O País – A verdade como notícia

Chama-se “Projecto Melhoria” e foi concebido para melhorar as condições das casas construídas de pão-a-pique, que geralmente têm as paredes com revestimento de argila e cobertura de capim. O Fundo para o Fomento de Habitação (FFH) estará à frente da implementação e a mão-de-obra será corporizada pelos artesãos locais. A nível nacional espera-se melhorar duas mil durante o quinquénio em causa e metade será na província de Cabo Delgado que sofre pressão por causa das movimentações internas devido à violência terrorista.

“O projecto inicial era de 1000 kits para todo o país, mas olhando a situação que se vive aqui nesta parcela do país em que há uma pressão enorme no que diz respeito às condições de habitabilidade; os nossos irmão estão deslocar-se para cá, achamos melhor dar o nosso contributo e concentrar os 1000 kits para a província, como forma de minorar o sofrimento das nossas populações”, explicou ontem João Osvaldo Machatine, ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, falando em Pemba durante o lançamento do “Melhoria”.

Avaliado em cerca de 190 milhões de meticais, o projecto “Melhoria”, deverá abranger cerca de 2 mil casas nas zonas rurais do centro e norte do país durante o presente quinquénio de governação. A intervenção vai consistir na substituição do capim por chapas de zinco; melhoramento de janelas e portas, assim como a preparação do soalho com cimento.

Na cidade de Nampula, o governante procedeu à entrega de 22 casas construídas no âmbito do projecto “Habita”, virado para jovens casados, recém-formados e funcionários públicos. Matilde Luabo é mãe de 4 filhos, vive numa casa de arrendamento há sete anos e pela primeira vez passa a ter casa própria do tipo 2. Deverá pagar 13 mil meticais por mês durante 15 anos.

“Sai em conta porque onde moro pago sete mil por mês e é uma casa do tipo 1 e a casa não é minha. Esta, depois de um tempo, será minha”.

São 22 casas que fazem parte do segundo lote do total de 100 casas que deverão ser construídas na cidade de Nampula. As primeiras foram entregues no ano passado e faltam mais 36. O ministro das Obras Públicas diz que o projecto é simples para tornar o custo baixo.

“Gostaríamos de ter os arruamentos devidamente executados; gostaríamos de ter os quintais devidamente vedados, mas se nós fizéssemos tudo isso não estaríamos hoje a entregar 22 casas. Se calhar estaríamos hoje a entregar cinco ou seis casas…também se fizéssemos esses outros investimentos estariam a encarecer ainda mais as nossas casas”, justificou Machatine.

Em muitos projectos executados pelo governo tem havido críticas relacionadas com a qualidade das obras. Para João Osvaldo Machatine, a questão não pode ser generalizada, tendo explicado que há casos em que os empreiteiros executam devidamente o que consta dos cadernos de encargos, mas vezes há em que a execução é mal feita e garantiu que nesses casos tem havido responsabilização dos empreiteiros, assim como dos respectivos fiscais.

O último censo geral da população e habitação realizado em 2017 revela que das mais de 6 milhões de casas, cerca de três milhões são palhotas, o que mostra a precariedade em que vive parte significativa da população nacional.

Texto: Ricardo Machava e Hizidine Achá

A cervejeira Heineken está em processo de cortar cerca de 10 por cento da sua mão-de-obra, o equivalente a 8.000 trabalhadores, a nível mundial devido a quebras nas vendas provocadas pela pandemia da COVID-19. A informação consta de um relatório publicado pela multinacional.

As fábricas da empresa localizadas em várias partes do mundo, incluindo Moçambique, poderão ser afectadas pela medida, aponta o documento publicado quarta-feira. O anúncio surge após a cervejeira ter reportado prejuízos de 204 milhões de euros (cerca de 18.4 biliões de meticais) em 2020.

De acordo com a CNN, a receita da empresa caiu 16,7% para 23,8 biliões de euros (cerca de 2.149 biliões de meticais) em 2020, com o encerramento de restaurantes e bares nos principais mercados, bem como outras restrições a reuniões sociais e vendas de bebidas alcoólicas.

“O impacto da pandemia em nossos negócios foi ampliado pelos efeitos no sector comercial [bares e restaurantes] e pela exposição geográfica”, disse o CEO da Heineken, Dolf van den Brink, que assumiu o comando em Junho do ano passado, em um comunicado citado pela CNN.

Entretanto, em 2019, a multinacional holandesa reportou um lucro de 2.2 biliões de euros (cerca de 198.7 biliões de meticais) a nível mundial. A firma está presente em 70 países.

Em 2020, as vendas da firma caíram 11,9%, acima da queda de 10,9% esperada por analistas citados pela InfoMoney. Só na sede da empresa, está previsto que sejam lançados ao desemprego cerca de 20% da mão-de-obra no primeiro trimestre deste ano.

De acordo com a CNN, a Heineken estima que no fim de Janeiro, menos de 30% dos bares e restaurantes operavam na Europa, que é seu maior mercado. Muitos países da região voltaram a impor os bloqueios em Dezembro e tornaram as restrições mais rígidas desta pandemia.

Em 2020, a Heineken vendeu mais bebidas não alcoólicas, impulsionada pela Heineken 0.0 e Maltina na Nigéria. Segundo a CNN, a empresa considera que o segmento tem “muito potencial de crescimento” e que pretende disponibilizar cerveja sem álcool em todo o mundo.

HEINEKEN EM MOÇAMBIQUE

Contactamos a empresa em Maputo e prometeu pronunciar-se acerca do assunto em breve. Presente no país há cerca de quatro anos, a fábrica da empresa holandesa iniciou a produção da cerveja Heineken em Bobole, distrito de Marracuene, na província de Maputo, no ano passado. O investimento realizado até essa fase era de 20 milhões de dólares norte-americanos.

No lançamento da nova linha de produção, em 2020, o ministro da Indústria e Comércio disse que o país iria reter cerca de 50 milhões de dólares por ano que eram usados para a importação da cerveja. Antes da unidade, a Heineken vendida no país vinha da Namíbia.

O novo investimento juntava-se ao já realizado pela Heineken no país logo no início da sua actividade de 100 milhões de dólares. A matéria-prima usada na produção da Heineken não é nacional, diferentemente da Txilar que usa 4 mil toneladas de milho por ano produzido no país.

Só para produzir a Heineken em Bobole, a empresa contratou mais 40 pessoas. No ano passado, a empresa informou que iria produzir 350 mil hectolitros por ano, equivalentes a 35 milhões de litros, e as respectivas garrafas, sendo que a fábrica irá encher cerca de 16 mil garrafas por hora.

Os preços de bens e serviços tiveram a maior subida dos últimos dois anos em Janeiro último, mostram dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). A subida, comparativamente a igual mês do ano passado, foi de 4,09%, o que representa um agravamento do custo de vida da população na mesma proporção.

Dificuldades para adquirir bens e serviços essenciais aumentaram drasticamente em Janeiro último. Foi um mês de penúria para as famílias. Os preços de produtos alimentares, tabacos, bebidas alcoólicas e não alcoólicas, foram os mais caros, com aumentos a variarem entre 8,47% e 9,14% no mês passado.

“Em relação à variação homóloga, a cidade de Nampula liderou a tendência de aumento do nível geral de preços com aproximadamente 4,97%, seguida da cidade da Beira com cerca de 4,70% e por último a cidade de Maputo com 3,42%”, mostram as informações recolhidas pelo INE nessas capitais provinciais.

O preço da comida foi o que registou um dos maiores agravamentos, ao subir no geral, quase 10,0%. Já o tabaco ficou cerca de 11% mais caro em Janeiro último. Mesma tendência seguiram as bebidas alcoólicas, com os preços a subirem em cerca de 4,8% no mês passado, se comparado com Janeiro de 2020.

Isso quer dizer que, se um cidadão necessitava de 5.000 meticais para comprar uma certa quantidade de produtos alimentares em Janeiro de 2020, no mês passado (Janeiro de 2021), teve que aumentar 500 meticais nesse valor, ou seja, precisou de 5.500 meticais para adquirir a mesma quantidade de comida.

O exemplo acima é apenas para comida. Se adicionarmos preços de outros produtos essenciais, como de bebidas não alcoólicas, da reabilitação de casas, de compra de mobiliários para casa, de produtos farmacêuticos, a factura fica mais cara ainda e consequentemente a vida torna-se mais difícil.

Indo ao detalhe, para melhor percepção, o preço da roupa e dos sapatos também subiram 3,6% e 3,5%, respectivamente. O que também não poupou o bolso dos cidadãos são os preços dos veículos, entre eles, carros e motorizadas, que viram os seus preços crescerem, no geral, e cerca de 10% em Janeiro último.
Em termos comparativos, dados do INE dos últimos 25 meses mostram que a única subida de preços maior que a registada em Janeiro de 2021, em termos homólogos, foi registada em Janeiro de 2019, quando o custo de vida agravou-se em cerca de 3,7% e a menor foi registada em Setembro do mesmo ano (2,01%).

Em termos mensais, os preços subiram 1,18% de Dezembro de 2020 a Janeiro de 2021. “Destaca-se o aumento dos preços do tomate (12,4%), do coco (18,7%), do peixe seco (5,5%), do óleo alimentar (6,1%), de capulanas (3,3%), do arroz em grão (3,8%) e da couve (11,0%) ”, faz saber o INE no documento.

De Dezembro de 2020 a Janeiro de 2021, cidade da Beira teve a subida de preços mais elevada (2,09%), seguida da Cidade de Nampula (1,13%) e por fim, a Cidade de Maputo (0,87%).

Os dados foram recolhidos nas cidades de Maputo, Beira e Nampula em Janeiro findo pelo INE e a subida generalizada de preços foi calculada com base no Índice de Preços no Consumidor (IPC) Moçambique.

Importa lembrar que o Banco de Moçambique alertou, no mês de Janeiro último que, a médio prazo, o custo de vida poderia agravar-se e justificou o seu posicionamento com a derrapagem do metical, subida exponencial de casos da COVID-19, terrorismo em Cabo Delgado e calamidades naturais.

Foram esses factores que elevam os preços no geral que obrigaram o banco central a subir a taxa de juro de referência de 10.25% para 13.25% em Janeiro.

“Prevê-se uma aceleração da inflação geral no médio prazo, a traduzir os efeitos da repassagem da depreciação do metical para os preços domésticos, do fim da vigência de parte das medidas de contenção de preços decretadas pelo Governo, no âmbito da COVID-19 e dos choques climáticos”, referiu no mês passado o banco central no seu comunicado de imprensa saído do Comité de Política Monetária.

Já em Dezembro do ano passado, os preços de bens e serviços aumentaram 3.52%, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Nampula também destacou-se como a cidade mais cara do ano.

No seu relatório financeiro sobre Janeiro último, o Standard Bank mostra que os dados do mês apontaram para um aumento dos preços dos meios de produção, pelo segundo mês consecutivo. Tal aumento veio dar continuidade à subida registada em Dezembro, a primeira em nove meses.

“Não obstante, a inflação diminuiu ligeiramente em relação à verificada no final de 2020. Os dados subjacentes indicaram um aumento dos preços de aquisição mais ligeiro do que o registado no mês anterior e os custos com pessoal diminuíram pela primeira vez desde Setembro passado”, refere o banco.

No fim do ano passado, o Banco de Moçambique previa para 2021 um incremento dos preços domésticos, a reflectir, essencialmente, o efeito do término da vigência de parte das medidas de contenção de preços decretadas pelo Governo, no âmbito da COVID-19 e a tendência para o aumento dos preços dos alimentos no mercado internacional, para além da recuperação gradual da procura por bens e serviços. Ainda assim, a as previsões de aceleração da inflação para o curto e médio prazo situavam-se em menos de 10%.

 

Está há 22 anos a operar no país, mas a falta da produção do caju pelos fomentadores faz com que, duas décadas depois, o grupo Olam decida abandonar o negócio. A multinacional lamenta pelos ajustes que a decisão traz aos funcionários e às comunidades agrícolas que perdem apoio da firma.

Através de um comunicado datado de 04 de Fevereiro, a Multinacional explica que o encerramento das fábricas de processamento de caju na província de Maputo prende-se com “as tendências e dinâmicas globais no mercado da castanha de caju e das recorrentes dificuldades em aceder à matéria-prima de qualidade nos volumes necessários”.

Com este anúncio, perdem apoio os pequenos produtores de caju que eram apoiados pela companhia e haverá ajustes que vão afectar aos colaboradores da empresa.

“Será interrompido o esquema de suporte aos pequenos produtores de caju”, refere o comunicado da companhia.

O “O País” sabe que o grupo Olam é dos grandes empregadores do sector agrícola, tendo perto de dois mil colaboradores. Porém, a empresa opera não só no mercado da castanha de caju, como também em outras áreas, como a de produção de arroz.

No comunicado, o grupo diz lamentar pelos ajustes que o anúncio traz aos colaboradores e às comunidades agrícolas que eram apoiadas.

Cento e quinze (115) agricultores seleccionados para beneficiarem do programa “Sustenta” ainda não receberam tractores e outros insumos agrícolas em Nampula, três meses depois de terem assinado contratos para o efeito. A situação pode pôr em causa as expectativas do Governo nesta época agrícola.

Delfim Bonifácio é o agricultor de referência no distrito de Larde, parte costeira da província de Nampula. Explora 165 hectares, onde produz gergelim, milho, amendoim e outras culturas de rendimento. O agricultor considerado emergente faz parte de um total de 115 que em Outubro passado assinaram contratos com o Governo para beneficiarem de tractores, sementes, insecticidas, e outros produtos, assim como um fundo de maneio para aumentarem a sua capacidade de produção, através do programa Sustenta, mas até aqui só receberam insecticidas e sementes.

“Cem hectares era para gergelim, já fiz 70, faltam 30 hectares para completar, mas por falta de fundos já estou paralisado. Para além disso, tenho uma parte também que ainda não fiz sacha porque ainda não tenho fundos para complementar esta parte. Sendo assim, estou muito preocupado”.

São inquietações apresentadas ontem ao director provincial de Agricultura e Pescas em Nampula, numa altura em que praticamente restam três meses para o fim do segundo ciclo da época agrícola. “Atraso de recepção de equipamentos agrícolas e valores monetários para o fundo de maneio destinado à alocação de mão-de-obra para a sementeira, sacha, entre outras”, descreveu António Ernesto, um dos agricultores.

Os beneficiários denunciam ainda a baixa qualidade da semente fornecida e o custo exorbitante dos insecticidas e conservantes de sementes. “Claro, está escrito semente, mas estamos duvidosos, se é semente ou é grão”, avançou outro agricultor.

O responsável de Agricultura e Pescas em Nampula, Ernesto Pacule, reconheceu legitimidade das preocupações, tendo explicado que os 115 tractores para Nampula ainda não chegaram, pelas seguintes razões: ao nível do mercado (local) não havia tractores. Esta é a informação que tivemos, mas dentro deste ou próximo mês todos os produtores terão os tractores, segundo o contrato.
Sobre o fundo de maneio que deveria servir para a sacha, assim como a qualidade de sementes, Ernesto Pacule preferiu analisar com outras entidades do governo e só depois disso haverá resposta para os agricultores.

Quase toda a logística necessária para a exploração de gás natural liquefeito na Área 1 da Bacia do Rovuma, será feita a partir da baia de Pemba, a capital da província de Cabo Delgado. O facto foi confirmado pelo director geral da Total, multinacional francesa que lidera o projecto Mozambique LNG.

“Com certeza que o projecto Mozambique LNG também está a analisar todas opções para optimizar parte da sua cadeia logística, e poderá haver alguns serviços a serem efectuados em Mayotte, como uma base de apoio, mas o fundamental das operações offshore estarão baseadas aqui em Pemba, em Muxara e nas instalações dos CFM/PESCHAUD,” confirmou o director geral da Total Moçambique, Ronan Bescond.

Actualmente, de acordo com a fonte, decorrem obras para a construção da base logística da Total, em Muxara, um dos bairros da capital da província, ao mesmo tempo que os Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), em parceria com a empresa PESCHAUD, remodelam o Porto de Pemba.

“Visitamos a base logística de Muxara que vai apoiar toda operação offshore, que prevê a perfuração de 18 poços segundo o plano de desenvolvimento. E também as operações offshore que vão ser desenvolvidas pela Technip FMC, a nossa contratada, para as operações offshore em águas profundas. Agora estamos no porto de Pemba onde a CFM e PESCHAUD vão providenciar apoio logísticos para carregar e descarregar navios e todos equipamentos que vão ser necessários para todas operações na área 1,” explicou Ronan Bescond, que também é vice-presidente do projecto Mozambique LNG.

Além de confirmar a instalação da base logística da Total na baia de Pemba, Ronan Bescond reafirmou o compromisso da multinacional em continuar com o processo do conteúdo local, que era uma das maiores preocupações levantadas pelos empresários da província, quando aperceberam-se da possibilidade de alguns serviços serem feitos a partir de Mayotte, um arquipélago francês do oceano índico situado a cerca de 500 km da costa de Cabo Delgado.

“Nós comprometemo-nos com as autoridades o gastar cerca de 2.5 biliões de dólares e ter cerca de 5 mil moçambicanos empregados nos nossos projectos. E estamos a pensar na formação desse pessoal, por isso, estamos a construir um centro de treinamento em Afungi, e estamos a preparar a construção do centro em Maputo, além de termos as empresas moçambicanas ou registadas em Moçambique, inclusive em parceria com a embaixada francesa oferecemos 40 bolsas de estudos para formação na área, e tudo isso demonstra o nosso compromisso com o conteúdo local”, tranquilizou Bescond.

Entretanto, nesta visita à província de Cabo Delgado, o director geral da Total Moçambique, escusou-se a falar sobre a situação de insegurança na província de Cabo Delgado, mas garantiu que não há mudança de planos para início de exploração de gás previsto para o ano 2024.

“O plano inicial continua para inicio da exploração em 2024 e estamos a trabalhar com o Governo para que esse objectivo seja alcançado,” concluiu Ronan Bescond.

No quarto trimestre de 2020, a produção de carvão da Vale totalizou 1,2 milhões de toneladas (Mt), sendo que a produção global do minério conseguida pela empresa atingiu 5,9 milhões de toneladas em 2020, uma queda de 33 por cento face ao ano 2019, reflectindo assim os impactos negativos da pandemia COVID-19 na procura pelo produto. Em 2019, a produção foi de 8.7 milhões de toneladas.

De acordo com informação disponibilizada pela firma mineira que está em processo de desinvestir no negócio em Moçambique, no terceiro trimestre de 2020 sua produção foi de 1,4 milhões de toneladas. E no quarto trimestre de 2019, a produção atingiu 1,8 milhão de toneladas.

Os dados acima representam uma redução em termos globais da produção de carvão, tanto metalúrgico como térmico, da Vale de 33 por cento de 2019 a 2020 e nas vendas da empresa mineira, a queda, de um ano para outro, foi de 33,2 por cento, avança a publicação da empresa.

Após atingir um recorde de produção de carvão em Março, em comparação com os últimos 15 meses, a Vale desacelerou a produção em Moatize em Abril e interrompeu temporariamente a produção em Junho, quando os estoques na mina atingiram o limite de armazenamento.

“Devido ao projecto de manutenção da planta, a produção desacelerou e caiu 12,3% em comparação ao terceiro trimestre de 2020 (3T20), no entanto, os níveis de estoque suportaram o aumento das vendas do quarto trimestre de 2020 (4T20)”, refere o relatório.

O relatório sobre a produção e venda referente ao ano passado da firma mineira Vale mostra que os referidos trabalhos de manutenção na mina de carvão de Moatize, localizada na província de Tete, retomaram a 06 de Novembro do ano passado, após uma pausa em Março de 2020.

A manutenção devia ter iniciado em Março de 2020, mas observou atrasos devido aos efeitos da pandemia da COVID-19 que afecta não só o negócio do carvão, mas também o mundo todo. Trata-se de uma actividade prevista que termine até Março do ano em curso.

De acordo com o relatório sobre produção e venda da Vale de 2020, a primeira fase do projecto de manutenção, que inclui o manuseio de carvão e a revitalização da planta de processamento, está actualmente a ser executada no prazo.

Durante esse período, o fluxo de materiais, os serviços prestados e a movimentação de pessoas foram realizados sem maiores desafios, refere o documento publicado pela Vale.
“O início do ramp-up da mina e da planta está previsto para acontecer a partir do segundo trimestre de 2021 e deve durar até o final de 2021. A Vale espera atingir um run-rate de produção de 15 milhões de toneladas por ano (Mtpa) no segundo semestre de 2021”, prevê a empresa.

Importa lembrar que a Vale estima ter uma capacidade operacional total de 22 milhões de toneladas de carvão nas minas de Moatize.

Em Grande Entrevista, o administrador do Banco de Moçambique, Jamal Omar, deu detalhes sobre o processo de criação do Fundo Soberano em Moçambique, onde assegurou que estão criadas as condições para que o fundo seja transparente, de modo que os moçambicanos estejam a par dos investimentos que estarão a ser feitos com o Fundo.

O Banco de Moçambique lançou, no ano passado, uma auscultação pública sobre a criação do Fundo Soberano no nosso país. Ouvidas todas as sensibilidades do país, qual é o balanço que o banco central faz?
Neste momento, o balanço que nós fazemos é positivo. Tivemos muita participação. Recebemos, para além dos seminários que realizámos nas províncias, de instituições e pessoas individuais, comentários directos ao Banco e Moçambique. Portanto, estamos no caminho certo.

Da proposta do Fundo Soberano, há várias experiências de outros países. Qual delas foi a base para a criação do nosso Fundo?
Antes de redigirmos a nossa proposta, nós realizámos um seminário internacional, que teve lugar em Março de 2019, onde tivemos vários peritos internacionais e nacionais e discutimos essas matérias. Seguidamente, nós visitámos várias experiências. Visitámos a experiência do Alasca, nos EUA, do Timor-Leste, do Trindade e Tobaco, de Noruega e, em África, colhemos a experiência do Botswana. No cômputo geral, eu diria que o nosso modelo baseia-se, essencialmente, na sua estrutura central, num modelo combinado com o da Noruega, do Trindade e Tobaco, bem como o de Timor-Leste. É verdade que nós fizemos algumas adaptações para adequar à realidade aqui do nosso país.

Num olhar microscópico aos modelos que os países adoptaram para a criação dos seus fundos, como é que se explica que a nossa proposta não apresente os prós e contras dos caminhos a que nos propusemos a trilhar?
A proposta que nós trazemos é simples, muito directa ao assunto, porque nós estávamos conscientes do processo que queríamos levar, que é a auscultação pública. Nós queremos que toda a sociedade moçambicana perceba do que estamos a falar. É verdade que por detrás desta proposta existe um conjunto de estudos que foram realizados do nosso lado, a nível do Banco de Moçambique.
Não seria fácil levar o processo a cabo se trouxéssemos todo o conjunto de informações que nós temos. A questão de prós e contras foi analisada. Aliás, o seminário de que falei aqui, esta questão foi amplamente discutida e o resultado é que ficou claro que toda a gente queria a criação de um Fundo Soberano. Por isso, não elencamos a discussão sobre os prós e contras, porque do seminário que foi feito criou-se consensos.
Nós estamos a dizer que os objectivos da conta do Fundo Soberano seriam três: o desenvolvimento, a estabilização e a acumulação de poupança para que, daqui a cinco anos ou mais, quando esses recursos esgotarem, tenhamos como viver sem quebrar o nosso padrão de consumo e de investimento.
Então, estamos a trazer de forma muito clara esses dois objectivos. Mas, porque a nossa regra de entrada que estamos a estabelecer é que nem todas as receitas provenientes da exploração do gás irão para o Fundo Soberano. Nós estamos a dizer que apenas metade irá para a conta do Fundo e a outra vai directamente ao Orçamento do Estado.
A questão de desenvolvimento está integrada na metade que vai ao Orçamento. Nós queremos dar ao Governo, que gere o Orçamento do Estado, a autonomia de liderar o processos e desenvolvimento do país.

Está garantida a transparência nesta proposta?
Os Fundos Soberanos da actualidade baseiam-se em alguns princípios. Existem até alguns que já foram formados e aprovados, que se chamam Princípios de Santiago, e o elemento central neles é a transparência em todo o processo de gestão. Desde a criação, a organização e a gestão. E os modelos em que nos baseámos são os melhores em termos de transparência, da boa governação, da responsabilização e da independência. Portanto, no nosso modelo, estamos a assegurar que esses elementos estejam presentes. Aliás, o facto de, logo no início, termos levado a cabo este processo de auscultação pública em todo o território nacional, para ouvirmos o que a sociedade pensa sobre o assunto, já é um princípio que já se pode ver logo no início.

Está claro como é que os moçambicanos podem sentir que estão a acompanhar este processo?
Nós estamos aí a criar mecanismos de divulgação de informação e reporte que garantem a transparência. O gestor operacional será obrigado a enviar, trimestralmente, um relatório ao gestor global e este, por sua vez, será obrigado a enviar relatórios anuais sobre as operações do Fundo à Assembleia da República. Para além disso, o gestor operacional terá de criar um portal de comunicação com o público, em que todo o público, querendo ter uma informação sobre a gestão do Fundo, poderá colocar a questão e será respondida. Essa é uma experiência que colhemos do Fundo Soberano da Noruega e que está a funcionar e as pessoas vão sabendo sobre aquilo que está a acontecer sobre o fundo.

Há quem questione o facto de o Banco de Moçambique se ter incluído na gestão do Fundo, sem sequer provar a sua capacidade. Qual é o vosso entendimento sobre isso?
Nós achamos que não há nenhum fundamento segundo o qual, um proponente e um projecto desta natureza não possa fazer parte da gestão. Só haveria problema se a pessoa que faz a aprovação do modelo fosse a mesma que vai gerir.
Apenas estamos afazer um trabalho técnico, estamos a propor, e esse trabalho técnico vai passar por um conjunto de processos, que depois o modelo vai ser aprovado pela Assembleia da República. Esta pode decidir mudar qualquer proposta que nós estamos aqui a apresentar.
E a inclusão do Banco Central não é algo específico de Moçambique. Nós estamos a levar das melhores práticas internacionais. Se formos a olhar, os Fundos Soberanos são geridos pelos Bancos Centrais.

Já que a proposta não traz diferentes opções, não será que o Banco de Moçambique está a induzir o país apara aprovação da sua proposta?
Nós estamos a trazer uma proposta concreta, não trazemos propostas A, B nem C. Estamos a trazer uma proposta em função do que nós recolhemos no estudo. Por isso, o passo a seguir foi a consulta para ouvir o que a sociedade pensa. E tem um elemento muito importante: que os órgãos que estarão no centro a aprovação deste modelo se capacitem. Já apresentámos a proposta à Comissão de Plano e Orçamento e eles terão que ver outras experiências e na base disso decidirem se esta proposta é a mais adequada ou não. Porque nós pegámos do melhor que há e tentamos evitar passar por algumas situações que outros Fundos passaram.

Da análise que foi feita, não houve quem sugerisse a criação de uma outra entidade para a gestão do Fundo?
Esta questão de criação de uma outra instituição para gatão do Fundo, nos termos em que nós recebemos das contribuições, vinha mais ou menos, a criação de uma instituição independente, é assim que nós recebemos das propostas e que nem sempre ficava claro o que se pretendia com uma instituição independente. Se era uma independência do país, do Governo. Então, as pessoas podem até olhar ou ler as experiências internacionais e ouvirem que os gestores do Fundo Soberano têm que ser de instituições independentes. Quando se fala de independente, não se está a falar de independente do país, está-se a falar de independência operacional. É por isso que muitos Fundos Soberanos acabam escolhendo bancos centrais para gestão operacional porque em todos os países, os bancos centrais têm independência operacional na sua actuação e na implementação dos seus objectivos. E o banco central de Moçambique também tem independência operacional, por isso que quando falamos de instituições independentes temos que estar muito claros. Mas, para além disso, a questão de trazer uma instituição externa à partida remete-nos a uma questão de que o país não têm capacidade.

E Temos?
Sim, temos capacidade para fazer gestão operacional do Fundo Soberano. O Banco Central é o gestor das reservas internacionais do país e temos vindo a observar a acumulação de reservas todos os anos e isso é resultado da gestão operacional que nós estamos a fazer das reservas nos mercado internacional. Conhecemos os mercados internacionais, conhecemos os gestores externos, os instrumentos mais apetecíveis, os instrumentos mais arriscados e assim sucessivamente. Portanto, temos colegas que todos os dias estão a olhar para os mercados internacionais para fazer a gestão de reservas. Então, capacidade existe e onde não existe, ou seja, onde há maior complexidade, a capacidade tem que se criar. Agora, trazer uma questão de soberania como é o Fundo Soberano e delegar isso a uma instituição externa, nós não achamos ser relevante e importante.

Outra questão que a proposta suscita tem a ver com o significado do Ministério da Economia e Finanças ser o gestor do Fundo Soberano.
Na gestão do Fundo Soberano, é preciso separar o gestor operacional que é aquele que no dia a dia vai fazendo as aplicações e as rentabilizações deste Fundo, em função dos objectivos que tiverem sidos definidos e tem que haver um órgão ou um Ministério que é representante do Governo e que faz a ponte com o gestor operacional.

A orientação política vem do Ministério da Economia e Finanças?
Sim, porque em matéria de gestão de fundos de dinheiro e de Orçamento, o Ministério da Economia e Finanças seria o Ministério mais competente, então, este ministério estaria a ter a ligação directa com o gestor operacional. Tem que desenhar a política de investimento, ou seja, em alguns casos, pode ser desenhada a nível da Assembleia da República, mas quem controla, quem delega é o Ministério que representa o Governo que lida com essas matérias. É ai que quando a gente fala de gestor global estamos a falar do Ministério que faz a tal ligação com o gestor operacional.

De forma resumida, qual seriam os limites da actuação desses gestores globais, para que percebamos até onde vai o seu raio de acção?
Em princípio, deve-se estabelecer dois acordos entre o gestor global e o gestor operacional. Há um acordo onde são estabelecidas as responsabilidades, mas o limite vem da lei que cria o próprio Fundo Soberano. É esta lei que estabelece o papel do gestor global, bem como, do gestor operacional e qual é o papel de outras instituições que estão na estrutura de governação e, neste caso, nós estamos a dizer que o papel do Ministério da Economia e Finanças seria, primeiro, ter este acordo com o gestor global para poder controlar, mas, acima de tudo, tem que desenhar e fiscalizar a política de investimento que vai orientar o gestor operacional e ver se está a investir os activos de acordo com aquilo que está definido.
Tem que definir qual é a classe de activos que tem que ser investidos, quais são as geografias em que o gestor operacional deve actuar e tem que apontar ou contratar um auditor independente para poder fiscalizar ou auditar as contas do próprio Fundo Soberano, e nos termos na nossa proposta, como metade das receitas vão para o Orçamento, aí também o Ministério da Economia e Finanças teria a responsabilidade de liderar o processo de criação ou de desenho de um plano de médio e longo prazo de utilização dessas receitas que depois, em última instância, seria, naturalmente, aprovada em sede da Assembleia da República.

Como muito bem diz, a relação entre o Ministério da Economia e Finanças e o Banco de Moçambique estará regida por um acordo, mas na proposta de criação de Fundo Soberano não há detalhes sobre o tipo de acordo e a relação vai se estabelecer.
Neste momento, achamos que tudo deve ser por fases. Primeiro é a questão da própria estrutura de governação e do modelo que está a ser proposto. Uma vez aprovado este modelo, a questão de acordo entre as partes é mais simples, porque existem modelos internacionais já conhecidos, todos os bancos centrais estão a fazer a gestão do Fundo Soberano. É na base de um acordo entre este banco central e o gestor global, neste caso, o Ministério da Economia e Finanças.
Portanto, não seria uma parte complexa porque os aspectos essenciais têm que vir na lei e ela estabelece os aspectos globais. Agora, a questão de em que geografia ou em que instrumentos específicos, o gestor operacional deve aplicar os fundos, isto não precisa vir na lei, vai advir neste acordo depois de aprovada a política de investimento é que vai dizer o que não pode investir no mercado ou deve investir maior parte dos fundos no mercado chinês. Esses são detalhes que podem ser trabalhados e que não vão implicar, necessariamente, uma quebra da transparência nem da independência de todo o processo e isto também pode ser conduzido de forma transparente.

Na publicação de informação a ser feita pelo gestor operacional fala-se de salvaguardar a informação classificada. A que se refere esta informação?
Estamos a falar de algumas cláusulas contratuais. Por exemplo, estamos a propor que o gestor operacional, querendo e havendo necessidade, pode contratar gestor externo para aqueles mercados que não têm especialidade.
Nesse caso, nós teríamos que firmar com gestores externos. Há vezes que esse processo de contratação é longo. Nós já temos experiência na contratação das nossas reservas externas. É um processo que leva algum tempo e é de concorrência, em que a publicação da informação de um dos concorrentes pode comprometer o processo de contratação e na respectiva concorrência.
Portanto, são elementos que não têm a ver directamente com a gestão do Fundo. Esta questão de gestão será disponibilizada.

O Ministério da Economia e Finanças pagará ao Banco de Moçambique uma taxa pela gestão do Fundo. Como será estabelecido o montante a ser pago?
Esta taxa será definida no âmbito do acordo de que falamos mais atrás, o acordo de gestão. Nós estamos a propor que seja uma taxa fixa, mas pode ser variável. Isto vai depender de como vai ser feita a negociação.

A ser variável, vai ter em conta a qualidade do desempenho operacional?
Existem modelos que fixam a taxa em função do desempenho do gestor operacional, quanto mais retorno trouxer, vai ter um incremento na sua remuneração. Ao propormos uma taxa fixa, não estamos a considerar que essa taxa vai cobrir despesas administrativas dessa gestão. É apenas para dar cobertura às despesas decorrentes desses contratos de gestores externos.
Portanto, são questões concretas, por isso estamos a propor que seja uma taxa fixa, porque consideramos que seja suficiente para cobrir essas despesas, porque não é para pagar salários nem outras despesas administrativas. Para isso, o banco tem recursos.
Entretanto, do que recolhemos, vimos que há mais tendência das pessoas em quererem que seja uma taxa variável em função daquilo qe será o desempenho do gestor operacional. Não vejo nenhum problema de se evoluir para essa fase. As duas experiências existem internacionalmente.

A proposta diz que nos primeiros 20 anos, 50 porcento das receitas da exploração dos recursos deve ir ao Orçamento e depois desses 20 anos, serão apenas 20 porcento para o Orçamento, sendo 80 para o Fundo Soberano. Qual é o fundamento dessa proposta?
Há dois elementos que devemos considerar: nós definimos o perfil das entradas dos recursos. Primeiro, é olhar para a vida útil do projecto e o segundo é a capacidade de absorção da economia.
Nós não podemos pôr muitos recursos na economia de uma só vez, porque senão vamos ter problemas na gestão macro-económica. Já aconteceu isso no passado. Isso chama-se doença holandesa.
Além disso, sabemos que, depois de 20 anos, estaremos perto do esgotamento dos projectos, pelo menos dos três que temos actualmente na Bacia do Rovuma, que neste momento estão numa fase mais concreta de se verificar.
Então, nós combinamos estes dois elementos de maneira que, quando chegarmos ao vigésimo primeiro ano, as receitas já estarão numa fase descendente. Logo é preciso garantir que o Fundo tenha cada vez mais pujança para poder alimentar todo um conjunto de despesas do país, quando esses recursos esgotarem no subsolo.

 

 

“A capacitação é a palavra de ordem”

Enquanto se poupa, como se pensa em fazer a gestão dos rendimentos provenientes dos investimentos?
Enquanto se poupa, se rentabiliza. Não é um valor que fica parado na conta. Isto para que as gerações futuras encontrem esse valor a beneficiar a economia porque de uma coisa não nos podemos esquecer: esses recursos esgotam-se. Esse é o pressuposto principal.

E como será o perfil dos investimentos a serem feitos?
Isto é algo a ser desenhado na Política de Investimento e é este processo que deve ser liderado, em princípio, pelo Ministério da Economia e Finanças.

Isso inclui também as margens de risco a tolerar-se nestas operações?
Exactamente. Qual é a margem de risco e qual é a tolerância nessa margem. Isso tudo tem de estar na Política de Investimento.

Caberá ao Ministério da Economia e Finanças conceber uma estratégia para os fundos alocados ao Orçamento do Estado, que inclui também a ocorrência de eventos extraordinários como ciclones, pandemias ou cheias. Se estes eventos ocorrerem num ano em que as receitas esperadas não cheguem ao nível, quais serão as possíveis saídas?
O plano de utilização, a médio e longo prazo, tem de existir. Se num ano, os 50 por cento forem excessivamente acima do que é aceitável, é preciso criar uma provisão para que, noutros possa-se usar essa provisão.
Mas, independentemente disso, a própria proposta já prevê, caso o que for alocado ao Orçamento não seja suficiente, tira-se do Fundo Soberano para que o processo de desenvolvimento não pare.

Haverá muita entrada da moeda externa. Há instrumentos de Política Monetária previstos para travar os efeitos negativos que daí poderão advir?
A criação dum Fundo Soberano é um dos instrumentos básicos para fazer essa gestão. O Fundo vai garantir que parte desses recursos sejam rentabilizados e o facto de parte desses recursos também ir ao Orçamento com um plano bem definido são formas de gerir.

Os empresários estão preocupados com a política de priorização nos projectos de desenvolvimento e querem que sejam executados por empresas nacionais. A proposta prevê induzir para que isso aconteça?
Esta proposta não traz esses elementos, mas eles seriam remetidos na discussão deste plano de médio e longo prazo.

Que tipo de capacitações as instituições envolvidas neste processo devem procurar ter?
A capacitação é a palavra de ordem. Esta será a primeira vez que nós vamos criar um Fundo Soberano e isto tem um conjunto de regras que obrigam a que todas as instituições envolvidas estejam alinhas nelas. Então, é preciso capacitação a todos os níveis.

E quando é que esta proposta estará na Assembleia da República?
Fica difícil para nós responder essa questão porque não seremos nós a levar à Assembleia da República. Existe um conjunto de passos que já não dependem da nossa actuação. Neste momento, estamos a sistematizar as contribuições que obtivemos da sociedade.
O que nós, como proponentes técnicos, com base naquilo que recolhemos das experiências internacionais, podemos recomendar, é que a proposta seja aprovada antes do início da exploração efectiva dos recursos, porque iniciada a exploração dos recursos, já não há muito tempo para reflectir que modelos usar.

 

Nos últimos 22 meses, a província de Sofala, em particular a cidade da Beira, tem sido fustigada por chuvas intensas, inundações e ciclones. São eventos que, a par do novo Coronavírus, colocam a economia à prova e desestabilizam empresas.

Por conta da situação, os empresários de Sofala andam apreensivos, sobretudo porque os ciclones e as chuvas intensas não são fenómenos efémeros. Com as mudanças climáticas na ordem do dia, a província será novamente vergastada, um dia. Aliás, é comum ser epicentro de eventos extremos.

Neste contexto, o sector privado defende a criação de políticas fiscais específicas nas áreas afectadas, tendo em conta que desde a passagem do ciclone Idai houve pouco ou nenhum apoio. O mesmo acontece desde que foi declarado o surto da pandemia da COVID-19.

“Temos noção de que o governo não tem dinheiro para ajudar a nossa camada, mas acreditamos que algumas políticas fiscais podem serem alteradas” no sentido de se “criar um fundo de maneio para que as empresas possam ser sustentáveis”, sugeriu Félix Paulo, vice-presidente da Associação Comercial da Beira.

A fonte acrescentou que se podia, por exemplo, “suspender o pagamento temporário de alguns impostos” e o dinheiro para essa finalidade seria usado para a revitalização das empresas. “O objectivo fundamental é manter os empregos” e evitar o “risco de criarmos problemas sociais no futuro”.

Nuno Cardoso, empresário beirense, referiu que é humanamente impossível combater certos fenómenos naturais. Os ciclones e as chuvas intensas são exemplos disso.

“A única coisa que deve acontecer para a nossa sobrevivência, tendo em conta que as nossas infra-estruturas têm sido destruídas” a cada vez que há calamidades naturais, é ajudar as empresas. “Por exemplo, o Idai fustigou a cidade da Beira há cerca de dois anos e, apesar do anúncio de apoio, no valor de 1.2 biliões de dólares, pela comunidade internacional, para a cidade da Beira, até hoje nenhum apoio se concretizou. Depois veio a COVID-19. Impossível sobreviver sem apoios”, afirmou Cardoso.

O levantamento preliminar efectuado pelo Conselho Empresarial de Sofala, por conta do ciclone “Eloise”, de acordo com Ricardo Cunhaque, presidente da agremiação, aponta prejuízos de cerca de 42 milhões de dólares no sector. Assim, os empresários reiteram o pedido de isenção de pagamento do IRPS e IRPC.

Eles almejam igualmente “a isenção de taxa de actividade económica ao nível do município, nas licenças para a reabilitação das infra-estruturas danificadas, por um período de dois anos no mínimo. Isso ajudaria a alavancar a economia”, considerou o interlocutor.

Num encontro com o primeiro-ministro, há dois dias, “pedimos fundos para capitalizar as nossas empresas em Sofala e em toda a região centro do país. Aguardamos ansiosos pela concretização destes pedidos”, disse Ricardo Cunhaque.

+ LIDAS

Siga nos