O País – A verdade como notícia

A propósito das celebrações dos 10 anos da MUSIARTE e da XXIII Semana da Língua Italiana no Mundo, as Embaixadas da Itália e da Suíça e o Conservatório Agostino Steffani – Castelfranco, Veneto, apresentarão dois concertos, no dia 02 e 03 de Novembro, pelas 19h00, na Sé Catedral de Maputo.
No primeiro dia, o evento terá como tema: “Música e sustentabilidade”, no qual vai participar uma nova geração de jovens músicos frutos da MUSIARTE, professores e convidados especiais.

Segundo uma nota de imprensa sobre o evento, serão apresentados compositores como Ludwig Beethoven, Niccolò Paganini, Pyotr Tchaikovsky, Sergei Rachmaninoff, Robert Schumann, Pablo Sarasate, Frédéric Chopin, Jules Massenet, Damiano Lazzaron, Gioachino Rossini, Negros Spiritual, Friedrich Kuhlau, Muzio Clementi e Canções Tradicionais Africana.

No segundo dia, será apresentado a obra integral de Gioachino Rossini; “La petite Messe Solennelle”, que será interpretada por Stella Mendonça, soprano; Sónia Mocumbi, alto, Timóteo Júnior, Tenor, Otto Maidi, baixo, e o Ensemble VOCALIS, (Coro residente da MUSIARTE), Geoffrey Gallagher, piano, Jéssica Urte, órgão sob a direcçao de Daminano Lazzaron.

 

No início do mês, Cláudia Lucas Chéu aterrou em Maputo para uma residência literária. Entre a expectativa e a perspectiva, logo nos primeiros dias, a escritora portuguesa começou a captar os cheiros, as imagens e os movimentos de uma cidade, até há semanas, quase desconhecida.
Esta é a sua primeira vez no continente africano, e, mesmo tão longe de casa, a poeta, escritora, dramaturga e argumentista, redescobre na capital moçambicana uma forma de escrever e de pensar o texto.
Nesta entrevista, Cláudia Lucas Chéu fala-nos, portanto, das razões que a fizeram concorrer à residência literária em Maputo, dos seus processos criativos e de pelo menos um futuro livro que se está a compor, aqui… onde o Índico é uma janela para o mundo.

 

Cláudia, como é esta coisa de vir a uma residência literária, em Moçambique?
Está a ser verdadeiramente surpreendente. É a primeira vez que venho a África, e a imagem que eu tinha antes é dos livros e dos filmes. Estou cá há mais ou menos 15 dias e noto que tudo é muito diferente da realidade da qual eu vivo em Lisboa, há muitos anos. Portanto, estou a tentar absorver o máximo possível, que é para, depois, escrever sobre isso. Eu tenho um tema definido, mas, desde que cheguei, decidi que não vou escrever sobre o tema que defini. Quero e estou constantemente a ser surpreendida por tantas coisas. Será muito mais rico o material que eu produzir, estando a absorver, aqui e agora, nestes dias.

Neste contexto de residência literária, pouco importa levar à escrita coisas de outros contextos, certo?
Exactamente! Sobre as residências, algumas coisas que eu pesquisei, muito interessantes e muito peculiares, são os manicures nas ruas. Esse era o tema principal para vir cá escrever. Entretanto, já vi tantas outras coisas interessantes nas ruas, que eu pensei: não vou fechar a baliza só à questão dos manicures.

Vai deixar o projecto de lado ou vai complementar?
Acho que vou complementar. Vou manter esse tema [dos manicures], mas eu tenho estado a escrever uma coisa que não planeei, um diário, que não escrevia desde os 15 anos.

E está a escrever um Diário de Maputo, não é?
Estou a escrever um Diário de Maputo, precisamente. Só o simples facto de estar a escrever à mão, o que não acontece há muitos anos (eu escrevo tudo no computador), parece que também estou a escrever com outro tempo. E o facto de estar numa residência literária, ter saído da minha casa, deixar a minha família, estar aqui sozinha, constitui uma experiência. Não só pelas diferenças em termos sociais e culturais, mas pelo próprio espaço em que estou sozinha para escrever e aqui criar uma outra possibilidade.

Por que se candidatou a esta residência que iniciou no dia 1 de Outubro e termina no final do mês?
Eu já tinha visto informação sobre esta residência há muitos anos. Todos os anos, eu via o concurso e pensava que iria concorrer. Só que tenho uma filha, que, agora, tem 11 anos. Durante bastante tempo, eu achei que não era uma boa ideia ficar um mês inteiro fora, longe da minha filha. Lá está, as tais responsabilidades e acessibilidade maternal. Agora, ela está no sexto ano de escolaridade e pensei que, se calhar, já era possível estar numa residência literária. Ou seja, eu só demorei a concorrer por causa da minha filha.

Sente que veio numa altura certa?
Sim, sinto que estou no timming certo, com esta agitação nas ruas, até por questões políticas. Parece que se juntou uma série de elementos certos para eu estar cá agora.

Como é que reagiu quando soube que o júri seleccionara o seu projecto?
Fiquei muito contente. Depois, comecei a planear e a pesquisar imenso. Conhecia muito pouco do país e da cultura. Mas também não quis criar demasiada expectativa digital porque queria ser surpreendida. Além disso, foi a parte logística, para perceber como viria e como faria com os trabalhos que deixaria um mês em Lisboa.

Há coisas de uma cidade que só se captam quando se caminha a pé. Sei que está a caminhar muito…
Eu ando muito a pé em todas as cidades. Acho que só se consegue perceber a pulsação da cidade, os cheiros e uma data de coisas quando andamos a pé.

Está a ter a oportunidade de conhecer/reencontrar autores moçambicanos nesta residência. No outro dia, foram Mélio Tinga e Mia Couto. O que significa para si este tipo de intercâmbio e o que espera que isso acrescente ao seu processo criativo ou à forma como pensa o espaço comum da língua portuguesa?
É muito interessante esta troca. Conheci o Mia Couto no outro dia, uma figura que admiro bastante. O facto de estar numa sala com ele, em Moçambique (não teria sido a mesma coisa se tivesse sido em Lisboa), é outra coisa. Acho que é algo do nível inefável, que não dá bem para explicar ainda. Acho que estou a ter umas experiências que ainda não consigo explicar muito bem o que estou a receber. Tenho a ideia que isso pode reflectir não só neste livro que vou escrever depois de ter estado aqui, mas também noutros textos que irei produzir mais tarde. Há coisas que ficam na nossa cabeça e que, em determinado momento da escrita, se podem revelar.

Há espaços que considera importantes e que eventualmente estão mencionados no seu projecto de residência literária em Maputo?
Um dos sítios que queria muito conhecer e que já lá estive é o Bairro da Mafalala, porque já tinha ouvido falar da mistura étnica, cultural e religiosa. Há muita mistura que me interessava ver. Uma série de figuras incontornáveis da cultura moçambicana viveu na Mafalala. Eusébio, Noémia de Sousa e tanta gente passou por ali. Eu queria ter essa experiência e sabia que lá havia muitos manicures, que vi numas casinhas pequeninas, a trabalhar. Aquilo que eu acho interessante é que, apesar da distância geográfica, a sensação que tive, quando estive no Bairro da Mafalala, é que é muito diferente da minha realidade, mas há ali um lado de pobreza extrema que eu conheço das histórias da minha família.

O que espera deixar e levar de Maputo quando a residência literária terminar?
Sinceramente, eu não sei. Não tenho uma resposta definitiva sobre isso. Estou completamente disponível, tanto ao nível da produção literária, como ao nível pessoal. O que acontecer será bem-vindo. Eu quero estar disponível para esse momento presente. Não quero já estar a processar informação que vou levar para casa.

Quer deixar-se surpreender pela sua própria criatividade?
Exactamente. Quando comecei a escrever à mão, agora, pensei que é bom estar num sítio em que estou a ter tempo de explorar o material que é novo, mas também a forma de escrever que pode ser diferente. Isso, para mim, está a ser estimulante.

Acredita, portanto, que irá voltar a Portugal com um projecto de livro diferente do que já publicou até aqui?
Tenho quase a certeza que sim. Até pela questão do tema. Tenho estado a escrever sobre temas que não escrevo habitualmente. Nos meus últimos livros, tenho questões feministas, identidades de género e identidade da mulher. E eu aqui não tenho escrito nada sobre esses temas.

ENTRE A CONFISSÃO E A MULHER SAPIENS

A propósito dos seus livros, o primeiro que li é Confissão, um exercício poético que revela a sua capacidade de escrever sobre famílias humildes e sobre situações difíceis. Acho que há uma espécie de revisitação da condição humana no que escreve. Por exemplo, neste livro, temos um sujeito que vai exprimindo os seus sentimentos, mas a partir de um contexto apertado da residência onde vive. Logo no princípio da leitura, notamos que não se trata de um apartamento num bairro nobre, antes pelo contrário. Aqui temos condições difíceis. É o seu passado familiar, no caso ligado às dificuldades por que passaram os seus avós, que a fez escrever desta maneira?
Para já, agradeço-te pela análise que acabaste de fazer. Esse comentário é quase uma análise do livro e, se queres que diga, das melhores que já ouvi. É muito interessante esse comentário. Sim, eu acho que há essa relação directa neste livro [Confissão], que é assumidamente autobiográfico e que vem na sequência de muitos outros livros que escrevi. Acho que esse podia ter sido o primeiro livro. A questão desse contexto apertado deu-me uma capacidade, desde muito cedo, de observar o contexto familiar que era mau, delicado, frágil, mas que, em criança, me permitiu ser uma cuidadora. Eu fui uma cuidadora e isso me permitiu ter um olhar exterior. Esse espaço de observação, que ganhei sem querer, na infância, porque tinha de estar atenta, reflecte-se, depois, em tudo o que eu tenho escrito. Acho que é uma característica fundamental de qualquer escritor, esse lado de observação. É triste para os autores porque não podem, no momento, estar a viver aquilo, porque estamos sempre de fora a analisar para, depois, escrever. Mas acho que essa característica, que está no livro, é minha, como pessoa e como autora.

Enquanto lemos Confissão, vamos notando uma espécie de inventário de imóveis e de sentimentos que nos conduzem a um contexto que parece amargurado.
Mas eu não senti que seja um ambiente amargurado. Pelo menos também não tem sido esse o feedback sobre o livro. Não é amargurado, não é angustiado. Eu acho que há aí um olhar lúcido sobre o que estava a acontecer. Pelo menos foi isso que eu tentei escrever.

Se calhar, a amargura passa para o leitor como consequência de alguma coisa com a qual se identifica.
Talvez seja. Mas essa é a questão da leitura. Metade de quem escreveu e metade de quem leu. Esse encontro é que é interessante. É muito engraçado isso que acabas de dizer. Uma vez, o Gonçalo M. Tavares disse-me que o livro era muito pesado, que passou mal quando estava a ler. Mas eu disse-lhe que o livro era aquilo que eu escrevi, mas a bagagem que ele traz para ler. Isso é engraçado porque algumas pessoas falam de uma espécie de catarse, porque o livro mexe com elas e expurga um bocado a sua própria angústia. Mas eu não senti nenhuma angústia quando escrevi o livro, porque isso é uma fotografia muito ficcionada. Vou fazer 46 anos e o sujeito do livro, supostamente eu, tem por aí 8 ou 9 anos. Entre as duas idades, vai uma camada muito grande. Portanto, já houve um processamento da memória.

Teve de fazer um exercício para a sua infância?
Não tive. Foi tudo muito fluido. Eu escrevi esse livro muito rápido porque tinha imagens muito claras, quando comecei a escrever. Portanto, gosto da escrita como um exercício de linguagem, de descoberta e de exploração. Às vezes, passamos por uma curva mais apertada ou por uma descida mais profunda, mas, para mim, a escrita não serve como terapia.

Confirma que é uma autora preocupada com a densidade do texto?
Sim, a densidade interessa-me. Para mim, a escrita só funciona com essa possibilidade de submersão em que não sabemos muito bem para onde é que nos vai levar. Eu sempre tenho confiança que me vai levar para um sítio escuro, mas que estou a iluminar naquele momento, com a escrita.

E vê-se como leitora dos seus livros?
Não, não quero nada ler os meus livros. O primeiro livro de teatro que publiquei, por aí em 2011, passado uns dois ou três anos, eu voltei a ler, que era para perceber… E conclui que eu não quero reler os meus livros, porque depois já gosto ou penso que poderia ter feito melhor, diferente. Seria estranho olhar para um texto que tem uns anos e achar que está bom. Eu já não sou a mesma pessoa que há 10 anos. Passaram-se tantas coisas, vi e vivi tantas coisas. Se eu estivesse a escrever igual, alguma coisa estava errada. Estaria a usar uma fórmula, seria um truque. Eu prefiro não ler.

O crítico francês, Gerard Genette, considera que a noite é muito mais fértil para os poetas do que a luz do dia. A Cláudia tem sempre esta necessidade de segurar numa lanterna para iluminar a escuridão. Sente que é uma autora da noite?
Em termos práticos e até ao nível de execução. É muito engraçado, eu sou uma autora da noite nos temas. Sem dúvidas. O tema da noite é aquilo que ocupa a minha obra. Mas, na prática, isso também mudou quando fui mãe. Antes de ser mãe, eu escrevia à noite e até pela noite dentro. Mas, desde que a minha filha nasceu, há 11 anos, os meus horários mudaram, porque é necessário outra logística. Portanto, comecei a escrever de manhã e a escrever à tarde também. E descobri um outro texto também por causa disso. O nosso cérebro é diferente de manhã ou à tarde ou à noite. Eu escrevo em vários registos literários: poesia, crónicas, dramaturgia, para televisão e várias outras coisas diferentes. Sei qual é o timming certo para cada coisa. Se calhar, daqui a alguns anos, a coisa muda. Mas, neste momento da minha vida, sei que, para escrever para televisão, tem que ser de manhã, que é quando o cérebro está mais rápido e tudo está mais claro na cabeça. Poesia? Eu acho que nunca escrevi um poema de manhã. Há um estado de espírito, uma melancolia, um silêncio que a manhã não me permite de todo. É quase tudo à noite. A prosa narrativa é no período da manhã e da tarde também. A noite eu tenho mesmo usado para a poesia.

Escrevendo todos os dias?
Todos os dias. Nem que seja um parágrafo. Eu encaro a escrita como uma actividade muito próxima do atletismo. Se eu quero correr uma maratona, tenho de correr todos os dias: um quilómetro ou dois quilómetros, senão não vou chegar a lado nenhum.

Ungulani ba ka Khosa, muitas vezes, diz que a escrita literária não se trata de uma corrida de sprint, mas de resistência.
De resistência, sem dúvida. Acho que todos os autores sentem uma progressão na escrita, precisamente, pela prática. Embora haja alguns autores que contrariam isto e só escrevem quando estão mais iluminados, no sentido de se sentirem inspirados. Eu digo aquilo que o Picasso dizia. A inspiração, para aparecer, tem de te encontrar a trabalhar. A frase não é exactamente assim, mas temos de estar sempre a trabalhar. De tal modo que nem sempre notamos a inspiração. Claro, há dias que não são tão fáceis. Há dias que dão uma página e há dias que dão 10 páginas. Quando escrevo para televisão, não há hipótese nenhuma de não estar iluminada. Tenho de escrever. Muitas vezes, depois fica aquém do que seria se tivéssemos mais tempo com outra possibilidade de escrever.

A fluição é mais na escrita literária do que na televisiva?
Acho que tem de fluir mais na escrita para televisão, porque há questões económicas que se levantam, há um prazo. Eu também escrevo para o teatro porque tenho uma companhia de teatro, em Lisboa. Nesse caso, sou sempre eu quem define os prazos. Tenho tempo para pensar no que vou escrever e reescrever durante os ensaios. Quando é um projecto em que sou convidada, por exemplo, para escrever uma telenovela, como já aconteceu, uma série de televisão, o que acontece é que aquilo tem um prazo que eu não defini. Eu tenho de estar ao ritmo e, às vezes, é muito difícil, porque nem sempre há uma boa ideia, o texto não está a correr bem. Mas há uma pressão enorme porque o texto tem de ficar feito. Então, há sempre uma frustração na escrita de televisão porque aquilo nunca ficará como poderia ficar…

Gosto muito do título O prazer do texto, de Roland Barthes. Há casos em que escreve e não sente esse prazer do texto?
Já me aconteceu imensas vezes, mas nunca num projecto literário. Nos projectos televisivos, isso já me aconteceu imensas vezes. O texto tem de ser fechado, o texto está comprado e, portanto, tenho de fazer esse trabalho. Mas não estou satisfeita com o produto final, embora, muitas vezes, as pessoas estejam satisfeitas com o produto.

É autora de Beber pela garrafa. Este livro possui uma afinidade temática com Confissão. Por exemplo, a família. É também nesse registo temático que gosta de trabalhar?
O tema da família é o que tenho explorado muito. Gosto desse tema e acho que a família é a coisa mais complicada que nós inventamos. É o primeiro modelo social e, depois, todos os outros foram reprodução desse modelo. Mas as ligações existentes em modelos familiares são laços muito complexos. Do ponto de vista da literatura, é muito interessante explorar e é um tema inesgotável. Há aí todo um leque que, depois, pode traduzir em questões económicas e sociais. A família, para mim, é a essência de tudo o resto.

A que se deve a oscilação entre textos mais densos e estrofes mais curtas, neste livro?
Aqui temos poemas à dose e acho que os últimos poemas que escrevo são cada vez mais curtos. Provavelmente, é a minha capacidade de síntese, com a idade. Estou a ficar mais sintética.

Entrega-se tanto ao poema que, quando está a terminar, tem de ficar mesmo assim…
Fica mesmo assim. Porque muitos desses poemas, tal como acontece nos meus outros livros, a forma já aparece exactamente como vou escrever. Há uma imagem e um verso. Portanto, o poema já vem um pouco fechado. Ao acordar, por exemplo, há uma imagem que tenho de registar. Depois, tentamos fazer com as palavras aquilo que queremos.

Podemos dizer que, no seu caso, a imagem é anterior ao verbo?
É anterior ao verbo, sem dúvida. Essa pergunta é muito interessante! Sei que nem todos os autores funcionam da mesma forma. Quando estou a escrever prosa narrativa, sinto que tenho um espaço, como se estivesse a entrar num quarto ou numa sala. Esse espaço mental é que me permite escrever o texto. Cada livro corresponde a um espaço onde eu escrevi, um espaço mental.

A literatura pode servir para chorar uma ausência?
Para chorar, não. Para pensar, digerir uma data de coisas que, se calhar, fomos obrigados a engolir. Acho que a literatura pode ajudar a fazer essa digestão. Não é obrigatório que o faça, mas pode ajudar.

No poema “As ideias são contagiososas”, neste Beber pela garrafa, temos os seguintes versos: “Nunca subestimar o mal que se propaga/ face ao bem que raramente contamina”. O bem está cada vez mais distante?
Essa é a minha própria ideia, que é um pouco pessimista sobre a questão da bondade e do bem entre os homens. Acho que o ser humano tem uma capacidade muito reduzida de ser bondoso naturalmente. O nosso instinto basilar não é o bem. O bem, eu acho, é uma coisa que temos de treinar, exercitar. Rapidamente fazemos coisas más, fazemos coisas más uns com os outros, somos invejosos. Há muitas coisas que eu acho que, naturalmente, o ser humano não tem. Esse poema está relacionado com isso, com a minha própria visão de nós não sermos naturalmente bons. Acho que nenhum de nós é naturalmente bom. Quando aparece alguém que é muito bondoso, ficamos surpreendidos e perguntamo-nos se não há nele algum interesse. Portanto, se nós fôssemos naturalmente bons, não estranhávamos. E quando aparece alguém que é mau, é uma coisa normalíssima. Não sentimos nenhuma estranheza com isso.

Pus-me a sorrir quando tive este seu livro, A mulher sapiens. É uma provocação?
É uma provocação, claro. Inclusive já tive críticas a esse livro, por causa do título. Obviamente que o Homem sapiens é o homem e a mulher. Esse título é uma provocação, e eu continuo a escrever muito sobre os temas da mulher no contexto no qual eu vivo. Este livro é uma reunião dos vários textos que escrevi para o jornal Público. Em Janeiro, sai um novo livro que também é uma compilação dos textos que escrevi nos últimos dois, três anos.

A primeira frase, quando se trata de narrativa, é determinante para si?
A primeira frase, para mim, é o trampolim para, depois, começar a escrever o texto. Às vezes, desisto depois de escrever quatro linhas porque a primeira frase não é esse catalisador suficiente para, depois, escrever o texto inteiro.

E o que significa a última palavra de um texto?
Essa pergunta é muito complicada. Pode significar várias coisas. Pode significar que já não tenho mais nada a dizer sobre aquele assunto; pode significar que eu queria dizer mais, mas não sei ou não consigo ou pode significar que, de facto, eu quero encerrar aquele assunto. É uma pergunta muito interessante! Nunca tinha pensado sobre isso.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?
Sugiro Um cão no meio do caminho, de Isabel Figueiredo, e Niketche, de Paulina Chiziane.

Perfil
Cláudia Lucas Chéu é escritora, poeta, dramaturga, argumentista e professora portuguesa na Universidade de Évora e na Escola Superior de Comunicação Social. Tem publicados textos para teatro: Glória ou como Penélope morreu de tédio (2011) e Violência — fetiche do homem bom (2013), nas edições Bicho-do-Mato/Teatro Nacional D. Maria II; A cabeça muda (2014), na Cama de Gato edições; e Veneno (2015, Colecção Curtas da Nova Dramaturgia – Memória), edições Guilhotina.
Em prosa poética, publicou o livro Nojo (2014), na (não) edições. Em poesia, publicou Trespasse (2014), Edições Guilhotina e Pornographia (2016), Editora Labirinto. Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia), pela Selo Demónio Negro, em São Paulo (Brasil). Publicou, em 2018, o seu primeiro romance Aqueles que vão morrer, Editora Labirinto, e Beber pela garrafa (poesia), pela Companhia das Ilhas.
Também é autora de A mulher-bala e outros contos, Editora Labirinto, 2019; Confissão (poesia), Companhia das Ilhas, 2020; A mulher sapiens (contos e ensaios), Jornal Público e Companhia das Ilhas, 2021; A vida mentirosa das crianças, Nova Mymosa, 2021; Ode triumphal à cona (poesia), Companhia das Ilhas, 2022; e Orlando — tratado sobre a dignidade humana (dramaturgia), Teatro Nacional D. Maria II, 2022.
Acaba de ser editado, em 2023, o ensaio A angústia da rapariga antes da faca, Nova Mymosa. O livro Confissão encontra-se publicado no Brasil (editora Reformatório) e foi semifinalista do Prémio Oceanos, em 2021.
Vencedora da residência literária em Maputo, 2023, em televisão escreveu em equipa várias telenovelas e séries para a RTP1 e SIC. Fez parte da equipa de argumentista que ganhou um Emmy Award com a telenovela Laços de sangue.

Por: Orlando Muchongo

 

A produção literária não serve apenas para o desenvolvimento artístico dos moçambicanos. Quase toda a literatura produzida, ao nível nacional, alberga valores históricos e culturais. Exemplo disso é o texto “A porta”, de Mia Couto, publicado no livro O país do queixa andar (2003). Trata-se de uma crónica que retrata “uma porta que, em Moçambique, se abria para Moçambique”.

Junto da porta havia um porteiro. Neste cenário, vários cidadãos moçambicanos aparecem solicitando passagem, mas a personagem do porteiro, instigada por vozes não identificadas, recusa o pedido de todos, com a excepção do indivíduo de origem estrangeira, que chega “mandando em inglês” e, de seguida, compra a porta, o porteiro e mete a chave no bolso.

Como se pode reparar, o universo narrativo de Mia é repleto de registos temáticos que definem a estética do autor. Por conseguinte, na sua crónica identificamos vários aspectos sobre os quais podemos reflectir. Tomemos como ponto de partida o título do texto: “A porta”.

Num primeiro momento, parece que estamos diante de uma passagem que dá acesso a algum lugar, como ilustra a seguinte passagem: “(…) abria de Moçambique para Moçambique”. No entanto, num olhar mais aprofundado, pode-se perceber que “A porta”, mais do que uma entrada, é uma metonímia que representa um todo: sectores públicos e privados do país, onde encontramos cidadãos moçambicanos empregados, que, por várias razões, dificultam ou, por outra, recusam o acesso aos seus próprios concidadãos. No texto, essa actuação é sustentada por passagens como esta: “– Esse aí é do Sul, estamos cansados destas preferências”.

A análise à crónica “A porta” expõe-nos a actualidade moçambicana, o que nos leva a acreditar que Mia Couto faz parte do universo dos escritores moçambicanos que podemos considerar “Cidadãos deste presente”.

“A porta” é um texto publicado há 20 anos, porém os fenómenos que a crónica retrata repetem-se, até de forma mais intensa, nos dias actuais.

Nota-se na narrativa que Mia Couto é uma espécie de veículo literário, transportando valores por meio de um texto que define um contexto, como se pode verificar em autores como José Craveirinha, no poema “Ninguém”, de Karingana ua Karingana.

Na parte final da crónica de Mia Couto, há um assunto que vale a pena apresentar, a questão de uma mentalidade etnocentrista, tribalista, egoísta, gananciosa e, se quisermos, de carácter impositivo, que no texto é expresso pela personagem do porteiro e das vozes não identificadas.

No texto há vários sujeitos moçambicanos que, de diversas formas, solicitam a passagem pela porta, mas, a raça, a proveniência, a cultura, a língua, entre outros aspectos, impedem-lhes a passagem.

Considerando a riqueza textual de Mia Couto, julgamos oportuno ler “A porta”, para sabermos dialogar com a realidade moçambicana numa intercepção entre o passado e o presente. Só assim poderemos, como povo, olhar além da porta

 

*Texto escrito como actividade da oficina A escrita e a crítica literária e jornalística, orientada pelo ensaísta e jornalista José dos Remédios, no Centro de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Universidade Eduardo Mondlane.

Por: Raquel Miambo
(Graduada em Literatura Moçambicana pela UEM)
O presente texto tem como objectivo reflectir e analisar as diferentes dimensões do campo ideológico que se constrói no romance Sina de Aruanda, da escritora Virgília Ferrão.
A compreensão do que seja o campo ideológico passa, necessariamente, da definição de ideologia. Segundo Eagleton (1997), podemos conceber a ideologia sob seis perspectivas, a saber: (1) processo material de produção de ideias, crenças e valores na vida social; (2) ideias e crenças que simbolizam as condições e experiência de vida de um grupo ou classe específica, socialmente significativo; (3) promoção e legitimação de interesse de grupos sociais opostos; (4) actividades de um poder social dominante; (5) ideias e crenças que ajudam na legitimação dos interesses de um grupo dominante; (6) crenças falsas ou ilusórias.
Adoptámos a primeira e a segunda definições que se referem à ideologia como um processo de produção material de ideias, bem como um conjunto de ideias e crenças de um grupo significativo. Ao que se depreende, essas definições aproximam a ideologia da ideia de construção de certa visão de mundo – vista por Japiassu & Marcondes (1996) como uma concepção global, de carácter intuitivo e pré-teórico, que um indivíduo ou uma comunidade formam de sua época, de seu mundo e vida em geral –, pois pretendemos identificar na obra eme estudo elementos que concorrem para a construção ideológica, com atenção ao discurso. Ora, como assegura Reis (1978:409), o código ideológico, em estudos literários, compreende o conjunto de ideias e valores, ligados a uma organização, e que tem, por fim, facultar as relações semânticas, integrando-se na dinâmica da comunicação literária.
Identificámos, na obra Sina de Aruanda, elementos narrativos que concorrem para a produção de ideias, crenças e valores (1) relativos ao ambientalismo através da representação da relação que o Homem estabelece com o meio ambiente; (2) relativos ao Espiritismo, quando evoca a evolução do espírito, através da reencarnação que é a transcendência do espírito para um outro tempo histórico e a relação entre espírito e matéria; (3) relativos ao saudosismo, ao recuperar um dado do passado da História de Moçambique e conferir um espaço privilegiado na produção literária.
(i) Ideologia Espírita: Kardec, citado por Carraca (2000:12), define espiritismo como estudo da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal. Neste contexto, designam-se espíritas os adeptos do Espiritismo, que conhecem os seus princípios ou dogmas.
Podemos identificar intenções ideológicas do Espiritismo a partir do monólogo de alguns narradores-personagens, tal o caso de D. Fernando Costa que pensa: “(…) Não consegui salvar o meu amigo e, portanto, esta é a única coisa que posso fazer para tranquilizar o seu espírito, perdido por estas terras (Ferrão, 2021: 32).
A crença na necessidade de se criarem condições para garantir a tranquilidade do espírito após a morte concorre para o que observamos como visão espírita. Há uma manifestação, não só de fé, mas também de busca pela prática de algumas acções compatíveis com essa crença.
Sou cristão, estou limitado por essa crença, mas juro que, às vezes, de noite, quando olho para as estrelas, tenho a impressão de ouvir vozes. Pode apenas ser mau tempo, o canto do vento, ou a minha imaginação, mas, ocasionalmente, penso que, sinceramente, são vozes dos espíritos desse povo cruzando os céus em busca de liberdade (Ferrão, 2021:93).
No monólogo deste narrador-personagem, D. Fernando Costa, nota-se um choque entre crenças, por um lado da doutrina cristã e, por outro, da tradição africana. Acreditar na existência de espíritos que vagueiam autónomos pelo espaço e que estes respeitam um processo ou ciclo a fim de encontrar a paz, vai ao encontro dos ideais espíritas. Esta passagem evoca a crença na existência de uma vida pós-morte, crença que atravessa diversos momentos da história.
Observámos vantagens em relação à personagem que serve de âncora e consciência dos demais, uma vez que é a ela que se confia a função de reconhecer a reencarnação: “˗ Coincidência o tanas! Não vês? É óbvio! Ela é reencarnação da dona do prazo! E queria tirar-me do jogo, impedir-me de chegar aqui” (Ferrão, 2021:178).
Angelina é uma personagem com características especiais, não só por ser reencarnação de um homem, mas porque possui dons de clarividência. É através dela que se revela a vida passada dos demais, por meios de visões, sinais e digressões orientadas por terapias:
Num minuto estava ali animada, a conversar com Daniel de Barros, e no minuto a seguir… Estava a vislumbrar, através de ampla janela, um luar prateado, uma noite perfeita e um vasto mar. Sentia que tinha a terra, o tempo e os sonhos a meu favor (Ferrão, 2021: 79). (destaque nosso)
Neste excerto, Angelina visualiza-se na vida passada numa espécie de alucinação. Diante de um evento do século XXI, ela revive lembranças da sua anterior encarnação. O espaço Aruanda é propício para a evolução do espírito, é onde os espíritos, após a morte do corpo, avançam para a prova de uma nova existência, uma vez não tendo alcançado a perfeição em vida. Pedro Lucas, à beira da morte, consegue visualizar a sua outra vida, que resultará da reencarnação:
Há um lampejo dentro de mim. É tão penetrante e intrusivo que a princípio não me permite enxergar. Mas depois compreendo. Não é a minha casa, não é Aruanda, não é coisa alguma nem pedaço de nada. É apenas o tempo suspenso, numa partícula de espaço para curar almas (Ferrão, 2021: 222).
A escassos minutos da morte, ele consegue visualizar-se num outro espaço onde se movimenta, mas também num outro espaço-corpo onde o espírito vai intelectualizar a matéria. É a partir de Aruanda que isso acontece, e não só em relação a Pedro Lucas que consegue visualizar-se séculos mais tarde no corpo de Daniel de Barros, como também às restantes personagens. Ora, através dessa prolepse, podemos observar o estado anterior do espírito comparado ao actual, numa espécie de memória do futuro: “Daqui a milhões de anos, quem sabe. Espero o dia em que a alma seja sábia o suficiente para não temer a solidão, nem os fracassos. Quando o mundo sentir mais sinais de liberdade e o ser humano compreender que nunca estará só” (Ferrão, 2021:222).
Num outro contexto discursivo, Daniel de Barros acrescenta: “(…) tenho estado vivo porque a minha alma apreendeu a ser sábia o suficiente para não temer a solidão, nem fracassos. Hoje sei que nunca estarei só” (Ferrão, 2021:239).
É através da anacronia que se explicita essa visão espírita, é onde verificamos o estado anterior do espírito comparado ao actual, e vice e versa. Mas também o relembrar o passado nos conduz à valorização do meio ambiente.
(ii) Ideologia pró-ambientalista: De acordo com Rocha (2001:08), ambientalismo é uma corrente de pensamentos e movimentos sociais em defesa do meio ambiente, que busca a implementação de medidas com foco na protecção ambiental, impondo mudanças no estilo de vida. A relação sociedade-natureza é complexa ao sermos ao mesmo tempo sua dependente e sua consumidora. Ainda assim, desde os finais do século XX até à actualidade, temos um crescente duelo de forças que nos obriga a posicionarmo-nos em relação à possibilidade de extinção das espécies sobre o planeta. É possível notar esta preocupação no romance: “˗ (…) Com os recursos a esgotarem-se na terra, há quem ande a vender parcelas de terreno, em Marte e em outros planetas por descobrir” (Ferrão, 2021: 39).
Um discurso de apelo que leva o interlocutor a tomar uma decisão em relação ao estado actual do nosso planeta. Neste contexto, Daniel de Barros leva-nos a pensar em acções que visam amenizar o impacto da acção humana sobre a Terra, ou seja, é um discurso atravessado pela causa ambiental:
“ – Portanto, ou cuidamos deste planeta, que é, por enquanto, a nossa única casa natal, ou começamos imediatamente a fazer uma grande poupança para poder arrendar espaço, em Marte e afins” (Ferrão, 2021: 39). (destaque nosso)
É um discurso retórico, usando estratégia antitética para convencer o auditório a aderir à sua posição ambientalista, pois, ou tomam conta do meio ambiente ou, caso contrário, será preciso ter condições de ir a Marte, o que seria dispendioso.
Diante de um discurso desta índole, reflectimos sobre o espaço “Terra” e tudo o que este pode significar enquanto espaço colectivo e também individual onde, dia após dia, cada um de nós se desenvolve e se transforma física e psicologicamente. Trata-se de consciencializar o ser humano sobre acções mais acertadas em relação ao planeta.
Uma outra referência que é aqui assinalada remetendo-nos a um discurso ambientalista dá-se nos seguintes termos: “- Não fica bem deitar lixo na praia… para além de estarmos a poluir, a degradar a costa, estamos a dar muito trabalho às pessoas que depois têm de limpar” (Ferrão, 2021: 85).
Espaços sociais como a praia merecem atenção de todos. Estamos diante de um discurso de censura de acções contra a degradação do meio ambiente e apela a práticas de sua conservação: “˗ É lixo que se deve enfiar na sacola, não a vergonha, senhores (…) não custa nada apanhar e deitar esse lixo num local mais apropriado. É um favor que fazem a vocês mesmos, e o planeta agradece” (Ferrão, 2021: 85).
Não só no que respeita à praia, mas também à ilha, que é um espaço importante na obra, se manifestam ideais ambientalistas: “- (…) Aquilo já está em ruínas, a missão foi esquecida e deixada em estado de degradação, mas há esperança de que venha a ser restaurada. Muito em breve!” (Ferrão, 2021:51).
A preocupação com este espaço remoto, a esperança na restauração da ilha, remete-nos à valorização do meio ambiente e à preocupação com a história dos seus habitantes.
(iii) Ideologia saudosista: Para Maria Rollo (2014:01), saudosismo consubstancia uma visão de mundo que tem por base a saudade, a valorização das experiências passadas, resultantes da falta ou ausência de algo, alguém ou momento, nalguns casos, com um efeito de nostalgia. No que se refere à valorização do passado e preservação da história, o Prazo de Aruanda, um espaço exclusivo de uma certa época histórica, é, na obra, localizado no século XIX: “Aruanda está muda. (…) O sossego estende-se até ao casarão dos senhores do Prazo, capitão-mor Bento Noronha e dona Luísa, sua esposa” (Ferrão, 2021: 19).
O Prazo de Aruanda remete-nos para a história de Moçambique, sobre os prazos do vale de Zambeze, que foi uma estratégia de colonização iniciada na segunda metade do século XVI. Assim, leva-nos a uma escrita que valoriza o passado, a uma expressão do saudosismo. Além disso, mais do que recuperar um fenómeno histórico, há uma tentativa de conservar as características empíricas desse fenómeno: “No nosso meio, dentro destas terras empenhadas, têm crescido chefias tradicionais mistas. Isto acontece, há quase três séculos, desde que as terras começaram a ser concedidas por El-Rei, andando sempre de filha em filha… (…)” (Ferrão, 2021: 45).
Como já nos tínhamos referido, o Prazo de Aruanda localiza-se no século XIX, e o narrador evoca o surgimento dos prazos do Vale do Zambeze, três séculos depois, mas também nos dá a conhecer uma das principais características que é a união entre os nativos das terras e os estrangeiros, portugueses e indianos. Veja-se a fala de um outro narrador-personagem, Daniel de Barros, já no século XXI: “˗ Aruanda tem uma carga histórica bela e única! Certamente vocês estudaram sobre os Prazos da Coroa, não estudaram?” (Ferrão, 2021: 51).
Esta fala convida-nos a um momento didáctico, que apela para memória histórica, complementado com o que foi proferido de seguida:
– Os prazos eram unidades políticas, terras conquistadas pela coroa portuguesa e que eram entregues, por um período de três anos a mercadores portugueses e indianos. A sucessão era feita por via feminina; ou seja, as proprietárias eram mulheres, as chamadas “donas”. Uma das últimas resistências majestáticas deu-se em Aruanda, na altura um prazo (Ferrão, 2021: 51).
Este excerto, intencionalmente didáctico, não só recupera um dado da história, como também explica o fenómeno dos Prazos, num diálogo com a história de Moçambique. O excerto também nos remete para as formas de tratamento próprias desta época histórica, que valorizam a organização política: termos como Donas, El-Rei, A-chicunda possuem um valor na hierarquia sociopolítica dos Prazos do Vale do Zambeze.
Considerações finais
O campo ideológico que é projectado no romance compreende o Espiritismo, o saudosismo e o ambientalismo. No que diz respeito à ideologia espírita identificámos, a partir do discurso dos narradores-personagens, expressão de crenças e ideias que nos remetem para a reencarnação e crença na evolução do espírito após a morte. No que toca à ideologia ambientalista, verificámos, no discurso dos narradores-personagens, manifestação de acções e movimentos que visam consciencializar o homem sobre a necessidade de prevenção do meio ambiente. Finalmente, para a expressão do saudosismo, recupera-se uma época da história de Moçambique, através do fenómeno dos Prazos do Vale de Zambeze e da valorização da memória histórica.
Referências Bibliográficas
CARRACA, Orson Peter. (2003). Das dificuldades do Espiritismo Prático: Reformador. São Paulo. Junho de 2003. Disponível em: https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/C_autores/CARRARA_Orson_tit_Das_dificuldades_do_Espiritismo_pratico.pdf. Acesso em 03.04.2023
EAGLETON, Terry. (1997). Ideologia: Uma Introdução. Tradução de Luís Carlos Vieira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista.
FERRÃO, Virgília. (2021). Sina de Aruanda. Maputo” Fundação Fernando Leite Couto.
JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo. (1996). Dicionário Básico de Filosofia. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.
REIS, Carlos. (1978). Técnicas de Análise Textual. 2.ªed. Coimbra: Almedina.
ROCHA, Ernesto Diaz. (2001). Ambientalismo, Ecologia, Educação Ambiental e Universidade: O árduo mas possível caminho da institucionalização da interdisciplinaridade ambiental no Brasil. Rio de Janeiro: Universidade Federal Rural Rio de Janeiro (Tese de doutoramento).
 ROLLO, Maria Fernanda. (2014). Dicionário de história da I República e do Republicanismo. Lisboa: Assembleia da República-Divisão de Edições.

Por Deusa d’Africa

Edita-se “O Caçador de Pássaros” de João Baptista pela Editorial Fundza em 2022; o autor é poeta e escritor moçambicano nascido em Malawi e residente em Manica. Publicou o livro de poesia, Águas cristalinas em 2022. Venceu o concurso de conto infantil “Nó da gaveta´com o livro “As aventuras de Manuelito”.

De acordo com a Ananaz (2018), a literatura infantil dedica-se especialmente às crianças, jovens e adolescentes. Fazendo parte desta literatura as histórias fictícias infantis e juvenis, biografias, novelas, poemas, obras folclórias e culturais.

Ruz (2011) citado por Ananaz (2018), diz que os livros infantis são compostos por ilustração e texto, embora o formato varie. Sendo importantes elementos como a forma, a cor, textura e dimensão do texto. Vemos isto no livro ‘’O Caçador de Pássaros’’.

Por que um livro infantil? Porque a infância é um lugar que representa o primeiro estágio do desenvolvimento da criança. É um jardim que se guarda adentro de um homem. É o reino dos sonhos de cada humano, onde a água, a luz, o pão com queijo, ovo e leite são alimentos gratuítos e o mundo é perfeito porque o mal é apenas um personagem de classe baixa, na maioria dos casos tem sido um personagem negro, tal como retrata a Disney e algumas telenovelas, um personagem que chora quando vare o quintal da casa e quando lava a louça nas manhãs ou porque não se pode juntar à roda com outras crianças porque o vestido está roto ou porque é larápio e etc. Guardar a infância como um lugar sagrado é transformar um canhão numa causa, numa sociedade em que o som do canhão se ouve a detonar em todas as famílias e avenidas, onde homens e mulheres dedicam-se a trocar os sonhos por baldes de violência de diversificadas formas, desde a verbal à física. O desrespeito pelas leis e pelos símbolos nacionais. A cobrança ao outro do que nós próprios nunca o fizemos. Amotinamos dessa forma os canhões nas igrejas que discute-se o poder enquanto Deus é colocado em canhões. Nas instituições públicas e privadas onde os canhões detonam os sonhos de quem tem uma causa pela qual vive.

Logo a prior o autor começa de forma sábia oferecendo doses de coragem a cada leitor que é medicado por estas palavras terapéuticas na tentativa de silenciar os canhões, dizendo: “Nao se envergonhe dos seus medos, pássaros medrosos também voam. Na natureza.”

Para Nietzshe (1973; pág.54), erro de causas imaginárias – tomando como ponto de partida o sonho: a uma sensação determinada, por exemplo, à sensação produzida pela detonação de um canhão, soando ao longe, é substituída depois por uma causa. Imagino o processo criativo deste livro tendo começado pela causa imaginária em que o sonho tenha sido o ponto aludido por Nietzshe. Oates (2008), descreve Faulkner que na composição do seu romance “o som e a fúria” começou por uma inexplicável imagem através duma janela, a visão de uma rapariga dessconhecida com roupa coberta de lama a trepar uma árvore…ou Hemingway escrevendo em todas manhãs num café de Paris para mais tarde se tornar o seu primeiro romance. Nesta senda, vejo o autor imaginando que as pessoas pudessem voar, e porque o voo é a sublimação de nobreza, só as aves dispõem desse privilégio, embora os homens o façam por dentro dos seus sonhos, vejo o autor sonhando com as asas de quem vem suportando quem não as tem e um menino que ama as aves sendo arrastado pelo bico dos pássaros que usam das suas asas para fazer dele um ser voador. Começa assim a escrita deste livro que imagino ter sido do voo para a iniciação de um menino que dorme e se esquece do mundo e da escola para viver um sonho de caçar pássaros, não para aprisioná-los, mas sim para se tornar um deles e voar tal como eles o fazem. E assim o sonho torna-se uma causa.

Vejamos 4 áreas de estudo do livro:
Estudo do espaço;
Estudo de tempo;
Estudo da acção.
Exercícios de análise gramatical e estética.

Estudo do espaço:

De acordo com Ananaz (2018), existem espaços físicos, sociais, psicológicos e culturais. Espaços físicos, indicam o lugar onde acção se realiza; espaços sociais, o meio social onde os personagens se movimentam; espaços psicológicos, vivenciados pelos personagens de acordo com o seu estado do espírito; espaços culturais, referências culturais no texto.

João Baptsita Caetano Gomes, apresenta os seus personagens inseridos numa casa que representa a família, um menino sonhador que vai à escola onde sonha com pássaros. Vide o excerto da pág. 11: ‘’Voam pelas ruas da cidade. Casa na rua.”

Em “O Caçador de Pássaros’’, encontra-se a presença do ritmo temporal na isocronia estabelecida entre o Benjamim, personagem principal do conto e pinguim e os demais pássaros que estabelecem um diálogo num espaço físico onde narram as aventuras de Benjamim.

O sonho movido por um mundo inclusivo, justo e de igualdades revela-se na escrita do autor, tal como se pode ver no excerto da pág 10: ”Surgem pássaros de todas as cores. Pássaros de todas as idades.’’

Estudo do tempo

Há descrições cronológicas que ocorrem no texto, o autor se dedica a associar as acções à determinadas marcas de passagem de tempo. Vejamos na pág. 9: “o dia já amanheceu’’ e na pág 11: “orvalho da manhã, ou no sol da tarde”

Estudo da acção

A narrativa apresenta uma acção aberta em que a imaginação se tece ao longo da descrição do conto. A imaginação move os personagens e o leitor que se põe a reflectir na acção psicológica do personagem convista a antecipar os factos.

Benjamim, o menino descrito no conto de João Baptista, tem um sonho. Para viver o seu sonho abandona a sua família para viver na rua com os pássaros.

Exercícios de análise gramatical e estética:

A categoria gramatical da palavra presente no texto mostra a enumeração de substantivos, o uso de texto corrido para maior interactividade das crianças e o uso de figuras de sintaxe e de pensamento fazem do texto aqui apresentado num contributo de relevo para a nossa literatura infantil. Vide o excerto da pág 9: “nas árvores verdejantes. Nas acácias, nas mangueiras, nas laranjeiras.’’

João Baptista é um poeta que se auto-denuncia ainda que num infanto-juvenil, pelo uso de figuras de pensamento e de sintaxe:

Vide os excertos da pág. 9: “vê-se a aurora do sol. O girassol….vai à escola com sua sacola de sonhos.”

O autor apresenta as asas como realização de um sonho no conto, sustentando a ideia que a sociedade tem, quer seja na religião cristã, onde as asas simbolizam pureza e santidade. Por isso, o símbolo do espírito santo, a pomba, tem asas. Quer seja para os gregos, as asas representavam ser mensageiro de divindades ou ser divindade. Para os xamanistas as asas representam o voo da alma e para taoistas o poder de voar significa alcançar a imortalidade. É assim que se nos oferece, o sonho em o “Caçador de Pássaros”. Onde o autor busca a significação das asas representadas em pássaros sonhados por Benjamim, para mostrar-nos que o céu é todos nós e com asas ou sem asas se pode partilhar a liberdade uns com os outros como um bem comum e que deve beneficiar a todos de forma inclusiva.

É caso para dizer que mais do que viver com as riquezas do mundo há que se libertar a alma de cada canhão e viver uma causa que move-nos à luz e ao encontro de nós próprios. Um dever que é também uma necessidade individual. E por esta via o autor convida-nos a sorvermos a liberdade.

Referências Bibliográficas:

ANANAZ, Kanguimbu. “A Literatuta Infantil Angolana no Período Pós-Independência: Estudo sobre a Escritora Cremilda de Lima”. Editora das Letras. Angola. 2018, Pág 23-27.

NIETZSHE, Frederico. “O Crepúsculo dos Ídolos”. Editorial presença. Portugal. 1973. Pág. 54.

OATES, Joyce Carol. “A Fé de um Escritor. Vida, Técnica, Arte”. Casa das Letras. Portugal. 2008. Pág. 96-98 .

O Aeródromo e o Porto de Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado, foram oficialmente reabertos esta segunda-feira, depois de obras de reabilitação e ampliação das infra-estruturas que estavam parcialmente destruídas devido aos ataques terroristas. Durante a inauguração, o Presidente da República, Filipe Nyusi, mostrou-se preocupado com a situação de insegurança em Mocímboa da Praia.

As obras de reabilitação do Aeródromo de Mocímboa da Praia, uma das maiores infra-estruturas destruídas durante os ataques terroristas, custaram cerca de 15 milhões de Meticais e foram realizadas por agentes Serviços Cívicos de Moçambique, que, em dois meses, conseguiram apagar as marcas deixadas pelo conflito armado.

Depois da inauguração, Nyusi reuniu-se com a população e explicou a importância do Aeródromo para o desenvolvimento de Mocímboa da Praia e da província de Cabo Delgado.

“Todos os aviões que quiserem vir para aqui poderão chegar.  Vocês sabem. Antes, aqui se faziam voos comerciais. Vinham voos de Maputo e, sobretudo, voos regionais, quando se quisesse viajar para as ilhas”, disse o Presidente da República.
Depois do aeródromo, o Presidente da República inaugurou o Porto de Mocímboa da Praia, outra infra-estrutura que ficou durante muito tempo fora do serviço devido aos ataques terroristas.

“A reabertura das operações deste porto decorre dos investimentos de emergência realizados no total de cerca de quatro milhões de dólares americanos, libertados pelo operador portuário, e consistiu na reabilitação da rampa principal e na construção de uma nova rampa para atracação de navios.”

O Porto e o Aeródromo de Mocímboa da Praia ficaram fora do serviço em 2020, quando os supostos terroristas ocuparam a vila, por quase um ano, e desde a reposição da segurança, as duas infra-estruturas estavam a funcionar de forma improvisada.

O Presidente da Republica mostrou-se satisfeito com a reconstrução de Cabo Delgado, mas continua preocupado com a situação de insegurança em Mocímboa da Praia.

“Nós não queremos que se criem bases aqui para dar argumentos para o terrorista invadir novamente. A recuperação custou sangue de pessoas. Os jovens resistiram muito tempo, até quando houve escassez de munições. Então, nós não queremos viver de incertezas aqui.”

Ainda em Mocímboa da Praia, o Chefe de Estado alertou sobre a presença de colaboradores dos terroristas na vila.
Uma parte da população de Mocímboa da Praia continua a colaborar com os supostos terroristas, passando informações e prestando ajuda com alimentos e outros bens.

O alerta foi lançado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, durante um comício realizado na vila-sede do distrito, onde pediu reforço de segurança.

No próximo dia 1 de Dezembro, no Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo, pelas 19 horas, o Standard Bank vai realizar a quinta edição do Festival Standard Bank Acácia Jazz, que terá como figura de cartaz o pianista, compositor e produtor musical norte-americano Bob James. Trata-se do co-fundador da banda de jazz fusion Fourplay, composta pelos instrumentistas Nathan East (baixista), Larry Carlton (guitarrista) e Harvey Mason (baterista), que já actuou no Jardim Municipal da Cidade da Matola, em Maputo.

Considerado um dos artistas mais influentes do Jazz, já dividiu o palco com uma série de artistas ao longo da sua carreira, como George Benson, Eric Clapton e David Sanborn.

A carreira de Bob James estende-se por mais de cinco décadas, marcada no início pela memorável actuação no Festival de Jazz de Notre Dame, em 1962. Trata-se de um músico de estúdio por excelência bastante requisitado por tantos outros músicos.
Em homenagem à capital moçambicana, compôs a música intitulada “Maputo”, que é até hoje um sucesso internacional, interpretada por vários artistas de renome.

Lançado em 2017, como uma forma de homenagear a capital do país, também conhecida como a “Cidade das Acácias”, o festival contará com a participação do conceituado músico moçambicano Jimmy Dludlu e da cantora, compositora e arranjista Onésia Muholove, que faz parte da nova escola do jazz moçambicano. “Com este naipe de artistas, estão criadas as condições para, à semelhança das anteriores edições, brindar os citadinos de Maputo e os amantes do jazz de todo o país com um espectáculo memorável”, lê-se na nota de imprensa.

O Standard Bank pretende, com esta iniciativa, valorizar a cultura nacional e promover a cidade de Maputo, a sua beleza e tudo que tem para oferecer, bem como impulsionar o turismo.

Constituem ainda objectivos do festival, contribuir para a internacionalização da música moçambicana e promover a nova geração de artistas que têm vindo a despontar no País.

O escritor Manuel Mutimucuio irá participar, entre 22 e 26 de Novembro, em Paraty, Rio de Janeiro, no Brasil, na edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty.

Durante a sessão literária, Manuel Mutimucuio espera divulgar a edição brasileira do romance Moçambique com Z de Zarolho, que, no país, foi editado pela Editorial Fundza.

Conforme o escritor explicou, aceitou o convite de participar na Festa Literária Internacional de Paraty porque a iniciativa constitui uma plataforma internacional de enorme prestígio, mas também porque permite dialogar com o público brasileiro, que é a maior audiência na literatura em língua portuguesa.

Há alguns anos, Manuel Mutimucuio participou no Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, igualmente no Brasil. Também por isso, o escritor espera continuar a consolidar a sua presença no mercado literário brasileiro, através de feiras internacionais que são poderosas plataformas de intercâmbio.

Na Festa Literária Internacional de Paraty, Manuel Mutimucuio irá interagir com autores de diferentes proveniências Entre os autores confirmados, constam Augusto de Campos, Itamar Vieira Jr., Flora Süssekind, Luiza Romão, Joice Berth, Angélica Freitas (Brasil), Kwaeke Emezi (Nigéria, EUA), Alana Portero (Espanha), Christina Sharpe (EUA), David Jackson (EUA), Dionne Brand (Trinidad e Tobago, Canadá), Ilya Kaminsky (Ucrânia, EUA), Kelefa Sanneh (Inglaterra, EUA), Laura Wittner (Argentina), Marion Aubert (França), Mónica Ojeda (Equador), Nora Krug (Alemanha) e Sinéad Gleeson (Irlanda).

Moçambique com Z de zarolho retrata um cenário capitalista global, que “obriga” o governo moçambicano a adoptar uma medida extrema e nada consensual: instituir o inglês como idioma oficial e deixar para trás tanto as línguas bantu locais quanto a língua portuguesa. No entanto, essa mudança abrupta tem impactos na vida das personagens.

Na última sexta-feira, na Universidade Pedagógica de Maputo, Marcelo Panguana lançou o seu mais recente romance. Intitulado A hora maconde, o livro foi apresentado por Nelson Saúte.

Para o escritor e editor Nelson Saúte, pela primeira vez, um escritor preto escreve um romance de fôlego, narrando a história, do lado do exército colonial português em Moçambique, que também teve soldados pretos. Logo, A hora maconde, de Marcelo Panguana, “É, por conseguinte, a história da guerra colonial em oposição à luta de libertação nacional”.

De acordo com Nelson Saúte, a história retratada em A hora maconde, por um escritor negro, é algo inédito em Moçambique. No entanto, além disso, a solidão, a loucura e a morte são o esteio literário de A hora maconde, que consagra os anti-heróis de um tempo e de uma memória.

Referindo-se ao seu novo romance, o escritor recentemente laureado com o Prémio de Literatura José Craveirinha confirmou que se trata de um exercício de memória em relação aos contecimentos que foi protagonista durante a guerra de libertação nacional. Estando do lado do exército colonial português, Marcelo Panguana disse que teve a possibilidade de observar imensos fenómenos, que muitas vezes escapam aos moçambicanos, quando se fala da luta armada de libertação nacional.

Recuando meio século, Marcelo Panguana, portanto, recupera episódios que considera importantes para a actualidade e para a compreensão da História de Moçambique, fazendo da ficção narrativa uma possibilidade de dar sentido à realidade.

Na cerimónia de lançamento do livro A hora maconde, na Universidade Pedagógica de Maputo, houve espaço para as actuações musicais de Stewart Sukuma e de Mingas.

O romance A hora maconde, de Marcelo Panguana, foi editado pela Alcance Editores.

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