneladas de potencial por ano. Neste momento nós só estamos a usar 1% desse potencial e aquilo que a estratégia se propõe a fazer é nos próximos 10 anos conseguir atingir pelo menos 400.000 toneladas. Nós achamos que isso é possível. Nós já estivemos a discutir com parceiros que já estão a operar no terreno. Uma vez ultrapassados estes constrangimentos, nós quando discutimos a questão da ração, uma das grandes questões que nos foi colocada é exactamente essa, o grande problema da ração. Mesmos do ponto de vista da soja não há disponibilidade, O milho, os produtores continuar a dizer que este tem de sair depois vir importado. A soja tem de sair depois vir importado para o país. Isto tem estado a dificultar a viabilização deste negócio. Temos estado a discutir, com o sector da agricultura, que está a criar toda uma máquina para assegurar que nós possamos ter num futuro muito breve, a disponibilidade desta matéria-prima que é tão essencial para a produção de ração. Nós estamos a dizer que para produzir peixe temos de ter soja e milho. Temos de ter farinha de peixe e este é um potencial que já existe em Moçambique. Temos de ter algumas vitaminas é um pouco isso que ainda é importado mas também o custo não é tão elevado e não é aí onde incide o custo de produção da ração. Então, as condições também não estão a ser favoráveis nesse ponto de vista. Aquilo que temos estado a fazer é acompanhar [o processo] um pouco por todo o país. É que a nossa investigação pesqueira tem que intervir e padronizar o tipo de componentes que devem fazer parte ração, porque o que está a acontecer agora é que cada um vai produzindo a ração no seu local de acordo com a disponibilidade dos materiais que tem a seu dispor. Isso é bom porque ponto de vista de edução a nossa extensão pesqueira também tem estado a fazer esse trabalho para as comunidades. Nós temos estado a dizer que não tem ração convencional: se fizer a mistura deste e daquele composto pode obter uma ração que seja aceitável, mas do nosso lado se querermos dinamizar essa produção, vai essencialmente servir para o sustento e não serve para criar escala.

Um dos desafios da pesca sustentável tem que ver também com a conservação do pescado. A ministra falou da questão do período de defeso ou veda mas que muitas vezes é desrespeitado exactamente porque a população não tem capacidade de conservação e sempre busca sua subsistência a qualquer preço. Qual é a estratégia do Governo para garantir que este desafio se torne menor em termos daquilo que são os planos para quinquénio? Aliás, no quinquénio passado já houve uma estratégia de construção de mercados e outras infra-estruturas que pudessem minimizar o problema mas o desafio ainda persiste. Para este quinquénio o que é que podemos vislumbrar?

O desafio persiste e a estratégia vai ser praticamente a mesma continuamos a incidir na construção de infra-estruturas de apoio à pesca, sobretudo esta de pequena escala. Estamos a falar dos mercados mas não só. Pensamos que a construção dessas infra-estruturas em alguns pontos críticos do país vai resolver uma série de problemas e um deles tem a ver com o manuseamento e o processamento do pescado retirado do mar. Porque este tem sido um grande desafio para nós como sector, através do nosso Instituto de Inspecção do Pescado, também estamos preocupados com a qualidade daquilo que é consumido a nível nacional e o facto de termos pescado a sair e, eventualmente, a ser colocado de qualquer maneira também pode perigar a saúde publica, não só daqueles que compram mas dos próprios que estão a pescar para o seu consumo. É por isso mesmo que do ponto de vista de intervenção, o sector tem estado sempre que é possível a atribuir kits onde não é possível ter este tipo de infra-estruturas ou outro tipo de intervenção mais estruturada dos mercados. Temos estado a privilegiar a distribuição de kits que contem colmans para assegurar que esse pescado seja conservado. Mesmo que não haja colmans os pescadores também já têm tradição quase que secular de preservar e conservar o peixe através de outras medidas tradicionais como sejam a secagem.

Tocou num aspecto muito importante que diz respeito à segurança como um dos desafios e falava da segurança como a segurança social, se os pescadores actuarem de forma mais formal. Também tem a questão da segurança no que diz respeito aos mecanismos de comunicação de gestão de risco quando se fazem ao alto-mar. O que é que existe em termos de protecção da actividade pesqueira e acesso à informação para que os pescadores não ponham em causa as suas vidas no exercício da profissão?

Os pescadores são as pessoas mais informadas e mais conscientes que nos temos. Aliás, usam o conhecimento que têm para prever que a maré permite ir à pesca, mas apar disso tem sido difundida informação através dos órgãos competentes. Portanto, o Instituto Nacional de Meteorologia fornece essa informação e eles têm sempre acesso quer por vias das nossas entidades que estão no terreno. Mas também através dos centros comunitários de pesca e outras entidades que estão no local a informação chega. Se não chega de forma formal os pescadores, têm o conhecimento e conseguem avaliar quando a maré está para peixe e quando não está. A segurança a que faz referência e que nos preocupa como Governo e está muito mais relacionada com o tipo de embarcações que há e que eventualmente, às vezes, não oferecem muita segurança. Essa é uma preocupação constante. Como dizemos, fazer um programa para assistir 40.000 embarcações é algo notável. Não é impossível mas, estamos também a fazer, através da Escola de Pesca, como através dos nossos técnicos de pesca podemos abordar as comunidades no sentido de ensiná-las a construir outro tipo de embarcações, porque dizer hoje que vamos substituir todas elas não é possível fazer isso. Estamos a pensar sim em gradualmente ir atacar este problema, mas pensamos que a forma mais efectiva de o fazer, que eles possam aprender e melhor as técnicas de construção das suas embarcações. Porque estas canoas, por exemplo, mesmo que eu queira dar o motor não é possível e não têm capacidade nem têm espaço para um motor, não há condições para isso. Mas as outras embarcaçõesjá permitem alguma estabilidade para colocar esses motores e é um pouco do que estamos a fazer. São as intervenções possíveis dentro das condições existentes. Mas pensamos que continuaremos a fazer muito mais. Mais do que dar pensamos que podemos ensinar novas técnicas de como é que podem construir melhores embarcações para a sua própria segurança.

A Presidente da Autoridade Tributária quer que o Centro de Estudos Aduaneiros produza mais conhecimento científico que permita o combate ao contrabando e outros fenómenos que lesam a economia nacional. Estima-se que 12% do PIB seja consumido por esses crimes.

Amélia Muendane, Presidente da Autoridade Tributária de Moçambique, alcançou em Agosto passado o grau de doutoramento em Estudos Estratégicos e Internacionais com a tese Implicações Económicas do Contrabando em Moçambique.

A Tese de Muendene já ganhou um resumo e consta de uma obra intitulada Colectânea de Estudos Estratégicos e Aduaneiros. Jorge Ferrão, reitor da UP-Maputo que procedeu com a apresentação da obra, disse que a coletânea é importante.

Amélia Muendane está feliz com o livro e espera que o Centro de Estudos Aduaneiros e Tributários que fez o resumo continue na produção de conhecimento científico em outras áreas.

De acordo com a tese da Presidente da Autoridade Tributária de Moçambique, Amélia Muendane, o contrabando em Moçambique consome 12.6% do PIB no país. A África do Sul, Índia e China estão entre os maiores contrabandistas de produtos moçambicanos.

A colectânea da Autoridade Tributária, com seis capítulos, foi lançada esta sexta-feira.

Fome Zero é o propósito que Moçambique pretende alcançar e o distrito de Gondola já está a dar o seu contributo.

Localizado na província de Manica, Gondola tem potencial agrícola “invejável” motivado pelas condições climatéricas.

“Na campanha 2019 – 2020 produzimos 290 mil toneladas”, revela a administradora do distrito, Etelvina Ambasse, que descreve aquele ponto do país como “um sucesso”.

No entanto, em meio ao “sucesso” que Gondola tem registado na produção agrícola, há também desafios e a administradora cita à necessidade de construção de represas como um dos principais.

“Estamos a envidar esforços para que os centros de produção tenham represas de água. Essas represas vão permitir que a produção aconteça no ano todo”, expressou a dirigente do distrito, intervindo no painel “Desenvolvimento Local do Agro-negócio”, na MOZGROW.

Entretanto, para além de Gondola que se manifesta como “potente na produção agrícola”, Gurué, conhecida “capital do chá”, na Zambézia, também atravessa momentos de “reanimação de esperanças” quanto à sua potencialidade.

“O que deveria se fazer agora é apostar muito, por exemplo, no fornecimento de maquinaria e assistência técnica”, diz o administrador Costa Chirembwe, para quem o projecto SUSTENTA veio catapultar esse investimento “e já há resultados”.

“Outro elemento que completa a cadeia de valor de produção agrícola é a criação de condições do mercado: sejam eles regimes de feira, ou qualquer que sejam os espaços para que haja a comercialização”, entende.

O administrador de Gurué, Costa Cherembwe e a administradora de Gondola, Etelvina Ambasse, foram oradores no mesmo painel da MOZGROW, evento que foi transmitido na STV Noticias desde a segunda-feira passada, e teve fim esta sexta-feira.

O painel “A modernização da agricultura em África” contou com a participação de dois oradores, nomeadamente, Ghil Harly, CEO da Impact Food em Israel, e Clement Adjorlolo, da Agência de Desenvolvimento da União Africana.

 

No derradeiro dia da MOZGROW, sendo primeiro a intervir, Ghil Harly defendeu que o continente africano deve tornar-se líder e posicionar-se em questões relativas à agricultura. O orador defendeu esta posição porque, disse, África tem terra, recursos humanos e força de trabalho. Para Harly, muitos países no continente estão a caminhar nesse sentido de desenvolvimento. Entretanto, na sua percepção, tornar o continente destino sério para o cultivo massivo dos ingredientes irá contribuir não só na redução dos custos, mas também fará com que África se torne o mercado a partir do qual todos quererão adquirir produtos, o que constitui uma grande oportunidade.

Para Clement Adjorlolo, existem muitos desafios que afectam a agricultura no continente. “Historicamente, e durante muitos anos, a agricultura ressentiu-se dos impactos das condições políticas que perturbaram a agricultura. Mas, em geral, também diríamos que a agricultura, em África, é afectada pelas condições económicas”. Segundo considerou Adjorlolo, a agricultura africana tem muitos desafios em termos de impacto ambiental e mudanças climáticas, onde nota a degradação dos recursos naturais que limitam o acesso à água, por exemplo.

Ghil Harly entende que a contribuição do continente africano pode ser de ajudar a cultivar os ingredientes, na verdade, a sua contribuição deve ser em duas vertentes: uma é na produção massiva dos ingredientes para os grandes mercados, e isto vai reduzir os custos e deve ser feito de forma eficiente: “vocês têm capacidade e know-how. Na segunda vertente, África pode tornar-se o destino destes produtos para alimentar a sua população; não só para aquela população com capacidade de obter nutrição decente, mas também para todas as esferas da sociedade que queiram abraçar as novas formas alimentares”.

No debate, Clement Adjorlolo reforçou que “temos de olhar a agricultura não como um sector que depende de outros sectores para se transformar. O investimento dos países no sector agrícola não tem sido ao nível esperado, e estes são alguns dos aspectos que transpareceram no relatório bienal, no qual temos mais de 49 indicadores a serem usados para avaliar o desempenho dos países. Nem todos os países estão ao mesmo nível, o seu desempenho varia. Em geral, diríamos que o continente não está no caminho certo, o cenário tem de mudar e poderemos discutir algumas das considerações que devem ser tomadas para devolver o continente ao caminho certo no sentido de alcançar a Declaração de Malabo”.

Na óptica de Clement Adjorlolo, a modernização da Agricultura em África não é uma opção negociável, não é uma opção; “a África precisa modernizar e de adoptar a inovação, uma inovação que vai para além da tecnologia, tem que ser uma inovação que olha para o cenário institucional, o cenário político, para a estrutura dos sistema sociais indígenas capazes de promover a agricultura. Quando falamos da agricultura em África, falamos da produção em pequena escala que constitui quase 80 % da agricultura praticada, e a pergunta é como tornarmos esta agricultura mais produtiva e não nos centrarmos apenas na expansão das áreas de cultivo, pelo que o factor da produtividade total deve ser um dos enfoques na transformação da nossa agricultura através das tecnologias modernas”.

Neste percurso rumo ao desenvolvimento, Ghil Harly disse o uso de tecnologias de irrigação, o uso da informática hoje em dia, pode ajudar os agricultores a produzirem mais, com menos pessoas e a tornarem-se mais eficientes e mais competitivos, acho que é isso. Mesmo tendo que dizer que também, como tudo no mundo actual, há uma tendência crescente de se retomar à agricultura familiar, agricultura orgânica e o uso cada vez menos… isso é uma opção de querer fazer as coisas de uma forma mais natural, isso depende, caso a pessoa não queira engrenar tanto na modernidade, mas acho que a tecnologia não veio para apagar e eliminar a agricultura familiar, a tecnologia existe para ajudar a agricultura familiar a se ligar cada vez mais à demanda, localmente e externamente. A ideia não é de abolir a agricultura familiar, mas sim levá-la ao outro nível, para que possa competir”.

Concordando com Ghil Harly, Clement Adjorlolo defendeu que os agricultores familiares africanos precisam de ter uma agricultura moderna, precisam de muitos apoio, “nós temos que ajudar os agricultores familiares africanos a estarem ligados à cadeia de fornecimento de produtos agrícolas, também precisamos da comunidade internacional para ajudar no aumento da produção e também ajudar a assegurar que a agricultura de África, no seu todo, tenha um papel significativo a desempenhar, primeiro, em alimentar os próprios africanos e precisamos de salvaguardar a agricultura africana, primeiramente das contradições políticas.

Adjorlolo disse ainda que a agricultura africana, na situação em que se encontra, não poderá abertamente competir com agricultura europeia, que possui 400 anos de desenvolvimento, que está bem estabelecida. “Por exemplo, a cebola pode crescer bem em África, temos condições para tal, mas deparamos com situações em que a cebola é importada do Atlântico para os mercados africanos e é barata; esses são os passos práticos que devemos tomar, dizendo que se quisermos com que um pequeno agricultor familiar tenha meio de subsistência e viva honestamente, ele não pode competir com a produção massiva que chega através dos portos, essas são algumas das coisas que precisamos de salvaguardar”.

A União Africana colocou vários quadros e instrumentos com vista a ajudar na transformação da agricultura em África, dando exemplo, existem iniciativas tais como Grow Africa, que traz a parceria pública privada para o financiamento de iniciativas de agricultura. Existe também a plataforma de parceria de agricultura ao nível dos países, que faz parte do processo actual, que consiste em trazer actores do governo e do sector privado. “A nossa abordagem sobre a modernização da agricultura não focaliza apenas na tecnologia, para que possamos ser inovadores, temos que olhar para além da tecnologia e tomarmos em consideração outros processos que fazem com que seja possível o ambiente adequado para a agricultura, esses são alguns dos aspectos que queria destacar”, disse Adjorlolo.

Harly e Adjorlolo consideram que deve haver políticas governamentais no contexto de África. “Será difícil para que vocês possam concorrer, será difícil de criar lobby, precisam de criar influências políticas para fazer com que o vosso governo vos dê incentivos, não me refiro à retirada de impostos, ou impostos de importação dos insumos agrícolas, mas definitivamente pode se dar incentivos às pessoas que compram localmente, nos agricultores locais, portanto, o primeiro aspecto são as políticas, o segundo os incentivos, o terceiro são as associações ou órgãos de aquisições, que dizem aos agricultores familiares, faça melhor o que fazes e nós tomaremos conta da cadeia de fornecimento de produtos, da fixação de preços, do debate, das negociações, da colecta do dinheiro e de tudo isso, a não ser que sigam a educação”.

 

 

A promoção do “Ecossistema para o desenvolvimento do agro-negócio” é um dos temas da actualidade, sobretudo, nos países em desenvolvimento. Para analisar os caminhos e as experiências de sucesso neste sentido, Bogolo Kenewendo, ex-ministra do Investimentos e Comércio do Botswana, concedeu uma entrevista à plataforma da MOZAGROW. Acompanhe o pensamento na íntegra.

Como é que nós criamos um ambiente de negócios favorável ao desenvolvimento do Agro-negócio em África?

Primeiro realçar que antes de falarmos de sectores, é importante criar um ambiente de negócios favorável; uma vez criadas as condições essenciais para que todos os negócios decorram sem sobressaltos, isso só já tem em conta os diferentes sectores de actividades, mesmo que não tenham sido especificamente identificados como bolsas de crescimento para a sua economia; em relação ao agro-negócio, olhamos para os aspectos conducentes à posse de terra; aspectos ligados a facilidade de aquisição, transferência ou leasing da mesma; é preciso assegurar que terra produtiva não permaneça ociosa, e que não esteja nas mãos de indivíduos que não estejam a explorá-la para fins agrícolas, eis a razão por que na maioria das políticas de posse de terra, encontramos parcelas de terra agrícola a serem concedidas ao redor das cidades isto para encurtar a distâncias com os mercados consumidores, e isto traz alguma eficiência; o segundo aspecto tem que ver com as políticas do Estado devido a combinação entre a posse de terra, o agro-negócio e as políticas comerciais: as políticas comerciais giram à volta do quão fácil é aceder ou penetrar um mercado, e quanto ao mercado, falamos tanto do doméstico como do externo, para o caso de Moçambique que é um país bem posicionado, o mesmo em relação aos seus produtos agrícolas; dai a importância de ter políticas de comércio favoráveis para que as pessoas possam aumentar as suas exportações e possam também importar; e claro; de tudo que eu mencionei antes, as infra-estruturas são muito importantes; boas infra-estruturas que sustentam um agro-negócio produtivo e aqui falamos das estradas, e há um outro elemento cuja importância nos campos agrícolas tem levantado controvérsia, as TIC’s. Mas a infra-estrutura das TIC’s é muito importante na medida em que permite atrair pessoas e jovens formados e em sintonia com o mundo digital, mas o mais importante ainda é que elas permitem saber, em devido tempo ou em tempo real, o que está a acontecer no mundo e no mercado global; e dai a importância das infra-estruturas das TICs; um outro elemento facilitador importante é a governação no geral; esta determina a facilidade de iniciar um negócio no país, a facilidade de confrontar algumas destas políticas de negócio, e também a questão da corrupção…acho que vou parar por aqui pois podia continuar a falar e a falar…. de todos os outros elementos facilitadores como os subsídios e incentivos fiscais, mas paro por aqui.

Olhando a sua experiência como Ministra do Investimento e Comércio, quais as principais ameaças ao ambiente de negócios em África e quais os principais desafios?

Quer os desafios e não quer saber das oportunidades? Prefiro começar pelas oportunidades e depois veremos os desafios para que não tenhamos as nossas atenções viradas apenas para os problemas; temos que olhar para eles sim mas abrindo caminho para o futuro.

Vamos fazer uma análise FOFA. Ameaças, pontos fortes, oportunidades e desafios ou fraquezas; gostava que centrasse os seus comentários nestes quatro pontos?

Ok, o nosso ponto forte é sermos um continente agrícola, o que nos permite saber o que funciona e o que não funciona. Temos experiências adquiridas do nosso conhecimento indígena, que desde já encorajo a que encontremos formas de o modernizar e não abandoná-lo pois ele incorpora experiências que provaram a sua eficiência nos momentos de seca severa e até antes de começarmos a fazer comércio com o resto do mundo. Dai que este constitui um dos pontos fortes; saber onde é que determinadas plantas crescem, quais os herbicidas ou insecticidas funcionam para determinado fim, isso tudo vai assegurar a qualidade suprema dos nossos produtos. Um outro ponto forte é a nossa conectividade regional como bloco da SADC, como países da região estamos todos conectados e podemos aproveitar essas ligações para o crescimento das nossas indústrias e quando falamos da industrialização, nos referimos em concreto à cadeia de valor; em relação às nossas fraquezas; estamos predominantemente focados ao mercado externo, mercados Europeus, mercados Americanos e isso limita a nossa capacidade de fazer negócios juntos como região, nota-se uma espécie de cegueira em relação aos mercados do Botswana, de Moçambique……eu dizia que os nossos pontos fracos consistiam no facto de conhecermos a agricultura e que somos um continente tradicional e predominantemente agrícola, e que um dos aspectos que tenho encorajados os países e aos agricultores a não perderem é o conhecimento indígena, só temos que adaptá-lo e nele acrescentar tecnologia e assegurar que nos ajude na nossa caminhada, veja que na base desse mesmo conhecimento indígena, nós não usamos produtos químicos ou insecticidas, usamos apenas produtos orgânicos que mantêm as nossas culturas e os nossos alimentos muito saudáveis, e que tornam a nossa indústria bastante lucrativa…e ninguém nos irá retirar esse conhecimento, temos é que capitalizá-lo e maximizar; o outro aspecto é a forma que nós como região estamos conectados e devíamos com base nisso desenvolver uma cadeia regional de fornecimentos entre Moçambique, Botswana, Zâmbia, Namíbia…. devido à forma como os nossos países estão interconectados, bem como a facilidade de movimento de pessoas e bens, então devíamos aproveitar essa vantagem e aplica-la em beneficio do desenvolvimento regional. Agora, como região, o nosso principal desafio é que quando temos o nosso produto na mão, olhamos para o Ocidente, para os EUA etc… como nossos principais mercados, olha isto deixa um fosso muito grande em termos de cobertura das nossas necessidades regionais temos que começar a examinar com cuidado os negócios e os mercados Africanos bem como na forma como fazemos negócios; não estou a dizer que devemos esquecer Portugal ou outros países Europeus, não…estou é a dizer que devemos olhar principalmente para o crescimento dos nossos mercados internos porque neste momento, cada país está a tornar-se cada vez mais proteccionista, mas estamos agora nas negociações da Zona de Comércio Livre e devemos maximizar esse aspecto. Uma outra ameaça à forma como fazemos negócios na agricultura é a introdução de produtos químicos importados; isso é uma negação àquilo que temos feito tradicionalmente; as mudanças climáticas também fazem parte das ameaças pois está claro que a região Austral será bastante assolada pelas mudanças climáticas e aí posso sublinhar o Botswana que terá seca severa, enquanto vocês terão chuvas intensas e isso constitui um grande desafio à agro-indústria.

Um dos aspectos mais importantes é a criação de gado e a pergunta que se faz é que tipo de políticas públicas devem ser adoptadas para o desenvolvimento desta actividade?

A primeira questão que se levanta é saber se tem gado suficiente para poder encorajar as pessoas a abraçarem esta actividade? Se a resposta for não, então a primeira questão a abordar em termos de políticas públicas seria disponibilizar gado, isso indicaria que temos um uma quantidade suficiente de gado a ser distribuído pelas pessoas para estas se iniciarem na actividade; uma das políticas que temos aqui no Botswana é um programa de subsídios. Temos vários empreendedores envolvidos na pecuária e um dos programas está orientado à prestação de assistência e alimentação do gado; um outro programa disponibiliza um número mínimo de cabeças de gado aos criadores, sobretudo os que se encontram nas zonas pobres e vulneráveis. Com base no programa, o criador recebe cabritos, recebe ovelhas e o governo virá mais tarde comprar deste criador para distribuir pelos outros criadores; o mais importante a reter aqui é que é este criador (e não governo) que depois irá vender o seu gado a outros criadores. Um outro aspecto tem que ver com os serviços veterinários, não podemos falar de pecuária sem falar da saúde dos animais, dai a importância dos serviços veterinários…concluindo, diria que há dois aspectos a ter em conta: o lado da oferta e o da procura. Do lado da procura os aspectos importantes são o desenvolvimento; e aqui falamos do repovoamento, da veterinária, acesso a terra e acesso ao mercado; depois pelo meio, nos perguntamos como é que chega ao mercado com as matérias-primas, onde que estas são processadas e como é que o produto chega ao último consumidor…estes aspectos todos são importantes e nos levam àquilo que mencionei antes: ambiente favorável.

Recentemente temos notado que em África e nos países em desenvolvimento existem muitos jovens envolvidos no agro-negócio, mas, às vezes, estes se debatem com algumas barreiras. Gostaria de saber de si que tipo de incentivos podem ser adoptados para permitir o envolvimento de jovens no agro-negócio?

Primeiro é preciso assegurar que haja infra-estruturas e tal como me referi antes, a infra-estrutura informática é muito importante; se queremos incentivar os jovens a saírem da cidade para trabalharem nas zonas rurais é preciso trazer para o campo o mesmo conforto que eles têm nas cidades, nomeadamente água, energia, TICs e outras infraestruturas importantes. E depois o segundo nível é o acesso às finanças. Para qualquer jovem empreendedor, as finanças são importantes; é preciso criar canais que permitam o acesso às finanças por parte dos jovens, que por via disso terão acesso à terra, que por sua vez tem valor diante dos bancos comerciais e outros financiadores; é também necessário envolver os jovens na forma como as políticas são desenvolvidas e isso fará com que estes sintam que as suas preocupações estão sendo captadas pelas entidades reguladoras.

Mas os bancos costumam evitar disponibilizar financiamento aos jovens principiantes por causa do risco. Qual é a sua percepção do risco que é sempre usado como desculpa quando se trata de financiamento?

Essas percepções têm a ver com o facto de não existirem muitos jovens com posse de terra que possam usá-la como colateral; a sua falta de experiência também constitui um risco, dai a importância de instituições como o Fundo de Desenvolvimento assumirem a dianteira nesse aspecto. Uma das formas pode ser através de um mecanismo em que 50% sejam em forma de financiamento e os outros 50% em forma de empréstimo, ou então que o governo assuma a garantia diante dos bancos comerciais por forma a reduzir o nível de risco associado ao crédito aos jovens, aliado a isso, vem a necessidade dos subsídios, e este assunto não é novo, vem sendo objecto de debate na OMC e sentimos que os subsídios ainda ocorrem nos países ocidentais, na Suíça ou nos EUA; dai que os países Africanos devem recorrer aos subsídios para poderem alavancar o seu agro-negócio.

Que tipo de experiência deve ser tomada em conta na concepção de um quadro regulador que crie um bom ambiente de negócio e investimento na agricultura? De acordo com a nossa Constituição, a agricultura é a base de desenvolvimento e gostaria de ouvir a sua opinião.

Não falaria de melhores políticas ou melhores experiências, diria que existem vários casos que podem ser consultados e usados em benefício de Moçambique e de outros países. Aqui iria recomendar que olhássemos para o Relatório do Fórum Mundial de Competitividade Económica como um exemplo, sei também que a metodologia de concepção do relatório do “doing business” do Banco Mundial foi contestada, mas ainda assim penso que há alguns aspectos que podem ser aproveitados. Os dois relatórios têm um capítulo sobre como tornar um país atractivo ao IDE. Podem ser consultadas outras experiências de outros países; por exemplo como é que países do Sudoeste da Ásia se tornaram o celeiro da Ásia e do resto do mundo, tornando-os fornecedores de alimentos de todos nós; agora em relação ao agro-negócio, existem algumas lições a tirar de países como a Austrália; na região Austral da África temos a RSA que é um caso de estudo, embora este tenha alguns desafios relativos à distribuição desigual da terra…cada caso deve ser minuciosamente analisado; mas o mais importante de tudo é que tenhamos um ambiente favorável não só para o negócio, mas também para o investimento. Temos de ter incentivos que atraiam o IDE ao mesmo tempo que estimulem também o investimento doméstico.

Assim como é que podemos envolver o sector familiar nesta cadeia de valor, sabendo que em muitos países Africanos (e a SADC não é excepção) a agricultura é praticada pelo sector familiar, então como é que podemos melhorar a sua capacidade para que este possa produzir mais e vender?

Deixe-me só perceber uma coisa: quando fala do sector familiar refere-se aos agricultores de subsistência? Ok…Olha estes agricultores precisam de apoio em termos de disponibilização de produtos básicos tais como uma parcela de terra, subsidiar a sua vedação, medicamentos e sementes, mas também é necessário estabelecer parâmetros de sucesso. Os parâmetros seriam por exemplo dizer-lhe que se eu vedar os teus 5 hectares de terra, espero que tu produzas x quantidade de sacos de arroz, ou tantas toneladas deste ou daquele produto dependendo dos casos. Esses parâmetros devem ser estabelecidos com vista a assegurar que todos, colectivamente, tenhamos sucesso, o que torna os subsídios comercialmente viáveis, porque de contrário, teríamos um agricultor que só a produz o suficiente para comer, sem qualquer crescimento e assim nunca saímos do ciclo vicioso da pobreza e sem crescimento do agro-negócio.

E que experiências podemos aprender do Botswana sobre essa matéria?

É o que acabei de dizer: fornecemos as sementes, vedamos às farmas, damos subsídios (de aquisição) do tractor…disponibilizamos muitos subsídios ao sector. O único aspecto que temos como desafio e sobre qual sempre nos batíamos quando eu era membro do Governo é garantir o alcance dos resultados; se alguém não alcançar as metas anuais então não terá direito aos subsídios no ano seguinte…o agricultor deve ser incentivado sim mas tem de haver uma espécie de coerção. Por um lado, ele recebe incentivos e por outro, ele deve trazer resultados.

Esta experiência pode ser levada para outros países? Ou seja, uma experiência de sucesso comprovada no Botswana pode ser implementada e trazer os mesmos resultados num outro país da região, tendo em conta as suas características específicas, localização geográfica e exposição às mudanças climáticas? Acha que disso podemos ter benefícios? Ou Moçambique precisaria de criar condições adequadas às políticas e estratégias que tiveram sucesso no Botswana?

Tal como eu disse antes, não podemos pegar uma experiência de sucesso num país e copiar tal e qual para o nosso, isso seria irreal, temos que domesticar adequadamente esta experiência, temos de fazer um estudo de referência olhando para os aspectos que podem funcionar na nossa realidade e não necessariamente os que funcionaram no outro país pois as nossas condições não são iguais; nós somos um país propenso à seca e vocês aí são frequentemente assolados pelas cheias; vocês teriam de avaliar que tipo de subsídios devem ser implementados e que resultados podem esperar, isso podem copiar sim, mas a sua implementação deve ser completamente diferente e devem assegurar que estão em conformidade com as condições específicas de Moçambique.

Muito bem, falemos agora de um outro aspecto curioso, o índice de desenvolvimento humano, na África Austral vemos Botswana como espelho em termos do desenvolvimento, principalmente no índice do desenvolvimento humano, qual é o segredo disso, o que é que os países africanos devem fazer para alcançar essa meta que é bastante apreciada em todo mundo?

Bem, não diria que Botswana é o melhor estudo de caso para o índice de desenvolvimento humano, de uma certa forma investimos tanto na edução para muita gente, ensino primário, primeiro ciclo do ensino secundário e no ensino secundário como obrigatórios e muitos com um bom aproveitamento no ensino secundário são mandados para a universidade pelo governo. Somos capazes de fazer isso porque reinvestimos nas nossas receitas de diamante, estabelecemos um bom acordo com as DBAs no princípio, em como gerimos os nossos recursos naturais e como partilhamos as receitas provenientes dos recursos naturais e isto é algo que me deixou bastante preocupada quando estava em Moçambique no ano passado, quando foi assinado o grande acordo com as empresas americanas para explorarem o gás em Moçambique e a minha questão colocada a alguns dos vossos ministros foi: Será que vocês têm um bom acordo, será que vão obter boas receitas a partir disso, e será que têm um bom plano para reinvestimento? Porque se tiverem, estarão em altura de reinvestir no desenvolvimento do capital humano, mas também estarão em altura de investir adequadamente nas infra-estruturas e deixar um pouco para equipar as futuras gerações em forma de fundo soberano, isto é bastante importante e acho que os países africanos que possuem recursos naturais devem negociar esses contractos muito bem.

Uma das coisas que leva alcance de um bom índice de desenvolvimento humano é a educação, como chave do desenvolvimento, razão pela qual questiono se caso os sistemas educacionais funcionarem bem, será que podem ajudar os países em desenvolvimento a alcançarem os níveis do índice de desenvolvimento humano?

Sim, por isso eu disse agora que a razão pela qual poderá parecer, não é perfeito, porque nós investimos as nossas receitas de diamantes na educação, portanto o ensino primário é obrigatório, caso o aluno tenha um bom desempenho passa para o primeiro ciclo do ensino secundário e para o ensino secundário e se o aproveitamento for bom, é levado pelo governo para a Universidade. Há desafios, como em qualquer outro sistema, mas a prática de investir na educação para todos cidadãos é extremamente importante.

Agora falemos da ligação dos mercados, dada a situação de que em Moçambique por exemplo, há vários principiantes jovens no agro-negócio e empreendedores que estão com vontade de se ligarem ao mercado do Botswana, acha que é possível, existe ambiente político criado em prol dessas condições, com vista a fazer crescer o mercado, o agro-negócio?

Sim, Botswana tem um bom relacionamento com Moçambique, estivemos em Moçambique no ano passado e talvez nos últimos dois anos, três a quatro vezes, essa é uma boa indicação do relacionamento existente e nós tentamos criar um ambiente favorável ao comércio para os dois países, uma área em que possa dizer que foi bastante contagiosa para nós é o acesso ao petróleo e gás via Moçambique, mas com certeza a agricultura poderá ser uma delas. O único desafio que posso destacar é que para realizar trocas comerciais com Botswana tem que fazer parte da União Aduaneira da África Austral, que é SACU, que engloba Botswana, Namíbia, Eswatini, Lesoto e África do Sul. Poderá constatar um pouco que certas tarifas não estão no lugar, mas a comunidade da SADC está a lidar com alguns desses desafios, então temos que olhar para que produtos podem ser exportados para Botswana via SACU, mas com certeza existe cá um grande mercado.

Qual é a sua principal recomendação para a promoção de um ecossistema no ambiente de agro-negócio em Moçambique, África do Sul, Botswana e em qualquer outro país?

Bem, temos que colocar bem os recursos, se de facto quisermos fazer crescer uma indústria, temos que alocar recursos, esta não é apenas uma chamada ao governo, é também uma chamada ao sector privado, temos que fazer a prestação de contas, temos que colocar dinheiro onde de facto ele é necessário porque a expansão do crescimento e a tendência do crescimento para o mundo em avanço estão sempre na agricultura, pode ser agricultura virada ao algodão ou para outros produtos alimentares, o importante é que este é um sector que quase tem a certeza das coisas; nunca irá deteriorar, irá sempre crescer juntamente com o crescimento da população mundial, precisamos de nos posicionarmos adequadamente.

Falemos de um dos actuais acontecimentos, a pandemia do Covid-19, sabemos que as economias da África Austral e de todo mundo estão sendo afectadas por esta pandemia, é necessário que se tomem posições com vista a combater essa pandemia, qual é a sua opinião, qual é o seu principal conselho, o que deve ser feito em particular nos países Africanos e em especial na SADC?

Os governos devem desempenhar o papel central e conduzir as economias principais, neste momento a situação é difícil para várias empresas, os governos não devem se distanciar da oferta de incentivos, dar subsídios, garantindo que se criem condições para o sector privado porque caso não seja feito agora, iremos ter problemas maiores mais tarde, onde as empresas terão que encerrar, as pessoas ficarão desempregadas, vão se perder todas as receitas geradas nas economias, portanto, os governos devem aceitar que devem estar no centro, eles têm que desempenhar o papel central de alavancar as economias durante o Covid-19, por isso é importante para que possamos engajar os nossos parceiros de crédito para garantir que congelem alguns dos empréstimos ou juros a serem pagos durante esses meses difíceis do COVID-19, para que possam disponibilizar esse dinheiro com a finalidade de lidar com as emergências nacionais e assegurarmos que estamos a recuperar as nossas economias. Ao recuperá-las, as reformas, a transformação e os planos de resposta são muito importantes, nenhum país irá aparecer de outro lado, vivendo num mundo de Coronavírus sem possuir um plano e esse plano deve ser elaborado agora e deve ser bastante flexível para assegurar que ao encararmos mais esses desafios, porque nunca antes tivemos experiência de Coronavírus, possamos mudarmos e adaptarmos, mas garantido que o sector privado e os meios de sobrevivência sustentáveis estejam no centro das atenções.

E o comércio é um dos sectores afectados pela pandemia do Covid-19 e algumas pessoas pensam que devido a esta pandemia muitos países poderão adoptar a protecção das suas economias, não estarão mais abertos ao comércio com outros países com quem tradicionalmente têm um relacionamento. Portanto, a minha questão é como lidar com essa protecção, que alguns pensam que provavelmente será efectuada, enquanto as economias precisam de pensar no comércio, o que Botswana produz, provavelmente não seja suficiente para alimentar o povo desse país; na África do Sul, em Moçambique e em outros países precisamos de manter esse comércio, como manter o comércio enquanto as economias estão sendo protegidas pelas políticas?

Uma abordagem proteccionista do comércio neste momento provavelmente deixaria muitas economias com lacunas económicas e isso iria piorar a situação; isso é uma questão de vontade política e provavelmente temos que negociar com os parceiros e informá-los que temos que manter o comércio o mais aberto possível. Esse é que é o debate com a EFCFTA em África, graças a Deus… para a redução de qualquer proteccionismo em que se possa pensar, esta não é a única ameaça para nós neste momento, a outra ameaça é o proteccionismo do capital e a maioria do nosso capital, conforme sabem, vem de países como os EUA, Europa e outros; temos estado a falar com eles sobre o G8 em particular na Assembleia Geral das Nações Unidas e que devem manter e assinar o mesmo instrumento que assinaram aquando da crise de 2009-2010, que consiste em manter aberto o fluxo de capital e que irão permitir com que o fluxo financeiro venha para a África porque, caso contrário, iremos regredir e teremos países que precisam de ajuda ao invés desse comércio.

Os países Africanos estão a abrir gradualmente as suas fronteiras para manter esse comércio. Acha que é uma forma correcta tendo em conta a pandemia de COVID -19? O desafio para todos agora é a protecção das pessoas e as questões sociais são alguns dos aspectos mais importantes que devemos tomar em consideração?

Sim, para ser sincera, não existe o certo ou o errado durante o COVID-19, trata-se de tentativas e quero aplaudir os países que tentam fazer coisas e depois verifica-se que não se pode fazer isso agora, é isso que deve ser feito, não podemos continuar a viver num estado constante desta natureza, temos que tentar fazer coisas diferentes e também trabalharmos as nossas políticas durante esse período de Covid-19; assim sendo, acho que o que a África do Sul está a tentar fazer é recomendável, o que a Namíbia está a tentar fazer é também recomendável, iremos aprender fazendo. Esta é a única forma de aprender, desde que mantenhamos os nossos protocolos, acho que iremos apanhar um ponto de convergência apropriado para nos darmos com o COVID -19.

Como é que o sector agrícola poderá sobreviver na pandemia da COVID-19?

Bem, conforme disse há pouco tempo, a abertura das fronteiras e garantia da facilitação do comércio é uma questão que está ao nível mais alto da vontade política, é preciso vontade política, da vontade técnica mas o que é importante neste momento e o que estamos a fazer aqui, está a acontecer na África do Sul, Namíbia e acho que está também a acontecer em Moçambique é que mais do que nunca, há necessidade de se comprar produtos locais e se apoiar a produção local, esta é uma forma de assegurar que o sector agrícola não seja afectado pela queda da cadeia global de fornecimento de produtos.

O que espera do sector agrícola a médio e longo prazo em África?

Crescimento.

Crescimento?

É isso, sim

Crescimento, mas que tipo de crescimento?

É apenas crescimento, conforme disse há bocado, as tendências mundiais apontam a agricultura como sendo a principal componente, com a introdução da tecnologia, introdução de TICs, seja qual for o caso, a agricultura sempre permanecerá importante, por isso é importante que continuemos a trabalhar em cada área orgânica e assegurarmos que seja uma área bastante produtiva e como países africanos, temos que trabalhar nessas áreas e adoptar a tecnologia quando vier. É importante porque o crescimento do sector agrícola não pode ser recusado.

Que tipo de combinação deve ser feita entre o investimento do governo e do sector privado para garantirmos o crescimento?

Acho que já respondi essa questão, falei disso, acredito que respondi essa questão há pouco tempo quando disse que não deve ser apenas o governo a impulsionar o investimento, também o sector privado tem um papel a desempenhar porque ao governo cabe facilitar o investimento e ao sector privado cabe investir e produzir; portanto, precisamos de ver esses dois intervenientes a desempenharem o papel simbiótico que é necessário.

A razão de colocar essa questão de novo é porque às vezes quando se pensa na agricultura, os investidores querem ver resultados imediatos, mas o ciclo da agricultura é muito extenso que não pode gerar resultados em curto espaço de tempo. Às vezes leva três, quatro ou cinco anos…

Acho que depende de quem olhas como investidor, geralmente as pessoas que investem na agricultura entendem o ciclo do negócio na agricultura e o ciclo da produção, assim sendo, ADFI como Departamento de Agricultura irá, neste momento, te informar que apenas colectamos pagamentos duas vezes por ano porque sabemos que as colheitas são feitas duas vezes ao ano e portanto, teremos os pagamento duas vezes por ano depois do período de colheita, é o que geralmente acontece; e dão um período mais longo às empresas para se fixarem, por isso o Departamento de Agricultura é importante no papel que desempenha, mas quando eu vivia no Gana havia muitos investidores privados que tinham como alvo todo o mercado, desde Portugal, Espanha, EUA e em outros países e porque trabalham nesse espaço, e porque ajudam na cadeia global de fornecimento e na cadeia de valores, eles sabem qual é o tempo necessário para se obter benefícios nessa indústria, alguém que espera ganhar dinheiro depois de três meses, claramente não faz parte dos investidores da agricultura.

Docente e estudantes de nutrição do Instituto Superior de Ciências de Saúde entendem que grande parte dos moçambicanos consome produtos sem consciência do seu valor nutricional. Por isso, os painelistas da Mozgrow defendem a consciencialização dos agregados familiares sobre a dieta alimentar.

O que comemos, como comemos e que valor nutricional carregam os produtos que consumimos?

“A alimentação saudável está, inteiramente, ligada a alimentação equilibrada, que é aquela que reúne cada alimento do grupo alimentar”, começou por explicar, Marta Ndlalane, estudante finalista de nutrição do Instituto Superior de Ciências de Saúde (ISCISA), que de seguida mostrou um exemplo do que seria uma dieta saudável:

“No cartaz “a nossa alimentação” temos todos os produtos que compõem a alimentação saudável. Temos os alimentos de base, que são os que o organismo precisa em primeira necessidade, os construtores, usados pelo nosso organismo para a construção de tecidos, de energia concentrada que o organismo precisa, em pequenas quantidades (não devemos exegerar porque podem nos trazer problemas de saúde”, enumerou Marta Ndlalate.

À Marta Ndlalate junta-se Ágil Come, também estudante finalista de nutrição no ISCISA. “A alimentação consciente é aquela em que a escolha dos alimentos é feita com base no seu valor.. A pessoa deve saber o que comprar como é que pode processar os alimentos de modo a preservar o seu valor nutricional”, indicou Ágil Come.

É uma lógica que, para os estudantes e docente do Instituto Superior das Ciências de Saúde que debateram na plataforma MOZGROW “Alimentação Saudável e Consciente”, não é seguida pela maioria dos moçambicanos, o que se reflecte nos elevados índices de desnutrição crónica no país.

“É importante aqui resgatar, de novo, esse tema de alimentação consciente porque esta questão vai muito mais além do que o próprio consumo. Digo isso porque há uma necessidade de aceitarmos a questão da escolha. Como é que os indivíduos escolhem os alimentos para poder compor a sua alimentação. Será que esses indivíduos olham para o rótulo do alimento, olham para a questão da origem do alimento, embalagem, sustentabilidade”, apontou Janete Mabui, docente de nutrição no ISCISA, acrescentando que é preciso que tome em conta a forma como os indivíduos manipulam e conservam os alimentos de forma a preservar o seu valor nutricional.

Debater alimentação saudável e consciente implica, igualmente, desconstruir tabus sobre alguns alimentos e as frutas cujas cascas podem ser consumidas, são um exemplo disso.

“Existe certas frutas que não é possível consumir a sua casca. Há certas propriedades da fruta que estão mais concentradas na casca e que podem provocar problemas de saúde, como as toxinas que estão mais na casca que na fruta”, indicou a estudante finalista de nutrição, Marta Ndlalate.

Por isso, ela defende que há necessidade de ver qual é a casca que podemos consumir. A título de exemplo, temos a maçã que deve-se consumir com a própria casca, mas “o abacate deve se retirar a casca porque ela não digerível no nosso organismo”.

Uma dieta nutricional e alimentação saudável estão, igualmente, ao tipo de produtos que consumimos logo nas primeiras horas do dia. “Nós, como especialistas na área de nutrição e estudantes, recomendamos o não uso de alimentos altamente industrializados. Os refrigerantes têm muito açúcar e isso é prejudicial à saúde. As bolachas são alimentos processados”, rejeitou Ágil Come.

O aspirante a nutricionista defende maneiras dinâmicas de preparar alimentos de forma natural que não levem muito tempo ao acordar para poder consumir. “Temos como por exemplo, os tubérculos. Nós podemos fervê-los no dia anterior. Essa é uma opção saudável em relação às bolachas”, fundamentou.

Os painelistas defendem a consciencialização dos agregados familiares em matéria de uma alimentação saudável e equilibrada como forma de evitar problemas de saúde decorrente dos alimentos.

“É a questão mesmo da consciencialização do consumo do alimento e é por isso que resgatamos o assunto do consumo consciente. Da falta de conhecimento do valor nutricional, do facto de termos que nos questionarmos sobre o que estou a comer, estou a ser oferecido como alimento”, sugeriu Janete Mabui, docente de nutrição.

Os nutricionistas não recomendam o consumo excessivo do hambúrguer por ser um alimento de alta densidade energética e com muitas gorduras saturadas.

O Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Banco Nacional de Investimento (BNI) apresenta estratégia adoptada pelo BNI para o financiamento à agricultura familiar, face as dificuldades que este seguimento enfrenta para o acesso ao crédito bancário tradicional.

Acompanhe na íntegra a entrevista a Tomás Matola, no âmbito da segunda edição da MOZGROW.

O Banco Nacional de Investimento posiciona-se como um banco que aposta para o desenvolvimento sustentável em Moçambique. Qual é a diferença que o BNI tem em relação aos outros bancos comerciais?

A primeira grande questão entre o banco de desenvolvimento e os outros bancos comerciais está na própria natureza. Enquanto bancos comerciais, são bancos, normalmente detidos por investidores privados que, existindo pretendem a maximização de lucros, o banco de desenvolvimento é um banco normalmente detido parcial ou totalmente pelo Estado, cuja missão é promover o desenvolvimento socioeconómico sustentável, financiando projectos de infra-estruturas e o sector produtivo com impacto relevante para a economia. As diferenças são várias, mas eu gostaria de me concentrar em três que a primeira tem a ver com as próprias fontes de financiamento dos bancos, a segunda as condições de financiamento às empresas e a terceira, o tipo de projectos financiados sob ponto de vista de impactos esperados. Primeiro, em termos de fontes de financiamento, as principais fontes de financiamento dos bancos comerciais são os depósitos, que têm a maturidade máxima até um ano, enquanto a principal fonte de financiamento de um banco e desenvolvimento são os recursos públicos, portanto recursos do tesouro que são destinados a promover o desenvolvimento. São transferidos para a economia através de um banco de desenvolvimento. Infelizmente, o BNI foi criado num contexto adverso e até agora não se tem ainda beneficiado desta importante fonte de financiamento que são os recursos do Estado e tem utilizado como principal fonte os empréstimos. Empréstimos obrigacionistas para o financiamento do balanço em meticais, empréstimo bancário de outras instituições financeiras de desenvolvimento, neste caso internacionais, para o financiamento em moeda estrangeira. Portanto, para o BNI, neste momento, a principal fonte de financiamento no painel da segunda edição da MOZGROW, subordinado ao tema: “Financiamento de Transformação de Agro-negócios”, o Presidente da Comissão Executiva do Banco Nacional de Investimento abordou as vários formas de acesso ao crédito bancário pelo sector agrícola no país, os desafios, soluções e as perspectivas do sector agrícola.

Mas há perspectivas que o BNI possa, nos próximos tempos, de facto também ter o financiamento por parte dos fundos públicos?

Sim. Estamos a trabalhar com o Governo para ver se nos próximos anos começamos, de facto, a beneficiar deste financiamento porque só assim vamos, de facto, desempenhar nosso papel como banco de desenvolvimento. Mas nós compreendemos. Estamos a viver períodos de crises. O próprio Governo tem estado a enfrentar dificuldades e é, exactamente, por isso que nós procuramos alternativas para ainda assim continuarmos a desempenhar a nossa função. A outra diferença importante, são as condições de financiamento às empresas. Enquanto os bancos comerciais financiam em condições de mercado, comerciais, sobretudo de preço e taxas de juro de mercado, o banco de desenvolvimento tem que financiar em condições mais acessíveis de taxa e de prazo. Taxas de juro mais baixas, prazos mais longos, quer dizer, mais ajustados o perfil de risco e retorno dos projectos. Exactamente pelo facto de o financiamento do banco de desenvolvimento ser por fundos públicos que são mais baratos, este banco deve repassá-los a economia, aqueles projectos com mais impacto social taxa de juro, também mais baixa. Neste caso que ainda não beneficiamos do financiamento de fundos públicos para o nosso balanço, o que temos feitos é, os empréstimos quem têm estado a financiar o nosso balanço, procuramos negociá-los com os nossos investidores, no sentido de que estejam a taxas de juro mais baixas, a prazos mais ajustados para que também possamos repassar estes cursos em condições acessíveis para as empresas que, efectivamente, demandam recursos mais acessíveis quem têm impacto social para a economia, mas esperamos que quando o país estiver em condições de investir no BNI como um banco de desenvolvimento, conseguiremos dar condições de financiamento ainda mais baixas e acessíveis do que conseguimos agora. A terceira diferença importante tem a ver com o tipo de projectos financiados do ponto de vista do impacto esperado. Enquanto os bancos comerciais perseguem a maximização do lucro, naturalmente que eles olham para projectos apenas, financeiramente viáveis enquanto para nós, para além de serem financeiramente viáveis, os projectos devem ser, socialmente viáveis. Ou seja, nós não olhamos apenas para a viabilidade financeira, mas sim a económica, mas sobretudo a social dos projectos. Isto é, este projecto que impactos vai gerar quantos empregos vai gerar, que ligações empresariais este projecto vai criar, quantos outros negócios este projecto vai mover, em termos de valor, quanto é que este projecto vai gerar de novos impostos. Na verdade, nós olhamos para todos os impactos que projecto poderá gerar para podermos financiá-lo. O que significa que mesmo que o projecto seja financeiramente viável, se ele não nos demonstrar uma viabilidade social, significa que o projecto pode ser financiado via banco comercial, é um projecto comercial. Para dar um exemplo, um projecto poder ser muito bom e financeiramente viável, mas quantos empregos vai gerar, dois ou três, existem esses tipos de projecto. Para nós não nos interessa, a banca comercial pode financiar. Esta é uma diferença também, extremamente importante entre o banco de desenvolvimento e banco comercial. Gostaria de fechar esse ponto, esclarecendo que nós não concorremos com a banca comercial. Pela minha explicação que dei, percebe-se que nós nos complementamos por que muitas vezes, nós entramos onde banca comercial não se interessa.

Muitas vezes, há aqueles projectos que não são muito apetecíveis para a banca comercial porque as taxas de retorno que eram esperadas são mais baixas ou porque o período de investimento é mais longo, no entanto esse projecto tem impacto social, para banca comercial, naturalmente que não vai interessar muito, mas para nós interessa porque tem um impacto social e somos um banco do Estado então temos que entrar para promover esse negócio.

Os objectivos do desenvolvimento sustentável estabelecem entre outros, a fome zero e a agricultura sustentável bem como promoção do trabalho digno. Qual deve ser o papel da banca de desenvolvimento na materialização desses objectivos?

O papel da banca de desenvolvimento tem que ser, essencialmente, encontrar soluções financeiras que sejam ajustadas ao perfil de risco de retorno do sector do agronegócio, nomeadamente, financiar e assistir todos os intervenientes da cadeia de valor do sector do agronegócio, encontrar soluções que permitam a redução do risco e crédito que é perseguido e determinado pelos bancos comercias, o que acaba afectando o nível de acesso o financiamento bancário por parte dos projectos do agronegócio, procurando olhar para cada um dos intervenientes e ver como financiar, como assisti-lo de modo que não se quebre a cadeia. Que haja certeza de que, cada interveniente na cadeia vai ter o mercado e o banco ter garantia de que ele vai gerar recursos para poder fazer face ao financiamento. Portanto, tem que encontrar soluções em termos de instrumentos de cobertura de risco de crédito como fundo de garantia, este é o papel do banco de desenvolvimento, mas também olhando para outra fonte de risco dos projectos do agronegócio, particularmente da agricultura que é a despreparação ou falta de capacidade por parte dos operadores de produção de planos no âmbito de estruturação dos seus negócios, o banco de desenvolvimento tem esse papel de assistir apoiar esses intervenientes, produtores na estruturação dos seus projectos, elaboração de planos de negócio para que eles sejam, de facto, bancáveis. Quer dizer, o banco de desenvolvimento não deve olhar apenas para aqueles projectos que já estão bem estruturados e já são bancáveis. Tem que preparar e assessorar os que tem boas ideias, no entanto não conseguem estruturar os projectos, têm bons projectos, mas não estão bem estruturados, não têm planos de negócio. É papel do banco de desenvolvimento financiar essa estruturação e preparação dos planos para assegurar que estes também passem a ser bancáveis. Isso vai ser importante para a redução do risco de crédito para que esses projectos possam até ser financiados pela própria banca comercial. Outro problema importante tem a ver com a fonte de risco dos bancos, dos operadores da agricultura é a questão, e olhando para o nosso país, de parte significativa da produção agrícola, ser por produtores familiares e são que praticam a agricultura, basicamente, de subsistência, não mecanizada, utilizam semente de fraca qualidade ou não certificada e, consequentemente, o nível de produtividade é baixo e o rendimento também vai ser baixo. É papel do banco de desenvolvimento criar condições para o financiamento, a mecanização da produção, ma também criar condições para a utilização de semente de boa qualidade, certificada e também criar condições para capacitação dos produtores para assegurar o aumento da produtividade e do rendimento. Fazendo isso, garante-se a redução do risco de crédito associado à agricultura e nessas condições a agricultura estará em condições de ser financiada pela própria banca comercial. Portanto, estando perante uma agricultura mecanizada, que utiliza semente certificada, que aumenta a produtividade e criando condições para que esta produção seja colocada no mercado, apoiando os outros intervenientes na cadeia, nomeadamente os agro-processadores e os comerciantes que colocam a produção no mercado então o nível de risco reduz porque os bancos têm a garantia de que estes produtores vão se concentrar apenas na produção, vão aumentar a produtividade, tem alguém a quem entregar, tem onde colocar aos distribuidores ou agro-processadores. Portanto, é mais fácil financiar esse agricultor porque há garantia de que os recursos vão ser reembolsados e vai conseguir, de facto, vender, portanto, este é que é o nosso grande papel como banco de desenvolvimento.

Assistência e assessoria aos produtores na elaboração de projectos – E no caso específico do Banco Nacional de Investimento, que tipo de assistência tem sido dada aos agricultores em termos de elaboração, estruturação dos seus planos de negócio?

Nós, conforme disse no início, quando olhamos para a agricultura, olhamos para toda cadeia. Nunca olhamos para um ponto porque aí é comprar o risco e vai ser muito difícil ter o reembolso do valor. Portanto, nós procuramos sempre integrar os intervenientes. Sempre que financiamos um ponto, é porque temos a certeza da sua ligação deste interveniente com os outros que vão garantir, efectivamente, que consiga vender. Como é que nós fazemos isso? No banco, nós temos dois grandes segmentos. O seguimento da banca de desenvolvimento que é responsável por assegurar o financiamento bancário tradicional depois do seguimento da banca de investimento, responsável por assegurar a assessoria financeira na estruturação dos projectos e elaboração de planos de negócio. O que nós fazemos, desenhamos projectos em que identificamos produtores com potencial de um lado e por outro identificamos distribuidores e agro-processadores que também tenham mercado. Olhamos, igualmente, para o seu mercado final e depois para toda a cadeia para ver como é que podemos apoiar toda ela. Os primeiros produtores, que tipo de apoios precisam? Antes mesmo do próprio financiamento, eles precisam mesmo de assistência para a elaboração e estruturação dos seus projectos e aí nós fazemos esse trabalho através do seguimento banca de investimento, mas também através de parcerias com outras instituições do Estado cuja função é promover o desenvolvimento de pequenas e médias empresas, neste caso o IPEME e ele (IPEME) se encarrega de estruturar e elaborar um plano de negócio e apoiar esses produtores. No projecto que nós desenhamos inclui essa componente para o pagamento do IPEME, porque ele está a prestar aqui um serviço. Com projectos bem estruturados, nós entramos e financiamos e depois de financiar, garantimos, através das nossas áreas específicas, mas também da parceria com IPEME e outros intervenientes, como a Agência do Vale do Zambeze, a assistência ao acompanhamento o processo produtivo para assegurar que, de facto, esse beneficiário vai cumprir com o que foi programado. Uma vez feita a produção que estes produtores tenham mercado para colocar ou têm distribuidores por entregar, se forem produtos que sai da machamba como acabados ou têm indústria de agro-processamento para entregar e nós procuramos ver como é que assistimos esses intervenientes. Como é que podemos financiar os distribuidores e os próprios produtores industriais. Então, os financiamos para assegurar que esses vão comprar a produção e depois colocar no mercado. Portanto, assim conseguimos fechar a cadeia e assegurar sucesso nessas operações. Só para dar um exemplo, nós temos estado a contribuir muito para a exportação de cereais como milho, soja e gergelim, mas também de castanha de caju. Fazendo isso, nós conseguimos que estes agro-processadores integrem os produtores familiares sem precisarmos de financiá-los directamente porque nós conseguimos influenciá-los através do financiamento aos agro-processadores. É assim que nós procuramos actuar. Primeiro na própria assistência para assegurar que os projectos estejam bem estruturados, no financiamento para a produção e depois na assistência e financiamento a toda cadeia para assegurar que ninguém fique sem gerar receitas porque tem problemas de colocação no mercado.

A agricultura e o agro-negócio, de uma forma genérica, são sectores estratégicos para o desenvolvimento do país, a questão que coloco em relação a esta afirmação é que avaliação faz da disponibilidade e acessibilidade de o financiamento para este sector em Moçambique?

O nosso entendimento é que a disponibilidade e o acesso ao crédito bancário tradicional para o sector do agro-negócio ainda têm muitos desafios. Entendemos que ainda é insuficiente. Mas é o PCE do BNI defende que os programas governamentais têm sido alternativas, determinantes para financiamento à agricultura familiar ciso explicar porque razões para não se perceber que os bancos já não querem financiar por causa do tipo de agricultura que é praticada. O nível de risco acaba sendo alto porque sendo a agricultura familiar não mecanizada, que utiliza pouca semente certificada, a produtividade é baixa e, consequentemente, rendimento será baixo e isso eleva o risco de crédito, a probabilidade deste produtor gerar não crédito. Mas a outra fonte de risco nesta aspecto é depois da produção, a própria colocação, portanto aqui a ausência de integração dos vários intervenientes da cadeia faz com que o risco seja alto porque mesmo lhe financiando e produzindo, não havendo certeza de onde ele vai colocar o produto, isso eleva o risco do negócio. Depois a terceira fonte é a questão da incapacidade de os próprios produtores familiares, que são a maioria dos produtores agrários em Moçambique, de estruturação dos próprios projectos. Não havendo essa capacidade de estruturação dos projectos, isso limita o seu acesso ao crédito bancário tradicional. Por causa desses factores, posso dizer que o acesso ao crédito bancário tradicional por parte da agricultura ainda é um grande desafio. No entanto e porque o Governo sempre reconheceu a importância estratégica da agricultura estas dificuldades que a agricultura enfrenta face a banca, o executivo sempre criou alternativas de financiamento a agricultura, projectos que visem financiar a agricultura. Actualmente, por exemplo, o Sustenta, mas antes do Sustenta, o FDA é uma instituição do Governo que sempre trabalhou na promoção e financiamento para o desenvolvimento a agricultura, o antigo Incaju, também é uma instituição criada para fomentar a amêndoa da castanha de caju e tantas outras instituições do Estado, que sempre trabalharam na criação de fontes alternativas para apoiar a agricultura. É exactamente por isso que a agricultura continua a liderar, em termos de contribuição dos sectores no nosso Produto Interno Bruto, com cerca de 25% em média, historicamente, a agricultura é o sector com maior contribuição, mesmo com essas dificuldades e acesso ao crédito porque o Governo sempre prestou especial atenção e sempre criou alternativas de financiamento a agricultura para que ela continue a liderar a produção em Moçambique. Agora, com o Sustenta e outros programas acredito que a contribuição o agro-negócio vai melhorar e com o banco de desenvolvimento que é o BNI que também vem apoiando de forma muito forte e que tem projectos em carteira que ainda vai implementar no apoio ao agro-negócio, naturalmente que a contribuição da agricultura vai aumentar. O nosso objectivo é que consigamos substituir as importações, particularmente dos produtos alimentares porque não entendemos que não se justifica que, com as condições climatéricas que nós temos, a terra que temos e o seu nível de fertilidade, continuemos a importar comida, por exemplo, da África do Sul. Então, o grande desafio é esse e nós estamos para contribuir e continuaremos, de facto, a contribuir.

Olhando para essa questão que Dr. Matola acaba e levantar que tem a ver com a estrutura da nossa agricultura associada, por algumas fragilidades, que não obstante a existência delas, ela continua dando a sua contribuição de acima de 20% do PIB, uma das coisas que se coloca tem que ver com o risco que o sector da agricultura representa para a banca. Dr. Matola falou disso, mas queria conduzir essa questão na perspectiva de factores de produção, terra, trabalho e capital. Qual é o elo mais fraco neste trinómio?

Provavelmente seja capital porque terra temos, trabalho também temos embora haja desafios sob ponto de vista de qualificação dos trabalhadores do sector, mas trabalho nós temos muita oferta na agricultura. O sector da agricultura, como indicam as estatísticas, é um dos que mais empregam em Moçambique. O ele mais fraco, eu entendo que seja o capital porque com o capital conseguimos mitigar o impacto do facto de a nossa mão-de-obra não ser qualificada. Podemos, com capital, financiar a formação dos técnicos que trabalham no sector da agricultura. Portanto, o elo mais fraco é o capital. É por isso que o Governo tem estado muito a apostar na disponibilização de recursos financeiros para o financiamento à agricultura e nós, também, como banco de desenvolvimento temos um papel importante na mobilização de recursos financeiros nos mercados internacionais a taxas de juro mais acessíveis para nós para que nós também possamos repassar esses fundos ao agro-negócio a taxas de juro mais acessíveis. Portanto, resumindo, o grande desafio entendo que seja o capital.

Olhando para esta cadeia de produção, há alguma corrente de opinião que olha para esses grandes projectos de financiamento a agricultura como sendo bons, mas de certa forma há um receio de que esse massivo investimento que se está a dar a nossa agricultura sem uma cadeia de valor cada vez mais sólida e robusta e estruturada possa gerar uma cris de super produção a médio e longo prazo. Qual é a sua opinião em relação a esse ponto?

A minha opinião é de que esses investimentos para o sector do agro-negócio devem, também, incorporar uma componente de estruturação de toda cadeia para mitigar esse risco. Ou seja, o investimento na agricultura, não pode se apenas na produção. Porque se o investimento for apenas na produção aí vamos ter esse problema de super produção, mas se o investimento for na produção, mas também na integração dos outros intervenientes da cadeia, portanto produção, agro -processamento e distribuição, aí nós conseguimos mitigar esse risco. É preciso olhar, também, para os elementos que são essenciais para assegurar essa integração: a questão das infra-estruturas. Ainda que haja produção, compradores, indústria para transformar, continuarmos com dificuldades para aceder a alguns locais de produção, aí o risco vai prevalecer. Significa que esses investimentos massivos para a agricultura, devem incorporar uma componente para assistir toda a cadeia. Entendo que o programa Sustenta, os seus mentores olham para isso e percebi, quando li, que está assegurada essa questão. O programa Sustenta, para além de integrar todos os intervenientes, ele assegura o melhoramento de todas infra-estruturas necessárias para o escoamento da produção e assegurar que a produção saia dos pontos de produção para os mercados, centros de processamento, a custos de transação mais baixos. O grande problema da ausência de infra-estruturas é que isto eleva os custos de transação, mesmo que a produção chegue aos mercados, vamos constatar que chega lá a um custo mais alto daí que os preços ficam menos competitivos que a produção importada e isso acontece. Nós temos exemplos. No mercado do Zimpeto, temos produção local, alguma até de Maputo, que, em termos competitivos, não consegue competir com a produção que vem da África do Sul que atravessou a fronteira, pagou impostos por causa dos custos de produção. Muitas vezes os custos de produção estão associados aos custos de transação quando as infra-estruturas não são muito boas e não permitem o acesso fácil às zonas de produção. Em suma, os investimentos ao agro-negócio devem olhar não só para a produção, mas para todos os intervenientes da cadeia. – Sob ponto das nossas estatísticas, os actores que estão envolvidos na agricultura, 90 praticam a agricultura de subsistência ou familiar. A questão que se coloca é como garantir que esta produção do sector familiar possa beneficiar destes apoios, tendo em conta que o objectivo fundamental é fazer com que gradualmente, os agricultores familiares passem para uma agricultura mecanizada com toda a tecnologia possível que lhes possa produzir dentro daquilo que são só prazos já previstos e disponibilizar no mercado em tempo útil para que possa também em tempo útil fazer face às suas obrigações financeiras que possam contratar junto à banca, no caso concreto junto do Banco Nacional de Investimento. O meu entendimento é que, nesta fase em que estamos, quer para o BNI, com banco para o desenvolvimento, quer para os bancos comerciais, não é fácil financiar directamente os produtores familiares. A estratégia que nós adoptamos é utilizar integradores desses produtores familiares, nomeadamente os grandes produtores e a indústria de agro-processamento. Nós financiamos os grandes produtores nos grandes centros de produção e a indústria de agro-processamento a taxas de juro mais baixas e acessíveis sob a condição de eles integrarem os produtores familiares. O que significa que os produtores familiares vão ter acesso a esse financiamento de forma indirecta. Os integradores vão distribuir os insumos de produção, incluindo a tecnologia e equipamento sob a forma de crédito com a garantia de que, uma vez feita a produção, eles vão tomar a produção. O que significa que aqueles produtores familiares vão ter acesso a tecnologia, insumos, equipamentos, a assistência e vão produzir, mas a preocupação deles vai ser só produzir porque eles já sabem que, uma vez produzido, têm onde colocar. Do lado do banco, tem garantia de reembolso porque sabe que este grande produtor, agro-processador financiado tem estrutura que permite ao banco fazer análise de crédito, de risco e decidir se de facto tem mercado para colocar a sua produção. Então o banco está mais seguro em financiar o grande produtor. Do lado dos produtores familiares, porque eles agora têm equipamento, insumos e semente certificada incluindo a assistência a produtividade aumenta e quando a produtividade aumenta, aumenta o rendimento. O que vai acontecer é que ele, com aquele aumento, já vai ter capacidade de, por exemplo, se deslocar para agência do banco comercial do seu distrito para fazer um depósito. Passa a ter a capacidade de ir, como particular, porque muitos dos agricultores familiares não estão estruturados como empresa. É por isso que nós não como financiá-los directamente. Mas como particular, porque ele já tem rendimento garantido, vai ter capacidade de se deslocar ao banco e pedir um empréstimo para comprar uma viatura ou fazer sua casa. O banco vai estar confortável porque sabe que ele está a produzir e logo a seguir tem comprador. Então aí o risco de crédito reduz. Ou seja, nós, com a nossa actuação, sem financiar directamente os produtores familiares, contribuímos para o aumento do seu rendimento para depois criar condições para ele passem a utilizar a banca comercial. É por isso que dizia que a banca para o desenvolvimento e a comercial se complementam porque tudo que fazemos depois vai gerar negócio para a banca comercial. Essa é a actuação.

Nas áreas de actuação, quando falamos das alternativas de financiamento para o sector o agro-negócio, não sob de vista daquilo que o BNI tem, mas as áreas que tem sido estratégicas sob ponto de vista de apoio?

Os apoios que temos dado ao agro-negócio, tem a componente da assistência técnica na componente da estruturação de projectos e a do próprio financiamento. Nós financiamos directamente ao micro pequenos agricultores, aqueles que já estão estruturados como empresas e têm toda a formação legal e financeira que nos permite avaliar e para os produtores familiares, nós intervimos através de financiamento aos integradores, aos grandes produtores e agro-processadores. Os nossos financiamentos são o médio e longo prazo. Todos os financiamentos de curto prazo estão atrelados a um financiamento de longo prazo. Do ponto de vista de impactos, na nossa actuação no agro-negócio, só nos últimos três anos e até a agora a nossa carteira é de cerca de 1.5 mil milhões, geramos empregos directos e indirectos cerca de 63 mil empregos, ou seja, beneficiamos 63 mil famílias. Em termos de beneficiários totais, estamos a falar de 300 mil. Em termos de produção, estamos a falar de cerca de 83 mil toneladas de vários produtos que foram produzidos com a nossa intervenção e em termos de montantes estamos a falar de cerca de 2.5 mil milhões de meticais. Veja que investimos 1.5 mil milhões e em termos de produção gerou-se cerca de 2.5 mil milhões, quase o dobro. Portanto, sentimos que temos estado a contribuir, significativamente, com os nossos produtos para o agro-negócio e mesmo nos casos em que nós não financiamos directamente, que é a agricultura familiar, procuramos influenciar através do financiamento aos integradores e temos estado a contribuir para a geração de rendimento. Em termos de produtos especificamente, voltando a tua questão inicial, nós oferecemos serviços de assessoria, estruturação financeira, elaboração de estudos de viabilidade, mobilidade de recursos financeiros quando nós não conseguimos financiar com o nosso balanço, pedimos mandato do cliente para mobilizar nos mercados internacionais porque há daqueles projectos de agricultura muito grandes que demandam milhões de dólares que, com o nosso balanço, não conseguimos financiar. Nós não rejeitamos porque não podemos financiar, pedimos mandato e mobilizamos e temos estado também a contribuir para agricultura através de financiamentos que são feitos pelos nossos parceiros internacionais. Mas mais ainda nós contribuímos para a redução do nível do risco de crédito, fornecendo instrumentos de cobertura do risco de crédito como fundos de garantia. Temos, por exemplo, um fundo de garantia que estruturamos com o FDA que faz a cobertura do risco de crédito para financiamento a cadeias de agro-negócio até 80 %. Por causa deste fundo, conseguimos que projectos da agricultura fossem financiados a 7% por causa desta cobertura de risco garantido deste fundo. Portanto, esses são outros instrumentos que nós conseguimos providenciar, mas também facilitamos a importação de diversos equipamentos agrícolas através da emissão de cartas de crédito e também emitimos garantias bancárias para facilitar várias transações dos operadores sobretudo na área de agro-processamento.

Que programas de financiamento existem no BNI, visando a promoção do empreendedorismo juvenil em termos de agro-negócio?

Relativamente a promoção do empreendedorismo juvenil, nós temos um programa chamado FAE, que é uma linha de financiamento ao agro-negócio. Tivemos uma fase piloto que foi apenas na região centro do país e cobriu todas as províncias banhadas pelo rio Zambeze e fizemos esse projecto com parceria com a Agência para Desenvolvimento do Vale do Zambeze. Foi um projecto interessante, tanto que agora estamos a mobilizar recursos para expandir o projecto para todo o país. É um projecto que visa promover o empreendedorismo que financia projecto micro e pequenas empresas de jovens, mas mais do que isso a iniciativa financia jovens recém-graduados dos institutos técnicos profissionais de modo que eles ao saírem da formação não engrossem a lista de jovens que estão à procura de emprego, mas têm oportunidades de criar seu próprio negócio empregar-se a si próprios, seus familiares e a sua comunidade. Foi um projecto que teve um impacto muito positivo na região centro, parte significativa dos mercados são abastecidos pela produção desses jovens que nós financiamos. Agora vamos expandir o projecto para outros pontos do país porque foi um projecto muito bem-sucedido e conseguimos criar empresários de zero. Eram jovens que eram singulares, eles conseguiram, com nosso apoio, estruturar em sociedades e empresas e agora são empresários que estão a operar. Queria destacar neste projecto, a parceria que temos com o IPEME, uma entidade de promoção de pequenas e médias empresas pertencente ao Ministério da Indústria e Comércio que é um parceiro muito importante com quem nós trabalhamos, o IPEME tinha a responsabilidade de apoiar todos os jovens na elaboração de planos de negócio para submissão para financiamento. Portanto, todos os projectos que nós financiamos eram projectos que tinham sido alvo de viabilidade com o apoio do IPEME porque naqueles recursos disponibilizamos uma parte para assistência técnica. O próprio IPEME é remunerado quer dizer que não trabalhava de borla. E em todos os nossos projectos procuramos incorporar essa componente que é para assegurar o sucesso. Acreditamos que no próximo ano, esse projecto vai estar em todo o país e vamos poder apoiar mais jovens em Moçambique. Só para dar exemplo de alguns impactos, nós geramos empregos directos e indirectos cerca de 8.500 empregos o que significa que influenciamos 8.500 famílias e em termos de beneficiários finais estamos a falar de cerca de 62 mil pessoas e estamos a falar de cerca de 11.1 mil toneladas de produção de diversos produtos alimentares com maior destaque para tomate, cebola, batata-reno e arroz. Portanto, esses são os produtos de maior destaque, mas há outros e também produção de frangos e ovos. Tudo isso feito por jovens.

Neste capítulo da inclusão, que atenção está a ser dada a mulher rural que está integrada, de certa forma na agricultura e agro-negócio?

Relativamente à mulher, ainda não temos produtos específicos dedicados a mulher, mas o que acontece é que, em todos os nossos projectos e produtos, mulher tem acesso, é elegível e sempre damos um tratamento especial quando se trata de projectos da mulher. Portanto, o tratamento é sempre especial. Vamos no futuro, provavelmente no próximo ano, desenhar projectos específicos para apoiar a mulher, mas ainda assim, nós prestamos atenção nos nossos actuais produtos.

Sem pensar em estágios lineares, que perspectivas se abrem para o futuro tendo em conta a situação da nossa agricultura neste exacto momento?

Eu acho que as perspectivas são muito boas. A recente decisão do Governo de alocar mais recursos financeiros à agricultura, tenho impressão de que vai mudar muita coisa. O programa Sustenta no novo formato não há dúvidas que transformar a nossa agricultura. Nós, também, como banco, estamos a fazer a nossa parte, estamos a mobilizar mais recursos para apoiar a agricultura em toda a sua cadeia de valor. As perspectivas, olhando para esses eventos, na minha óptica são muito boas e acredito que, em poucos anos, provavelmente ainda neste mandato, nós vamos conseguir substituir parte significativa das importações de produtos alimentares. A agricultura, na nossa forma ver, é um sector de presente e do futuro e ainda vai gerar muitos rendimentos, não só para as famílias moçambicanas, mas também para própria economia, no seu todo. Tenho entendimento de que a agricultura vai continuar a liderar a contribuição do Produto Interno Bruto.

Mais menos a dobrar? Estamos a falar de um sector estratégico. Se agora falamos de uma contribuição de 20 a 25%, esperamos que com esse volume de investimentos, essa contribuição possa duplicar nos próximos cinco anos.

Essa contribuição pode duplicar, provavelmente, não nos próximos cinco anos, mas nos próximos dois ou três anos até começar entrada de receitas das operações do gás do Rovuma porque, tenho entendimento de que, nessa altura essas estatísticas de distribuição do PIB por sector vão alterar porque o sector de recursos minerais vai entrar com maior peso. Agora, dependendo da forma como esses recursos vão ser alocados para a diversificação da economia, isso pode fazer com a contribuição da agricultura continue a crescer porque se parte significativa desses recursos forem alocados para apoiar a agricultura, naturalmente que ela vai continuar a aumentar a sua contribuição porque nós o mercado doméstico muito grande para absorver toda a produção da agricultura, mas também temos algum mercado a nível regional. Então temos que começar a pensar que, depois de cobrirmos a demanda local, podemos olhar também os mercados internacionais, tal como alguns subsectores da agricultura têm estado a exportar muito. Portanto, há ainda muito espaço para nós continuarmos a aumentar a produção.

Com isto, Dr. Matola está a considerar que, com uma agricultura bem estruturada e producente, podemos ter, de facto, nos próximos anos, Moçambique a experimentar um crescimento no índice de desenvolvimento humano?

Com certeza porque com o investimento, a agricultura tem essa grande capacidade de afectar directamente os produtores familiares e as zonas rurais. É nas zonas rurais, onde temos maiores índices de pobreza. Agora, se nós apostamos numa agricultura que afecta as zonas rurais, naturalmente que os nossos índices de desenvolvimento humano vão melhorar significativamente. E essa abordagem que eu expliquei de apontar para agricultura familiar através do financiamento dos integradores, que permite que os agricultores familiares, ainda que não tenham capacidade de aceder directamente a banca ou financiamentos, eles poderão ter acesso aos insumos, produzir e colocar a sua produção, não haverá dúvidas de que nós estaremos, de facto, a caminhar para um desenvolvimento sustentável, no sentido de que ele consegue absorver todas as camadas sociais, sobretudo para a camada que é maioritária que é das zonas rurais, a mais afectada pelos níveis de pobreza.

O Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Banco Nacional de Investimento (BNI) apresenta a estratégia adoptada pelo BNI para o financiamento à agricultura familiar, face as dificuldades que este seguimento enfrenta para o acesso ao crédito bancário tradicional. Acompanhe na íntegra a entrevista a Tomás Matola, no âmbito da segunda edição da MOZGROW.

O Banco Nacional de Investimento posiciona-se como um banco que aposta para o desenvolvimento sustentável em Moçambique. Qual é a diferença que o BNI tem em relação aos outros bancos comerciais?

A primeira grande questão entre o banco de desenvolvimento e os outros bancos comerciais está na própria natureza. Enquanto bancos comerciais, são bancos, normalmente detidos por investidores privados que, existindo pretendem a maximização de lucros, o banco de desenvolvimento é um banco normalmente detido parcial ou totalmente pelo Estado, cuja missão é promover o desenvolvimento socioeconómico sustentável, financiando projectos de infra-estruturas e o sector produtivo com impacto relevante para a economia. As diferenças são várias, mas eu gostaria de me concentrar em três que a primeira tem a ver com as próprias fontes de financiamento dos bancos, a segunda as condições de financiamento às empresas e a terceira, o tipo de projectos financiados sob ponto de vista de impactos esperados. Primeiro, em termos de fontes de financiamento, as principais fontes de financiamento dos bancos comerciais são os depósitos, que têm a maturidade máxima até um ano, enquanto a principal fonte de financiamento de um banco e desenvolvimento são os recursos públicos, portanto recursos do tesouro que são destinados a promover o desenvolvimento. São transferidos para a economia através de um banco de desenvolvimento. Infelizmente, o BNI foi criado num contexto adverso e até agora não se tem ainda beneficiado desta importante fonte de financiamento que são os recursos do Estado e tem utilizado como principal fonte os empréstimos. Empréstimos obrigacionistas para o financiamento do balanço em meticais, empréstimo bancário de outras instituições financeiras de desenvolvimento, neste caso internacionais, para o financiamento em moeda estrangeira. Portanto, para o BNI, neste momento, a principal fonte de financiamento no painel da segunda edição da MOZGROW, subordinado ao tema: “Financiamento de Transformação de Agro-negócios”, o Presidente da Comissão Executiva do Banco Nacional de Investimento abordou as vários formas de acesso ao crédito bancário pelo sector agrícola no país, os desafios, soluções e as perspectivas do sector agrícola.

Mas há perspectivas que o BNI possa, nos próximos tempos, de facto também ter o financiamento por parte dos fundos públicos?

Sim. Estamos a trabalhar com o Governo para ver se nos próximos anos começamos, de facto, a beneficiar deste financiamento porque só assim vamos, de facto, desempenhar nosso papel como banco de desenvolvimento. Mas nós compreendemos. Estamos a viver períodos de crises. O próprio Governo tem estado a enfrentar dificuldades e é, exactamente, por isso que nós procuramos alternativas para ainda assim continuarmos a desempenhar a nossa função. A outra diferença importante, são as condições de financiamento às empresas. Enquanto os bancos comerciais financiam em condições de mercado, comerciais, sobretudo de preço e taxas de juro de mercado, o banco de desenvolvimento tem que financiar em condições mais acessíveis de taxa e de prazo. Taxas de juro mais baixas, prazos mais longos, quer dizer, mais ajustados o perfil de risco e retorno dos projectos. Exactamente pelo facto de o financiamento do banco de desenvolvimento ser por fundos públicos que são mais baratos, este banco deve repassá-los a economia, aqueles projectos com mais impacto social taxa de juro, também mais baixa. Neste caso que ainda não beneficiamos do financiamento de fundos públicos para o nosso balanço, o que temos feitos é, os empréstimos quem têm estado a financiar o nosso balanço, procuramos negociá-los com os nossos investidores, no sentido de que estejam a taxas de juro mais baixas, a prazos mais ajustados para que também possamos repassar estes cursos em condições acessíveis para as empresas que, efectivamente, demandam recursos mais acessíveis quem têm impacto social para a economia, mas esperamos que quando o país estiver em condições de investir no BNI como um banco de desenvolvimento, conseguiremos dar condições de financiamento ainda mais baixas e acessíveis do que conseguimos agora. A terceira diferença importante tem a ver com o tipo de projectos financiados do ponto de vista do impacto esperado. Enquanto os bancos comerciais perseguem a maximização do lucro, naturalmente que eles olham para projectos apenas, financeiramente viáveis enquanto para nós, para além de serem financeiramente viáveis, os projectos devem ser, socialmente viáveis. Ou seja, nós não olhamos apenas para a viabilidade financeira, mas sim a económica, mas sobretudo a social dos projectos. Isto é, este projecto que impactos vai gerar quantos empregos vai gerar, que ligações empresariais este projecto vai criar, quantos outros negócios este projecto vai mover, em termos de valor, quanto é que este projecto vai gerar de novos impostos. Na verdade, nós olhamos para todos os impactos que projecto poderá gerar para podermos financiá-lo. O que significa que mesmo que o projecto seja financeiramente viável, se ele não nos demonstrar uma viabilidade social, significa que o projecto pode ser financiado via banco comercial, é um projecto comercial. Para dar um exemplo, um projecto poder ser muito bom e financeiramente viável, mas quantos empregos vai gerar, dois ou três, existem esses tipos de projecto. Para nós não nos interessa, a banca comercial pode financiar. Esta é uma diferença também, extremamente importante entre o banco de desenvolvimento e banco comercial. Gostaria de fechar esse ponto, esclarecendo que nós não concorremos com a banca comercial. Pela minha explicação que dei, percebe-se que nós nos complementamos por que muitas vezes, nós entramos onde banca comercial não se interessa.

Muitas vezes, há aqueles projectos que não são muito apetecíveis para a banca comercial porque as taxas de retorno que eram esperadas são mais baixas ou porque o período de investimento é mais longo, no entanto esse projecto tem impacto social, para banca comercial, naturalmente que não vai interessar muito, mas para nós interessa porque tem um impacto social e somos um banco do Estado então temos que entrar para promover esse negócio.

Os objectivos do desenvolvimento sustentável estabelecem entre outros, a fome zero e a agricultura sustentável bem como promoção do trabalho digno. Qual deve ser o papel da banca de desenvolvimento na materialização desses objectivos?

O papel da banca de desenvolvimento tem que ser, essencialmente, encontrar soluções financeiras que sejam ajustadas ao perfil de risco de retorno do sector do agronegócio, nomeadamente, financiar e assistir todos os intervenientes da cadeia de valor do sector do agronegócio, encontrar soluções que permitam a redução do risco e crédito que é perseguido e determinado pelos bancos comercias, o que acaba afectando o nível de acesso o financiamento bancário por parte dos projectos do agronegócio, procurando olhar para cada um dos intervenientes e ver como financiar, como assisti-lo de modo que não se quebre a cadeia. Que haja certeza de que, cada interveniente na cadeia vai ter o mercado e o banco ter garantia de que ele vai gerar recursos para poder fazer face ao financiamento. Portanto, tem que encontrar soluções em termos de instrumentos de cobertura de risco de crédito como fundo de garantia, este é o papel do banco de desenvolvimento, mas também olhando para outra fonte de risco dos projectos do agronegócio, particularmente da agricultura que é a despreparação ou falta de capacidade por parte dos operadores de produção de planos no âmbito de estruturação dos seus negócios, o banco de desenvolvimento tem esse papel de assistir apoiar esses intervenientes, produtores na estruturação dos seus projectos, elaboração de planos de negócio para que eles sejam, de facto, bancáveis. Quer dizer, o banco de desenvolvimento não deve olhar apenas para aqueles projectos que já estão bem estruturados e já são bancáveis. Tem que preparar e assessorar os que tem boas ideias, no entanto não conseguem estruturar os projectos, têm bons projectos, mas não estão bem estruturados, não têm planos de negócio. É papel do banco de desenvolvimento financiar essa estruturação e preparação dos planos para assegurar que estes também passem a ser bancáveis. Isso vai ser importante para a redução do risco de crédito para que esses projectos possam até ser financiados pela própria banca comercial. Outro problema importante tem a ver com a fonte de risco dos bancos, dos operadores da agricultura é a questão, e olhando para o nosso país, de parte significativa da produção agrícola, ser por produtores familiares e são que praticam a agricultura, basicamente, de subsistência, não mecanizada, utilizam semente de fraca qualidade ou não certificada e, consequentemente, o nível de produtividade é baixo e o rendimento também vai ser baixo. É papel do banco de desenvolvimento criar condições para o financiamento, a mecanização da produção, ma também criar condições para a utilização de semente de boa qualidade, certificada e também criar condições para capacitação dos produtores para assegurar o aumento da produtividade e do rendimento. Fazendo isso, garante-se a redução do risco de crédito associado à agricultura e nessas condições a agricultura estará em condições de ser financiada pela própria banca comercial. Portanto, estando perante uma agricultura mecanizada, que utiliza semente certificada, que aumenta a produtividade e criando condições para que esta produção seja colocada no mercado, apoiando os outros intervenientes na cadeia, nomeadamente os agro-processadores e os comerciantes que colocam a produção no mercado então o nível de risco reduz porque os bancos têm a garantia de que estes produtores vão se concentrar apenas na produção, vão aumentar a produtividade, tem alguém a quem entregar, tem onde colocar aos distribuidores ou agro-processadores. Portanto, é mais fácil financiar esse agricultor porque há garantia de que os recursos vão ser reembolsados e vai conseguir, de facto, vender, portanto, este é que é o nosso grande papel como banco de desenvolvimento.

Assistência e assessoria aos produtores na elaboração de projectos – E no caso específico do Banco Nacional de Investimento, que tipo de assistência tem sido dada aos agricultores em termos de elaboração, estruturação dos seus planos de negócio?

Nós, conforme disse no início, quando olhamos para a agricultura, olhamos para toda cadeia. Nunca olhamos para um ponto porque aí é comprar o risco e vai ser muito difícil ter o reembolso do valor. Portanto, nós procuramos sempre integrar os intervenientes. Sempre que financiamos um ponto, é porque temos a certeza da sua ligação deste interveniente com os outros que vão garantir, efectivamente, que consiga vender. Como é que nós fazemos isso? No banco, nós temos dois grandes segmentos. O seguimento da banca de desenvolvimento que é responsável por assegurar o financiamento bancário tradicional depois do seguimento da banca de investimento, responsável por assegurar a assessoria financeira na estruturação dos projectos e elaboração de planos de negócio. O que nós fazemos, desenhamos projectos em que identificamos produtores com potencial de um lado e por outro identificamos distribuidores e agro-processadores que também tenham mercado. Olhamos, igualmente, para o seu mercado final e depois para toda a cadeia para ver como é que podemos apoiar toda ela. Os primeiros produtores, que tipo de apoios precisam? Antes mesmo do próprio financiamento, eles precisam mesmo de assistência para a elaboração e estruturação dos seus projectos e aí nós fazemos esse trabalho através do seguimento banca de investimento, mas também através de parcerias com outras instituições do Estado cuja função é promover o desenvolvimento de pequenas e médias empresas, neste caso o IPEME e ele (IPEME) se encarrega de estruturar e elaborar um plano de negócio e apoiar esses produtores. No projecto que nós desenhamos inclui essa componente para o pagamento do IPEME, porque ele está a prestar aqui um serviço. Com projectos bem estruturados, nós entramos e financiamos e depois de financiar, garantimos, através das nossas áreas específicas, mas também da parceria com IPEME e outros intervenientes, como a Agência do Vale do Zambeze, a assistência ao acompanhamento o processo produtivo para assegurar que, de facto, esse beneficiário vai cumprir com o que foi programado. Uma vez feita a produção que estes produtores tenham mercado para colocar ou têm distribuidores por entregar, se forem produtos que sai da machamba como acabados ou têm indústria de agro-processamento para entregar e nós procuramos ver como é que assistimos esses intervenientes. Como é que podemos financiar os distribuidores e os próprios produtores industriais. Então, os financiamos para assegurar que esses vão comprar a produção e depois colocar no mercado. Portanto, assim conseguimos fechar a cadeia e assegurar sucesso nessas operações. Só para dar um exemplo, nós temos estado a contribuir muito para a exportação de cereais como milho, soja e gergelim, mas também de castanha de caju. Fazendo isso, nós conseguimos que estes agro-processadores integrem os produtores familiares sem precisarmos de financiá-los directamente porque nós conseguimos influenciá-los através do financiamento aos agro-processadores. É assim que nós procuramos actuar. Primeiro na própria assistência para assegurar que os projectos estejam bem estruturados, no financiamento para a produção e depois na assistência e financiamento a toda cadeia para assegurar que ninguém fique sem gerar receitas porque tem problemas de colocação no mercado.

 

A agricultura e o agro-negócio, de uma forma genérica, são sectores estratégicos para o desenvolvimento do país, a questão que coloco em relação a esta afirmação é que avaliação faz da disponibilidade e acessibilidade de o financiamento para este sector em Moçambique?

O nosso entendimento é que a disponibilidade e o acesso ao crédito bancário tradicional para o sector do agro-negócio ainda têm muitos desafios. Entendemos que ainda é insuficiente. Mas é o PCE do BNI defende que os programas governamentais têm sido alternativas, determinantes para financiamento à agricultura familiar ciso explicar porque razões para não se perceber que os bancos já não querem financiar por causa do tipo de agricultura que é praticada. O nível de risco acaba sendo alto porque sendo a agricultura familiar não mecanizada, que utiliza pouca semente certificada, a produtividade é baixa e, consequentemente, rendimento será baixo e isso eleva o risco de crédito, a probabilidade deste produtor gerar não crédito. Mas a outra fonte de risco nesta aspecto é depois da produção, a própria colocação, portanto aqui a ausência de integração dos vários intervenientes da cadeia faz com que o risco seja alto porque mesmo lhe financiando e produzindo, não havendo certeza de onde ele vai colocar o produto, isso eleva o risco do negócio. Depois a terceira fonte é a questão da incapacidade de os próprios produtores familiares, que são a maioria dos produtores agrários em Moçambique, de estruturação dos próprios projectos. Não havendo essa capacidade de estruturação dos projectos, isso limita o seu acesso ao crédito bancário tradicional. Por causa desses factores, posso dizer que o acesso ao crédito bancário tradicional por parte da agricultura ainda é um grande desafio. No entanto e porque o Governo sempre reconheceu a importância estratégica da agricultura estas dificuldades que a agricultura enfrenta face a banca, o executivo sempre criou alternativas de financiamento a agricultura, projectos que visem financiar a agricultura. Actualmente, por exemplo, o Sustenta, mas antes do Sustenta, o FDA é uma instituição do Governo que sempre trabalhou na promoção e financiamento para o desenvolvimento a agricultura, o antigo Incaju, também é uma instituição criada para fomentar a amêndoa da castanha de caju e tantas outras instituições do Estado, que sempre trabalharam na criação de fontes alternativas para apoiar a agricultura. É exactamente por isso que a agricultura continua a liderar, em termos de contribuição dos sectores no nosso Produto Interno Bruto, com cerca de 25% em média, historicamente, a agricultura é o sector com maior contribuição, mesmo com essas dificuldades e acesso ao crédito porque o Governo sempre prestou especial atenção e sempre criou alternativas de financiamento a agricultura para que ela continue a liderar a produção em Moçambique. Agora, com o Sustenta e outros programas acredito que a contribuição o agro-negócio vai melhorar e com o banco de desenvolvimento que é o BNI que também vem apoiando de forma muito forte e que tem projectos em carteira que ainda vai implementar no apoio ao agro-negócio, naturalmente que a contribuição da agricultura vai aumentar. O nosso objectivo é que consigamos substituir as importações, particularmente dos produtos alimentares porque não entendemos que não se justifica que, com as condições climatéricas que nós temos, a terra que temos e o seu nível de fertilidade, continuemos a importar comida, por exemplo, da África do Sul. Então, o grande desafio é esse e nós estamos para contribuir e continuaremos, de facto, a contribuir.

Olhando para essa questão que Dr. Matola acaba e levantar que tem a ver com a estrutura da nossa agricultura associada, por algumas fragilidades, que não obstante a existência delas, ela continua dando a sua contribuição de acima de 20% do PIB, uma das coisas que se coloca tem que ver com o risco que o sector da agricultura representa para a banca. Dr. Matola falou disso, mas queria conduzir essa questão na perspectiva de factores de produção, terra, trabalho e capital. Qual é o elo mais fraco neste trinómio?

Provavelmente seja capital porque terra temos, trabalho também temos embora haja desafios sob ponto de vista de qualificação dos trabalhadores do sector, mas trabalho nós temos muita oferta na agricultura. O sector da agricultura, como indicam as estatísticas, é um dos que mais empregam em Moçambique. O ele mais fraco, eu entendo que seja o capital porque com o capital conseguimos mitigar o impacto do facto de a nossa mão-de-obra não ser qualificada. Podemos, com capital, financiar a formação dos técnicos que trabalham no sector da agricultura. Portanto, o elo mais fraco é o capital. É por isso que o Governo tem estado muito a apostar na disponibilização de recursos financeiros para o financiamento à agricultura e nós, também, como banco de desenvolvimento temos um papel importante na mobilização de recursos financeiros nos mercados internacionais a taxas de juro mais acessíveis para nós para que nós também possamos repassar esses fundos ao agro-negócio a taxas de juro mais acessíveis. Portanto, resumindo, o grande desafio entendo que seja o capital.

Olhando para esta cadeia de produção, há alguma corrente de opinião que olha para esses grandes projectos de financiamento a agricultura como sendo bons, mas de certa forma há um receio de que esse massivo investimento que se está a dar a nossa agricultura sem uma cadeia de valor cada vez mais sólida e robusta e estruturada possa gerar uma cris de super produção a médio e longo prazo. Qual é a sua opinião em relação a esse ponto?

A minha opinião é de que esses investimentos para o sector do agro-negócio devem, também, incorporar uma componente de estruturação de toda cadeia para mitigar esse risco. Ou seja, o investimento na agricultura, não pode se apenas na produção. Porque se o investimento for apenas na produção aí vamos ter esse problema de super produção, mas se o investimento for na produção, mas também na integração dos outros intervenientes da cadeia, portanto produção, agro -processamento e distribuição, aí nós conseguimos mitigar esse risco. É preciso olhar, também, para os elementos que são essenciais para assegurar essa integração: a questão das infra-estruturas. Ainda que haja produção, compradores, indústria para transformar, continuarmos com dificuldades para aceder a alguns locais de produção, aí o risco vai prevalecer. Significa que esses investimentos massivos para a agricultura, devem incorporar uma componente para assistir toda a cadeia. Entendo que o programa Sustenta, os seus mentores olham para isso e percebi, quando li, que está assegurada essa questão. O programa Sustenta, para além de integrar todos os intervenientes, ele assegura o melhoramento de todas infra-estruturas necessárias para o escoamento da produção e assegurar que a produção saia dos pontos de produção para os mercados, centros de processamento, a custos de transação mais baixos. O grande problema da ausência de infra-estruturas é que isto eleva os custos de transação, mesmo que a produção chegue aos mercados, vamos constatar que chega lá a um custo mais alto daí que os preços ficam menos competitivos que a produção importada e isso acontece. Nós temos exemplos. No mercado do Zimpeto, temos produção local, alguma até de Maputo, que, em termos competitivos, não consegue competir com a produção que vem da África do Sul que atravessou a fronteira, pagou impostos por causa dos custos de produção. Muitas vezes os custos de produção estão associados aos custos de transação quando as infra-estruturas não são muito boas e não permitem o acesso fácil às zonas de produção. Em suma, os investimentos ao agro-negócio devem olhar não só para a produção, mas para todos os intervenientes da cadeia. – Sob ponto das nossas estatísticas, os actores que estão envolvidos na agricultura, 90 praticam a agricultura de subsistência ou familiar. A questão que se coloca é como garantir que esta produção do sector familiar possa beneficiar destes apoios, tendo em conta que o objectivo fundamental é fazer com que gradualmente, os agricultores familiares passem para uma agricultura mecanizada com toda a tecnologia possível que lhes possa produzir dentro daquilo que são só prazos já previstos e disponibilizar no mercado em tempo útil para que possa também em tempo útil fazer face às suas obrigações financeiras que possam contratar junto à banca, no caso concreto junto do Banco Nacional de Investimento. O meu entendimento é que, nesta fase em que estamos, quer para o BNI, com banco para o desenvolvimento, quer para os bancos comerciais, não é fácil financiar directamente os produtores familiares. A estratégia que nós adoptamos é utilizar integradores desses produtores familiares, nomeadamente os grandes produtores e a indústria de agro-processamento. Nós financiamos os grandes produtores nos grandes centros de produção e a indústria de agro-processamento a taxas de juro mais baixas e acessíveis sob a condição de eles integrarem os produtores familiares. O que significa que os produtores familiares vão ter acesso a esse financiamento de forma indirecta. Os integradores vão distribuir os insumos de produção, incluindo a tecnologia e equipamento sob a forma de crédito com a garantia de que, uma vez feita a produção, eles vão tomar a produção. O que significa que aqueles produtores familiares vão ter acesso a tecnologia, insumos, equipamentos, a assistência e vão produzir, mas a preocupação deles vai ser só produzir porque eles já sabem que, uma vez produzido, têm onde colocar. Do lado do banco, tem garantia de reembolso porque sabe que este grande produtor, agro-processador financiado tem estrutura que permite ao banco fazer análise de crédito, de risco e decidir se de facto tem mercado para colocar a sua produção. Então o banco está mais seguro em financiar o grande produtor. Do lado dos produtores familiares, porque eles agora têm equipamento, insumos e semente certificada incluindo a assistência a produtividade aumenta e quando a produtividade aumenta, aumenta o rendimento. O que vai acontecer é que ele, com aquele aumento, já vai ter capacidade de, por exemplo, se deslocar para agência do banco comercial do seu distrito para fazer um depósito. Passa a ter a capacidade de ir, como particular, porque muitos dos agricultores familiares não estão estruturados como empresa. É por isso que nós não como financiá-los directamente. Mas como particular, porque ele já tem rendimento garantido, vai ter capacidade de se deslocar ao banco e pedir um empréstimo para comprar uma viatura ou fazer sua casa. O banco vai estar confortável porque sabe que ele está a produzir e logo a seguir tem comprador. Então aí o risco de crédito reduz. Ou seja, nós, com a nossa actuação, sem financiar directamente os produtores familiares, contribuímos para o aumento do seu rendimento para depois criar condições para ele passem a utilizar a banca comercial. É por isso que dizia que a banca para o desenvolvimento e a comercial se complementam porque tudo que fazemos depois vai gerar negócio para a banca comercial. Essa é a actuação.

Nas áreas de actuação, quando falamos das alternativas de financiamento para o sector o agro-negócio, não sob de vista daquilo que o BNI tem, mas as áreas que tem sido estratégicas sob ponto de vista de apoio?

Os apoios que temos dado ao agro-negócio, tem a componente da assistência técnica na componente da estruturação de projectos e a do próprio financiamento. Nós financiamos directamente ao micro pequenos agricultores, aqueles que já estão estruturados como empresas e têm toda a formação legal e financeira que nos permite avaliar e para os produtores familiares, nós intervimos através de financiamento aos integradores, aos grandes produtores e agro-processadores. Os nossos financiamentos são o médio e longo prazo. Todos os financiamentos de curto prazo estão atrelados a um financiamento de longo prazo. Do ponto de vista de impactos, na nossa actuação no agro-negócio, só nos últimos três anos e até a agora a nossa carteira é de cerca de 1.5 mil milhões, geramos empregos directos e indirectos cerca de 63 mil empregos, ou seja, beneficiamos 63 mil famílias. Em termos de beneficiários totais, estamos a falar de 300 mil. Em termos de produção, estamos a falar de cerca de 83 mil toneladas de vários produtos que foram produzidos com a nossa intervenção e em termos de montantes estamos a falar de cerca de 2.5 mil milhões de meticais. Veja que investimos 1.5 mil milhões e em termos de produção gerou-se cerca de 2.5 mil milhões, quase o dobro. Portanto, sentimos que temos estado a contribuir, significativamente, com os nossos produtos para o agro-negócio e mesmo nos casos em que nós não financiamos directamente, que é a agricultura familiar, procuramos influenciar através do financiamento aos integradores e temos estado a contribuir para a geração de rendimento. Em termos de produtos especificamente, voltando a tua questão inicial, nós oferecemos serviços de assessoria, estruturação financeira, elaboração de estudos de viabilidade, mobilidade de recursos financeiros quando nós não conseguimos financiar com o nosso balanço, pedimos mandato do cliente para mobilizar nos mercados internacionais porque há daqueles projectos de agricultura muito grandes que demandam milhões de dólares que, com o nosso balanço, não conseguimos financiar. Nós não rejeitamos porque não podemos financiar, pedimos mandato e mobilizamos e temos estado também a contribuir para agricultura através de financiamentos que são feitos pelos nossos parceiros internacionais. Mas mais ainda nós contribuímos para a redução do nível do risco de crédito, fornecendo instrumentos de cobertura do risco de crédito como fundos de garantia. Temos, por exemplo, um fundo de garantia que estruturamos com o FDA que faz a cobertura do risco de crédito para financiamento a cadeias de agro-negócio até 80 %. Por causa deste fundo, conseguimos que projectos da agricultura fossem financiados a 7% por causa desta cobertura de risco garantido deste fundo. Portanto, esses são outros instrumentos que nós conseguimos providenciar, mas também facilitamos a importação de diversos equipamentos agrícolas através da emissão de cartas de crédito e também emitimos garantias bancárias para facilitar várias transações dos operadores sobretudo na área de agro-processamento.

Que programas de financiamento existem no BNI, visando a promoção do empreendedorismo juvenil em termos de agro-negócio?

Relativamente a promoção do empreendedorismo juvenil, nós temos um programa chamado FAE, que é uma linha de financiamento ao agro-negócio. Tivemos uma fase piloto que foi apenas na região centro do país e cobriu todas as províncias banhadas pelo rio Zambeze e fizemos esse projecto com parceria com a Agência para Desenvolvimento do Vale do Zambeze. Foi um projecto interessante, tanto que agora estamos a mobilizar recursos para expandir o projecto para todo o país. É um projecto que visa promover o empreendedorismo que financia projecto micro e pequenas empresas de jovens, mas mais do que isso a iniciativa financia jovens recém-graduados dos institutos técnicos profissionais de modo que eles ao saírem da formação não engrossem a lista de jovens que estão à procura de emprego, mas têm oportunidades de criar seu próprio negócio empregar-se a si próprios, seus familiares e a sua comunidade. Foi um projecto que teve um impacto muito positivo na região centro, parte significativa dos mercados são abastecidos pela produção desses jovens que nós financiamos. Agora vamos expandir o projecto para outros pontos do país porque foi um projecto muito bem-sucedido e conseguimos criar empresários de zero. Eram jovens que eram singulares, eles conseguiram, com nosso apoio, estruturar em sociedades e empresas e agora são empresários que estão a operar. Queria destacar neste projecto, a parceria que temos com o IPEME, uma entidade de promoção de pequenas e médias empresas pertencente ao Ministério da Indústria e Comércio que é um parceiro muito importante com quem nós trabalhamos, o IPEME tinha a responsabilidade de apoiar todos os jovens na elaboração de planos de negócio para submissão para financiamento. Portanto, todos os projectos que nós financiamos eram projectos que tinham sido alvo de viabilidade com o apoio do IPEME porque naqueles recursos disponibilizamos uma parte para assistência técnica. O próprio IPEME é remunerado quer dizer que não trabalhava de borla. E em todos os nossos projectos procuramos incorporar essa componente que é para assegurar o sucesso. Acreditamos que no próximo ano, esse projecto vai estar em todo o país e vamos poder apoiar mais jovens em Moçambique. Só para dar exemplo de alguns impactos, nós geramos empregos directos e indirectos cerca de 8.500 empregos o que significa que influenciamos 8.500 famílias e em termos de beneficiários finais estamos a falar de cerca de 62 mil pessoas e estamos a falar de cerca de 11.1 mil toneladas de produção de diversos produtos alimentares com maior destaque para tomate, cebola, batata-reno e arroz. Portanto, esses são os produtos de maior destaque, mas há outros e também produção de frangos e ovos. Tudo isso feito por jovens.

Neste capítulo da inclusão, que atenção está a ser dada a mulher rural que está integrada, de certa forma na agricultura e agro-negócio?

Relativamente à mulher, ainda não temos produtos específicos dedicados a mulher, mas o que acontece é que, em todos os nossos projectos e produtos, mulher tem acesso, é elegível e sempre damos um tratamento especial quando se trata de projectos da mulher. Portanto, o tratamento é sempre especial. Vamos no futuro, provavelmente no próximo ano, desenhar projectos específicos para apoiar a mulher, mas ainda assim, nós prestamos atenção nos nossos actuais produtos.

 

Sem pensar em estágios lineares, que perspectivas se abrem para o futuro tendo em conta a situação da nossa agricultura neste exacto momento?

Eu acho que as perspectivas são muito boas. A recente decisão do Governo de alocar mais recursos financeiros à agricultura, tenho impressão de que vai mudar muita coisa. O programa Sustenta no novo formato não há dúvidas que transformar a nossa agricultura. Nós, também, como banco, estamos a fazer a nossa parte, estamos a mobilizar mais recursos para apoiar a agricultura em toda a sua cadeia de valor. As perspectivas, olhando para esses eventos, na minha óptica são muito boas e acredito que, em poucos anos, provavelmente ainda neste mandato, nós vamos conseguir substituir parte significativa das importações de produtos alimentares. A agricultura, na nossa forma ver, é um sector de presente e do futuro e ainda vai gerar muitos rendimentos, não só para as famílias moçambicanas, mas também para própria economia, no seu todo. Tenho entendimento de que a agricultura vai continuar a liderar a contribuição do Produto Interno Bruto.

Mais menos a dobrar? Estamos a falar de um sector estratégico. Se agora falamos de uma contribuição de 20 a 25%, esperamos que com esse volume de investimentos, essa contribuição possa duplicar nos próximos cinco anos?

Essa contribuição pode duplicar, provavelmente, não nos próximos cinco anos, mas nos próximos dois ou três anos até começar entrada de receitas das operações do gás do Rovuma porque, tenho entendimento de que, nessa altura essas estatísticas de distribuição do PIB por sector vão alterar porque o sector de recursos minerais vai entrar com maior peso. Agora, dependendo da forma como esses recursos vão ser alocados para a diversificação da economia, isso pode fazer com a contribuição da agricultura continue a crescer porque se parte significativa desses recursos forem alocados para apoiar a agricultura, naturalmente que ela vai continuar a aumentar a sua contribuição porque nós o mercado doméstico muito grande para absorver toda a produção da agricultura, mas também temos algum mercado a nível regional. Então temos que começar a pensar que, depois de cobrirmos a demanda local, podemos olhar também os mercados internacionais, tal como alguns subsectores da agricultura têm estado a exportar muito. Portanto, há ainda muito espaço para nós continuarmos a aumentar a produção.

Com isto, Dr. Matola está a considerar que, com uma agricultura bem estruturada e producente, podemos ter, de facto, nos próximos anos, Moçambique a experimentar um crescimento no índice de desenvolvimento humano?

Com certeza porque com o investimento, a agricultura tem essa grande capacidade de afectar directamente os produtores familiares e as zonas rurais. É nas zonas rurais, onde temos maiores índices de pobreza. Agora, se nós apostamos numa agricultura que afecta as zonas rurais, naturalmente que os nossos índices de desenvolvimento humano vão melhorar significativamente. E essa abordagem que eu expliquei de apontar para agricultura familiar através do financiamento dos integradores, que permite que os agricultores familiares, ainda que não tenham capacidade de aceder directamente a banca ou financiamentos, eles poderão ter acesso aos insumos, produzir e colocar a sua produção, não haverá dúvidas de que nós estaremos, de facto, a caminhar para um desenvolvimento sustentável, no sentido de que ele consegue absorver todas as camadas sociais, sobretudo para a camada que é maioritária que é das zonas rurais, a mais afectada pelos níveis de pobreza.

 

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