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O País – A verdade como notícia

Por Rudêncio Morais

Olho para Quelimane na caligrafia deitada no caderno de impala que me veste a infância repartida entre o bairro de Coalane (Elias) e Primeiro de Maio, vejo-a no pedalar da bicicleta em direcção a Icidua, Maquival, Chuabo Dembe e Mugogoda, sinto-a na poesia da sua gente, no sabor das galinhas cafriais à zambeziana, no mbuacu (manjericão) pilado no almofariz da nossa gente para com o piri piri sacana, dar sabor ao thodué que se nos desce tal e qual se perdem no horizonte, as canoas que fazem a travessia Patrice Lumumba Eracamba. É dócil este “Quelimane do Sal” temperado no nhambaro e hibondo, que nos embalam para os segredos de uma cidade que pulsa no calor da sua gente, vestindo no pé descalço a alma do samba para desmistificar a sabedoria do alambique.

Em 2020, quando pensamos em apresentar “A Outra Dor”, livro do Falso Poeta, na Cidade de Quelimane, apareceu-nos à primeira, o nome de Precisado Cassamo, como aquele que faria a ponte entre a poesia e a música teletransportando o leitor para o corpo da existência Quelimanense, a voz sagrada das raízes da nossa terra. Para tornar esse sonho possível, falou-se com Silvino Bernardo, amigo e irmão existencial, que se mexeu rapidamente e apresentou os requisitos para o ter na apresentação da “Outra Dor”, quis Deus que Precisado Cassamo lá estivesse, e juntos, percorremos o seu vasto repertório musical, vez por outra, atrelado ao assobio que sempre o caracterizou. Em surdina, o público o acompanhava, numa autêntica viagem no tempo e na alma de um povo abraçado à sua biblioteca cultural.

Partiu hoje, parte do que somos culturalmente, e uma das vozes sagradas da nossa identidade cultural, Precisado Cassamo, filho de Sansão Victorino, e os seus, que na verdade são nossos Mapangananos, Mulubwana Murubué (homem é remédio), Ogahona Saia Vururu eloboya kahimo.

Até sempre Precisado Cassamo! A sua voz ser-nos-a o alento que nos ajudará a atravessar os desertos da vida que vez por outra nos abraçam.

Paz a sua alma!

Rudêncio Morais

Por: Cremildo Bahule

2023 foi um ano de muita música. Muito palco. Que assim seja para o ano que estamos a iniciar. 2024, almejamos, que seja de muita música moçambicana, sobretudo do jazz moçambicano. Timidamente, queremos esquecer da sonoridade silenciosa à que covid-19 nos remeteu. Embora com uma parca publicação de discos conseguimos ter boas edições que fazem jus à música moçambicana. Sobretudo no campo do jazz. De modo particular, quero fazer referência ao disco de João Cabral: «Walks of Life» (2023) – um disco de audácia, empatia e esperança –, depois de «River of Dreams» (2009).

Qual é o móbil para um guitarrista de jazz fazer um intervalo de catorze anos entre o primeiro e o segundo disco? Livremente da resposta, temos uma realidade musical que caracteriza o «Walks of Life»: as músicas têm uma sintaxe rítmica tão marcante quanto a estruturação harmónica; não é um disco que responde aos frenesis do jazz-standard e palacetes do jazz como um mapa harmónico que obedece, apenas, ao algarismo de modificações propositadas de acordes por cadência com o fim premeditado de traçar súbitos extensos para justificar que o jazz é isso: improvisação.

Para ser mais penetrante no «Walks of Life» divido, propositadamente, o meu olhar em duas análises: linguística e ritmica. A segunda precede a primeira na obra musical. O elementar é fazer o ritmo e depois escolher o título. Quiçá, se fosse o contrário! [Um detalhe: embora João Cabral tenha ascendência Guitonga, matriz étnica e linguística dos seus progenitores, é no Xichangana, pela nascença, que subjaz a sua pertença. Ele pensa, flui e edifica o substracto da sua criatividade em Xichangana e, se necessário, traduz. O que seria de Moçambique sem esta multiplicidade linguística]?

Primeira acepção: titulação musical. Os títulos têm uma marca especial: funcionam como uma partilha de realização de homenagens há personalidades que fazem parte da trajectória, substancial e musical, de João Cabral: «See You Forever Dad» (dedicado ao pai) e «Mama Wangu» (dedicado à mãe). Nestas duas músicas, a homenagem é prestada com elementos característicos de guitarra, particularmente a combinação da guitarra com vozes (Xixel Langa & Angelina Mbule) para o primeiro tema e com percurssão (John Hassan) para o segundo tema. As duas melodias, evidentemente, têm características muito diferentes, pelo facto de a primeira possuir um andamento alvoroçado, trechos com dinâmica em fortíssimo e lances de teclados (Dylan Roman), e a segunda ter um funcionamento mais paulatino, e apresentar pequenos momentos dinâmicos de voz (feita pelo próprio João Cabral; característica vocal ouvimos, também, nos temas: «Salute to Suzete», «My Lament»). Apesar dessas diferenças entre as músicas – «See You Forever Dad» (dedicado ao pai) e «Mama Wangu» (dedicado à mãe) –, ambas possuem um elemento em comum: é explícita a articulação entre a disposição da guitarra e a matriz cultural do universo que inspira o disco «Walks of Life»: títulos, generalizando, que fazem referência ao idioma primordial de Cabral, o Xichangana. Se o disco tem um título em Inglês e quase a maioria dos seus temas estão nessa língua porque persevero em fazer referência ao Xichangana? Existe uma resposta evidente: os significados de entendimento, positividade, ter os caminhos abertos – que é característico em nós – são justificados em língua autóctone, neste caso o Xichangana. Mas, será isso relevante na loquela do jazz? Mais uma vez, partilho uma resposta evidente: sim, é. Sabendo que o jazz, na sua essência, é premeditado em língua inglesa, é importante que João Cabral defenda o seu direito linguístico que surge ao imperialismo filológico que domina o jazz. Evidentemente, este facto por si só, não faz com o que jazz se torne genuinamente moçambicano por ter títulos em Xichangana. Este exemplo, que reclama de mais pressupostos de comprovação, revela que o músico tem o direito de falar e tocar livremente na sua língua independentemente de seu estatuto e da classe que o jazz pode dar a essa matriz linguística. Todavia, apesar da análise justificada que conflui no conceito de «reivindicação de direitos linguísticos por meio do jazz» é preciso olhar esta característica numa perspectiva progressista, com muitos aspectos de sua sustentação crítica que se fundamenta na conservação e defesa apologética de se dedilhar frases e nossa língua como que a prescrever um dicionário musical do jazz moçambicano. Esses detalhem vêmos, também, nos temas «Cunhada Jorgina» e «Marrapassada-Tell Me What You Want».

Segundo comentário: a sonoridade. Ela subjaz na rítmica tradicional de Moçambique. [Ai se não fosse, eu despedaçava e mandava para o monturo como fiz com o disco «Isac Project»). Percebe-se a incorporação do xigubo (e.g., «África Minha Essência»), da makwaela (e.g., «Urban Soul»), da timbila (e.g., «Sem Esperança-Hopeless») e da marrabenta (e.g., «Cunhada Jorgina»). Agrupar essas ambiências no jazz já é uma das componentes renovadoras para as composições que inspiram o «Walks of Life». [Atenção: meu ouvido – de um professor da 4.ª Classe – permitiu que ouvisse, mesmo que de forma leve, traços desses ritmos tradicionais. Se estou equivocado, usarei um palito de fósforo para limpar os meus tímpanos e em seguida aceito me retratar]. Esse toque de claves originárias dos ritmos tradicionais moçambicanos em confluência com claves e ritmos sequenciados da fala tornam-se numa abordagem específica para convencionar a memória cultural de fazer jazz em Moçambique. Essa é uma característica peculiar que chama a minha atenção: a apresentação de músicas instrumentais inspiradas nesses blocos e manifestações populares que enfatizam a nossa moçambicanidade. O apogeu dessa característica está na música «Marrapassada-Tell Me What You Want» (a minha predilecta do disco). Fazer jazz inspirado nesse universo é abrir espaço para a realização de transmissão das frequências dos instrumentos e ritmos tradicionais. Óbvio, que isso não pode nos forçar a chamar jazz puramente moçambicano. Ou de moz-jazz como cunhamos no nosso cancioneiro nacional. Porém, é um elemento qualificador. Ajuda a definir o cânone.

Num sentido particular «Walks of Life» é derivado das tradições linguísticas se assumirmos que a língua, como partilho na primeira apreciação, é um modelo artístico-cultural que pode ser um substracto elementar dessas músicas, que têm na clave do Xichangana, sua autêntica memória: ponto central da respectiva estrutura musical. Entender o funcionamento particular da linguagem musical de Cabral é respeitar os códigos e as convenções específicas expostas no universo de «Walks of Life». Evidentemente, este disco não é o pináculo da definição qualitativa do marco idiomático do jazz que se quer moçambicano. É, mais um elemento discográfico que nos auxilia na percepção de uma configuração rítmica que o torna tão importante quando idealizamos desenhar o mapa histórico do jazz de cariz moçambicano que é, igualmente, alicerçado pelos seus contemporâneos (e.g., Jimmy Dludlu, Valter Mabas, Zoco Dimande, Elcides Carlos). Além disso, por meio da relação com a linguagem sonora, há a possibilidade de se observar como os arranjos sugerem paisagens, cenas, e outras imagens, a partir da escolha de timbres (e.g. Xixel Langa, Sílvia Sol e Onésia Muholove), variações de dinâmica e andamento (e.g., Childo Tomás). Assumir que esta é uma obra concebida a partir de um carácter visual que se confunde com a interface do código verbal, que é possível perceber a sua influência na construtibilidade da sintaxe musical, cuja análise permite a identificação de elementos como: a recorrência do tema musical, as citações musicais e o papel narrativo das modulações na música. O código musical, por meio do título de algumas das músicas, também, favorece a construção de imagens, uma vez que acaba funcionando como um guia inicial de leitura de todo «Walks of Life».

Cesso o diálogo sobre «Walks of Life» assumindo que as músicas deste disco articulam-se como um texto cultural pela sua interface e se estabelecem entre diferentes esferas sonoras, verbais. O texto sonoro – entenda-se melodia cantada – torna-se mais complexo com a incorporação de elementos musicais do cancioneiro tradicional que representam o substracto linguístico, cultural e identitário de João Cabral. A incorporação desses elementos no jazz é identificável nas harmonias escolhidas para os arranjos e nos círculos característicos dos súbitos arpejos de guitarra que são elementos dos blocos da musicalidade e da cultura popular, que surgem por meio de algumas escolhas feitas por Cabral para compor a sua identidade musical. «Walks of Life» (2023) consubstancia-se no atalho das várias discografias que entram, por mérito, nos anais do jazz moçambicano. Por isso, sem sustos digo: valeu a espera!

P.S.1.: o encarte (fotos, ficha técnica e fracção descritiva) – de «River of Dreams» (2009) continua sendo o mais arrojado e encantador. Oh, João Cabral, nos poupe de esperar mais catorze anos para o terceiro disco. Sabes que em África a separação da procriação obedece intervalos mínimos: dois a três anos!

P.S.2.: recomendo a aquisição, pois o artista vive da sua faina musical, do álbum «Walks of Life» em formato físico ou digital (www.joaocabral,usic.com).

As vítimas das cheias que estão no centro de reassentamento de Estevel, em Boane, dizem estar a precisar de apoio, mais do que receber tendas, devido ao trauma pelo que passaram nos últimos dias.

No centro de reassentamento de Estevel, distrito de Boane, província de Maputo, estão cerca de 170 famílias que não encontram sossego nos dias de chuva.

Essas pessoas foram vítimas da fúria da mãe natureza. Perderam quase tudo nas enxurradas de Fevereiro do ano passado, mas até aqui vivem dias de pesadelos.

Quando a noite chega, chega também o desespero. Há por isso histórias inesquecíveis.
Helena Mpaia apesar de ter recebido apoio com uma nova tenda, diz que continua a sofrer com os seus filhos.

Quando a lua atravessa, por sinal, única luz neste local, algumas famílias ficam no seu quintal e não encontram nenhum sossego.
A falta de serviços sociais básicos é outro problema que preocupa estas famílias.

Enquanto as autoridades locais dizem não haver condições para fazer mais, é nestas condições que vivem estas famílias no distrito de Boane.

O escritor moçambicano Mia Couto está entre os 70 nomeados para o Prémio Literário de Dublin, na Irlanda, um galardão internacional que anualmente distingue uma novela escrita em inglês ou traduzida para aquele idioma.

No certame, que visa promover a excelência na literatura mundial e patrocinado unicamente pela cidade de Dublin, Mia Couto entra na lista com a tradução de David Brookshaw para inglês de “O Bebedor de Horizontes”, terceiro livro da trilogia “As Areias do Imperador”, escreve o “Notícias”.

A versão inglesa de “O Bebedor de Horizontes” foi publicada em Fevereiro do ano passado pela editora norte-americana Farrar Strauss and Giroux. A obra de Mia Couto foi indicada pela Biblioteca Nacional de Moçambique.

O livro foi classificado entre os romances africanos mais notáveis publicados em língua inglesa durante 2023, pela “Brittle Paper”, uma revista “on-line” especializada na divulgação da literatura africana. Isto acontece depois de, em 2022, a mesma obra ter conquistado o prémio internacional Jan Michalski, refere a mesma fonte.

Na obra, o autor retrata a saga final do imperador Gungunhana, o derradeiro grande governante de um império na África no século XIX. Aqui, os prisioneiros do oficial Mouzinho de Albuquerque embarcam no cais de Zimakaze em um barco que parte em direcção ao posto de Languene. De lá, seguem para o estuário do Limpopo e então iniciam a viagem marítima que conduz os africanos capturados para um distante e eterno exílio, numa das ilhas dos Açores, em Portugal.

Decorre, esta manhã, no Paços do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, o último adeus ao músico Chico António, que morreu no sábado passado, vítima de doença.

Durante os elogios fúnebres, foram destacados o talento, carisma e simpatia de Chico António. Tomás Vieira Mário, por exemplo, descreveu Chico António como um homem alegre e que nunca se chateava com ninguém.

Já a Associação dos Músicos de Moçambique diz que a rua foi a primeira escola de Chico António, um dos maiores compositores da sua geração. “Ele partiu, mas a Maria continuará a bailar eternamente”, disse o representante da AMMO.

Por seu turno, a Rádio Moçambique disse que a obra de António foi mais do que música. “Foi uma verdadeira narração de histórias. O seu instrumento era uma extensão da sua alma. A nós cabe agradecer por tudo o que ele fez pela Rádio Moçambique”, disse o jornalista e locutor Arão Cuambe, lendo a mensagem da instituição com a qual o malogrado colaborou.

O Governo, por sua vez, fez-se representar pela Ministra da Cultura, que disse reconhecer o papel do músico no domínio cultural.

“Visitei o Chico no hospital e ele recebeu-me com aquela boa disposição que o caracterizava. Entre tantas coisas, ele disse: por mais que queiram, as instituições não terão como dar tudo o que precisamos, mas sim a nossa vontade individual que vai nos fazer alcançar os nossos objectivos. Assumimos aqui o compromisso de dar continuidade ao legado de Chico. Depois de muito falar, ele pediu que fizéssemos uma fotografia. E ali sentimos que se estava a despedir e queria que as suas palavras ficassem eternizadas naquela foto. Vamos preservar os seus valores, obra e legado, garantido que sejam transmitidos de geração em geração”, referiu Eldevina Materula.

O Governo reconhece o papel do músico Chico António na promoção de Moçambique além-fronteiras e no desenvolvimento artístico nacional. A Ministra da Cultura e Turismo diz que se calou a voz de um património nacional, que deixa um grande vazio na cultura nacional. Familiares, amigos, fãs e público em geral renderam, hoje, uma última homenagem ao astro da música moçambicana.

“Baila Maria”, uma das criações musicais de Chico António, foi interpretada por Tomás Vieira Mário, no último adeus ao músico, esta terça-feira, no salão nobre do Conselho Municipal de Maputo.

Uma despedida, aliás, celebração da vida e obra de um músico que marcou gerações e deixou marcas para a cultura moçambicana e, por isso,  o Governo diz que se calou a voz de um património nacional.

“Calou-se para sempre a voz de um instrumentista, flautista, um guitarrista, um trompetista. Calou-se a voz de um cantor, um verdadeiro artista, multifacetado, patriota, pai, irmão, amigo e companheiro. Calou-se a voz de um património nacional. A partida eterna de Chico António abre um grande vazio, difícil de preencher no seio da família das artes e cultura moçambicana. Desferiu um golpe profundo no panorama cultural e criativo, porque falamos de um compatriota íntegro, forjado nas artes que engrandecem e elevam bem alto a imagem e prestígio de Moçambique numa altura em que o seu legado estava ainda em ascensão aos olhos de todos nós”, diz Eldevina Materula, Ministra da Cultura e Turismo.

Os elogios destacam a figura do cantor que uma vez foi menino de rua, mesmo assim soube  encontrar o caminho daquilo que  definiu para seguir na vida:  a música. A Ministra da Cultura e Turismo conta que visitou Chico António no Hospital e partilha a última conversa com o músico.

“Entre tantas coisas, Chico disse: ‘Por mais que queiram, não irão dar tudo o que precisamos, mas teremos essa responsabilidade em cada um de nós, porque a amizade e o espírito de colaboração, sim, nos levarão à vitória’. Estas foram das últimas palavras que o Chico me dirigiu e disse: ‘Vocês continuam com a batalha, vocês continuam com a batalha’. Pediu-nos que fizéssemos uma fotografia e aqui sentimos que Chico se estava a despedir”.
Já Mário Cuna, amigo do malogrado, conta também como foram passados os últimos dias antes da morte. Cuna chegou a ficar emocionado ao narrar os episódios vividos por ambos pouco antes de o músico dar entrada no HCM.

“Eu ligo para ele no domingo: ‘Estás bem, Chico?’ Ele respondeu: ‘Não, não estou bem, está a doer-me o estômago’. Eu disse ‘okay, vou aí’. Quando cheguei ao Hospital, não reconheci o Chico, foi assustador, nunca chorei tanto ver o Chico em cadeira de rodas. Questionei-me: ‘O que está a acontecer?’ Eu volto a Manhiça na sexta-feira, acordo de manhã, recebo uma mensagem muita curta da Otília e dizia: ‘Morreu…'”.

Chico António tem um álbum gravado e, para este ano, segundo Mário Cuna, esperava gravar uma nova obra discográfica e concluir a Escola de Música que estava a construir no Município da Manhiça. Mário Cuna diz que há músicas escritas, mas não estão gravadas, outras têm título, e há possibilidade de serem gravadas, porém, quanto à construção da escola, pode o projecto ficar parado com a morte do cantor.

Em mensagem, através de um representante, o filho de Chico António agradeceu os ensinamentos e o companheirismo do pai.

“Hoje, sinto-me privilegiado por ter compartilhado esses momentos consigo, meu amigo, companheiro, melhor exemplo de disciplina, perseverança e autenticidade que eu pude ter. Sim, houve desafios, desentendimentos, afinal, somos os dois teimosos e impacientes praticamente a mesma pessoa, mas, apesar de tudo, o vínculo que compartilhamos foi uma expressão de amor e experiências que moldaram quem hoje eu sou.”

Várias personalidades renderam homenagem ao músico e destacaram as suas qualidades humanas e artísticas.

Licínio Azevedo produziu e realizou o filme “O grande bazar”, que tem, no elenco, o músico Chico António, que, para além de produzir a trilha sonora, participou como actor. Licínio Azevedo  diz que a morte do artista é uma perda para o país, de modo geral, e para a cultura, em particular.

“Toda a homenagem será sempre pequena para uma pessoa como Chico António. O que tenho a dizer é que os homens bons morrem cedo demais, o exemplo disso é Chico António, que era uma pessoa maravilhosa, um dos maiores músicos moçambicanos, melhor músico de todos os tempos, cantor, compositor e intérprete. Trabalhei com Chico, ele fez músicas para vários filmes meus. Mas tem um filme especial que ele teve um papel muito relevante, que foi feito em 2006, O Grande Bazar, gravado no mercado Vulcano, que retrata um lenhador que perdeu a sua família vítima da guerra”, lembrou Licínio Azevedo.

Chico António contribuiu com o seu saber para a academia, por isso a Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo) garante  valorizar o seu legado.

“A universidade tem a oportunidade para continuar a recriar e a reviver essas que são as grandes figuras da nossa sociedade e, sobretudo, da nossa cultura. Em devido tempo, nós pensaremos em algo, levaremos aos orgãos colegiais e tomaremos as decisões. Mas o Chico estará sempre presente porque ele faz parte das nossas paredes, nossas portas, nossas janelas, nossas memórias, nossos livros e de todas as músicas e dos filmes que alguma vez a universidade produziu”, enalteceu Jorge Ferrão, reitor da UP-Maputo.

Familiares e amigos destacaram a personalidade do músico Chico António. A família Bucuane, de onde a sua esposa é proveniente, destaca que o músico era de carácter limpo e inofensivo.

A Rádio Moçambique, na qual Chico teve projecção artística, agradece pelo seu contributo.

A Associação dos Músicos Moçambicanos também teceu elogios ao seu membro. Lena Baule, da nova Escola de Música Moçambicana, também falou do contributo de Chico na cultura moçambicana e defende que o seu legado deve ser imortalizado.

Os restos mortais de Chico António foram cremados, esta terça-feira, no Cemitério de Lhanguene.

A província de Nampula foi a escolhida para receber o processo de colecta de informação referente à reformulação do perfil do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC) e adequação do seu estatuto alinhado às actuais dinâmicas culturais e económicas de Moçambique e do mundo.

A acção agendada para esta segunda-feira, enquadra-se no programa de reestruturação do FUNDAC e compreende discussões em grupos focais heterogéneos nas províncias de Nampula, Zambézia, Inhambane e Cidade de Maputo, visando colher contribuições para a capitalização dos objectivos do estudo.

Uma nota de imprensa sobre o assunto avança que a reestruturação do FUNDAC é uma decisão do Ministério da Cultura e Turismo, implementado no âmbito do projecto Construindo com a Música, e pretende adequar as recomendações da pesquisa aos termos legais que fundamentam a criação do FUNDAC e ao Decreto 41/2018 de 23 de Julho, uma medida do Governo da República de Moçambique que visa a reestruturação dos institutos e fundos públicos existentes no país.

O Ministerio da Cultura e Turismo e a AGAPE Onlus, entendem que contributo de grupos focais, sejam potenciais ou efectivos em particular, revela-se fundamental para que as propostas reflictam as aspirações e expectativas desses actores, especialmente de suas necessidades.

A presente intervenção pretende fortalecer o FUNDAC, como actor-chave no financiamento de artistas, empresas privadas e organizações culturais e criativas, com enfoque no crescimento social, capazes de gerar novos empregos e na diversificação da economia moçambicana.

O projecto Construindo com a Música é acção conjunta do Ministério da Cultura e Turismo e a organização não-governamental AGAPE ONLUS da Itália, em parceria com Comune di Milano, Milano Música e Diapason Progetti Musicali, financiada pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), pretende reformular o perfil do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC), do seu papel de gestor de fundos do Estado ao serviço cultural e criativo.

De 31 de Dezembro de 2023 a 31 de Janeiro de 2024, estão abertas as candidaturas para a Residência Artística UPCYCLES.

A Residência Artística UPCYCLES é uma iniciativa de incentivo à criação artística, à mobilidade e ao intercâmbio entre artistas emergentes e jovens curadores dos PALOP, organizada pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema em Moçambique, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal) e apoio do Centro Cultural Franco-Moçambicano e da Fortaleza de Maputo, cuja quarta edição se realiza este ano.

“Prevendo a participação de quatro artistas – dois de Moçambique e dois de outros PALOP – e quatro curadores convidados, a UPCycles garante, além de uma experiência única de tutoria e intercâmbio, as viagens dos participantes estrangeiros e um subsídio de produção e alimentação para todos os participantes”, lê-se na nota de imprensa.

Durante o mês de Março, num regime de desenvolvimento à distância, seguido de 10 dias intensivos de finalização e montagem, em Maputo, os participantes serão orientados para a concepção e criação de obras de arte multimédia que “reciclem” imagens do arquivo audiovisual os PALOP, criando narrativas que proporcionem novas interpretações da História e da Memória, a elas associadas. O trabalho será acompanhado pela tutora residente Ângela Ferreira, curadores convidados e uma equipa técnica de apoio, e a exposição inaugura a 6 de Abril de 2024, no espaço da Fortaleza de Maputo.

À residência artística podem candidatar-se artistas visuais e curadores emergentes, dos PALOP, que desenvolvam a sua prática artística em campos vários de execução multimédia e que apresentem um projecto para a reutilização de recursos de arquivos audiovisuais públicos e/ou privados.

A candidatura deve ser feita mediante uma inscrição feita no formulário online, acessível na internet.

Nas suas três edições anteriores, a UPCycles recebeu mais de uma dezena e meia de artistas, entre os quais, David Aguacheiro, Marilú Námoda, Eliana N’Zualo, Yassmin Forte, Samira Vera-Cruz, Ângelo Lopes, Sofia Yala, Diogo Bento, e outros.

A Ministra da Cultura e Turismo, manifesta pesar pelo desaparecimento físico do músico Chico António.

Em mensagem de solidariedade, enviada ao nosso jornal, Eldevina Materula, descreve a figura de Chico António como de tamanha importância na comunidade artística nacional e na sociedade em geral.

Materula diz que o desaparecimento físico de Chico António choca a sociedade, uma vez que ainda se acreditava que o autor do tema “Baila Maria”, tinha muito por contribuir, com a sua arte, para o enriquecimento da cultura de Moçambique.

Chico António morreu este sábado, no Hospital Central de Maputo, aos 66 anos de idade, vítima de doença.

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