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O País – A verdade como notícia

O Governo diz que se deve sempre garantir clareza e interesse público na informação difundida pelas instituições. O posicionamento foi defendido durante o primeiro Fórum Nacional dos Comunicadores do Governo. Enquanto isso, pesquisadores e organizações desafiam o Governo a promover uma comunicação clara, inclusiva e isenta de manipulação. 

O Governo reuniu, nesta quinta-feira, em Maputo, mais de 120 gestores de comunicação institucional Estatal, para a identificação dos desafios do sector e suas soluções.

O primeiro diagnóstico do executivo é a clareza da informação difundida e fraco interesse público. 

“O comunicador de Governo deve compreender que cada informação que transmite representa uma instituição pública e, em última análise, o próprio Estado. A comunicação pública deve, por isso, ser orientada pelo interesse público e pelo compromisso com a verdade e com a responsabilidade institucional. Por isso, a comunicação do Governo deve ser articulada, coerente e harmonizada. Precisamos fortalecer mecanismos de coordenação e de partilha de informação entre comunicadores dos diferentes sectores do Governo e este Fórum é um espaço privilegiado para esse efeito”, referiu Inocêncio Impissa, ministro da Administração Estatal e Funcao Público, durante a sessão de abertura do fórum. 

Impissa, que representava a Primeira-ministra na cerimónia, apontou ainda a necessidade de domínio das novas tecnologias, para fazer face à onda de desinformação. 

“Perante este cenário e para evitar reiterados desmentidos através de comunicados, briefings e sessões de esclarecimento, cabe aos comunicadores se transfigurarem e se adaptarem às novas realidades, devendo utilizar as novas plataformas como a inteligência artificial e responsabilidade, para além de se antecipar a alguns fatos, fatores ou fenómenos. Devem dominar as redes sociais, adaptar conteúdos às novas abordagens e às novas tecnologias e plataformas, facilitando a inclusão digital e transformando a comunicação institucional em um diálogo aberto com a sociedade”.

Subordinada ao tema “Fortalecendo a governação através de uma comunicação eficiente e inovadora”, o evento é tido como uma plataforma essencial para melhorar a actuação dos comunicadores do Governo. 

Quem o diz é Luis Canhemba, Director do Gabinete de Informação do Governo, Gabinfo. 

“Estão na lista assessores, adidos de imprensa, chefes dos gabinetes de comunicação, que  para  nós termos uma voz única para encontrarmos uma plataforma de comunicar bem e quase que de forma uníssona em relação àquilo que o Governo tem feito. Vamos, neste fórum, perceber o que de errado temos estado a fazer e como é que podemos melhorar. E, para isso, convidamos alguns oradores portugueses e outros moçambicanos para entendermos quais são as melhores práticas internacionais e percebermos como é que nós podemos melhorar e como é que podemos, de forma antecipada, transmitir informação útil até o lugar mais recôndito do nosso país”, disse.

Da sessão de abertura, seguiu-se um painel de debate.

O Pesquisador e Director executivo do Misa Moçambique desafia o Governo a promover uma comunicação clara, inclusiva e isenta de manipulação.  

“Temos de sair da ideia de que podemos controlar a opinião pública, que muito marca o nosso pensamento político, que é objectivamente contrário ao princípio da comunicação política. Porque a comunicação política define-se como o uso de técnicas diversificadas para  influenciar a opinião pública. Ora, meus caros, há dois conceitos que eu introduzi aqui.

O controlo e a influência. São duas coisas totalmente diferentes. E uma das grandes críticas que temos vindo a receber como Governo é a nossa baixa capacidade de sermos proativos na comunicação. Temos uma comunicação reactiva e muitas vezes incipiente na própria tentativa de reagir”.

A consequência directa desta manipulação, de acordo com o orador, é o descrédito dos órgãos tradicionais. 

“Sejam eles controlados por entes privados, sejam eles controlados pelo Estado, muito  pelo facto de as pessoas terem ganhado consciência de que o jornalismo tradicional passou muito  tempo na lavagem de que é objectivo, é verdadeiro, para tal esconder muita propaganda. Por quê? Porque esses órgãos são detidos por pessoas que têm interesses comerciais e políticos. Esses órgãos são detidos, nos nossos contextos, pelo Estado, que tem partidos dominantes. Então as pessoas já estão a se dar contas disto. Estão a desacreditar. Então, se não nos confiarmos em passar a nossa mensagem só na imprensa tradicional, corremos sérios riscos de falhar. ”

Já Fernando Ribeiro, especialista em propaganda, defende que o executivo deve separar claramente a comunicação pública e propaganda partidária. E diz mais: reconhece que o papel dos comunicadores do Governo é promover a boa imagem do seu Governo, mas isso deve ser acompanhado por “boa Governação”, para que a sua comunicação seja baseada na verdade. 

Ribeiro diz que a mentira, embora usada por políticos, não deve ser base para a comunicação. 

A população está a  ocupar espaços reservados ao projecto Terra Infraestruturada onde estão a construir  de uma forma desordenada. O fundo do Fomento e Habitação está preocupado com a situação e pede apoio aos governos províncias na preservação das áreas  abrangidas pelo projecto.

O Fundo de Fomento e Habitação corre o risco de perder áreas reservadas ao projecto Terra Infra Estruturada, devido a suposta invasão das áreas.

“Tivemos muitas reservas de espaço, conseguido pelos governos locais, pelo governo central, mas com alguma demora de implementação de alguns projectos, sobretudo de parcerias, porque nós implementamos projectos com recurso ao Orçamento do Estado e fazemos na dimensão do orçamento que nos é alocado, mas também temos a abertura de implementar projectos com parceiros. O nosso papel nessas parcerias é garantir espaço, mas os parceiros de alguns têm muita morosidade, muita demora e isso a população de alguns locais tem ocupado esse espaço de forma ilegal.”, explica o Presidente do Conselho de Administração do Fundo de Fomento de Habitação, Amorim Pery.  

Além da suposta  ocupação ilegal,  o Fundo de Fomento de Habitação está também preocupada a construção desordenada nas  áreas em referência.

“A ocupação desordenada que a população tem vindo a fazer não dá espaço para arruamento, não dá espaço para serviços públicos, não dá espaço para o Estado estar presente na vida dele.”, anota. 

Para travar  a suposta ocupação ilegal e garantir a concretização do projecto Terra Infraestruturada, o Fundo de Fomento de Habitação vai adoptar uma nova estratégia consideradas como solução para o problema.

“O Estado, com a limitação de recursos, não vai conseguir resolver todos os problemas da habitação. É importante que a província, que é beneficiária desses projectos, se organiza e garante esse espaço para quando o investidor chegar não haver esses problemas burocráticos de lidar  com a população, de compensações, de imunizações, que torna o projecto muito mais caro e se esse custo for imputado ao investidor, ele não terá como fazer a casa a um preço acessível. Ele vai imputar tudo isso no custo do investimento e os preços vão dispara.”, acrescenta. 

O fundo do Fomento de Habitação não revelou área total ocupada de forma ilegal mas confirmou a entrega de doze mil dos quarenta e nove mil talhões previstos pelo projecto Terra Infraestruturada, uma iniciativa Presidencial lançada em final de 2024 com a duração de cinco anos.

A juíza do Tribunal Judicial de Manica, afecta à Secção de Menores, Kátia Dinís, alerta para a existência de casos em que mulheres instauram vários processos de pensão de alimentos contra diferentes pais dos seus filhos, encarando, em alguns casos, o benefício como uma fonte de rendimento.

Segundo Kátia Dinís, esta prática pode prejudicar o desenvolvimento das crianças, sobretudo quando a questão financeira se sobrepõe à necessidade de garantir aos menores um ambiente familiar estável, afecto e acompanhamento parental.

A magistrada considera preocupante que algumas mulheres possam encarar a maternidade como uma estratégia de sobrevivência económica, advertindo que os filhos não devem ser tratados como uma forma de obtenção de rendimento.

Kátia Dinís sublinha ainda a importância da presença da figura paterna no crescimento das crianças, defendendo que, para além do cumprimento da obrigação de prestar alimentos, os pais devem participar activamente na vida dos filhos, proporcionando-lhes afecto, acompanhamento e apoio.

A juíza apela, por isso, à responsabilidade dos progenitores, recordando que a pensão de alimentos constitui um direito da criança e deve ser utilizada para garantir o seu bem-estar, educação, saúde e desenvolvimento, e não como instrumento de benefício pessoal dos pais.

Famílias desalojadas pela Polícia da República de Moçambique de um espaço alegadamente alheio no bairro das Mahotas continuam a viver ao relento três semanas após o despejo. nunca foi apresentado o mandado judicial para demolições, e o Município de Maputo não quer falar do assunto.

Nos últimos três dias, o frio apertou em Maputo, e para estas famílias, que há três semanas vivem sem casas no bairro das Mahotas, na capital do País, as baixas temperaturas tornam ainda mais difícil enfrentar a realidade.

Entre tendas improvisadas, lareiras e cobertores, procuram abrigo para mais um dia. 

“Estamos aqui, ao relento”, introduziu Hortência Eugénia, uma moradora entrevistada na manhã desta quarta-feira. Segundo a fonte, “aqui ninguém aparece do Governo, eles não conhecem esta população aqui acampada.”

Margarida Zimila, outra entrevistada no local, denuncia um alegado “esquecimento” questionando “porque Rasaque Manique não levanta para vir ver esta situação aqui? As famílias foram vítimas de uma suposta acção judicial que culminou com a destruição de casas  construídas num espaço alegadamente alheio. Depois da demolição, as famílias continuam a passar as noites frias na rua. “Estamos na rua, a sofrer, mas nós não vamos sair daqui, nós queremos que a senhora que nos colocou aqui venha, e ainda que não venha, um dia, a justiça será feita”, desabafou Margarida Zimila

A estes dias, a preocupação nem é com a comida, se bem que também falta. A chuva que pode molhar o pouco que salvaram do despejo, atormenta as pessoas principalmente as crianças que “passam mal e algumas estão frequentemente doentes”.

Embora os moradores citem uma entidade ligada ao Município de Maputo como responsável de atribuição de espaços onde foram desalojados, a comunicação e imagem do Conselho Municipal reiterou, nesta quarta-feira, que não vai pronunciar-se sobre o caso.

Enquanto as famílias permanecem ao relento, o alegado proprietário do espaço, que nunca apresentou o mandado judicial que fundamentou o uso da força do Estado para desalojar as famílias, avança com obras de vedação do espaço ora ocupado.

Um moçambicano vítima da xenofobia na África do Sul está internado nos cuidados intensivos, com queimaduras no corpo, após ter sido brutalmente agredido em sua residência, em KwaZulu-Natal. As autoridades moçambicanas dizem estar a acompanhar a situação junto da contraparte sul-africana.

Os actos xenófobos na África do Sul continuam a fazer vítimas moçambicanas,  apesar dos apelos à paz e à irmandade, vindos de todos os países africanos.

Face ao cenário, que ganhou mais intensidade entre Abril e Maio, com registo formal de sete moçambicanos mortos e várias infra-estruturas destruídas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação diz que a África do Sul geriu mal a migração na terra do Rand e explica: “Há duas semanas, um moçambicano em KwaZulu-Natal. Era mecânico, tinha a sua oficina. À noite, sabiam que a esposa não estava lá, que era uma esposa sul-africana, foram lá e maltrataram-na. Com queimaduras do primeiro grau, está, agora, nos cuidados intensivos. Então, outros moçambicanos foram surpreendidos nas suas casas, foram retirados de lá, não conseguiram tirar nada. Então, o que nós estamos a dizer é que nós entendemos a situação, mas, possivelmente, como família, devíamos ter sentado e ver como é que nós nos organizamos para que aqueles que não têm documentos, que estão de uma forma ilegal na África do Sul, pudessem sair, mas com dignidade. Para isso, alternativas podiam ter sido consideradas: em alguns países europeus, há aqueles vistos de três meses, quatro meses para a recolha de frutas, e depois regressam. Então, todo o moçambicano podia saber – vou ser necessário, vou-me inscrever para um visto de três, quatro, cinco, seis meses, vou trabalhar e depois volto para casa.”

A ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, respondia a perguntas de jornalistas durante a conferência de imprensa após a cerimónia de recepção de cartas credenciais de novos embaixadores em Moçambique, e um destes diplomatas é o embaixador da África do Sul, que usou a oportunidade para reconhecer os erros.

“O alto-comissário da África do Sul apresentou… em nome do governo sul-africano, pediu perdão ao povo moçambicano, e disse que isto que aconteceu não devia acontecer, porque nós somos um único povo”, afirmou.

A ministra explica que os governos de Moçambique e África do Sul estão em constante contacto na busca de soluções, e a 46ª Cimeira da SADC, a acontecer em Durban, a 17 de Agosto, será uma importante plataforma de diálogo.

A cimeira, presidida por Cyril Ramaphosa e sob o lema “Industrialização resiliente, sustentável e inclusiva através do desenvolvimento de infra-estrutura”, para além de industrialização e infra-estruturas e integração económica, tem a paz e segurança como um dos principais temas de debate.

O tema com foco na análise da estabilidade regional e geopolítica na África Austral, será antecedido por uma reunião de grupo, no dia 16 de Agosto, outra oportunidade para os líderes da região austral discutirem soluções para África.

Manuela Lucas recorda de algumas decisões saídas do encontro entre Chapo e Ramaphosa.

“Chegaram a um ponto de dizer ‘vamos organizar alguma coisa na fronteira’. A África do Sul está um pouco mais avançada. Estão a criar uma zona económica especial. Então, a própria África do Sul disse ‘vamos estender essa zona económica especial para Moçambique e para Eswatini, para podermos ter ali agricultura, fábricas para transformar alguns dos nossos produtos’. E os nossos moçambicanos, quando chegassem à fronteira, do nosso lado mesmo, encontrariam emprego, encontrariam coisas, porque as pessoas vão lá, é mais para ir trabalhar, para tentar encontrar emprego. Então, vamos continuar a trabalhar juntos com a África do Sul, mas acho que essa é uma boa oportunidade para os chefes de Estado, como família, falarem sobre esse assunto e ver também o que nós podemos fazer juntos para melhorar esta situação”, disse.

E, perante o cenário,  o número de regressados não pára de aumentar.

“Na semana passada, tivemos cerca de 599. Quase 600, que foram repatriados da África do Sul, mas foi um repatriamento coordenado. Estavam todos em Lindela, informaram-nos, então conseguimos organizar-nos. Nós estivemos ali, na fronteira, para receber os moçambicanos.”

Assim, sobe para 2083 o número de moçambicanos repatriados pelo Governo, além de outros mais de 30 mil moçambicanos regressados por meios próprios.

Sobre o outro grupo de repatriados, o Governo teria reconhecido a falta de controlo do grupo, uma vez que, em muitos casos, estes não usam as fronteiras formais para travessia.

Numa entrevista exclusiva ao “O País”, o Instituto Nacional para as Comunidades Moçambicanas no Exterior afirmou existirem, nas províncias de Gaza e Manica, fronteiras informais comumente usadas pelos viajantes, para ir e vir da África do Sul, sem passar por nenhum registo.

Apesar de ser menos dramática a situação actual, as marchas anti-imigrantes, que têm lugar todas as quintas-feiras, em muitas cidades sul-africanas, têm culminado, quase sempre, com mais e mais vítimas estrangeiras, independentemente de estarem ou não legais no País.

Comunidades camponesas denunciam alegadas irregularidades no processo de inscrição dos proprietários das machambas onde deverão ser construídas 25 mil casas na cidade da Beira. O processo iniciou-se na passada segunda-feira, mas o município diz desconhecer a iniciativa.

O caso ocorre no bairro da Maraza, onde o Município da Beira pretende erguer 25 mil casas, com apoio de parceiros nacionais e estrangeiros, para garantir habitação condigna e resiliente às mudanças climáticas a milhares de cidadãos.

Na passada segunda-feira, os proprietários das machambas localizadas nas áreas abrangidas pelo projecto foram informados de que se iniciaria o processo de inscrição para efeitos de compensação.

Segundo os camponeses, o processo está a ser marcado por alegadas irregularidades, com a inscrição de pessoas que não seriam proprietárias das machambas e a exclusão dos verdadeiros titulares das terras.

“Trouxeram cinquenta Bilhetes de Identidade de pessoas desconhecidas, e nós ficámos sentados nas nossas machambas sem perceber o que estava a acontecer. Alguns indivíduos até pagavam para constar das listas”, denunciou Maria Vinho.

A camponesa acrescenta que os produtores ficaram ainda mais perplexos quando perceberam que algumas listas já estavam preenchidas, enquanto os legítimos proprietários das machambas ainda não tinham sido contemplados.

Os camponeses dizem estar a ser excluídos das listas pelos secretários dos bairros e afirmam que, quando procuram esclarecimentos, não obtêm respostas.

“Eles nos ignoram quando questionamos, não respondem absolutamente nada”, disse um dos camponeses.

Para a comunidade, a situação representa o risco de perder as terras de cultivo e, consequentemente, a principal fonte de sustento. Muitas das famílias dizem cultivar aquelas áreas há várias gerações.

“A minha mãe começou a fazer uso desta terra ainda na era colonial. Hoje ela já é incapaz, e eu passei a trabalhar aqui”, contou Isabel Bundo.

Perante a situação, os camponeses exigem a suspensão imediata das inscrições até que seja feita uma verificação rigorosa dos verdadeiros proprietários das machambas abrangidas pelo projecto.

“Queremos que cada proprietário seja inscrito na sua própria machamba. Isso vai evitar infiltrados”, exigiu um dos camponeses.

Contactada pela nossa equipa de reportagem, a vereadora para a área da Agricultura, sem gravar entrevista, disse que o Município da Beira desconhece o processo de inscrição que está a decorrer nas áreas abrangidas pelo projecto das 25 mil casas e prometeu averiguar a situação.

Mais de 400 crianças foram recrutadas por grupos armados em Moçambique durante 2024, num período marcado pelo agravamento da violência em Cabo Delgado e pelo aumento das deslocações da população no norte do país. Os dados constam do mais recente relatório Public Health Situation Analysis (PHSA), elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Health Cluster.

De acordo com o documento, foram confirmadas 403 crianças recrutadas por grupos armados, entre as quais 71 raparigas. Outras 468 crianças terão sido raptadas, sendo que 392 foram posteriormente recrutadas e utilizadas por grupos armados.

O relatório alerta ainda para um aumento de 525% das violações graves contra crianças em Moçambique durante 2024, colocando o país entre os cinco Estados onde este tipo de abusos mais cresceu. Em Cabo Delgado, os menores continuam expostos a raptos e recrutamento por grupos armados não estatais, situações que afectam gravemente a sua segurança, dignidade e saúde psicológica.

Quase nove anos depois do início da insurgência armada em Cabo Delgado, atribuída a grupos ligados ao Estado Islâmico, a situação humanitária continua preocupante. Cerca de 1,1 milhões de pessoas necessitam actualmente de assistência humanitária no norte de Moçambique, incluindo 919 mil habitantes dos distritos mais afectados pelo conflito naquela província.

A violência continua também a provocar novas deslocações. Só em Junho, pelo menos 12.174 pessoas tiveram de abandonar as suas casas, fazendo subir para 26.184 o número de novos deslocados desde o início do ano. A maioria deslocou-se dentro dos próprios distritos ou para localidades vizinhas de Cabo Delgado.

No total, existem actualmente 506.214 deslocados internos no norte do país, mais 9% do que no ano anterior. Mulheres e crianças representavam 79% das pessoas deslocadas registadas em Junho.

Apesar de mais de 715 mil pessoas terem regressado às suas zonas de origem, muitas continuam dependentes de ajuda humanitária devido à dificuldade de acesso às terras agrícolas e à interrupção de serviços essenciais. O relatório salienta que quase todas as famílias deslocadas tiveram de fugir mais do que uma vez, evidenciando a persistência da insegurança.

Entre os principais problemas identificados estão a separação de famílias, a violência baseada no género, a perda de documentos e o sofrimento psicológico. As mulheres, crianças, idosos e outros grupos vulneráveis encontram-se entre os mais afectados pela deterioração das condições de vida.

A OMS alerta igualmente para a recente intensificação da violência em Cabo Delgado e Nampula, caracterizada por assassinatos, raptos e destruição de infra-estruturas, factores que continuam a provocar deslocações e a aumentar as necessidades humanitárias.

A resposta à crise permanece condicionada pela falta de financiamento. O Plano de Resposta Humanitária para 2026 necessita de 348 milhões de dólares, mas até meados do ano tinha recebido apenas 116 milhões, correspondentes a 34% do montante necessário.

Até ao final de Maio, as organizações humanitárias tinham conseguido prestar algum tipo de assistência a cerca de 520 mil pessoas, ou seja, 46% da população identificada como necessitada. Nos distritos mais críticos de Cabo Delgado, foram apoiadas 263 mil pessoas, muito aquém das 919 mil consideradas prioritárias.

A violência tem ainda consequências graves para os serviços básicos. No final de 2025, 30 das 150 unidades sanitárias de Cabo Delgado encontravam-se totalmente destruídas, enquanto vários parceiros humanitários foram obrigados a suspender actividades devido à insegurança e às dificuldades de acesso às zonas afectadas.

O custo das eleições em Moçambique está a tornar-se cada vez mais elevado e exige uma reflexão profunda sobre a forma como o País organiza os seus processos eleitorais. A posição é defendida pelo antigo reitor da Universidade Pedagógica de Maputo e comentador da STV Notícias, Rogério Uthui, que considera que parte significativa das despesas resulta de uma estrutura institucional criada num contexto de desconfiança política e que pode já não responder às exigências actuais do País.

No espaço “Comentários de Rogério Uthui”, o académico analisou os números avançados pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) para a preparação do próximo ciclo eleitoral e alertou para o crescimento contínuo dos encargos associados à administração eleitoral.

“Está-se a tornar cada vez mais caro realizar eleições”, afirmou Uthui, ao comentar o orçamento previsto para o funcionamento e instalação dos órgãos eleitorais. Segundo o comentador, o debate não deve limitar-se ao valor global da despesa, mas deve centrar-se também na forma como o sistema está organizado.

Entre as rubricas destacadas por Uthui está o funcionamento da máquina eleitoral, incluindo a Comissão Nacional de Eleições e as estruturas provinciais e distritais, para as quais estão previstos cerca de 261 milhões de meticais. Acrescem-se ainda aproximadamente 201 milhões de meticais destinados à instalação de uma nova CNE, cuja composição ainda não é conhecida.

Mas uma das despesas que mais chamou a atenção do comentador está relacionada com os subsídios de reintegração atribuídos aos anteriores membros da Comissão Nacional de Eleições. Segundo os números analisados por Uthui, esta rubrica poderá consumir cerca de 131 milhões de meticais.

“São valores elevadíssimos”, apontou o académico, questionando a necessidade de pagamentos desta natureza a pessoas que exerceram funções temporárias em órgãos do Estado e que, durante o mandato, já beneficiaram de remunerações acima da média nacional.

O comentador observou que estes recursos poderiam ser canalizados para outras prioridades sociais, como a construção de escolas, unidades sanitárias ou infra-estruturas públicas, defendendo uma reflexão sobre a racionalização da despesa pública.

Para Uthui, a própria composição dos órgãos eleitorais contribui para encarecer o processo. O académico recorda que o modelo actual nasceu num período marcado pela desconfiança entre os antigos beligerantes da guerra civil e foi desenhado para garantir equilíbrio entre as partes que assinaram os Acordos de Roma.

“A nossa democracia foi construída sobre uma pedra de desconfiança”, afirmou, acrescentando que muitas das estruturas existentes reflectem ainda essa lógica política e histórica.

Na visão do comentador, o contexto nacional mudou e exige uma revisão das regras. A nova configuração política do País, com o surgimento de outras forças partidárias relevantes, poderá justificar uma reavaliação da composição dos órgãos eleitorais e das próprias instituições de administração eleitoral.

Outro aspecto destacado por Uthui é a necessidade de reduzir os custos através da tecnologia. O comentador defende a criação de um sistema de recenseamento eleitoral permanente e digital, actualizado continuamente através de informações provenientes do registo civil, dos municípios e de outras instituições do Estado.

“Este processo pode ser feito de forma completamente digital e de forma permanente”, defendeu, explicando que um cidadão que atinge a idade eleitoral poderia ser automaticamente integrado no sistema, enquanto os dados de eleitores falecidos seriam retirados da base de dados.

Para Uthui, esta solução permitiria reduzir custos, melhorar a qualidade da informação e aumentar a confiança nos cadernos eleitorais.

“As eleições são um acto político-jurídico, mas a realização é completamente técnica”, sublinhou, defendendo que tarefas como recenseamento, processamento de dados e produção de cadernos eleitorais devem ser tratadas como operações técnicas e não excessivamente politizadas.

O comentador propõe igualmente a digitalização da transmissão dos resultados eleitorais. Na sua perspectiva, os dados produzidos nas mesas de votação poderiam ser enviados directamente para os centros provinciais e nacionais, reduzindo burocracia, custos e pontos de conflito durante o apuramento.

“Além de poupar dinheiro, desaparecem 150 ou 160 comissões distritais de eleições”, observou, argumentando que a tecnologia pode simplificar significativamente o sistema actual.

Uthui defende ainda o recurso à inteligência artificial para apoiar a organização eleitoral, processamento de dados e comunicação institucional. No entanto, alerta que a mesma tecnologia pode ser utilizada para disseminar desinformação e produzir conteúdos falsos destinados a influenciar os eleitores.

“A inteligência artificial pode ser usada tanto para o bem como para o mal”, advertiu.

As reflexões de Rogério Uthui surgem numa altura em que o País se prepara para um novo ciclo eleitoral e decorrem debates sobre reformas políticas e institucionais. Para o comentador, o desafio consiste em encontrar um modelo que reduza custos, aumente a eficiência e fortaleça a confiança dos cidadãos nas instituições eleitorais.

A discussão coloca uma questão central: deve Moçambique continuar a investir num sistema concebido num contexto de desconfiança política ou aproveitar as novas tecnologias para construir uma administração eleitoral mais simples, permanente e tecnicamente orientada?

Para Uthui, a resposta passa por uma reforma capaz de atacar simultaneamente três desafios: o elevado custo das eleições, a excessiva politização da administração eleitoral e a necessidade de reforçar a credibilidade dos resultados.

Município de Quelimane prepara intervenções de protecção costeira e drenagem avaliadas em mais de 20 milhões de euros. O avanço da erosão costeira continua a ameaçar várias zonas da cidade de Quelimane, na província da Zambézia. Os bairros de Icidua, Sangariveira e Murropué estão entre as áreas consideradas mais vulneráveis, devido à degradação progressiva das margens e aos efeitos das mudanças climáticas.

Perante o cenário, o Conselho Municipal de Quelimane já iniciou os estudos preparatórios para identificar as zonas prioritárias de intervenção e definir as obras necessárias para conter o avanço da erosão e melhorar o sistema de drenagem da cidade. Segundo o edil de Quelimane, Manuel de Araújo, uma empresa holandesa encontra-se actualmente no terreno a realizar o levantamento primário, etapa que deverá anteceder o início das obras. 

A expectativa da edilidade é de que as intervenções propriamente ditas possam arrancar no próximo semestre. “Nós ainda estamos a trabalhar no cronograma de actividades, é só no primeiro trimestre do próximo ano é que as obras propriamente ditas poderão iniciar. Neste momento decorrem os estudos, semana passada esteve cá uma equipa técnica, próxima a semana virá uma equipa da Holanda, para mais estudos” disse o autarca adiantando que quando as equipas vem, recolhe  os dados para país de origem por forma a modelar os dados, por forma a fazer ensaio e isso leva algum tempo. 

O projecto de resiliência urbana está orçado em mais de 20 milhões de euros e foi anunciado em Março deste ano pelos embaixadores da Alemanha e do Reino dos Países Baixos, durante uma visita à cidade de Quelimane. As intervenções deverão abranger a faixa costeira e outras áreas consideradas vulneráveis. Um dos principais eixos prevê o acompanhamento da linha da marginal, desde o Porto de Quelimane até ao bairro Icidua, passando por Ivagalane e prolongando-se até Murropué. 

“Como sabemos o Rio dos bons sinais movem em duas direções dependendo do nível das águas do mar. Quando a maré é alta a água toma direcção contrária quando a maré baixa. O movimento das águas, influenciam o comportamento não só dos afluentes, como também afecta as infraestruturas” disse Manuel de Araújo para quem o semi-circulo que parte do Porto de Quelimane até aos bairros vulneráveis, visa proteger a zona costeira criando vasos comunicantes que permitam controlar a subida e a baixa da maré.

Antes da disponibilização do financiamento, o Município de Quelimane, em parceria com instituições académicas, já vinha realizando levantamentos para compreender a dimensão da erosão e identificar possíveis áreas de intervenção. Contudo, a insuficiência de recursos financeiros condicionou a capacidade do município de avançar com obras de maior dimensão.

Com o novo projecto, as autoridades municipais esperam reforçar a protecção da cidade contra a erosão costeira, melhorar a drenagem e aumentar a resiliência das comunidades e infra-estruturas localizadas nas zonas de maior risco

 

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