O País – A verdade como notícia

O Conselho Municipal de Maputo apresentou projectos de editores e organizaçōes parceiras da Feira do Livro de Maputo. Trata-se da Alcance Editores, Ethale Publishing, Fundação Fernando Leite Couto, Catalogus, AEMO, Escola Portuguesa de Moçambique, Kulera e TPC.

Ao longo da terceira edição do Mercado de Indústrias Criativas do Brasil (MICBR23) foram aguardados mais 400 empreendedores de 17 nacionalidades no Hangar Centro de Convenções, em Belém (PA). Juntos participaram, entre os dias 9 e 11 deste mês, de rodadas de negócios com perfis de compradores ou vendedores, realizando cerca de dois mil reuniões até o final do evento. A primeira rodada aconteceu na quinta-feira (9), de 9h às 17h30.

Além de Moçambique, estiveram presentes compradores, gestores, editors, curadores, escritores, pesquisadores, empresários dos seguintes países: África do Sul, Alemanha, Argentina (país convidado de honra), Chile, Congo, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Noruega, Polônia, Portugal e Uruguai. Os encontros – pré-agendados e com duração de até 25 minutos – tiveram o objectivo de gerar networking  e impulsionar o crescimento dos negócios.  Com o desdobramento das rodadas de negócios do MICBR 2023, a estimativa é que sejam gerados 20 milhões de dólares em negócios até o final de 2024.

No primeiro e segundo dia de Rodadas de Negócios do Mercado de Indústrias Criativas do Brasil (MICBR) 2023, centenas de empreendedores se encontraram no Pavilhão A, do Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, em Belém. As actividades ocorreram na quinta-feira e nesta sexta-feira (10), entre 9h às 18h30. Ao todo, foram 713 reuniões de exposição de produtos e serviços.

As 15 categorias presentes no evento, tiveram representantes nas mesas para dialogar sobre o mercado cultural moçambicano de forma directa e objectiva. Além disso, empreendedores de diversos lugares do mundo também estiveram presentes. As rodadas reúnem profissionais dos seguintes sectores criativos: artesanato; audiovisual e animação; circo; dança; design; editorial; hip-hop; jogos electrónicos; moda; museus e património; música; teatro; e um sector voltado às áreas técnicas afeitas à economia criativa cujo objectivo desse momento é a troca de informações e conhecimentos sobre serviços e produtos, se tornado facilitador para novos contactos e contratos.

“O MICBR é isso, é uma feira de negócios do sector cultural e criativo. A expectativa da Feira do Livro de Maputo é de oferecer toda cadeia de produção editorial, cultural e criativa da Cidade de Maputo. Para o Conselho Municipal de Maputo, a indústria cultural é uma indústria produtiva que pode trazer oportunidades de emprego para o nosso país e estamos à disposição para continuar a promover as artes e letras moçambicanas além fronteiras”, avaliou o Coordenadora-Adjunta da Feira do Livro de Maputo e Directora Municipal-Adjunta de Bibliotecas e Arquivos, Verónica Chiquele.

Na quinta-feira, Verónica Chiquele manteve encontros com Noélia de Sá, editora argentina e coordenadora da Feira de Editores (FED) em Buenos Aires e com Guida Gomes, coordenadora da Casa Astral (Brasil). Ambas têm interesse em explorar o mercado editorial moçambicano e participar da Feira do Livro de Maputo.

“A internacionalização da literatura moçambicana é um passo fundamental para ampliar o alcance e a influência de nossos autores e nossas editoras”, afirma Verónica Chiquele. “também aproveitamos as rodadas de negócios para estabelecer pontes, expandir e vender a marca Feira do Livro de Maputo, a literatura e artes moçambicanas ganham visibilidade global neste mega evento”, concluiu.

 

O lançamento oficial de “Pintar incongruências”, de Angelina Neves, está marcado para dia 16 de Novembro, às 17:30h, no Instituto Guimarães Rosa/Centro Cultural Brasil-Moçambique, na Cidade de Maputo.

Angelina Neves estreia-se com um livro para adultos. Intitulado “Pintar incongruências”, a obra é constituida por 112 páginas e está dividido em sete partes.
“Com uma biografia fecunda dedicada à poesia, à literatura infantil e à educação, Angelina Neves emana um extracto humano que vibra naturalmente com a sua arte. A artista e a cidadã se anelam e formam uma expressão única, a da poetisa que aqui se neste novo livro”, lê-se na nota de imprensa da editora gala-gala.

No prefácio do livro, o escritor e cineasta brasileiro Escobar Franelas, avança a mesma nota, faz uma associação entre Angelina Neves e Fernando Pessoa, afirmando que assim como Pessoa se tornou poeta através de vários poetas, Neves se torna poeta por meio do arco solar.
A obra faz parte da colecção de poesia “Biblioteca de poesia Rui de Noronha”, da Gala-Gala Edições.

A apresentação do livro será feita pela professora brasileira (UEM) Izzy Gomes.

Angelina Neves nasceu na capital moçambicana, em 1951. Escreveu mais de 40 livros infantis. Trabalhou ligada a projectos de divulgação e defesa dos Direitos das Crianças. As tentativas de fazer poesia vêm da infância. Um dia, aos 16 ou 17 anos, a Angelina enviou, para um jornal que tinha uma página cultural onde se publicava poesia, um poema que foi “ignorado”, e aí decidiu que “não tinha entendimento suficiente para ser poeta”, e que a poesia só servia para ela brincar de poeta consigo mesma.

No dia em que celebra 136 anos de existência, a Cidade de Maputo ganhou um novo mural, pintado por artistas nacionais, na Avenida Marginal. O mural, fruto da colaboração entre a Khuzula e os artistas Sebastião Coana, Butcheca, Chris, Pokito, Left Hand e Psiconautah visa enriquecer o cenário artístico local.

A iniciativa tem como objectivo principal a criação de mais pontos turísticos na cidade, promovendo ainda mais intercâmbios culturais e fortalecendo a narrativa por trás da ideia de tornar Maputo uma cidade criativa.

O mural é a segunda fase dessa importante missão, após a inauguração de outro mural em homenagem aos icónicos músicos, Fany Pfumo, Madala e Zena Bacar, fixado nos pilares do Viaduto Alcântara Santos.

Com propósito de transformar espaços urbanos e estimular a criatividade por meio da arte, o projecto busca encantar e inspirar tanto visitantes quanto a população local. O trabalho dos artistas envolvidos carrega traços únicos e expressões artísticas diversos, o que resulta em uma obra de arte multicultural e cativante.

“Este projeto é uma prova do compromisso da Khuzula em promover a cultura e a arte como importante ferramenta de desenvolvimento e turismo. Esperamos que esse novo mural se torne um marco na cidade e atraia visitantes de todo o mundo, enriquecendo a experiência cultural e fortalecendo a posição de Maputo como um destino criativo”, lê-se na nota de imprensa.

Recentemente, foi assinado um memorando de entendimento entre o Conselho Municipal e a Khuzula, que preconiza a realização de diversas actividades e a segmentação de criação de uma dinâmica cultural e turística na Cidade de Maputo, facto justificado pelas actividades de carácter criativa que são realizadas ao nível da cidade.

 

 

“Outros olhares inefáveis” é o título da segunda individual de Walter Zand, este ano. A mostra de artes plásticas foi inaugurada esta quinta-feira, na Galeria da Associação Kulungwana, na Cidade de Maputo.

Ao fim de cinco anos a tentar expor na Galeria da Associação Kulugwana, no terminal dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na Cidade de Maputo, Walter Zand finalmente conseguiu a oportunidade de lá apresentar as suas obras. Na verdade, para a individual “Outros olhares inefáveis”, o artista plástico precisou apenas de duas semanas para preparar e finalizar a mostra que une pintura e desenho num registo particular.

Abordando o complexo tema do amor, Walter Zand propôs-se projectar uma exposição que, fundamentalmente, tenta apresentar as vantagens e os prejuízos do sentimento, afinal, muitas vezes inefável. “Este é um convite à reflexão, em relação ao amor”, começou por dizer, realçando a dificuldade de explicar o conceito daí consequente. “Nesta exposição, estou a tentar exprimir o que está no meu íntimo”.

Para a individual, Walter Zand combinou diferentes técnicas na composição, quer das suas pinturas, quer dos seus desenhos. Por exemplo, carvão e acrílico sobre tela. Assim, o artista conseguiu questionar a subjectividade do amor e a sua validade numa época em que o país enfrenta uma situação particular em termos sociopolíticos. “Estamos numa situação não muito boa. Acho que as pessoas precisam de pensar algo diferente destes barulhos. Acredito que a arte tem esta particularidade de trazer uma lufada de ar fresco para este ambiente que está um pouco pesado”.

Na Galeria da Associação Kulungwana, a mostra de Walter Zand conta com a curadoria de Sara Carneiro. “Acho que esta exposição nos traz o clássico do Walter Zand. Ele não nos desilude e supera as nossas expectativas em termos da capacidade de apresentar aspectos emotivos através de coisas inefáveis. Ele não se limita e cruza técnicas, o que nos faz sentir várias camadas nas suas obras”, afirmou Sara Carneiro.
A nova individual de Walter Zand, “Outros olhares inefáveis”, pode ser visitada na Galeria da Kulungwana até 15 de Dezembro.

 

 

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) divulgou, na tarde de ontem, a lista das obras semi-finalistas da 65ª edição do Prémio Jabuti, a mais importante premiação nacional do livro e referência no mercado editorial brasileiro.

Segundo uma nota de imprensa da Editora Trinta Zero Nove, das 4.245 obras inscritas, foram seleccionados 10 semi-finalistas para cada uma das 21 categorias, que são distribuídas em quatro eixos: literatura, não ficção, produção editorial e inovação.

Assim, a Editora Trinta Zero Nove consta na lista dos semi-finalistas na categoria Livro Brasileiro Publicado no Exterior do eixo produção editorial com os seguintes títulos: “Caderno de rimas do João” e “Caderno sem rimas da maria”, de Lázaro Ramos, e ilustrados por Maurício Negro. Estes livros infanto-juvenis são uma ode do autor aos seus filhos, João e Maria, com neologismos e mensagens para inspirar auto-estima e valorização nas crianças negras; “O cabelo de Cora”, da autoria de Ana Zarco Câmara, e ilustrado por Taline Schubach, um livro que, segundo a autora, não é sobre princesas, fadas, bruxas, monstros, animais que falam, super-heróis ou lendas de folclore, mas busca antes reafirmar a beleza dos cabelos crespos.

Publicadas no Brasil, entre 2016 e 2018, pela Pallas Editora, as mesmas foram publicadas pela Editora Trinta Zero Nove em 2022 em edições bilingues de Português e Changana, Sena e Macua.

Hubert Alquéres, curador do prémio, citado na nota de imprensa da Trinta Zero, diz: “Chegar aos dez melhores em cada categoria não foi uma tarefa fácil, diante da grande qualidade das obras inscritas. O júri enfrentou o desafio com competência e nos entrega uma lista admirável”.

Os projectos conjuntos da Pallas Editora e da Editora Trinta Zero Nove são os únicos infanto-juvenis da lista, além de únicos projectos em línguas Bantu e concorrem com sete romances e obras de não ficção publicados no Médio Oriente, EUA, Itália, Portugal, Argentina e Reino Unido.

A reacção de Lázaro Ramos, numa mensagem de áudio enviada para Sandra Tamele, foi mais emotiva: “Que coisa mais linda… Eu soube agora, estou muito feliz. Parabéns, parabéns, parabéns… Estou muito feliz com este projecto”, lê-se na nota de imprensa da Editora Trinta Zero.

Já Ana Zarco Câmara, disse: “Parabéns para nós! Que notícia mais querida. Tenho que processar na mente. Viva Cora! Viva a Trinta Zero Nove e as nossas crianças!”, pode-se ler na mesma nota.

Os finalistas serão conhecidos no dia 21 deste mês, sendo cinco em cada categoria. Os vencedores – o que inclui o título de Livro do Ano – serão apresentados ao público na noite de 5 de Dezembro, num evento no Theatro Municipal de São Paulo.

 

Por: Huwana Rubi

Não é comum, no nosso meio literário, onde a crítica das artes parece hibernada na mesma cápsula onde o País se faz letargo, lermos dois exaustivos ensaios sobre a mesma obra, com os dois a convergirem na importância que a atribuem, ressaltando a sua relevância literária, neste caso, o facto de, “neste romance, a ficção e a história são habilmente combinadas.”, citada a co-autoria da Professora Ana Mafalda Leite.

Mais do que um simples reconhecimento da qualidade literária, um dos ensaios, “O insólito ficcional na narrativa moçambicana contemporânea: leituras de saga d’ ouro, de Aurélio Furdela”, do destacado estudioso brasileiro João Olinto, se mostra revolucionário no olhar que faz sobre a literatura moçambicana, a colocar no mesmo patamar de amadurecimento literário a prosa do escritor Aurélio Furdela, ao lado de Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto, ao considerar:

“Decorre que, embora em períodos anteriores a prosa tenha apresentado obras que contavam sobre a realidade do – à época, colônia portuguesa – território moçambicano – a exemplos de obras como Godido, de João Dias; ou Nós Matamos o Cão-Tinhoso, de Honwana (TRINDADE JR, 2019) –, eram experimentações esporádicas, em detrimento da vocação dos moçambicanos para serem uma “pátria de poetas” (NOA, 2007, p. 284). Assim, a prosa passa por décadas até atingir o amadurecimento de um Ba Ka Khosa, um Mia Couto e, apontamos aqui, um Aurélio Furdela.”

Aurélio Furdela dizia há dias que neste preciso mês de Novembro completa 20 anos de publicação em livro, quero acreditar agora que terá motivos bastantes para celebrar: parabéns escritor!

A coreografia “Vagabundus”, de Ídio Chichava, será apresentada no Festival Souffle, próxima semana, na Ilha Reunião. O espectáculo é um exercício particular sobre a expressão do corpo e também será apresentado na bienal Kinani, dia 23.

Nos próximos dias 14, 15, 16 e 17 deste mês de Novembro, o espectáculo de dança “Vagabundus”, de Ídio Chichava, será apresentado nas cidades de Saint-Pierre e Saint-Denis, na Ilha Reunião.

Depois estreia na Bulgária, ano passado, a obra de Ídio Chichava será apresentada no Festival Souffle. Com a participação, o coreógrafo e os 13 bailarinos que viajam ao território francês, no Oceano Índico, têm expectativas altas, “Porque lá teremos uma espécie de aquecimento para apresentação no Kinani, em Moçambique. Além disso, estamos conscientes de que as as nossas futuras apresentações dependem do que faremos na Reunião”.

Para Ídio Chichava, levar “Vagabundus” a Ilha Reunião é uma oportunidade para provar que Moçambique continua com capacidade de exportar coreografias de dança ou cénicas de qualidade. Também por isso, Chichava entende que a participação no Festival Souffle, mais do que um reconhecimento, representa uma luta da Yodine, da Converge + e dos bailarinos, que consiste em sublinhar que é possível viajar com peças nacionais para o estrangeiro”.

“Vagabundus” é uma coreografia com 70 minutos de duração. O espectáculo estreou no Festival One Week Dance, na Cidade de Plovdiv, na Bulgária, ano passado. Até aqui, a versão final do espctáculo ainda não foi apresentada em Moçambique. A estreia em Maputo está maracada para dia 23 deste mês, no Grande Auditório do Centro Cultural Moçambique-China. “Espero que consigamos ter mil pessoas a ver ‘Vagabundus’, a sala tem capacidade para tantas pessoas, e mostrarmos que a dança moçambicana está viva e recomenda-se”, afirmou Ídio Chichava, durante o intervalo do ensaio desta quinta-feira.

A coreografia de ídio Chichava levou seis meses a preparar, pois Ídio Chichava esmerou-se em trabalhar experiências do corpo de cada bailarino, sem esquecer as suas tradições e as suas influências. Segundo o coreógrafo explicou, os bailarinos que fazem “Vagabundus” pretendem, através de movimentos coordenados, mostrar que em Moçambique existe a criação de vocabulários próprios, através da dança.

 

Por volta de 1995 tinha eu já a idade de homem, embora fosse o mais novo de casa e fosse vivo nessa altura o meu pai. As aldeias que nos circundavam, as quais entrávamos como suspeitos de algum crime e saíamos como se voltássemos de uma festa, tinham um aspecto à primeira vista silencioso, porém de pândega para quem olhasse com olhos de ver; mesmo que nos rostos de quem os habitasse vivesse pendurada uma lágrima. Destas lágrimas preguiçosas para cair. Anos mais tarde – era eu uma espécie de rato de biblioteca – vim a saber que aquele bairro que nos circundava – e que se encolhia ao nascente e se reanimava ao sol poente – era, afinal, um campo de refugiados. A guerra já havia terminado, é verdade. A paz nem tanto. Cada um daqueles habitantes que vinham à distância de dias e noites intermináveis tinha algures um morto por enterrar e, quem sabe, um pecado inconfessável.

As manhãs começavam com música na casa do meu pai. A menininha trazia água numa bacia metálica e pousava-a sobre a mesa. Quem me dera se eu lembrasse o seu rosto. A garotinha de idade pouco maior que a minha, mas demasiadamente inferior à do meu irmão mais velho, mesmo que só dois anos nos separassem, era solícita e vívida. Sob suas mãos, o chá escorria quente e fumegante para dentro da chávena que retinha o olhar do meu pai. A menina havia entrado pela porta de casa agarrada pelo ombro de minha mãe, que a havia encontrado algures vagamundando.

Eu podia esquecer de tudo, menos o cheiro de um pão. O cheiro da menininha esqueci, como esqueci o cheiro da casa, a cor daquele mar particular que eu via da janela, a areia que se deixava antever de longe e as palavras que pronunciavam os bêbados nos seus circos nocturnos, esquecidos da sede da matança e da fruição do medo. Sucedeu, porém, que por razões que até hoje ignoro, e que eram ainda mais confusas ou banais na altura, a meninha punha-se sempre a chorar quando fosse pontualmente dezassete horas. Daí a trinta minutos chegaria o meu pai, mão tomada por um cigarro e outra ocupada por um novelo que escondia um cesto de peixe, reclamando da severidade das ondas e da palidez que o legava a água do mar. Nunca me acostumo a essa vida – dizia. Mas no minuto seguinte era eu quem fungava e jurava aos deuses não ser capaz de tocar um fio que fosse da menininha. Não importa, o jantar estava servido. A minha mãe voltava do mercado puxando pelo braço do meu irmão. Havia sempre mais um jantar sobrando para mim.

Como eu frequentasse as aulas no período da manhã, passava toda a tarde em casa com a menina, brincando de ajudar nas tarefas domésticas. Antes de descascarmos a batata doce ou pôr de molho as folhas da aboboreira, fazíamos viagens em batéis de lata de atum, nadávamos no mar raso das folhas das mangueiras e baloiçávamos na imaginação de um dia poder vir a ter baloiços. No entanto, mal o começasse o sol a por-se e, meticulosamente calculado, a menina desatava ao choro, apontando-me com o seu indicador todas as culpas. A princípio não percebi nada, como na verdade nunca cheguei a perceber. Por dias longos, chegava o meu pai as dezassete e trinta, a mão tomada pelo cigarro e na outra o chinelo cantava.

Em “Talpa” de Juan Rulfo extraído de “El Llano en llamas”, a Virgem do Santuário de Talpa é um símbolo religioso destinado a curar os enfermos e outros problemas. Natália aventurar-se-á para aqui, guiada por um peregrino, para cumprir uma promessa. Tanilo está doente e é a ele que interessa salvar. Entretanto, é enterrado ali, com a sepultura cavada à mão, sem que ninguém ajudasse. A viagem é em suma um pesadelo, contudo Natália não derrama uma única lágrima. Talvez não a afligisse o luto, mas chegados a Zenzotla, percorridos dias e léguas de viagem, ao ver a mãe Natália despontou a chorar como se precisasse de algum consolo.

Não me cabe a mim – hoje – reflectir acerca do infortúnio de Natália ou sobre a narrativa de Juan Rulfo. Nossa terra ainda carregava a cor de chumbo. A menininha podia ser tão vítima quanto vilã, como mais tarde descobrimos em Talpa. O que sei, porém, é que um dia a minha mãe regressou mais cedo e pôs-se em tocaia algures próximo de casa. Claro, que desconfiava que alguma coisa não ia bem. Não tardou que as aves se pusesse em direccão ao sol poente e a menina ligasse a corda do seu choro, eram precisamente cinco da tarde. O choro durara os exactos trinta minutos até que no ar flutuasse o fumo de tabaco do meu pai. A minha mãe no camarote assistia àquele ensaiado ballet de lágrimas. Quando o chinelo ia começar outra vez a cantar…

Os meus pais estavam envergonhados, acreditaram por longos dias que eu tivesse violentado a menina, que fora o infantil carrasco, quando eram lágrimas de invenção. Se calhar ela não se sentisse confortável separada da sua família ou tivesse, quem sabe, motivos piores. Ninguém conhece a verdadeira dimensão da dor. A precisão com que a garota domesticava o choro, a sua duração matemática, a arte de compadecer o outro. Isso me fez acreditar que não há nada tão efémero como a felicidade, porque por mais que pudéssemos inventá-la nunca nos sairia tão perfeita e duradoira como a tristeza daquela pequena actriz da vida. Os refugiados de guerra retornaram cada um à sua maneira e nunca cheguei a vê-los chorar.

Próxima terça-feira, às 18h00, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo vai inaugurar a exposição colectiva “Obra dádiva”, organizada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) por ocasião do oitavo Encontro Internacional sobre Educação Artística, que se realiza na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM), de 15 a 17 de Novembro (8º Encontro Internacional sobre Educação Artística.

O encontro envolve docentes e investigadores da CPLP, particularmente de Moçambique — da ECA-UEM, da Universidade Pedagógica (UP), do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), e da Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV).

A exposição “Obra dádiva” é comissariada por Paulo Luís Almeida, artista plástico e Professor Associado da FBAUP e director da sua Unidade de Investigação. A exposição apresenta cerca de 50 trabalhos originais, todos eles produzidos em papel. São autores professores da FBAUP e estudantes de pós-graduação da FBAUP e um pequeno grupo de autores de Moçambique, que, com o ‘movimento intercultural Identidades’, se têm cruzado.

Reconhecidos como Identidades, movimento intercultural, grupo de professores, artistas ligados à Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), estabeleceram, a partir de 1996, em Moçambique, laços de partilha artística e cultural.

+ LIDAS

Siga nos