O País – A verdade como notícia

Por: Pedro Manuel Napido

A obra Poemas à sombra da infância, de Nick do Rosário e ilustração de Fiel dos Santos, reúne os requisitos exigidos para este tipo de género literário porque preside o jogo do fazer poético, com uma dimensão lúdica, sensorial e rítmicas (visual, sonoro e estrutural) percebidos nas camadas sensíveis da linguagem. Os poemas aqui contidos, podem ser escutados, vistos, cantados, tocados e sentidos profundamente pela totalidade do corpo e alma. Os mesmos são abertos, o que quer dizer que o leitor produz o sentido que a sua história de vida, suas emoções, lhe ajudem a construir.

Os poemas tematizam as varias “infâncias” na sociedade moçambicana, tentando mostrar como essa arte pode proporcionar reflexões e meios para que as crianças compreendam e, ao mesmo tempo, questionem e problematizem o mundo em que vivem, principalmente envolvendo as questões de pobreza e desigualdade infantil. Além disso, constatamos que ainda é pequeno o número tanto de obras poemáticas de qualidade quanto de docentes que desenvolvam um trabalho que envolva em primeiro lugar o prazer da leitura, muito devido à falta de formação na mediação de leitura literária.
Zappone (2005) ressalta que “aspectos como o vocabulário e as construções sintáticas devem estar em consonância com o público a que se destinam”. No caso desta obra, evitam-se determinados infantilismos porque o autor não duvida a inteligência e as capacidades do público leitor; não se usam diminutivos, construções sintáticas repetitivas, nem figuras de linguagem complexa.

Por seu turno, Gonçalves (S/d) afirma: “a poesia tem uma importante função no desenvolvimento da personalidade infantil, uma vez que ela permite a comunicação da criança com a realidade, possibilitando a investigação do real, ampliando o entendimento e a experiência de mundo através da palavra”. É claro que a criança é exigente e sabe identificar o que tem valor. Assim, ao selecionar a poesia, é necessário verificar aquela que saiba valorizar a linguagem, em que a relação entre as palavras, a sonoridade, as imagens, o humor, a forma dos versos sejam organizados de modo especial.
Muitos professores, embora alguns conscientes do valor da leitura, continuam rejeitando a poesia na sala de aula, sob a alegação de que as crianças não gostam desse género literário. Pode ser que os mesmos professores tenham dificuldades de mediação desse tipo de texto e sua especificidade: o seu carácter sonoro, polissémico e lúdico pois o mundo infantil, tal como o mundo poético, é permeado de imagens, fantasia e sensibilidade que contribuem para o seu crescimento. Para (BORDINI, 1989. p. 63) “[…] na poesia, o aprendizado possível se produz pela própria estrutura do poema, que seduz e estimula o leitor fisicamente pelos ritmos e efeitos acústicos e intelectual e afetivamente pelas representações ou vivências que suscita”.
Apesar do avanço da tecnologia e na forma de acesso à cultura através da televisão, da internet ou do universo virtual, a ligação da criança com a poesia ainda continua forte. Por vezes, a própria escola promove o distanciamento entre a criança/poesia o estudo, a leitura e a prática de trabalho com o texto poético. O professor precisa conhecer a produção actual e as especificidades desses textos para este público, acreditando no poder transformador da literatura, em geral e sensibilizador da poesia, em particular.

A leitura desta obra Poemas à sombra da infância proporciona uma abertura para o mundo. O mergulho em cada poema emergem-se camadas simbólicas que visualizem o universo interior e exterior com mais claridade. Entra-se no território da palavra com tudo o que se leu até então e a volta se faz com novas dimensões o que leva a re-inaugurar o que se sabia antes.

Isto se justifica porque leitura literária relaciona-se à necessidades humanas porém, não menos importantes que as demais. Muitas coisas que não gostamos realizamos por necessidade, por exemplo: acordar muito cedo, tomar banho, comer, trabalhar um determinado número de horas para garantirmos o pão de cada dia nas nossas famílias, pagar imposto, pagar portagem, dormir, estudar, praticar actividade física, etc. Por isso, quando não dominamos os segredos da leitura literária, uma parte da nossa formação espiritual, humana e cultural fica interditada ou seja, algo nos faz falta e não descobrimos os bastidores do mundo e da vida.

Tomemos o primeiro poema: “Lixo luxo” na pg. 9, como exemplo:
Lixo luxo
Lixo
luxo
o luxo floresce no lixo

Lixo no chão
não
lixo luxo
na sépia mão
do bruxo

O poema ultrapassa a superficialidade e a ordem habitual do lixo (resíduos sólidos) para conhecer as coisas, a beleza e a profundidade que residem não só nas ideias mas sobretudo na linguagem, que o modo novo de perceber e dizer o mundo e o contexto urbano em Moçambique. Se aproxima a trava-lingua, de origem tipicamente popular, essa brincadeira, divertida e poética que desafia as habilidades psicomotoras e psicolinguísticas, induzindo a um mergulho na tradição popular e atiça a inteligência, a ludicidade, a graça e gostoso riso ao público leitor.

O mesmo poema apresenta uma similaridade entre os sentidos e a sua forma de expressão tornando palpável através do jogo silábico, aliterações, assonâncias e solicita a sintonização auditiva. A leitura em voz alta pode envolver o leitor numa dimensão ampla do corpo e do interior de modo que o adulto, enquanto produtor do lixo urbano, escute e reflicta sobre ele.

Mais ainda, o poema “Lixo Luxo” para que tenha maior efeito artístico, exige interação e participação aprimorando a percepção humana nas suas relações com o mundo, busque sintonizar-se de forma harmónica e equilibrada com muitas crianças que se sujeitam ao lixo produzido na cidade e depositado na zona periférica. Isto parece demonstrar que o espaço urbano se transformou em lugar de castigo para algumas crianças que, em consequência, perturba o seu cotidiano e que enfrentam duras provações na vida escolar.

Na nossa sociedade, em geral e na cidade de Quelimane, em particular vivemos em tempos difíceis que tanta coisa joga contra nós: a globalização nos impõe provocações que não deixaremos sem resposta. Esta obra convoca o adulto a se solidarizar com o mundo infantil e não apenas se deliciar com seu sofrimento ancorado na lixeira em busca de sobrevivência. Outro exemplo, é sobre o poema “Cacimba dourada”, na página 10.

Cacimba dourada

No verão,
tarda o sol
a partir,

e, chegada a noite,
a lua cheia
reluz em toda a aldeia.

Vem atrás a madrugada,
largando no seu rasto
cristais de cacimba dourada.

Neste campo poemático, o autor apresenta uma serie de elementos da natureza: o verão, o sol, a noite, a lua cheia, a madrugada e a cacimba. O público leitor deve saber que o verão é geralmente incorporado na literatura para simbolizar alegria, aventura, plenitude, auto-aceitação e a busca do amor. Neste poema, o verão, representa a celebração da beleza, do calor e do crescimento que vem com a estação. Por seu turno, o sol é o símbolo da consciência dispersa que irá reconstituir a sua homogeneidade no seio da obscuridade interna. Renascer como sol da manhã significa, na linguagem dos mistérios, renascer de si próprio.

Por seu turno, a noite está repleta de temática nocturna: a insónia, o sono, o sonho, a escuridão, o sombrio, sugestão da morte estimulada pelos ares nocturnos, a sepultura, a feitiçaria e o túmulo. Neste poema, a convocação do ambiente nocturo (a lua cheia, a madrugada, a cacimba) pode ter sido intencional mediante a imaginação concreta que alia a sensibilidade à mundividência infantil o que faz da noite tenha um leque de possibilidades psíquicas para a sua maturidade. Como afirma Simiscuka (2007, p. 53) “[…] Devido ao facto de a noite surpreender, de certo modo, a dramaticidade, proporcionando um afastamento do individuo em relação ao sofrimento, à dor da existência, ela pode simbolizar, também, a purificação do pensamento, das ideias, da memoria; a suavização dos anseios mais elevados, dos desejos e afectos sensíveis […] ”, tal como se apresenta nos versos: “e/ chegada a noite/ a lua cheia reluz em toda a aldeia/”.

Olhemos para o poema, “O Jogo”, página 14, a seguir:

O Jogo
Um, dois, três
levamos uns pastéis

Quatro, cinco, seis
à casa da dona Inês

Sete, oito, nove
se alguém provar, que aprove

Dez, onze, doze
Os gulosos pastéis de nozes

Treze, catorze, quinze
talvez a mamã autorize

Dezasseis, dezassete, dezoito
a comê-los em vez de biscoitos

Dezanove e por fim vinte
o pessoal esganado
come, come, sem requinte

Este poema faz lembrar temas de fome e desejo de comer ou metamorfoses através da boca em alguns contos clássicos destinados ao público infantil: “O pequeno polegar”; “João e Maria”; “O gato das botas”. Na literatura, o alimento é entendido como tendo um cunho cultural, sendo este poema organizado como um cardápio através do qual é oferecido um pequeno almoço completo ao leitor o que permite reflectir sobre a poesia como alimento, em que medida este mesmo alimento desempenha um papel significativo no imaginário infantil e, inversamente, tanta criançada ainda passando à fome.

Navas (2017, p. 5) afirma: “Considerando que o gosto alimentar é cultural, e, portanto, pode e deve ser constantemente melhorado, cabendo ao professor ajudar o aluno a saborear, auxiliando-o, por meio de uma reeducação alimentar, descobrindo os mais intensos sabores dos textos literários”.
A citação mostra que este poema pode contribuir para o trabalho com a literatura infantil em sala de aula porque a obra propõe de atrativo e de nutritivo que pode ser servido aos pequenos leitores reconhecendo que a comida e a leitura são actividades análogas.

Mais ainda, este pode ser percebido através do olhar porque a disposição gráfico-visual tem importância fundamental, pondo a mensagem na sua configuração concreta. O mesmo como tantos outros se autoconstrui à medida que se alarga, cresce. O primeiro verso inicia por um, dois e três e o último atinge o número vinte. Mostra, plasticamente, o dinamismo e a elasticidade da forma de construção. Pode ser lido através de vozes, umas saindo de dentro das outras: um grupo conta e outro responde. A leitura fará mudanças da forma em processo de transformação na medida que se amplia.

As ilustração na obra tem um papel fundamental, podendo facilitar às crianças o seu contato com o livro. Mais ainda, o tipo de letra, o papel, o projeto gráfico, o formato concorrem para a atribuição de sentido ao texto.

Nesta obra, o texto imagético se compadece com o verbal. As cores amarela, castanha, azul, principalmente, são do gosto do público leitor por serem vivas. A representação da arquitetura africana (pg. 23) subverte os castelos representados pela literatura infantil clássica. A personagem criança está patente tanto no texto verbal como imagético.

Temos a ilustração arquitetura tradicional do estilo moçambicano, sustentável de baixo custo que proporciona à população uma habitação confortável e adaptada ao seu modo de vida, tanto a nível social, como económico, construída sem nenhuma licença nem intervenção ordenadora das autoridades competentes. “Os materiais utilizados na construção destas habitações são na maioria os tradicionais, nomeadamente os tijolos maciços de areia ou argila, fabricados no local e secos ao sol ou cozidos, estacas de madeira, argila, bambu, cordas feitas com fibras naturais, capim nas coberturas e, em alguns casos, tintas feitas a partir de materiais naturais” (RIBEIRO, 2015, p. 58).

A arquitetura africana foi influenciada pela cultura islâmica, devido ao estabelecimento dos mercados árabes em África e a cultura swahili foi a que mais se difundiu. Nos assentamentos swahili as casas pertencentes aos habitantes mais ricos, normalmente mercadores, eram retangulares, feitas de pedra, com cobertura plana, parecidas com as casas da Arábia meridional (Ribeiro (2015, p. 49) Apud Garlake, 2002 pp. 167-187).
Contrariamente à realidade capitalista, o quintal ou pátio, sem vedação para o isolamento social é normalmente o espaço fundamental da casa. É nele que se concentra a vida quotidiana da família, onde se realizam todas as tarefas domésticas, e é, em simultâneo, a sala de estar, o espaço de convívio da família, a cozinha, o local de trabalho, dos jogos e das brincadeiras infantis.

Fig.1
O jogo (salto de corda) e a brincadeira na pg.24 amplia a ludicidade e herança da cultura moçambicana. A simbologia mais conhecida da árvore é de símbolo da vida, representando a perpétua evolução, sempre em ascensão vertical, subindo em direção ao céu. Na cultura moçambicana para além do valor medicinal, algumas árvores simbolizam o sagrado e nelas se instalam os santuários. A conexão das raízes com os demais elementos das árvores se parece muito com a relação entre mães e filhos. Os leitores devem crescer sabendo que tal como as árvores, somos feitos de ciclos de vida-morte-vida que se repetem infinitamente. Uma árvore não fica florida e cheia de frutos durante o ano todo. Ela também passa por períodos de recolhimento, em que as folhas secam e caem, mas sempre volta a se reerguer. Os leitores devem aprender a olhar para a vida da mesma forma, a respeitar e acolher os desafios que encontramos pelo caminho. Afinal de contas, a vida sempre encontra uma forma de renascer.

Mais ainda, o jogo e a brincadeira do salto à corda trata-se de uma catividade com características cerimoniais diferenciadas, conjugando-se a música, a dança e o salto à corda. De acordo com Prista et all. (1992, p. 56) as participantes costumam vestir-se especialmente para o efeito e os homens participam apenas como instrumentistas. As participantes formam em fila e inicia-se o canto andando à volta do terreno, em passo rítmico. A partir dai uma a uma vão saltando à corda: em pé, sentada, deitada, de joelhos, etc. O nzope é no entanto, particular pela sua especularidade e pelo facto de ser praticado regularmente por mulheres adultas. É deste modo que o público leitor irá herdar a cultura moçambicana, passando de geração para geração.

Fig. 2
A ilustração a seguir, na página 27, visualiza-se alegria, descontração, amizade, acção intensa, perceção fantástica do mundo de modo que o leitor entenda o que é viver num lugar humanizado e que o sério e o engraçado caminham juntos.

Fig. 3
Dando especial atenção na relação entre texto verbal e não-verbal percebemos que, nesta obra, as ilustrações vêm a complementar as mensagens que são produzidas por intermédio dos textos, dando ênfase ao conteúdo do texto escrito, explicando detalhes de cada cena, preenchendo lacunas, acrescentando novas idéias e apresentando outras características e especificidades das personagens e do contexto dos poemas. Percebemos a predominância das imagens no plano geral mas outras técnicas também são utilizadas: o plano médio e close. As mesmas estão inseridas no nível de formação da imagem compreendida pelo ‘imaginário’, que se apresentam como substituição a um real ausente. Essas imagens são representadas no campo da denúncia ou rejeição assim como jogo de possibilidades, permitindo a entrada no campo simbólico.

A maneira como os poemas são desenvolvidos e a relação dialógica entre texto verbal e texto não-verbal permitem a reflexão de que têm a intenção de formar no leitor um certo modo de pensar o mundo em relação às “infâncias” na nossa sociedade e, ao mesmo tempo, sugerindo como deveria ser, por exemplo com relação às crianças que sobrevivem do lixo, da fome, da exclusão, da pobreza, sem abrigo, da violência, sem direito à educação e à ludicidade, entre outras privações.

Referências

BORDINI, M. da G. Poesia e consciência lingüística na infância. In: SMOLKA, A. L. B. et all. Leitura e desenvolvimento da linguagem. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1989, pgs. 53-68.

GONÇALVES, M. de L. B. (S/d). Poesia infantil: uma linguagem lúdica. file:///D:/DISC%20C/Desktop/LIJ/POESIA_INFANTIL_OK.pdf.

NAVAS, D. Resenha do livro “O alimento na literatura: uma questão cultural”. Revista Linhas. Florianópolis, v. 18, n. 37, p. 308-312, maio/ago. 2017.
PRISTA, A.; TEMBE, M. e EDMUNDO, H. (1992). Jogos de Moçambique. Maputo, Instituto Nacional de Educação Física.

RIBEIRO, M. C. (2015). O Contributo da Arquitetura Tradicional para uma Habitação “Informal” Sustentável em Moçambique. Lisboa, Instituto Universitário de Lisboa, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

SIMISCUKA, M. I. O símbolo da noite em o “Cancioneiro” de Fernando Pessoa. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. 127 ps. Disponível em: file:///D:/DISC%20C/Desktop/LIJ/Simbologia%20da%20noite.pdf. 11 set. 2023.

ZAPPONE, M. H. Y. A leitura de poesia na escola. In: MENEGASSI, Renilson José (Org.). Leitura e ensino. Maringá: EDUEM, 2005.

 

O advogado Sarmento denuncia negligência do judiciário no tratamento de casos que envolvam jornalistas fora da Cidade de Maputo. A denúncia consta da primeira obra do recém-doutorado e criminalista, intitulada “O Judiciário e a Imprensa em Moçambique”, lançada hoje em Maputo.

A obra de Sarmento Bacelar é parte da sua tese de doutoramento, recentemente defendida na Universidade Técnica de Moçambique. Do estudo que fez, notou que é mais arriscado ser jornalista fora de Maputo.

De acordo com a conclusão do autor, “em Maputo, é difícil julgar e condenar um jornalista, mas nas províncias é fácil. Na obra, dou exemplo de que, dos casos submetidos, 95% dos casos submetidos aos tribunais das províncias, os jornalistas ou editores foram condenados, mas, na Cidade de Maputo, encontramos processos em que os jornalistas ou editores foram absolvidos ou nem houve uma acusação com provimento”, explica Bacelar.

E há exemplos. Na obra, fala-se de províncias como Manica, Nampula e Cabo Delgado. “Nem todos os casos reportados nessas províncias deveriam ter ido até ao tribunal e julgamento, mas, por conta da negligência, os processos acabam por seguir só para agradar um e outro”.

O prefácio e a apresentação do livro foram feitos pelo pesquisador e professor universitário Luca Bussoti, que ficou impressionado com o facto de o autor ter transformado uma escrita de tese para um livro.

“O Doutor Bacelar conseguiu trazer o essencial. A tese era mais volumosa”, disse Bussoti.
O lançamento contou com a presença de vários advogados, incluindo o Bastonário da Ordem, juízes e diversas personalidades interessadas no direito.

O artista multifacetado, Leco Nkhululeco, vai apresentar, sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a multidisciplinar “Mhamba – o céu também se alimenta de estrelas”.

De acordo com o Franco, a performance une poesia, música, teatro e dança, desafiando o status quo (normas culturais ou sociais pre-existentes), lançando luz sobre a importância vital de preservar e celebrar tradições culturais em meio a um mundo em constante mudança.
“Mhamba – o céu também se alimenta de estrelas” é uma jornada poética, uma expressão artística que conecta com o passado e presente, inspirando a reflectir sobre antepassados e a essência da existência.

“Tinguluve”, marca relevante do ritual, traduz-se como uma chamada para honrar antepassados, o lugar onde eles encontram significado em sua existência contínua. Cada família guarda memórias dos que já se foram, e é por eles e para eles que a grande cerimónia da Mhamba se realiza.

“Nkhululeco explora a riqueza da cultura moçambicana, resgatando-a do esquecimento imposto pelo ‘imperialismo clerical’. Ele reinterpreta a tradição da Mhamba dando voz à ancestralidade colectiva que foi outrora subjugada. O espectáculo incita à reflexão sobre a ontologia africana (compreensão da natureza da existência, da realidade e da essência da vida a partir de uma perspectiva africana), revelando a mecânica intrínseca por trás dos rituais de sacrifícios, oferendas e evocações aos deuses como forma de retribuição ou agradecimento”, lê-se na nota de imprensa.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, inaugurou, na noite de hoje, o Centro Cultural Moçambique-China, o segundo maior de África com 20 mil metros quadrados, três salas para teatro, espectáculos musicais e eventos corporativos, com uma capacidade para 500 pessoas, outras para 412, destacando-se a maior para 1500 pessoas.

O edifício, localizado junto ao campus principal da Universidade Eduardo Mondlane, é fruto da cooperação bilateral entre Moçambique e China, onde os dois países assinaram, em 2015, um acordo de financiamento, para a construção, de 50 milhões de dólares, provenientes da China.

Numa sala cheia, composta por membros do Governo, académicos e artistas, Filipe Nyusi disse, na ocasião, que o edifício cuja primeira pedra foi lançada em 2018 é de todos e, por isso, deve ser bem conservado.

“A equipa que vai trabalhar neste centro deve-se capacitar para que tenha uma percepção mais completa sobre a infra-estrutura, com olhos postos no desenvolvimento institucional”, recomendou Nyusi, para depois acrescentar “aos artistas, exige-se de vós o sentido de pertença, capitalizando e explorando todas as capacidades deste centro, assim contribuindo, não apenas para a sua manutenção, como também de maneira previsível para a renda das vossas famílias e geração atrás de geração”.

Já o embaixador da China em Moçambique, Wang Hejun, afirmou que este investimento não começou “hoje”, uma vez que a relação cultural entre Moçambique e China vem muito antes da independência de Moçambique.

O centro não só vai servir para enriquecer a vida cultural do povo moçambicano, como também vai fornecer uma nova plataforma para China e Moçambique fortalecerem os intercâmbios culturais.

“Este espaço servirá também para os dois povos partilharem novas ideias e novos conceitos e melhorarem juntos através da comunicação, compreensão, respeito e apreciação mútuos, construindo, assim, uma estrada de intercâmbio civilizacional entre a China e Moçambique”, disse Hejum.

Em representação da classe artística, o músico Moreira Chonguiça referiu que o centro é algo há muito esperado, pois fazia falta aos artistas. Chonguiça disse que, com a inauguração, estão criadas as condições para os artistas fazerem a exposição da sua criatividade.

“Este evento é um marco na história da indústria cultural e criativa em Moçambique, um sector em franco desenvolvimento e que está associado ao empreendedorismo que, de forma activa, protege e preserva a cultura moçambicana”, enalteceu Chonguica.

NYUSI HOMENAGEIA E RECONHECE FEITOS DE SAMORA MACHEL NA CULTURA

Se estivesse vivo, Samora Machel, o primeiro Presidente de Moçambique, completaria hoje, 29 de Setembro, 90 anos. A inauguração do Centro Cultural Moçambique-China foi feita, ontem, propositadamente em homenagem a Samora Machel, como forma de reconhecer os seus feitos pela valorização da cultura.

Na ocasião, o Presidente da República falou da vida e obra de Samora Machel, destacando que a sua trajetória foi cheia de desafios e missões, que soube sempre ultrapassar.

Nyusi disse que Machel, mais do que proclamar a independência do país, lutou para recuperar, desenvolver e dignificar a vivência, as tradições e os comportamentos, bem como lutou para a valorização das línguas nacionais.

“Para Samora, era inconcebível que um moçambicano digno de nome, sem conhecer, praticar e ter orgulho da sua cultura”, disse Nyusi e prosseguiu “Machel lutou pela valorização das nossas músicas, dança; valorizava a indumentária, as artes, entre outras manifestações culturais do povo moçambicano”.

O Chefe de Estado disse ainda que o primeiro Presidente de Moçambique entendeu que a cultura é a maneira de ser e estar e relacionar-se desde o nascimento até à morte dos indivíduos.

A homenagem de Nyusi prosseguiu e Graça Machel, viúva de Samora Machel, reconheceu os feitos do seu esposo na cultura, ainda em vida.

Graça Machel disse que o papel de Machel e também da Frelimo na cultura começou antes da independência, ainda na luta de libertação nacional.

“A Frelimo, na altura, decidiu claramente que a luta de libertação nacional não era apenas uma luta militar; era também uma luta para aprendermos a produzir, para aprendermos a valorizar a educação, mas, sobretudo, fazer da cultura um elemento de ligação entre todos os moçambicanos que vinham de todas as províncias moçambicanas, mas que não falavam a mesma língua. A primeira forma de união foram as manifestações culturais”, recordou Graça Machel.

 

O escritor Álvaro Carmo Vaz lança, às 17 horas desta quinta-feira, na Biblioteca Central da Universidade Pedagógica de Maputo, o livro Os lobos: uma família goesa.

Em geral, o livro traz Caetano Lobo, um jovem goês que emigra para Moçambique, nos anos 40 do século XX, com a ambição de fazer fortuna. Depois, de trabalhar para uma companhia agrária da Zambézia, estabelece-se por conta própria em Quelimane, com a ajuda da mulher e do dote que esta lhe traz.

Na sequência, Caetano Lobo prospera, faz filhos e adora a mais nova, chamada Aurora. Algum tempo depois, a família muda-se para Lourenço Marques e continua a enriquecer. Caetano Lobo, brâmane, mantém o preconceito trazido de Goa, contra pessoas de castas consideradas inferirores, particularmente os sudras, o que o leva a rejeitar o convívio com uma família goesa, os Xavier.
Quando a Aurora e o jovem Bruno Xavier se apaixonam, ocorre a tragédia que marca as duas famílias.

Conforme se pode ler na contracapa do romance, Os lobos: uma família goesa, de Álvaro Carmo Vaz, é uma saga familiar, que percorre quatro décadas da vida em Moçambique, período pontuado por importantes acontecimentos externos e internos, como a segunda guerra mundial, as independências dos países africanos, a tomada de Goa pela Índia, as lutas de libertação pelas colónias portuguesas, o 25 de Abril, a independência de Moçambique e os primeiros anos que se lhe seguiram, que foram determinantes para as vidas e opções dos protagonistas.

A nova proposta literária de Álvaro Carmo Vaz será apresentada por Rui Fernandes, sob a chancela da Alcance Editores.
Álvaro Carmo Vaz também é autor de Um rapaz tranquilo e Aqui há ópera?

Elcides Carlos é daqueles músicos cujo tempo deu-lhe o bónus da criatividade e maturidade, é daqueles músicos, que desde cedo já conhecia o caminho a trilhar, ainda em tenra idade, convivia e ouvia grandes vozes e exímios instrumentistas de várias latitudes musicais: James Brown, Martinho da Vila, Manu Dibango, Steve Kekana, Fany Mpfumo, entre outros.

 

Elcides Carlos cujo percurso todos somos testemunhas, além das suas qualificações especificas, o impar dedilhar, a voz que nos surpreende no tema Mhango, a contar com a bela participação do timbileiro Cheny Wa Gune, uma perfeita ligação ao universo tradicional e ao teatro, cujas falas tem o actor Horácio Guiamba como edificador de outras margens, merece também menção o tema Ni Wa Makhombo. original de Fany Mpfumo, com uma soberba revisitação na guitarra pelo líder Elcides Carlos e o saxofone de Drew Zaremba.

Aliás, todo disco é um pacto poético-musical, sempre perto das grandes linhas melódicas, onde cada música procura a beleza da sua estrela clarividente. Elcides debuta um desconhecido letrista de inúmeras referencias e matrizes universais, como Djavan, Caetano Veloso e o poeta de Celso C. Cossa, só para citar alguns. Ao convocar o tema Sedução, nas fantásticas vozes de André Sansi e Sheila Malijane e Dietas da moda, na vertiginosa e intensa presença de Bhaka Yafole, ilustramos também a outra face de Elcides Carlos, sempre apagada pelo guitarrista. Todo este rosto, diria mascarado, uma outra e nova paisagem, deixando per si, uma espécie de “revanche” com os seus contemporâneos, tornando-se no mais plural, identitário, nacional e universal álbum dos últimos anos lançado após o confinamento em Moçambique.

A qualidade do álbum corresponde também aos 18 anos de aprendizado e a consequente afirmação no cenário musical nacional e internacional, devolvendo-lhe o seu lugar predilecto no mundo do jazz. SENSE OF PRESENCE é feito de uma genialidade que gera consensos e algumas paixões inesperadas, a pluralidade do seu valor simbólico e a visibilidade dos trilhos do seu eterno mestre e professor João Cabral, o percursor do seu trajecto musical, tendo a guitarra como o seu porto seguro e o jazz como seu horizonte.

Estamos certos, que o facto de contar com grandes participações nacionais e internacionais, dá uma fusão única de sonoridades diferentes, um prodigioso fenómeno uníssono, multiplicando-se mutuamente nas 12 faixas que compõem o álbum. Há um reencontro interminável, uma interessante encruzilhada de culturas e harmonias: entre o jazz, o afro, a rumba, bossa nova, timbila e marrabenta.

Por outro lado, o contraponto poético e o pensamento holístico, equilibram as 12 faixas, com os dedos e a voz assentes na constelação tradicional, unanimemente consideradas matérias nucleares de todas as composições. São também uma presença segura, os habituais companheiros musicais, outros desconhecidos do publico moçambicano e outros conhecidos:
Realdo Salato (baixo e arranjos), Tony Paco (bateria e percussão), Stélio Zoe (bateria), Nelson Manjate (percussão), Deodato Siquir (bateria, percussão e voz), Pappy Miranda (teclados), Nicoulau Cauaneque (teclados), Sheila Malijane (voz), Pauleta Muholove (voz), Cheny Wa Gune (timbila), Bhaka Yafole (voz), Radjha Ali (voz), e Edmundo Matsielane (voz).
A nível internacional, o álbum contou com Drew Zaremba (sopros, hammond organ, USA), Etienne Stadwjik (EUA), André Sansi (Brasi), Riquinho Fidelis (percussão, Brasil), Eloi Brito (bandolim, Brasil), Rosário Giuliane (alto sax, Itália), Valentina Bartoli (hamond organ, Itália), Mario Avesani (sopros, Itália), Valery Stepanov (teclados, Russia), Dylan Roman (teclados, RSA), Ernie Smith ( guitarra e voz, RSA), Madova Mbemba (voz, Congo) e Ekaterine James (violino, Cuba).

 

Por: Amosse Mucavele

Por: Cremildo Bahule
Para ver e ouvir Jazz na cidade de Maputo já não precisamos entrar em bisbilhotices. Todos os fins-de-semana, ou sensivelmente todos, temos um local onde podemos tresvariar com um músico de Jazz, um guitarrista de Jazz, um baixista de Jazz, um pianista de Jazz, um intérprete ou uma banda de Jazz. Uff: é muito Jazz. A correnteza do Jazz capturou os bairros, os bares e as noites de Maputo e Matola. (Falo do meu habitat, pois não tenho o pulsar das outras cidades do país). Queiramos ou não, o circuito do Jazz vai se consolidando na província de Maputo. Um dos exemplos de consubstanciação deste género musical é o retorno, depois de quase uma década de interrupção, do Matola Jazz Festival que ocorreu no pretérito fim-de-semana, 16 de Setembro de 2023. (O munícipe não deve viver, apenas, do my-love e da taxa-de-lixo).
Ao abonarmos que a fiada do Jazz moçambicano está cada vez mais robusto estamos a assumir, naturalmente, que os seus principais actores – músicos e protagonistas do Jazz, no geral – estão pujantes em partilhar as suas obras. Tal vigorosidade artística, vemos em forma de produtos discográficos e, sobretudo, em palco. É no fragmento da apresentação em palco e no espectáculo que sigo, peculiarmente, a palmilha do músico Elcides Carlos. Assim faço por três razões. Primeira razão e óbvia: estou magnetizado pelo seu disco de estreia «Sense of Presence» (2022); com este disco vi-o em concerto, primeira vez, no dia 30 de Abril de 2022, na IV Edição do Jazz no Franco. Segunda causa: perseverança em composições de Jazz que justapõem-se com componentes da música popular moçambicana, urbana ou folclórica. Se, verdadeiramente, queremos definir e qualificar todas os marcos idiomáticos do Jazz «que se quer moçambicano», devemos ter em conta esses detalhes – e.g., «Mhango» (no disco tem a participação de Cheny Wagune). Terceira e último móbil: para Elcides Carlos a construção rítmica é tão importante quanto a construção harmónica; por isso, ele traçou um mapa harmónico, tendo em conta o número de mudanças de acordes por compasso, que lhe permite desenvolver uma improvisação ao longo de uma ou mais voltas na estrutura das suas composições – e.g., «O Que Seria» (no disco tem a participação de Rosário Giuliani) e «Ha Fana» (no disco tem a participação de Radjha Ali & Drew Zaremba). Estou ciente que este raciocínio, de um professor da 4.ª Classe, poderá ser divergente de um professor de música ou de um crítico acérrimo de Jazz. Porém, em alguma realidade iremos concordar: a música de Elcides Carlos responde aos procedimentos harmónicos dos seus contemporâneos e alicerça, substancialmente, a corrente do Jazz que oferece vida à cidade de Maputo.
Esta poesia incómoda é um presságio, positivista, e um convite para o próximo espectáculo de divulgação do disco «Sense of Presence». Depois do «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night», realizado no dia 30 de Junho de 2023, na Galeria do Porto de Maputo, o músico quer oferecer-nos «Jazz Aboard», no dia 29 de Setembro de 2023, no Centro Cultural Franco-Moçambicano. O «Jazz Aboard» tem um único propósito: partilhar e certificar o trajecto vivificante do Jazz de Elcides Carlos. Para mim, será o fecho da trilogia que começou na IV Edição do Jazz no Franco, 2022. Por isso, não sei se existem prognósticos no Jazz, gostava de sentir e contemplar um concerto articulado, enérgico, agradável e, sobretudo, majestoso. As minhas suposições poderão ser certeiras pois no «Jazz Aboard» teremos três convidados: o guitarrista João Cabral (que editou o seu segundo disco, «Walks Life» (2023), depois de «River of Dreams» (2007) – irei camuflar a parte da irmandade entre Elcides Carlos e João Cabral –, a cantora Lalah Mahigo (que já tem um disco de estreia, «Kutikuma» (2022) e o compositor e intérprete Bhaka Yafole (dono de um solfejo fantástico). Para marear o «Jazz Aboard», Elcides Carlos trauteará com Tony Paco (bateria), Lelas Mavie (baixo), Nicolau Cauneque (teclados), Sarmento de Cristo (saxofones), Fernando Morte (percussão), Sheila Malijane e Gilson Marqueza (coros & vozes).
Quero cessar este palavreado mordido reafirmando o convite para juntos comprovarmos a ascensão de «Sense of Presence». A fiada do nosso Jazz é feito de iniciativas como «Jazz Aboard» que ajudam-nos a alicerçar o quão importante são os moldes vitais do Jazz moçambicano. Está consumado o convite para assimilarmos, por meio do «Jazz Aboard» (ramificação do «Sense of Presence»), o idioma musical de Elcides Carlos. Se não obtermos nenhuma compreensão, visto que o Jazz é de difícil percepção, usufruiremos, ao menos, a sensação de estar a abordo por meio do Jazz e do «Sense of Presence»!
P.S.: subscrevam-se ao canal do Elcides Carlos no YouTube e acompanhem a série: «Talking Jazz». É uma lauda que fala das bases e essência do Jazz, como aprender a improvisar, os melhores solos de Jazz & Cia. Abre espaço para perguntas, partilha de material didáctico e recomendações variadas sobre o Jazz nacional e internacional. [www.elcidescarlos.com].

O Ministro dos Transportes e Comunicações reagiu, hoje, às denúncias sobre alegada má gestão na LAM pela antiga administração da empresa. Na ocasião, Mateus Magala disse confiar nos gestores da companhia aérea. Os antigos gestores da firma são indiciados de praticar actos de corrupção.

Cinco meses depois de a empresa sul-africana, Fly Modern Ark, ter sido confiada à gestão da empresa Linhas Aéreas de Moçambique, o director-executivo da firma denunciou casos de corrupção e de má gestão por parte dos anteriores administradores.

Nesta sexta-feira, o jornal O País confrontou o ministro dos Transportes e Comunicações com as alegações. Na ocasião, Mateus Magala disse confiar nos referidos gestores.

Entre outras situações reveladas pelo director-executivo da Fly Modern Ark, está um alegado aumento do salário mensal dos administradores no valor de 100 mil Meticais, uma decisão tomada pela antiga administração em Janeiro último.

No verso da cicatriz, de Bento Baloi, e Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, são os livros laureados na primeira edição do Prémio Literário Mia Couto. O primeiro livro distingiu-se no género romance e o segundo no género poesia. O anúncio foi feito esta quinta-feira à noite, na Cidade da Beira.

A cerimónia do anúncio dos vencedores da primeira edição do Prémio Literário Mia Couto foi marcada para 17 horas desta quinta-feira, na Casa do Artista, na Cidade da Beira. Por motivos profissionais, Bento Baloi não pôde viajar de Tete, onde vive e trabalha, para Beira, local onde a Associação Kulemaba e a Cornelder de Moçambique organizaram a iniciativa que pretende estimular a produção literária.

Assim, para não pensar na cerimónia ou algo assim, o escritor foi jogar voleibol com amigos, na Escola Secundária de Tete. Depois de umas horas de entrega ao desporto, sim, chegou a casa, pegou no telemóvel e reparou que tinha perdido muitas chamadas. Também reparou que tinha muitas mensagens por ler. Abriu a primeira e ficou a saber que era o grande vencedor do género romance, na primeira edição do Prémio Literário Mia Couto.

Entre o momento que leu a mensagem e a expectativa entre o que se iria seguir, Bento Baloi pensou em todos aqueles que, com edição, conversas, conselhos e ideias, contribuiram para que o seu No verso da cicatriz se tornasse uma boa ficção. “A todos os que contribuiram para que o livro fosse possível, eu agradeço com muito apreço”.

Segundo confessou Bento Baloi, sente-se muito satisfeito por ter conquistado um prémio prestigiante. “Este é o meu terceiro livro e, pela primeira vez, ganho um prémio literário. Nós, como autores, nunca pensamos nos prémios, mas, claramente, este reconhecimento nos dá força para continuarmos a trabalhar mais”.

Dito isso, Bento Baloi acrescentou que, com a distinção, espera que o seu terceiro livro (segundo romance) possa atrair o interesse de mais leitores.

“No verso da cicatriz, de Bento Baloi, é um romance que desafia não só as crenças e o horizonte de expectativas do leitor, mas a sua sensibilidade e a sua estabilidade emocional. O efeito catártico da narração se impõe de forma inapelável, convocando a dor, o sofrimento, o drama humano, a desilusão e a degeneração dos valores sociais”, refere uma nota de imprensa do Prémio Literário Mia Couto.

Ao contrário de Bento Baloi, Belmiro Mouzinho conseguiu viajar de Nacala, onde vive, até à Cidade da Beira. Chegou na manhã desta quinta-feira e participou na cerimónia do anúncio dos vencedores da primeira edição do Prémio Literário Mia Couto.

Pétalas negras ou a sombra do inanimado é o seu primeiro livro. Escreveu em 2021, em menos de 12 meses. Também por isso, Belmiro Mouzinho sente-se privilegiado por conquistar um prémio na sua estreia em livro. “Claro que isto traz uma grande motivação, já que comecei a escrever há muito tempo. Sinto-me feliz por ter sido abençoado por esta oportunidade”.

Com o prémio, “A expectativa está alta e sinto que tenho de trabalhar muito mais. Mas hoje recebi um conselho sábio, sobre trabalhar sem pressa. Tenho muitos trabalhos, mas não vou publicar tão já. Vou aprimorar para que sejam ainda melhores do que este que foi premiado”.
“Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, é um livro de poesia que reflecte o encanto que a arte do verso exerce na vida do poeta, pois, para si, tudo o que as pessoas vêem e tocam, tem poesia. Nesta sua estreia em livro, Belmiro Mouzinho assume-se como um poeta rebelde e inconformado. Em parte, isso corresponde à sua maneira de ver as coisas à sua volta”, avança uma nota de imprensa sobre o prémio.

Com a distinção, Bento Baloi e Belmiro Mouzinho recebem, cada 400 mil meticais.

A DECISÃO DO JÚRI

A primeira edição do Prémio Literário Mia Couto teve como membros do júri Francisco Noa (Presidente), Fátima Mendonça, Teresa Manjate, Tânia Macedo e Daniel da Costa, que, para a avaliação das obras concorrentes, estabeleceram os seguintes critérios: Criatividade, Domínio técnico, Correcção linguística e Densidade.

Assim, segundo o júri, o romance No verso da cicatriz destaca-se por ser um livro corajoso e muito bem escrito, apresentando a estruturação do enredo premissas bem delineadas, conflitos definidos de maneira que a História e as estórias se entrelaçam perfeitamente. Destaca-se o facto de esta corajosa narrativa se inspirar em sombrios acontecimentos ocorridos em Moçambique, logo após a Independência (encarceramento das Testemunhas de Jeová, Operação Produção e Guerra dos 16 anos), alguns dos quais remetidos ao esquecimento ou rasurados. Ao fazê-lo, acrescenta o júri, o autor, através de procedimentos narrativos bem conseguidos, transformou essa realidade empírica numa odisseia densa e dramática, de poderoso efeito catártico.

Quanto a Pétalas negras ou a sombra do inanimado, seguno a acta do júri, destaca-se por apresentar-se em termos de singularidade criativa, herdeiro da modernidade literária, com versos longos a desenharem um mundo muitas vezes desencantado, onde a concretização do desejo nem sempre é sinónimo de encontros. Trata-se de uma poesia com uma marcada profundidade temática bem como a nível da construção poética, em que se reconhece uma escrita cuidada, densidade interpelativa, dados os questionamentos existenciais aliados a uma crítica sociopolítica e dos costumes muito subtil, mas corrosiva, maturidade na articulação entre palavra e pensamento e um investimento estético assinalável traduzido em imagens de belo efeito.

SOBRE OS AUTORES

Bento Baloi nasceu em 1968 no Vieira, bairro de Maxaquene, cidade de Maputo. Fez iniciação literária escrevendo contos e poemas publicados em páginas de especialidade de revistas e jornais moçambicanos. Dedicou parte significativa da sua carreira ao teatro escrevendo, dirigindo e interpretando papéis em peças, tanto de palco como de rádio. São da sua autoria as peças de teatro «Lágrimas»; «Grito Humano»; «Adão e Eva, Ámen»; «Alarme»; «Katina P, o Flagelo». Escreveu os bailados «O Filho do Povo» e «Raízes e Percursos», encenados por Pérola Jaime. Recados da Alma é o seu romance de estreia e foi publicado em 2016. Publicou pela Índico Editores em 2021, o livro de crónicas Arca de Não É, com relatos do drama vivido a quando do ciclone Idai, na cidade da Beira.
Belmiro Mouzinho nasceu a 07 de Maio de 1994, na Cidade de Quelimane, Província da Zambézia. É um dos membros fundadores do Círculo Académico de Letras e Arte de Moçambique. É estudante de Engenharia Eléctrica no Instituto Superior Politécnico e Universitário de Nacala. Tem participação em diversas antologias internacionais publicadas no Brasil. Inspira-se na poesia de Florbela Espanca.

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