O País – A verdade como notícia

O Banco de Moçambique alerta que a vida vai ficar mais cara nos próximos 12 meses. Os preços dos combustíveis e dos produtos alimentares é que poderão ditar esse aumento do nível geral dos preços.

Para quem pensa que a vida está muito cara, actualmente, é melhor que se prepare, porque se avizinham momentos mais difíceis, segundo o alerta do Banco de Moçambique. Após mais uma sessão do Comité de Política Monetária (CPMO), o banco central avisou que os próximos dias poderão ser de apertos maiores.

“No curto prazo, antecipa-se a continuação do aumento dos preços, a reflectir o ajustamento dos preços dos produtos administrados e a repassagem dos elevados custos do petróleo e dos alimentos no mercado internacional, para a economia doméstica”, anteviu o governador do banco central, Rogério Zandamela.

E não é para menos. Para o governador do Banco Moçambique, há ainda muitos factores críticos ligados à economia nacional que poderão influenciar esse provável aumento do custo de vida, reduzindo, assim, o poder de compra das famílias e complicando ainda mais as suas vidas.

“O CPMO constatou, igualmente, a prevalência de elevados riscos e incertezas associados às projecções de inflação, com destaque para prováveis ajustamentos dos preços dos bens administrados, sobretudo, dos combustíveis, bem assim, o prolongamento do conflito geopolítico entre a Rússia e a Ucrânia”, explicou.

Entretanto, de Julho de 2023 e Julho do ano 2026, o banco central prevê que haja redução da inflação (nível generalizado de preços), podendo-se registar subidas de preços inferiores a 10 por cento. Daí que o Banco de Moçambique decidiu manter a taxa de juro de referência para a banca, a MIMO, em 15,25%.

Segundo um comunicado do Banco de Moçambique, a decisão de manter a taxa de política monetária (MIMO) é sustentada pelas perspectivas de desaceleração da inflação para um dígito, no médio prazo (período inferior a um ano), decorrente do abrandamento da procura externa e consequente redução dos preços internacionais das mercadorias, num contexto de manutenção da estabilidade cambial.

“As perspectivas macroeconómicas recentes são consentâneas com a manutenção do actual nível da taxa MIMO, no curto prazo. No entanto, no caso de agravamento de riscos e incertezas associados às projecções de inflação, o Comité de Política Monetária não hesitará em ajustar em alta a taxa MIMO para assegurar, no médio prazo, a inflação a um dígito”, referiu o Rogério Zandamela.

O Banco mantém ainda as suas perspectivas de recuperação económica em 2022 e 2023, não obstante o abrandamento da procura externa. Para o curto e médio prazos, mantêm-se as perspectivas de recuperação económica, sustentadas, principalmente, pela execução dos projectos energéticos em Inhambane e na bacia do Rovuma, e pelo início da exportação do gás liquefeito, num contexto de retoma do programa com o Fundo Monetário Internacional e de ajuda externa de outros parceiros de cooperação.

Na nota, o banco central lembra que, em Junho, a inflação anual acelerou para 10,8%, contra 9,3% em Maio, a reflectir, sobretudo, o aumento dos preços dos bens administrados, com destaque para os combustíveis e transportes. “A inflação subjacente, que exclui os preços dos bens e serviços administrados e das frutas e vegetais, e que é influenciada pela política monetária, acelerou ligeiramente, a traduzir, essencialmente, a repassagem do aumento dos preços administrados para os de outros bens e serviços”.

No comunicado enviado ao “O País Económico”, o banco central revela ainda que a dívida pública interna, ou seja, do Estado moçambicano, continua elevada. “O endividamento público interno, excluindo os contratos de mútuo e de locação e as responsabilidades em mora, situa-se em 248,2 mil milhões de Meticais, o que representa um aumento de 29,4 mil milhões em relação a Dezembro de 2021”, lê-se.

A próxima reunião ordinária do Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique, um órgão decisório, está agendada para o dia 15 de Setembro próximo.

A subsidiária europeia do Credit Suisse, que já se tinha declarado culpada no processo das “dívidas ocultas”, assumiu, esta semana, o compromisso de devolver 22,6 milhões de dólares a 18 investidores norte-americanos, dos quais obteve dinheiro para conceder empréstimos a Moçambique.

Só os funcionários com salários regulares é que vão ter seus ordenados, por enquanto, priorizando-se os que recebem salário mínimo. A Tabela Salarial Única veio criar “inconformidades” reconhecidas pelo Executivo e que devem ser corrigidas, o que vai significar “congelamento” dos salários dos trabalhadores nesta situação

A sessão do Conselho de Ministros de ontem discutiu a implementação da Tabela Salarial Única (TSU), cuja lei vigora desde 15 de Junho passado. O Governo aprovou três regulamentos sobre a matéria, nomeadamente, o referente aos critérios de enquadramento dos Funcionários e Agentes do Estado, o relativo aos quantitativos e a própria Tabela Salarial, sendo que pessoas no Aparelho do Estado já recebem salários com base na TSU.

Sucede que vários sectores têm estado a apresentar reclamações. “Existem várias situações de inconformidade. Dentro das reclamações, muitas têm a ver com a aplicação dos critérios de idade e tempo de serviço, que criam distorções”, explicou o ministro da Economia e Finanças, Ernesto Max Tonela, daí que essas situações “têm que ser geridas para que ninguém saia prejudicado com a implementação desta reforma”. Max Tonela diz que algumas irregularidades só poderão ser resolvidas com articulação entre o Governo e outras instituições de soberania.

“Uma vez que a lei está em vigor, vamos prosseguir com o pagamento de salários relativos ao mês de Julho a todos os funcionários e agentes do Estado que têm a sua situação salarial em conformidade, tomando como prioridade os funcionários enquadrados no nível salarial 1, que têm, sobretudo, o salário mínimo”, explica, sendo que este processo deve abranger cerca de 21 mil funcionários e agentes do Estado. A fixação desta base salarial não toma em conta os critérios de idade e de tempo de carreira, de acordo com o governante.

“O Governo decidiu ainda proceder ao pagamento dos salários do mês de Julho dos demais funcionários do Estado, incluindo os dirigentes do Estado, com base nas tabelas salariais existentes antes da entrada em vigor da Tabela Salarial Única e proceder aos retroactivos de Julho logo que as situações por resolver estiverem devidamente tratadas.”

Desde o início do processo da implementação da Tabela Salarial Única, a 23 de Junho, cerca de 80% dos aproximados 385 mil funcionários e agentes do Estado estão com o enquadramento concluído e metade destes é que tem o processo de enquadramento em conformidade.

MANUELA REBELO, O NOVO ROSTO DO FUNAE

Ainda ontem, o Conselho de Ministros nomeou Manuela Rebelo ao cargo de presidente do Conselho de Administração do Fundo Nacional de Energia.

Afastada do cargo de vice-ministra dos Transportes e Comunicações em Junho passado, depois de ter ficado nesta posição desde Maio de 2010, Manuela Joaquim Rebelo volta a dirigir uma instituição pública, agora como presidente do Conselho de Administração.

“O Governo aprovou a resolução que nomeia Manuel Joaquim Rebelo para o cargo de presidente do Conselho de Administração do Fundo Nacional de Energia (FUNAE)”, disse Ludovina Bernardo, porta-voz da sessão do Conselho de Ministros de ontem.

Entretanto, o Executivo decidiu ser mais rigoroso para os que pretendem ser secretários permanentes de ministérios e secretarias de Estado sectórias, ao aprovar o decreto que estabelece critérios de nomeação e competências.

A experiência mínima requerida é de cinco anos de chefia, especialidade na administração pública ou sectorialmente e haverá, ainda, avaliação a nível sectorial, sendo que o avaliado deve ter a classificação de “Bom” por cinco anos consecutivos. Actualmente, esta classificação deve ter sido por dois anos consecutivos, de acordo com o vice-ministro da Administração Estatal e Função Pública, Inocêncio Impissa, chamado a explicar as mudanças.

Foi também aprovado o plano de acção para a pessoa idosa 2022-2029, que visa reforçar a protecção a este grupo.

O euro está a perder valor de forma histórica, ainda assim, economistas ouvidos pelo “O País” dizem que Moçambique não terá muitas vantagens disso, porque as transacções são feitas em dólar.

As últimas semanas estão a ser marcadas por um facto histórico: o euro está equivalente ao dólar. Esta é a primeira vez em que isso acontece desde que a moeda europeia começou a circular fisicamente em 2002.

Por exemplo, até à última vez em que “O País” consultou, esta terça-feira, o euro valia praticamente o mesmo que o dólar. Em comparação com o Metical, o dólar estava para 63 Meticais e o euro, para 64.

O jornal “O País” saiu à procura de respostas e falou com dois economistas que são unânimes. Muktar Abdul Carimo atribui responsabilidade unicamente à guerra que está a ser movida pela Rússia contra a Ucrânia desde Fevereiro deste ano.

Entretanto, diga-se, a guerra em si não é uma assombração ao euro. O economista explica que, com o conflito, ficou menos seguro investir em países europeus e passou a haver menos entradas. Com isso, o Banco Central Europeu pode ter emitido mais notas, o que fez derrapar a sua moeda. Nada é novo, na verdade. “É normal. Em qualquer país onde haja uma instabilidade, a moeda local tende a perder valor”, descreve Muktar Abdul Carimo.

Já o economista José Manhique encontra mais razões, além da guerra. Manhique recua até 2008, quando houve a última crise financeira. Para ele, os europeus ainda não estavam totalmente recuperados, e o Banco Central Europeu ainda estava a emitir moedas para ultrapassar este problema. “Depois, veio a COVID-19, que também trouxe uma crise e pressões inflacionárias, porque as taxas de juro de referência não podiam continuar como estavam.”

Uma vez mais, mais moeda europeia e menos valor no mercado. E agora a questão que se levanta é se isso tem algum impacto em Moçambique. Na verdade, é quase nenhum. “Eu diria que é marginal. É quase inexistente. As nossas transacções são feitas em moeda estrangeira – dólar e rand. O euro tem pouco, quase nenhum, impacto na nossa economia”, explica Carimo.

Ainda assim, não há razões para que os agentes económicos fiquem de mãos atadas, até porque se abre, agora, uma janela de negócios para os importadores e pode-se estar a fechar para os exportadores que lidam com o bloco europeu.

José Manhique esclarece que, com o euro menos valioso, é o momento de os importadores comprarem mais da Europa e isso seria uma saída para a pressão inflacionária que se regista actualmente.

Em todo o caso, o facto é que a Europa não tem produzido o suficiente para alimentar países como Moçambique. Aliás, eles próprios dependem de importações de outros países para sobreviverem, por isso sofrem pelo facto de não estarem a beneficiar-se, na normalidade, dos hidrocarbonetos russos, no contexto das sanções que têm sido aplicadas devido à guerra.

O ministro da Economia e Finanças anunciou, ontem, um subsídio de 50 milhões de dólares para travar a subida da tarifa do transporte semi-colectivo de passageiros durante seis meses. Max Tonela avançou, também, que o Governo mobilizou 85 milhões de dólares para as famílias desfavorecidas face ao actual custo de vida.

A informação foi avançada no âmbito da visita do director para o departamento africano no Fundo Monetário Internacional a Moçambique.

O representante da instituição manteve, ontem, um encontro com o Presidente da República. Na ocasião, Filipe Nyusi manifestou a sua preocupação em relação à situação da Estrada Nacional Número Um, apontando-a como uma via prioritária para a dinamização da economia nacional.

Depois de o presidente do Conselho de Administração da Agência Metropolitana de Transportes ter anunciado 40 milhões de dólares para subsidiar o transporte público, o ministro da Economia e Finanças trouxe novos dados.

“O Governo mobilizou recursos para assegurar que haja uma estabilidade dos preços nos transportes públicos. Temos já 50 milhões de dólares para este fim e, em resultado, esperamos que, mesmo na eventualidade, incrementos internacionais em termos de preços estejam a ser voláteis e que as populações estejam protegidas”, disse Max Tonela, ministro da economia e finanças.

E é pensando na protecção das populações que o Executivo foi à busca de financiamento para as famílias menos favorecidas.

“Temos cerca de 85 milhões de dólares norte-americanos para aumentar o espaço fiscal para o Estado financiar as famílias mais desfavorecidas, aumentado o número de agregados familiares, bem como o valor atribuído por famílias”, avançou Max Tonela, ministro da Economia e Finanças.

O Ministro da Economia e Finanças falava, no seu gabinete, numa conferência de imprensa conjunta, com o director para o departamento africano no Fundo Monetário Internacional, que visita o país no âmbito do reconhecimento de reformas que estão a ser feitas pelo Governo.

Terminou, hoje, a quarta edição da Mozgrow. A secção de exposição continuou a ser a grande atracção desta quarta edição da feira. Havia de tudo, desde sementes, passando por tecnologia agrícola até produtos prontos para a degustação no local. O espaço também serviu para firmar parcerias. No último dia do evento, o Governo da Província de Maputo quis ir ver de perto.

Júlio Parruque, governador da Província de Maputo, decidiu não perder a oportunidade de ver as potencialidades expostas na feira. À chegada, antes de mais nada, decidiu visitar a exposição. Interagiu com produtores de diferentes províncias. Uma frase que era sua tónica é: “façam intercâmbio com a Província de Maputo”. Fê-lo quando foi falar com produtores de tomate de Gaza.

Visitada a exposição, Júlio Parruque mostrou-se satisfeito e esperançoso em relação ao futuro de Moçambique. É que, para ele, “feiras como esta ajudam a fazer com que Moçambique cumpra o que está plasmado na Constituição da República, que é que a agricultura seja a base do desenvolvimento de Moçambique”.

Júlio Parruque fez-se também ao interior da tenda, visitou vários stands e foi até à sala onde decorriam os grandes debates.

EXPOSIÇÃO DA MOZGROW: A GRANDE ATRACÇÃO DESTA EDIÇÃO

De cima, via-se um parque cheio de viaturas e embaixo encontra-se a razão que atraiu tanta gente à Arena 3D, na KaTembe, nos últimos dois dias. É a quarta edição da maior montra do agro-negócio no país e os expositores não quiseram defraudar, levaram o melhor que fazem e não fazem pouco.

Havia, na KaTembe, produtores de todas as idades. Encontrámos um jovem de 24 anos de idade. Ele é técnico agro-pecuário.

Depois da formação, Álvaro Abudo não teve emprego e decidiu juntar-se a uma parceira para abrir a Agrota, uma empresa de jardinagem e consultoria agrícola. No mercado há oito meses, a Agrota ganhou maior relevância nesta exposição da Mozgrow. “Conseguimos mais clientes para jardinagem e outros serviços que temos.”

Porém, não é só o jovem Álvaro, há outros produtores que, ainda no decorrer da exposição, já colhiam frutos da sua participação. Prova disso era a troca de cartões e compras que eram feitas no grande pátio da Arena 3D.

Uma das grandes atracções era um sistema de irrigação da Honda, montado de tal maneira que pareça não ter nenhum ponto de suporte. Isso atraiu vários curiosos. A fabricante, a Honda, diz que mais do que atrair curiosos, o seu stand teve um grande impacto na criação de novas parcerias. “As pessoas procuram quase todo o nosso equipamento, desde motobombas, motorizadas e outros.”

Ligado também à irrigação, estava a Savannah, empresa de produção de tubos que colhe bons frutos. E não são só eles que firmam boas parcerias. A TECAP e a AQI também se mostraram satisfeitas, já que conseguiram reunir grande parte do que precisaram.

O evento atraiu diferentes tipos de apreciadores. Exemplo disso é a administradora de Boane, que tomou um tempo para apreciar o que de melhor se faz no seu distrito. Interagiu com os produtores e ficou a saber do que mais se faz na zona que dirige.

O deputado Samo Gudo também decidiu interagir com a maior conferência do agro-negócio no país e gostou do que viu, mas há algo em particular que o impressionou. “Vi muita juventude envolvida na produção agrícola, isso é uma boa promessa para o futuro.”

Mas a exposição não termina no pátio da Arena 3D. Quem transpõe a porta, encontra um novo mundo. Por exemplo, o presidente do Conselho de Administração da Fundação SOICO, Daniel David, descobriu um bolo e dele deliciou-se e, até, convidou os que estivessem nas proximidades para também provar.

A acompanhar o bolo de arroz de Chókwè, um café também descoberto na Mozgrow, o Café Chimanimani. Essa também foi uma das grandes atracções da feira. Aliás, a administradora do distrito de Magude provou o café. No final, recomendou que fosse a aposta do país por ser “muito bom e sem muita cafeína”.

Houve quem procurasse mais do que os produtos disponíveis. Afinal, Mozgrow também é um espaço de novas parcerias. Por exemplo, o administrador do Millennium bim, Moisés Jorge, visitou a feira com o objectivo de resolver um dos maiores problemas do agro-negócio: o financiamento. “Já vi algumas coisas interessantes. Agora é só fazer a recolha de informações para saber em que apostarmos.”

Já o BCI, que já tem uma linha de financiamento ao agro-negócio, tinha um stand, nesta edição, onde trazia consigo os maiores beneficiários dos seus fundos. Quem passeia pelos corredores da feira encontra também soluções como seguro agrícola… Um problema que vários dos empresários agrícolas levantam devido à exposição aos desastres naturais em Moçambique. As opções são várias.

Para os problemas de comercialização, há quem quis ajudar e foi interagir com as diversas empresas que expunham na Mozgrow. Tinham visitantes de diferentes idades e vindos de diferentes pontos do mundo.

Os diferentes stands, que eram frequentemente visitados por várias pessoas, tinham lá de tudo, incluindo máquinas de última geração, com as empresas a explicarem como cada parte funciona.

Em cada um dos lados, é possível ver várias pessoas em conversações… Na verdade, esta foi a área que, por excelência, era usada para o networking.

Mais do que os primeiros contactos entre fornecedores e potenciais clientes, houve quem arrecadou consumidores dos seus serviços. Por exemplo, a Wise Up on-line, que inscreveu alguns novos estudantes… Esta é uma plataforma que ensina Inglês on-line, o que facilita a escalabilidade dos negócios, por isso foi também uma das atracções.

Com os primeiros contactos feitos, chegou o momento de fazer o seguimento e captar potenciais negócios através dos cartões-de-visita recolhidos

Os especialistas agrários que participaram, hoje, na feira de agro-negócios Mozgrow, na Cidade de Maputo, consideraram que a grande fonte de apropriação de riqueza no sector da agro-pecuária é o acesso à tecnologia. Por isso, segundo entendem, os tomadores de decisão devem ser mais proactivos na busca e na disponibilização de informação tecnológica.

A Arena 3D, na KaTembe, Cidade de Maputo, foi, pelo segundo dia consecutivo, palco de uma série de reflexão sobre temas importantes para o desenvolvimento social e económico, a nível nacional. Na manhã do dia de encerramento da feira de agro-negócios Mozgrow, o tema proposto ao debate foi precisamente “Inovação e transferência de tecnologia na agro-pecuária”. Nesse painel, fizeram parte quatro especialistas do sector, nomeadamente, António Magaia, representante comercial da Syngenta em Moçambique; Joaquim Milagre Cuna, director nacional dos Agentes de Desenvolvimento de Agro-negócios – IDE Moçambique; Daniel Bolla, director da Olga Rural; e Fungayi Simbi, engenheiro agrónomo sul-africano.

O primeiro a intervir na sessão muito concorrida e comentada foi António Magaia, para quem o desenvolvimento do sector agro-pecuário depende, essencialmente, da proactividade dos decisores e do acesso eficiente à informação tecnológica. “Precisamos de ser proactivos nesta procura de informação, por parte dos tomadores de decisão. Nós, empresas, temos informação e conhecimento. Mas, como foi dito ontem, estamos aqui para fazer dinheiro. Nós precisamos de investir onde temos retorno do investimento que fazemos”.

Para os oradores da Mozgrow, Moçambique precisa de investir na procura e disponibilização da informação relevante para o sector agro-pecuário, porque o mundo está em constante actualização de conhecimentos inerentes à produção. Não sendo Moçambique um caso à parte, a ciência deve ser usada a favor dos produtores.

Esta, igualmente, foi a abordagem de Joaquim Cuna, que, concordando com Magaia, acrescentou o seguinte: “Há alguns anos, a principal fonte de apropriação de riqueza nas zonas rurais era a terra. As pessoas esmeravam-se para adquirir grandes extensões de terra. Hoje, a fonte de apropriação de riqueza é conhecimento e tecnologia. Independentemente de ser pequeno, médio ou grande, tem que ter acesso às tecnologias”. Logo, actualmente, muitas vezes, pouco importa o tamanho da propriedade do produtor. O conhecimento e a capacidade de utilização ou reutilização do espaço revela-se crucial para a produtividade no sector agro-pecuário.

Considerando “tecnologia” uma palavra-chave no debate da manhã desta quinta-feira, Daniel Bolla explicou o que isso significa: “Quando falamos de tecnologias para o sector agro-pecuário, devemos considerar dois aspectos: uma coisa são tecnologias de insumos e a outra são tecnologias de processos. É um erro querer entrar nas tecnologias de insumos enquanto as de processos ainda não estão bem tomadas”.

Para Bolla, criar bases de conhecimento e produtividade é indispensável. Por isso, no capítulo das transferências de tecnologias, deve-se considerar a parte que transfere conhecimento e a que recebe. “Se a parte que recebe está fechada, podemos dar tudo, mas não irá captar nada. Ou por outra, se a parte que recebe está aberta, mas a pessoa que está a trazer a tecnologia não entende do contexto de produção ou quem está a produzir, de nada valerá.”

No debate sobre a “Inovação e transferência de tecnologia na agropecuária”, houve uma contribuição proveniente do engenheiro agrónomo sul-africano Fungayi Simbi. Resumidamente, Fungayi Simbi defendeu a tese de que as tecnologias essenciais para o desenvolvimento do sector existem no país e que as exposições da feira Mozgrow são exemplos disso. “O que eu tenho notado é que, se nós olharmos para o número de empresas que estão a expor aqui (os seus produtos), vemos que a tecnologia está disponível em Moçambique”.

No último dia da feira de agro-negócios, houve muitas contribuições do público. Um dos participantes que contribuiu com ideias foi o empreendedor Rui Gomes, que explora um aviário no distrito de Boane, na Província de Maputo. Entre os problemas apontados, o participante destacou o seguinte: “As tecnologias de que precisamos são financiáveis. Temos é que importar, mas, quando as importamos, temos custos acrescidos”. E deu exemplos, referindo que o país não cria políticas favoráveis para a importação de material que estimule o uso de energias renováveis, como os que são usados para a instalação de painéis solares, com taxas de importação altas.

Do público, houve ainda uma contribuição que mereceu aplausos, a de Michaque Sacanhane. O empreendedor denunciou a falta de comunicação entre as autoridades governamentais e o sector-privado, o que acontece há anos no sector da agro-pecuária. “Não há comunicação entre o sector-privado e os governos. Eles expõem-se como dirigentes, mas não nos dirigem nem nos abraçam. Esta ainda é altura de importarmos da Europa carroças para transportar lixo, num país como este? Mas nós estamos aí com maquinaria”.

A feira de agro-negócios Mozgrow decorreu de quarta à quinta-feira e, nos dois dias de actividade, a Arena 3D, na KaTembe, acolheu o evento.

Os administradores dos distritos de Marracuene, Namaacha, Magude, Chókwè e Mabote defendem que a aposta no desenvolvimento das tecnologias avançadas, o aprovisionamento de sementes aperfeiçoadas aos agricultores e a melhoria das vias de acesso são elementos-chave para a dinamização do agro-negócio.

Falando na quarta edição da Mozgrow, integrando o terceiro painel, que tinha como tema “as dinâmicas locais do desenvolvimento do agro-negócio”, os cinco oradores venderam as potencialidades que cada distrito possui, assim como abordaram os desafios que têm. Apesar das enormes potencialidades nas suas diversas especificidades, há muitos pontos em comum.

Os cinco distritos enfrentam as mesmas dificuldades, no que diz respeito à falta das tecnologias avançadas, elemento que entendem que é fundamental para um ambiente saudável de agro-negócio. Mas as dificuldades não param por aí. Todos enfrentam, ainda, o problema da fraca disponibilidade de sementes melhoradas, assim como vias de acesso em boas condições para o escoamento dos produtos agrícolas.

O administrador de Marracuene, Shafee Sidat, diz que o distrito que dirige está a incentivar a criação de cooperativas, como forma de permitir que os agricultores tenham acesso ao apoio que o Governo distrital tem disponibilizado.

Mas ainda, a aposta no associativismo, segundo Sidat, é uma das saídas encontradas para resolver o problema de tecnologia que o sector familiar tem enfrentado, na medida em que fica difícil apoiar de forma individual a cada agricultor.

Com um enorme potencial na agricultura, sobretudo na produção de arroz e hortícolas, Marracuene tende a dar passos significativos, tendo em vista o melhoramento do agro-negócio. Para o efeito, o Governo distrital tem estado a interagir com diversos investidores que pretendam implantar as suas infra-estruturas neste ponto da Província de Maputo. Os sinais já são visíveis. Shafee Sidat garante que há condições para toda a produção dos agricultores.

“Já está em construção uma empresa que irá absorver toda a produção dos agricultores. Tudo indica que esta unidade fabril poderá entrar em funcionamento em Dezembro próximo”, garante Sidat, que também explicou que essa fábrica não só irá absorver a produção, como também irá processar e colocar no mercado nacional e internacional.

Em tempos, considerado “celeiro da Nação”, o distrito de Chókwè tenta reerguer-se para voltar a ostentar esse estatuto. A rentabilização e posterior sustentabilidade do Regadio de Chókwè, por sinal um dos maiores de África e do país, é, neste momento, uma das apostas para a revitalização do sector agrícola.

Disse ainda que, no seu distrito, os agricultores têm-se beneficiado de sementes melhoradas. Com efeito, o Instituto de Investigação Agrária tem contribuído significativamente no campo da investigação científica, através da produção de sementes melhoradas de diversas variedades. Entretanto, Eceu Muianga lamentou o facto de haver muita produção e pouca procura. Segundo disse, há muito arroz nos armazéns, desde a época agrícola passada, por falta de compradores.

O distrito de Magude é uma referência na produção pecuária. Ainda assim, a agricultura tem merecido especial atenção por parte do Governo distrital. O administrador de Magude, Lázaro Bambamba, explicou que o seu Executivo está a empreender esforços no sentido de aperfeiçoar os níveis de produção.

Nesse sentido, o Governo distrital alocou motobombas, reabilitou e construiu regadios. Esse facto reduziu a procura de hortícolas noutros pontos por parte da população de Magude.

“Por causa da nossa aposta na agricultura, reduzimos a dependência. Ou seja, agora somos autónomos”, disse Lázaro Bambamba, sublinhando que o desejo é que Magude seja um mercado de referência nas hortícolas.

O distrito de Mabote tem sido assolado ciclicamente pela seca, facto que contribui negativamente na produção. A aposta na revitalização do agro-negócio, segundo Bambamba, passa por dotar os produtores de gado bovino para a melhoria das espécies, tendo em conta que o distrito é o maior criador e fornecedor de carnes.

Localizado a Norte da província de Inhambane, Mabote tem um enorme potencial na criação de gado bovino, de cerca de 33 mil e 12 mil cabeças de gado caprino. O distrito está a apostar, ainda, na linha da castanha de caju, estando a produzir, por época, quatro a cinco mil toneladas. Para melhorar o agro-negócio, de acordo com Carlos Mussanhane, o distrito está a implementar uma iniciativa denominada “produza Mabote”. A iniciativa tem como um dos pilares o envolvimento da população, visto que ela é o maior activo nesse processo.

Sem dificuldades para o escoamento da produção, o distrito de Namaacha produz um pouco de tudo, mas, por causa do clima fresco predominante naquele ponto da Província de Maputo, tem apostado na fruticultura e nas hortícolas.

Para a administradora daquele distrito, Suzete Dança, a melhoria do agro-negócio neste ponto passa por potenciar o pequeno agricultor, trazendo mais conhecimento para o mesmo, justificando que esta camada não precisa de porções enormes de terra para produzir para auto-consumo, assim como para a comercialização. 

Segundo Suzete Dança, persiste, em Namaacha, a falta de provedores de insumos agrícolas, daí que aproveitou a ocasião para convidar os investidores dessa área a implantarem lojas de referência neste distrito, facto que, na sua opinião, poderia reduzir o sofrimento dos agricultores.

Arrancou, esta quarta-feira, a quarta edição da feira Mozgrow. Na abertura, o PCA da Fundação SOICO, Daniel David, defendeu que o Governo deve criar políticas favoráveis a investimentos. Já a vice-ministra da Indústria e Comércio garante que está em curso um conjunto de reformas para industrializar o país.

O arranque da quarta edição da feira Mozgrow esteve repleto de pessoas que queriam acompanhar o calor dos debates e das exposições de forma presencial.

E não é para menos. As anteriores duas edições foram virtuais, por conta das restrições impostas pela COVID-19.

Antes mesmo de se iniciarem os debates, o presidente do Conselho de Administração (PCA) da Fundação SOICO (FUNDASO), Daniel David, foi chamado a deixar algumas notas introdutórias. E nelas, lembrou o papel de cada interveniente para a promoção do agro-negócio.

 “Muitas vezes, tem dominado o conceito de ‘centralização’, apenas, no papel do Governo, como se o Governo tivesse que produzir. Quem tem que produzir são os empresários. O Governo tem que facilitar. O Governo tem que ajudar, colocando políticas favoráveis ao investimento dos empresários”, defende o PCA da FUNDASO.

Para Daniel David, com adesão à Mozgrow, os empresários transmitem uma mensagem de prontidão para continuar a competir e a inovar, mesmo diante de adversidades.

A vice-ministra da Indústria e Comércio é que esteve na abertura a representar o Governo. Ludovina Bernardo diz que o Executivo está ciente da importância de uma indústria forte para reduzir a dependência. Aponta a Inglaterra como exemplo, que deixou de ser um mero exportador de matérias-primas para se transformar num país industrialmente avançado.

“Para conseguir tal desígnio, colocou em marcha uma série de legislação para proteger e apoiar as indústrias nacionais da concorrência estrangeira e, acima de tudo, para a melhoria do ambiente de negócio como um factor principal”, detalha Ludovina Bernardo, para depois explicar que, no contexto de Moçambique, o caminho “para a industrialização se chama Programa Nacional Industrializar Moçambique, que pretende dar foco ao desenvolvimento rural inclusivo” por via da expansão das oportunidades do mercado para os produtores agrícolas.

“Igualmente, o programa tem como finalidade a diversificação da estrutura económica do país, a melhoria da balança comercial através de importações e agregação de valor aos produtos nacionais, transformados em produtos diferenciados de alto valor”, acrescenta Bernardo.

A governante reconhece que a indústria precisa de infra-estruturas de padrão internacional, aposta no conteúdo local, o agrupamento de indústrias e a aposta em laboratórios para o avanço do agro-negócio no país.

 

Ludovina Bernardo aproveitou a ocasião para visitar a exposição e, de perto, ver o que o país melhor produz. A governante foi-lhe oferecido, por um produtor, um saco de arroz produzido em Magude, Província de Maputo. Deu ainda tempo para saborear o café Chimanimani, produzido em Sussundenga, província de Manica.  

Ludovina Bernardo diz ainda que a Mozgrow encoraja a criação de um ambiente favorável ao investimento e diz mesmo que a feira é oportuna, relevante e actual.

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