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O País – A verdade como notícia

A Banda Pentecostal vai lançar, às 16 horas de hoje, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane, na Cidade de Maputo, o álbum intitulado “Viagem missionária”.

Constituído por 13 faixas musicais, o álbum pretende proporcionar aos ouvintes uma experiência de viagem pela palavra de Deus, fazendo do gospel uma forma de buscar a paz, a liberdade, a solidariedade e o bem-estar comum. Nesse sentido, os artistas da banda investiram numa diversidade de ritmos ao longo dos dois anos de trabalho.

O disco “Viagem missionária”, da Banda Pentecostal, contou com a produção, direcção e arranjos de Carlos Gove,  co-produção, mistura e mastetização de Filipe Mondlane (Filipinho) e patrocínio da Mozal.

Para os integrantes da banda, que, esta sexta-feira falaram numa conferência de imprensa sobre o espectáculo de lançamento do disco, Carlos Gove a todos garantiu a visão de que é possível ter uma forte indústria gospel em Moçambique. Com a sua experiência, o baixista despertou em todos os membros da Banda Pentecostal a confiança no trabalho que agora culminou no álbum.

A partir das 16 horas, o concerto de lançamento de “Viagem missionária” contará com a participação do cantor gospel sul-africano, Mthunzi Namba. Além de se sentir feliz pela presença no concerto, o artista da África do Sul enalteceu, esta sexta-feira, em Maputo,  o excelente trabalho da Banda Pentecostal. “É um momento excitante para mim, por estar aqui em Moçambique, e sinto-me ansioso por poder actuar neste sábado”, disse o sul-africano.

Com músicas como “Fambanine”, “Angakona wo fana na Yesu”, “Jerusalema”, “Alfa e Omega”, “Santo Santo” e “Ndza khensa”, o disco pretende, igualmente, mostrar que Moçambique é um país rico em termos de ritmo e a música gospel faz parte dessa diversidade rítmica. A ideia é proporcionar aos moçambicanos um conteúdo educativo e as vantagens de se seguir uma vida temente a Deus.

O espectáculo desta tarde foi preparado a pensar em mil pessoas na audiência do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlande, onde se vai ouvir marrabenta, magica, R&B e afro-pop. Mthunzi Namba vai interpretar quatro canções no espectáculo, numa actuação interactiva, segundo prometeu.

 

 

A Associação Kulungwana e a MOZAL realizou, esta quinta-feira, uma conferência de imprensa de lançamento dos Prémios Mozal Artes e Cultura. O acto teve lugar na Galeria Kulungwana, sita na Estacão Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na baixa da cidade de Maputo.

A partir deste ano, os Prémios Mozal Artes e Cultura ganham uma nova forma, passam a Concurso, ampliando e democratizando o acesso aos jovens artistas a nível nacional. Para a Mozal e a Kulungwana, o novo formato cumpre melhor os propósitos de abrangência e igualdade de oportunidades e ajuda a divulgar os trabalhos dos artistas, contribuindo para o desenvolvimento das artes em Moçambique.

Os objectivos dos prémios, este ano, enquadram-se na responsabilidade social da Mozal/South 32 e nos propósitos da Kulungwana, ao premiar o melhor artista anual em cada uma das sete (7) categorias, nomeadamente: Artes Visuais, Cinema e Audiovisuais, Dança, Design de Moda e Vestuário, Fotografia, Música e Teatro.

Para facilitar a submissão e a avaliação das candidaturas, foram elaborados regulamentos específicos por categoria. Estes regulamentos definem mais especificamente os critérios do concurso e colocam o foco principal nos profissionais criativos de cada área, responsáveis pelas obras, que têm habitualmente menos estímulos à formação e desenvolvimento profissional, em desprimor das profissões mais técnicas.

O novo conceito dos Prémios Mozal Artes e Cultura pretende absorver também, através de candidaturas anuais, uma amostragem dos melhores trabalhos e talentos moçambicanos nas sete (7) artes, podendo, através desta recolha, identificar novos talentos e abrir canais de contacto e novas oportunidades para os artistas nomeados e vencedores nestas áreas.

Os prémios, nos dois anos de implementação anteriores (2018, 2019), conseguiram criar um ambiente de grande espectativa no mundo artístico, o que, à época, lançou um novo dinamismo e estímulo à concorrência dentro de cada categoria, ambos factores promotores de crescimento e desenvolvimento da qualidade, competências e profissionalização nas áreas artísticas. Os artistas nomeados e premiados viram o seu nome e obras amplamente divulgadas, dando-lhes assim maior visibilidade nacional e internacional. Pretende-se que com a introdução das inovações nesta segunda versão, os objectivos sejam agora mais amplamente atingidos.

A 10ª Temporada de Música Clássica do Xiquitsi iniciou, na última semana de Abril, com três concertos realizados na Cidade de Maputo. No dia inaugural da Temporada, o Conselho Municipal de Maputo foi palco do Concerto de Gala, com composições dos clássicos W. A Mozart, J. Haydn, A. Vivaldi e Gustav Holst.

Numa noite cheia de luz e glamour, Rui Travasso (clarinete), David Juritz, Suzanne Martens (violino), Ekaterina Triana James (violino), Maya Egashira (viola d’arco), Peter Martens(violoncelo), Florêncio Manhique (violoncelo) e Orquestra Xiquitsi fizeram um concerto memorável.

Já no dia seguinte, 28 de Abril, o concerto Noite Clássica teve lugar no Centro Cultural Franco- Moçambicano, e o momento marcante foi a apresentação da obra Moya-quintento de cordas, escrita pelo Compositor e Coordendor Artístico do Xiquitsi, Estevão Chissano. A obra foi executada pelos músicos convidados à 1ª série.

Já no terceiro e último dia da série inaugural de concertos inerentes à 10ª edição, 29 de Abril, na Sé Catedral de Maputo houve a Tarde Clássica, com interpretações de composições de W.A Mozart, Tradicional isiZulu, Jim Papoulis, Ernani Aguiar, Tradicional Lesotho/isiZulu, Diogo Dias Melgás, Énio Matlombe, Tradicional isiXhosa, Giuseppe Verdi. Para a surpresa de todos presentes, o fecho do concerto foi com a interpretação de “Oh happy day” de Edwin R. Hawkins na voz da Xixel Langa e o Coro Xiquitsi.

Os três concertos inseriram-se na projecção de uma temporada em celebração do décimo aniversário do projecto Xiquitsi da Associação Kulungwana. Por isso mesmo, falando aos parceiros e amigos do Xiquitsi, na presença da Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Matrula, e do Presidente do Município de Maputo, Eneas Comiche, a Directora-Executiva da Kulungwana – Associação para o Desenvolvimento Cultural, Henny Matos, referiu que: “São 10 anos de muito investimento nos nossos jovens estudantes em prol do desenvolvimento artístico no nosso País, e para atingirmos estes resultados só foi possível com o apoio consistente dos nossos patrocinadores alguns dos quais tem apoiado o Xiquitsi desde o princípio”.

Em todos os concertos o público teve a oportunidade de testemunhar o resultado dos feitos do Xiquitsi através de obras moçambicanas compostas por alguns alunos na qualidade de professores ou maestros (Estevão Chissano, Énio Matlombe, Herminda Sucena Nela).

Actualmente, o Xiquitsi conta com três orquestras e coros de níveis diferentes, 250 alunos, cinco alunos a frequentar o ensino superior de Música em Portugal e a replicar a experiência Xiquitsi nas Províncias de Nampula e Cabo Delgado, através do projecto Cantate, financiado pelo União Europeia.

Neste ano que se celebra uma década do projecto Xiquitsi, em jeito de comemoração, além dos três iniciais, o Xiquitsi vai realizar mais sete concertos, com reportório variado. Os eventos contarão com músicos internacionais que têm sido convidados em anos anteriores e que têm acompanhado os alunos do projecto ao longo destes anos.

Por: Edna Matavel

 

Invadiram o seu quintal, deram um tiro no cachorro que tanto ladrava para avisar aos seus donos que haviam intrusos na casa. Foram do lado de trás, onde dormia o Paito. Arrombaram a sua porta de zinco, acenderam as suas lanternas. Ele acordou e perguntou o que se estava a passar. Eles disseram: Cala-te, cabrão! Eram cinco homens bem armados, três fardados e dois não. Um deles tirou o instrumento que lhe conferia poder, espancou o jovem até sangrar pelas narinas. Ele ficou deitado no chão e o agente da polícia pisou o seu rosto com a bota que havia envergado, tão dura quanto a rocha. Paito questionou o motivo de tamanha violência, mas nenhum deles respondeu. Eles dizem que as autoridades não tem responsabilidade de responder a um simples cidadão.

A sua mãe ouviu os gritos, abriu à porta, viu o filho algemado e ferido. Tentou interpelá-los e recebeu um insulto e chapada no rosto. Ela desmaiou.

Paito foi rastejado, ameaçado e sem direito à defesa. Raquelina, sua irmã, mergulhava no mais profundo dos sonhos quando o seu irmão visitou o seu cérebro e despertou. Escutou o barulho que ainda se fazia sentir. Saltou da cama toda desesperada. A mãe estava deitada no chão, quando ouviu o seu irmão a chamar por ela. Correu até ao portão, do lado de fora, viu o irmão debruçado nos bancos do famoso Mahindra e algemado como um cão vadio. Ela fixou o olhar no motorista, era o seu primo Betinho. Não quis acreditar que o sangue do seu sangue estava a assistir o cenário sem intervir. Imediatamente, foi acordar a mãe e o Mahindra tinha ido embora.

– Mãe, não vais acreditar quem está a conduzir o caro que irá levar o mano até ao posto policial… É o primo Betinho, filho da tia Rofina.

– Não é possível, filha! Será mesmo que os pretos não se podem governar? Que é só dar-lhes armas que se matam entre si? O poder transformou verdadeiros seres humanos em verdadeiros insensíveis.

As duas questionavam-se o motivo que levou o Paito à prisão. Ele era um homem de boa índole. Os vizinhos começaram a sair, e Raquelina foi até à esquadra na companhia do amigo. Quando lá chegaram, foram travados na porta por um agente. Ela perguntou incansavelmente o motivo da prisão do irmão e ele respondeu que a sua tonalidade de voz era desacato à autoridade. Então ela perguntou o que seria desacatar à autoridade. Nenhum deles respondeu, mostraram ignorância nas próprias palavras, mostrando que para eles o poder está na arma e no uso do medo como instrumento de dominação.

– Meteram-me na cela, enquanto mano Paito era chamboqueado do outro lado, vivemos um neo-colonialismo no nosso próprio país. Daí, um deles disse-me que o mano estava a ser detido por ensinar às crianças a cantar Povo no Poder. Fiquei em choque.

Raquelina ficou 24 horas trancada em uma cela escura com insectos, sem contacto com o mundo externo. Sofreu uma violência psicológica e nenhum dos que tinham o dever de a proteger o fizeram. No dia seguinte, quando saiu da cela, recebeu a triste notícia do desaparecimento físico do irmão. Ela não acreditou e, quando tentou entender o motivo, apontaram-lhe uma arma… Foi doloroso chegar a casa e contar à mãe.

As cerimónias fúnebres foram realizadas e ninguém se pronunciou a respeito da súbita morte, nem mesmo os que detêm o poder. Primo Betinho foi o primeiro a derramar lágrimas de nostalgia, morreu como cão, nas mãos de terroristas disfarçados de gente que carrega o cinto da paz.

Raquelina decidiu seguir um curso de comunicação social, reportar as causas ocultas, documentar factos. Encontrou na escrita o seu refúgio. Tempos depois, foi novamente presa, acusada de usar os seus textos para infringir todas as regras. Nem mesmo o seu talento foi respeitado. Ele deve permanecer na gaveta para não despertar as elites.

É quase madrugada e Raquelina não chega a casa. A preocupação no coração de sua mãe é maior. Nas primeiras horas do dia, a mãe saiu à rua e, no seu muro havia uma imagem do filho Paito colada a da Raquelina com uma cruz desenhada na testa de ambos. Todos os traumas voltaram, pobre mãe, decidiu arrumar s suas coisas e regressar a sua terra natal, onde durante anos fugiu da guerra civil.

Hoje, ela chora a morte dos filhos. Ninguém pagará  por isso, mas os seus pagaram com a própria vida em busca do bem comum e defesa dos direitos de cidadania.

 

Por: Dany Wambire

 

A primeira letra deste texto saiu-me às 23h59 de 1 de Maio, o dia em que decidiste partir. Não quis deixar para o dia seguinte a celebração da tua partida, uma das mais serenas que eu já acompanhei.

Soube da tua partida às 14h43 minutos, através do Rogério. Sem lhe perguntar, assegurou-me que recebera a informação de fontes seguras. Em momento algum ocorrera-me fazer telefonemas ou cruzar fontes. Não queria sofrer demais com esta informação. Tu tinhas estado comigo há umas semanas. Trabalhamos de forma intensa para que o teu livro saísse antes de regressares a Portugal para tratamentos. Estavas debilitado e sentias muita dor, mas não querias regressar a Portugal sem realizares o teu lançamento na Beira e no Maputo.

Acho que, por alguma razão, o livro não saiu antes. Podia ter saído mais cedo, pois me tinhas enviado a primeira versão a 26 de Abril de 2022, umas duas semanas depois da Páscoa daquele ano, e quis o destino que os textos fossem lançados na Páscoa de 2023. A acompanhar o anexo dos textos, vinha o seguinte: “Proponho-te que os vás lendo. E se encontrares alguns, de que gostes, fica-te com esses e outros deita fora. Se vires que alguém pode aproveitar com a sua publicação, faz de contas que são teus, fazes deles o que bem entenderes”.

Como editor (imagino-te a sorrir ao ouvires isto), fiz o que bem entendi: coloquei os textos na fila de espera e li-os apenas quando soube que vinhas para Moçambique em Janeiro deste ano. Li o livro de poemas, li o livro com lições de Português que andavas a dar por aí (lembras-te deste “por aí”?) aos teus alunos e reli o livro de ensaios sobre os 56 romances africanos que já me tinhas enviado.

Entendi que, do conjunto de livros que me pediste para publicar, aquele era o mais urgente. A razão: naquele livro tu celebravas a vida que foi a tua: os momentos da tua infância entre a Mina e a Ribeira, no qual a Deus, através do poema: rip (p. 19), tu fizeste um pedido: “dá-me dois metros de paz”, que, com certeza, vais ter agora.

Em Fevereiro, confirmei-te que iria publicar o livro de poemas e começamos a trabalhar. Submetemo-lo a trabalhos editoriais: cortamos-lhe alguns poemas, retiramos-lhe o texto de apresentação e demos-lhe um título simpático.

Mas quando tudo corria normalmente, tu enviaste-me um e-mail, no qual, de forma suave, pedias-me urgência. De forma suave ou não, tu sabes que mandavas em mim. Mas fiquei mais sensibilizado com o teor da tua mensagem: “Olha, tenho andado a emagrecer muito e sinto-me cada vez debilitado. E então deixei-me ir completamente abaixo, quando soube que me foi diagnosticado um tumor na cabeça do pâncreas. Ainda não sabemos ainda se é benigno ou maligno. De Lisboa, tanto o médico como os superiores me serenam e inspiram confiança. E nenhum deles me diz que regresse logo-logo, mas é claro que não podemos perder tempo”.

Calhou-me passar por Maputo, alguns dias depois de me teres mandado a mensagem, e fui visitar-te a Kim Il Sung. Confirmei o que tinhas escrito na mensagem. Mas conversamos longamente. Apesar da dor da enfermidade, o teu bom humor estava ali e querias conversar. Mas eu precisava de partir (queira eu para te fazer companhia nesta viagem infinita que seguiste), tinha um evento a escassos minutos. Mais, tu foste a tempo de surpreender: equilibraste-te naquele chão de parqué, foste ao quarto e trouxeste-me um presente. “Trouxe-o de propósito de Portugal para to oferecer”, disseste-me quando eu ensaiava recusar o presente.

Acompanhaste-me até à porta e vi que estavas muito debilitado. Bem que me apeteceu dizer-te: “tenhas coragem, padre! Vai estar tudo bem”. Mas evitei, pois tu, com certeza, mesmo naquele estado, haverias de dar uma boa gargalhada, troçando-me: “então, queres ensinar a fé a um padre?!”

Os dias para a tua viagem a Portugal aproximavam-se. Estávamos a uns quatro dias. Nós queríamos fazer duas apresentações do teu livro, mas não tínhamos os exemplares ainda. Estavam numa gráfica, na África do Sul. Na fé, marcamos as datas de lançamento, para Beira e Maputo. Na Beira, só conseguimos ter os livros a 24 horas do evento. Graças a Deus, tudo correu bem. Tivemos o lançamento, que lembrava mais uma despedida do que um evento comum. Eu tinha esse pressentimento, muita gente, naquela sala, tinha esse pressentimento, mas ninguém queria assumir publicamente. Mesmo tu, padre, sereno, leste-nos os olhos e fizeste questão de nos acalmar, dizendo: “eu volto a Portugal e vou ficar bem.” Todos nos lembramos disso. Todos lembram-se disso e de várias coisas boas que fizeste a pessoas que cruzaram o teu caminho.

Tu disseste, com algum exagero, no dia do lançamento do teu livro, que eu era uma figura benemérita da Beira por estar a contribuir para a educação das pessoas, sobretudo de crianças e jovens, através dos projectos a que estou ligado ou ajudei a fundar. Sei que te enchias de júbilo quando ouvias gente desinteressada falar ou escrever sobre nossos projectos (mais teus do que meus), como foi o jornal Público, pela forma eufórica como tu me escreveste depois da publicada a matéria. Na mensagem, pensas tu, que celebravas a minha vitória. Mas celebravas mais era a tua vitória por teres sabido dar amor a quem mais precisava, por teres conseguido transmitir conhecimento a alguém, talvez, com pouca margem para progredir, por seres verdadeiro e por teres ajudado a sonhar a várias pessoas improváveis.

Sabido isso, vamos às comparações. Entre mim e tu, quem é a figura benemérita da Beira? És tu, obviamente. És tu o princípio e o fim dos projectos que ando a sonhar. Tudo quanto faço é o prolongamento do que contigo aprendi nas inúmeras lições no pátio da Paróquia de Matacuane, na biblioteca do Centro Cultural Padre Cirilo, onde, inicialmente, ficou hospedada a Associação Kulemba, que muito te orgulha, e centenas de correspondências que trocamos no âmbito da edição e revisão da revista Soletras.

Antes de terminar, uma confissão. Sabes como me enchi de alegria quando te vi entrar, pela primeira e última vez, na Livraria Fundza, para lançares o teu livro? Gostei de te ver sentado com pose de rei numa das poltronas do pódio da livraria. Aquilo, confessaste depois, dava-te imensa consolação. O que tinhas semeado, dava frutos. Naquela poltrona, tu te sentias o dono daquilo tudo. Com todo mérito.

Fecho estas sentidas palavras agradecendo à literatura por me ter apresentado a ti. Eras padre, eu sei disso. Mas contigo conversei mais sobre literatura e sobre como essa arte podia ser um instrumento para tornar este mundo mais humano. Deixaste-me nesta batalha.

Espero que estejas a ter um descanso merecido e com sentimento de missão cumprida.

Até já, amigo e mestre, Pe. Manuel Ferreira!

 

 

 

A 5 de Maio de cada ano, celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Para assinalar a data, a Associação Kulemba vai realizar, próxima sexta-feira, 5 de Maio, às 18 horas, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, uma conversa subordinada ao tema “Diálogo entre as variantes do Português de Moçambique, Brasil e Portugal”.

De acordo com a nota de imprensa da Associação Kulemba, na sessão aberta gratuitamente ao público, o escritor e jornalista freelancer Daniel da Costa (Moçambique) e a actriz e escritora Nayara Homem (Brasil) vão recorrer a experiências vivenciadas nos seus locais de trabalho e nas suas viagens para juntos reflectirem sobre as variantes do português falado em Moçambique, Brasil e Portugal, ressaltando as semelhanças e diferenças dessas mesmas variantes.

Na Livraria Fundza, localizada na baixa da Cidade da Beira, o evento deverá durar cerca de 90 minutos e a moderação será feita pelo docente universitário Jane Mutsuque.

Daniel da Costa nasceu em Tete, em 1964, e ingressou no jornalismo em 1987. Trabalhou na então Televisão Experimental de Moçambique como repórter, e na Rádio Moçambique como produtor de programas. Exerceu a crítica de teatro e literatura. Tem colaboração dispersa pelos principais semanários de Moçambique. Foi coordenador da Gazeta de Artes e Letras, suplemento literário da prestigiada revista Tempo. Foi membro de vários júris, incluindo o dos Prémios Gazeta, da revista Tempo, e o Prémio Nacional de Literatura, instituído pela Associação dos Escritores Moçambicanos. É autor dos seguintes títulos de ficção narrativa, editados pela Ndjira: Xingondo (2003), A ciência de Deus e o sexo das borboletas (2007) e A flauta do Oriente (2008).

Nayara Homem é especialista em comunicação, arte e cultura, e nos quase 20 anos de percurso pelo mundo das artes desempenha papéis como produtora cultural, investigadora, escritora, maquiadora, actriz, palhaça, performer e apresentadora. Transita entre circo, teatro, tv, cinema, literatura e fotografia. Os seus caminhos artísticos e as pesquisas incluem passagem por vários países (Espanha, França, Suíça, Peru, México, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Argentina, Moçambique – chegou em Maio de 2021).

É autora dos livros As tintas do riso (2018), fruto de pesquisa independente, com abordagem filosófica, de tema inédito, cujo foco é a relação entre maquiagem e a arte da palhaçaria, e Cinemaquia (2022), que traz ferramentas e reflexões para maquiadores de cinema e interessados no tema. Em 2020, inicia a sua pesquisa de doutoramento em Estudos Africanos (ISCTE-IUL- Lisboa) para se debruçar sobre a produção de humor e riso em culturas africanas e, a partir de 2021, inicia o seu mergulho na cultura nyau, pesquisando a dança-religião Gule Wamkulu, Património Imaterial da Humanidade.

O ensaísta e poeta padre Manuel Ferreira perdeu a vida na manhã desta segunda-feira, em Portugal. O autor de Um presente do futuro – os jovens da literatura moçambicana por volta de 2015 e de Serenidade morreu vítima de doença.

No dia 11 de Abril, o padre Manuel Ferreira lançou, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, o seu mais recente livro. Com o título Serenidade, a proposta poética constitui um itinerário criativo que, às vezes, parece sugerir algumas questões inerentes à biografia do autor. No livro, em alguns momentos, o padre Manuel Ferreira explora imagens relacionadas à sua aldeia natal, versifica diferentes espaços e o trajecto que o levou a Moçambique, país que amou até às últimas consequências.

Depois de lançar o seu livro, numa cerimónia que contou com a presença de irmãos na fé, de amigos, escritores, poetas, ensaístas e admiradores, no dia seguinte, o autor de Serenidade viajou para Portugal com o objectivo de tratar da doença que o deixou visivelmente debilitado. Mesmo nesse instante, o coração do padre Manuel Ferreira estava em Moçambique, onde chegou em Outubro de 1964.

E, quando viajou, deixou promessas de voltar logo que possível, pois tinha a confiança de que tudo iria correr bem. Mas o padre não conseguiu cumprir a promessa nem o desejo de regressar a Moçambique. Nos últimos dias de Abril, já internado no hospital, a saúde do padre que soube pensar e servir a literatura moçambicana deteriorou-se consideravelmente.

Neste domingo, de Portugal chegaram mensagens de que o pior poderia acontecer a qualquer momento. Por isso mesmo, aos irmãos na fé, amigos, escritores, poetas e admiradores, os que lhe acompanhavam pediram orações. De algum modo, as mensagens funcionaram como um alerta, pois, por volta das 11 horas desta segunda-feira, Dia dos Trabalhadores, o corpo cedeu à doença e o padre Manuel Ferreira partiu para infinita viagem.

Para os que conviveram com o autor nos últimos dias, o padre Manuel Ferreira partiu em paz, muito sereno e bem acompanhado pela equipa médica portuguesa que minimizou a sua dor.

Manuel Serra Ferreira é um padre jesuíta português de 76 anos. Em 1963 licenciou-se em Filosofia, em Milão. Em Outubro de 1964, chegou a Moçambique. De 1964 a 1996 leccionou Português, História, Desenho e Música, na Escola Normal de Boroma, Tete.

Em 1973, doutorou-se em Teologia, na Universidade Gregoriana de Roma. Regressado a Moçambique, em Fevereiro de 1974, leccionou Francês e Português, na Escola Secundária, Português e Técnicas de Expressão na Comercial, Português no Instituto Industrial e no pré-universitário.

De 1990 a 2000, em Maputo, leccionou Teologia no Seminário Maior e no Instituto Superior Maria Mãe de África. Regressado à Beira, a partir de 2003, leccionou Latim, no seminário propedêutico, e Ética, Mundividência Cristã e Latim, na Universidade Católica. Ao longo da sua longa formação, sempre se dedicou à Literatura. Publicou quatro livros de teor religioso, um deles a tese de doutoramento.

O Museu da História Natural, na Cidade de Maputo, acolhe a exposição fotográfica “Africa Blues. Moçambique em 2100: projecções da crise climática nas faces daqueles que a vivem todos os dias”. A mostra inaugurada esta quinta-feira apresenta imagens tiradas em Moçambique por Giulia Piermartiri e Edoardo Delille para África Blues, em colaboração com a WeWorld-GVC.

Segundo uma nota de imprensa, trata-se de fotografias criadas utilizando uma técnica inovadora, que mergulha o visitante num futuro possível. Num jogo de sobreposições, de facto, pode-se observar cenas da vida quotidiana misturadas com dispositivos que mostram esses mesmos lugares drasticamente alterados pela crise climática, ou seja, uma imagem que projecta um futuro que já não parece tão distante. Secas, inundações e tempestades repentinas são episódios que se repetem todos os anos em Moçambique, afectando e destruindo aldeias inteiras e comprometendo a colheita agrícola. São especialmente as comunidades mais pobres e mais vulneráveis, que vivem da agricultura, que pagam o preço mais elevado.

A exposição “Africa Blues” insere-se no lançamento do projecto “Clima de Mudanças: Caminho para Criação e Reforço de uma Geração Ambiental Consciente em Moçambique. “Trata-se de um projecto que visa promover a consolidação da boa governação ambiental em Moçambique, envolvendo os jovens no debate político, na tomada de decisões e na gestão sustentável dos recursos naturais”, lê-se na nota de imprensa.

A intervenção visa desenvolver a consciência dos jovens, organizações da sociedade civil, autoridades públicas e cidadãos sobre as mudanças climáticas e as suas consequências, sobre o seu papel e a responsabilidade de agirem como agentes de mudança e como melhorar em conjunto a gestão dos recursos naturais nas áreas provinciais de Cabo Delgado, Nampula, Zambézia e Maputo.

Os grupos que se estima beneficiarem directamente da acção serão 80 organizações da sociedade civil moçambicana, 50 membros das autoridades públicas, 300.000 jovens cidadãos e oito comunidades locais.

O projecto será implementado por um consórcio de organizações internacionais e nacionais, constituído por WeWorld-GVC, Instituto de Cooperação Económica Internacional (ICEI), Centro Terra Viva (CTV) e o Conselho Nacional do Voluntariado (CNV) e co-financiado pela União Europeia.

Luís Madaba vai lançar, às 14h30 desta sexta-feira, no Instituto de Formação de Professores de Lichinga, na Província de Niassa, o livro Ensinar a brincar em casa – guião de aprendizagem divertida. Editado sob a chancela da Editorial Fundza, trata-se de um exercício didáctico e pedagógico, no qual o autor explora possibilidades inovadoras capazes de despertar nos alunos o interesse pela aprendizagem de conteúdos escolares, mas em casa.

Segundo a nota de imprensa da Fundza, com cerca de 30 páginas, o livro de Luís Madaba concilia a palavra e a imagem como estratégia viável para os mais novos aprenderem dos pais, irmãos, tios ou avôs. Assim, o livro funciona como um guião de aprendizagem e de ensino, pois inclui propostas esclarecedoras para quem deseja, essencialmente, partilhar conhecimentos com as crianças.

Para Luís Madaba, a aprendizagem acontece todos os dias, a cada instante, de forma despercebida e automática. “Da mesma maneira que ensinamos a criança a segurar os talheres, a alimentar-se sozinha e a cuidar da sua higiene desde cedo, temos de a ensinar a adquirir habilidades de leitura e escrita. Quando deixamos a aprendizagem escolar para o último plano, delegando-a à escola, ao professor, isso faz com que o processo não aconteça no tempo considerado ideal”, lê-se na nota do livro que será apresentado por Óscar Daniel.

Com a sua publicação, uma das apostas de Luís Madaba é ajudar os pais e encarregados de educação a ensinarem as crianças sem violência e sem traumas, explorando, por isso, situações do dia-a-dia.

Luís Madaba é Licenciado em Psicologia, Quadro do Serviço Nacional Penitenciário (SERNAP), Fundador do Brincar Ler & Escrever; tem poemas pulicados em algumas revistas electrónicas e rádios nacionais, com destaque para a revista literária Sol, sob a chancela da AEMO-Extensão territorial Norte. É Membro do Clube de Escritores Poetas e Amigos do Niassa (CEPAN) e, em regime part-time, lecciona na Faculdade de Administração e Gestão do Instituto Superior de Gestão, Comércio e Finanças (ISGECOF).

 

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