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A pintora e escultora Bena Filipe considera que a arte e o activismo cultural devem estimular atitudes positivas, servindo de ferramentas que concorram para despertar a sociedade. Com duas individuais expostas em Nampula e Maputo, a artista plástica tem usado o seu poder criativo na ressocialização das pessoas.

 

15 anos depois de ter descoberto o encanto das tintas, no bairro Malhangalene, na cidade de Maputo, Bena Filipe continua comprometida com as artes plásticas. Entretanto, a autora das exposições individuais Expor um dia e Retrato da minha sociedade no feminino, há alguns anos, decidiu acrescentar à sua arte outro nível de relevância. Além de compromissos ligados ao belo, Bena Filipe resolveu fazer da arte uma ponte que aproxima pessoas aparentemente segregadas. “Fui notando que a diversidade cultural é muito abrangente e, com melhor, reaproveitamento, pode-se educar, recuperar mentes, melhorar os hábitos e costumes e ressocializar”.

A pensar na ressocialização, a pintora e escultora quer que a arte, nessa vertente mais humanista, seja mais praticada, consumida, entendida como educadora e de correcção nos diferentes níveis sociais, com enfoque para os mais sensíveis e vulneráveis (jovens e adolescentes). Assim tem sido nestes anos. Quando Bena Filipe identifica, observa um problema ou, por oposição, encontra uma acção positiva, a tela e o ferro apresentam-se como materiais privilegiados para uma justa reflexão conjunta.

A artista que expôs a sua primeira individual no Museu Nacional de Etnologia de Nampula, lá vão cinco anos, é interessada em emitir mensagens relacionadas a várias áreas de interesse social, humano e histórico. Há um grupo alvo mais específico, mas o seu maior interesse também é chegar a toda gente, afinal, segundo defende, “a Cultura e o activismo só existe, se todos sermos activos, uns fazendo a acção e outros recebendo de forma proveitosa”.

Num país em que o produto artístico chega a muito poucos, Bena Filipe usa a arte e o activismo sociocultural para sensibilizar, mudar posturas, chamar à reflexão, com coração aberto e verdadeiro,
embora sem nenhum tipo de apoio financeiro nas suas actividades.

Entre os lugares frequentados por Bena Filipe nessa determinação de fazer das artes pretextos para pensar nas pessoas e nas suas circunstâncias, a artista plástica tem visitado locais como a cadeia feminina de Ndlavela (Maputo) ou a casa das prostitutas de Chimoio (Manica). “As visadas recebem-nos com todo amor, calor, pois percebem que as queremos bem. Rimos, convivemos, tomamos o lugar de as criticar pelo errado, e encorajando para mudança de ter um destino ou futuro diferente.

Com efeito, temas como violência contra mulher são necessariamente tratados, de várias formas, até porque é do interesse da artista que mais mulheres estejam consciencializadas em relação aos seus direitos. “Apelo para que a responsabilidade social das grandes empresas, a sociedade civil e o Governo seja mais diferenciada e identifique-se também com projectos de artes em pessoas privados de liberdade, e em situação indefinida e vulnerável”.

O PERFIL DA ARTISTA

Bena Filipe nasceu na Cidade de Maputo. Começou a pintar em 2006, no bairro da Malhangalene. Tinha como mestre seu irmão, que frequentou a Escola de Artes Visuais. A sua primeira exposição individual, Expor um dia, foi apresentada no Museu Nacional de Etnologia de Nampula, em Fevereiro de 2016. Na EXPO MUSARTE 2016/2017 foi distinguida com menção honrosa, com a obra intitulada o Desfalecer da saúde perante o olhar silencioso da sociedade. Já a sua segunda individual teve lugar na Casa da Cultura do Alto-Maé, na Cidade de Maputo, em Novembro de 2019. As suas obras também constam em exposições colectivas. Além de artista e activista cultural, Bena Filipe é médica.

 

“Stone cold lover” é uma composição conjunta, feita à distância. Em Moçambique, D’Manyissa, e nos Estados Unidos, Michael Mayo. A música tem dois minutos e cinquenta e três segundos de duração. Trata de amor e varia entre o Pop e o R&B.

Além de compor o tema, o artista moçambicano criou a melodia da música, tendo, por isso, ajudado na menção honrosa conquistada no SongDoor Songwriting Competition, nos Estados Unidos de América, na categoria Pop.

Para D’Manyissa, “Stone cold lover” foi uma música escrita rapidamente. 24 horas foram suficientes para compor e criar a melodia. E sobre a menção honrosa? “Esta distinção significa que estou no caminho certo, porque o meu trabalho está a ser reconhecido no estrangeiro. Os membros do júri que escolheram a nossa música são pessoas experientes: músicos, professores de composição, arranjistas, e etc. É um privilégio porque foram milhares de concorrentes. Isto significa que temos qualidade”, afirmou D’Manyissa.

“Stone cold lover” marca a primeira colaboração entre Michael Mayo e D’Manyissa. Entretanto, o compositor moçambicano já colaborou com outro artista norte-americano: Caleb Alen, na música “Let there be peace”, há mais ou menos dois anos. A música foi menção honrosa no mesmo concurso norte-americano, em 2020. Ao nível internacional, D’Manyissa destaca ainda a parceria com a autora brasileira Bárbara Silva, formada no Berklee College of Music dos EUA, com a música “Conta comigo”.

Num outro concurso musical, UK Songwriting competition, na Inglaterra, “Stone cold lover” foi semi-finalista em duas categorias: R&B e Pop.

Fevereiro foi o mês escolhido para se lançar, em formato livro de bolso, o livro Quatro histórias, de João Paulo Borges Coelho.

No Brasil, as narrativas de Borges Coelho são editadas sob a chancela da editora Kapulana, que, na sua nota de impresa, escreve: “Nesse conjunto de quatro contos, João Paulo Borges Coelho conduz o leitor por caminhos, tempos e situações diversas. Ora estamos no Congo, ora em Moçambique, ora na China. A história da África, particularmente de Moçambique, aparece nesse cenário desde os inícios do século XIX. São histórias que emocionam por destacar personagens exploradas, sofredoras e resistentes”.

Quatro histórias é o terceiro livro de Borges Coelho que a editora Kapulana publica no Brasil. Os anteriores são os romances As visitas do Dr. Valdez e Crónica da Rua 513.2.

 O mais recente livro de João Paulo Borges Coelho, lançado no Brasil, foi editado em Moçambique pela Fundação Fernando Leite. Eis algum excerto do livro que a Kapulana destaca: “A chegada dos captores à aldeia em Bukavu, nos confins do interior congolês, surgindo do nada como feras rapaces, ávidas de tudo quanto mexia. A fuga precipitada do povo pelo mato fora, ela puxada por um braço pela mãe apavorada, esta caindo trespassada por uma comprida lança para que aprendesse a não fugir, última e escusada lição. E a rapariga ficando ali a segurar a mão de um cadáver trespassado e inútil, até que chegou o árabe com um olho de cada cor – Ahmed lhe chamavam – […]” (in “Maria Ernestina e as quatro senhoras”).

 

O curso de Introdução à Direcção de Orquestra será orientado pelo maestro Cesário Costa. A fim de participarem na iniciativa do Conservatório de Música e Artes do Centro, em parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo, os interessados deverão candidatar-se até 28 deste mês.

Com o curso, segundo a nota de imprensa do Camões, o objectivo é assegurar a aquisição das noções básicas para o desenvolvimento da direcção de orquestra, por exemplo, técnicas de direcção, repertório, análise de partituras, técnicas de ensaio, espírito criativo e consciência crítica, durante 20 horas, entre Março e Abril .

Ainda de acordo com a nota do Camões, as datas e os horários serão combinados entre o maestro Cesário Costa e os participantes, e a plataforma a utilizar durante o curso é Zoom.

Para que os interessados sejam admitidos, devem reunir alguns requisitos, como formação comprovada na área da música. De igual modo, requerem-se noções de harmonia, conhecimentos de análise musical e de história da música.

No fim das candidaturas, serão seleccionados quatro candidatos, que deverão se beneficiar de uma bolsa de 175 euros (mais ou menos 15 mil meticais), concedida pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo. A candidatura é feita através de um link, disponibilizado pelo Camões.

Entre os seus conterrâneos, o português Cesário Costa é um dos mais activos maestros da sua geração. Recentemente, lê-se na nota do Camões, obteve o Doutoramento pela Universidade Nova de Lisboa, com a tese “Noble et Sentimental: Pedro de Freitas Branco e a problemática da interpretação na música de Maurice Ravel”. Em 1997 venceu o III Concurso Internacional Fundação Oriente para Jovens Chefes de Orquestra e, desde então, foi convidado para dirigir inúmeras formações. O seu reportório estende-se do barroco ao contemporâneo, incluindo mais de 130 obras em estreia absoluta. Para além da direcção de orquestras, tem exercido funções de docência e de programação musical em várias instituições. Foi Presidente da Metropolitana/Associação Música, Educação e Cultura, instituição que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa (da qual foi também Director Artístico). Também foi Director Artístico e Maestro Titular da Orquestra do Algarve, entre outras.

 

O Comboio de sal e açúcar, de Licínio Azevedo, está novamente nos carris, quer dizer, nas bancas. O livro com 177 páginas foi reeditado pela editora Ethale Publishing, integrando a coleção Clássicos Africanos.

 

Há 25 anos, Licínio Azevedo lançou o livro O comboio de sal e açúcar. Nessa altura, também foi editado na África do Sul e nos Estados Unidos de América, onde foi escolhido pelo Essence Book Club como livro do mês, em Nova Iorque. Entretanto, em Moçambique, o livro não teve repercussão, segundo constatou o autor. O filme, com o mesmo título, sim, sem dúvida. Mereceu adesão no estrangeiro e em casa. Vai-se ao YouTube e zás, aproximadamente meio milhão de visualizações.

Assim sendo, almejando atingir os leitores que não puderam ter o livro há 25 anos e os que nessa altura ainda eram imberbes, Licínio Azevedo aceitou o convite de voltar a publicar a obra de ficção, agora, pela colecção Clássicos Africanos da editora Ethale Publishing, até para colmatar essa carência na reedição de livros de referência nacional e continental. “Acho que era uma boa hora de o livro sair de novo. Gostei muito da capa [com design de Mélio Tinga], que reflecte um bom trabalho gráfico”.

Ao escritor, segundo disse esta quarta-feira, durante a entrevista conduzida no quintal da sua casa, em Maputo, encanta-lhe a ideia de O comboio de sal e açúcar poder ser lido por gente que já conhece a história. “Como muita gente viu o filme, agora, os leitores têm a possibilidade de ler o livro e comparar, que é uma coisa que me fascina muito. Eu gosto muito de fazer isso, quando há um filme adaptado de um livro”.

De acordo com Licínio Azevedo, é importante reeditar Comboio de sal e açúcar porque, depois de muitos anos, isso significa que o livro sobreviveu ao tempo.

A história por detrás de Comboio de sal e açúcar começa muito antes de o livro ser escrito. A primeira ideia do autor, na verdade, era fazer um documentário, durante a guerra dos 16 anos. Entretanto, lá para os finais da década de 80 o artista não conseguiu financiamento. Os produtores, que não são tolos nem nada, disseram qualquer coisa como esta: “não somos malucos de entregar um equipamento caríssimo, sem garantia de o ter de volta”. O tom, certamente, adivinha-se qual foi.

Logo que terminou a guerra, Licínio Azevedo desistiu do documentário, porque para si é algo do momento. O passado, na óptica do escritor e cineasta, é ficção. Então decidiu aventurar-se num projecto que não precisaria de financiamento: um livro. Mas o projecto não tinha de todo pernas para andar. A fim de viajar pelo Norte do país, nuns anos de muita desconfiança, o escritor precisava de ter autorização dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). O seu interesse era pesquisar, entrevistar pessoas e entrar em contacto com a atmosfera real. O processo criativo exigiu-lhe isso. Quando menos esperava, surge o embaraço. Os chefes e directores dos CFM não queriam saber dessas viagens e pesquisas para o livro. Não compreenderam… Quando parecia que tudo estava perdido, por coincidência, o actual Presidente da República, Filipe Nyusi, que era chefe dos Caminhos de Ferro, entra em cena. “Ele percebeu que eu queria escrever um livro e interessou-se”. Nyusi autorizou as viagens de Licínio Azevedo e lá partiu o escritor de lés-a-lés a desbravar histórias de Moçambique e sobre Moçambique. “Graças à autorização do Presidente consegui fazer aquelas viagens que depois resultaram em livro, e que, 20 anos depois, adaptei para o cinema”.

Nesta quarta-feira, a edição de Comboio de sal e açúcar da Ethale Publishing foi apresentada por Edmundo Galiza Matos, um amigo de longos anos.

Além de Comboio de sal e açúcar, integra a colecção Clássicos Africanos os livros Matigari, do queniano Ngũgǐ wa Thiong’o, e A greve dos mendigos, da senegalesa Animata Sow Fall.

 

Foto: Sérgio Manjate

 

Naguib está preocupado por não compreender como será aplicado o 1% do Orçamento do Estado às artes e à cultura. O artista plástico defendeu, esta segunda-feira, em Maputo, a criação de uma Lei, de uma União e de um fundo do Artista. Enquanto isso não acontece, sugeriu que o Governo explicasse como será utilizada a percentagem no sector em que actua.

 

No último fim-de-semana, Moçambique comprometeu-se em aplicar pelo menos 1% do Orçamento do Estado (OE) ao sector artístico e cultural até 2030. O compromisso foi assumido no encerramento da Cimeira da União Africana e, alguns dias depois, surgem algumas reacções, afinal, a esse respeito, de acordo com Naguib, nada está claro em termos de aplicação e de gestão. Por isso mesmo, do seu jeito vertical, acutilante às vezes, o artista plástico aconselhou, primeiro, para que os seus colegas não entrassem em euforia. Segundo, reconheceu o bom trabalho que Eldevina Materula está a realizar no Ministério da Cultura e Turismo e, terceiro, confessou o seu desconforto quanto ao prazo da iniciativa aprovada na União Africana.

Fundamentalmente, Naguib considera que a aplicação do 1% do Orçamento do Estado às artes e cultura é urgente e não se pode adiar para daqui a nove anos. Paralelamente, faz-lhe confusão a falta de definição para que é que servirá esse 1%. “Não sabemos quem vai gerir esse 1%. Será o Ministério da Cultura ou os artistas? Para que fim será destinado esse 1%? Estamos a falar de 1% num universo, se calhar, de 20 mil artistas, em todas as áreas. Acho que os artistas, nós os artistas, devemos ficar calmos até haver uma explicação detalhada pela Ministra da Cultura”. Enquanto isso não acontece, uma incompreensão: “espanta-me que um valor que irá sair do OE de Moçambique tenha sido decidido na União Africana (UA) se já havia esse interesse”.

Com ou sem clareza do 1% do OE para as artes e cultura, Naguib advoga que o Estado tem de criar a Lei do Artista, capaz de definir quem é o artista e por que é artista. Não obstante, o pintor disse que Moçambique deve deixar de colocar à margem as artes. “Por exemplo, a CTA está virada para o lucro e tem sido apoiada pelo Estado e os seus integrantes viajam com o Presidente da República pelo mundo inteiro. E a cultura? Nós temos direito de ir lá para fora e promover o mapiko, o nyau e a timbila. Precisamos desse direito de ter financiamento e não patrocínio, para que também possamos fazer eventos fora do país”, até porque os bancos não são parceiros nessa questão. “Por mais que eu vá aos bancos para buscar financiamento, não terei. Temos que ver a identidade dos nossos bancos. Neles, quem se identifica com nyau? O que é nyau para os investidores estrangeiros?”.

Outra ideia defendida por Naguib tem que ver com outra criação. Para o artista, um selo de incentivo à cultura é necessário. O pintor explicou que se em cada requerimento no país se pagasse mais 5 meticais aplicado às artes e cultura, por dia o sector teria mais ou menos 300, 400 milhões de meticais. “Multiplicas isso por 30 dias e o artista não tem que pedir favor a ninguém. Temos o Estado. Precisamos de vontade política para fazer as coisas. E este é o momento certo para fazer as coisas, porque temos duas pessoas importantes: a Ministra da Cultura e o Presidente da República, porque estão ligados à cultura. O Presidente tem irmãos bailarinos e sabe o que é cultura. Tem essa sensibilidade. A nossa ministra, quando fala comigo, tira o casaco de ministra. Despois volta a colocar quando vai à reunião. Implementar a ideia de 1% para daqui a 10 anos, é muito tempo”.

Criando-se a Lei do Artista, Naguib entende que se seguirá a da União dos Artistas e do fundo específico, com envolvimento das grandes empresas nacionais que dizem apoiarem a cultura. “Chamem a isso socialismo ou não, mas o Estado tem criar um fundo de apoio à cultura porque nenhum artista deve deixar de produxir. Este povo vai-se levantar da COVID quando tiver o apoio dos artistas. A cultura não é lixo, é nossa emoção. E a União dos Artistas não deve estar sob tutela do Ministério da Cultura. Deve ser independente como a CTA. E a Lei do Artista deve discriminar o artista do jovem talento. Ser artista é mais do que cantar, pintar ou escrever”.

No mesmo programa Noite Informativa da Stv Notícias, interveio Quito Tembe. O Director do Festival KINANI não pensa muito na criação de novos fundos ou coisas assim, até porque já existe o FUNDAC e os artistas estão representados na CTA. Como país, afirmou, deve-se revitalizar as instituições que existem, como casas da cultura que podiam servir de incubadoras que dessem voz aos artistas que não têm estúdios e internet para divulgar os seus trabalhos. “Não inventaria novas instituições ou formas de gerir o fundo, mas, com esse 1%, iria repensar nessas instituições de outra reforma”.

 

A LEI DO MECENATO

É para deitar fora, porque, para Naguib, não serve aos artistas. Como solução, o pintor sugere que se deve obrigar as empresas a fazer com que o apoio que dizem dar a cultura se converte em dinheiro que vai a um fundo por criar. Nesse sentido, claro, é preciso haver vontade política. “Os artistas por si só não conseguem criar uma União deles. Precisam de um envolvimento do Ministério da Cultura. Conheço muitos artistas moçambicanos que são convidados a expor internacionalmente. Não vão porque não têm dinheiro para transportar as suas obras”.

Nesta época de COVID-19, complica a situação dos artistas uma lei que, frisou Naguib, nasceu morta: a Lei do Mecenato. “No passado houve um apoio aos clubes de futebol, que tinham financiamento das grandes empresas. A Lei do Mecenato assenta nas empresas, só que nós somos uma equipa de futebol de 10 mil pessoas. Essas 10 mil pessoas não têm acesso às empresas. Vimos artistas a quererem ter acesso aos fundos e aos financiamentos complemente gorados. Quando uma empresa subsidia um artista, devia ser descontada nos impostos, conforme prevê a Lei do Mecenato. Agora, eu faço a seguinte pergunta: quanto dinheiro as grandes empresas em Moçambique disponibilizam aos artistas por ano? Ninguém sabe. Existe um fundo de apoio mineiro, à agricultura, à CTA, onde está o fundo de apoio à cultura que, por exemplo, apoie Mankeu, que está a ficar cego?”.

 

 

O jornalista e ensaísta José dos Remédios estreia-se em livro com “O horizonte e a escrita”, disponível nas livrarias desde esta terça-feira. A obra literária, que levou 14 meses a ser escrita, chancelada pela editora Fundza, é um ensaio sobre a narrativa de Adelino Timóteo.

É a estreia de um dos jornalistas que mais crítica (construtiva, diga-se) faz aos livros dos escritores moçambicanos, de há algum tempo a esta parte.
“O horizonte e a escrita” é o seu primeiro livro, que é, na verdade, o preencher de um vazio que o autor constatou em relação aos estudos sobre a narrativa de Adelino Timóteo. “Quis preencher esse vazio porque se trata de um autor cuja escrita nos conduz a uma introspecção sobre várias propostas estéticas e sobre algumas construções estereotipadas”, foi esta a inspiração do Dos Remédios para escrever “O horizonte e a escrita”. Essencialmente, trata-se de uma tentativa de trazer Adelino Timóteo ao centro da sua visão, um tiro que saiu pela culatra, já que “o que aconteceu foi o inverso”, de acordo com o próprio José dos Remédios.

Mas há mais: “na análise, descobri um autor que se comunica e nos comunica com outras literaturas e achei interessante a ideia de reflectir sobre Moçambique através da ficção que nos ajuda a pintar de sentido a própria realidade onde estamos inseridos”.

ENCERRAR E REINAUGURAR UMA ETAPA

O autor não esconde que teve momentos de inspiração e desinspiração enquanto escrevia o livro. Aliás, o tempo é disso prova. “Este é um livro que escrevi ao longo de 14 meses, entre 2019 e 2020. Depois de muitos cortes e acréscimos que não faltam, finalmente foi editado e impresso em Dezembro, sob a chancela da Editorial Fundza”, revela.

E por ser o primeiro, Dos Remédios tem um misto de sentimentos e de objectivos. Primeiro, “sinto-me a encerrar e a reinaugurar uma etapa”. Sim, a encerrar e reinaugurar porque “este é o caminho que escolhi e não tem volta”.

José dos Remédios revela que tem estado a pensar no passo que está a dar e “estou convencido de que quero manter este compromisso de estudar, compreender e divulgar a literatura moçambicana”. Um compromisso que o mais novo ensaísta não se vai eximir, até porque escreve para outros e não para ele. O próprio diz isso, quando afirma que “agora que o livro chegou ao público, começo a desfazer-me do mesmo no sentido de que vai deixando de me pertencer. Parece um cliché, mas é isso que sinto”.

Uma satisfação enorme que o autor do “O horizonte e a escrita” por ter conseguido editar um ensaio feito à obra de um escritor tão necessário entender a sua escrita, afinal, “nos oito romances analisados de Adelino Timóteo nos reencontramos com os nossos espaços identitários e ideais”, diz José dos Remédios.

 

“O HORIZONTE E A ESCRITA” EM DUAS VERSÕES

Já se diz que José dos Remédios foi inspirado pelas narrativas de Adelino Timóteo para entrar nesta odisseia da escrita, mas algo mais inspirou o autor a criar o título. E foi uma inspiração em dose dupla: “Por um lado, a obra em si de Adelino Timóteo. Por outro, o que essa obra nos traz ou para onde nos leva”.

Para essa inspiração foram muitos argumentos levados em conta e ou descobertos, afinal “temos na nossa mira imagens e elementos que precisam de voz para que possam ser inteligíveis. Portanto, o título surgiu-me no fim do estudo, depois de uma conversa a três com Angélica Pereira e Dany Wambire”. Não digo quem eles são de propósito. Quem for a ler o livro, certamente, saberá por que eles foram importantes na aprovação do título”, explica José dos Remédios.

Ora, há uma perspectiva neste livro de José dos Remédios sobre as narrativas de Adelino Timóteo. “Assumo-o como leitor e como um ensaísta comprometido em divulgar a arte literária do nosso país. Se isso poder inspirar os outros, sinceramente, ficarei muitíssimo satisfeito e motivado. Claro está, a estética da recepção só se completa com os leitores”.

Remédios quer escrever e ser lido

Com esta estreia no mundo da escrita, o autor do “O horizonte e a escrita” está ciente de que, tal como o faz com outros livros, vai ser avaliado, mas isso não o tira sono. Aliás, para ele um autor quer duas coisas: continuar a escrever e ser lido. “Depois, o que virá, se vier, é bónus”, revela.

Com isto, José dos Remédios diz não está a pensar em nenhuma avaliação, embora saiba que isso é inevitável. “Espero é que o livro faça sentido a alguém que aprecia a literatura moçambicana”, é o seu maior desejo.

José dos Remédios nasceu a 1 de Agosto de 1987. Tem uma formação no ensino e uma licenciatura em Literatura Moçambicana. É jornalista e ensaísta. Possui inúmeros ensaios publicados na imprensa nacional e no Brasil. Como jornalista, escreveu vários guiões de vídeos em homenagem a personalidades como Marcelino dos Santos, Ungulani Ba Ka Khosa, Dom Dinis Sengulane, Mia Couto e Paulina Chiziane. Foi guionista, técnico de som e fotógrafo do documentário Maputo, a doropa.

O seu primeiro livro “O horizonte e a escrita” está disponível desde esta terça em todas capitais provinciais, bem como em Chókwè, Maxixe e Gondola. Nesta primeira fase o livro será encontrado nas livrarias, enquanto espera pelo seu lançamento oficial, logo que for possível realizar um evento público com segurança sanitária. Até porque “o lançamento é importante, mas é prescindível”.

Morreu o pianista Adérito Francisco Gomate, vítima de doença. O artista, natural da Zambézia, “era um apaixonado cultor do jazz e, por conseguinte, criou uma Big Band, com a colaboração de músicos da banda da Polícia de Moçambique”.

Adérito Gomate morreu a 15 de Janeiro corrente. Foi integrante do conjunto musical Alambique, de que foi co-fundador em 1984, com compositores ecléticos como Hortêncio Langa e Arão Litsure.

Mercê da sua sensibilidade e conhecimento musicais, a sua prestação foi de grande valia na prossecução dos objectivos de inovar e modernizar a música moçambicana dentro e fora do país. Neste contexto, Adérito Gomate marcou presença nas digressões que levaram a banda Alambique ao Zimbabwe, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia; bem como a Itália, Alemanha, Holanda, Áustria e Suíça.

“Com o Alambique e o Grupo de jazz de Maputo, Adérito Gomate abrilhantou momentos áureos das sessões de jazz” em diferentes restaurantes da capital do país, por exemplo, e conquistou a “admiração e o respeito dos amantes daquele gênero musical”, indica uma nota enviada ao “O País”.

Segundo o documento, Adérito Gomate estudou música no Centro de Estudos Culturais especializando-se em piano e guitarra. Após concluir o curso, ao longo da sua vida profissional, o malogrado trabalhou como pianista em alguns hotéis da cidade de Maputo.

“Simultaneamente dedicava-se ao ensino, lecionando música na Escola Internacional de Maputo e colaborando com o Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação (INDE) na produção de manuais de educação musical para o Ensino Básico”.

O conjunto musical Alambique considera que que “a inesperada partida de Adérito Gomate deixa um profundo vazio nos seus colegas e uma enorme instabilidade na carteira de projectos” da banda com vista ao desenvolvimento da música moçambicana.

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