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O País – A verdade como notícia

A peça teatral Chovem amores na rua do matador fará uma digressão em 12 distritos de Portugal. Adaptada da história escrita por Mia Couto e José Eduardo Agualusa, a encenação foi feita por Maria Clotilde e Vítor Gonçalves.

Chovem amores na rua do matador estreou ano passado, na Cidade de Maputo, e mereceu uma temporada. Depois da apresentação ao público moçambicano, agora segue-se um voo rumo a Portugal, onde os actores – Horácio Guiamba, Josefina Massango, Angelina Chavango, Joana Mbalango e Violeta Mbilane –, irão aproveitar os 20 espectáculos programados para promover e divulgar o trabalho que fizeram juntos.

Referindo-se à oportunidade de levar a peça que encenou com Vítor Gonçalves ao público português, Maria Clotilde reconheceu que se trata de um objectivo que está a ser alcançado. “É sempre bom que trabalhos desta natureza saiam e viagem pelo mundo. É um projecto que está a ser carregado de corpo e alma, porque esta é uma forma de expandir o nosso trabalho e a nossa cultura no mundo”.

Segundo acredita a encenadora, com a digressão em 12 distritos portugueses, durante aproximadamente um mês, entre 2 e 30 de Julho, os artistas do palco estarão a colocar o teatro moçambicano no mapa da CPLP. “Esta é uma boa abertura, um intercâmbio, um grito que diz que nós existimos, como actores, encenadores ou fazedores do teatro em geral”.

Nesta digressão inaugural, Chovem amores na rua do matador irá escalar, por exemplo, Almada, Figueira da Foz, Viseu e Algarve. Para Angelina Chavango, “Esta peça será “consumida” porque tem qualidade. O que temos de fazer é aperfeiçoa-la. É um bom produto e os portugueses irão ver que Moçambique é uma fábrica de actores”.

Co-produzido pela Fundação Fernando Leite Couto e pela Universidade Eduardo Mondlane, o espectáculo teatral foi adaptado da história assinada por Mia Couto e José Eduardo Agualusa, e é uma das que compõe o livro O terrorista elegante e outras histórias. No enredo da peça encontra-se Baltazar Fortuna e as suas três mulheres, nomeadamente, Mariana Chubichuba, Judite Malimali e Ermelinda Feitinha. Estas são as personagens responsáveis por tornar o que poderia ser uma bela história de amor algo complexo em termos de definição.

Segundo os encenadores, a digressão em Portugal irá acontecer graças ao apoio de muitas entidades. Designadamente, as companhias teatrais: ACTA – Companhia de Teatro do Algarve, Teatro Baal, Teatro das Beiras, Teatro das Caldas, Cendrev – Centro Dramático de Évora, Escola da Noite; e os municípios: Almada, Figueira da Foz, Loulé, Seixal, Setúbal e Viseu. E os encenadores observam que a digressão por Portugal será a maior entre as que já foram realizadas por actores moçambicanos naquele país.

A digressão irá incluir conversas com Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Em termos logísticos, a VISABEIRA irá suportar os custos das viagens entre Maputo e Lisboa e à Kinto – Mobilidade irá ceder transporte interno em Portugal.

Semana passada, Mia Couto recebeu uma chamada do Secretário-Geral da AEMO. Em geral, Carlos Paradona queria obter a garantia de que o autor de Terra sonâmbula e do mais recente livro O caçador de elefantes invisíveis estaria na cerimónia do anúncio do Prémio de Literatura José Craveirinha, no Átrio do Município de Maputo, esta segunda-feira. No entanto, devido à sua agenda apertada, Mia respondeu que não sabia se estaria presente na cerimónia. Talvez, recorrendo à disciplina militar, o Secretário-Geral da AEMO foi directo ao que interessava, até porque sem diamantes, as chamadas telefónicas são sempre caríssimas: – Tem que estar. Ainda assim, Mia tentou complicar as coisas, dizendo que faria o esforço. E uma vez mais, o Secretário-Geral, que é, de facto, Secretário-Geral da AEMO, cortou-lhe qualquer tentativa de evitar ir ao Átrio do Conselho Municipal de Maputo, um lugar bonito, mas que, ao escritor, também traz lembranças tristes – ali aconteceu o velório do seu amigo Carlos Cardoso, tendo ele lido alguma eterna mensagem. Mas essa é outra história.

Indo ao que realmente interessa, ao ouvir a insistência de Carlos Paradona… – Aí eu comecei a suspeitar que pode ser que aconteça alguma coisa que eu não esteja à espera.

Com ou sem suspeita, Mia obedeceu às ordens do seu Secretário-Geral e, prevendo essa qualquer coisa que não estava à espera, levou o seu irmão mais velho consigo: Fernando Couto. Os dois chegaram a horas, à semelhança de tantos outros convidados ao evento. Como quem não estava à espera de nada, sentaram-se na quinta das seis filas de cadeiras montadas para o público no Átrio do Conselho Municipal de Maputo. Um ao lado do outro, como bons maninhos que são. Ali também estava o laureado do ano passado, Armando Artur, que, ao contrário do que tem sido habitual, não integrou o júri, tal como aconteceu, por exemplo, com Fátima Mendonça e Ungulani ba ka Khosa. Atrás deles, mais ou menos a uns três metros, jornalistas faziam apostas. Expectantes. – Será desta vez? Perguntou o primeiro. – Se o Mia está aqui… Disse o segundo, lembrando de seguida. – Mas o Mia também esteve presente na cerimónia do ano passado… – Há-de ser o Mia. Disse o terceiro jornalista. Sem conclusões.

A conversa acontecia em surdina, enquanto no palco passava uma performance teatral que arrepiou a muita gente. Os actores? Malta Eunice Mandlate, Mateus Nhamuche, Angelina Chavango ou Joana Mbalango. Título da peça? Malidza, escrita por Aurélio Furdela (adaptada da obra de José Craveirinha e de outros autores moçambicanos) e com encenação de Lucrécia Paco. A julgar-se pelas palmas dadas ao fim de mais ou menos 25 minutos, que se prolongaram por bons segundos, alta peça!

Quando os actores saíram do palco, lá vieram elas. Quer dizer, ele: o presidente do júri do Prémio de Literatura José Craveirinha, Luís Cezerilo. Antes de dizer o que todos queriam ouvir, gozando do seu estatuto, o presidente, primeiro, pediu que os outros membros do júri se juntasse a ele no pódio. Assim, lá foi ter a ensaísta Sara Jona Laisse, os poetas Ricardo Santos e Bwana Yesu. Parece que o sr. presidente esqueceu-se de Manuel Tomé (representante da HCB, igualmente, membro do júri). Por isso, Ricardo Santos lá foi alerta-lo. A resposta não demorou: – Não o fiz distraidamente. Os mais velhos merecem o respeito e a dignidade de não estarem aqui [à frente de todos, entenda-se]. A improvisação de Luís Cezerilo encaixou como uma luva no discurso e, como os termómetros registavam 18°, por volta das 17 horas, o público aproveitou a ocasião para aquecer as mãos, batendo palmas. Esse público de hoje em dia…

Dito aquilo, Cezerilo prosseguiu, referindo-se ao ano da criação do prémio, aos critérios e aos procedimentos adoptados durante o trabalho. Foi nesse momento que se ficou a saber que a reunião do júri, para deliberação final sobre a atribuição do prémio, aconteceu a 22 de Maio, portanto, este domingo. O júri adoptou uma proposta de regulamento que ficará depositada na AEMO. Os prováveis vencedores do prémio foram escrutinados a partir de uma base de dados que contém escritores, ensaístas e académicos, que deve ser composta e actualizada pela AEMO ao longo do tempo.

Assim, segundo disse o júri, o vencedor deveria reunir pressupostos como publicação de pelo menos duas obras literárias, de poesia ou prosa, ou dois livros de ensaios sobre literatura, por parte do ensaísta/académico, em ambos os casos, ao longo de uma década. Também se previa a participação social com activismo literário, divulgação literária e intervenções públicas, no país e no estrangeiro. Cada membro de júri devia escolher cinco elementos prováveis vencedores. Assim, por consenso e unanimidade, foi escolhido o escritor Mia Couto, o autor do Chiveve, conforme alguém lembrou. O argumento do júri ouviu-se de seguida. – Autores de todos os géneros. Para ele, sempre nascem e desaguam na poesia. O seu olhar poético desconcertante, acasala, numa dança sem fim, com os mais pequenos detalhes da vida e dos sentimentos, com os grandes temas que pensam a humanidade.

Além disso, o júri referiu-se a Mia Couto como um homem plural, humilde e que se interessa em buscar a alma moçambicana através da arte literária. Claro, ao contrário do que se poderia supor, houve também um pedido de desculpas do júri. – Pedimos desculpas a todos os escribas, se algum erro da nossa parte foi cometido. Mas estamos conscientes de que trabalhamos bastante e temos a certeza de que esta escolha é merecida e já deveria ter acontecido há muito tempo.

Terminada a leitura da acta, feita de forma clara e pausada, Luís Cezerilo saiu do pódio entre fortes aplausos. Seguramente, não viu Mia Couto quase embaraçado. Aparentemente, sem saber se levantava ou se continua sentado. O escritor optou em manter-se quieto, mas sorrindo. A máscara azul não conseguiu esconder o sorriso e nem os gestos. Entre Armando Artur e Fernando Couto, levantava a mão para quem estava distante. Como se fosse a primeira vez a ganhar um prémio. Aquela toda representação terminou quando, finalmente, foi ao pódio para dizer algumas palavras. Mia enalteceu Craveirinha: – Ele é o primeiro dos não veteranos de guerra que toma lugar na cripta dos heróis moçambicanos. Eu acho que temos uma grande dívida com Craveirinha. De seguida, pediu à Ministra da Cultura e Turismo para levar a mensagem de que os manuais dos alunos devem conter textos dos jovens escritores moçambicanos, e não apenas dos consagrados. – No nosso país há muitos jovens e bons escritores. O Craveirinha pode ficar sossegado, que ele lançou uma semente que está viva. Mas esses jovens não devem encontrar fora do país o que podem encontrar cá dentro. É preciso que eles sejam divulgados.

Sentada na primeira fila, onde também estavam os reitores da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Guilherme Júnior, e da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão, Eldevina Materula ouviu o pedido do escritor, finalmente, e o júri assumiu esta ideia, Prémio de Literatura José Craveirinha.

Mia Couto foi laureado com o Prémio de Literatura José Craveirinha, hoje, numa cerimónia realizada no Átrio do Conselho Municipal de Maputo.

 

Por consenso e unanimidade, o júri do Prémio de Literatura José Craveirinha decidiu laurear Mia Couto, na edição 2022 do galardão.

No evento realizado hoje, no Átrio do Conselho Municipal de Maputo, o júri laureou Mia Couto por reconhecer a grandeza da sua obra na configuração de aspectos ligados à moçambicanidade e à humanidade em geral.

A acta do júri foi lida por Luís Cezerilo, que se referiu a Mia Couto como um homem plural, humilde e versátil.

Segundo o júri composto por Luís Cezerilo (presidente), Sara Jona Laisse, Manuel Tomé e Bwana Yesu, a decisão de premiar Mia Couto é acertada e já deveria ter acontecido há muito tempo.

No seu discurso de ocasião, Mia Couto preferiu falar dos outros. Primeiro, de José Craveirinha. O laureado enalteceu a obra do poeta-mor, lembrando que é o primeiro herói ma cripta que não pegou em armas.

Mia Couto disse ainda que o poeta deve estar descansado porque a sua semente está a dar frutos, num contexto em que o país possui vários autores jovens e de qualidade. Por isso, pediu à Ministra da Cultura e Turismo para levar a mensagem de que a literatura dos mais jovens deve constar nos manuais escolares.

Por sua vez, Eldevina Materula, durante o seu discurso, sublinhou o simbolismo de Mia Couto ganhar o prémio num ano que se celebra o centenário de Craveirinha.

Com a distinção nesta edição do Prémio criado pela Associação dos Escritores Moçambicanos em parceria com a Hidroeléctrica da Cahora Bassa, Mia Couto leva para casa 25 mil dólares, cerca de 1500 000 meticais.

O grande vencedor da edição 2022 do Prémio de Literatura José Craveirinha será anunciado numa cerimónia a realizar-se no Salão Nobre do Conselho Municipal de Maputo, às 16 horas desta segunda-feira.

 

No ano do centenário de nascimento de um dos poetas mais importantes em língua portuguesa, há Prémio de Literatura José Craveirinha. À semelhança da última edição, a cerimónia de divulgação e entrega do galardão irá acontecer na Cidade de Maputo. No entanto, o local altera. Desta vez, o público está convidado a juntar-se no Salão Nobre do Conselho Municipal de Maputo, neste dia 23 de Maio, a partir das 16 horas.

Organizado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com a Hidroeléctrica da Cahora Bassa (HCB), o maior galardão literário nacional premeia a carreira e o percurso de um autor moçambicano, como forma de reconhecer a importância da sua obra em prol da arte e da cultura moçambicanas.

A cerimónia de divulgação do prémio literário, esta segunda-feira, será aberta pelo Presidente do Conselho Municipal de Maputo, Eneas Comiche. A seguir a essa intervenção de boas-vindas, Sheila Mahoze será convidada a partilhar uma performance musical. Ora, o programa da cerimónia prevê ainda a intervenção do Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona, do PCA da Hidroeléctrica da Cahora Bassa, Boavida Muhambe, e da Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula.

O presidente do júri da edição 2022 do Prémio de Literatura José Craveirinha é o escritor e ensaísta Luís Cezerilo, a quem caberá a leitura da acta que anuncia o grande laureado.

Ano passado, o autor premiado foi Armando Artur, porque, segundo disse o júri, na altura constituído por Teresa Manjate (Presidente), Ungulani ba ka Khosa, Adelino Timóteo, José Castiano e Manuel Tomé (em representação da HCB), o poeta propõe-se, do ponto de vista estético, a reinventar o ser por via da linguagem e por instaurar uma forma própria de escrever poesia.

Até aqui, o autor laureado Prémio de Literatura José Craveirinha leva para casa 25 mil dólares (mais ou menos um milhão e seiscentos mil meticais).

A conferência inaugural do ciclo de actividades comemorativas do centenário de nascimento de José Craveirinha está marcada para dia 25 deste mês, no Campus da UEM, na Cidade de Maputo.

 

Às 14 horas de quarta-feira, a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) irá realizar a conferência inaugural do ciclo de actividades comemorativas do centenário de nascimento de José Craveirinha. O evento aberto ao público está agendado para o Anfiteatro 2501, no Complexo Pedagógico do Campus Principal da UEM, na Cidade de Maputo, e terá como orador o professor de Literatura Gilberto Matusse.

Intitulada José Craveirinha: o poeta e a nação, a conferência também poderá ser acompanhada através do Zoom Meeting criado para o efeito pela organização.

Ao longo de aproximadamente três horas, o programa da conferência inaugural do ciclo de actividades comemorativas do centenário de nascimento de José Craveirinha prevê leitura de poemas, intervenção do Director da Faculdades de Letras e Ciências Sociais, Samuel Quive, e do Reitor da UEM, Manuel Guilherme Júnior.

Além da conferência José Craveirinha: o poeta e a nação, por Gilberto Matusse, no Dia de África, 25 de Maio, igualmente, o professor de Literatura Elídio Nhamona irá apresentar o ciclo de actividades comemorativas do centenário de nascimento de José Craveirinha, a realizar-se até 23 de Fevereiro de 2023. Entre as actividades em causa estão previstas oficinas, saraus, exibição de filmes, palestras nas escolas secundárias, festival de poesia cantada, conferência científica e publicações.

Ainda este mês, Gilberto Matusse debruçou-se sobre o tema José Craveirinha, o mestre da ironia, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Além de artigos sobre o primeiro Prémio Camões africano, em 1991, o académico tem um livro também dedicado à escrita do poeta da Mafalala, intitulado A construção da imagem de moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa.

A primeira “Noite de poesia” deste ano celebrou José Craveirinha, no Museu Mafalala, onde houve debates e declamação de poemas, em exaltação dos 100 anos do pai dos poetas moçambicanos.

Com declamação, Eduardo Quive inaugurou a Noite de Poesia em que, no “poder da oralidade e narratividade”, José Craveirinha serviu de exemplo de cidadania e afirmação de uma identidade genuinamente moçambicana.

“Um homem de muito poucas falas”, assim relembra o jornalista Tomás Vieira Mário, que afirma que foi, em termos de convívio social, muito expansivo.

O poeta-mor marcava o seu espaço diante de todos, principalmente o de quem consigo viveu. “Era uma pessoa muito angustiada com o dia-a-dia do país, escreveu muito sobre desenvolvimento, porém, infelizmente, terá morrido sem ter visto o seu sonho”, afirmou o jornalista.

Cem anos depois da sua morte, são resgatados os valores culturais e interpretados numa “Noite de Poesia”. Tânia Tomé, escritora e empreendedora, fez parte da conversa de recordação de José Craveirinha. Entre as suas recordações, está o seu primeiro sarau de poesia. “Aos meus treze anos de idade, fiz o papel de José Craveirinha, e ele estava na audiência. É um privilégio muito grande ter tido esta oportunidade de o conhecer pessoalmente e de estar a ser ele próprio”, reconheceu Tomé.

Além de uma ronda de declamação dos poemas de José Craveirinha, a noite foi tomada por exposição de livros, com destaque para “Crónicas de Emergência” de Elcídio Bila.

O ensaísta português Carlos Reis esteve numa conversa sobre o tema “História como ficção e ficção como história”, esta quarta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto. Entre várias questões, tratou da importância da literatura e dos estudos literários.

 

Ontem à noite, o professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra esteve na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, para conversar sobre coisas importantes, tendo, como pretexto, o tema “História como ficção e ficção como história”. Entre várias perguntas colocadas ao ensaísta português, houve esta: “Por que continuar a estudar literatura neste mundo tão efémero?”.

Ao responder à pergunta, Reis, primeiro, esclareceu que um estudo literário não tem a pretensão de contribuir para que um autor escreva melhor. O estudo, neste contexto, é uma forma que a literatura tem de existir e de fazer experiências onde disputa espaços com outras disciplinas. “Quando a literatura desaparecer desse espaço material e, sobretudo, simbólico, então, estamos em apuros”. E lembrou: “Já começa a desaparecer no ensino secundário, em Portugal”.

Dito isso, indo directo à pergunta formulada, Carlos Reis defendeu que “quem estuda literatura deve ter noção de responsabilidade social, isto é, de que aquilo que está a fazer é orientado para uma sociedade”. Para o ensaísta português, o que não deve acontecer é pensar-se que a função da literatura é de responder a soluções imediatas. Não é sobre isso, mas sobre a importância de ensinar e de ajudar a ler textos e a desafiar à reflexão. “Quando nós perdemos isso…”. A frase não foi concluída, no entanto, o público que esteve presente na sessão ouviu Carlos Reis sustentar a tese de que a formação em literatura não é um risco, antes deve ser um gosto. “Não me vejo a ensinar e a estudar literatura sem eu gostar e sem as pessoas gostarem. Quando os meus alunos diziam que não gostam de um determinado texto, eu perguntava-lhes: E você acha que esse texto gosta de si? É preciso introduzir na noção do estudo da literatura a ideia de dificuldade. Estudar literatura é ler outras camadas que o leitor comum muitas vezes não vê. E o estudioso não tem de se gostar de todos os textos”.

 

Sobre o impacto da obra de Carlos Reis em Moçambique

Um dos autores de referência no curso de Literatura Moçambicana leccionado na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) é, seguramente, Carlos Reis. Quem se propõe a analisar textos de ficção, muitas vezes, tem nos seus estudos narrativos uma base indispensável. Por isso mesmo, à pergunta Carlos Reis tem noção do quão a sua obra é importante em Moçambique (?), tendo o caso da UEM apenas como exemplo, o intelectual português respondeu: “Nunca ninguém tem a noção da marca que deixa ou que não deixa, porque publicar um livro, ainda mais literário, de teoria ou de crítica, é como atirar uma pedra para um sítio que a gente não sabe muito bem onde irá cair”. De olhos fixos no público, Reis continuo: “Ao entrar para o Anfiteatro da UEM [para uma palestra sobre Craveirinha e Saramago, na manhã desta quarta-feira], ver que estava cheio de alunos – e de alguns colegas também –, alguns sentados nos degraus, eu fico emocionado e penso, valeu a pena, tem valido a pena. Tenho a noção de que, por vezes, acertamos no alvo”.

Ainda assim, Carlos Reis entende que os seus livros são invariavelmente efémeros. Os que não o são, pertencem aos grandes escritores, dos quais se fala mesmo passados tantos anos. “Os nossos, passam, com o desgaste daquilo que trazem consigo em termos de carga de fundamentação teórica”.

 

“História como ficção e ficção como história”

De acordo com Carlos Reis, na literatura e na filosofia cabe tudo. Enquanto não se faz um tratado de medicina escrevendo-se sobre praias de Moçambique, pode-se escrever um romance falando-se de operações cirúrgicas. A literatura e a filosofia desfrutam, segundo disse, da “suprema liberdade de não servirem para nada”. Essa inutilidade imediata, permite àquelas duas áreas do saber ter uma utilidade mediata. “Mas é preciso ler, entender e descodificar a mensagem, enquanto o tratado de medicina já passou de moda”.

Referindo-se particularmente do tema da conversa, Reis assumiu que a ficção também é uma forma de viagem. Nesse sentido, importante porque na viagem se vêem as coisas a seguir umas as outras. Tudo isso ganha corpo com a narrativa. “Não há motivo mais claramente narrativo do que a viagem”.

Durante a conversa, houve ainda oportunidade para o ensaísta revelar que prefere trabalhar de manhã, e não à noite, e a categoria narrativa que lhe interessa mais como estudioso: a focalização, para quem é muito exigente e perigosa, “mas é essa a grande perspectiva da narrativa e da arte’.

 

Craveirinha e Saramago

As semelhanças entre José Craveirinha e José Saramago não se resumem ao ano de nascimento, mas ao facto de terem enfrentado o mesmo tempo colonial, ditatorial, e por terem vivido uma relação narrativa com o mundo. “O que me apercebo na poesia de Craveirinha, por exemplo, em Karingana ua karingana, é que aqueles poemas têm potencial narrativo considerável. A própria construção do livro é pro-narrativa. A narrativa está inscrita na poesia como está inscrita no teatro”.

A sessão “História como ficção e ficção como história”, que durou uma hora, foi a primeira de seis conversas que irão acontecer ao longo deste ano. A conversa inseriu-se no programa “Estórias não habituais”, da Fundação Fernando Leite Couto em parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

 

Biografia de Carlos Reis

Carlos Reis é professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, sendo especialista em Estudos Narrativos e em Literatura Portuguesa dos séculos XIX e XX, sobretudo no domínio dos estudos queirosianos. Autor de mais de 30 livros (último em data de publicação: Dicionário de Estudos Narrativos, 2018), ensinou em universidades da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil.  Dirige a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (20 vols. publicados) e coordenou a História Crítica da Literatura Portuguesa (nove vols.). Foi director da Biblio­teca Nacional, reitor da Universidade Aberta e presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e da European Association of Distance Teaching Universities.  É doutor honoris causa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e membro da Academia das Ciências de Lisboa e da Real Academia Española, tendo sido distinguido também com os prémios Jacinto do Prado Coelho (1996), Eduardo Lourenço (2019) e Vergílio Ferreira (2020). Actualmente, é comissário para o Centenário de José Saramago.

 

 

 

“Voltar aos passos que foram dados” é o título da nova exposição inaugurada no Centro Cultural Português na Cidade de Maputo. A exposição representa a biografia de José Saramago.

Para celebrar o centenário de Saramago, foi preciso “Voltar aos passos que foram dados” e resgatar uma expressão de José Saramago no livro intitulado “Viagens em Portugal”. O escritor volta no tempo para perceber o caminho que percorreu e fazer com que os outros também aprendam.

“Voltar aos passos que foram dados é ver como Saramago se fez um grande escritor a partir de um tempo, numa condição em que nada indicaria que assim fosse”. Explicou o português Carlos Reis, Comissário-Geral para o Centenário de Nascimento de José Saramago. “E, porque temos que aprender constantemente, abre-se então a lição do Saramago com textos e imagens em paralelo. José Saramago é um autor de obras absolutamente invulgares, porque além do mais, elas falam da condição humana, da justiça, opressão, liberdade, falam de temas que pela sua condição humana são de agora e são de sempre. Mas podemos dizer também que um escritor a quem, certamente, outros celebrarão os duzentos anos”.

A exposição estará disponível no Centro Cultural Português em Maputo até 4 de Junho.

José Saramago (1922-2010) foi um importante escritor português. Destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista. Recebeu o Prémio Nobel de Literatura e o Prémio Camões.

José Saramago nasceu em Azinhaga de Ribatejo, no concelho de Golegã, distrito de Santarém, Portugal, no dia 16 de Novembro de 1922.

O Comboio é um meio de transporte tão antigo quanto importante, mas em Inhambane, muitos ainda não tiveram a oportunidade de ver.

É o caso de alguns estudantes da Escola Secundária SOS ma cidade de Inhambane que foram ouvidos pelo “O Pais” que afirmaram desde que nasceram nunca viram um comboio em circulação.

Aliás, há quem já viu, mas foi na verdade na televisão, quer seja em filme, num documentário ou noticiário televisivo.

O comboio é para esses estudantes e muitos outros, coisa de cinema, mas pelo menos conhecem a importância deste meio de transporte.

“Sei que o comboio foi o primeiro transporte de pessoas porque na altura não havia autocarro” disse um do estudantes ouvido pelo “O Pais” e outro acrescentou que o comboio servia na altura para carregar coisas pesadas de um lugar para outro.

É com o objectivo de fazer conhecer os mais novos sobre o transporte ferroviário e sua história em Inhambane que o Museu Regional de Inhambane em parceria com a Empresa Caminhos de Ferros de Moçambique que estudantes de várias escolas estiveram a revisitar a história, de modo a que elas conheçam a origem e a importância do comboio.

O encontro foi no âmbito do dia dos museus, mas o museu irá as escolas, para levar o comboio, ou melhor a sua história aos mais novos, através do programa “o Museu vai ás Escolas” liderado pelo CFM.

A exposição do Museu dos Caminhos de Ferro de Moçambique está patente em Inhambane no edifício daquela empresa e pode ser visitada a qualquer dia, a qualquer hora.

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