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O País – A verdade como notícia

É o segundo dia dos três dias de manifestação convocados pelo candidato presidencial suportado pelo PODEMOS, Venâncio Mondlane, e mais uma vez, cidadãos bloquearam algumas avenidas da cidade de Maputo, montando barricadas na estrada. Os manifestantes dizem reivindicar a verdade eleitoral e pedem por justiça.

A avenida Acordos de Lusaka, por exemplo, foi bloqueada, de forma que os condutores não tenham acesso ao Centro da Cidade de Maputo, nem no sentido contrário. 

Jorge Manjate, um dos manifestantes disse que seu único apelo é pela verdade eleitoral. “Estamos aqui a reivindicar a justiça eleitoral e o custo de vida. Também estamos a pedir as mesmas oportunidades que todos têm. As crianças não conseguem ir à escola por falta de carteiras e outros bens públicos”, disse. 

A polícia esteve no lugar para retirar as barricadas, mas logo que saísse do local, os manifestantes voltavam a colocar.

O mesmo cenário verificou-se  na Avenida 25 de Setembro, onde vários autocarros e carros particulares estavam estacionados à espera de retomarem às suas actividades, depois das 15.30.

Falando ao “O País”, um dos condutores dos autocarros estacionados lamentou que, nos últimos dois dias, tem sido difícil trabalhar. “Desde ontem, não se trabalha. Não há pessoas, as pessoas só vêm aqui e depois voltam a pé. Depois das oito horas há muitos obstáculos na estrada, só depois das 16 e 17 é que se pode andar”, disse Sérgio Arthur. 

A Unidade de Intervenção Rápida (UIR) fez-se ao local, para avaliar e monitorar o ponto de situação, e não houve registo de confronto com os manifestantes.

 

 

Abdul Machava diz que o atropelamento da cidadã, na Avenida Eduardo Mondlane, na manhã de quarta-feira, por um blindado das Forças Armadas de Defesa de Moçambique foi um acto premeditado e doloso. 

O comentador do Programa Noite Informativa da STV reagiu ao atropelamento da jovem de 29 anos, na Avenida Eduardo Mondlane. Abdul Machava defende que não há nenhuma explicação para o acidente, que segundo ele, é um acto bárbaro e criminoso. 

“Trata-se de um carro de combate, aquele carro de assalto, é um carro que está preparado e fabricado com um alto nível de carbono. É preparado para resistir ao impacto de projécteis de calibre, que podem chegar a 14,5 mm”, explica.

Machava acrescenta que “Isso significa que não é uma pedra, não é um pneu, nem um pau, que seria capaz de colocar em perigo aqueles agentes. Dito isto, não resta outra análise, além de dizer que aquilo foi uma acção premeditada”, disse Machava. 

O capitão-tenente na reserva lembrou ainda aos polícias e militares que o pagamento dos salários e do equipamento das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) é feito pelo povo. 

 “Há um contrato social que é resultante do sufrágio universal, as eleições, em que o povo elege um grupo de pessoas  que vai dirigir o destino do país, num período de cinco anos (…). É neste âmbito que o povo delega a tarefa de defender o país, de educação, saúde e outras actividades a determinadas pessoas. E o povo vai pagando os seus impostos, para assegurar a vida dessas pessoas [eleitas pelo povo], cuja tarefa é garantir a segurança. Aquele militar que atropelou aquela cidadã é paga pelos impostos do povo”. 

 

MACHAVA DESVALORIZA COMUNICADO DO MINISTÉRIO DA DEFESA

Abdul Machava criticou também o comunicado do Ministério da Defesa, por trazer informações vagas, o que, na sua opinião, denota que há uma impunidade total. E deixa um apelo à PGR. 

“Gostaria de apelar a Procuradoria Geral da República, uma vez que este é um crime público (…) porque como advogado do povo, tem aqui matéria, para, num prazo muito curto, trazer o processo criminal contra esses fulanos, tendo em conta toda a cadeia até ao fulano que estava no volante. Trazer também um processo cívil, como aconteceu com os outros que já foram indiciados, em curto espaço de tempo”, apelou.

 

Na cidade de Nampula, os carros não pararam na via pública, não. Foram os manifestantes que pararam o trânsito colocando barricadas. Duas pessoas foram baleadas mortalmente durante a actuação policial.

Logo pela manhã desta quarta-feira, por volta das 8 horas, o centro da cidade de Nampula já registava agitação, não de viaturas paradas nas faixas de rodagem, mas sim de manifestantes que decidiram colocar barricadas.

Sem viaturas a circular, as estradas transformaram-se em locais de diversão, onde alguns até jogavam à bola sob os gritos de animação de outros manifestantes. A polícia até tentou dialogar com alguns líderes dos manifestantes que se encontravam no cruzamento entre as avenidas Paulo Samuel Kankhomba e Eduardo Mondlane (nas proximidades do edifício-sede do Conselho Municipal que fica ao lado da residência oficial do governador provincial) para retirarem as barricadas, mas sem sucesso.

“Está bem claro que estamos a fazer uma marcha pacífica. Ninguém foi agredido, não partimos loja de ninguém e não batemos em ninguém”, vociferou Felizardo Hilário falando à nossa reportagem.

Filipe Comala, outro manifestante, acrescentou: “A polícia que estava aqui estava a dizer que não há disparos. Podemos remover as pedras para o passeio, mas nós dissemos ‘vamos remover as pedras para o passeio se não houver disparos e nos deixarem fazer a manifestação em paz’”.

Na Avenida do Trabalho, que é o prolongamento da Estrada Nacional n.º 1 que atravessa a cidade, o trânsito ficou condicionado por algumas horas, mas a polícia destacou um contingente que se fez ao local para retirar as barricadas e extinguir o fogo nos pneus que foram queimados propositadamente para impedir a circulação de viaturas particulares, transporte de passageiros e camiões de mercadoria.

Na zona da Faina, na mesma avenida, encontrámos dois corpos estatelados na berma da estrada. São pessoas que foram atingidas pelas balas da polícia quando tentavam impedir a colocação de barricadas na via pública.

“É meu irmão, Francisco António. Não sei o que aconteceu, porque ele saiu de manhã de casa”, disse Sualehe Saíde, falando no momento em que a polícia removia o corpo inerte do seu irmão tapado por uma capulana para a morgue do Hospital Central de Nampula.

Até ao encerramento desta reportagem, não havia dados oficiais das manifestações públicas desta quarta-feira em Nampula.

As Forças Armadas de Moçambique (FADM) confirmam atropelamento de uma jovem de 26 anos, na manhã de hoje, na Cidade de Maputo, por um dos seus carros blindados. As FADM dizem lamentar pelo ocorrido e “assumem total responsabilidade na assistência médica e psico-social da vítima”.

A vítima do acidente fazia parte de um grupo de jovens que se manifesta contra os resultados eleitorais do escrutínio de 9 de Outubro. 

As Forças Armadas dizem, em comunicado de imprensa, que a viatura estava numa “missão de protecção dos objectos económicos essenciais, limpezas e desbloqueios das vias de circulação, no âmbito das manifestações pós-eleitorais  e fazia parte de uma coluna militar devidamente sinalizada”.

Diante do cenário, as FADM lamentaram o sucedido e garantiram que se vão responsabilizar pelo tratamento da vítima.

“As FADM lamentam profundamente pelo ocorrido e assumem total responsabilidade na assistência médica e psico-social da vítima, no entanto apelam a população a observar, meticulosamente, as medidas de segurança relativamente ao respeito pelo código de estrada e a prioridade das viaturas militares, devidamente sinalizadas, em trânsito nas vias públicas”, le-se no comunicado.

No documento, dizem, ainda, os militares, que reafirmam seu compromisso de ser uma força credível para os moçambicanos e que estão comprometidos com a observância dos padrões mais elementares do direito humanitário  e dos direitos humanos.

Os militares garantem que o acidente será alvo de uma investigação para evitar que situações similares se repitam. 

Alguns professores e alunos da Escola Secundária Francisco Manyanga, na Cidade de Maputo,  não conseguiram  chegar à escola, o que segundo o director compromete o processo de ensino e aprendizagem.

Francisco Manyanga é uma das escolas cujas actividades ficaram comprometidas devido a onda de manifestações que acontece em várias artérias da cidade de Maputo.

Naquele estabelecimento de ensino, os professores e alunos chegam a conta gotas. E os que conseguem chegar dão a preparação. Nas turmas onde os professores não conseguiram estar presentes, os alunos formam grupos e estudam entre si.

“Conseguimos ter as preparações. Quando cheguei nem todos estavam presentes, mas alguns estiveram logo cedo. Alguns colegas  estão aqui,  mas outros não conseguiram chegar”, disse Keiser, estudante da 12ª, que explicou que alguns alunos formaram grupos de estudo.

Por seu turno, o director da escola, Sabino Salomão, avançou que há um esforço que está a ser feito para minimizar os impactos das manifestações naquele estabelecimento de ensino.

“Os alunos têm sido orientados para que a medida em que não conseguem ir a escola estudem com base nas matrizes disponibilizadas”, disse Salomão.

Alunos da Escola Secundária da Polana, na Cidade de Maputo, não tiveram aulas, nesta quarta-feira, devido às manifestações pós-eleitorais,  que se arrastam há quase um mês.

Quando faltam apenas quatro dias para o arranque dos exames da 10ª e 12ª classes, os alunos da Escola Secundária da Polana dizem estar preocupados, porque não conseguiram concluir o plano curricular previsto para o ano lectivo 2024.

Os alunos dizem, ainda, que, em várias disciplinas, entre elas matemática e química,  há muitas matérias que ficaram para trás, devido a paralisação das aulas.

Weyd Baptista, aluno da décima classe, chegou à escola nas primeira horas do dia, mas até às 11 horas não tinha assistido a uma aula sequer.

 “Cheguei às 7:30 para ver as pautas e ter a preparação. Ainda não tivemos preparação, porque os professores não estão aqui na escola”, disse o aluno.

Os alunos dizem que para reverter a situação, os professores recomendaram-lhes a procurarem explicadores particulares.

Sem gravar entrevista, a direcção da escola confirmou que não estavam a decorrer aulas e que muitos professores não conseguiram ir à escola.

Um homem de nacionalidade chinesa foi detido pela polícia, após tentar atirar contra um grupo de manifestantes que interceptaram a sua viatura, para que não seguisse viagem. O facto deu-se na baixa da Cidade de Maputo.

A viatura foi interceptada na esquina entre as avenidas 25 de Setembro e Filipe Samuel Magaia.

Os manifestantes rodearam a viatura do cidadão chinês e exigiram que não seguisse a viagem.

Revoltado, o homem sacou uma arma, mas, de imediato, foi imobilizado pelos manifestantes.

Na mesma altura, os agentes da polícia, que estavam nas proximidades, detiveram o cidadão chinês e conduziram-no à primeira esquadra.

Um carro BTR atropelou uma manifestante, na Avenida Eduardo Mondlane, fazendo com que a população queimasse pneus, em repúdio ao acto. A vítima foi levada ao hospital. 

A jovem de 29 anos, atropela na Avenida Eduardo Mondlane está sob cuidados médicos, no Hospital Central de Maputo. Uma fonte daquela unidade sanitária avançou que o estado da vítima ainda é crítico.

Os manifestantes queimaram pneus e arremessaram pedras contra as viaturas das Forças de Defesa e Segurança, em reivindicação ao atropelamento. O porta-voz da polícia, na cidade de Maputo, Leonel Muchina, esteve no local para prestar esclarecimentos, mas foi impedido pelos manifestantes. A PRM disparou gás lacrimogéneo para dispersar a população. 

Algumas avenidas da capital moçambicana foram bloqueadas por manifestantes, na manhã desta quarta-feira, primeiro dos três dias determinados pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane, em protesto aos resultados eleitorais. Condutores desligaram motores das suas viaturas no meio das faixas de rodagem. Alguns o fizeram por obrigação dos manifestantes, que montaram barricadas nas vias.    

No início da Avenida 24 de Julho, na zona da Malanga, por exemplo, os manifestantes não só montaram barricadas, como também realizaram jogos no meio da estrada, de forma que os carros que saíam da Matola não tivessem acesso ao centro da Cidade de Maputo. 

Situação semelhante registou-se nas avenidas de Moçambique, Vladimir Lenine, Karl Max, entre outras. As viaturas, a partir de diferentes locais da capital do país, eram impedidas de circular para ter acesso ao centro da cidade.

Os condutores que tentavam seguir viagem eram orientados pelos manifestantes a estacionar as suas viaturas, ou então voltar para as suas casas. 

Em vários locais da urbe, o comércio informal decorre de forma tímida.

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