O País – A verdade como notícia

Mosquito, de João Nuno Pinto, foi distinguido pela crítica como Melhor Filme Internacional na Mostra de São Paulo, este mês. Para o cineasta português, o acto é importante para a cultura moçambicana, afinal a longa-metragem foi rodada em Nampula e Maputo, com vários actores nacionais.

 

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Brasil, Moçambique esteve muito bem representado. Actores como Josefina Massango, Ana Magaia, Mário Mabjaia, Aquirasse Nipita, Gigliola Zacara e Maria Clotilde lá foram, virtualmente, através da grande tela. E, com feito, a sua performance no Mosquito, do português João Nuno Pinto, ajudou a produção cinematográfica a ser reconhecida pela crítica Melhor Filme Internacional naquele evento brasileiro.

Na visão do realizador, a distinção de Mosquito é muito importante para a cultura moçambicana, pois, argumenta João Nuno Pinto: “em primeiro lugar, a identidade de um povo constrói-se através da sua cultura e através dos seus artistas. Se não tivermos arte e cultura, não temos identidade”. Além disso, em entrevista exclusiva a este jornal, o realizador realçou que seu filme é um exemplo do tipo de cinema que também se pode fazer aqui no país. “É importante mostrar um cinema de autor feito em Moçambique, com actores moçambicanos, que foram excepcionais nas rodagens. Até fico arrepiado, quando penso na experiência que tive trabalhando com os actores moçambicanos, que são, de facto, de uma generosidade e de um talento incrível e que merecem ter muito mais oportunidade e trabalho”.

O prémio Melhor Filme Internacional na Mostra de São Paulo é especial porque foi atribuído por uma certa intelectualidade do cinema, que vive do cinema e vive o cinema. Em São Paulo estiveram cerca de 200 filmes, e, para a crítica, Mosquito foi o melhor, o que coloca os holofotes mundiais no filme e, claro, nos actores moçambicano também.

A longa de João Nuno Pinto começou o ano abrindo o Festival Internacional de Roterdão, nos Países Baixos, para uma audiência de três mil pessoas. “Foi a primeira vez que um filme português abriu um festival desta importância. Entretanto, logo a seguir à sua estreia em sala, uma semana depois, em Portugal, os cinemas fecharam, não dando hipóteses para a careira do filme. Na verdade, esta situação universal forçou, inclusive, o cancelamento da estreia do filme em Moçambique, antes prevista para Abril deste ano. Portanto, num ano tão adverso para as artes, foi com enorme satisfação receber prémios em festivais internacionais para o realizador português, que sustenta: “quando o filme começa a ganhar prémios, isso é muito positivo porque foi feito para ser voz activa neste debate que se quer universal sobre o questionamento do que foi a colonização, a presença europeia em África e do que é a aceitação do próximo”, sem excluir uma reflexão sobre o racismo institucional. Para João Nuno Pinto, todas essas questões são universais e o filme quer fazer parte dessa discussão. E o facto de ganhar prémios chama mais atenção para que isso possa acontecer.

Partindo do questionamento de uma certa narrativa institucionalizada sobre a herança colonial, sobre questões relacionadas com o racismo, Mosquito vai lá atrás para romper hábitos. O filme é, segundo o realizador, o primeiro a falar do período 1917, em Moçambique, de uma forma que as pessoas não estão acostumadas.

Além de Moçambique e Portugal, Mosquito teve envolvimento da França e dos Estados Unidos.

 

SINOPSE

Zacarias, um jovem português de 17 anos, sonha em viver grandes aventuras. Por isso, ele se alista no Exército durante a Primeira Guerra Mundial. É enviado a Moçambique, com a missão de defender a colónia portuguesa da invasão alemã. Zacarias, porém, contrai malária e é deixado para trás quando seu pelotão segue para batalha. O rapaz não se dá por vencido e parte, sozinho, para alcançar o esquadrão. Ainda sofrendo os efeitos da enfermidade, ele passa a ter dificuldade em distinguir a realidade das alucinações que vem tendo. Em sua jornada, o garoto encontra — ou acredita encontrar — animais selvagens, desertores alemães e colonos perdidos. O roteiro de Mosquito é baseado na história real do avô de João Nuno Pinto, que foi um dos soldados mandados a Moçambique durante a guerra.

Adelino Timóteo proferiu a frase do título numa conversa (com este jornal) sobre o seu novo romance, O feiticeiro branco, hoje apresentado ao público sob a chancela da Alcance Editores.

 

Aos 14/ 15 anos de idade, Adelino Timóteo decide ser escritor. Entretanto, nessa altura, não julgava que teria tantos livros publicados. Hoje, o autor soma 19 títulos, entre romances, poesia e um conto infanto-juvenil, Na aldeia dos crocodilos, altamente recomendável no Brasil. Considerando o longo percurso trilhado até chegar aqui, 2020 é especial, afinal o escritor comemora 20 anos de carreira literária. Mas não há bolos nem coisas assim. Há livro, apresentado ao público hoje, num evento online.

Intitulado O feiticeiro branco, o novo romance de Adelino Timóteo retrata uma história sobre a memória de Gonçalo Mendes Ramirez, um fidalgo português que esteve na Zambézia, mais ou menos entre 1886 e 1890, especificamente num prazo que desenvolve actividade agrícola a grande escala. Timóteo considera essa vinda a África uma descida ao coração das selvas (num continente puro, virgem) e, simultaneamente, uma descida ao inferno, devido a tantas matanças no romance.

O feiticeiro branco é um romance histórico, e a personagem Gonçalo Mendes Ramirez é apropriada à leitura de Adelino Timóteo à obra de Eça de Queirós. Tendo percebido que o escritor português não investe em profundidade no desenrolar da história, no espaço africano, quando cá traz a personagem, Adelino Timóteo quis desenvolver o que Gonçalo Mendes Ramirez pode ter feito em África. Ao fazê-lo, escreveu um romance que coincide, em termos cronológicos, com o período de vida da protagonista Luiza da Cruz, no romance Os oitos maridos de dona Luiza Michaela da Cruz. “Achei interessante pôr estas duas personagens a encontrarem-se”.

Com o novo livro, escrito em Portugal entre 2014 e 2016, Adelino Timóteo pretendeu encerrar a trilogia sobre o Zambeze, que inclui ainda Os oitos maridos de dona Luiza Michaela da Cruz e O cemitério dos pássaros. Com efeito, O feiticeiro branco é um diálogo com Eça de Queirós, que, segundo Timóteo: “acho que Eça deve ser bem lido aqui, para se perceber como é que um intelectual português daquele tempo pensava”.

Adelino Timóteo decidiu escrever sobre a Zambézia por ser a parte mais antiga de Moçambique. “À medida que vamos para esse Moçambique, ficamos fascinados pelo universo fantástico e surrealista. Ficamos impressionados e é uma bênção entrar naquela atmosfera, com grandes donas e senhores. Escrevi a ver essas pessoas e tive desejos de ter vivido naquele tempo. A forma que encontrei de viver o tempo foi escrevendo os livros”. Ainda assim, o escritor encerrou a trilogia sobe aquele lugar mítico, pois “acho que agora tenho de encarar outros desafios. Sinto que, depois de três livros, já não tenho mais nada a dizer”.

Volvendo aos 20 anos de carreira, Adelino Timóteo lembra que foi um percurso nada pacífico. No princípio, muitas pessoas próximas disseram-lhe que escrever é um voto de pobreza, porque escrever não dá dinheiro. Não cedeu. E hoje, “não sou rico, mas vivo do que a escrita me dá. Não passo fome. Pelo contrário, sou uma pessoa feliz porque faço o que gosto”.

Adelino Timóteo contou que a disciplina foi determinante na sua carreira. “O jornalismo deu-me essa disciplina. O jornalista não tem medo de escrever e não tem rodeios sobre o que constitui a escrita, e o jornalista escreve todos os dias. Então, eu escrevi sempre sem preocupação com o que os outros escreveram ou deixaram de escrever. Sempre segui a minha disciplina”.

Agora, duas décadas depois, o que falta a Adelino Timóteo escrever? Como se tivesse resposta para tudo, o escritor rematou sem hesitar: “falta-me escrever mais uns cinco ou seis livros. Depois disso, acho que não terei mais nada. Cada vez que escrevo um livro, sinto que estou a fechar uma etapa”.

Nestes 20 anos de actividade literária, Timóteo vê um franco crescimento da literatura em Moçambique, em termos de quantidade, qualidade editorial e em termos de autores que estão aparecendo. “Acho que há algum tempo houve um pessimismo em relação à nossa literatura, que agora se confirma ser infeliz. É possível, mesmo fora de movimentos literários, termos escritores interessantes. Penso que, nos próximos 20 anos, a nossa literatura sairá do beco em que se encontra. Está ainda abafada, mas teremos uma literatura a circular mais pelo mundo, com autores moçambicanos a serem mais divulgados. Pouco a pouco, os elementos do romance em voga ao nível internacional vão esgotando, e penso que há uma grande fonte em Moçambique, que ainda não foi explorada. Temos muito material desconhecido. O Brasil já percebeu isso e está a fazer um grande trabalho de divulgação da nossa literatura. Prevejo um boom da nossa literatura em Portugal e no Brasil”.

Por fim, Adelino Timóteo disse que os autores nacionais não devem se limitar nas marcas simbólicas moçambicanas, mas pensar na literatura como um património do mundo. “A nossa literatura tem de dizer alguma coisa aos outros povos”.

 

 

 

 

 

Mr. Bow lançou, esta quinta-feira, na cidade de Maputo, o seu mais recente trabalho discográfico. Intitulado Story of my life, o disco é constituído por 18 músicas e conta com colaborações de artistas nacionais e estrangeiros. Durante o evento, o autor homenageou a mãe e o melhor mestre de sempre.

O relógio marcava 17h17 minutos quando Mr. Bow, de mãos dadas com a esposa e a filha, e na companhia da mãe, chegou ao Glória Hotel, local escolhido para o lançamento do álbum mais recente: Story of my life.

Meio encabulado, como se fosse o disco de estreia, Mr. Bow caminhou lentamente até chegar à sala onde por ele esperavam outros membros da família, amigos, colegas de trabalho e vários patrocinadores. Momentos depois, tomou a palavra e lembrou que o seu maior sonho sempre foi cantar. Desde tenra idade, ainda em Gaza, que Salvador Pedro sempre quis se comunicar com o mundo através da magia da música. Por isso perseguiu essa pretensão, procurando em todo lado uma oportunidade. Assim veio a Maputo e o resto é história, ao fim de tantos anos de dedicação.

Intervindo na cerimónia de lançamento de Story of my life, Bow explicou que, no novo álbum, tentou trazer uma nova versão dele próprio, sem abandonar o que construiu até aqui. Ou seja, o artista quis acrescentar mais alguma coisa à sua criação. E porque criar é mesmo o seu trabalho diário, Mr. Romantic anunciou no Glória Hotel ter criado um novo estilo musical, que, acredita, vai influenciar artistas de referência e o público moçambicano em geral, impondo-se nas pistas de dança. O nome do ritmo criado por fundador da Bowito Music, empreendedor, empresário e activista social, com efeito, é Django music.

Ora, logo no dia em que o álbum saiu, foram requisitadas 250 cópias do Story of my life, pela Global Health Moçambique. A representar a instituição esteve Humberto Costa, muito aplaudido depois de anunciar a boa nova. “As cópias vamos oferecer a familiares e aos clientes especiais.

Enquanto lançava o seu disco, Mr. Bow não se esqueceu daqueles que contribuíram e contribuem para o seu sucesso. Primeiro, a mãe, Roda Langa. O artista disse em público que a mãe foi determinante para que triunfasse na vida. Segundo afirmou, em casa pode ter faltado comida, mas não boa educação. Reagindo às palavras do filho, momentos depois, Roda Langa afirmou: “hoje eu sinto-me feliz, pelas realizações do meu filho. Na música que ele canta sobre a sua história, de facto, a história está feita. Outras pessoas olhavam-me como uma louca, devido à pobreza, enquanto eu criava os meus filhos. Hoje Deus respondeu às minhas preces. Os meus filhos trabalham e ajudam-me”.

Quem também manifestou a sua satisfação foi a esposa de Mr. Bow, que acompanhou todo o processo criativo do Story of my life. De acordo com Liloca, o álbum custou noites sem dormir. Tiveram um período de muito trabalho e de alguma tensão, porque questionavam-se se as pessoas iriam ou não gostar do produto final.

Além da mãe e da esposa, no lançamento do disco estiveram os irmãos e a filha, Valquíria Onésia, que disse: “eu estou feliz porque ele está feliz. O sonho dele concretizou-se, ele trabalhou duro para isso. Sinto-me feliz porque Jesus o abençoou”.

Assim como aconteceu com realizadores de vídeo-clips e cantores, Mr. Bow homenageou aquele que é, para si, o melhor mestre do mundo: Ta Basily. Assim, o mestre levou para casa um cheque no valor de 100 mil meticais: “fiz a minha parte e é bonito hoje ser reconhecido em público. Obrigado a todos por terem ajudado Mr. Bom a chegar aqui. Eu fico feliz todos os dias por ele ter alcançado o sucesso, porque o sucesso dele também me engrandece”.

Sytory of my life já está disponível para o público e saiu com cinco vídeo-clips promocionais.

 

Em 2005, Mauro Pinto expôs a individual Portos de convergência, na cidade de Maputo. Quem diria que passariam 15 anos até um dos mais consagrados fotógrafos moçambicanos voltar a expor uma individual no país? Nem o próprio fotógrafo acreditou que tivesse passado tanto tempo, afinal, regularmente, tem levado as suas obras a galerias estrangeiras.

Uma década e meia depois, Mauro Pinto inaugurou, esta quarta-feira, a série fotográfica Dá licença, na Fundação Fernando Leite Couto, na cidade de Maputo. Bem dito, Moçambique é o quarto país que recebe a mostra aberta ao público pela primeira vez em 2012, em Portugal. No mesmo ano, Dá licença viajou ao Brasil. E porque Macau não quis ficar atrás, promoveu a mesma colecção de Mauro Pinto em 2018.

Finalmente, chegou a vez dos moçambicanos residentes no país poderem visitar uma individual muito diferente das várias exposições realizadas no país, em termos de cenário, de luz e ambiente em geral. Mas por que o fotógrafo precisou de oito anos para expor o Dá licença à sua gente? “Queria que fosse apresentada com dignidade e que fosse bem produzida, como foi o caso. Apresentei o projecto à Fundação Fernando Leite Couto, e aceitou apostar neste projecto”. Logo a seguir, o fotógrafo esclareceu, como que a justificar a sua exigência de qualidade, que o fez esperar tanto: “A fotografia não é um mero instrumento, como muitos pensam. A fotografia é das áreas mais completas de todas as áreas que eu conheço”.

Desta vez, a exposição de Mauro Pinto é constituída por oito fotografias, das quais duas inéditas. “Acho que os trabalhos nunca terminam. A serie é a mesma, e não está desligada do que sempre fiz e continuarei a fazer. Estou muito satisfeito”.

Além de Mauro Pinto, a curadoria de Dá licença inclui Yolanda Couto, quem entende que a exposição foi uma grande experiência, em termos de montagem, principalmente. “Foi uma aposta numa iluminação completamente diferente e uma transformação da galeria para receber esta exposição. Foi um trabalho intenso durante duas semanas. Houve dias em que as pessoas tiveram de trabalhar toda a noite”.

Segundo disse Yolanda Couto, o mais complexo foi conseguir o relacionamento da luz interior das imagens com a luz exterior, por causa da maneira como a individual foi colocada na parede. “O casamento tinha de ser perfeito. Quer dizer, não devia haver sombras e a luz da exposição não devia ser excessiva”.

Dá licença é, para Yolanda Couto, uma colecção que transpira o que se sente quando se entra no bairro Mafalala e nas suas casas. Ali está patente o sentimento das pessoas que vivem nas casas. “Mesmo sem gente nas imagens, sentimos as pessoas através dos objectos expostos. Cada casa transpira a personalidade do seu dono”.

A exposição de Mauro Pinto tem um texto de apresentação de Mia Couto, no qual o escritor realça: “Não existe gente mas há uma multidão que vive nestas imagens. Há vultos e vozes dentro e fora da casa de madeira e zinco. E sem que nada nem ninguém se mova, abre-se uma janela quando a luz murmura: dá licença”.

“Maputo cidade, como tu não há, com toda a vaidade … cidade surpresa, quem não te quer cantar? Se a tua beleza tem tudo para encantar… Maputo u xonguile demais, xilunguine quem te abraça não te larga mais…”. É apenas uma letra escrita pelo músico Hortêncio Langa, que, na noite de terça-feira, combinada à sua melodia, homenageou Maputo, pelo que é e pelos 133 anos.

Não foi só Langa que cantou para a cidade das acácias, mas vários músicos moçambicanos juntaram-se para, através de melodias, prestar homenagem à cidade que quem abraça não a larga mais….

A banda Alambique, Sheila Jesuíta, o agrupamento Gran’Mah e os músicos António Marcos e Mr. Bow, fizeram o show “diferente” sem público, mas cheio de vida, luz, cor e emoção.

Os artistas não só cantaram, mas aproveitaram o momento para chamar atenção sobre a situação da COVID-19, que assola a cidade dos maputenses, a mais afectada no país.

“Nós, cidadãos desta grande cidade, devemos ter muita cautela, temos que nos cuidar para evitar a propagação da COVID-19. Agora temos que festejar a cidade sem os seus cidadãos e isso me entristece”, apelou e lamentou Hortêncio Langa, músico acostumado a actuar para um público presente.

“Se cumprirmos com as medidas, daqui a pouco estaremos a fazer show’s grandes aqui à frente da praça. Sentiremos a vibração e o calor do público”.

O público não esteve lá para vibrar, mas os artistas tocaram e dançaram, transmitindo o calor através das telas da STV.

A vocalista da banda Gran’Mah, Regina dos Santos, não podia antes imaginar um espectáculo sem a presença do público. Na noite de terça-feira passou pelo que não queria, mas sublinhou que pior seria se não “celebrasse o dia da cidade sem música”.

A vocalista defende que o amor entre os moçambicanos e o povo de Maputo deve prevalecer, e que “unidos à distancia” possam acabar com a pandemia.

E como a cidade não escolhe quem acolhe, não só estiveram músicos nascidos, mas aqueles que vieram e nunca mais saíram, como o caso de Mr. Bow, nascido em Gaza, e que veio à cidade das acácias à procura de melhores condições de vida. Conseguiu e tem hoje em Maputo a sua casa.

E Por ter nela o seu aconchego, Bowito diz que a celebração da data não é apenas pelos 133 anos, mas também pelo que representa na vida dos maputenses e não só.

“Desejo igualmente que esta cidade continue a crescer, a trazer melhorias e mais coisas boas aos maputenses e não só, e que haja mais oportunidades para os cidadãos”.

A noite não foi só recheada de música, houve igualmente homenagem para quem muito fez pela cidade, o músico e guitarrista Moisés Mandlate, um dos compositores da música “Elisa gomara saia”, o único vivo hoje e com 100 anos de idade.

Segundo Isabel Macia, vereadora na autarquia de Maputo, Moisés Mandlate foi homenageado por ter projectado a cidade através da música na Orquestra Djambo, criada nos anos 50, com o objectivo de abrilhantar os eventos culturais do antigo Centro Associativo dos Negros, hoje Ntsindya, no Xipamanine.

“A acção de Mandlane no grupo Django, como um dos percursores, foi notável, pois foi com este grupo que a música tradicional moçambicana se urbanizou e passou a invadir os salões de festa das agremiações”, referiu a vereadora.

O músico foi laureado com a distinção mais importante: a medalha de excelência “Acácia Rubra”.

 

Último berro (30 minutos) e Começa a ficar tarde (13 minutos) são os títulos dos dois filmes de Ídio Chichava e Ivan Barros que serão exibidos no Festival de Dança Cena Contemporânea, em Brasília, capital brasileira. Já nas Ilhas Reunião, Chichava leva um solo e lá vai organizar workshops.

 

O coreógrafo e bailarino foi convidado a participar no Festival de Dança Cena Contemporânea. À capital brasileira, Brasília, no dia 9 de Dezembro, Ídio Chichava leva consigo o filme/ vídeo performance Último berro, realizado por Ivan Barros.

A ideia do filme surgiu no momento em que o artista estava em confinamento, em Maputo, numa fase que aproveitou para reflectir sobre a sua própria arte, questionando-se sobre o que é a dança para si e do que a sua dança pode ser em termos de intervenção no esquema social. Na verdade, no princípio, o que Chichava quis fazer foi uma sessão de fotografias, alicerçado ao tema Cabo Delgado, por causa do terrorismo que lá se enfrenta. Claro, não pelo lado político da coisa, e sim interessado-se na questão humana, colocando-se na pele dos que sofrem todos os dias. Raciocinando assim, surgiu então Último berro: corpo em Estado de Emergência, um título que traduz dois cenários: o Estado de Emergência decretado pelo Presidente da República, que aconselhava as pessoas a não irem à rua sem necessidade, e o Estado de Emergência em que os moçambicanos de Cabo Delgado são obrigados a abandonar as suas residências.

Convicto no que queria fazer, Ídio Chichava juntou-se ao realizador Ivan Barros para consolidarem o projecto fotográfico. Ao invés disso, ambos chegaram à conclusão de que um filme seria melhor. E assim foi. As gravações aconteceram e Último berro estreou recentemente no Festival Gala-Gala, na cidade de Maputo.

No Brasil, o filme de Ídio Chichava será apresentado durante a Semana da Consciência Negra. E, no mesmo programa, o artista vai apresentar outro filme seu: Começa a ficar tarde, gravado na Lixeira de Malhampsene, em Maputo, com pretensões de chamar atenção aos impactos do aquecimento global. “Para mim, esta é uma forma de mostrar que Moçambique não está quieto em relação à dinâmica criativa contemporânea no mundo. Passar estes filmes é uma forma de afirmar Moçambique como um país preocupado em contribuir na interacção e partilha cultural”.

 

Ilhas Reunião

Entre 17 de Novembro e 10 de Dezembro, Ídio Chichava vai participar no Ocean Indien Danse, nas Ilhas Reunião, cujo convite surgiu através do Festival KINANI. Um membro da organização esteve em Maputo e viu a sua peça Sentido único. Daí surgiu o convite, e, naquele país, o coreógrafo e bailarino vai apresentar um solo que faz alusão ao terror em Cabo Delgado. “A peça é uma mensagem aos corpos sofridos. Lá também vou apresentar Último berro, para mandar uma mensagem de socorro ao mundo. É a minha forma de contribuir, de fazer com que o mundo saiba o que está a acontecer em Cabo Delgado”.

Por fim, durante mais ou menos três semanas, “Ídio Chichava vai orientar workshops. “Estarei com escolas, desde primárias, secundárias e profissionais, durante o trabalho de consciencialização”.

 

 

Foto: Mariano Silva

Deus nos acudi, de Pak Ndjamena, irá estrear internacionalmente no dia 23 deste mês, no Festival Arts Ability de Cape Town, na África do Sul. A estreia nacional está marcada para dia 26, na Galeria da Kulungwana, na cidade de Maputo.

 

Em termos criativos, a concepção do filme Deus nos acudi começou numa residência artística realizada no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, no Brasil, ano passado. Nessa altura, Pak Ndjamena quis fazer mais duas residências para enriquecer o projecto. Entretanto, chegou a COVID-19, o que obrigou o coreógrafo e bailarino a reconfigurar a sua pretensão. Ao invés de apenas uma performance de palco, num contexto de Estado de Emergência, e, agora de Situação de Calamidade, o artista pensou no que se poderia fazer do seu Deus dos acudi. Assim fortaleceu-se a ideia do filme, que, no dia 26, irá estrear internacionalmente no Festival Arts Ability de Cape Town, na África do Sul.

Deus nos acudi foi rodado durante uma semana, em Setembro, no distrito de Marracuene, na província de Maputo. Segundo adianta Pak Ndjamena, este é um projecto filmográfico que busca questionar sobre as sociedades de consumo e sobre o lugar do corpo nessa sociedade, revelado através do seu universo cultural. “Neste filme busco reflectir sobre algumas questões relacionadas com o corpo, a partir de questões ligadas ao poder. Deus nos acudi reflecte muito sobre crenças, mitologias, religiosidades secularizadas, mitos e etc. Como sou africano e moçambicano, fiz aqui a minha pesquisa, mas olhando para o universo em geral. Vejo o corpo como objecto, como centro e como causa”.

A ficha técnica do filme inclui Pak Ndjamena (co-realizador, produtor, roteiro, actor/ performer), Bakha Yafole (co-realizador, director de fotografia, roteiro), Yuru Yurungai (trilha sonora), Mariano Silva (fotografia) e Mélio Tinga (design gráfico). A edição foi feita no Yafole Studio, tudo graças ao apoio da Pro Helvetia Johannesburg e da Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação.

Ao nível nacional, o filme de Pak Djamena vai estrear no dia 26, às 18 horas, na Galeria da Associação Kulungwana, na cidade de Maputo, numa sessão com entradas limitadas para 40 pessoas.

O filme orçado em 2880 dólares (mais ou menos 210 mil meticais), portanto, chega às telas depois de a performance em palco ter sido exibida em Março, no SESC de Pompeia, na cidade de São Paulo, no Brasil.

 

DEUS NOS ACUDI EM EXPOSIÇÃO NA KULUNGWANA

Durante as filmagens em Marracuene, o fotógrafo português residente em Moçambique, Mariano Silva, registou, com a sua câmara, vários momentos no backstage. Assim, entre dia 12 deste Novembro e 17 de Dezembro, igualmente na Galeria do Kulungwana, a mira de Mariano Silva estará representada em fotografia, na exposição com o mesmo título: Deus nos acudi.

De acordo com a Associação Kulungwana, a exposição de Mariano Silva reflecte, principalmente, múltiplos interesses do fotógrafo, que tem contactado e acompanhado o trabalho de diversos artistas nacionais. “Nesta exposição, Mariano capta a interpretação de Pak e o mundo espiritual que preside a vida da população moçambicana, não sendo a primeira vez que se debruça sobre este assunto. Mariano participou em 2018 no concurso fotográfico ‘Religiões e Crenças’, promovido pela Embaixada dos Países Baixos em Maputo, por ocasião da Exposição World Press Photo, tendo sido premiado no mesmo”.

 

 

 

Último livro da trilogia Arresto de vozes, de Juvenal Bucuane, será apresentado às 16 horas do dia 19, numa cerimónia restrita com transmissão online pelas redes sociais da Alcance Editores.

 

A aventura literária pela trilogia iniciou em 2017. Nessa altura, o poeta e escritor, igualmente co-fundador da revista Charua, decidiu partilhar momentos ou actividades relacionadas com o seu percurso literário. Ao fim de três anos, os leitores já podem ler o terceiro volume de Arresto de vozes, que, como os anteriores, leva na capa uma imagem desfocada do autor.

O livro mais recente de Juvenal Bucuane traz algumas histórias do escritor contadas por ele próprio, numa perspectiva mais humanizada. Se, no caso do primeiro volume, Bucuane investiu em editar em livro tudo o que foi dito sobre a sua escrita ao longo dos anos, no segundo, o escritor incluiu o que escreveu sobre outros autores.

Ora, no terceiro volume, que será apresentado ao público no dia 19 deste mês, às 16 horas, na Alcance Editores, na cidade de Maputo, Juvenal Bucuane optou por arrolar todos os reconhecimentos que lhe foram feitas em aproximadamente quatro décadas de exercício literário. “Eu quis fechar esta trilogia mostrando às pessoas aquilo que, realmente, um escritor, acho eu, devia fazer para se justificar aos seus leitores”.

O terceiro volume de Arrestos de vozes, de Juvenal Bucuane, será apresentado pelo professor universitário e Presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Nataniel Ngomane, inclusive, autor do prefácio.

A editora Fundza, em coordenação com o Ministério da Terra e Ambiente, apresentou, esta quarta-feira, na cidade de Maputo, o livro Memórias do Idai. A colectânea de crónicas reúne 26 textos sobre o ciclone e foi apresentada por Mia Couto.

 

Na verdade, o livro foi apresentado em várias cidades do país. Além de Maputo, a colectânea Memórias do Idai chegou aos leitores de Maxixe, Chimoio, Nampula e, obviamente, da Beira, uma das regiões mais afectadas pelo ciclone há um ano e meio.

Segundo disse o escritor e editor Dany Wambire, igualmente organizador do livro, a ideia de avançar com esta aventura literária tem uma razão concreta: contribuir para que a reconstrução do que se perdeu com a calamidade natural, em Março de 2019, também se faça através das histórias. “Nós decidimos avançar por este caminho porque fomos assistindo, durante as actividades de reconstrução de casas e de estradas afectadas pelo ciclone Idai, que uma coisa estava a perder-se: as histórias. Como somos uma editora e uma associação, decidimos contribuir para que essa reconstrução, através das histórias, do relato e da memória, se efectivasse. Acreditamos que este livro poderá registar as histórias do Idai para a eternidade”.

A cerimónia de apresentação na cidade de Maputo foi fruto de uma coordenacao entre a editora Fundza e o Ministério da Terra e Ambiente. Também por isso, o livro de crónicas e/ou histórias foi apresentado a algum público da capital do país na Sala de Reuniões da Direcção Nacional de Florestas. A anfitriã da cerimónia foi Emília Fumo, Secretária Permanente do Ministério da Terra e Ambiente que interveio em representação da Ministra Ivete Maibaze. Para Fumo, o lançamento de Memórias do Idai “é um convite expresso para uma reflexão sobre como podemos abordar as questões relacionadas às mudanças climáticas e como podemos elevar a consciência dos moçambicanos para a necessidade de reduzirmos a exposição dos riscos dos eventos naturais extremos, que, de forma recorrente e cíclica, têm vindo a causar dor e luto nas famílias”.

Quem também teve direito à palavra na cerimónia foi Mia Couto, na qualidade de apresentador do livro. Para o escritor natural da cidade da Beira – que também sofreu quando soube que parte da sua infância ou das memórias da sua infância tinham sido levadas pela corrente das águas – Memórias do Idai “é absolutamente fundamental num país em que tem tanta facilidade em perder a sua própria memória e em que há uma certa separação artificial entre a vida e a literatura. A escrita literária faz parte da vida. Nós, quando saímos daqui, vamos à rua e o que as pessoas fazem no seu quotidiano, contando histórias, anedotas e aquilo que não parece literário, permite que nasça a literatura”.

Segundo disse Mia Couto, quando os escritores transformam a vida numa história, a mesma vida também transforma os escritores numa história. Depois, realçou a importância da ficção: “Nenhuma coisa permanece se não for convertida numa história. A realidade só começa a ser real quando nos chega através de uma ficção”. E continuou: “Nós, aqui em Moçambique, pensamos que só tem direito a ter passado quem foi herói, mas herói somos todos nós que levantamos todos os dias e enfrentamos problemas e as dificuldades. Muito desses heróis que nós temos não estão vivos. Estão nas placas das ruas, mas, se perguntarmos quem eles são, ninguém os conhece. Eles só podem ficar vivos se se convertem em histórias que nos possam seduzir, com as quais podemos namorar”. Já a finalizar, o escritor voltou ao livro: “Talvez, com estas iniciativas, os eventos extremos das mudanças climáticas passem a ter mais importância e chamar a nossa atenção”.

A colectânea Memórias de Idai é resultado de um concurso organizado pela editora Fundza. Ao mesmo concorreram 90 autores. Deste universo, os membros do júri constituído por Paulina Chiziane, Pe. Manuel Ferreira, Manuel Mutimucuio, Cristóvão Seneta e Dany Wambire seleccionou 26 textos. Conforme foi noticiado neste jornal, o concurso teve como grande vencedor Francisco Raposo, residente na cidade da Beira.

 

 

 

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