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O exemplo vem de um agro-sivicultor que, em décadas, construiu uma floresta, onde produz cacau, hortícolas, feijões e através dela travou efeitos dos ventos e das inundações que eram preocupação da região onde está instalado no Estado da Bahia, no Brasil.

Num contexto em que as mudanças climáticas estão a produzir impactos negativos na produção agrícola em todo o mundo, o homem está a procurar soluções para fazer frente a desafios futuros. No Brasil, surge um agente revolucionador, que, através da sua iniciativa desenvolvida numa área de 500 hectares, mostrou ao mundo que é possível produzir comida sem agredir o meio ambiente.

A iniciativa é do suíço Ernst Ghostsch que hoje é conhecido como pai da agricultura sintrópica e tem vindo a rodar o mundo para mostrar os resultados do seu trabalho. À Mozgrow, o agro-sivicultor revelou a essência do seu trabalho. “Procuramos reverter a tendência dos últimos mil anos em que houve um afastamento em relação à floresta. Através desta iniciativa, integramos culturas alimentares dentro da dinâmica da floresta”, explicou Ghostsch para depois avançar que não poderia estar mais feliz com os resultados obtidos.

“A minha produção está mais do que satisfatória, está acima do valor médio da região e eu não só produzo cacau, mas também, em resultado dessa interação com a floresta, tenho um constante melhoramento das terras que utilizo, sem uso de adubo trazido de fora, sem irrigação, nem agrotóxicos”, salientou.

O agricultor revelou ainda que usa a estratégia de poda de ramos e folhas de árvores plantadas que acabam por ser matéria orgânica para alimentar a sua plantação de cacau. “Isso resulta numa quantidade imensa dessa matéria que fica na terra; esse exercício dá-me entre 80 e 140 toneladas de material fresco por ano. Isso faz com que eu tenha disponibilização altíssimo e natural de nutrientes para as minhas culturas. Além do cacau, nesse local, produzimos as hortícolas, frutícolas feijões, milho entre outras culturas”, detalhou.

O agro-sivicultor reitera que, quando comprou o espaço, as autoridades consideravam que era inapropriado para a produção do cacau, por serem consideradas terras pobres. Sem adubos, nem outros aditivos, através das árvores que conseguiu enriquecer os solos em cinco anos e ter boa produção e produtividade. Um dado mais interessante é que, além das espécies por ele plantadas, germinam outras espécies que eram inimagináveis naquele local. O milho, soja, tomate, papaia entre outras culturas crescem sem nenhum tipo de aditivos e os frutos são de elevada qualidade.

O especialista disse, ainda, que além de produzir comida, a sua actividade está a trazer soluções para problemas resultantes das mudanças climáticas. “Antes, havia problemas de água e, quando chovia, tínhamos inundações, mas agora a realidade é outra. Antes, tínhamos problemas de ventos fortes que danificavam as infra-estruturas, mas hoje o ecossistema é mais equilibrado”.

No final da entrevista, quando questionado se Moçambique tem ou não capacidade de embarcar no mesmo sentido, o agro-sivilcultor recorreu às três visitas que fez ao nosso país para dizer que é possível. “Um país como o vosso, com muita população rural muito criativa, não é impossível acontecer. O que pode faltar nesse sentido são bons exemplos que podem estimular essa vontade. Trata-se de um país rico, o que resta é saber explorar esse potencial”, concluiu Ghostsch.

O uso do pó de rocha na agricultura impulsiona a actividade agrícola em cerca de cinco à 50 por cento, em função da aplicação do produto na terra, garantiu António Bizão, um dos participantes da III edição da plataforma Mozgrow.

Este sistema é uma alternativa de fertilizante natural que fortalece a lavoura. António Bizão, especialista em adubação, defende que o uso deste método agrícola é sustentável e barato.

A aplicação deste sistema significa o retorno do período em que a agricultura era bastante produtiva bem como rentável, avançou o especialista, acrescentando que a produção com base na química contraria o ciclo da natureza, explicando que, “até porque este tipo de adubação pode ajudar, entretanto não é sustentável”. Por isso, na busca de novas alternativas, Bizão viu a necessidade de recorrer ao método natural e de fácil acesso.

Uma das principais causas que fragiliza o sistema de fertilização química é o grande consumo de energias fósseis para a produção de alimentos, o que gera questionamento. “Se não houver mais energias fósseis, a humanidade vai perecer”, afirmou Bizão, que explica que por este motivo optou em voltar para as práticas remotas de forma a garantir não, apenas, uma agricultura sustentável, mas, também contribuir para um bom estado do ecossistema a longo prazo.

O especialista agrícola garante que a produção que provem da adubagem do pó de rocha, para além das inúmeras vantagens, é, também, indigesta a pragas por conta da sua composição e dos nutrientes que passa à produção, o que gera uma barreira para que os vermes não destruam as plantações.

António Bizão diz que embora este sistema não seja actual, assegura que é inovador e pode ser um grande aliado para o desenvolvimento da economia local.

De todos os produtores que operam em Moçambique, cerca de 97 por cento são do sector familiar, de todos eles, 95 não usam produtos agroquímicos, o que constitui uma vantagem na aplicação deste sistema, que pode contribuir na redução significativa da agricultura química e empobrece a qualidade do solo, gerando ácido clorídrico que destrói os micro-organismos do solo.

Bizão aponta ainda, a necessidade de o Governo moçambicano implementar o processo de rochagem no país e deixar à disponibilidade da sociedade de forma a criar uma independência agrícola.

O especialista reitera que aplicar este processo, é apostar numa agricultura sustentável e sublinha a grande vantagem dos solos moçambicanos não terem consumido ainda muitos químicos.

 

 

O Coordenador da FAO para África Central, Hélder Muteia, acredita que os países africanos ainda vão a tempo de atingir a meta global de fome zero até 2030. Hélder Muteia diz, entretanto, que tudo depende de políticas e agendas claras, onde cada interveniente conhece e cumpre o seu papel.

Em África, uma em cada quatro pessoas passa fome severa e é neste continente onde há mais desafios para o cumprimento da meta número dois da Agenda de Desenvolvimento Sustentável, a fome zero até 2030.

Faltando nove anos para o fim do prazo, Hélder Muteia mantém a confiança no cumprimento da meta em 2030, “não garante dignidade sabermos que há pessoas que passam fome. A base de tudo é a Política de Terras. Havendo política de terras, facilita-se o acesso ao crédito e gestão do património de recursos naturais que facilitam a agricultura”, disse.

Uma base que, em Moçambique, ainda está em discussão. O Coordenador da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura a nível da África Central, Hélder Muteia, espera que o processo seja breve e não anule outras prioridades.

“É preciso que haja uma agenda. Há tanta coisa a fazer que, se não definirmos prioridades, corremos o risco de nos perdermos. E em função disso é preciso mandatar os órgãos, as instituições que cuidam de tecnologia. Aqui em Moçambique temos IIAM, mas temos também Universidades que podem colaborar”, defendeu.

Com anos de experiência no sector agrário de vários países, Hélder Muteia fala de experiências internacionais que Moçambique pode copiar, a exemplo do Brasil.

Moçambique ainda não está no nível do Brasil, mas já dá os primeiros passos rumo a robustez agrícola com o Sustenta, que disponibiliza sementes, meios de produção e financiamento aos pequenos agricultores…entretanto, Muteia adverte, “o Governo tem de fazer o seu papel. Não deve ser ele a entrar na Machamba e dar financiamento. É preciso interessar a banca a fazer isso. Na África do Sul, por exemplo, foram criados bancos específicos”.

O representante da FAO para a África Central, Hélder Muteia, afirma que é tempo de os países africanos assumirem os seus destinos rumo a sua independência alimentar.

As mudanças climáticas, que têm sido registadas um pouco por todo o mundo, provocadas pelas crescentes acções de emissão de gases de efeito de estufa, têm colocado desafios aos vários sectores de produção.

Para os especialistas, estas mudanças estão por detrás das oscilações da produtividade agrícola em todo o mundo, o que torna urgente a adopção de medidas estratégicas para atender a demanda por alimentos, fibras e energia de modo sustentável.

Reflectindo em torno do tema “Produção responsável e resiliente às mudanças climáticas”, na III edição da MOZGROW, os oradores foram unânimes em afirmar que a agricultura, que é praticada em várias partes do mundo, não é sustentável, na medida em que se preocupa mais com o alcance dos resultados do que com a sustentabilidade das suas acções.

Teresa Alvez, pesquisadora do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), defende a necessidade de se apostar em estratégias de produção agrícola que não prejudiquem o meio ambiente.

As queimadas descontroladas, a destruição de florestas, entre outros elementos, são, para a investigadora, um dos elementos negativos para o nosso ecossistema.

Com as mudanças climáticas, Teresa Alvez diz que é necessário que as investigações agrárias sejam feitas na perspectiva de garantir que os nossos solos voltem a produzir alimentos de qualidade como vinha sendo.

“É preciso que sejam envolvidas as comunidades nos debates, para que, junto dos que trabalham directamente a terra, possamos encontrar soluções sustentáveis de produzir sem destruir”, explicou.

Implantada em Moçambique em 2017, a Bayer Moçambique é uma multinacional que presta assistência na área agrícola. Para este ano, a empresa apresenta uma inovação de sementes híbridas da marca Dekalb. Trata-se de uma marca presente em mais de 100 países, sendo uma referência no melhoramento genético, com maior enfoque no milho. Com o lançamento de três variedades de sementes melhoradas e milho, a Bayer tem em vista melhorar os índices de produção e produtividade desta cultura amplamente cultivada por pequenos, médios e grandes produtores no país.

“A Bayer, em parceria com a Dekalb, oferece uma tecnologia integrada em que abordamos a prática agrícola desde a semente até a pós-colheita. Apresentando várias soluções ao produtor, como o controlo da praga da lagarta do funil. Apresentamos ao mercado moçambicano três variedades de sementes, a DKC-33, cujo nome local baptizamos como “rápido”, é um híbrido precoce com rendimentos entre sete e nove toneladas por hectare; o segundo é o DKC90-89, que localmente designamos por topo, trata-se de uma semente de alta produtividade, capaz de produzir entre 10 e 12 toneladas por hectare e é tolerante a doenças de folhas; e, por fim, a DK777 que apelidamos por super, com um rendimento entre 8 e 10 toneladas por hectares, com potencial para duas espigas por plantas, é tolerante a Necrose letal e podridão da espiga”, explicou Norberto Mahalambe, representante da Bayer Moçambique.

Presente no debate, Pedro Fato, Chefe do Programa de Milho, no Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), descreveu que a sua instituição fez um trabalho de investigação, tendo submetido essas e outras sementes a diversas zonas agrícolas do país para descobrir o seu grau de eficiência.

“Esta é uma das empresas com as quais trabalhamos e nós, como IIAM, fizemos vários ensaios com os produtos que eles estão a apresentar. Nas últimas campanhas, analisamos seis híbridos desta empresa com outras que têm outras soluções. Essas três apresentadas aqui foram as que se apresentaram como sendo promissoras em diferentes ambientes em todo o país. Esse lançamento dará ao produtor nacional uma oportunidade de escolha e, por isso, melhorar os seus rendimentos consoante as características. Nós temos estações agrárias em todo o país, o desempenho dessas sementes foi variável, mas tenho de destacar que a DK777 e a DKC90-89 estiveram entre as cinco das melhores variedades ao longo desse estudo feito em todo o país, na campanha 2019-2020. Para dizer que, no conjunto de 16 variedades, de diferentes empresas, incluindo as apresentadas pelo IIAM, estas duas conseguiram estar bem posicionadas”, disse o interveniente.

Mais do que este teste feito pelo Instituto de Investigação Agrária, a Bayer diz ter realizado um trabalho junto aos produtores para aferir o nível de desenho das sementes.

“Temos sementes de ciclo curto e intermédio e elas adaptam-se de forma diferente para diferentes condições. As do ciclo curto adaptam-se melhor e aproveita-se melhor o seu potencial nas zonas com menores níveis de pluviosidade e também naquelas circunstâncias em que o agricultor, por alguma razão, semeia tardiamente. Mas, se o agricultor está numa zona com bons níveis de precipitação, o melhor é apostar em híbridos de ciclo intermédio, como DKC90-89 ou DK777, porque assim terá melhores retornos ao investimento feito”, explicou Mahalambe.

Apesar dos vários estudos e melhoramentos de sementes, o IIAM diz que o país ainda não tem uma semente capaz de fazer frente a lagarta do funil. “Neste momento, não podemos dizer que há uma variedade que seja resistente à lagarta, porque essa praga apareceu em 2016 e não estávamos preparados”, concluiu.

 

A falta de conservação das hortícolas, o acesso ao mercado e transporte são problemas antigos, que voltaram a ser apontados, na manhã de hoje, como os principais desafios da produção de hortícolas no país.

Falando da sua experiência de terreno, Spensa Dambikwa, produtor de hortícolas em Goba, província de Maputo, defende que é preciso munir os agricultores de conhecimentos.

“Nós precisamos saber como fazemos para conservar os nossos produtos. Nós produzimos muito, mas por não ter formas de conservação, ficamos sem nenhum lucro, porque a preocupação é despachar o produto. Daqui a pouco vamos vender tomate a preços muito baixos, porque não temos como conservar. Se tivéssemos fábricas por exemplo, de processamento de tomate, para fazer massa de tomate, ia ajudar muito também”, disse.

Por seu turno, o coordenador de produção agrícola da Agribusiness Systems, Gabriel António, sugere um bloqueio das importações dos produtos já existentes no mercado nacional. “É preciso criar mecanismos para bloquear produtos internacionais, com destaque para as hortícolas que vem da África do Sul. Só assim se vai estimular a produção local. E os produtores também devem ser consistentes. Actualmente nota-se que eles podem oferecer 1 tonelada de tomate em uma semana. Mas na semana seguinte já não conseguirem dar a mesma quantidade. Então precisamos melhorar esse aspecto. Só assim vamos alcançar a soberania alimentar”, disse António.

De acordo com o representante da Syngenta, Carmona Cossa, os desafios elencados, podem ser respondidos apostando no mapeamento. “Na cintura da cidade de Maputo só temos alface e couve. Na província de Maputo não temos cebola. Essas limitações fazem com que tenhamos que importar. E como não fazemos o mapeamento, para ver quais são as áreas em condições de produzir repolho, cebola, pepino durante todo o ano. E em função disso apostar nesses locais, para evitar a escassez em outras épocas ao longo de todo o país”, disse.

Para o investigador Hélder Zavale, a investigação deve ser orientada para responder as necessidades do consumidor. “Devíamos, por exemplo, apostar na produção de sementes que duram mais tempo. Mas notamos que a investigação ainda deixa a desejar. A resolução desses desafios podia vir da investigação. Mas temos estado a falhar. Precisamos de apostar mais na investigação na área agrícola”.

Já o chefe do departamento de agricultura no Conselho Autárquico de Maputo destacou a necessidade de se apostar na qualidade. “Nunca faltaram hortícolas na cidade. Mas devemos ir buscar fora por questões de qualidade, que vão variando em função das mudanças de tempo. Estamos a testar o sistema de estufas, para produzir algumas culturas, mesmo em épocas pouco favoráveis. O outro desafio é assegurar água, porque as hortícolas exigem muita água; o escoamento e as vias de acesso, também, devem ser tomados em conta, para”, Estevão João.

O painel que juntou Spensa Dambikwa, produtor de hortícolas em Goba, província de Maputo, Estevão João, chefe do departamento de agricultura no Conselho Autárquico de Maputo, Hélder Zavale, docente universitário e investigador, Carmona Cossa, representante da Syngenta e Gabriel António, coordenador de produção agrícola da Agribusiness Systems esteve subordinado ao tema “Os desafios da produção de hortícolas”.

Os participantes da Plataforma MOZGROW, da FUNDASO, defenderam, esta quinta-feira, que Moçambique deve investir em tecnologias, na definição de políticas públicas e em certificadores nacionais, de modo a fomentar a produção orgânica e a desenvolver a agricultura familiar.

Quase numa só voz, os participantes da Plataforma MOZGROW, iniciativa da FUNDASO em parceria com várias entidades, referiram-se às potencialidades e aos desafios da produção orgânica no país. Durante o debate de hora e meia, transmitido em directo pela Stv Notícias, os especialistas agrários identificaram problemas e ainda explicaram o que deve acontecer para que o desenvolvimento do sector seja uma realidade. O primeiro a intervir foi Hipólito Malia, Engenheiro do Instituto de investigação Agrário de Moçambique (IIAM). No seu discurso, Malia sublinhou que o investimento nas tecnologias testadas e disponíveis é um passo decisivo. Paralelamente, “o passo seguinte é trabalharmos com a extensão, de modo que essas mesmas tecnologias possam chegar aos produtores nacionais na melhor condição possível”. Para o efeito, o que o IIAM tem estado a fazer é usar o conhecimento que o produtor possui, sem uso de insumos e pesticidas, para promover boas práticas agrícolas e ao meio ambiente. “Só a partir daí poderemos chegar à verdadeira agricultura orgânica”.

Sob o lema “Transformar para competir”, no debate inaugural deste segundo dia da MOZGROW, Hipólito Malia lembrou que a produção orgânica é um desafio mundial. Nesse sentido, frisou, Moçambique tem algumas vantagens. Por exemplo, a terra. O que deve acontecer para que essa vantagem seja realmente visível é um maior investimento na pesquisa em produção orgânica. Depois, “Moçambique deve garantir a segurança alimentar e a segurança de alimentos. Tanto a produção orgânica, bem como a produção convencional devem caminhar juntos e, como país, temos o desafio de aumentar a produtividade”. Não queremos só atacar o mercado nacional, queremos e temos potencialidade de atacar o mercado internacional”. Tal empreendimento, disse, depende da criação de uma norma de boas práticas agrícolas locais.

No debate da manhã desta quinta-feira ficou claro que a agricultura orgânica, com investimento, dá dinheiro. Mas isso depende de muito rigor, segundo advertiu Jorge Matos, Engenheiro Técnico Agrário da Biochem: “A agricultura orgânica exige mais especialização à sua produção, porque os trâmites para a certificação não são tão fáceis quanto as pessoas pensam. É possível fazer uma produção orgânica, e cerca de 90% dos nossos produtores produzem de forma orgânica. Mas essa produção não tem qualidade suficiente para ser certificada. A certificação exige um certo número de requisitos”.

Neste momento, o sector da agricultura encontra-se a fazer um regulamento da produção orgânica, o que, segundo Matos, deve acontecer dentro dos padrões internacionais, com obediência de 100 passos de controlo de qualidade. “Não é impossível, mas leva o seu tempo”.

O Engenheiro Técnico Agrário da Biochem afirmou que os instrumentos normativos são importantíssimos para o incentivo à produção orgânica, o que deve estar associado aos ensaios de demonstração de tecnologias e à criação de centros de produção que favoreceram os agricultores. As normas devem funcionar para regular, conjugar esforços do Estado com o sector privado. E “organizar o sector produtivo colectivamente é fundamental”.

O debate da Plataforma da MOZGROW contou com a participação de Jaime Ferreira, Presidente da AGROBIO. No evento, o orador interveio a partir de Portugal, via online. Ferreira destacou dois grandes desafios para o fortalecimento da produção orgânica. “Primeiro, tem a ver com as políticas públicas. É preciso construir, ter-se um regulamento, um sistema de certificação e de homologação nacional. Depois, há todo um trabalho que pode ser do Estado e de empresas privadas, que tem a ver com toda uma promoção da actividade biológica: informação, divulgação e promoção”. O outro passo, na percepcao do Presidente da AGROBIO, é mais do nível organizacional, que deve envolver associações.

Os panelitas concordam que a agricultura em Moçambique deve ser gerida pelas pessoas locais e que o Estado e os privados têm de trabalhar em coordenação. “Não se consegue implementar a agricultura orgânica indo contra as pessoas. Elas devem se sentir sensibilizadas e compreender o que se pretende fazer. Os produtos orgânicos devem chegar à população local para autoconsumo”.

E porque tem-se dito que a agricultura orgânica tem maior rendimento do que a convencional, Jaime Ferreira preveniu dizendo que quando aumenta o produto no mercado, o preço começa a baixar. Daí a sugestão: “Temos de preparar o produtor sempre para o futuro”.

A partir de Cabo Delgado, interveio Monika Branks, Directora do Projecto Ouro Verde. A oradora começou por destacar que há naquela província boa chuva, água limpa e que a produção cabe em toda cadeia de valor. Branks acredita nas potencialidades da agricultura orgânica em Moçambique. Entretanto, há passos que devem ser consolidados para se garantir a competitividade: “Eu diria que temos sete desafios que ainda estamos a lutar para ultrapassar. Primeiro, a não existência de auditores para a certificação orgânica no país. Nós temos de trazer certificadores de fora, no caso, de Cape Town. Se tivéssemos auditores aqui em Moçambique, a nossa competitividade seria mais forte. Segundo, temos de importar insumos, quando sabemos que existe no país enormes possibilidades de prepararmos, produzirmos e vendermos localmente. Terceiro, o Governo começou a ver a produção orgânica com grande benefício, mas ainda estamos por ver organizações apoiadas pelo Governo. Sei que está a acontecer, mas precisamos de subsídios para quem entra para agricultura orgânica e o extensionista deve saber mais sobre a produção orgânica e terem áreas de demonstração, para se sentirem motivados, ao notarem as diferenças”.

A Directora do Projecto Ouro Verde ainda destacou a importância de políticas que visem o reconhecimento da importância da produção orgânica. E deu exemplos: “Não temos um selo de produto onde esta dito que é naturalmente fortificado. Existe selo para o açúcar convencional, onde se mete a vitamina A. Nós temos açúcar orgânico integral, com o nível máximo de vitamina A naturalmente. Então gostaríamos de ver um selo que apresenta fortificação natural nos produtos. Além disso, temos de conquistar mais compradores, porque não temos 50% amais em termos de lucro. No início, achamos que teríamos mais adesão dos jovens, mas a realidade mostrou-nos que os idosos é que procuram mais o produto orgânico, por questões de saúde. Nós garantimos um triplo retorno aos consumidores porque garantimos saúde a longo prazo e as novas gerações podem usar os mesmos solos, porque nós enriquecemos os solos. Na base disso, gostaríamos que o Governo garantisse possibilidades de crédito e de subsídios para ultrapassarmos os problemas. Uma produção orgânica custa 25% mais do que uma produção convencional”.

O debate subordinado ao tema “Produção orgânica e agricultura familiar” também contou com a participação de Faizal Augusto. O produtor orgânico de legumes participou a partir de Nampula e destacou que o transporte de produtos com qualidade do local ao mercado não é fácil, porque não é qualquer transporte que deve transportar as culturas”.

 

 

O Vice-presidente e Director-geral da OLAM para África Austral diz que Moçambique apresenta boas condições agro-ecológias para a produção de oleaginosas, como é o caso de amendoim, castanha de caju, macadâmia e soja. Para Shridhar Krishnan, a aposta nestes produtos pode permitir que o país se torne num grande produtor e exportador de óleo alimentar na região.

“Hoje em dia, cerca de 70 a 80% do óleo consumido em Moçambique é de palma e isso não é só em Moçambique; se olhar para todo o mundo, mais de 60 a 70% do óleo consumido é de palma e todos nós sabemos que a sua produção exige determinadas condições agroclimáticas encontradas maioritariamente no sudoeste da Ásia. Nós não temos essas condições agroclimáticas para a sua produção e a única opção que nos resta é migrar do óleo de palma para abraçar as oleaginosas que são economicamente benéficas, tanto para o produtor como para o consumidor. Se isso acontecer, então aí temos uma oportunidade e, sim, deve começar de algum lado e precisamos, digamos, de 5 a 10 anos a contar a partir de agora”, explicou o gestor.

Toda a região da África Austral importa, por ano, cerca de um bilião de dólares de óleo alimentar e o Director-geral da Olam para África Austral disse, durante a sua intervenção na terceira edição da Mozgrow, que esta é um oportunidade que deve ser aproveitada por empresas moçambicanas envolvidas no agronegócio.

“Nós, e outras empresas envolvidas nesta cadeia, importamos cerca de 25 mil toneladas de óleo mensalmente. Para produzir esta quantidade de óleo são necessárias quase 200 toneladas de oleaginosas mensalmente. Para lhe dar uma ideia, a África do Sul produz cerca de 1 milhão de toneladas de oleaginosas a cada ano; aqui, próximo de nós, temos o Zimbabwe e a Zâmbia que produzem entre 150 a 200 mil toneladas de oleaginosas a cada ano. Isso mostra que, se quisermos alcançar esses níveis, precisamos de começar de algum lado. Aqui, no país, já iniciamos, temos alguma produção de soja, o que pode motivar cada vez mais os produtores a manterem-se firmes na produção e isso pode ajudar no processo de substituição, não em 100%, mas começaremos, sim, com a substituição”, avançou o responsável da Olam na África Austral

O responsável da Olam falou, também, do fomento da castanha de caju em Moçambique, onde a companhia tem larga experiência de trabalho e prescindiu, recentemente, de algumas fábricas de processamento de castanha de caju.

“Claramente, tratou-se de uma decisão global, em que tínhamos que reorganizar alguns dos nossos negócios em alguns países e um dos negócios afectados foi o da castanha, principalmente em países como Moçambique e Tanzânia onde também tínhamos o processamento a um certo nível. Decidimos focalizar toda a nossa atenção no processamento de castanha em alguns países e focalizarmos mais em negócios a jusante a castanha de caju, para além do esquema da castanha. Essa foi uma das maiores decisões tomada em termos de reorganização, impactou este negócio e que resultou no encerramento do nosso negócio de processamento da castanha de caju em Moçambique”, esclareceu Shridhar Krishnan.

A multinacional Olam opera há mais de 22 anos na área de agronegócios em Moçambique, tendo impacto na geração de empregos e na melhoria da vida de muitas famílias do meio rural.

Reflectindo, esta tarde, em torno do tema “Instrumentos financeiros agrícolas”, na terceira edição da Mozgrow, Gildo Lucas, produtor e especialista em finanças, José Sousa Pinto, representante da Direcção de Negócios Corporativos do BCI, Júlio Rafael, director de Assessoria e Estruturação Financeira do BNI e Cremildo Maculuve, produtor agrícola, concluíram que houve redução no financiamento à agricultura nos últimos anos.

Em busca de soluções, os oradores apontaram o envolvimento do Estado e seguros agrícolas como alguns dos instrumentos para ultrapassar a situação.

“É preciso que haja uma política abrangente que permita uma comparticipação entre o Governo central e os locais, na mitigação do risco. Só assim as seguradoras mostrarão disponibilidade para aderir a esse negócio. Os agricultores não estão em condições para pagar um prémio muito alto. Daí que o Estado devia subsidiar, para permitir que o negócio seja atractivo”, disse Lucas.

Entretanto, Cremildo Maculuve compreende que é preciso fazer uma análise holística que tome em conta toda a cadeia de valor.

“É verdade que, nos países onde a agricultura é bem-sucedida, existe a garantia de um seguro agrícola. Os riscos existem em todos os sectores. Daí que é altura de deixarmos de lamentar os riscos e começar a pensar nas soluções. E, para mim, uma das soluções é olhar para toda cadeia de valor e depois introduzir o seguro, porque, apesar das limitações, nós já temos alguma produção agrícola, mesmo sem seguro. Só assim a agricultura deixará de ser um parente pobre, em comparação com os outros sectores de actividade”, disse Maculuve.

Por sua vez, o BCI falou da disponibilidade que tem para financiar a agricultura, apesar de saber que é uma actividade cheia de riscos.

“É preciso cadastrar os agricultores para organizá-los de modo que eles possam tirar benefícios das linhas de crédito existentes. Temos núcleos de agricultores dispersos que é preciso organizar. O seguro pode contribuir para que as pessoas se envolvam mais na agricultura e trazer para o banco a garantia da cobertura do risco”, disse José Sousa Pinto.

Já o BNI diz que não está a receber dinheiro suficiente para aquilo que é o volume das necessidades das áreas de desenvolvimento no país, entretanto procura “mobilizar parceiros nacionais e internacionais de modo que haja financiamento a actividade agrícola”.

“Os projectos de agricultura familiar precisam de ser transformados para gerar lucros. E essa transformação é feita através de assistência técnica, de forma que eles se tornem agricultores comerciais. O seguro é importante, mas não resolve o problema”, disse Júlio Rafael.

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