O País – A verdade como notícia

A cantora sul-africana está em Moçambique à procura das suas raízes. Com quatro álbuns a solo, Wanda Baloyi lançou-se no desafio de aprofundar a viagem pela sua própria identidade através da música. A cantora guitonga que fala zulu, em Maputo desde ano passado, tem feito colaborações com músicos moçambicanos com a pretensão de aperfeiçoar a diversidade rítmica e cultural da sua criatividade. Nesta entrevista, a autora de Voices ou Love & Life fala do que a música significa para si e não se esquece de alguns perigos causados pelos contrastes da fama.

 

Com o seu primeiro álbum, Voices, inaugura um percurso de dar voz ao que tanta gente precisa ouvir. Como tem sido essa missão?

A música é minha vida. Eu cresci num ambiente musical. O meu pai é cantor e, na família dele, temos outros cantores: o tio Dua… A música, para mim, é vida, e eu não consigo fazer mais nada. Eu tenho a oportunidade de fazer muitos tipos de música: jazz, fusion, house music, soul music e etc. Tenho essa oportunidade de trabalhar com várias pessoas.

 

Oiço os seus álbuns e noto que a Wanda é muito interessada em cantar a palavra e em usá-la para homenagear algumas figuras que fazem parte do seu quotidiano. Essas personagens invocadas, pai e mãe, por exemplo, são exclusivamente representações das pessoas ligadas a si?

Canto as músicas a pensar na minha história e em tudo o que aconteceu com a minha mãe, mas também, o sentido das músicas pode dizer respeito a outras pessoas. Antes, eu nunca tinha tido oportunidade de cantar com o meu pai. Então, quando eu pensei em escrever uma música para ele, conclui que seria interessante fazermos uma colaboração, já que ele também canta. Para mim, é um sonho poder colaborar com o meu pai, mas eu não sabia como fazer. Quando decidi avançar com essa música, “Papa”, pensei, cá para mim, por que não?

 

Escreveram juntos?

Sim. Trabalhamos juntos em Cape Town, na altura em que eu ainda estava lá. Falei com o meu pai e disse-lhe que tinha uma música dedicada a ele e que gostaria que também cantasse, dizendo o que acha de mim, como filha, da mesma forma que eu o faço em relação a ele, como pai.

 

Nessa música, o seu pai, Jaco Maria, diz que a Wanda, como cantora, é fantástica e que é um privilégio poder cantar consigo. Algo parecido.

É verdade. Isso é uma coisa que vou levar para vida, uma boa lembrança da relação que eu tenho com o meu pai. A música nunca morre. As pessoas morrem, mas a música fica. Então, sinto que já fiz a minha parte.

 

O que a música lhe dá e o que retira?

A música ajuda-nos. Por exemplo, agora estamos diante de uma situação de COVID e não devemos sair de casa e nem sequer fazer shows. A única coisa que as pessoas conseguem receber é a música. A música pode nos salvar e explicar diferentes situações do mundo. Nós podemos ter lockdown, mas a música não. Portanto, a música, para mim, é vida. Respondendo à sua pergunta, a música é grande parte de mim e não é uma coisa que eu escolhi. A música escolheu-me. Então, a música exige de nós um grande investimento. Grande parte de nós tem de estar nela. Deus dá-nos o talento. Depois, devemos investir, trabalha-lo. A parte criativa da música é tão exigente quanto a sua responsabilidade. Eu não me posso sentir bem sem tirar as vozes que transporto dentro de mim.

 

Voices é um álbum com uma dezena de músicas. O que significou este trabalho para si, quando o lançou?

Trabalhei com Jimmy Dludlu no meu primeiro álbum. Eu era ainda muito nova e as pessoas da minha idade faziam pop music ou para jovens. Eu estava lá no fundo do jazz. Então algumas pessoas não perceberam o que se estava ali a passar no meu álbum. Mas, porque eu cresci, em casa, ouvindo esse tipo de música, o jazz ficou dentro de mim. Quando chegou a vez de decidir com quem eu queria trabalhar na composição e na produção das músicas, o tio Jimmy sempre foi a primeira pessoa porque eu gosto das músicas dele, da sua arte e eu logo acreditei que ele poderia dar uma boa ajuda no meu álbum. Para mim, Voices foi a chave para que eu pudesse chegar ao mercado musical e fazer com que as pessoas escutassem a minha voz. Voices abriu-me as portas.

 

E como descreve os álbuns que se seguiram ao Voices: So amazing, Colours ou Love & Life?

Voices é o primeiro bebé, e ninguém se esquece de onde começou. Eu sou uma artista e cantora que gosta de fazer diferentes tipos de música. Então, Voices não é a mesma coisa com So amazing ou Love & Life. E eu também gosto de trabalhar com diferentes produtores, porque acho que o meu talento não se resume apenas a um estilo musical. Por isso, agora, também faço house music. Então, Voices, So amazing, Colours ou Love & Life são todos álbuns diferentes.

 

Como é para si captar diferentes aspectos e elementos da vida e sintetiza-los em três ou quatro minutos de música?

Tudo depende do tópico no momento da composição, mas eu gosto de cantar coisas que estão a acontecer comigo. Eu sou uma pessoa de amor, então sempre falo disso. Segundo, cantar é uma forma de desabafar e de estar bem na vida. A música ajuda-nos a exprimir alegria, tristeza e tudo o que sentimos. Por isso, quando vem de dentro, conseguimos chorar e fazer as pessoas chorarem também. A música é uma voz que fala para todos. É a maior voz do mundo. Quando a pessoa pensa na religião ou na política, sempre precisa de música. Quando o povo se reúne, a primeira coisa que quer é cantar. Na igreja, quando entramos, canta-se, antes mesmo do pastor falar. A música é poderosa.

 

Quando está a compor, imagino que mergulha de forma profunda nas suas emoções…

Sim, porque, de contrário, as pessoas não vão acreditar no que estamos a cantar. A música deve sair de dentro de nós, para que seja autêntica. A primeira coisa que penso, quando estou a escutar, por exemplo, piano, é o que eu sinto naquele momento. Isso conduz-me a uma certa direcção.

 

Como é levar música a um mercado tão competitivo quanto o sul-africano?

Por ter começado lá, para mim não foi muito difícil. Entretanto, agora, a coisa é outra, porque já há mais oferta em termos musicais. Há muita gente a fazer música bonita na África do Sul. É mais complicado fazer música agora do que quando comecei a cantar. Actualmente, artistas lançam músicas todos os dias. A Internet está cheia de ofertas e ninguém mais compra discos físicos. Agora temos de produzir constantemente, se não as pessoas esquecem-nos. Mesmo estando a fazer música há muitos anos como eu, as pessoas sempre exigem mais.

 

Dos seus quatro álbuns, qual teve melhor recepção?

Foram Voices e Love & Life. Na verdade, Love & Life teve uma recepção mais especial. Por isso ganhamos alguns prémios.

 

A Wanda é reivindicada, quer pelos sul-africanos, quer pelos moçambicanos. Isso também é especial?

Sim, é. Eu acredito que, como africanos, é importante abrirmos as portas e oportunidades de trabalharmos juntos. Eu estou em Moçambique não só para conhecer a terra dos meus pais, mas também para fazer música. Infelizmente, não temos muitos artistas nos dois países a fazerem colaboração, e nós somos vizinhos. Aqui em Moçambique tocam muita música sul-africana nas rádios. Mas na África do Sul nunca ouvimos. Nada. Eu nunca escutei. Então pensei cá para mim, por que não trazer os músicos sul-africanos para cá virem fazer colaborações, conhecerem o povo, a terra e entrarem nos estúdios? E não é que eles não querem, não conhecem Moçambique. Temos uma oportunidade de mudar as coisas, e uma das maneiras disso acontecer é trazendo os músicos sul-africanos e com eles gravar, na expectativa de que ao voltarem a África do Sul possam tocar as músicas cá gravadas.

 

É muito atraída por esta ideia de cantar em várias línguas: inglês, português, zulu e etc. Porquê?

Gosto muito de brincar com as línguas porque nos conectam com diferentes culturas, para além de que, na música, eu não preciso falar para cantar.

 

E o que a faz escolher cantar numa e não noutra língua?

Eu sinto falta de alguma coisa… Então, tenho estado à procura de quem eu sou, de onde eu venho e por aí fora. Quando eu não consigo falar uma determinada língua que me interessa, sinto-me tentada a recorrer à música, nem que seja necessário inserir apenas certas palavras nas composições. Por exemplo, num dos álbuns cantei muito em zulu, que é uma das línguas que falo, mas eu não sou zulu…

 

Já agora, como é que se define do ponto de vista étnico?

Eu sou guitonga. Não falo a língua, mas penso em mim como guitonga. Então, gosto da ideia de colocar nas músicas um pouco das línguas que são faladas cá, de modo que se sinta qualquer coisa de Moçambique. Eu não quero me prender a uma fronteira e quero oferecer um som diferente.

 

Espera um dia ter a resposta a esta pergunta: “quem é sou?”.

Eu coloco-me sempre essa pergunta. Pode ser fácil perceber quem eu sou, mas não é fácil responder.

 

Quem quer continuar a ser?

Nós queremos ser mais livres, mais pacíficos. Quando era mais jovem, eu queria muitas coisas. Agora quero qualquer coisa que me dá paz. Quem eu sou? Eu sou africana, cantora, filha, irmã e uma mulher resiliente. Eu luto pelas coisas e para continuar com tudo o que acho bom. O que não funciona, deixo de lado. Eu quero que, um dia, se as pessoas tiverem de falar de mim, digam que fui uma mulher com força, que acreditei na minha criatividade e no meu talento. Qualquer oportunidade que Deus me der de continuar a fazer o que eu gosto, vou continuar. A coisa mais importante não é o que estamos a fazer, mas como é que nós fizemos as pessoas sentirem… Tudo o que temos a fazer no mundo tem de ser bom e tem de deixar as pessoas alegres. Assim, no dia que deixarmos de fazer parte do mundo, as pessoas vão-se lembrar de que a nossa música as fez sentir alguma coisa neste percurso.

A música é mais um princípio ou é mais um fim, para si?

As duas coisas. Princípio e fim. Eu começo com música. A minha vida é tudo música: respiro, como e quando eu já não estiver no mundo, o que vai ficar será a minha música.

 

O que lhe falta cantar?

Não sei. Mas acho que já tentei tudo o que mais me interessa.

 

Ainda é Queen Choco?

Sim, com certeza.

 

Qual é a história deste pseudónimo?

Eu cresci numa zona de Joanesburgo cheia de artistas. Eu comecei a minha paixão pela música nessa zona. Porque eu sou escura, chamavam-me de Chocolate. Esse nome ficou comigo. Eu sempre gostei de house music, embora não soubesse como faria. Eu tinha começado a trabalhar com muitos DJ. Não querendo confusionar os fãs que conhecem a Wanda como cantora de jazz, soul, pensei em Queen Choco como alternativa. E assim ficou o nome. Meti-me numa escola e aprendi a ser DJ.

 

Então aprende-se a ser DJ numa escola?

Sim, existem escolas para isso. Há uma ciência para se saber como misturar. Essa é a parte mais importante da actividade do DJ. O segredo é sempre misturar sem que a pessoa que está a ouvir perceba que estamos a mudar de música. Tudo tem de parecer a mesma música, o que exige coerência na selecção. É complicado, mas com prática, tudo fica mais simples.

 

Consegue definir à vontade quando deve ser Wanda e quando deve assumir a face de Queen Choco?

Essa é a parte mais difícil. A Wanda leva-me muito tempo e é mais intensa. Leva meses no estúdio, a gravar e tem muito trabalho. Com Choco é mais fácil, mesmo quando tenho de cantar. E aqui a colocação vocal é diferente.

 

Ter público a seguir-nos no palco e longe do palco deve mexer connosco. No seu caso, de que forma isso acontece?

Esta coisa de ser artista ou figura pública é interessante. O número das pessoas que nos seguem não é proporcional ao número dos que estão na nossa vida. Muitas vezes, temos muitos seguidores nos espectáculos e nos Instagram. Mas, quando voltamos a casa, estamos sozinhas. Às vezes o telemóvel nem toca. Contraste. A vida de artista é solitária e complexa. Isso pode complicar a nossa cabeça. Por isso, devemos estar calmos e voltarmos a nós todos os dias para conseguirmos voltar a nossa vida.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a música de Matchume Zango, que oiçam DJ Ardiles, DJ Dilson, Amanda Black e Big Zulu.

 

PERFIL

Wanda Baloyi pertence a uma família de músicos, e pode ser descrita como uma cantora de ‘cocktail africana’ e neo-soul, com interesse multilinguístico: inglês, português, zulu, changana e guitonga. Lançou seu primeiro álbum, Voices, pela Universal Music, e ganhou o Melhor Arranjo Africano no Kora Awards, duas indicações SAMA e uma indicação ao Channel O Music Video Award. Seu segundo álbum, So Amazing, foi seguido por Colours, em 2009, e Love & Life, que ganhou seu prémio de Best Urban Jazz no Metro Fm Music Awards 2015, produzido pelo estimado e premiado artista Kabomo. Até o momento, Wanda Baloyi já se apresentou em vários festivais internacionais e fez turnês pela África do Sul para promover o projecto Love & Life, que mereceu um remix internacional para uma de suas canções intitulada “Kisses”, remixado por Louie Vega.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O jornalista e escritor Albino Magaia foi homenageado numa sessão online realizada na Fundação Fernando Leite Couto, na cidade de Maputo. O evento contou com a participação de Luís Loforte, Tomás Vieira Mário, Ana Magaia, Celso Muianga e ainda com a presença da viúva do autor: Leia Magaia.

 

Entre 2009 e 2010, a MISA Moçambique decidiu homenagear Albino Fragoso Francisco Magaia.  Nessa altura, o jornalista e escritor foi informado e reagiu com muita frieza, sem entusiamo. Ainda assim, pedidos de patrocínios foram enviados a empresas e, segundo Tomás Vieira Mário, respostas satisfatórias tiveram. “Um dia, eu estou em Paris, numa reunião da UNESCO. O telefone toca. Era o Director-Geral dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) a dizer: “Parabéns, nós já aprovamos o orçamento para a homenagem ao Magaia. Será feita com o nosso patrocínio”. Como é óbvio, o “discípulo” do célebre jornalista ficou satisfeito e na expetactiva de cumprir uma missão justa em nome do seu “mestre”. Entretanto, na madrugada seguinte, 3h da manhã, o telefone de Tomás Vieira Mário voltou a tocar, dessa vez, a notícia não poderia ter sido tão… desastrosa: Albino Magaia tinha morrido.

Assim, todo um plano de homenagear Magaia ainda vivo ficou sem efeito. 11 anos depois, num acto de justiça, a Fundação Fernando Leite Couto resolve colher “Uma flor para Albino Magaia”, designação da sessão de homenagem realizada esta sexta-feira, na cidade de Maputo. Além de Tomás Vieira Mário, o evento que durou mais ou menos 40 minutos juntou Luís Loforte e Ana Magaia, numa partilha de testemunhos moderada pelo editor Celso Muianga.

Sem presença de público, devido à COVID-19, a homenagem foi transmitida online pela redes sociais da Fundação Fernando Leite Couto. Aproximadamente 200 pessoas ouviram Luís Loforte, amigo do homenageado, dizer que já naquela altura de uma revolução muito mais intensa, Albino Magaia recusou, de certo modo, ser um homem que escrevesse aquilo que convinha a história e a política. “Ele bateu-se mesmo perante as altas esferas da governação do país e do partido. De certo modo, posso pensar que a sua ida ao Niassa pode ter sido devido à sua resistência em relação a um certo jornalismo que servia o unanimismo”.

A Luís Loforte, o autor de Yô Mabalane incentivou a escrever para revista Tempo. “Lá fiz algumas crónicas de âmbito cultural, e, nos anos 90, quando muitos jornalistas abandonaram a profissão, se calhar, por protesto, ele incentivou-me a escrever. Eu escrevi durante um ano e meio crónicas e apontamentos culturais. Ele incentivou-me para que reunisse todo esse acervo e publicasse um livro. Para me dar maior incentivo, propôs-se a fazer o prefácio desse livro”.

De igual modo, Tomás Vieira Mário foi convidado por Albino Magaia a publicar crónicas sobre Niassa na revista Tempo. “Nessa altura, escolhi Magaia, de forma consciente, como modelo de jornalista, fonte de inspiração, minha meta profissional”. Por isso mesmo, Tomás Vieira Mário não deixou de agradecer: “Obrigado à família Couto por esta ocasião que me permite lembrar alguém que nos marcou profundamente como jornalistas, escritores e como moçambicanos”. E Ana Magaia reiterou os agradecimentos em nome da família: “É um bocado difícil quando se trata de falar dos nossos, mas é com muita honra e é com muito privilégio que, sobretudo, agradecemos à família Couto, que se lembrou e ainda se lembra de homenagear os nossos escribas, homenagear as pessoas que deixam algo para este Moçambique”.

 

Homenagear Albino Magaia é um acto de esperança

Terminada a sessão online “Uma flor para Albino Magaia”, Celso Muianga explicou por que a Fundação Fernando Leite Couto homenageou o jornalista e escritor. Segundo afirmou o editor, “recordar e celebrar Albino Magaia, nestes tempos pandémicos e incertos, é uma forma de resgatar a esperança dos moçambicanos. Albino Magaia é uma das maiores figuras do jornalismo em Moçambique. Contribuiu de forma decisiva para o ensino do gosto pela leitura. Em homenagem ao nosso patrono Fernando Leite Couto e ao Albino Magaia, ambos foram amigos e trabalharam juntos, esta casa tem-se dedicado à formação de novos leitores. Esse é um sonho de Magaia e Fernando Leite Couto”.

Albino Fragoso Francisco Magaia nasceu a 27 de Fevereiro de 1947. Foi veterano de luta contra o regime colonial português, tendo, por isso, sido preso pela PIDE. Depois da independência, o autor de Malungate; Trilogia do amor e Moçambique: raízes, identidades, unidade nacional foi responsável pela formação de muitos jornalistas nacionais. Foi membro-fundador, e depois, Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). A 27 de Março de 2010, Albino Magaia morre, portando, 28 anos depois de ter publicado Assim no tempo derrubado, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco. Num dos textos desse livro, escreve o poeta: “Quando eu morrer/ que nem uma lágrima se perca na poeira de Moçambique/ Terra quente que receberá meus restos/ E os corromperá pela eternidade fora./ Que o sol não deixe de brilhar quando eu morrer/ Mas resplandeça com muito mais brilho/ Para meu irmão que estará vivendo./ Quando eu morrer/ Que nem poetas cantem minha morte e vida difícil/ Mas chorem dor de quem em meu lugar estará vivendo.”.

 

No dia 20 de Setembro de 2001, quando Noémia de Sousa completava 75 anos de vida, o livro Sangue negro foi finalmente lançado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), no Paços do Conselho do Município de Maputo. A “Mãe dos poetas moçambicanos”, na altura doente em Portugal, não esteve presente nessa cerimónia – ao lançamento foram familiares e amigos. A homenagem em livro veio mesmo a calhar, pois, um ano mais tarde, Noémia morre em Cascais. Hoje, passam aproximadamente 20 anos de publicação de um dos livros mais representativos da literatura moçambicana e africana. Por isso, esta página d’O País pretende convidar autores que conviveram, colaboraram e/ou estudaram a obra de Noémia de Sousa, como forma de homenagear uma mulher que, já no período colonial, se expôs em prol da liberdade de um povo e de uma nação que agora existe. O primeiro autor que convidamos para esta série de entrevista é Francisco Noa. O professor universitário e ensaísta colaborou na histórica primeira edição de Sangue negro.

 

Francisco Noa, já lá vão 20 anos após o lançamento de Sangue negro. Qual é a sua percepção sobre a actualidade do livro de Noémia de Sousa?

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que participar da edição do livro da Noémia, em 2001, foi, possivelmente, um dos projectos mais gratificantes da minha vida, em termos profissionais, como professor de literatura, e em termos pessoais, porque se tratava ali de fazer uma espécie de justiça, podemos mesmo dizer, justiça histórica. Como sabe, a Noémia não tinha sido editada ainda. O que circulava eram cópias de manuscrito dela, e essas cópias circulavam desde os finais dos anos 40. Ela, como nós sabemos, tem uma importância fulcral na literatura moçambicana, nas literaturas africanas, porque faz parte da geração fundadora. Tenho defendido que esta é a geração mais importante da literatura moçambicana porque conseguiu instituir aquilo que são os modelos, os paradigmas da nossa literatura e que vingaram em termos temáticos, estruturais, estéticos e, inclusivamente, em termos ideológicos no sentido daquele compromisso, na altura, com o projecto de país. Esta geração da Noémia, do Craveirinha, do Knopfli, do Rui Nogar, Fonseca Amaral, Aníbal Aleluia, Orlando Mendes, entre outros, teve o mérito de concorrer para o surgimento da literatura moçambicana, como sistema, com qualidade e maturidade absolutamente extraordinárias. E se formos a olhar para a idade deles, à época, eram muito jovens. Alguns nem chegavam aos 20 anos nos anos 40. Há uma grande maturidade da parte deles de ordem política e estética, daí que a obra deles perdura até os nossos dias. Ela tem eco nas novas gerações e continuará a ter nas gerações vindouras. Costuma-se dizer que os génios são os fundadores e os outros são simplesmente seguidores. No caso da Noémia, penso que essa relevância é ainda maior. Primeiro porque ela era mulher num contexto como aquele. Se nós, em pleno século XXI, ainda temos problemas do ponto de vista do lugar que a mulher deve ocupar na sociedade, o papel da Noémia, ao assumir o protagonismo artístico e cultural atinge uma dimensão que ultrapassa a própria época dela. Então, quando surgiu esta possibilidade de editarmos a Noémia, muito pela persistência do Nelson Saúte, que esteve à frente da iniciativa e pela autoridade intelectual e amizade que ligava a professora Fátima Mendonça à Noémia, nós conseguimos fazer a edição do livro. Obviamente com o papel editorial de enorme importância jogado pela AEMO. O que acontece é que muita gente tentou, durante anos a fio, editar a obra dela, mas em vão. E aqui há uma particularidade que é importante salvaguardar, é que Noémia de Sousa não era apenas uma grande poetisa. Não era só uma poetisa excepcional. Ela era uma grande senhora no sentido de que conjugou o percurso da vida dela, as posições de vida com aquilo que escreveu. Todos os valores e princípios que estão registados na obra tinham a ver com aquilo que era a vida dela. Então, nós, ao fazermos este acto de justiça, não era só do ponto de vista estético ou literário, mas era também da pessoa, da senhora Noémia de Sousa. Outro apescto importante a assinalar é que a Noémia escreveu por um período muito curto e ela tinha dificuldades de se assumir uma poeta, uma artista. Muitas vezes, em privado e em entrevistas, defendia que os seus poemas não tinham a relevância que lhes era dada. Digamos que ela representava os valores que hoje estão em desuso, numa convicta e reiterada  atitude anti-vedeta. Ela manteve essa atitude até ao fim da vida dela, porque ela dizia que não era poeta. Havia muita humildade da parte dela e essa humildade perpassa profundamente nos textos dela. Perante a nossa insistência, ela ficou encostada entre a espada e a parede no sentido de que a humildade podia-se transformar numa outra injustiça, que era não haver um monumento para ela. Para mim, o maior monumento que se pode fazer a uma figura como a Noémia era publicar o livro. E, neste caso, era publicar Sangue Negro. Depois de muita relutância da parte dela, acabou por aceitar, sempre com a ressalva de que não merecia. E lá conseguimos publicar o livro. Felizmente, um ano antes dela morrer. Foi muito importante fazer-se esta justiça enquanto ela estava viva.

Os impactos da obra da Noémia?

Os impactos da obra da Noémia e daquela geração? Eu penso que eles continuaram a ecoar na nossa literatura e, até certo ponto, na sociedade. Uma das grandes virtualidades da arte e da literatura em particular é ela ter também uma dimensão antecipatória. Muitas das coisas que hoje estamos a viver, caso da questão da independência política, foi projectada nos anos 40 por esta gloriosa geração. Não eram muitos os que concebiam a independência política do país nessa época. Inclusivamente, nos finais dos anos 40, ela fez parte de um grupo onde estava o Ricardo Rangel, Dolores Lopes e o José Craveirinha que escreveu uma carta exactamente a reivindicar a independência de Moçambique, facto que está muito presente na poesia dela. Como nós sabemos, a poesia da Noémia, por um lado, tem a ver com as injustiças da sociedade colonial, tem a ver com reivindicação de um território cultural, mas também tem a ver com a previsão, com a antecipação de um país por vir, que é esta nação política que na altura não existia, era apenas um território subjugado. Penso que a conjugação de todos esses elementos: de natureza ética, social, política e de natureza estética vão norteando aquilo que é a nossa literatura. Tudo o que eles conceberam e intuiram está lá. Tudo o que Luís Bernardo Honwana escreveu, está lá; tudo o que a geração Charrua escreveu, está lá; tudo o que as novas gerações estão a escrever, está lá, sobretudo porque a Noémia transcendia algumas tendências que têm a ver com os “ismos”, que fomos conhecendo ao longo das décadas. Ela tinha uma visão muito ampla, e o que ela queria passar na sua escrita era exactamente uma aspiração aberta da relação profunda que tinha com uma terra, que era a sua e de todos que a ela pertenciam, e que era muito sofrida por causa da sobreposição colonial. A Noémia de Sousa tem o mérito de a sua poesia, algo que vai ser uma das marcas da nossa literatura, dar voz àqueles que não tinham voz. No caso dela, estamos a falar de todos os que eram subjugados, dos homens das mulheres, das prostitutas, dos magaizas (que são os mineiros), dos trabalhadores do porto. Sem que fosse assumidamente feminista, ela representa uma visão muito ampla e uma sensibilidade particular sobre o lugar e o papel da mulher na sociedade, combativa, irreverente e visionária.

 

A grande homenagem a Noémia foi a publicação do livro dela ainda viva. Publicado o livro, lá vão 20 anos, como podemos continuar a cantá-la?

O facto de nós, hoje, termos uma literatura onde prevalece a diversidade, a irreverência e a continuidade em relação aos elementos telúricos, sociais e culturais, mostra que a escrita e o exemplo da Noémia e da geração dela vingaram. A grande celebração que nós fazemos à memória da Noémia e a toda geração é que nós estamos com uma literatura, hoje, não só de grande vitalidade, mas também de grande qualidade. Nós temos uma série de jovens que, na sua irreverência, não deixa de ter uma preocupação de se ligar àquilo que são as grandes preocupações universais e da sociedade em que estão inseridos; no sentido do papel que têm de ter no processo da transformação da sociedade; no sentido de apelar a uma perspectiva até mais cosmopolita do que localista.

 

A primeira edição de Sangue negro saiu sob a chancela da AEMO, em 2001. Cantar a obra da Noémia passa por a reeditarmos, para que mais pessoas possam a ler…

Eu entendo essa preocupação e acho que seria bom que assim fosse. Se a AEMO não consegue fazê-lo, outras editoras dentro e fora do país podem fazê-lo, tal como o fez a Kapulana, no Brasil. Mas, muitas vezes, a melhor forma de nós preservarmos uma certa memória é ao nível do nosso subconsciente. Entendo que isso está presente na literatura que nós fazemos hoje. Ela, em parte, continua estando ligada a essa matriz que determinou que esta literatura fosse moçambicana, com questões ligadas à oralidade, às tradições africanas, a questões sociais e culturais. Tenho participado de alguns saraus culturais de homenagem à Noémia, curiosamente organizadas por jovens. Significa que esta memória está presente. Obviamente que termos uma nova edição nacional seria uma outra forma de perpetuarmos a memória dela. Mesmo assim, ao nível daquilo que podemos considerar substracto criativo das gerações que vieram depois dela, o legado dela está lá muito presente.

 

O que dizer da edição brasileira?

A edição da Kapulana de Sangue negro (2016) penso que abriu outros horizontes da recepção da obra da Noémia no sentido de que se ela estava circunscrita a um espaço mais africano, com a edição da obra dela no Brasil dá uma possibilidade muito mais vasta de alargar os universos da recepção, da leitura e do conhecimento da literatura moçambicana. Não tenho dúvidas de que conhecer um autor de um determinado país já é uma porta que nós estamos a abrir para conhecer um pouco, ou muito, da realidade desse país. Felizmente, neste momento temos vários autores nacionais a serem publicados no Brasil, e não só, o que dá uma maior amplitude da relevância que a literatura moçambicana vai tendo também.

 

A escrita da Noémia projecta um país antes de existir. Que mensagens ela continua a enviar-nos agora que o país existe?

É interessante que esta questão de um país por existir atravessou aquela geração. São vários os poemas com essa característica. Por exemplo, “Poema do futuro cidadão”, “Sia Vuma”, de Craveirinha. No caso da Noémia, há o “Poema da infância distante” (aliás, o tema da infância é muito forte nesta geração), em que é uma representação daquilo que eram as particularidades existenciais dela na infância e que, no fundo, era um retrato das potencialidades, injustiças, contradições, da sociedade em que ela se encontrava. Mas é um poema com uma forte projecção para o futuro. Há uma passagem que ela diz: “Eu creio que um dia o sol brilhará sobre o Índico”. Portanto, o que é de enaltecer nesta poesia é que além de se preocupar com as questões do seu tempo, ela virou-se para o futuro e numa perspectiva que significava um compromisso com um ideário, e esse ideário tinha a ver com uma nação independente, multirracial, multiétnica e multilinguística. Até certo ponto, nós conseguimos isso. É por isso que considero que o mérito desta geração, o mérito desta literatura, esta relação profunda, reivindicativa e valorativa com a terra, com a sociedade, e que transcende sempre o campo eminentemente estético e que atinge o domínio político e social. Por isso ela acaba por ser incómoda, e foi incómoda. Não é por acaso que Craveirinha, Rui Nogar e Luís Bernardo Honwana foram presos. A literatura mexe com crenças e com convicções e, sobretudo, com os poderes instituídos.

Há receitas para que o país continue produzindo autoras do nível Noémia?

Penso que essas autoras, sobretudo na poesia, já estão a surgir. Estou a pensar na Hirondina Joshua, na Melita Matsinhe, na Sónia Sultuane e na Lica Sebastião, entre outras. Não sei se existem receitas, além da leitura, obviamente, mas penso que a literatura moçambicana, depois de um período não muito bom, finais dos anos 90, penso que hoje está com outra vitalidade, com outra energia e, sobretudo, está com outra qualidade e aberta a novas experiências. Antes era a Noémia praticamente sozinha. Hoje nós temos muitas Noémias, na dimensão obviamente de cada uma delas. O mérito da Noémia está no facto dela fazer parte de uma plataforma fundadora, que lança tudo aquilo que vão ser as linhas criativas e produtivas daquilo que hoje vamos chamar literatura moçambicana. Eu penso que essa vitalidade está aí. Quer nas mulheres, quer nos homens também.

 

Voltando ao impacto da obra dela nas gerações vindouras…

Penso que o exemplo da vida dela assenta muito na questão ética. Nós vivemos um período, uma época, um tempo em que as questões éticas são absolutamente secundarizadas. Há um processo acelerado de desumanização da própria humanidade, por vários motivos, e um dia podemos falar disso. A figura da Noémia torna-se importante como uma referência tutelar do ponto de vista ético, sobretudo pela humildade, pela sua coerência em toda a sua vida. Contrariamente ao que ela foi e sempre defendeu, o que nós vivemos na nossa época em que muitos de nós gostamos de nos pôr em bico dos pés, acreditando em coisas que não somos e não teremos nunca. Quando nós lemos a biografia da Noémia, a obra dela, a vida dela, nós temos que parar e projectar aquilo que foi o percurso e o exemplo dela na vida que nós vivemos, de facto, a relação com os outros e com a humanidade, aquilo que o filósofo franco-lituano, Levinas, defende sobre a responsabilidade em relação ao outro. A Noémia procurou sempre ser responsável por todos outros, sobretudo por aqueles que não tinham voz e mal se podiam defender. Há, por exemplo, um episódio simplesmente memorável que foi o facto de ela, por iniciativa própria, ter estado, e de forma destemida, por detrás de um movimento de apoio, nos finais dos anos 40, a um jovem moçambicano que não estava a conseguir continuar os seus estudos na África do Sul. Esse jovem chamava-se Eduardo Chivambo Mondlane.

 

 

A Associação Moçambicana dos Cineastas (AMOCINE), o Instituto Superior de Artes e Cultura (IsArc), a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e a NetKanema uniram-se para celebrar a vida e obra do mais importante escultor moçambicano.

 

A 19 de Fevereiro de 1994, lá vão 27 anos, morreu o mais importante escultor moçambicano: Alberto Chissano. O artista que influenciou e continua a inspirar toda uma geração perdeu a vida depois de ter contribuído, de forma sublime, para a promoção das artes e da cultura moçambicanas. Por isso mesmo, a Associação Moçambicana dos Cineastas, o Instituto Superior de Artes e Cultura (IsArc), a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e a NetKanema uniram-se para realizar um tributo ao longo deste ano.

O tributo iniciou no passado dia 19, data da morte de Chissano, com a disponibilização gratuita de um documentário sobre o grande “mestre”, na plataforma NetKanema. A ideia da organização é que mais moçambicanos tenham a possibilidade de conhecer a obra de Alberto Chissano, cujo talento foi reconhecido por Winnie e Nelson Mandela, quando em 1990 visitaram a sua galeria em Maputo.

Além da exibição do documentário realizado por José Augusto Nhantumbo (Zegó), as entidades que se associaram à causa Chissano vão promover uma série de conversas relacionadas com a vida e obra do escultor, quer ao nível filosófico e académico, quer ao nível social. “Decidimos homenagear o mestre Chissano porque é o nosso maior escultor, uma pessoa que levou o nosso país a uma dimensão muito alta, uma personalidade cuja obra ainda precisa de ser estudada”, afirmou esta terça-feira, na cidade de Maputo, Zegó.

Segundo o realizador, esta foi a maneira encontrada para se repensar Alberto Chissano em várias dimensões. Com efeito, o documentário foi disponibilizado gratuitamente para que sirva de base de reflexão. “O documentário será uma provocação para instigar conversas. Acho que este tributo vai interessar as pessoas da minha e da geração vindoura”.

O documentário baseado em depoimentos da família Chissano e amigos, com recurso a material de arquivo, na verdade, foi estreado há quarto anos. Agora, volta à tela para reanimar uma memória que, segundo José Augusto, deve cantar a obra do escultor de Manjacaze.

Entre as personalidades convidadas ao tributo a Chissano estão Severino Ngoenha, Filimone Meigos, Mussagy Jeichande, Alda Costa e António Sopa.

O escultor Gonçalo Mabunda expõe 18 peças de escultura em metal na cidade de Milão, em Itália. As obras podem ser visitas de forma virtual até 3 de Abril.

 

Milão não é uma cidade desconhecida para Gonçalo Mabunda. Em 2010, o artista foi distinguido com o Prémio Especial da Cultura de Milão. Em Itália, a sua obra também mereceu outra consideração: o privilegio de estar patente no Museu de Vaticano, o que, para o escultor, é especial, afinal demonstra o interesse do povo italiano pelo seu trabalho. Assim sendo, mesmo em tempos de pandemia, o artista moçambicano foi convidado a apresentar 18 peças na Galeria Lis10, numa colaboração com a Galeria Giovanni Bonelli.

Intitulada “Gonçalo Mabunda – Massimo Kaufmann”, a exposição inaugurada no passado dia 18, na rua L. P. Lambertenghi 6 de Milão, estará aberta para visitas presenciais (limitadas) e virtuais. À mostra, o escultor levou um conjunto de obras que retratam o quotidiano moçambicano e o que se passa um pouco por todo mundo neste tempo que considera estranho. Com esse retrato, explicou, Gonçalo Mabunda procura ser um mensageiro. “Sei que não sou um mensageiro, mas procuro ser”.

Na Galeria Lis10, as obras de Mabunda estão expostas com as do italiano Massimo Kaufmann, pois o curador, Giorgio Verzotti, quis combinar as perspectivas criativas dos dois artistas, unindo, assim, escultura em ferro com a exuberância da cor em telas de pintura enormes.

Ora, ao contrário do que tem acontecido, desta vez, em Itália nem todos os cidadãos poderão apreciar presencialmente as obras do moçambicano. Segundo disse Gonçalo Mabunda, esta segunda-feira, apenas os residentes na cidade terão essa possibilidade. Os outros, com efeito, podem garantir a presença na galeria de forma virtual.

A exposição de Mabunda na rua L. P. Lambertenghi 6 de Milão é fruto de uma parceria com a Galeria Lis10, iniciada ano passado.

Com 46 anos de idade, Gonçalo Mabunda já expôs um pouco por todo mundo. Por exemplo, o escultor tem exposições realizadas nos seguintes países: África do Sul, Senegal, Marrocos, Etiópia, Reino Unido, Espanha, Bélgica, França, Países Baixos, Alemanha, Noruega, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul, Japão, Cuba, Canadá, e Estados Unidos de América.

A mostra “Gonçalo Mabunda – Massimo Kaufmann” foi inaugurada dia 18 deste mês e estará patente até 3 de Abril.

 

O cantor e compositor disse, esta sexta-feira, em Marracuene, que reúne pelo menos 30 músicas inéditas. Aos 93 anos de idade, o grande objectivo do autor é gravar um novo disco a solo.

Ali na Vila de Marracuene, há mais ou menos 30km da cidade de Maputo, vive “O rei da marrabenta”. A sua casa encontra-se à beira da estrada e, não poucas vezes, é visitada por curiosos ou por personalidades que reconhecem na longevidade de Dilon Djindji algo autêntico. Esta sexta-feira, uma das pessoas que lá foi ter com o compositor e cantor é a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, acompanhada pelo Administrador de Marracuene, Shafee Sidat.

À margem dessa recepção, em exclusivo a este jornal, o “king” partilhou que, aos 93 anos de idade, continua a compor e a cantar. Facilmente. Uns 5 minutos e… pimba. Sai uma composição. Por isso, tem uma vontade enorme de gravar em disco cerca de 30 músicas inéditas, guardadas no seu espólio por falta de financiamento.  Enquanto houver saúde, Dilon Djindji quer continuar a compor e a gravar música, porque, para si, cantar significa promover o seu distrito de Marracuene e o país inteiro. “Temos de cantar para alegrar os corações das pessoas. Quando isso acontece, até os nossos antepassados descansam em paz”.

Na verdade, Dilon Djindji, neste momento, tem dois projectos. Além de gravar as músicas inéditas, pretende reproduzir duzentas cópias do disco “O rei da marrabenta” para oferecer aos médicos e ao pessoal da Saúde como reconhecimento da dedicação prestada aos cidadãos neste momento difícil. “Os médicos ajudam-nos bastante e as pessoas estão a ser curadas nos hospitais”.

Sobre a visita de Eldevina Materula, acompanhada por Shafee Sidat, o “king” disse que é sempre especial quando é visitado por um dirigente moçambicano. Tal gesto, acrescentou, faz com que se sinta valorizado. Entretanto, não deixou de lamentar por não receber a pensão do idoso, o que complica e muito a necessidade de levar pão à mesa, sobretudo agora, sem possibilidades actuar num espectáculo com público.

Dilon Djindji nasceu a 14 de Agosto de 1927, em Marracuene. 10 anos depois, descobre a música, que o permitiu cantar nos seguintes países: África do Sul, Portugal, Inglaterra, Noruega, Alemanha e Emirados Árabes Unidos. Um dos seus pilares é a esposa, Alice Macanana, com quem teve oito filhos, fruto de um casamento que já dura há apenas… 60 anos.

 

 

 

O poeta Armando Artur comemora 35 anos de percurso literário com a publicação de três livros. Falando do que aí vem em termos de obras, esta quinta-feira, na cidade de Maputo, o autor aproveitou a ocasião para dizer que a crítica não está a conseguir acompanhar a evolução da produção literária no país.

Em termos de publicação, tudo começou há 35 anos. Não precisa fazer as contas. Foi em 1986 que o poeta Armando Artur estreou-se em livro, intitulado Espelhos dos dias, com capa do seu eterno confrade da Charrua: Ídasse Tembe. Aquela obra literária foi muito importante para o então novo autor, afinal mereceu boa recensão crítica, dando-o aquela lufada de ar fresco como boas-vindas.

Alguns dos poemas que compõem o primeiro livro de Armando Artur, esgotado, foram escritos em 1981 e, para o autor, parece que o tempo não passou. Sobre o livro, a ensaísta Fátima Mendonça escreveu: “Obra de estreia que recupera o lirismo e com ele reabre um dos caminhos possíveis para a literatura moçambicana”.

A fim de celebrar 35 anos de um percurso que, de certo modo, consolida-se com Espelhos dos dias, Armando Artur vai lançar três livros, logo que a situação da crise sanitária permitir. Na verdade, não fosse o Coronavírus, o autor já os teria lançados. Seja como for, o primeiro livro (poesia) será publicado em  Portugal e, depois, em Moçambique. O segundo, organizado pelo escritor e crítico literário Lucílio Manjate (uma antologia de poesia de Armando Artur) será editado pela Alcance Editores. Por fim, “tenho também um conjunto de recensões literárias sobre algumas obras que me marcaram ao longo do tempo, quase todas publicadas na página online do jornal O País. Decidi reunir esses textos, que aguardam por financiamento, mas vão sair”.

A CRÍTICA NÃO ACOMPANHA A EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO LITERÁRIA

Armando Artur sublinha que a literatura moçambicana continua a produzir bons autores, quer na poesia, quer na prosa. “A nossa literatura está num bom caminho. Estão a surgir autores de gabarito”. No entanto,  “o único senão, neste processo todo, sinto que a crítica não está a acompanhar a evolução da produção literária em Moçambique. Compreendo que os produtores da crítica talvez não estejam ainda em condições de fazer este acompanhamento. A minha esperança é que a breve trecho haja essa produção da crítica, porque a crítica e a produção literária devem andar de mãos dadas. É assim como se caracteriza o desenvolvimento de uma literatura. É verdade que acontecem estudos, como em relação à minha obra, com várias teses de licenciatura e de mestrado. Coisa que até pouco tempo não existia no país. Antes, quase sempre esse tipo de estudo acontecia fora do país”.

Para Armando Artur, a escrita é um ofício que ninguém o incumbiu como produtor literário. Continua sendo um compromisso para com o país, que só pode alcançar o sucesso almejado, na sua marcha de desenvolvimento, se também tiver uma boa literatura. “É a literatura que regista os momentos mais emocionantes e mais profundos da história de um povo”. Por isso, sempre será prazeroso publicar livros, inclusive para uma geração pós-Espelhos dos dias. Sem mudar de assunto: “O que me deixa feliz, de certo modo, é que muitos poetas da nova geração afirma que começou a escrever lendo os meus poemas. Não há melhor coisa, para um escritor, do que ter prossecutores na literatura. Nada me deixa mais feliz neste mundo do que a leitura e a escrita”.

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