Do Atlântico para o Índico
Há cerca de trinta anos desde que, em 1989, aquando da realização do primeiro congresso de escritores de língua portuguesa em Lisboa, iniciamos as nossas reflexões em torno das ações e propostas das novas gerações artístico-literárias que –então- se apresentavam em Angola e Moçambique. Continuamos reputando este assunto de importância bastante para as literaturas […]
Amor: um doce veneno?
Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. Luís Vaz de Camões Que arde… é… bem que arde! Já o disse e bem o conceituado escritor português Luís Vaz de Camões. Tanto que arde que pode […]
N’txuva
Madala estava irrequieto. De cócoras. Não tirava os olhos do chão, onde buracos disciplinados alinhavam-se e formavam o tabuleiro do n'txuva. Madala levantou-se para esticar as pernas. Ouviu estalos ruidosos. Eram as engrenagens do corpo a reclamarem. Ficou de pé. Mãos na cintura. Depois cruzou os braços num gesto brusco, denunciado nervosismo. Testa franzida. Olhos […]
Teatro: luta, encanto e ética
Talvez começasse por vos contar uma história da escritora e dramaturga francesa Marguerite Duras e que foi o tema para uma curta-metragem. A história tem como personagem principal um rapazinho, o Ernesto, que um dia fugiu de casa. A aldeia inteira foi procurá-lo no bosque que circundava a povoação e ao cabo de três dias […]
Se o teu homem é um feiticeiro, tens de te tornar bruxa!
Nelson Mandela: “Uma tarde, durante um intervalo da audiência preliminar, levei um amigo de carro de Orlando até à escola médica da Universidade de Witwatersrand e passei pelo Hospital Baragwanarth, o principal hospital negro de Joanesburgo. Ao passar por uma paragem de autocarro ali perto, reparei, pelo canto do olho, numa jovem lindíssima que estava […]
Os crimes montanhosos – o efeito “narrativo” em António Cabrita (1)
Uns vencem pelos seus crimes, outros fracassam pelas suas virtudes William Shakespeare Os crimes montanhosos é o título mais recente da editora Cavalo do Mar. Esta colecção de poemas é dividida em duas situações, designadamente: “o branco colarinho dos corvos”, escrita por António Cabrita, e “a gravata preta do corvo albino”, com autoria de […]
O assobio do meu pai cantando “bazobuya” dos Soul Brother’s…
Hoje escuto “bazobuya”, dos Soul Brother’s, repetidas vezes porque nenhuma pilha gasto e nenhuma fita vou rebentar. A cassete dos Soul Brother’s tinha um espaço muito especial no estojo do meu pai. Debaixo da fotografia do grupo, na capa, vinha bem bordada a assinatura, em caneta de filtro, do meu pai e seis números divididos […]
Abel Faife: lugar cativo no jornalismo moçambicano
Fevereiro de 1974. Fim de tarde. Abel Faife, um dos poucos jornalistas negros, que se conseguiu “infiltrar” em razão das suas capacidades na Redacção do Notícias, entre profissionais com a “cor adequada de então”, acompanhado de um amigo, sentaram-se no Restaurante Abadia em Lourenço Marques (situado por detrás da Casa da Sorte) e pediram dois […]
Descolonizámos o Land Rover
Albino Magaia tem 40 anos e é um reputadíssimo jornalista e escritor moçambicano. É prócere director da prestigiada e prestigiosa revista TEMPO. O semanário, proveniente dos anos 70, aquando da primavera marcelista, pela mão de excelentes profissionais, é para mim, ainda ou sobretudo, o retábulo do sonho. Já lá não oficiam muitos dos seus míticos […]
MARRRIA
– Marrria. Me chamo-me Marrria. Pronunciou assim mesmo. Com a língua tremelicar no céu da boca, pondo os muitos erres da descontração tsonga no sotaque. Tinha a cabeça timidamente inclinada até ao ombro. As longas mechas descaíam e cobriam o espetáculo da beleza à meio rosto, como cortinas de um teatro que se intrometessem à […]
