O País – A verdade como notícia

Por: Edna Matavel

 

O campo é um lugar inescrutável, tão silencioso que gera uma reflexão não planeada da existência e do dito princípio, só com a simplicidade com que as aves entoam em conexão com as folhas das árvores e o mar a longa distância. Como é bom contemplar a plenitude da natureza, o nascer e o pôr-do-sol. Foi sempre assim até que o barulho das armas de guerra assolaram aquele mato.

Dorca, campesina, como é habitual para as mulheres do campo, levantou-se às primeiras horas de quinta-feira para colocar a mão na machamba. Curiosamente, foi a única mulher a exercer o trabalho nas plantações. As suas companheiras ficaram na aldeia.

O campo é realmente diferente, um lugar sem descrição. Tudo o quanto acontece é de conhecimento colectivo. Surdina é utopia, porque até mesmo as árvores têm ouvidos para ouvir e olhos para ver.

Era ainda muito cedo, quando ouviu gritos de disparos que saíam das bandas de sua aldeia e, imediatamente, interrompeu o trabalho. Nesse dia, ela acreditou na protecção dos ancestrais. Seria a única a escapar da morte. Eram gritos de choro e clemência, tiros de gente preparada para exterminar pessoas inúteis no desenvolvimento de um país, podemos considerar um conjunto de alcateia. No mesmo instante, ela caminhou célere de desespero em direcção à sua casinha de palha. O passo era tão célere que bem perto da aldeia teve um movimento de inércia ao ver homens armados e cadáveres no chão. Observou de longe e viu o seu marido levar um tiro na cabeça por ter envergado uma camisa vermelha, que, por sinal, para estes homens que ouso chamar de terroristas, carregava um significado.

Sem saber o que fazer, Dorca derramou lágrimas de sangue em silêncio ao ver também o seu filho nas mãos de um destes homens. Eles aguardavam o seu companheiro que foi a busca de um pilão. Enquanto isso, faziam um movimento como se o miúdo fosse uma bola de basquetebol. Depois de acharem o pilão, colocaram o menino para ser pilado tipo um milho, mas, diferente deste, não sobraram nem restos para colocar dentro de um féretro e fazer-se um enterro digno.

A aldeia parecia uma vala comum com tamanha brutalidade que afectou o emocional da Dorca ao ponto de ficar por horas inconscientes, e, quando abriu os olhos, aproximou-se e não estava mais ninguém. É como se todos tivessem sido engolidos pela terra, seus dias passaram a ser lúgubres, as árvores e poucos animais que lhe sobraram foram as únicas testemunhas do que ela viveu. Tudo murchou. É como se a natureza entendesse o massacre que houve, as folhas mudaram de forma, ao invés de verdes, ganharam a cor vermelha de sangue dos seus donos já cadáveres.

A mulher do campo carregou o luto da sua família e de tantas outras campesinas assassinadas e violentadas por estranhos sem conhecer os direitos humanos, os seus ombros carregaram dor da enxada, e a sua alma traumas.

Cicatrizada pela dureza do seu trabalho, os seus pés denunciam as longas caminhadas que se igualam aos músculos de um homem que muito cedo percorre quilómetros em busca de sustento para sua família, e as suas mãos endurecidas com trabalho árduo da enxada debaixo do sol e acompanhados pelos movimentos da corda que tiram a água do poço, foram as únicas formas de sobrevivência para sustentar o único filho que o massacre não lhe tirou do seu ventre.

Mesmo gestante, Dorca procurou o seu poder no íntimo e usou, interrompendo o sono pela reconstrução do seu lar. Um minuto de repouso era resultado de um dia de trabalho perdido. Na ausência de um marido que lhe pudesse proteger, impávida, percorreu matos lutando com serpentes enquanto pastoreava o seu gado e tirando lenha nas árvores para preparar suas humildes refeições, mostrando que no campo, o trabalho funciona com lentes de género.

Depois de muito tempo de trabalho e gestante, deu à luz o seu filho Ezequias, sendo assistida por cabritos. Passaram anos, e o menino cresceu num mundo estranho. A sua mãe pouco falava. Foram tantos anos de solidão que acabou perdendo habilidades de fala.

Num belo dia, ela decidiu sentar com o seu filho para lhe contar como tudo começou. O menino dobrou-se em lágrimas ao saber que um dia existiram homens como ele, mas que a vida lhes tirou. Hoje, é um menino crescido e com uma visão surpreendente, como se os seus antepassados lhe estivessem a distribuir o conhecimento em jeito de recompensa. Ele disse à mãe que queria lutar pelos tais direitos humanos, mas sem nem saber por onde começar naquele mato infinito. Gritou por liberdade, mas ninguém podia ouvir a não ser as aves.

No final do mês de Agosto daquele ano, as energias renovaram-se. Parece que os gritos surtiram efeito. Sem nem esperar, passou um desses transportes ferroviários, o que é bem raro. Ezequias viu a oportunidade da sua vida. Gritou bem alto e uma vez que no campo não há sigilo, logo ouviram… O transporte parou e ele foi a correr. Sabe-se lá o que terá dito. Bem de longe, viu a sua mãe na aldeia e gritou mamã Dorca. Fixou o seu olhar nele e ele levantou os braços. Num movimento de nostalgia, disse: adeus, mãe, quero a tal liberdade e justiça.

Quando finalmente conseguiu uma companhia, a vida, uma vez mais, roubou-lhe. A mulher do campo ficou sozinha, como se este fosse o seu destino. Os seus animais e as suas plantações deram-lhe abraço de força enquanto fazia preces para que o filho não tivesse o mesmo destino que o pai e o irmão tiveram.

Edna Matavel

Nas noites de lua cheia, no calor do mês de Janeiro, na iluminação das lâmpadas do quarteirão 5, vêem-se corpos esticados nas barras de ferro do famoso bar local, um sobe e desce num pequeno edifício construído com material de zinco e tecto falso. É onde as mulheres iam mostrar seus dotes sedutores. Foi assim que Zuleica foi promovida.

Zuleica nasceu pobre e ainda novinha ficou órfã. Para se manter, começou a vender gelinhos na esquina do quarteirão. Com a sua beleza encantadora, quase todos adquiriam o seu produto, principalmente os homens. No entanto, ela decidiu parar de vender quando descobriu que atraía senhores abastados do bairro com o brilho da sua beleza. Passou a envergar mini-saias, roupas decotadas, ela era mais reluzente que um espelho.

A princípio, frequentava o bar para ganhar experiência, a convite de uma vizinha, e ficou impressionada com a forma como as mulheres usavam o seu corpo para ganhar dinheiro. Daí, decidiu engrenar, tornando-se prostituta e enveredou por esse mundo, abusando do álcool, injectando-se drogas para conseguir se relacionar com os seus clientes e, na maioria das vezes, homens barrigudos.

O dono do bar tinha um amigo que, por conseguinte, também era dono de um bar luxuoso na capital. Certo dia, numa sexta-feira, convidou-o para tomar um drink no seu bar e conhecer a periferia. Quando chegou e deparou-se com o brilho da doce jovem, antes de tomar o segundo drink, ficou fascinado com a forma com que Zuleica fazia a dança do cano, que, no mesmo instante, convidou-a para trabalhar no seu bar na cidade.

Foi assim que ela subiu ao salto, sem educação. Quando chegou à capital, viu a forma como a cidade era iluminada, é como se estivesse a ver o próprio paraíso, mas no início, teve problemas de socialização. As meretrizes da “Town” eram educadas e com toques de inteligência, o que atraía os empresários, e ela só tinha sua beleza como arma de combate.

De quando em vez, retornava à casa deixada pelos pais como herança, descendo em viaturas luxuosas, o que espantava a vizinhança.

Todos os homens despertavam interesse por ela, um pagando mais que o outro por horas de serviço. O dono do bar viu o seu negócio crescer com o trabalho de proxenetismo, principalmente com a chegada de Zuleica e isso gerou uma revolta e inveja por parte das outras garotas de programa. Ela começou a ganhar muito dinheiro, no entanto precisava de alguém para lhe ajudar na gestão, pois mal sabia assinar um cheque e, por isso, acabou criando uma amizade com uma de suas colegas de trabalho.

Com o passar do tempo, ela sentia-se assimilada, dobrava a língua para proferir de forma errada o léxico da língua portuguesa, gastou dinheiro com roupas de marca, passeios, flat’s, enquanto a sua casa escorria água toda vez que a chuva caísse. Começou a desprezar as colegas porque a beleza delas era resultado de cirurgias plásticas, e ela tinha uma beleza natural, que, durante anos, esteve escondida por detrás das casas de caniço. Elas decidiram unir-se contra ela, atacando o seu ponto fraco, que era a ignorância, expondo-a brutalmente até que os homens perdessem interesse por ela. A sua beleza não era suficiente para representar os clientes em grandes colóquios.

Ela decidiu voltar à sua casa para procurar por uma feiticeira que lhe pudesse ajudar, porém, a macumbeira deixou claro que as suas adversárias eram poderosas e só podia mandá-la para a líder das feiticeiras, que se encontrava em Ximondzo. E Zuleica, aflita, não tardou. Seguiu viagem. Quando lá chegou, foi bem recebida. A macumbeira deu-lhe remédios da sorte e poder para fortificar o seu trabalho.

De regresso a Maputo, ainda no autocarro, recebeu várias ligações de clientes querendo marcar expediente e uma das ligações foi do patrão que pretendia renovar o contrato para meretriz permanente. Não perdeu tempo e foi directo ao bar, trabalhou incansavelmente, fazia horas extras. Um mês depois, viajou para a África do Sul para prestar serviços aos mineiros e ficou por lá durante uma semana, e, quando chegou a Moçambique, arrendou um apartamento na Av. Julius Nyerere.

O ódio aumentou por parte das outras. Zuleica trabalhou a dobrar para mostrar que era capaz de atingir grandes níveis. Perdeu noites e, sem saber, alimentava o bichinho adormecido em seu organismo, e em pouco tempo enfraqueceu, perdeu o seu brilho, ia perdendo o seu corpo lindo, adoeceu e foi levada ao HCM, mas não melhorava e pediu alta para voltar a casa dos pais.

Quando chegou à sua casa, teve de procurar alguém que cuidasse dela, uma vez que não convalescia. Em pouco tempo virou uma preta desnutrida, a região dos olhos ficou escura e o interior dos olhos vermelho, as unhas sujas à medida que coçava o cabelo e o mesmo caía em pedaços, fungos na pele começaram a surgir.

Quando as suas colegas souberam, saíram da cidade para a visitar. Ficaram assustadas em ver uma múmia disfarçada em gente, não deu nem para zombar, mas já que uma delas conhecia todos os PIN dela, apoderou-se dos seus bens juntamente com as outras.

Zuleica teve um retrocesso mental, falava coisas sem nexo. Vivia atormentada. Os seus cabelos caíram até ficar careca, e, poucos dias depois, faleceu.

 

O Conselho Autárquico de Quelimane distinguiu, na última sexta-feira, o músico e o poeta Stewart Sukuma, com o Estatuto de Cidadão Honorário da Cidade de Quelimane.

Segundo uma nota de imprensa, o acto dirigido pelo edil de Quelimane, Manuel de Araújo, reconhece o papel de Stewart Sukuma na promoção, valorização e preservação da história e cultura da cidade de Quelimane e dos “quelimanenses”.

Assim sendo, a distinção feita a Sukuma pretende homenagear o percurso de um artista que passou parte significativa da sua adolescência na cidade de Quelimane. Foi naquele ponto de Moçambique que Stewart Sukuma definiu-se como cidadão e artista, influenciado e inspirado pela tradição e identidade do povo zambeziano e, sobretudo, pela energia da cidade de Quelimane.

Para Manuel de Araújo, Stewart Sukuma nunca saiu de Quelimane e esta ligação reflecte-se na sua música ou na sua poesia eternizada no livro O alfaiate e a arte de costurar o amor, lançado recentemente em Portugal e em Moçambique.

Manuel de Araújo acrescenta que o músico e activista não é apenas uma referência artística, mas sim de cidadão activo e sempre engajado na construção de um país melhor.

Na sua intervenção, Stewart Sukuma agradeceu o gesto e disse que “os lugares, as pessoas e os cheiros que descobri até aos meus 14 anos, continuam vivos e com muito significado. Este reconhecimento renova e eleva o amor que sempre senti pela terra”.

O Conselho Autárquico de Quelimane atribuiu, igualmente, um Certificado de Reconhecimento ao músico Stewart Sukuma, pelos 40 anos de carreira. Na mesma ocasião, teve lugar a apresentação do livro O alfaiate e a arte de costurar o amor. O livro foi apresentado por Jorge Ferrão, reitor da Universidade Pedagógica de Maputo.

A Editorial Fundza lançou, terça-feira passada, a segunda chamada literária para submissão de textos originais. Aberta até 13 de Janeiro de 2023, a iniciativa pretende seleccionar infanto-juvenis, romances, crónicas, poesias e contos inéditos que deverão ser publicados ao longo do próximo ano.

Segundo avança a editora, numa primeira fase, os autores interessados em participar na segunda chamada literária da Editorial Fundza deverão enviar um projecto de livro em word, uma sinopse de 10 linhas desse mesmo texto e uma biografia de cinco linhas para a editorial.fundza@gmail.com. Ainda de acordo com a Fundza, o objectivo principal da chamada literária é abrir e ampliar o espaço para a democratização do acesso à publicação de obras literárias em Moçambique, o que, no caso de 2022, incluiu a participação de autores de todas as províncias. Por isso mesmo, a Fundza realizou lançamentos de obras literárias à escala nacional.

Ano passado, a iniciativa da Editorial Fundza seleccionou 22 obras literárias num universo de 100 candidaturas. Entre as publicações, encontram-se Barca oblonga (poesia), de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque; Argolas do nó (poesia), de Paulo Ngoenha e Lino Mukuruza; O encanto da poesia (poesia), de Assane Cadry; O ardina dos sapatos gastos (contos), de Alerto Bia; O dicionário da sobrevivência (contos), de Francisco Raposo; A rapariga sem reflexo (motivacional), de Clévia Guivala; Insiste em ignorar-me (motivacional), de Argentina Banze; O amor que há em ti (romance), de Larsan Mendes; As máscaras da verdade (romance), de Almeida Cumbane; O Príncipe Suehtam e a Aruella no Tulipix (infanto-juvenil), de Andreia Edna da Silva; O abecedário que fingia ser de mudo (infanto-juvenil), de Ernesto Moamba; e Makhalelo (crónicas), de Adriano Félix.

Os originais submetidos à chamada literária da Fundza são seleccionados por um júri competente identificado pela editora. Antes de serem publicados, todos os originais passam por um cuidadoso processo editorial.

Por Deusa d’Africa

 

O livro “Barca oblonga”, de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque, foi seleccionado na primeira chamada literária da Editorial Fundza. Os dois poetas, grandes apreciadores de Luís Carlos Patraquim, decidiram homenageá-lo, após a leitura do poema “Osso Côncavo”, do livro “Osso Côncavo e Outros Poemas”.

Analiso o livro em três prismas:

  1. Significação do título do livro;
  2. A leitura tradicional e a leitura hodierna; e,
  3. O Diálogo entre “Barca Oblonga” e “Osso Côncavo”.

 

  1. Significação do título do livro

Barca é um termo que pode se referir a uma grande variedade de embarcações. Etimologicamente “Barca” é um termo originário da língua egípcia, através do grego bâris, do termo latino baris, que gerou o diminutivo barica, que gerou o termo do latim vulgar barca. De acordo com o dicionário de língua portuguesa, a palavra Oblonga é adjectivo e refere-se à característica do que é mais largo ou mais comprido. Para dizer que “barca oblonga” significa  uma larga embarcação.

A expressão “Barca Oblonga” foi transcrita do poema “Osso Côncavo”, especificamente no segundo verso da segunda estrofe do livro de Patraquim.

 

  1. A leitura tradicional e a leitura hodierna

Segundo George Steiner (2020, pág.26), “está longe de ser evidente que o uso de telas tornará facilmente obsoleta a leitura tradicional. Com o tempo o impacto será mais forte. Existem estudos que mostram que as crianças imersas na televisão e na internet relutam a ler da maneira tradicional, admitindo que sejam capazes de fazê-lo. No momento em que as artes da memória, a ginástica da concentração, os espaços de silêncio disponíveis se deterioram, estima-se que 80% dos adolescentes americanos não conseguem ler a não ser escutando música, o lugar da leitura na civilização ocidental é destinado a mudar. É possível que o tipo de leitura “clássica” vai se tornar uma paixão de certa forma especializada, ensinada e praticada nos “clubes de leitura”, que voltará a ser aquilo que foi para Aqiva e seus discípulos após a destruição do Templo, ou nas escolas e nos refeitórios monásticos na Idade Média. Uma forma de leitura que culmina, exactamente, nesse exercício de agradecimento, nessa música do espírito, no facto de aprender de cor (…)”.

Na actualidade moçambicana, vemos que os adolescentes tendem a apartar-se da leitura tradicional, optando por uma leitura hodierna obrigatória, a leitura de manuais escolares, e hermeticamente feita em momentos de testes ou exames quando se avizinham, o que faz-nos crer que mais tarde ou mais cedo uma leitura mais desapertada poderá ser feita  por imperativo circunstancial da vida.  E porque uma leitura tradicional é sempre apaixonada e culmina com o agradecimento, assim desenvolveu-se o “Barca Oblonga”, onde dois poetas colocam o exercício da escrita ao encanto de outra escrita previamente lida, a do Patraquim; pois, a paixão demonstrada neste livro resulta da leitura intimista havida entre o leitor-escritor e o escritor-leitor. Não há muros que separem o território dum e outro, apenas distinguimo-los quando vemos o resultado de cada exercício, se se trata de uma leitura ou de uma escrita, embora haja a interdependência entre ambos que levam-nos ao mesmo porto, vemos isso da ginástica de quem leu o ‘’Osso Côncavo e outros poemas” terminando em “Barca Oblonga”.

 

  1. O Diálogo entre “Barca Oblonga” e “Osso Côncavo”

O diálogo entre duas ou mais obras utilizando um texto como referência designa-se intertextualidade. Um autor utiliza um recurso intertextual quando ele traz elementos de outras obras para dentro da sua, estabelecendo uma relação entre elas, este exercício pode ocorrer na música, pintura, cinema e outras expressões culturais.

Os autores usam a paráfrase para transcrever a ideia central do texto usado como recurso intertextual. Aqui, deparamo-nos com o diálogo entre “Barca oblonga” e o “O osso côncavo e outros poemas”, onde o recurso intertextual é o poema de Patraquim que dá origem ao livro de Otildo e Fernando, e consequentemente é recurso intertextual específico o sexto verso da terceira estrofe do poema de Patraquim intitulado “Osso Côncavo”, do qual resultam as duas partes que compõem o livro: nomeadamente: “a curva suspensa” composta por 29 poemas e “a sombra eléctrica” composta por 23 poemas.

A presença de marcas patraquianas no texto faz com que a leitura ao livro seja uma revisitação ao texto de Patraquim, vemos isto logo a priori quando dizem: “Longilínea extinção da luz’’ na pag.8, enquanto Patraquim diz “longilínea dilatação do tempo” na pág 86. Enquanto para Patraquim o tempo é prolongado e esguio para Otildo e Fernando a luz se apaga vagamente, para dizer que em ambos só pode ser longo o dia da estação quando vemos a luz que define o dia ou noite onde se faz a barca oblonga entre rios citados por Patraquim. Por outro lado encontramos os dois poetas que definem a ponte como agulha do vento subentendendo o sujeito que é o rio que suporta a aludida ponte.

Se em Patraquim deparamo-nos com versos como “o espírito impetuoso, uma raiz movida pelos ventos num músculo com travejado adentro” um verso do poema “osso côncavo”, e em Otildo e Fernando encontramos um “bisturi cortando a chuva que dorme no relevo da carne” na pag. 9, pode se compreender que neste último abre-se o músculo referido por Patraquim irrompendo a dor.

No verso que se segue que diz o seguinte: “um talho vivo/ nas formulações/ orgânicas da língua’’, vemos um bisturi que adentra-se à carne e rasga-a com todos os procedimentos que se desfaz a língua. Aqui encontro um recurso intertextual com “Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora” no poema ‘’novas formulações ’’ onde cita ‘’a casa de trapos entre os lábios.’’ Para dizer que há corte e recorte da língua deixando-a em trapos ou mesmo escaqueirada.

Em Patraquim, no poema “osso côncavo” encontra-se o seguinte: “vazio (…) oscilante eco sem memória/ de ventre  que nem a águia se atreve ao voo/ e a serpente se desenrola até a evaginação de si” e para os dois poetas “perco-me devagar/ como uma palmeira/ abrindo-se no ofício das águias”,  se Patraquim traz-nos uma águia que não luta contra a serpente no solo representado pelo ventre citado o que permite que a serpente se evada e por outro lado vemos um personagem perdido como a serpente que ao céu perde a astúcia e força diante da águia que a enrola para combatê-la no seu lugar de conforto que é o espaço, e a palmeira voando como as águias.

Na página 12 dizem os poetas: “animal nuvem/ osso:/ engenharia da palavra/que os deuses/ usam para reescrever o céu’’. Encontramos o osso como o epicentro para criação do céu como um elemento do paraíso, para dizer que os poetas encontram em Patraquim, que usa a palavra osso desde o título do livro até aos poemas como a finalidade de tudo o que é dito, ou como a fórmula da equação com que se tece o livro escrito por este deus tal como o designam os poetas que são seus admiradores. Se olhássemos para a palavra mais presente em quase todos os poemas, este livro chamar-se-ia “Osso Côncavo”. Contudo, não faria sentido pelo facto de já existir o livro com esse título, o de Patraquim.

Neste exercício feito pelos dois poetas, encontramos o dadaísmo em que um começa o poema e outro dá continuidade sem se distinguir de quem é cada verso escrito. Na expectativa de lançar os meus ósculos ao chão da minha palhota, como o fazem os curandeiros, nossos engenheiros espirituais, encontrei na página 15 alguns versos escritos pelo poeta Otildo “gengiva da alga/ abocanhando peixes/ no alcatrão do limpopo” e na página 18 “entram/ pelo chão do poema/ e quebram a língua do mar: thokoza, bava!” versos escritos por Fernando Absalão. Os ósculos não se enganam.

Patraquim diz em “osso côncavo” no sexto verso da quinta estrofe “e a lava que se derrama dos pulmões furiosos’’ referindo-se as chamas da fusão de um vulcão oriundo do ar poluído representado pelos pulmões furiosos. Em Otildo e Fernando na página 32 “a metafísica/ desponta do pulmão da água/ percorre a vulva do alcatrão/ dobra-se até ser ave/ ao ritmo do nyau.” Vemos quem tomba quando se verga pela finitude com que as coisas percorrem o límpido e o obscuro, na mesma medida.

Já na segunda parte “a sombra elétrica” encontramos “pluma eléctrica/ suspensa” na página 38, “sombra líquida / eléctrica/ ancorada/ na atmosfera da dor” na página 39. Encontramos na página 40 “nas ancas do feijão e do milho”, todos estes versos surgem como resultado do recurso textual que é o poema “osso côncavo” onde encontramos anca de água negra, das cavernas uma goela roendo de se cortar a carne da língua, e uma sombra eléctrica com força e desfalecida.

Para Sartre (2014), a subjetividade é interiorização e retotalização, isto é, no fundo, para retomar termos mais vagos e, ao mesmo tempo, mais conhecidos: vive-se; a subjetividade é viver o seu ser, vive-se o que se é, e o que se é em uma sociedade, pois não conhecemos outro estado do homem; Em “Barca Oblonga”, deparamo-nos com uma poesia subjectiva de elevado signo linguístico, uma subjectividade que o poeta vive em diversificadas formas desde a pedra, na sua nudez, deitado ou mesmo sonhando tal como apresenta o excerto da página 52 “pedras que sonham/ na órbita da sombra”, e “uma cidade que é barco” citada na página 53, encontramos nas pedras descritas, os homens à volta de seu próprio reflexo e as cidades feitas por homens que são canais que levam-nos de pequenas a grandes embarcações na longilínea dilatação do tempo descrito por Patraquim.

Votos de boa leitura a todos e bem-haja esta fusão entre os dois poetas que se apresentam em três.

Referências Bibliográficas:

PATRAQUIM, Luís Carlos. “Matéria Concentrada: antologia poética”. Ndjira. 2010.

STEINER, George. “Aqueles que Queimam Livros”. Editora Âyiné. Veneza. 2020.

SARTRE, Jean –Paul.  “O que é a subjectividade?” Editora Nova Fronteira Participações S.A. Rio de Janeiro. 2014.

Treze filmes do realizador Licínio Azevedo foram exibidos, recentemente, na Cinemateca de Porto Alegre, Centro Histórico da cidade, no Centro Cultural Mário Quintana, no Brasil.

Segundo Licínio Azevedo, a mostra teve sessões diárias, entre os dias 2 e o dia 10 deste mês. As projecções foram precedidas de uma apresentação dos filmes feita pelo cineasta, convidado para o evento, e, no fim, foram realizados debates com o público.

A mostra abrangeu uma selecção dos filmes mais importantes do realizador, produzidos entre 1988 e 2022. Foram exibidos os filmes “A Colheita do Diabo” e “Marracuene”, ambos sobre a guerra civil, “A Árvore dos Antepassados”, sobre o regresso dos refugiados moçambicanos no Malawi, em 1992, ao fim da guerra, “Acampamento de Desminagem”, “Mãos de Barro”, documentário sobre Reinata Sadimba, “Hóspedes da Noite”, “O Grande Bazar”, “A Ilha dos Espíritos”, “Night Stop”, “Desobediência”, “Virgem Margarida”, “Comboio de Sal e Açúcar” e “Nhinguitimo”, a obra mais recente, adaptada de um conto de Luís Bernardo Honwana.

Os filmes possibilitaram ao público da capital gaúcha conhecer a história, a realidade actual e a cultura moçambicana, sobre as quais tinha pouca informação.

Com o sucesso da mostra, assistida por mais 500 pessoas, o Instituto Estadual de Cinema planeia novas edições da mesma, no próximo ano, em cidades do interior do Estado, e a Cinemateca pretende realizar projecções em Universidades e em Centros Comunitários de Porto Alegre.

Por: Valério Maúnde

 

O elevado índice de falantes com vícios linguísticos em Maputo fez que alguns profissionais da sociedade civil unissem esforços e fundassem a primeira clínica de reabilitação do país para falantes viciados em bengalas linguísticas, inaugurada na última segunda-feira.

“Trata-se de uma iniciativa que visa fazer face ao crescente uso abusivo de determinadas construções linguísticas contrárias à norma culta. Esta clínica pretende tratar diferentes patologias linguísticas, sendo as mais frequentes a ambiguidade, a cacofonia, o estrangeirismo, o pleonasmo e os bordões ou bengalas linguísticas.” – pautou Henriqueta Marengula, Directora da Clínica de Tratamento de Vícios Linguísticos (CTVL).

Relativamente ao público alvo primário deste centro médico-linguístico, Henriqueta Marengula informou: “– Na fase piloto, o atendimento vai ser dado exclusivamente a repórteres, apresentadores de televisão e locutores de rádio na cidade de Maputo, uma vez que estes profissionais, pala exposição ao público, se destacam, principalmente, no uso do bordão linguístico que consiste no emprego repetitivo e indiscriminado do termo ‘portanto’ nas suas produções orais, especialmente em programas passados em directo.”

O evento contou com a presença de várias individualidades dos ministérios da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) e da saúde (MISAU). Na ocasião, foi apresentada a equipa de trabalho responsável pelo tratamento dos pacientes, a saber, médicos neurologistas, psicólogos, terapeutas da fala, professores de Língua Portuguesa e pesquisadores da área.

Os jornalistas presentes no evento não esconderam o seu desconforto com a proposta da clínica e teceram duras críticas ao projecto.

“- Portanto, estão a tentar dizer que nós, jornalistas e locutores, não sabemos falar Português, quer dizer, portanto, agora vamos ser todos internados, e, portanto, a pergunta que não quer calar é esta: quem vai produzir notícia?” – desabafou uma renomada repórter da praça.

Na mesma senda, um afamado apresentador de telejornal de uma importante emissora nacional deixou ficar o seu sentimento:

“- Ora viva! Bem, no que tange a esta clínica, portanto, eu e os meus colegas estamos ofendidíssimos com a tese implícita à sua criação, portanto, nós nem fomos consultados sobre a necessidade desta instituição e, portanto, não achamos que seja útil para nós – comunicadores reconhecidos dentro de portas e além-fronteiras.”

Estes posicionamentos foram reprovados pelo Chefe de Estado que, tendo sido convidado a presidir a inauguração, deixou um recado claro e breve no seu discurso:

“- Compatriotas, senhores jornalistas aqui presentes, esta clínica que hoje inauguramos é a manifestação pública da preocupação da sociedade civil em relação a forma como vocês andam a falar nas televisões e rádios. Andam a repetir “portanto, portanto” toda a hora, parece não conhecem outras palavras. Nós, como governo, vamos ajudar a monitorar a vossa adesão aos tratamentos e vamos dar todo o apoio necessário para abandonarem os vícios de língua e serem exemplo para a nossa sociedade, do Rovuma ao Maputo, do Índico ao Zumbo. E ouçam bem:  não andem a complicar os docentes e toda a equipa que estão aqui para vos ajudar.”

Finalmente, no que concerne à duração e ao tipo de tratamento para cada paciente, Henriqueta Marengula fez notar o seguinte:

“- O nível de dependência está relacionado aos hábitos do indivíduo. A pessoa que acorda já dizendo ‘portanto’ quase sempre tem um alto grau de vício linguístico. Quem inicia uma frase e já sente a vontade de empregar a palavra ‘portanto’, em geral, também tem mais dificuldade de parar, porque existe, certamente, um nível mais acentuado de dependência. Nessas situações, a saída mais efectiva são mesmo as intervenções neurológicas, pois só as aulas de Língua Portuguesa não resolvem o problema.”

 

Por: Tavares Cebola

 

Desde que iniciaram as transmissões do julgamento das chamadas dívidas ocultas, no ano passado, o caso ocupou, mais do que qualquer outro acontecimento, o espaço mediático nacional. Canais de televisão e rádios transmitiram as sessões a partir do estabelecimento penitenciário da BO, em Matola. Nas redes sociais, um tema dominante foi precisamente o das dívidas ocultas. O interesse gerado pelo julgamento só encontra paralelo com outro, de 2002, do assassinato do jornalista Carlos Cardoso.

O assunto dominou de tal maneira o espaço mediático que alguns advogados a defender os acusados solicitaram ao tribunal, pelo menos duas vezes, a interrupção de transmissões – pedidos recusados pelo juiz. Desconheço os argumentos apresentados mas é provável que tenham dito que as transmissões produziriam efeitos indesejados na prossecução de justiça. Por outras palavras, as transmissões contaminariam as interacções no tribunal e os seus resultados. Temiam, talvez, o que ficou popularizado por julgamentos de grande visibilidade envolvendo personalidades públicas em Hollywood. Trial by media.

O espaço mediático foi, então, simultaneamente, moderador e palco do conflito. Aqui está esse espaço cheio de imagens, a sociedade de espectáculo de que nos falou o francês Guy Debord há mais de 50 anos.

Na tenda do julgamento estavam dezenas de jornalistas, a representar televisões e rádios e jornais e o mais. E havia a figura de quem faz comentários – inevitavelmente propondo leituras sobre os actos na sala, prognósticos e explicações sobre as práticas em tribunais.

A coreografia no tribunal, os gestos, as insistências da acusação, as respostas dos réus – esquecimento, negação, prantos, etc., produziram efeitos na arena. Mas também fora dela: virtualmente o lugar onde todos temos direito à opinião. Ou seja, nada do que vimos e ouvimos acabou na tenda da BO.

Nas bombas de combustíveis, na espera em bancos, em supermercados, escritórios, transportes públicos, em praticamente todo o lado estávamos expostos à voz do juiz e dos acusados e de todos os intervenientes. E desses lugares ouvíamos os ocasionais elogios a um e outro, a revolta, a admiração e as lamentações (apesar de os factos à volta do caso serem já conhecidos, a leitura da acusação, principalmente no saber-se dos gastos em luxo em que os acusados – agora condenados – viviam, produziu um grande impacto).

Outra extensão da popularidade do julgamento veio em forma de memes, fenómeno singular do nosso tempo. Vimos, em todos estes meios, ansiosos, o decorrer dos acontecimentos ao longo de muitos meses de julgamento.

Vimos o juiz e as suas demonstrações de autoridade aplaudidas por muitos que assistiram (é provável que os perfis dos acusados muito tenham contribuído para isso: “podemos ver os poderosos, impotentes e questionados por um poder maior que o deles” ou o muito comum “afinal somos um país rico”), a máscara de uma advogada que não a pôs como devia em tempos de COVID.

O julgamento do maior caso conhecido de corrupção no país foi acompanhado por muitos milhões à extensão do país. Não era apenas um caso de banditismo privado ou improbidades domésticas. Os mais pobres do país sofreram as piores consequências.

Houve também a opacidade que contrastou com a natureza pública da transmissão: as empresas constituídas para as dívidas estavam ligadas aos serviços secretos moçambicanos e tinham como gestores seus operativos. Esses operativos declararam algumas vezes que algumas respostas não poderiam ser dadas por serem de ‘segredo de estado’. Ficámos a saber através de uma transmissão que não podiam responder – o seu trabalho era, afinal, guardar segredo.

Os limites do secreto nunca foram ultrapassados, apesar de todas as revelações. É a muralha secreta do estado.

Com o outro, o do jornalista Carlos Cardoso, os dois são os mais mediatizados julgamentos na história do país.

As respostas face à leitura da sentença, pelo menos vistas pelo que se diz nas redes sociais, oscilam entre a noção de que foi tudo uma grande encenação e são brandas as penas, considerando os crimes cometidos.

Como se vê, o caso ultrapassa o perímetro da tenda de julgamento. A transmissão de imagens produz os seus efeitos.

O que vimos com este julgamento foram, em parte, os dramas do país. O choque do nosso presente e os receios do nosso futuro.

 

 

 

A Editorial Fundza lança, às 16 horas desta quinta-feira, no Hotel Inter Chimoio, na capital de Manica, o livro Lições de direitos fundamentais, da autoria de Stela Santos e António Leão.

Constituído por 215 páginas, o livro foi escrito a quatro mãos pelos dois professores universitários, ambos residentes na Cidade da Beira. Trata-se de um livro de análise didáctica e técnica do Sistema de Direitos Fundamentais estabelecido na Constituição de Moçambique, visando contribuir para um reforço do conhecimento sobre a matéria jurídica de transcendental importância.

Lições de direitos fundamentais, de Stela Santos e António Leão, foi prefaciado pelo advogado Gilberto Correia, para quem o livro traduz uma análise integrada entre a teoria e a prática, proporcionando aos destinatários uma leitura abrangente e de fácil acesso. Simultaneamente, o livro procura uma sintonia com as preocupações transnacionais do constitucionalismo contemporâneo, no sentido de fortalecer o respeito pelos Direitos Fundamentais, o sistema democrático e o Estado de Direito.

Segundo salienta Gilberto Correia, em Lições de direitos fundamentais, Stela Santos e António Leão partem do geral, no sentido de incorporar, analisar e discutir a dogmática dos Direitos Fundamentais ao nível mais amplo. Todavia, abordam com mestria especificidades relevantes sobre a matéria no ordenamento jurídico moçambicano.

“Num país com um catálogo rico em Direitos Fundamentais, mas, paradoxalmente, com uma tradição de desrespeito por esta categoria de direitos, não só não é fácil ensinar Direitos Fundamentais como também não o é escrever sobre os mesmos. Porém, essa dificuldade não pretende significar que não seja importante fazê-lo, antes pelo contrário. A dedicação dos autores ao ensino e à materialização de uma cultura de respeito pelos Direitos Fundamentais, no contexto particular em que se insere, constitui um louvor à resiliência e à esperança, de certo modo utópica”, lê-se no prefácio.

A cerimónia de apresentação de Lições de direitos fundamentais, na Cidade de Chimoio, acontece depois de Stela Santos e António Leão terem lançado, semana passada, o livro na Livraria Fundza, na Cidade da Beira.

No Chimoio, o livro será apresentado por Francisco Massambo.

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