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O País – A verdade como notícia

As organizações da sociedade civil, na Cidade de Maputo, dizem não à proposta de lei das organizações sem fins lucrativos. A sociedade civil diz que o instrumento visa apenas silenciá-las.

Mais de duzentas organizações da sociedade civil juntaram-se, esta quinta-feira, na mesma sala, na Cidade de Maputo, para contestar a proposta de lei que regula a criação e funcionamento das organizações sem fins lucrativos.

Para as organizações da sociedade civil, o instrumento é inconstitucional e é uma violação dos seus direitos.

“Quando aparecem propostas de lei deste género, ficamos cada vez mais preocupados, porque sentimos que os nossos direitos cívicos não estão a ser respeitados. A questão da lei da associação é muito importante para o exercício da cidadania e não deve ser restringida”, disse Steven Ferrão, membro da organização da sociedade civil, acrescentando que o instrumento poderá restringir a sua actuação.

“Precisamos de ter autonomia e independência. Não precisamos de ser policiados nem controlados por nenhum actor. Não é nossa obrigação revelar, logo à partida, de onde provêm os nossos fundos”.

Através da lei das organizações sem fins lucrativos, o Governo passará a ter controlo da origem e destino dos fundos destas organizações, através de relatórios de actividades.

A proposta de lei foi aprovada no ano passado, como uma das medidas para tirar o país da lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI). Para tal, são necessárias medidas mais estruturantes de combate aos crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo.

Entretanto, para o Movimento de Associativismo, a proposta de lei é, para a sociedade civil, uma ameaça à sua existência.

“A fundamentação da criação desta proposta de lei não existe. O branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo controlam-se através do sistema financeiro e não através do controlo de planos, relatórios e fiscalizações como se fossemos terroristas”, justificou Paula Monjane, representante do Movimento.

A 1a Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos Humanos e Legalidade da Assembleia da República esteve no local e ouviu as preocupações.

“Em todo o país, as preocupações são as mesmas. As organizações da sociedade civil dizem que a proposta de lei não deve ser aprovada. Neste momento, o que temos que assegurar é anotar todas as questões que achamos que têm fundamento, analisar ao nível das comissões de trabalho, e iremos chamar o proponente para mais um debate”, explicou João Chacuamba, representante do órgão.

A auscultação pública sobre a proposta de lei das organizações sem fins lucrativos decorreu de 6 a 16 de Fevereiro, em todo o país.

A Administração Regional das Águas do Sul aumentou, ontem, as descargas de água na barragem de Massingir de 500 para 1000 metros cúbicos por segundo, e em Corumana de 500 para 800 metros cúbicos por segundo. A ARA-SUL sul alerta às populações que vivem nas zonas próximas dos rios Incomáti e Maputo, dos Elefantes e Limpopo em Gaza para que abandonem os locais de risco.

O enchimento da barragem de Corumana, na Província de Maputo, já ultrapassa os 90 por cento e de Massingir, em Gaza, é de mais de 80 por cento.

Com as chuvas moderadas a fortes, que se registam na presente época chuvosa, já não há capacidade de reserva de água e a estratégia, para resolver o problema, é o aumento das descargas.

“O incremento das descargas na barragem de Corumana passa dos actuais 500m3 /s para 800m3 /s. A barragem de Massingir vai incrementar as descargas gradualmente dos actuais 500m3 /s para 1000m3 /s, podendo esses níveis ser ultrapassados em função da evolução dos escoamentos”, explicou Lizete Dias, chefe do Departamento de Recursos Hídricos da ARA-SUL.

O incremento das descargas nas barragens de Corumana e Massingir começou esta terça-feira, o que poderá afectar as populações que vivem nas zonas ribeirinhas dos rios Incomáti, em Maputo, Elefantes e Limpopo, em Gaza.

“A ARA-Sul apela à retirada imediata das pessoas e bens das zonas de risco para as zonas seguras e a observância de medidas de precaução. Igualmente, recomenda-se o acompanhamento da informação hidrológica disseminada pelas entidades competentes”, apelou.

As vias de acesso poderão também estar condicionadas em alguns troços das províncias de Maputo e Gaza.

“Com o incremento destas descargas, associado aos escoamentos do rio Incomáti, prevê-se a subida dos níveis nas estações hidrométricas de Magude e Incoluane; haverá continuidade de observância de níveis altos na baixa de 3 de Fevereiro na EN1 e condicionamento da circulação rodoviária nos troços entre Maragra – Machubo, Maragra – Calanga, Magude – Motaze, Magude – Chinhanguanine e Moamba – Chinhanguanine, além de inundações nas zonas baixas dos rios Sábie e Incomáti.”

As descargas de água têm em vista reduzir o impacto das cheias e salvaguardar a segurança das duas infra-estruturas de armazenamento de água.

Está interrompida, desde a meia-noite desta quinta-feira, a ligação rodoviária entre as províncias de Manica e Tete, através da Estrada Nacional número sete (EN7).

O facto deve-se ao desabamento da ponte sobre o rio Nhamuti, que liga os bairros 3 de Fevereiro e Sanhathunzi, na vila de Catandica, distrito de Báruè.

Uma fonte do governo distrital de Báruè referiu que as fortes chuvas que caem desde o princípio da noite desta quarta-feira naquele distrito originaram o desabamento daquela infra-estrutura.

“Neste momento está bloqueado o trânsito rodoviário. Os camiões e autocarros não estão a passar. Tentámos abrir uma via alternativa só para a passagem de viaturas ligeiras”, referiu a fonte.

Refira-se que a EN7 é uma importante via que faz a ligação entre Moçambique e países do interland, ou seja, aqueles que não tem ligação directa com o mar, nomeadamente Malawi, Zimbabwe e Zâmbia.

Quatro pessoas sofreram ferimentos, entre graves e ligeiros, resultado de um acidente de viação ocorrido na tarde de hoje, na cidade de Maputo. O sinistro foi provocado por um autocarro de transporte de trabalhadores do Ministério do Interior, que alegadamente perdeu freios e embateu noutras sete viaturas.

O sinistro ocorreu na tarde desta quarta-feira, na Avenida Karl Marx, em frente à clínica Cruz Azul, na cidade de Maputo.

O autocarro, que seguia à direcção da avenida 25 de Setembro, embateu em viaturas, entre ligeiras de particulares, uma do conselho Municipal de Maputo e um triciclo (txopela), de onde saíram duas vítimas graves.

As vítimas graves estavam no txopela e transportavam um fogão que acabava de ser adquirido. No sinistro, o eletrodoméstico ficou irreconhecível, igual ao txopela.

No local viam-se estilhaços de vidro pelo chão, destroços de viaturas, árvore tombada inclusive em uma viatura que se encontrava estacionada.

Um Jovem que trabalha nas redondezas do local do sinistro, lavando carros, conta que viu o autocarro descendo pela avenida, a alta velocidade, mas que de repente embateu-se em vários carros. O Jovem de Txopela tentou escapar, mas sem sucesso e foi atingido, de leve, na perna direita.

A polícia esteve no local, mas não prestou declarações à imprensa. As vítimas foram imediatamente evacuadas para o Hospital central de Maputo.

Já no banco de socorros do HCM, não houve declarações à imprensa, mas “O País” confirmou a entrada das quatro vítimas do sinistro naquela unidade hospitalar.

Uma média de 12 crianças oriundas de todo o país dão entrada no Hospital Central de Maputo vítimas do cancro pediátrico, todos os meses.

Os cancros do sangue, do sistema linfático, do olho, do rim e da pele são os que mais afectam as crianças, sendo que, segundo a primeira-dama, Isaura Nyusi, o cancro pediátrico representou em 2020 cerca de sete por cento do total de cancros no país.

“Descobrir que uma criança ou um adolescente tem cancro é uma situação extremamente difícil de se enfrentar e aceitar por parte da sociedade, famílias e principalmente pais. Por isso, somos chamados, mais uma vez, a unir-nos para minimizar os efeitos desta doença, e tal passa por identificar os sinais e sintomas de alerta nas nossas criancinhas”, disse a Primeira-Dama.

O alerta dos pais deve começar, conforme disse Isaura Nyusi, assim que se perceber que há perda de apetite, perda de peso, anemia, sangramento, inchaço no corpo e alteração na visão.

Segundo disse, quanto mais cedo for feito o diagnóstico mais efectivo e menos dispendioso é o tratamento. A nível mundial, são registados cerca de 200 mil novos casos de cancro por ano em crianças dos zero aos 14 anos de idade.

“A grande maioria destas crianças vive em países de baixa e média renda. Tal é o caso de Moçambique, onde o acesso aos cuidados e tratamento são limitados, resultando numa baixa percentagem de sobrevivência quando não diagnosticados precocemente”, frizou.

A esposa do Presidente da República disse que entre os esforços para minimizar o sofrimento das crianças vítimas do cancro existe uma iniciativa global contra o cancro infantil, cujo objectivo é garantir a sobrevivência de pelo menos 60% das crianças diagnosticadas com cancro até 2030.

Nos últimos anos, o país, com ajuda de parceiros tem registado avanços na luta contra o cancro pediátrico, conforme disse a esposa do Presidente da República.

 

CANCRO ENTRE AS DOENÇAS QUE FAZ MAIS VÍTIMAS MORTAIS NO PAÍS

O maior desafio para o país ainda é o diagnóstico precoce da doença, pois quando os pacientes chegam tardiamente às unidades sanitárias, poucas são as probabilidades de sobrevivência, como disse Cesaltina Lorenzoni, directora nacional de Controlo do Cancro.

Em média, 17 mil pessoas morrem por ano no país devido à doença. O cancro do colo do útero, por exemplo, é o que mais mata, tirando a vida de cerca de 4 mil pessoas anualmente.

Para evitar que mais pessoas percam a possibilidade de ser salvas, foi lançado, esta quarta-feira, o Teste HPV-DNA, para rastreio do cancro do colo do útero.

“Este é o teste que é recomendado como padrão pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é mais sensível que o exame papa Nicolau ou, pela visualização por ácido acético, é mais objectivo e não subjectivo, tem um alto valor predictivo negativo, isto é, se o teste HPV (Vírus Papiloma Humano) for negativo, as chances de desenvolver lesões de alto grau em cinco anos é muito baixo”, descreveu Lorenzoni.

Nos primeiros testes pilotos, foram realizadas várias pesquisas, em que foram rastreadas 900 pacientes entre 30 e 49 anos de idade. Os resultados indicaram, segundo a médica, que 24% das mulheres eram HPV positivas, e dessas 40% têm vírus do HIV/SIDA.

“Concluímos que, em Moçambique, 20% das mulheres que são HIV negativas serão HPV positivas e aproximadamente 40% de mulheres HIV positivas serão HPV positivas”.

Segundo o embaixador dos Estados Unidos em Moçambique, Peter Vrooman, a implementação do teste para o rastreio do cancro do colo do útero é um dos grandes avanços que Moçambique tem registado.

Nos últimos dois anos, o país norte-americano apoiou no rastreio de mais de 300 mil mulheres e no tratamento de mais de 15 mil mulheres com cancro do colo do útero.

“Entre os 50 países apoiados pelo PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para Alívio da SIDA), Moçambique foi o único que excedeu os seus objectivos anuais de rastreio do cancro do colo do útero”, congratulou o diplomata Vrooman.

No entanto, a Organização Mundial da Saúde reconhece que os desafios ainda são inúmeros. Segundo Severin Xylander, entre os desafios estão a baixa disponibilidade dos registos oncológicos baseados na população, a limitada promoção da saúde, o acesso inadequado aos serviços de prevenção primária e a escassez de unidades de diagnóstico e disponibilidade de unidades de radioterapia e quimioterapia.

Operadores moçambicanos de transporte de passageiros bloquearam, esta terça-feira, a entrada e saída de viaturas na fronteira da Ponta do Ouro para impedir a entrada de transportadores da África do Sul, em protesto contra a vandalização de carros e bens de cidadãos moçambicanos naquele país.

Dezenas de operadores de transporte de passageiros para a África do Sul amotinaram-se, na manhã desta terça-feira, junto à fronteira da Ponta de Ouro, na província de Maputo, e impediram a saída e entrada de viaturas com matrícula sul-africana em Moçambique.

A situação apanhou várias pessoas de surpresa e alguns transportadores nacionais de passageiros exigiam uma explicação clara do que leva os alegados sul-africanos a incendiarem viaturas com matrícula moçambicana naquele país.

Sem gravar entrevista, o comandante distrital da Polícia da República de Moçambique em Matutuine, Helton Fumo, disse que decorrem negociações com os transportadores para abandonarem o local.

O protesto acontece dois dias depois da queima de mais um transporte de passageiros com matrícula moçambicana na África do Sul.

Recentemente, os ministros do Interior de Moçambique e da África do Sul reuniram-se para discutir o assunto, mas nenhuma medida foi anunciada.

Antes de falar à Nação, Filipe Nyusi sobrevoou os distritos afectados pelas cheias no Grande Maputo para ver o drama que as populações estão viver em consequência das chuvas intensas que caíram na região. À noite, tal como previsto, o Presidente da República falou dos desafios para lidar com as mudanças climáticas no país e as decisões tomadas para mitigar, de imediato, os impactos do que se vive, neste momento, na Cidade e Província de Maputo.

Quase uma semana depois das cheias no Grande Maputo, o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou a disponibilização de 260 milhões de Meticais para mitigar os efeitos das cheias na Cidade e Província de Maputo, como resultado das chuvas que têm provocado morte de pessoas e causado danos materiais avultados em infra-estruturas públicas e privadas. O valor anunciado pelo Chefe de Estado corresponde a 80% da verba que consta do Plano Económico e Social e Orçamento de Estado (PESOE) de 2023 para as necessidades imediatas de reconstrução após a emergência.

A este valor (260 milhões de Meticais) acresce-se uma verba de 10 milhões de dólares que o Executivo pretende alocar para responder aos efeitos das calamidades naturais. 

Entre as medidas anunciadas pelo Chefe de Estado, está a criação de uma equipa técnica ao nível do Governo central, para reportar o problema no terreno e reportar as situações periodicamente ao Conselho de Ministros.

O Governo decidiu, também, que vai orientar, esta quarta-feira, o Conselho Coordenador de Gestão de Risco de Desastres para proceder à avaliação da situação de emergência e recomendar sobre as decisões a tomar para atender ao impacto da situação de emergência.

O Presidente da República revelou que o Executivo decidiu posicionar as brigadas técnicas da Administração Nacional de Estradas (ANE) e empreiteiros pré-mobilizados no terreno para garantir as condições mínimas de transitabilidade nas vias.

Há também equipas que estarão no terreno a fazer o levantamento dos danos para posteriormente reportar e indicar as medidas de recuperação das infra-estruturas públicas e privadas, ao mesmo tempo que se criam condições para a normalização do abastecimento de água no Grande Maputo, que vive, actualmente, uma grave crise.

 

ESCOLAS DEVEM ENCONTRAR FORMAS DE RECUPERAR TEMPO PERDIDO

As estruturas locais da Cidade de Província de Maputo devem decidir sobre a necessidade de suspensão das aulas presenciais, por um período de sete dias, nas escolas públicas e privadas afectadas pelas cheias. O Presidente da República deixou claro que não são todas as escolas que estão em zonas afectadas que devem suspender as aulas presenciais, na medida em que apresentam condições para receber estudantes.

 

POPULAÇÃO DO GRANDE MAPUTO COM FACILIDADES PARA RECUPERAR DOCUMENTOS E COM TRANSPORTE REDUZIDO 

As pessoas afectadas vão beneficiar-se de emissão gratuita de documentos perdidos com as cheias nas repartições públicas, particularmente a carta de condução e o Bilhete de Identidade. O Governo decidiu ainda que os passageiros que vivem no Município de Boane vão pagar apenas 50% da tarifa de transporte na rota Cidade Maputo–Boane, num período de três meses.

Para as famílias que perderam as suas machambas, o Chefe de Estado pretende providenciar sementes de hortícolas e coordenar o acesso ao crédito para os agricultores comerciais.

 

“NÃO PODEMOS REASSENTAR SEMPRE AS MESMAS PESSOAS”

Filipe Nyusi falou ainda dos desafios para lidar com as mudanças climáticas e apontou a necessidade de transferir, de forma definitiva, as populações que vivem nas zonas de risco ou zonas propensas às cheias para que se evite reassentar sempre as mesmas pessoas.

“Não podemos estar constantemente a reassentar as mesmas pessoas e permitir que construam nas zonas de risco. Aqui, vamos precisar da ajuda das lideranças locais para ultrapassar esta situação”, disse o Presidente da República.

Nyusi falou, ainda, da necessidade de desactivar paulatinamente os centros de acomodação, como forma de evitar que a população seja afectada nesses locais por doenças de origem hídrica, dada a sua vulnerabilidade face à fácil propagação em caso de eclosão de uma doença.

Falando dos estragos em vários sectores económicos e sociais no Grande Maputo, o Chefe de Estado avançou a necessidade de mobilizar os parceiros de cooperação para apoiarem no processo de reconstrução das infra-estruturas afectadas pelas cheias. Nestes termos, agradeceu o apoio prestado por várias pessoas da sociedade civil que participaram no processo de resgate de famílias e na disponibilização de alimentos e acomodação para as vítimas.  

 

As águas que inundaram várias regiões de Maputo estão a baixar, mas as autoridades dizem que é preciso manter a prudência, porque os próximos dias serão de chuva moderada no Sul e no Centro do país, bem como nos países vizinhos, como África do Sul, Zimbabwe e eSwatini, que vão registar chuvas acima de 200 milímetros.

Quase uma semana depois do início das fortes chuvas que abalaram a cidade e Província de Maputo, a situação começa a melhorar, dado que a precipitação parou e o sol ajuda a secar as regiões inundadas.

No posto administrativo de 3 de Fevereiro, na Manhiça, por exemplo, a água do rio Incomáti, que galgou a Estrada Nacional Número 1 e fez soar o alarme de intransitabilidade ou cortes de estrada, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres dá garantias de normalização da situação.

“Ontem (terça-feira), a água galgou uma parte da EN1, mas sem grande alvoroço, porque as viaturas ainda conseguiam passar. Esta manhã, como aliás fomos informados, a situação mudou, mudou para positivo, mas os trabalhos continuam, as populações estão a retirar-se das zonas de inundação para os locais que as autoridades definiram”, disse.

Questionado sobre se as mortes e os danos não eram evitáveis, o vice-presidente do INGD, Gabriel Belém Monteiro, justificou que a intensidade da chuva surpreendeu a todos, pois atingiu uma magnitude que há pelo menos duas décadas não era vista.

“Nós temos estado, desde que analisamos a época chuvosa, a emitir informação através de diferentes vias, quer pelo INAM, quer pela hidrologia. Portanto, não faltou informação, o que pode ter acontecido é que o nível e a gravidade do problema podem ter apanhado algumas pessoas de surpresa, tal como aconteceu quando tivemos o ciclone Idai”, argumentou Gabriel Belém Monteiro.

Sobre a situação meteorológica, o INAM prevê que, além da ocorrência de chuvas moderadas, localmente fortes, nos próximos dias, um sistema que se formou na Austrália venha a atingir a costa de Madagáscar, no dia 19 do mês em curso.

“Continuamos a prever a ocorrência de chuvas moderadas, principalmente nas províncias de Maputo, Inhambane, Sofala, Manica e Zambézia, onde prevemos precipitação de 50 milímetros, em 24 horas. E a montante, esperam-se chuvas significativas na África do Sul, Zimbabwe e eSwatini. Neste momento, é prematuro dizer se este sistema vai atingir o Canal de Moçambique ou atingir o nosso país, mas o que indicam as projecções é que ele vai atingir a costa de Madagáscar”, informou o meteorologista.

Com o registo de chuvas e escoamento das águas provenientes dos países a montante, como África do Sul, Zimbabwe e eSwatini, a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos poderá manter ou aumentar os níveis de descargas de água na Barragem dos Pequenos Libombos, o que deverá continuar a afectar com cheias as populações do distrito de Boane, na província de Maputo.

Por causa da chuva a montante nos países vizinhos como a África do Sul e o Zimbabwe, a bacia hidrográfica do Limpopo poderá registar aumento do caudal e provocar inundações em alguns distritos da província de Gaza, acautela o INGD.

O número de mortes causadas pelas cheias que atingiram a região de Maputo se mantém sete e o de pessoas afectadas ultrapassa os 37 mil, de acordo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres.

Há vítimas das cheias que dormem no chão, nas carteiras e outras sentadas em alguns centros de acomodação que estão na vila de Boane, Província de Maputo, porque não receberam colchões nem cobertores. “O País” fez uma ronda por esses locais e traz relatos de noites mal passadas.

Estivemos nos centros de acomodação que estão na vila de Boane, Província de Maputo. Eram por volta das 20 horas quando chegámos ao primeiro centro, que se localiza na Escola Secundária Joaquim Chissano e com cerca de 1800 vítimas das cheias.

Fomos com um único objectivo: ver como é que as noites são passadas. De história para história, fomo-nos surpreendendo com o que cada um ia contando em relação às noites mal passadas e não só.

“Isso não é vida. Não posso dizer que estamos bem assim. Não é fácil. Estamos numa situação complicada. A nossa alimentação é difícil e pior para as crianças. É muito difícil ter comida. Fazemos filas para termos comida, mas nem sempre é possível. E simplesmente ficamos sentados. Não temos nada”, este é o relato de uma das vítimas que resume o drama que os deslocados vivem, mas vamos ao detalhe da história.

Deixaram tudo para trás, salvaram suas vidas que, nos centros de acomodação, lhes são pesadas. “Toda a nossa comida e todos os bens foram arrastados pelas águas. Estamos a viver sem nada que seja nosso. A vida é muito pesada”, contou Florência Mário, uma das vítimas das cheias, com um tom de revolta.

Os dias nos centros de acomodação são difíceis e quando o sol se põe, as famílias preparam-se para viver um pesadelo que dura a noite inteira. As vítimas das cheias que estão no centro de acomodação da Escola Secundária Joaquim Chissano dormem nas carteiras e até em locais improváveis, debaixo delas.

“Eu sequer consigo virar. Se me canso, nesta posição em que estou, acordo e fico sentado porque isto me incomoda, de verdade. Isto é uma madeira. Não me mexo. Estou na cadeia e assim fico até amanhecer. Durante o dia, peço emprestado esteira aos irmãos que têm”, revelou Agostinho Abdurremane, vítima de cheias.

Além de não terem colchões ou esteiras para dormir, os deslocados das cheias sequer têm cobertores que cubra o rosto e, ainda que seja por uma noite, esquecerem-se da dura realidade do presente.

“Ajeitei uma manta. Fiz uma divisão. Uma parte é esteira e a outra uso como cobertor. Não temos onde reclamar. Não há como. A vida é assim”, disse Atanásio Feliciano, num tom resignado.

Aos reassentados vivem na incerteza ou mesmo na dúvida se, algum dia, poderão ter colchões ou cobertores. “Eu estou aqui há muito tempo e nunca ouvi alguém falar de esteiras. Estamos a dormir na esteira, da maneira como está a ver-nos”, afirmou Fernando Alberto.

Diferentemente dos homens, as mulheres conseguiram levar consigo capulanas, mantas e esteiras que improvisaram para poder dormir com os seus filhos. Numa sala dormem, em média, 50 pessoas.

“As noites não têm como ser fáceis porque dormimos no cimento. A capulana que tenho é pequena para mim e os meus netos”, reclamou Maria Nhaca, que está como deslocada das cheias no centro de acomodação da Escola Secundária Joaquim Chissano.

Pensavam que, resgatadas das cheias, teriam condições melhores nos centros de acomodação. Uma expectativa frustrada.

“Achávamos que chegados aqui, teríamos onde dormir e o que cobrir. Mas já há três dias que não fomos dados nada. Ainda não disseram nada até hoje. Não sabemos se dão cobertores ou algo que possamos estender para dormir, nem sobre quando é que nos vão liberar para voltarmos às nossas casas, porque dizem que ainda estão submersas”, expôs Carmelinda Manhiça, vítima de cheias.

A isto, junta-se a velha reclamação sobre a alimentação. “Quando chega a hora de nos dar a alimentação, não o fazem. Depois de ter comida às 10 horas de ontem (falando de segunda-feira) às 22 horas e só consegui xima sem caril. Assim, estou a passar mal de dores de estômago”, queixou-se Esmeralda Mussa, vítima de cheias.

Continuamos a nossa ronda pelos centros de acomodação. Chegámos à Escola Primária Boane-Sede, onde há cerca de 800 vítimas de cheias e as reclamações são de sempre. “Nesta escola, temos falta de água para tomar banho, as nossas casas de banho não estão em condições e há dias que demoramos jantar porque falta lenha para podermos cozinhar”, denunciou Laura Jacinto, deslocada de cheias.

E o que também falta a estas famílias deslocadas são redes mosquiteiras para a prevenção da malária. Aliás, há um paliativo: “Recebemos dragão com o pessoal da Cruz Vermelha para podermos acender e passarmos a noite minimamente protegidos”.

Há quartos que sequer têm iluminação.

“Lá de onde nos tiraram, havia mata-mosquito e velas para iluminação. Aqui onde estamos sequer há energia. Ainda nem nos disseram nada”, respondeu Pérola Lumbela, deslocada de cheias, com um tom de hesitação.

Uma situação revoltante. “Nós somos tratados como se fôssemos pessoas que estão a pedir esmola. Nós não quisemos que aquilo acontecesse connosco”, lamentou.

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