O País – A verdade como notícia

O espectáculo de dança Vagabundus, de Ídio Chichava, irá estrear às 19 horas do dia 14 deste mês, no festival One Week Dance, na Cidade de Plovdiv, na Bulgária. A coreografia conta com 17 bailarinos.

Numa das sessões do Festival KINANI, Ídio Chichava fez uma amostra do que hoje é o espectáculo de dança Vagabundus. Nesse ensaio aberto, esteve o Director do One Week Dance, que se encantou com a abordagem dessa coreografia moçambicana. Assim, surgiu a ideia de uma produção que, no próximo dia 14, irá estrear na Bulgária.

Na sua nova coreografia, que durou seis meses a preparar, Ídio Chichava esmerou-se em trabalhar experiências do corpo de cada bailarino, sem esquecer as suas tradições e as suas influências. “Eu questiono a migração do corpo, de onde comecei e as minhas escolas de dança tradicional. Esse é um dos nossos objectivos, levar a dança tradicional transformada, confrontado essa nova visão do mundo com as novas estéticas”, afirmou Ídio Chichava.

Assim, o coreógrafo e os bailarinos que fazem Vagabundus pretendem, através de movimentos coordenados, mostrar que em Moçambique existe a criação de vocabulários próprios, através da dança. E porque a peça não se trata apenas de dança, Chichava observa: “Em geral, isto é nadar profundamente no canto, que questiona o movimento. A base da nossa pesquisa foi o corpo global, o corpo cantante e dançante”.

Vagabundos é um espectáculo que conta com 13 bailarinos, inseridos numa delegação de 17 elementos. Só pelo número de pessoas que irá viajar a Bulgária, a peça revela um grande investimento, em termos logísticos. Por isso, Ídio Chichava lamento não ter tido a possibilidade de estrear o espectáculo no seu país. “Para mim, é com muita pena que este espectáculo, com grande produção, não estreia em Moçambique. Isso levanta-me uma questão sobre onde estão as entidades que podem financiar ou que têm essa responsabilidade social de apoiar a cultura. Houve essa desatenção por parte de quem nos poderia ajudar, quando fomos bater à porta”.

Sem apoio para estrear em Moçambique, surgiu assim a possibilidade de a estreia mundial de Vagabundus acontecer na Bulgária, “num dos 20 melhores festivais do mundo da dança contemporânea. Acho que o Ídio foi muito ousado nesse aspecto de pensar a dança contemporânea, africana, de forma profunda, sobre a nossa essência de ser como africanos”, disse Quito Tembe, o Director do Festival KINANI, um dos protagonistas ida da delegação de 17 moçambicanos a Bulgária.

Referindo-se a aspectos logísticos da peça Vagabundus, Quito Tembe observou:Este espectáculo tocou-nos e não houve mãos a medir. Fazer uma produção com 17 elementos a pôr-se num avião e a viajar para outro continente é uma logística muito grande. Nos últimos anos, os espectáculos africanos foram sempre curtos, com um solo, duo ou máximo de quatro elementos. Este espectáculo extravasa isso. Se o espectáculo correr bem, e acreditamos que irá correr, serão muitas portas abertas para o mundo. Estamos a pôr toda a nossa energia para que este espectáculo toque o público como nos toca a nós”.

No One Week Dance, Vagabundus irá estrear às 19 horas do dia 14 deste mês de Maio, no Boris Hristov House of Culture, na Cidade Plovdiv.

 

 

A Stv estreia, às 18 horas deste domingo, o mais recente programa de entretenimento. Designado Festival de Vozes, a iniciativa irá levar ao telespectador os mais vibrantes talentos de canto coral.

Ao fim de vários ensaios e promoções, a longa marcha dos participantes do Festival de vozes, rumo ao sucesso, já arrancou. Por isso mesmo, 17 grupos irão subir o palco da Arena 3D, na Catembe, para provar o que valem em termos de harmonias musicais.

Nesta primeira edição do novo concurso da Stv, que pretende ser um evento para unir as famílias moçambicanas no princípio da noite de domingo, irão desfilar a classe grupos como Coral Salmista, Prais the Lord, Ntiyiso Hiko Tsaka, New Melody, Muqueto’s Family, Mpfumawulu wa IPM, Harmonic Voices e Tilompfane.

Ora, todos os grupos que integram esta edição inaugural do concurso televisivo têm o desafio de se adequar a um formato de entretenimento que, na verdade, é uma combinação de duas iniciativas da Stv, designadamente, Fama Show e FestCoros. Nada vem ao acaso. A ideia do Festival de Vozes surgiu no período em que as restrições impostas pela COVID-19 impediram os artistas de se apresentarem ao público no palco. “O que nós fizemos, neste concurso, foi lançar um desafio aos maestros e às instituições que têm grupos corais a reduzirem o número de elementos no palco, mas mantendo o rigor do coro de vozes”, esclareceu o Director Musical, Zé Pires.

Ainda de acordo com o Director Musical do Festival de Vozes, a primeira edição do concurso coral irá primar pela qualidade técnica, pela técnica-musical e pela qualidade de entretenimento de televisão.

Ora, nesta edição, o Festival de Vozes não se irá circunscrever ao gospel. Os grupos, que deverão ter, no máximo, seis elementos no palco, também serão desafiados a interpretar música contemporânea, inclusive, com galas temáticas. “O entretenimento, para as famílias, está garantido, no Festival de Vozes”, reforçou Zé Pires.

A propósito de galas, no total, o concurso musical terá 10 galas, das quais três gravadas e sete em directo. Seja qual for a modalidade, a organização do evento levará às noites de domingo um encontro fraterno, em jeito de música, mesmo a garantir o que faltava à televisão moçambicana.

O Festival de Vozes estreia às 18 horas deste domingo, na Stv.

Por: Marcelo Panguana

 

O país navega em águas auspiciosas, falo, neste caso, da literatura, através das ondas capazes de nos levar até lugares nunca dantes navegados. Não sei se temos a consciência disso, mas estamos a palmilhar caminhos que se tornarão memoráveis quando quisermos estudar o desenvolvimento da nossa literatura pós-independência. A actividade editorial anda de vento em popa. O livro e o escritor assumem, aos poucos, o seu lugar e importâcia. Há muitos encontros onde se fala cada vez mais da literatura  e se equacionam as diversas questões a ele inerentes. Pode  se afirmar que o País está a despertar para uma realidade que dantes ocupava o lugar de sonho. E para que essa realidade sobreviva e se afirme, torna-se necessário que seja veiculada nas páginas da especialidade. José dos Remédios, jornalista e ensaista, indiscutível “Rei da nossa Baviera”, incansável  estudioso da coisa cultural, vem se ocupando, através dessa “sua rendição ao talento dos outros”, a debitar palavras sobre as obras dos artistas. Esse exercício que vem seguindo com perspicácia e sobretudo com essa humildade que o caracteriza, levou-o a escrever “O Horizonte e a Escrita” , um ensaio sobre as diversas narrativas de Adelino Timóteo. O título do livro, interessante na sua sonoridade e plasticidade, leva-nos, para além da metáfora subjacente, a pensar no horizonte como algo que limita o campo visual do observador, mas que não impede que se queira alcançar o que está para lá do seu limite. É como a escrita, onde não se sabe onde está o limite e assim se atiça a vontade de o alcancar, quer dizer, de atingir a perfeição.

Levanta-me, esta modesta crónica, a dificuldade de saber a quem se deve prestar a devida atenção, se ao José dos Remédios, reconhecido pela sua exemplar militância no jornalismo cultural; ou ao Adelino Timóteo, guru da literatura nas terras do Chiveve. O José dos Remédios, na sua permanente modéstia, sempre recusou a qualquer tipo de visibilidade, embora desempenhasse essa nobre missão de dar visibilidade a inúmeros fazedores de arte. Hoje, José dos Remédios assume-se como escritor através do livro “O horizonte e a escrita”, acrescentando a esta nobre condição com a de ensaista, moderador, palestrante, apresentador de livros, guionista, ocupações que nunca o tornaram um homem arrogante, porque tal como René Descartes, nunca o seu intento foi mais longe do que reformar os seus próprios pensamentos e construir em terreno que fosse todo seu. Nada mais que isso. Talvez por essa razão, toda essa sua simplicidade, todas as suas virtudes. Do Adelino Timóteo é aquilo que se conhece: toda uma vida dedicada as palavras. A reiventá-las. A tentar convencê-las para que fossem capazes de falar de si e do país a que pertence. Falar de Adelino Timóteo é referir-se aos muitos livros que escreveu. Dos prémios que usufruiu e sobretudo, do silêncio a que  se votou `a uma parte significativa da sua obra, devido a ausência duma crítica literária presente e reconhecida. Sem dúvida nenhuma algo inaceitável, porque “sendo Adelino Timóteo um autor preocupadíssimo com as vicissitudes históricas e sociais do seu país, julgamos crucial esta consideração aos seus livros, pois a partir dos mesmos se redescobre Mocambique”, assim se encontra escrito numa das orelhas do livro.

Vinte e um anos de publicação e dezanove títulos de Adelino Timóteo, constituiram o pretexto suficiente para dar corpo ao livro o “Horizonte e a Escrita”, inaugurando, de certa maneira, aquilo que entre nós foi sempre uma raridade: um livro a debruçar-se inteiramente sobre um escritor. José dos Remédios fê-lo. Elogiável a iniciativa, num meio em que a prática da crítica  literária é pouco frequente, não se sabe por que razão, acredito que não seja por falta de talento, provavelmente porque cultiva-se entre nós, a excessiva cautela de não ofender o outro, principalmente quando se sabe que uma crítica literária imparcial, corre o risco de ser verdadeira e as verdades, `as vezes, incomodam.

O livro começa com uma reflexão sobre a narrativa e o romance: duas abordagens essenciais, sabendo-se quão importante se tornou o romance no nosso contexto literário, e embora algumas respeitáveis opiniões considerem inábil o tratamento que o escritor moçambicano concede ao romance, não restam dúvidas que se apresenta como expressão literária ideal para mostrar a nossa realidade, em detrimento a poesia, que embora sendo a mátria da literatura, acabou sendo colocada de lado, devido, provavelmente, a sua forma hermética, o modo quase subjectivo como a realidade é descrita, insuficiente para dar o perfil do país que somos.

A reflexão que Dos Remédios desenvolve sobre a narrativa, chama ao de cima elementos primordiais como o espaço e o tempo, pois que é dentro deles que tudo se desenvolve, ou se quisermos, que ocorre todo o enredo das histórias que Adelino Timóteo nos conta. Aliás, como se refere no livro, “ O espaço é das mais relevantes qualidades narrativas, por ser nele onde se encontra a acção, a movimentação das personagens, os cenários geográficos e o retrato das atmosferas sociais e psicológicas, indispensáveis para a compreensão global da trama”. Quer dizer, sem o espaço nem o tempo não pode existir nenhuma narrativa. Não pode se construir um romance, em última análise, não se pode retratar uma sociedade. Não é, pois, por acaso, que o escritor checo Milan Kundera acaba dizendo que o romance é a grande forma da prosa em que o autor, através das personagens, examina até ao fim alguns grandes temas da existência”. Começa então aqui e na prespectiva de Dos Remédios, a grande aventura para se descobrir a relação existente entre o mundo real e a narrativa ficcional de Adelino Timóteo.

Mulungu, A Virgem da Babilónia, Nação Pária, Não Chora Carmen, Nós os do Macurungo, Apocalipse dos Predadores, Os Oito Maridos de Dona Luiza Michaela da Cruz e Cemitério dos Pássaros, foram os livros escolhidos por José dos Remédios para tentar fazer a leitura dos elementos considerados importantes na escrita de Timóteo, falo, por exemplo, da importância dos actos religiosos. E aqui se constata que “Adelino Timóteo resgata as divindades africanas, defende que cada civilização tem os seus conceitos de paraíso e de vida eterna, os quais são garantidos por um Ser que, para uns, se encontra no céu e em toda parte, quando para outros é terreno, necessariamente humano e espírito, simultaneamente”. “As personagens de Adelino Timóteo dão muita importância `a  virgindade, não no sentido de a preservar. Buscam virgens, enquanto símbolo de pureza, com intenções lascivas, apenas para satisfação individual”.  O livro de José dos Remédios é extenso na abordagem dos tiques sociais, politicos, culturais, não fosse a literatura o verdadeiro resgate de tudo o que nos rodeia, por isso, nesta vasta leitura dos livros do Timóteo encontramos um livro extremamente interessante, A Nação Pária, onde uma nação desaparece misteriosamente, uma espécie de metáfora ao país que pode deixar de existir se não forem debelados os males que o apoquentam. Podemos encontrar neste autor a abordagem sobre o fantástico e maravilhoso, o amor, a guerra e a morte. Afloram-se também as técnicas de escrita de Adelino Timóteo, como a recorrência a palavras bantu ou neologismos estranhos ao português europeu. Em todos os seus livros há um substracto comum, o amor `a pátria. De resto, como escreveu o autor do livro “O Horizonte e a Palavra“, autores como Adelino Timóteo são muito ligados `a Nação, enquanto espaço de afirmação e ruptura.

Ao debruçar-se atentamente sobre a escrita do “patriarca” de Chiveve, José dos Remédios faz-nos o grande favor de chamar atenção a esse incansável poeta, escritor e pintor, cujo trabalho artístico atravessa as fases mais importantes da sua terra, deixando gravadas todas as marcas que o tempo, imparável, as vezes faz questão de apagar. Este livro, “O Horizonte e a Escrita”, vem anunciar o surgimento e a solidez de um estudioso que se prepara para ocupar “espaços” de reflexão que, infelizmente permanecem vazios. Dizia, aliás, o José dos Remédios: Temos a convicção de que toda a literatura deve eternizar pelo menos os seus importantes criadores. Um dos mecanismos a ter em consideração  é a recensão literária, por via da qual se criam condições para que o espólio desses mesmos criadores não fique desvalorizado. Então, a decisão de estudar Adelino Timóteo surge, primeiro, por constituir um exercício com a possibilidade de inverter qualquer tendência natural de se “esquecer” o autor, como tem acontecido com tantos outros, como Fonseca Amaral, Carneiro Gonçalves, Aníbal Aleluia ou Heliodoro Baptista. Estou certo que o Adelino Timóteo não será esquecido!

 

O novo livro de M. P. Bonde tem 59 páginas e é uma viagem do poeta com muitos pontos de fuga. Aroma fóssil é, também por isso, um processo de procura anterior, através do qual o autor pretende seguir em frente, um pouco livre do que já publicou em livro. Nesta entrevista, Bonde refere-se a todo um panorama que foi decisivo para que a sua poesia surgisse, nesta sua terceira proposta literária.

 

Numa leitura apreçada do título, podemos pensar que o olfato é o princípio do que gerou este livro. No entanto, quando o lemos, logo percebemos que teve de investir num conjunto de sensações durante a escrita. Como isso aconteceu?

Foi um exercício interessante, porque queria fugir dos meus dois livros anteriores.

 

E conseguiu?

Os leitores irão dizer. A ideia era fazer um corte com aquilo que já fui, como autor, mas mantendo a voz. Isso levou-me a voltar à infância e às memórias e, depois, a cruzar com autores que me poderiam ajudar a atingir esse Olimpo.

 

Por exemplo?

Patraquim, João Paulo Quehá (nas artes plásticas), a infância dos continuadores e toda essa toponímia da cidade que foi alterada. O livro discute um pouco disso. Foram essas influências, essas informações que me levaram ao Aroma fóssil.

 

Como é que a palavra, no seu caso, funciona como um meio que lhe transporta para um certo tempo, um certo espaço?

Isso tem a ver com a forma como se concebe. Normalmente, no meu processo criativo, as palavras vêm descendo, não as procuro, como se elas se encaixassem em cada verso. Mas esse é um exercício de transpiração, e não de inspiração. As palavras vêm… com as memórias do meu pai e com esse caminhar pela cidade. Acho que isso me chegar a bom porto.

 

A poesia é um cruzamento entre um plano real e um plano ideal, onde se encontra esse Olimpo possível?

Sempre. É preciso sonhar, porque a poesia é sonho. Se um poeta não sonha, não atinge o orgasmo.

 

E como é que o poeta consegue perceber que atingiu o que quer que seja através da arte da palavra?

Na verdade, a arte nunca está acabada. Se me dessem o livro hoje, talvez remodelasse ou reconfigurasse alguma coisa. Mas sempre se chega a um ponto intermédio, em que se percebe que aqui pode pender para o bem ou para o mal. Mas, para mim, o mais importante é ter o mínimo que possa garantir a compreensão dessa poética que quero transmitir. Para mim, o livro era, independentemente do que queria fazer, uma espécie de experimentalismo. E o experimentar significa deixar aquilo que foi feito e trazer coisas novas. Então, este livro também é uma homenagem ao meu pai, porque foi ele que me levou a esses lugares de que os textos falam. Ele deu-me a conhecer ao mundo, na minha adolescência. Depois encontrei uma nova malta, uma nova geração que me indicou o caminho. Aí o meu pai já não era a minha referência, esse meu herói de infância. Enfim, eu tive a sorte de ter livros em casa, porque nos livros compreendemos o mundo para conhecermos a nós mesmos. Como dizia um autor, nós lemos para viver. Não é para sermos mais famosos ou mais conhecidos. Lendo, conseguimos sair de boas ou de más situações.

 

Ao tentar fugir de alguma eventual repetição, em relação a Ensaios poéticos ou A descrição das sombras, de que maneira conseguiu reencontrar-se consigo e com os seus sujeitos poéticos?

Pela forma como tenho conversado com os meus companheiros de trincheira, a voz está lá. O texto não se altera apenas por causa da mancha gráfica, mas pela forma como foi concebido. Os outros tiveram sombra, solidão. Este livro tem outros aromas. Aroma fóssil é este processo de procura anterior. A leitura é um processo descendente, em que sempre vamos procurando novos autores, mas que, quando lá chegamos, nos levam a autores anteriores. É este processo de fuga que procuro neste livro, que é: a partir das coisas que eu conheço, trazer novas formas de ver.

 

Sem discordar de si, este livro tanto é uma busca por uma proposta anterior quanto por outra ulterior.  

O livro é um pouco disso: de como nos manejar perante novas situações. Vivemo-las, mas é preciso dar o salto. Não ficarmos presos a este arame que nos cerca. Temos de arranjar formas de surpreender o leitor. Mas, acima de tudo, tenho de me surpreender a mim mesmo. Porque nunca escrevo para o leitor. Eu escrevo por mim. O leitor virá um dia, ao seu tempo. Eu tenho de sentir e de me preencher de ferramentas para continuar a escrever.

 

Há aqui uma terra, uma luz e uma noite a fragmentar os cadernos que compõem o livro.

A terra é um lugar que nos mantém. Hoje, as pessoas estão à procura de novos lugares. Vai-se a Marte para se saber se é possível ter vida lá. No entanto, esta é a terra, o lugar ideal. A luz ilumina-nos e mostra-nos o caminho. A noite é um lugar de criatividade, onde despimos os fatos, ficamos de calções e conversamos sobre tudo e mais alguma coisa. É esse o cruzamento destes três cadernos.

 

Gérrard Genette escreveu uma vez que a noite é mais propensa à criação poética do que a luz do dia. Concorda com isso?

Penso que a noite é mais propícia para isso, por ser mais calma.

 

E eu acho que a sua poesia transporta todo o peso que podemos identificar na palavra noite. Mesmo em A descrição das sombras, à imagem de Aroma fóssil, temos essa carga de dor e nostálgica que incorpora essas ferramentas sobre as quais trabalha.

Nós somos doentes e loucos. Se fizemos um diagnóstico desta sociedade, veríamos que é doente. Mas conseguimos nos desenvencilhar desses problemas para continuar a viver. É esta carga que talvez me leva a rebelar-me com a poesia, a fazer a descarga a partir da poesia. Senão não vivo.

 

Como fica, depois de terminar um livro?

Depois de o livro ser lançado, há uma espécie de paz de espírito indiscritível, que nos permite abraçar novos projectos. Enquanto um livro não sai, ficamos à volta, a girar como alma penada.

 

Essa liberdade que tanto estima é em relação a si, ao seu meio, aos seus medos ou aos receios?

Um autor tem de ser livre. Se não for livre, não escreve.

 

E o medo, pode ser importante para a criação?

O medo é mau, porque podemos escrever um verso, um texto e acharmos que nos pode dar alguns problemas a posterior. Enquanto autor, eu tenho de explorar todas as dimensões, o medo na perspectiva de dar a conhecer uma certa realidade e não usar o medo para me atrofiar enquanto autor.

 

A dor implícita e explícita continua presente em si. É uma marca?

É a voz.

 

E de que se fundamenta essa voz?

Com as amarguras, porque eu vivo numa sociedade e sofro com ela. A forma de me manifestar é essa, através de livros.

 

Ainda a propósito da dor, uma passagem do primeiro poema diz o seguinte: “então, arrefeça a dor na respiração do verso”.  Conseguiu fazer isso o que esse sujeito poético sugere?

Penso que sim, pela arrumação do livro e de como os meus colegas estão a conversar sobre o livro. Até porque, de outro modo, o editor não iria maçar-se em editar o livro. Há aqui uma conjugação de factores que me ajudou a atingir esse objectivo.

 

O silêncio da sua escrita é uma matriz que se coloca como elemento da sua construção poética…

Deve ser culpa do Borges. Ele fala da perfeição no silêncio. Eu estou à procura dessa perfeição no silêncio. Mas é num silêncio ensurdecedor. Não é um silêncio na perspectiva do mutismo do autor. É o silêncio que faz com que eu escreva. Uso a palavra para manifestar o meu contentamento ou a minha alegria perante uma situação.

 

Um silêncio que permite os seus sujeitos poéticos vislumbrarem o futuro?

Premonições, mais uma vez.

 

O futuro chega a ser uma utopia, já agora?

O futuro é amanhã, é hoje e já foi ontem. O futuro é poesia, é sonho, é aquele nosso projecto de vida e vamos seguindo. O futuro é uma meta.

 

O futuro não é o que alcançamos, mas o que poderemos alcançar?

Exactamente. Se não temos sonhos, para quê vivemos?

 

Para ler.

Para respirar… É preciso sempre sonhar. Como diz Patraquim, viver é sonho. Toda a nossa leitura é para aprendermos o mundo, mas temos de voltar a África, o berço da humanidade.

 

Esta pergunta surge de uma que é feita no poema 6. “Quem tricota a corda invisível do silêncio?”

Há sempre uma entidade que nos alimenta a tecer esta lã para atingirmos o nosso objectivo. Esse tricotar é cuidar dessa planta, para que possa florir.

 

O silêncio, em M. P. Bonde é uma virtude?

Sempre. Porque é esta paz de espírito que me permite escrever.

 

A “pulsação do verbo”?

Primeiro foi o verbo, já diz a Bíblia. O verbo é a nossa enxada, para nós existirmos, enquanto autores. Eu preciso disso para continuar a alimentar a minha alma.

 

Eu não sei se existem livros fáceis, complexos, difíceis ou simples de escrever. Colocando a pergunta nesses termos, como foi escrever Aroma fóssil?

Não foi fácil. Estava ainda a conversar com uma colega, há dias, que me disse que o livro tem de ser lido com um dicionário ao lado. É uma perspectiva. O que pretendo é dar mais conhecimento ao leitor, e não descer ao seu nível.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o álbum Blue windows, de Válter Mabas; e Animais do ocaso, de Álvaro Taruma.

 

Perfil

P. Bonde nasceu em Maputo e é o primeiro vencedor do Prémio Literário Fernando Leite Couto. Além de Aroma fóssil (gala gala – 2021), é autor de Ensaios poéticos (Cavalo do Mar – 2017) e de A descrição das sombras (Fundação Fernando Leite Couto – 2018).

 

 

O escritor Pedro Pereira Lopes irá lançar, logo à noite, uma obra literária por si organizada. A cerimónia de lançamento do Primeiro livro de poesia – uma introdução aos poetas de Moçambique está marcada para 18 horas, na Escola Portuguesa em Moçambique, na Cidade de Maputo.

 

O primeiro poema do livro organizado pelo escritor Pedro Pereira Lopes é da autoria de Adelino Timóteo e começa assim: “Experientes nadadores são as aves,/ a espécie que admiro”. O excerto é extraído do poema “As aves”. Na verdade, Adelino Timóteo é apenas o primeiro de 41 autores publicados na antologia Primeiro livro de poesia – uma introdução aos poetas de Moçambique. Entre tantos outros, pode-se ler Ana Mafalda Leite, Angelina Neves, Calane da Silva, Carlos Cardoso, Filimone Meigos, Eduardo White, Glória de Sant’Anna, José Craveirinha, Leite de Vasconcelos, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Mutimati Barnabé João, Noémia de Sousa, Orlando Mendes, Rui de Noronha, Reinaldo Ferreira, Rui Knopfli, Rui Nogar, Sónia Sultuane e Tânia Tomé.

Constituído por 55 páginas, no livro Primeiro livro de poesia – uma introdução aos poetas de Moçambique, a escritora e editora Teresa Noronha, na introdução, avança que Pedro Pereira Lopes escolheu textos de poetas moçambicanos que cumprem, antes de mais, a função de encantar, de despertar ou de criar eventuais leitores do presente e do futuro.

Já para o prefaciador da obra literária, Alberto da Barca, Primeiro livro de poesia – uma introdução aos poetas de Moçambique é de uma selecção criteriosa a partir de uma vasta gama de autores moçambicanos. Por isso, garante o autor, permitirá aos leitores viajar, ao mergulharem no mundo maravilhoso das palavras que não usam regularmente. “Lendo este livro vão, com certeza, ficar surpresos e encantados com a arte de brincar com as palavras, dando-lhes novos significados e novas vidas”.

Editado pela Escola Portuguesa em Moçambique, o livro organizado por Pedro Pereira Lopes foi ilustrado por Filipa Pontes, artista visual e investigadora portuguesa. Entres os textos contemplados, encontram-se os que, inicialmente, foram publicados nos anos 60 a esta parte. Quiçá pela extensão temporal, Alberto da Barca entende que o livro irá permitir aos mais novos momentos de partilha de emoções, de cultura e de viagens, o que tanto pode enriquecer a cultura geral das meninas e dos meninos.

A publicação de Primeiro livro de poesia – uma introdução aos poetas de Moçambique insere-se nas comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que hoje se comemora. O principal objectivo da publicação, conforme adianta a nota de imprensa sobre o lançamento, é proporcionar uma panorâmica dos vários poetas de Moçambique, desde a época colonial aos dias de hoje, através de poemas simples para todas as idades.

Na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) o livro infanto-juvenil será apresentado pelo escritor e professor universitário Lucílio Manjate.

 

 

Jeremias Nguenha morreu a 4 de Maio de 2007. Passam hoje 15 anos. Provavelmente ainda sejam ouvidas as suas famosíssimas músicas “Vada Voxe” ou “La Famba Bicha”, que são, quanto a mim, um dos mais inventivos diagnósticos da sociedade moçambicana e das suas patologias inultrapassáveis. Permanecem actuaisActualíssimas

Era um artista extremamente irreverente e fazia uma arrojada e acerba crítica política e social. Nascera a 19 de Março de 1972, em Inhambane. Cantava em changana. Cantava enérgica e violentamente em changana. Morreu cedo, subscrevendo o anátema moçambicano, com apenas 35 anos. Deixou, no entanto, o seu génio criativo registado nas músicas que compôs e cantou. 

 Nguenha foi um artista carismático e popularíssimo. Isso devia-se, a meu ver, à sua música poderosa e às suas mensagens certeiras e veementes, mas também à sua imediata identificação com os mais desfavorecidos: a forma de vestir, a forma de se exprimir, a forma de dançar e as suas coreografias. A sua impetuosa denúncia social, sobretudo quando falava da pobreza ou das injustiças sociais, era uma resposta violenta à violência dos que sofriam e sofrem a exclusão, a pobreza e a marginalidade. 

Jeremias Nguenha tinha uma portentosa e magnética energia em palco e vê-lo actuar era um momento fortemente impactante. Vestia uniforme militar e tinha o cabelo sempre rapado. Andava com um exemplar da Bíblia. Era um provocador. As suas composições tinham metáforas e imagens virulentas: “obrigam-nos a pentear as nossas carecas(tradução livre) é um dos seus versos mais profundos. O grande instigador era, antes de tudo, um grande poeta social e um magistral e intrépido cantor e actor. Ele não cantava apenas. Actuava no estrado. Era a voz dos esquecidos, dos desprezados, dos proscritos. 

Teve uma aparição fulgurante. As rádios tocavam-no regular e recorrentemente. Quando foi anunciada a sua morte, o choque foi inevitável. Mas parece que é o destino de grande parte dos artistas moçambicanos. Quantos talentos se perderam precocemente neste país? Quando estes (artistas)desaparecem sucede o silêncio e a escuridão sobre os seus percursos e suas vidas. Não são mais evocados, não são estudados, não existem biografias. Sabemos muito dos artistas estrangeiros e cultuamos o efémero entre nós. Pouco sabemos dos nossos melhores. 

Aliás, parece que a Pátria se regozija em ignorar os seus melhores intérpretes. Intérpretes num sentido mais extenso – de tradutores de um tempo e de uma sociedade. Como é este imenso e perseverante artista. Um cantor desassombrado e arrebatador. Jeremias Nguenha foi e é um dos melhores intérpretes do nosso destino individual e colectivo. Foi e é um dos maiores tradutores do devir moçambicano. 

 La famba bicha!

 

Maputo, 4 de Maio de 2022

 

Mingas, Armando Artur, Rogério Manjate e José Luís Peixoto referiram-se aos seus processos criativos e trocaram impressões sobre arte no primeiro dia do Resiliências – Festival de Literatura. No Camões, Cidade de Maputo, esta terça-feira, a sessão de abertura foi dirigida pelo Embaixador de Portugal em Moçambique.

A sala de eventos do Camões – Centro Cultural Português em Maputo continua colorida, graças à exposição Musambique, dos portugueses Manuela Pimentel e JAS. Na verdade, a colectiva foi inaugurada no dia 30 de Março e pode ser visitada até 7 deste mês. Também por isso, o pano de fundo que serviu à quinta edição do Resiliências – Festival de Literatura foi completamente diferente das edições anteriores. Entre artes visuais que inspiram universos inerentes à Ilha de Moçambique, autores, leitores e amantes da literatura e das artes em geral uniram-se em torno de um movimento, através de conversas e de troca de impressões.

Assim, no primeiro painel estiveram duas vozes importantes das artes moçambicanas. Nomeadamente, Mingas e Armando Artur. Durante a conversa que durou mais de uma hora, os autores referiram-se aos seus processos criativos, partilhando “segredos” e o que os emociona. A cantora, com efeito, não escondeu a admiração pelos escritores, seres que considera inalcançáveis por todas as questões ligadas às suas capacidades criativas. Conforme entende Mingas, embora a música e a literatura sejam artes muito próximas, a literatura, em particular a poesia, distingue-se pela complexidade na tessitura.

Quem não concordou com a cantora, sempre num tom divertido e simpático, foi mesmo Armando Artur. Segundo disse o poeta, tanto a poesia assim como a música são artes com mesmo peso e que, nessa perspectiva, dispensam comparações hierárquicas. Aliás, nesse sentido, o poeta ouviu Mingas referir-se aos locais onde busca ideias e sensações para alimentar as suas letras musicais. A cantora mencionou paisagens, coisas simples ao seu redor e a oralidade. Nesse aspecto, Mingas coincide com Armando Artur porque, para o poeta, a paisagem natural é tão essencial quanto a paisagem humana que, muitas vezes, busca para compor o ser numa vertente estética e filosófica.

No encontro, Mingas cantou trechos de Gabriel Chiau para lembrar a sua infância, à capela, e, também por isso, mereceu atenção do público. “Foi interessante estar neste Resiliência com Armando Artur, afinal de contas, temos muito em comum na forma como trabalhamos e na forma como nos inspiramos. Todos precisamos de experiências e de estar connosco mesmos através destas partilhas, para conseguirmos construir o que pretendemos expressar. Aprendemos uns dos outros ao trocarmos estas experiências”, confessou Mingas, já sem pensar nas diferenças existentes entre a literatura e a música.

Concordando com Mingas, Armando Artur acrescentou que o encontro foi fabuloso, pois, igualmente, serviu de pretexto para homenagear três grande fazedores das letras: Craveirinha, Pastor e Saramago. “Acho que o Resiliências deve continuar a homenagear artistas. Este cruzamento entre a escrita e a música foi extremamente interessante e importante”.

No segundo painel do dia, estiveram Rogério Manjate e o escritor português José Luís Peixoto. Numa moderação da professora universitária Conceição Siopa, os dois autores levaram o público a uma aventura “descomprometida” pela ficção. Coincidentemente, ambos os autores trabalham com muitos géneros literários. Por exemplo, a poesia e a ficção. Referiram-se a tudo isso como uma necessidade criativa, natural. Por isso mesmo, Rogério Manjate destacou que no teatro encontra esse lugar de trabalho colectivo, tão importante quanto o da escrita, que é essencialmente solitário. Além disso, Manjate referiu-se ao que mais lhe interessa em sessões como Resiliências: “O que destaco nestes encontros é a relação com o leitor. O que nos falta é a criação destes momentos em que o leitor dialoga com o autor e vice-versa. E há um encontro com o outro, e esse outro pode ser um escritor, local ou estrangeiro. Esta é uma das coisas que o Resiliências está a propor-nos, preenchendo espaços ausentes”.

Manjate não saiu do Camões sem ter dito que o evento organizado pela Cavalo do Mar é oportuno para pensar a obra dos autores celebrados, isto é, os três José: Craveirinha, Pastor e Saramago. Por essa via, também caminhou outro José… Luís Peixoto: “A dimensão de estarmos a recordar grandes autores, de estamos no presente a trocar ideias e experiências e passar isso para os outros que podem vir a ser escritores, tem uma vitalidade que me entusiasma”. E continuou, pegando na ideia da importância de partilha de impressões entre escritores de proveniências diferentes: “Efectivamente, deparamo-nos com as mesmas questões. Estamos todos a solucionar problemas semelhantes. Muitas vezes, podemos aprender com as diferenças dos outros. Cada um tem as suas realidades e as suas perspectivas. A literatura, muitas vezes, é uma forma de lidar com isso”. Para o efeito, concordaram Peixoto e Manjate, as viagens por outras culturas e por outros espaços são fundamentais.

A sessão de abertura do Resiliências foi dirigida pelo Embaixador de Portugal em Moçambique, António Costa Moura. E, porque esta edição celebra Craveirinha, Pastor e Saramago, a poetisa Énia Lipanga declamou o poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.

Desde que o ano começou, em Moçambique, nota-se um movimento que pretende celebrar o centenário natalício de José Craveirinha. Nelson Saúte e Mia Couto, esta terça-feira, na Fundação Fernando Leite, em Maputo, de algum modo, também fizeram parte dessa pretensão. Partindo dessa necessidade de pensar a obra do poeta da Mafalala, os dois escritores concordaram na seguinte ideia: “De nada vale celebrar o centenário de Craveirinha se a obra continuar pouco conhecida”.

Num encontro com estudantes de Literatura Moçambicana, da Universidade Eduardo Mondlane, Nelson Saúte procurou homenagear José Craveirinha, lendo-lhe a obra canónica toda, desde Chigubo a Babalaze das hienas. Nesse exercício que aconteceu na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, o escritor e editor tentou sublinhar os poemas menos conhecidos do poeta da Mafalala, no entanto, que mostram a sua grandeza e a sua capacidade de construir metáforas e de estabelecer imagens.

Para Nelson Saúte, Craveirinha é daqueles poetas cuja língua e cujas capacidades são resplandecentes. “De facto, ele é um dos grandes poetas da língua portuguesa”. Por isso, “Eu tentei mostrar o melhor Craveirinha, que é o Craveirinha desconhecido. O mais conhecido é aquele que é, eu diria, a voz dos povos oprimidos, dos poemas alegóricos. Mas há um Craveirinha lírico e intimo que é extremamente interessante e instigante. E é esse poeta que eu tentei hoje recuperar e ler para este público jovem, para que o conhecesse”.

Saúte concorda que a importância de Craveirinha também advém de ser um poeta da nação, que lida com questões identitárias. Mas, mesmo esse, é pouco conhecido. O apelo que fez, no final da conversa com os estudantes de Literatura Moçambicana foi que todos voltassem a ler e a estudar Craveirinha. Dito isso, Saúte referiu-se então a melhor homenagem que se pode fazer a um poeta: “A melhor homenagem que se pode fazer a um poeta, não são as proclamações e as celebrações, mas é lê-lo”, afinal, tal como sustentou Mia Couto, “De nada vale celebrar o centenário de Craveirinha se a obra continuar pouco conhecida”.

 

Publicações póstumas

Existem livros publicados a título póstumo de José Craveirinha. Isso, no entanto, não é necessariamente uma boa notícia. Aliás, Nelson Saúte tem uma opinião clara sobre o assunto. “A publicação de obra póstuma é sempre problemática, se não for acompanhada de estudos que possam intermediar essa obra com o público. No caso, aquilo que eu discuti foi a publicação de textos que já tinham sido canonizados. E dei alguns exemplos. Três poemas que estão no livro Karingana ua karingana, que são versões que o poeta estabeleceu como acabadas, aparecerem num outro livro, Moçambique e outros poemas dispersos ou no livro O Plebiscito”. Segundo Saúte, trata-se de versões anteriores àquelas dadas como terminadas. E, como se na bastasse, são versões menores. “Isso, aparecer sem nenhum enquadramento, é problemático”.

Já a terminar, Saúte referiu que, quando se trata de publicação de livros a título póstumo, um prefácio que explica os critérios e as razões da publicação é importante. “Publicar, simplesmente, poemas dispersos do poeta, sem enquadramento, eu acho problemático, sob perspectiva crítica”.

No encontro com os estudantes de Literatura Moçambicana da UEM também esteve presente Mia Couto. O escritor lembrou que Craveirinha foi tão complexo e tão diverso que é preciso conhecê-lo nessa grande diversidade. “Ele foi poeta do amor, da luta, da descoberta da nação moçambicana, africana e humana. Mais do que esses poemas emblemáticos que muitas vezes não dão conta desta grande diversidade que ele foi, destes vários Craveirinhas, melhor contar com quatro ou cinco poemas que os estudantes e os jovens possam pegar nisso como qualquer coisa que os ajude a descobrir a si próprios”. E criticou: “Nós somos muito produtivos no esquecimento. Ele é o nosso grande poeta, a nossa maior referência. Qualquer nação constrói esses grandes pilares, esses grandes nomes”.

 

 

Diamantes pretos em meio a cristais é o título do romance que permitiu a Maya Ângela Macuácua partilhar o Prémio Literário Fernando Leite Couto (ex aequo) com Geremias José Mendoso. A história que será editada pela Fundação Fernando Leite Couto apresenta uma série de eventos sobre a segregação racial em Moçambique, na África do Sul e nos Estados Unidos. Na verdade, está aí um pretexto para a autora (e o leitor) pensar o presente a partir do passado, a partir do outro e a partir da dor. De algum modo, eventualmente, nas próximas linhas segue uma conversa com, se calhar, uma revelação da literatura moçambicana, tão cheia de bigodes.

 

Este ano o Prémio Literário Fernando Leite Couto fez uma inovação. Houve cinco finalistas e essa informação foi partilhada nas redes sociais. Como reagiu a isso?

Eu não consultei a informação no site e nem fui ao Facebook. Na véspera da Páscoa, ligaram-me e disseram-me que era uma das finalistas. Longe de mim pensar que seria uma das vencedoras. Portanto, foi normal e inédito porque eu não esperava que isso pudesse acontecer.

 

E não esperava porquê, se concorreu ao Prémio?

Eu submeti a obra à última hora. Tinha muita informação que descobri e que era necessário implementar no meu romance. Foi tudo tão rápido e tão exaustivo, porque tive apenas dois meses para corrigir a obra. Só que vi que a história era muito complexa e, depois de ter submetido o texto, notei que havia algumas coisas que poderiam manchar a história. Eu não esperava, mas procurei dar o meu melhor para os possíveis leitores.

 

Escreveu a história para concorrer ao Prémio Literário Fernando Leite Couto?

Na verdade, eu escrevi o livro em 2016, para um outro concurso, que, infelizmente, não consegui participar. Então, ao longo desses dois meses, antes de submeter ao Prémio Literário Fernando Leite Couto, um amigo ajudou-me a rever a história. Aí notei que a história tinha alguns poréns. Era necessário muito estudo para aprofundar a matéria, porque se tratava de épocas diferentes, com personagens diferentes e características diferentes. Foi aí que eu notei que tinha de vasculhar mais a História e perceber como é que poderia incluir aquilo que realmente aconteceu na ficção. Isso aconteceu em dois meses.

 

Temos no livro Moçambique, África do Sul e Estados Unidos. Porquê?

Inicialmente, a história tinha dois espaços. Estados Unidos e Moçambique. Depois, vi a necessidade de explorar mais os principais pontos onde a segregação racial era intensa. Então pensei, por que não colocar também a África do Sul.

 

Aproveitando o Apartheid

Sim. Em particular, na Cidade do Cabo.

 

Temos na sua história a imagem da mulher com muito protagonismo. O que quis fazer das personagens femininas?

No tempo da escravatura ou da segregação racial, era muito notória a presença das mulheres nas casas dos senhores brancos. Mas, mais recentemente, notamos o sofrimento de muitas mulheres infectadas pelo HIV. Então, eu quis fazer da mulher um certo estudo de caso, para perceber como é que a mulher do séc. XIX e XX pensavam e como é que a mulher do séc. XXI pensa. Isso é importante para perceber a própria mentalidade da mulher.

 

Aprendeu das suas personagens?

Sim, aprendi muito. Sobretudo daquela que me deu mais dores de cabeça, que é a Elvira. Ela passou por momentos turbulentos. Por isso, afundou-se numa depressão. No caso dela, tive de trabalhar mais a personalidade da mulher, face às circunstâncias, às frustrações e às perdas humanas.

 

Parece que esta é a sua personagem preferida. Coloco a questão nesses termos porque, quando concorreu ao Prémio, adoptou o pseudónimo Elvira Guambe.

Por mim, seria a Juno Beomunt mas, pronto, foi a Elvira. A Juno Beomunt é uma das minhas personagens favoritas porque tem uma mente crítica. Não deixa de lado as suas origens africanas. Ela foi deportada para América e foi adoptada. Desde muito cedo, foi educada a pensar como alguém diferente, sem ser. Sempre avaliou as coisas de forma crítica. Tem algo especial.

 

Que diamantes e que cristais são esses?

Os diamantes pretos são pedras que foram inseridas em um local não muito comum. Quando se faz o trabalho de recoleção de pedras preciosas, é preciso seleccionar quais tipos de pedras devem pertencer a um campo, entre as preciosas, as semi-preciosas e as não preciosas. Diamantes pretos, diria anormais, porque é difícil de encontrar mesmo em terras com abundancia de pedras preciosas.

 

Quis tecer uma associação entre essas pedras e as suas personagens?

Sim. Pedras preciosas, mas anormais, em circunstancias diferentes e divergentes e em meio a cristais, que são as circunstancias e porque os cristais transmitem aquilo que são as variedades das cores. Por exemplo, um mar de diamantes com pedras negras porquê? Eu quis fazer essa provocação.

 

Numa conversa, o poeta M. P. Bonde disse-me que, quando lança um livro, sente uma espécie de purificação e libertação, porque se desfaz do texto e pode trabalhar mais à vontade em outros projectos.  Isso aconteceu consigo, quando submeteu o texto ao Prémio ou agora que o venceu?

Senti uma espécie de purificação e percebi que, quando pretendemos escrever um livro, devemos estudar antes, para conseguir escrever melhor e com qualidade. E foi, realmente, trabalho cumprido. Ao longo da escrita, consultei documentos em inglês e verifiquei como é que isso poderia se adequar ao universo da história. Honestamente, penso que valeu a pena.

 

Os temas que aborda são muito actuais. Inclusive, proporciona ao leitor uma viagem ao passado que o faz pensar no presente da humanidade.

Verdade. Por exemplo, há quem pensa que a escravatura acabou, mas não. Temos uma nova forma de escravatura. Quando estudamos sobre o passado da escravatura, percebemos que não era só feita por brancos contra negros, mas entre os negros também, até de forma intensa, sobretudo na região oriental de África. Isso permite-nos comparar com a actualidade.

 

O que pretendeu com esse tópico da segregação racial?

Quis levantar a superfície pontos onde a comunidade negra sofreu de forma muito intensa. Quanto ao HIV, quis reflectir sobre como a sociedade moçambicana pensou nisso, numa época com pouco conhecimento sobre o assunto.

 

Pensar os outros e pensar o passado é uma forma de pensar em nós e de pensar no presente?

Sim, é certamente isso.

 

Indo ao pormenor, o que sentiu quando o professor Francisco Noa, presidente do júri, anunciou os vencedores. O coração palpitou muito?

O meu coração palpitou muito, mas procurei ficar calma. Independentemente da decisão, eu tinha de a abraçar. Como dizia a Juno, abrace os problemas a ponto de os sufocar. Eu estava decidido a abraçar quer fosse um problema, quer fosse uma conquista.

 

O problema não é o nervosismo, é o que nós fazemos com isso…

É verdade. Então, quando ouvi o meu nome entre os vencedores, tive a sensação de missão cumprida, que vale apena escrever.

 

Agora, segue-se um livro e uma residência artística em Portugal.

Será uma oportunidade única de estar com escritores portugueses, novos e mais velhos, e para mostrar que a literatura moçambicana pode ir além…

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro All God’s Children Need Traveling Shoes, de Maya Angelou; Mandela: the authorized portrait, de Mac Maharaj e Ahmed Kathrada; A varanda de Frangipani, de Mia Couto, que foi o meu primeiro contacto com a literatura moçambicana; o filme 12 years a slave, e a obra de Mike Nicol.

 

Perfil

Maya Ângela Whate Macuácua nasceu em Harare, no Zimbabwe, e tem 27 anos de idade. Parte do ensino primário fez em Portugal, tendo, de seguida, concluído o nível básico em Moçambique, onde também frequentou o ensino geral. Cursou Ciências Jurídicas na Universidade A Politécnica.

 

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