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O País – A verdade como notícia

Actores e encenadores enfrentam dias muito complicados por causa da COVID-19. Ainda assim, acreditam que estes tempos trazem-lhes novas possibilidades no que diz respeito ao processo criativo. Os artistas que falaram a propósito do dia 27 de Março vêem nas plataformas digitais o meio-termo para suprirem o confinamento e, assim, gerarem novos públicos.

 

A cada 27 de Março é assim… Actores, encenadores, produtores e toda gente que se interessa pela arte da representação celebra o Dia Mundial do Teatro. Apesar da crise sanitária e de tudo o que isso implica, os artistas do palco partilharam com este jornal o que pensam da efeméride numa situação tão estranha quanto esta que o mundo enfrenta.

Em geral, todos os entrevistados reconheceram que o último ano foi realmente adverso. Ainda assim, a esperança por dias melhores é algo que nenhuma nuvem ofusca. “Uma das coisas que o teatro me ensinou é de que nada é para sempre. O teatro é vida, e na vida nada é para sempre. A vida é impermanente. Estamos num momento atípico, mas este momento também vai-se embora”. Assim pensa Yuck Miranda, actor que tem sensação de que os artistas do teatro não se permitiram parar no mundo inteiro. Por isso, lembrou, começam a surgir novas possibilidades de fazer o teatro. Por exemplo? “O teatro cibernético, feito através das plataformas digitais. Os artistas, hoje, discutem como é que os seus vídeos são gravados ou como podem ser filmados em melhores planos. Há hoje um bom grupo de artistas do teatro preocupado em levar para as suas audiências um teatro com muita qualidade ao nível visual”.

Longe de casa há algum tempo, Venâncio Calisto mudou-se para Portugal, onde frequenta um mestrado em Teatro. Na óptica do encenador, celebrar o Dia Mundial do Teatro é uma oportunidade de se continuar a reafirmar a importância da arte nas nossas vidas. “Desde sempre, o teatro exerce o papel de consciência poética, política e de intervenção social. E é uma forma de resistência contra todas as manifestações do mal”.

Neste contexto, a grande força do mal é a COVID-19, pois agrava o que no passado sempre foi um problema. “Antes já tínhamos todas aquelas dificuldades que toda a gente sabe. Agora,  com a COVID-19, piorou. Mas não desistimos. Nós somos soldados e estamos a apostar em projecções de peças online. O teatro não vai morrer. De qualquer forma, sempre iremos no reinventar”. A pensar na tal reinvenção, acrescentou a actriz Sheila Nhachengo, a Associação Girassol, de que faz parte, está a preparar-se para, quando o confinamento passar, possam levar muitas e boas peças ao palco. “Não é a COVID-19 que nos vai parrar. Já antes, com todas as dificuldades de financiamento, relacionadas a salas para ensaiar e apresentar peças, sempre remamos. Vamos sempre procurar forma de tocar os corações das pessoas dos que nos seguem. Afinal o teatro existe e precisa ser valorizado”.

Se, por um lado, os actores concordam que devem aproveitar as plataformas online para que pelo menos não falte um movimento teatral, por outro, Sheila Nhachengo lembra que essa opção ainda não é sustentável no país. “Se calhar, em Moçambique, ainda não temos muita prática de vender com recurso às tecnologias, ao YouTube e a outras plataformas digitais”. Entretanto, admite, com o recurso ao online pode-se ter mais êxitos “do que quando ansiávamos por público em palco. Se os grupos se unirem e desenhar estratégias, podemos conseguir. O segredo é termos o mesmo foco e rentabilizarmos o teatro”.

Enquanto isso não acontece, a encenadora Maria Atália garante que seremos outras pessoas depois da COVID-19. “As pessoas que seremos depois da COVID-19, serão resilientes e que sabem por que estão a fazer o teatro de facto. Neste momento, precisamos de teatro como terapia. É insano todos os dias termos números a subir. Precisamos muito de nos agarrar ao que bem sabemos fazer, para nos curar e colocarmo-nos firmes e determinados. E esta situação está a deixar-nos determinados. Esta é a parte boa deste contexto”.

A visão de Maria Atália é optimista. No entanto, Horácio Mazuze prevê dias de muito trabalho, relacionados com a consciencialização das pessoas de modo a voltarem aos teatros. “Não será fácil o público voltar ao teatro de forma imediata, teremos de fazer um trabalho conjunto, árduo, porque até já andávamos com problemas de público nas salas. Uma paragem desta é grave e teremos de voltar a convencer os mecenas que merecemos apoios”.

 

O TEATRO NÃO VOLTA A SER COMO ANTES

Yuck Miranda foi categórico. O teatro não volta a ser o que era antes, porque já há um investimento nas plataformas online. A opção, adianta, agrega valor, até porque muitos teatros foram destruídos, fechados, viraram igrejas ou foram demolidos para construção de prédios. Logo, a infra-estrutura do teatro deixou de existir.

Para Yuck Miranda, a formação de novos públicos começa a acontecer dentro das possibilidades que existem no momento. No caso, a internet. “Reconheço que a internet não chega a toda gente, mas também começamos a estudar como os nossos vídeos vão chegar aos novos públicos”.

A propósito da afirmação que dá subtítulo a este artigo, Miranda esclarece: “Não prevejo a morte do teatro, mas acho que não voltamos a ser a mesma coisa. Vejo uma possibilidade de se manter o teatro, o espaço físico, mas também uma forma de massificarmos o teatro no sentido de que podemos ter pessoas a irem às salas e pessoas a ver as peças de forma online. Verdade seja dita, nós já tínhamos esse distanciamento porque as salas de teatro andavam vazias. Eu olho para esta situação como uma oportunidade. Há um momento que nos temos de recolher, estudar, para trazer novas abordagens”.

A propósito de novas abordagens, Yuck Miranda recebeu uma nomeação para fazer parte dos 100 directores do mundo que vão dirigir um espectáculo cibernético na Roménia. O actor clássifica o espectáculo como gigantesco. O mesmo vai durar 25 horas, e conta com directores de diferentes pontos do mundo. O mais importante para Miranda é a possibilidade de dirigir um espectáculo teatral e uma actriz da e na Roménia que não fala português e nem inglês, a partir Moçambique. “Há fronteiras que o teatro está a vencer neste momento”, e isso também marca este 27 de Março de 2021.

 

 

 

 

Os artistas congoleses, Vitshois Bondo e Fransix Tenda, juntaram-se para expor uma colectiva de pintura na galeria do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo. A exposição tem curadoria de Gonçalo Mabunda e Andreia Moreira.

 De Kinshansa chegaram dois artistas plásticos. Chamam-se Fransix Tenda e Vitshois Bondo. Ambos estão a expor uma colectiva de artes plásticas no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade Maputo. Intitulada Rompendo fronteiras Congo-Moçambique, a mostra junta aproximadamente 30 obras de pintura, que, além de preocupações estéticas, procuram quebrar fronteiras que impedem a mobilidade de artistas no continente.

Na abertura da colectiva, Vitshois Bondo manifestou a sua satisfação em poder voltar à Cidade de Maputo para expor a sua criatividade. “Estou feliz com este convite do meu amigo Gonçalo Mabunda, um artista importante, não apenas em Moçambique e em África, mas também ao nível mundial. Receber o seu convite para estar aqui e fazer esta exposição é importante para mim, significa bastante porque faz parte da mentalidade que os artistas africanos devem ter, este tipo de parcerias é maravilhosa para mim”.

Gonçalo Mabunda e Andreia Moreira são os curadores da exposição. Esta quarta-feira, o escultor expicou o que o moveu ao trazer dois artistas congoleses ao país. “Esta colectiva é um projecto que vem acontecendo há algum tempo. Queremos quebrar as barreiras existentes, porque nós somos todos iguais: Kinshansa, Maputo, Joanesburgo, e etc., todos somos um só povo. Tentamos ser bantu, todos juntos, porque isso é o que nos fortalece. Daí o nosso interesse em quebrar essas fronteiras que não existem”.

Devido às restrições impostas pela COVID-19, Rompendo fronteiras Congo-Moçambique pode ser visitada de forma virtual, durante um mês.

Ainda na Cidade de Maputo, Fransix Tenda e Vitshois Bondo participam em sessões de conversas sobre a criação de espaços para divulgação de artes visuais em África.

 

Às 18 horas desta quinta-feira, será inaugurada a exposição colectiva Colecção Crescente 2021. Segundo avança a Associação Kulungwana, poderão ser vistas, virtualmente, obras de mais de uma centena de artistas, até dia 30 de Abril.

Com a mostra virtual da “Colecção crescente 2021”, a Kulungwana dá continuidade ao que considera um dos maiores eventos da vida artística moçambicana, que se vai repetindo há 10 anos. “De ano para ano, o número de participações dos artistas locais é crescente, traduzindo o entusiasmo com que este evento é acolhido pelos mesmos. A premiação dos três melhores trabalhos, por um júri de especialistas, com o novo Prémio Melhor Futuro, atribuído pelo patrocinador, a Hollard Mozambique, veio dar ainda maior dinamismo ao evento”, lê-se na nota de imprensa da Kulungwana.

A nova colecção, com efeito, conta com 147 artistas, com 323 placas, provenientes de oito províncias do país. A Kulungwana destaca a participação das mulheres, que têm sido acarinhadas, tornando-se mais visível em cada edição.
“Desde o início da pandemia, ocorrida em Março do ano passado, que a Kulungwana tem procurado continuar em contacto com o seu público, ao mesmo tempo em que procura divulgar a obra dos artistas locais. Assim, pela segunda vez consecutiva, a exposição abre em regime virtual, através de diferentes meios de divulgação: site Artfundi, redes sociais da Kulungwana.

Desta vez, o tema da colecção é o Futuro! Considerando a actual realidade sombria, “a curadora da exposição, Mieke Holdenburg, desenvolve uma série de questões, que nos levam a reflectir sobre a nova realidade global em 2045”, adianta a organização.

Curta-metragem de Gigliola Zacara, Nkwama, foi seleccionada para participar no CENA – Festival de Filmes Dirigidos por Mulheres, em Cabo Verde. A sessão decorre online e a nova versão do filme pode ser vista às 21 horas de sábado.

Numa altura como esta, ano passado, Gigliola Zacara atravessou um momento carregado de depressão. A causa? O confinamento e tudo o que essa palavra implicou em termos de cancelamento de eventos e projectos artísticos. Um ano depois, ainda que a situação dos artistas continue incerta, Gigliola Zacara sorri com satisfação, pois foi convidada a participar no CENA – Festival de Filmes Dirigidos por Mulheres. A iniciativa cabo-verdiana, essencialmente, pretende promover o cinema feito por realizadoras africanas dos países de língua oficial portuguesa e Timor Leste.

Considerando que o evento inclui exibição de filmes projectados do arquipélago para o mundo inteiro, Gigliola Zacara e a sua equipa sentem-se honradas por estarem dentro da plataforma CENA. E destaca, “no evento eu não só estarei como mulher fazedora de cinema, mas também em representação do nosso país. Estamos a expor a diversidade do nosso país e a qualidade dos profissionais do cinema em Moçambique, dando visibilidade aos próprios artistas que fizeram parte deste projecto”.

Na participação no CENA – Festival de Filmes Dirigidos por Mulheres, igualmente, Gigliola Zacara espera colher da exposição de Nkwama o que precisa para continuar a fazer filmes de qualidade.

Quem quiser ver a curta-metragem pode aceder á página Facebook do CENA, às 21 horas de sábado.

O CENA – Festival de Filmes Dirigidos por Mulheres é um evento que decorre em colaboração com a Universidade de Cabo Verde (UviCV), no Mindelo. Além daquela instituição, o festival alusivo ao mês da mulher conta com apoio da REDE de Cinema e Audiovisual PALOP-TL e da Universidade de Cracóvia da Polónia.

UM FILME PREMIADO

A realização de Gigliola Zacara foi uma das premiadas no concurso de curtas-metragens do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, ano passado. Na altura, a realizadora teve de respeitar o requisito de não exceder cinco minutos de duração. Por que a artista tinha muito material, depois do concurso, continuou trabalhando e, ao Festival de Filmes Dirigidos por Mulheres leva uma nova versão do filme, agora com 15 minutos de duração.

Seja como for, Nkwama é a história de Alice, uma personagem lutadora, intransigente na busca de soluções para confortar o seu lar. Alice faz do plástico fonte do seu e do sustento dos seus. Daí o título do filme Nkwama, do rhonga, plástico em português. O filme, além de uma história de lutas pela sobrevivência, explora questões ligadas à conservação ambiental. A inspiração é o quotidiano de muitos catadores de lixo, mas a história também mergulha no ambiente familiar da Alice.

Licínio Azevedo vai adaptar para o cinema o conto “Nhinguitimo”, um dos que compõem o livro Nós matamos o cão-tinhoso, de Luís Bernardo Honwana. A curta-metragem de 20 minutos deverá estrear em Julho e a produção é orçada em 4 milhões de meticais.

 

“Pouco antes do início das colheitas, as rolas reúnem-se nas matas que dividem as machambas do vale. Durante duas ou três semanas, em bandos numerosos, sobrevoam os campos em largos círculos”. Assim inicia o conto “Nhinguitimo”, um dos que constituem o icónico Nós matamos o cão-tinhoso, de Luís Bernardo Honwana. Publicado em livro há 57 anos, o texto é o primeiro do autor a ser adaptado para o cinema.

O projecto de Licínio Azevedo arranca um ano depois de o cinema ter parado no país. “Não produzimos nada, ano passado, e decidimos que não devemos continuar assim”. Por isso, sabendo que agora é impossível conseguir financiamentos no estrangeiro para produções mais ambiciosas, o realizador abandonou, por enquanto, projectos antigos a fim de investir no mais pequeno, possível de produzir com fundos internos.

Licínio Azevedo pensou no “Nhinguitimo” porque a história se passa nos anos 60, um período desconhecido para a juventude de hoje. Assim, a expectativa do realizador é que mais jovens tenham, de algum modo, um contacto acentuado com o que se passou em Moçambique, por exemplo, numa certa zona de Moamba, na província de Maputo. Simultaneamente, Licínio Azevedo percebeu que a obra Nós matamos o cão-tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, nunca foi adaptada para o cinema. Assim, confessou, “espero que o filme faça jus ao conto que ele tão bem escreveu”.

O anúncio das gravações da curta-metragem de 20 minutos foi feito esta terça-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Além do realizador, esteve na sessão o produtor do filme, Jorge Ferrão, com quem Licínio Azevedo trabalhou em outros projectos há 40 anos. “O Licínio lembrou-se dos tempos em que fizemos algumas produções juntos e perguntou-me se estaria interessado em trabalhar com ele neste filme. Eu achei que seria um bom desafio voltarmos a trabalhar juntos no meu tempo livre, sem abdicar do meu trabalho, e ajudar a fazer esta produção”.

A produção da curta-metragem de Licínio Azevedo tem ajuda de empresas nacionais e da Embaixada da França em Moçambique. “O papel da embaixada da França é apoiar os actores culturais”, acrescentou Laurent Péres Vidal, da Embaixada da França, na conferência de imprensa:  “O cinema, que  cruza o sonho e o real, é um sector relevante para França. O cinema tem valor cultural e económico. Depois, os filmes de Licínio são reflexos da alma que vagueia sobre a sociedade”.

Com o memorando de apoio às produções assinado no Franco, segundo afirmou Licínio Azevedo, agora segue a fase de identificação dos locais onde a curta será rodada. Entre os locais elegíveis estão os distritos de Moamba, Boane e Marracuene, na Província de Maputo. Igualmente, segue a fase do casting de actores, coordenada Hermelinda Simela, que já trabalhou com Licínio Azevedo nos filmes Comboio de sal e açúcar e Virgem Margarida. A ficha técnica ainda não está fechada. No entanto, o realizador avançou que Pipas Forjaz integra a equipa de trabalho na qualidade de Director de Fotografia.

O orçamento previsto para a curta-metragem “Nhinguitimo” é de 4 milhões de meticais.

 

 

O escritor Nelson Lineu lança, às 17 horas desta terça-feira, o seu terceiro livro. O passo certo no caminho errado reúne crónicas publicadas na revista Literatas, em 2012.

O encontro virtual está marcado para esta terça-feira. Quando forem 17 horas, na página Facebook da revista Literatas pode-se visualizar uma sessão de lançamento do mais recente livro do escritor Nelson Lineu. Intitulado O passo certo no caminho errado, o livro é um conjunto de crónicas sobre questões sociais, mas sem que se torne algo de intervenção social, na óptica do autor.

Na verdade, as crónicas deste terceiro livro de Nelson Lineu foram publicadas pela primeira vez na revista Literatas lá vão nove anos, para o autor, num momento muito importante para construção dos seus pensamentos sobre o país e sobre o mundo, com lentes da arte e da ciência. E esclarece: “Da arte porque era o período em que o Kuphaluxa estava no seu auge; eu, Japone Arijuane, Mauro Brito, Eduardo Quive e Amosse Mucavele, ficávamos horas conversando, mostrando a nossa insatisfação com o rumo que o país estava a tomar e o modo como poderíamos participar para um cenário diferente. Da ciência porque cursava a licenciatura em Filosofia, participava das aulas e lia buscando a perspicácia dos filósofos em expor os seus argumentos e contra-argumentos, acima de tudo os elementos com que se guiavam para dissecar o social, o científico e o político e abrir outras possibilidades que não as estabelecidas”.

As crónicas de Nelson Lineu foram escritas, igualmente, depois de o autor perceber que os debates sobre o país não se fazem apenas no parlamento, nas academias ou nas televisões. Segundo o escritor, as pessoas comuns também fazem parte do debate inerente aos mais importantes temas nacionais. E esses debates são continuados nos chapas, nos mercados ou em outros locais, afinal com uma linguagem particular. “Assim sendo, as crónicas desse livro assentaram-se nesta linguagem, claro com um cunho literário”.

Nelson Lineu publicou os seus textos na revista Literatas convicto de que um dia iria os compilar em livro. “E o faço agora porque o estilo dos textos é o alicerce do meu fazer literário, e porque encontro neles os fundamentos dos meus pensamentos sobre o país”. E continua: “Embora, como nação, tenhamos nascido sobre o viés de uma unidade nacional, houve espinhos que têm sido o chão onde crescem a intolerância e a desqualificação do outro que nos tem caracterizado. Um certo grupo de moçambicanos pegou em armas e lutou pela independência do país, após ser alcançada, viu-se no direito de ser a única voz para delinear os caminhos que o devíamos seguir, sem consultar as outras vozes, quem pensasse o contrário era visto como inimigo. Isto fez com que existissem dois grupos no país, uns que se vêem legítimos das benesses que o país oferece e outros a reclamarem por essa legitimidade. A face mais visível dessa situação acontece na Assembleia da República, basta a opinião ser de um outro partido para não ser levada em conta, o caso mais gritante é o facto de as propostas de lei dos partidos da oposição não terem campo para discussão”.

Assim sendo, “escrever, para mim, é esse diálogo em que o outro, por mais que esteja errado, tem direito a dar a sua opinião livre de qualquer pressão alheia a ela, ou seja, o passo certo no caminho errado”.

Alterações de agenda, perdas monetárias, dificuldades. São características dos diferentes sectores de actividade desde a eclosão da COVID-19 em Moçambique, sobretudo nos considerados não essenciais nos planos de gestão da pandemia como o da cultura. Para não desfalecer, foi preciso mudar.

Na sala grande do histórico Scala, as mudanças estão a olhos vistos. Antes com capacidade para acolher 900 espectadores, agora, com as novas medidas, só pode receber menos da metade.

“Tivemos que reorganizar a sala. No centro optamos por privilegiar casais e nas laterais estão as bancadas individuais”, disse Ruca Pires: Gestor de Infra-estruturas no Scala.

A corrida para adequar-se ao novo normal incluiu a reestruturação do palco. Entretanto, todos são investimentos que ainda não produziram resultados monetários, porque a Situação de Calamidade Pública ainda não permite a abertura destes espaços ao público.

A solução imediata é migrar para o espaço digital. “Vem agora um ciclo de vídeo-poemas e uma oficina de “artevismo” que estamos a organizar com o Instituto Camões e a Embaixada da França”, avançou Chimene Costa, directora artística do Scala, que acrescentou: “estamos a abrir o local para ensaios e pesquisas para fugir do sufoco. A ideia é não parar”.

Não parar foi o lema de Valdemiro José desde o início da pandemia. Obrigado a cancelar a sua turnê alusiva aos 15 anos de carreira, o músico e compositor não decepcionou os seus fãs e admiradores.

“Uma das coisas que nós fizemos foi criar um projecto chamado HD Valdemiro José e sua Banda. Fizemos 12 edições online. Mas, muitos não me entenderam”.

Não entenderam e ajudaram VJ a provar que às vezes é melhor nadar contra a corrente. Os resultados foram os melhores. “Pudemos medir o quanto o público gosta do nosso trabalho. Vimos que as redes sociais, em particular, o Facebook, Instagram e Youtube não são o futuro, são o presente”, sustentou o artista.

O voo despencou quando estava no auge por falta de apoio. Mas o músico e compositor garante, algo maior vem ai.

Enquanto Valdemiro José movimenta-se para ajustar-se ao novo normal, no Kaya Kwanga o movimento é só de trabalhos de limpeza. O vazio incomoda e assombra as contas da empresa, que teve de reduzir o número de funcionários como estratégia de gestão dos impactos da pandemia.

Para evitar mais demissões e suspensões de contratos, o Kaya Kwanga decidiu reinventar-se usando as suas outras potencialidades. “Intensificamos os serviços de restauração e hotelaria, mas continuamos numa situação difícil”, disse Jaime Bila, gestor da instância.

Uma situação difícil que, segundo Bila, só pode ser superada com a retoma dos casamentos e festas. Para isso, a instituição já se preparou.

 “Na sua capacidade máxima, o salão acolhe 400 pessoas. Caso o Presidente da República decida pela retoma destes serviços na sua próxima comunicação, estaríamos preparados para receber, à vontade”, sustentou.

Enquanto tudo continua fechado, o Cine Teatro Scala, Valdemiro José e Kaya Kwanga, continuarão a ser três entidades que, apesar de terem visto seus planos traídos e contas sufocadas pela COVID-19, tentam transformar a dificuldade em oportunidades para fazer melhor.

Vários artefactos de Malangatana estarão em exposição próximo mês, na cidade de Maputo. A iniciativa do Absa Bank pretende enaltecer a vida e obra do artista.

Os artefactos de Malangata Valente Nguenya estarão expostos, no próximo mês de Abril, no Balcão Premier do Absa Bank, na cidade de Maputo. De acordo com a instituição organizadora, esta é uma forma encontrada para homenagear a vida e obra do artista, no ano em que, se fosse vivo, completaria 85 anos de idade.

De igual modo, “a exposição visa relembrar a dimensão sociocultural da arte de Malangatana e o contributo do artista na elevação do nome de Moçambique a nível global. Muito mais do que um criador, foi alguém que demonstrou, através da linguagem da arte, que há uma linguagem universal, que nos permite comunicar diferentes mensagens a diferentes públicos”, lê-se na nota de imprensa.

Na exposição de Abril poderá se apreciar ao desenho, à pintura, à cerâmica, aos murais, à poesia e à música, tudo produzido em vários meios e suportes. Os organizadores querem “enaltecer os feitos daquele que, pela UNESCO, foi nomeado Artista da PAZ em 1997”, acrescenta-se na nota de imprensa: “a exposição visa destacar a importância do trabalho realizado pelo artista na criação de uma identidade cultural moçambicana e impulsionar os jovens artistas a seguirem o seu exemplo de ‘senador’ da República de Moçambique e de referência para a cultura nacional”.

A nota de imprensa sobre a exposição avança ainda que “é impossível falar de arte moçambicana sem mencionar o nome do Malangatana. Nós, como Absa Bank Moçambique reconhecemos a dimensão do trabalho realizado por ele e queremos, de certa forma, ajudar a garantir que o legado por ele deixado seja transmitido aos mais novos”.

Malangata Valente Nguenya foi galardoado com a medalha Nachingwea, pela sua contribuição para a cultura moçambicana, e investido a 16 De Fevereiro de 1995 Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2010, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora e a condecoração atribuída pelo governo francês, de Comendador das Artes e Letras. Foi também um dos poucos estrangeiros nomeados como membros honorários da Academia de Artes da RDA.

Malangatana nasceu em Matalana, distrito de Marracuene, província de Maputo, a 6 de Junho de 1936. Perdeu a vida, vítima de doença, no dia 5 de Janeiro de 2011.

A cantora sul-africana Wanda Baloyi escolheu a cidade de Maputo para falar das suas raízes moçambicanas a um programa de entretenimento do seu país. Uma delegação constituída por sete pessoas esteve em Maputo para contar histórias e expor potencialidades turísticas moçambicanas.

Um programa de entretenimento sul-africano, designado “Life with Kelly”, decidiu contar a vida da cantora Wanda Baloyi. Numa época em que a cantora sul-africana tem intensificado a busca pelas suas raízes moçambicanas, com efeito, decidiu levar a Maputo uma delegação constituída por sete pessoas. “Se me oferecerem uma plataforma para contar a minha história, só fará sentido começar em casa. Uma pessoa só pode chegar a você melhor quando trazida para sua casa”, justificou Wanda Baloyi a decisão de fazer as gravações na cidade de Maputo.

Com o programa de entretenimento gravado em Maputo há mais ou menos uma semana, sobre experiências da vida real, Wanda Baloyi espera quebrar fronteiras. “Os nossos líderes anteriores lutaram para criar uma África unida. Só podemos fazer a nossa parte como amigos e incentivar outros a fazerem o mesmo. Podemos aprender muito uns com os outros”. Além disso, acrescentou a cantora sul-africana com origens moçambicanas, a plataforma da Showmax é óptima para Moçambique porque oferece ao país a oportunidade de ser visto de um ponto mais educacional e turístico.

Nesta viagem de trabalho, por sua vez, a mentora do projecto, Kelly Khumalo, deixou-se levar tanto pelo interesse de conhecer as raízes da sua amiga, bem como por vivenciar Moçambique da melhor maneira possível. Tal ambição, envolveu algumas mexidas logísticas, como “uma série de comunicação e ligação, logística de voos e roteiro completo para explorar plenamente Moçambique”, revelou Kelly Khumalo.

As gravações com Wanda Baloyi duraram cinco dias. Antes de começarem, a delegação sul-africana foi recebida pela Ministra da Cultura e Turismo. Nesse encontro, Eldevina Materula apoiou a decisão de o programa que segue a vida da artista sul-africana Kelly Khumalo, com a participação da cantora Wanda Baloyi, vir a Moçambique explorar narrativas, raízes e potencialidades turísticas. “Este reality será um meio de divulgação da nossa história, cultura, turismo e vamos dar a conhecer ao mundo o que de melhor temos no país”, afirmou Eldevina Materula no encontro.

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