O País – A verdade como notícia

Ainda sobre a morte do rapper Azagaia, a ministra da Cultura e Turismo diz que o país perdeu um activista versátil, que usou a sua música para expressar a sua versão dos factos na sociedade.

Numa mensagem a que o “O País” teve acesso, Edelvina Materula disse, ainda, que Azagaia foi uma lenda da música moçambicana e que contribuiu para o engrandecimento e afirmação da música de intervenção social.

A governante acrescentou que a marca do rapper fica registrada e o seu nome agrafado na história da música do país e do continente africano.

Diversos artistas usaram as suas contas nas redes sociais para prestar homenagem ao rapper Azagaia. Ainda nas redes sociais, várias outras pessoas publicam fotos do autor de Babalaze, acompanhadas de palavras que expressam a sua grandeza.

As condolências sobre a morte de Azagaia vêm de toda parte. De Portugal, por exemplo, o rapper Valete partilhou nas suas contas das redes sociais.

“Um dos seres humanos que mais admirei em toda a minha vida. Um verdadeiro patriota” (…) A milhares de quilómetros de distância faremos uma homenagem eterna a um dos homens mais importantes da História do Rap Lusófono”.

Do Brasil, o rapper Gabriel Pensador lamentou nos seguintes termos: “grande perda para nossa música e cultura hip-hop”.

Mesmo sendo praticante de outro género musical, a cantora angola Pérola escreveu: “que notícia triste! Descansa em paz, Azagaia!”

Em Moçambique, a comoção foi ainda maior. Vários artistas dedicaram mensagens ao “mano Azagaia”, como era também chamado.

A cantora Lenna Baúle descreveu Azagaia em apenas duas palavras: Grandioso e eterno!

O professor universitário e presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Nataniel Ngomane, escreveu:

“Morreu um Homem. Homem, com agá maiúsculo. Porque representava todos os Homens e Mulheres desfavorecidos. Os desgraçados, os miseráveis. E não era apenas um rapper. Era um Homem. Homem com agá maiúsculo.  “Povo no Poder!”

A também cantora de Hip-Pop, Iveth, que cantou ao lado de Azagaia várias vezes, dedicou o perfil no facebook ao cantor e ainda publicou o seguinte:

“Disseste o que deveria ser dito e fizeste o que deveria ser feito. Choramos a tua morte, mas celebramos a tua vida e obra com orgulho e honra. Lutaste um bom combate e deste voz aos sem voz, tiraste goela afora as mentiras da verdade e gritaste por paz, justiça para todos.”

O Governo também reagiu à morte do Azagaia, através da Ministra da Cultura e Turismo.

“Perdemos o músico de intervenção social, Azagaia, uma lenda da música jovem moçambicana que tatuou a sua carreira pela forma destemida como tratava os assuntos nas suas composições musicais. A sua marca fica registada, e o seu nome agrafado na história da música do nosso país e do continente africano.”

Ano passado, também nas redes sociais, o intelectual português Boaventura de Sousa Santos já se tinha rendido à composição de Azagaia, num vídeo que circulou bastante na internet.

Azagaia morreu, mas a obra é eterna. A família vai reagir à morte oportunamente.

Moçambique vai receber 25 milhões de euros para reforçar o combate à insegurança alimentar e a preparação face aos desastres naturais. O dinheiro é parte de um total de 50 milhões de euros disponibilizados pela União Europeia à região austral de África.

Moçambique vai receber dinheiro da União Europeia. Desta vez, o valor é de 25 milhões de euros, que deverão ser usados, entre vários fins, para a mitigação da insegurança alimentar no país, com maior enfoque na província de Cabo Delgado.

O valor é parte de 50 milhões de euros que a comunidade europeia vai desembolsar em apoio aos países da África Austral.

Num comunicado de imprensa, a que o “O País” teve acesso, a Comissão Europeia aponta as áreas em que o dinheiro deverá ser aplicado.

“Esses fundos ajudarão a combater a insegurança alimentar e a desnutrição, melhorar o acesso a serviços básicos, melhorar a preparação para desastres e promover a educação em situações de emergência em toda a região”, lê-se na nota.

Dos 50 milhões de euros, 25 milhões vão para Moçambique, 13,3 milhões para Madagáscar, 7,4 milhões para Zimbabwe, 4,3 milhões de euros para Lesotho, Malawi e projectos regionais.

No documento, a organização europeia faz referência ao terrorismo, que já provocou a deslocação de mais de um milhão de pessoas.

Morreu, esta quinta-feira, Edson da Luz, mais conhecido por Azagaia. Segundo uma fonte familiar, o cantor de hip-hop moçambicano morreu num acidente doméstico.

Famoso e acarinhado pela forma crítica com que abordava as questões sociais, até políticas, Azagaia era considerado, pelos seus fãs, a “voz do povo”.

Filho de uma comerciante moçambicana e de um professor cabo-verdiano, Edson da Luz nasceu no dia 06 de Maio de 1984, em Namaacha, Província de Maputo.

Aos 10 anos de idade, o cantor mudou-se para a capital do país, local onde viria a concluir o ensino médio e ingressou numa universidade. Ainda em Maputo, Azagaia passou pelas camadas de formação de basquetebol do Desportivo de Maputo.

Iniciou a carreira musical com 13 anos, integrando com o grupo Dinastia Bantu, com MC Escudo, e lançou, em 2005, o álbum Siavuma.

No dia 10 de Novembro de 2007, Azagaia editou o seu primeiro álbum a solo, intitulado “Babalaze” (que significa ressaca) pela editora Cotonete Records. O lançamento atingiu recorde de vendas no dia de estreia.

“Babalaze” contou com as participações de Terry, em “Eu Não Paro”, e de Valete, em “Alternativos”. O álbum continha músicas bastante críticas ao Governo moçambicano, facto que impediu que algumas faixas fossem tocadas nos canais públicos.

Das músicas consideradas polémicas, destacam-se “As Mentiras da Verdade” e “A Marcha”, este último que bateu recordes de vendas.

Numa retrospectiva dos principais acontecimentos em Moçambique, Azagaia lançou “Obrigado Pai Natal”, em 2007, e “Obrigado de Novo Pai Natal”, em 2008.

Depois da revolta popular de 05 de Fevereiro de 2008, em Maputo, Azagaia apresentou o tema “Povo no Poder”, que lhe valeu uma intimação para se apresentar na Procuradoria-Geral da República, suspeito de “atentar contra a segurança do Estado”. A música voltaria a ser lembrada na revolta popular de 1 e 2 de Setembro de 2010.

Em 2009, lançou a música “Combatentes da Fortuna”, que o rapper disse ser inspirado na crise do Zimbabwe e que, apesar de ter sido censurado, foi dado como o videoclipe mais visto da história do rap moçambicano.

No ano de 2010, lançou a música “Arriiii”, versando sobre um escândalo de tráfico de drogas em Moçambique, casos de fuga ao fisco e assassinatos.

Em 2011, Azagaia foi preso, na companhia do seu produtor Miguel Sherba, após ter sido encontrado um cigarro de “soruma”.

Depois de uma produção de três anos, Azagaia lançou o segundo álbum de originais, Cubaliwa (significa “nascimento”), a 09 de Novembro de 2013, na Associação de Escritores Moçambicanos, em Maputo, contando entre os temas destacados “Movimento de Intervenção Rápida”, “Homem Bomba” e o tema de apresentação lançado em Outubro “ABC do Preconceito”.

Como convidados neste álbum, encontram-se nomes como Stewart Sukuma, Dama do Bling, a Banda Likuti, Ras Haitrm, Júlia Duarte e o rapper angolano MCK. O álbum chegou a ser apresentado com o nome de “Aza-leaks” em 2011, por alturas da apresentação do tema “A Minha Geração”.

Cubaliwa deu origem a uma digressão denominada Bem-vindos ao Cubaliwa, em que Azagaia se apresentou com a banda Os Cortadores de Lenha.

O consumo de estupefacientes voltou a manchar a sua carreira, quando, em Junho 2014, durante uma entrevista a um canal televisivo, o cantor confessou que tinha sido detido novamente por posse de droga e justificando que o consumo da canábis se devia à suposta recomendação médica, uma vez que padecia de epilepsia. Azagaia preparou em directo e acendeu o que o próprio disse ser “soruma”.

Poucos dias depois, num texto apresentado no Facebook a 15 de Junho de 2014, Azagaia anunciou que, por temor pela sua vida, abandonaria a carreira musical e iria passar a viver em Namaacha, sua terra natal.

Semanas depois, o cantor disse que estava com um tumor cerebral e iniciou uma campanha de arrecadação de fundos pela Internet. O projecto “Help Azagaia” serviria para reunir mais de 790 mil Meticais para custear a cirurgia de retirada do tumor, realizada na Índia a 18 de Outubro.

Um ano depois de se ter afastado dos palcos, Azagaia voltou a actuar, apresentando-se num concerto numa discoteca, em Maputo, em Maio de 2016.

Xixel Langa e Wanda Baloyi darão início às celebrações organizadas pelo Centro Cultural Franco-Moçambicano, neste mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, com dois concertos intitulados “She is”, a ter realizarem-se esta Sexta-feira, a partir das 20h, no Jardim do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo.

De acordo com o Franco-Moçambicano, os espectadores terão a oportunidade de reviver temas já conhecidos de Wanda Baloyi, sendo, para Xixel Langa, uma oportunidade para a apresentação do seu mais recente trabalho discográfico intitulado “Vatekile”, o qual constitui convite a uma viagem pelo período colonial, onde os negros eram transportados em navios para serem comercializados, ficando assim distantes da sua terra natal. Com isto, Xixel encontra na música uma forma de fazer sentir o grito de repúdio à guerra e desgraça mundial do povo que foi afastado da sua terra, para que tal acontecimento não se repita.

Xixel Langa começou oficialmente a sua carreira artística, a solo, em 2003, tendo no mesmo ano, feito a sua primeira aparição pública. Participou de shows de bandas e artistas conceituados como Gito Baloi, Stewart Sukuma, Kapa Dech, Timbila Muzimba, entre outros.Em 2006, radicou-se na África do Sul, onde fez parte de umas das melhores bandas Sul-africanas: “Tucan Tucan”; assim como, fez parte de “Manding Khan”, como bailarina e vocalista de ritmos do Ocidente de África. Em 2018, foi melhor canção no Ngoma Moçambique. Em 2004, foi prémio revelação e melhor voz no Top Feminino.

Quanto a Wanda Baloyi, é uma artista que pertence a uma família de músicos, e pode ser descrita como uma cantora de “cocktail africana” e neo-soul, com interesse multilinguístico: inglês, português, zulu, changana e guitonga. Lançou o seu primeiro álbum intitulado “Voices” pela Universal Music, e ganhou o Melhor Arranjo Africano no “Kora Awards”; teve duas indicações “SAMA” e uma indicação ao “Channel Music Video Award”. Seu segundo álbum, com título “So Amazing”, foi seguido por “Colours” e “Love & Life”, com o qual ganhou, em 2015, o prémio de “Best Urban Jazz”, no Metro FM Music Awards. Até o momento, Wanda Baloyi já se apresentou em vários festivais internacionais e fez turnês pela África do Sul para promover o projecto “Love & Life”, que mereceu um remix internacional para uma de suas canções intitulada “Kisses”, remixado por Louie Vega.

Próxima terça-feira, às 17h30, serão apresentadas no Camões – Centro Cultural Português em Maputo as obras distinguidas na 3.ª e 4ª edições do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa: A ilha dos mulatos, de Sérgio Raimundo (2019), e Marizza, de Mélio Tinga (2020).

O Director de Edições e Cultura da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (Portugal), Duarte Azinheira, e o poeta, editor e Presidente do Júri do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa, Mbate Pedro, estarão presentes nesta cerimónia e apresentarão as duas obras ao público, num momento em que os livros estarão também disponíveis para venda.

O júri constituído pelo poeta Mbate Pedro, na qualidade de Presidente, pela investigadora e especialista em Literatura, Sara Jona Laisse, e pela editora-chefe da Imprensa Nacional, Paula Mendes, deliberou atribuir o Prémio à novela policial contemporânea A ilha dos mulatos (2019) pelo facto de o autor entrelaçar criatividade e originalidade, com a gestão da polifonia e de fluxos de consciência, numa narração que convoca à preservação da memória sobre a Ilha de Moçambique.

Por seu turno, a atribuição do Prémio a Marizza justifica-se, segundo o júri, pela criatividade com que o autor aborda um assunto do quotidiano e pela qualidade e inovação estética da obra, numa narrativa coesa e coerente, na qual a forma se sobrepõe ao conteúdo. Nesse trabalho de Mélio Tinga, o júri destacou ainda a qualidade literária de uma escrita permeada por notáveis registos poéticos.

Durante a sessão de apresentação, serão também anunciados os membros do júri da próxima edição do Prémio (2023), constituído por figuras ligadas à literatura de Moçambique e Portugal.

O galardão foi instituído em 2017 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), com o apoio do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, e destina-se a premiar trabalhos inéditos, em prosa, de cidadãos moçambicanos ou a residir em Moçambique há mais de cinco anos. O Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa contempla a edição da obra vencedora pela Imprensa Nacional, bem como a atribuição do valor monetário de 5.000,00€ (cinco mil euros) ao vencedor.

Sérgio Simão Raimundo, também conhecido como Poeta Militar, nasceu em Maputo. Licenciado em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, estudou também Crítica de Cinema, no Brasil, em 2017, Jornalismo de Saúde, no Quénia, em 2018, Artes Performativas e Jornalismo Cultural, na Alemanha, em 2018. Colabora como jornalista e colunista em diversos órgãos de comunicação social em Moçambique e Portugal. Como escritor, tem participado em diversas antologias literárias nacionais e internacionais e tem publicados o livro de prosa “A ilha dos mulatos” (Imprensa Nacional, 2020) e o livro de poesia “Avental de um Poeta Doméstico” (2016). Vencedor do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa (2019), do Prémio Africano de Imprensa Escrita da Merck Foundation (2018); do Prémio Fim do Caminho (conto – 2016) e do Prémio Nacional de Slam Poetry (2011). Foi também nomeado com a menção honrosa do Prémio Literário 10 de Novembro (2017 e 2018) e ainda uma menção especial no Concurso Mundial de Poesia NOSSIDE (2010). Actualmente, reside em Portugal, onde trabalha na área da literatura e frequenta o Mestrado em Ciências da Educação, na Universidade do Algarve.

Mélio Tinga nasceu, vive e trabalha em Maputo. Licenciado em Educação Visual pela Universidade Pedagógica e pós-graduado em Branding pela Universidade Europeia (IADE). Cofundador da Catalogus – Portal de Autores Moçambicanos e do OitentaNoventa – Projecto de ligação entre gerações literárias, em Moçambique. Membro do Movimento Literário Kuphaluxa, do projeto lusófono Mapas de Confinamento e Vice-Presidente da Associação Cultural da Universidade Pedagógica de Maputo. Escritor de ficção, tem publicados os livros: “Objecto Oblíquo” (OitentaNoventa, 2022), “Marizza (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2021), “a engenharia da morte” (Moçambique, 2020; Caos e Letras, Brasil, 2021; Edições Húmus, Portugal, 2021) e “O Voo dos Fantasmas” (Ethale Publishing, 1ª Edição, 2018 e 2ª Edição, 2022). Coorganizou dois volumes de “Contos e crónicas para ler em casa” (Literatas, 2020). Vencedor do Prémio Literário Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa (2020) e do BLOG4DEV do Banco Mundial (2021). Finalista do Prémio 10 de Novembro (2019) e do Prémio de Letras de Música SensaSons (2012).

Com vista a quebrar este tabu, a escritora apresenta, no próximo dia 10 de Março, o concerto “Msaho”, uma ópera africana desenhada por si há seis anos, com o objectivo de mostrar as valências culturais moçambicanas.

Inspirada no seu livro de poesia, intitulado “O Canto dos Escravizados”, Paulina Chiziane desenhou uma ópera à maneira moçambicana há seis anos.

Segundo conta, ao expor a ideia teve pouco apoio, mas não desistiu, caso para dizer que nem só de livros viverá Paulina.

Com o espectáculo, pretende-se juntar várias manifestações artístico-culturais, como teatro, poesia e canto, para apresentar a história de opressão e libertação do povo africano ao mesmo tempo que se quebram alguns tabus.

“Há várias coisas, uma das quais é quebrar esse tabu de pensar que África não tem ópera. [Quero] quebrar esse tabu de dizer que os moçambicanos não têm ópera. Ópera é uma manifestação cultural, assim sendo, todos os povos têm ópera”, argumentou a escritora.

Ao aderir ao espectáculo, segundo Paulina Chiziane, o público terá uma experiência equilibrada entre o entretenimento e reflexão sobre “a sua interioridade”.

O evento terá lugar no Centro Cultural Universitário, em Maputo, na próxima sexta-feira.

A exposição de arte “Entre Muros” será inaugurada esta quinta-feira, às 16 horas, na Galeria do Porto de Maputo, Baixa da Cidade de Maputo.

Segundo a artista plástica Bena Filipe, Coordenadora do Projecto Arte para a Mudança, “a exposição irá mostrar o ponto mais alto dos trabalhos que um grupo de artistas está fazendo, desde Abril do ano passado, na Penitenciária Feminina de Ndlavela”, na Matola, Província de Maputo.
Já para o actor Abdil Juma, que monitora a área de teatro na penitenciária, “as internas têm demonstrado o seu potencial não só nas artes plásticas mas também noutras áreas, como o teatro, música, artesanato e dança.”

Para estas outras áreas, como disse Juma, “contamos com os préstimos de Jubia Matusse (teatro), Renaldo Siquisse (artes plásticas) e Sizaquel Matlhombe (música).

A exposição, que termina no dia 23, está inserida no projecto “Quem disse que as mulheres não podem fazer uma serenata”, idealizado pela Banda Kakana e está inserido nas comemorações do dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

Para além do público, estarão presentes representantes religiosos, dos serviços penitenciários, embaixadas e entidades culturais governamentais.

Por: Rudêncio Morais

 

“Temos dois olhos. Onde com um contemplamos as coisas do tempo, efémeras, que desaparecem, e com o outro contemplamos as coisas da alma, eternas, que permanecem” Angelus Silesius (1624-1677)

Quando o dia foi aos poucos se transvertindo tímido, deixando-se embeber pela noite, a vida pareceu ser retrabalhada no almofariz africano, carregado das nossas essências existenciais no corpo sólido do amor que sabe a música. Parecíamos imersos num barco a vela feito, todo ele, a partir dos segredos que tecem a instrumental da música que nos veste de gente, vestiu-nos o jazz em noite de oração profunda, um autêntico “love center” se nos emergiu e murmurava de longe o mar, abraçando-nos em terra firme na qual atracado o barco musical nos comunicava a genuflexão dos nossos ancestrais para com os deuses da música.

A noite se nos foi sendo uma viagem, um regresso aos tempos da Associação Moçambicana do Jazz no corpo da poesia sinfônica que não se esvai, e permanece intacta na alma da gente, preenchendo, vez por outra, a estrutura óssea que se nos existe por dentro, embalou-nos a amizade, o companheirismo e a fraternidade nutrida no corpo da música.

Por vezes, o silenciado se nos descia trêmulo, cristalizando momentos de um caminhar entre as ausências e as presenças além Moçambique que as músicas nos convidavam a celebrar esse bater das asas, das saudades, como diz o professor Rubem Alves, fazendo-nos acreditar que a saudade nasce quando existe amor e ausência, esse vazio que a música preenche unindo-nos ao universo, estando em tudo e em todo lugar, se para Rudêncio Morais a música é filha, mas também Mãe do Silêncio, Aurélio Ginja, descreve, no prefácio do ecoar musical da gente (livro do Falso Poeta) que é no coração do silêncio que as músicas mais sublimes desatam gentilmente os nós dos nossos mais secretos sentimentos. Foi assim, que entrelaçados entre o silêncio e a música, revisitamos a alma, nesse trabalho interior, esculpindo o imaginário colectivo de quem nunca está sozinho. Diz o poeta que “Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.

Ávidos em regressar a terra, ao _mucume_ que, alentando a saudade, nos cobre desde pequenos, e depois de viajar na palma da Alma da música, numa interpretação sublime do Abel, que nos devolveu a década 70 para reviver “Hotel Califórnia” sucesso dos The Eagles, uma voz rasgou a meio a sala fazendo-se ouvir de imediato …

– Tio Zé, Tio Zé…

E, se nos apareceu o Zé Barata, num profundo namoro dividido entre a guitarra e a voz, sendo a língua e os ilimites das batidas dos nossos corações, rejuvenescidos no sopro do talentoso do Mahu, um sinal de esperança e de transcendência dos fazedores da música.

A terceira sessão dos amantes do Jazz, foi um sinal inequívoco de que é preciso moldar o barro com as mãos, só assim ele carregará dentro da forma concebida parte da nossa essência e a alma dos oleiros da música.

05.03.2023|

 

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