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Pela poesia, com a poesia, através da poesia: o grito de Álvaro Taruma*

Álvaro Taruma inicia a sua escrita em 2014, com a publicação de textos em jornais e em revistas moçambicanas. É autor de duas obras literárias, nomeadamente Para uma Cartografia da Noite (2016), com 91 páginas, divididas nas seguintes partes: Breves “Anoitações” de um Sonâmbulo; Vigílias; Amor: Dia, Depois Noite; Impressões e Assombros. A outra obra literária é Matéria para um Grito (2018), tem 109 páginas e é composta por três partes: Panfletos contra o Silêncio; A cidade de todos os Náufragos e Um Homem despede-se de si. Em ambos trabalhos o autor sugere a indicação das obras e dos autores moçambicanos e da literatura universal que o inspiraram na escrita, através de epígrafes e de dedicatórias.

Nasceu na província de Maputo, Ilha de Inhaca. Formou-se em Sociologia e Antropologia e ainda em Ensino de Português. Em 2016 ganhou uma menção honrosa no Concurso literário “10 de Novembro”, que celebra o aniversário da Cidade de Maputo. Foi vencedor do prémio BCI de literatura em Moçambique, edição de 2018. Muito cedo granjeou a simpatia da crítica no seu país, que o considera um dos melhores poetas da nova geração[1] de escritores, pela qualidade da sua obra.

São sobretudo o sonho, a noite e a vida dos moçambicanos que norteiam a sua primeira obra literária, considerada como autoficção e que é composta por alguns textos que, de algum modo, dialogam com os do escritor moçambicano Eduardo White (1963-2014), um dos mais qualificados da língua portuguesa. Esse diálogo se estabelece não apenas através da eleição da escrita autobiográfica, como também da escrita sobre o sonho e a morte, da crítica a determinados modelos democráticos que têm lugar no seu país, do governo do dia e ainda da escolha da metapoesia e da prosa poética como pano de fundo da sua escrita literária.

As diferentes preocupações com Moçambique podem ser sistematizadas através da representação que o poeta faz, ao colocar um sujeito poético que afirma:

 

Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador, de onde só se aplaude os astutos malabaristas do jogo da democracia. Assusto-me, e é com esse susto que me fulmino cada vez mais que se avariam os motores da razão dos nossos governantes. E quase me é suicida esta vontade súbita de caminhar sobre a estreita corda que é o chão do meu país, regado pelo sangue que se derrama sempre que se calam frente à ecuménica mesa do diálogo.// Moro de vagar, em cada vez que piso este traço sideral que é o húmus da minha nação […] (TARUMA, 2016, p. 85)

 

Há um exercício de cidadania que faz o poeta, sugerindo a ideia de que, no seu país, há dificuldade em denunciarem-se irregularidades cometidas por governantes. Quanto ao que alude e que pode ser conferido entre as pp. 85 e 87, poucos moçambicanos se abrem a denunciar diferentes atrocidades, tais como a fome, a miséria, por receio de represálias por parte de quem detém o poder.

A poesia de Taruma é de carácter político. O poeta chega a criticar a existência da kalasnikov, símbolo que faz parte da bandeira nacional.

Ao mostrar a sua desilusão pelo país, o sujeito poético, na obra acabada de referir, chega a utilizar expressões fortes como: “cemitério de loucos”, para designar o país; […] “desejo erótico de acrescentar, em frente à primeiríssima lera desta terra (Maputo), o ú para depois apartar a sílaba inicial, e seguidamente repetir-lhe o nome no feminino, a ver se lhe enfio no cu” […]; …“frenético mijo”, etc cf. p.86; linguagem similar a que Eduardo White utilizou nas obras nas quais teceu duras críticas ao seu país, a saber O País de Mim (1999); As Falas do Escorpião (2002) e O Homem, a Sombra & a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004).

Álvaro Taruma ensaia nessa sua primeira obra, de diferentes maneiras, a criação metapoética, da qual destacarei aquela que dialoga com a obra de Eduardo White. Diz o poeta,:  […] “terrorista pode ser quem tem um lápis apontado a uma folha. Bastam três versículos de um qualquer livro para que a morte chegue (ridícula como uma carta de amor) […]// Neste país, onde escrever é crime, eu escondo o meu diário como quem esconde sua munição” (TARUMA, 2016, p. 23).  Este trecho faz lembrar dois outros de Eduardo White, na sua obra A Mecânica Lunar e a Escrita Desassossegada (2011), quando critica os seus colegas escritores e a si próprio, pelo oficio da escrita em Moçambique:

 

Vocês cospem na poesia como vos é costume cuspir num serviçal. Pagam pouco com medo de que vos limpem muito lixo que sois. […] // Vocês fazem livros como fazem calças e vestidos com rigor e o glamour da hâute coture e, muito embora assim, não sabem a merda que os veste. […] (WHITE, 2011, p.47).

 

Não há dia em que a escrita não me venha bater à porta. Não há dia em que não se vire para mim e me diga em tom jocoso: Bom dia, idiota. […] // Vai pentear bonecos, respondo-lhe eu […]. E a desenvergonhada ri-se, enquanto me acobardo […]. (Ibidem, p. 55)

 

A metapoesia é o cerne do livro Matéria para um Grito (2018), obra na qual, em grande parte, o autor reflete sobre o processo da escrita, questões sociais em Moçambique e sobre as mortes sem causas claras. Sobre esse processo de escrita, apresento como exemplo o que afirma o poeta, no poema da p. 22: “Trabalha a palavra/ mesmo que não a digas, flua./ Este é, de todos, o mais árduo/ofício: o lírico gume do silêncio”. Ou ainda: […] “(escrevo, pois, com a pátria de joelhos como quem reza, à cata de moedas imaginárias)”, cf. 27.

Nesse último poema referido, há mais uma marca biográfica. O poema é intitulado “Cemitério dos afogados”, pp. 27-28, e leva a seguinte epígrafe: “Aos meus irmãos náufragos na ilha de Inhaca”. O poeta dedica esse poema aos seus conterrâneos. Recorre ainda a marcas que simbolizam Moçambique, pelo recurso à utilização da expressão “ventos de Setembro”, que lembram os ventos sul típicos dessa altura do ano. São os ventos que têm lugar entre Agosto e Setembro em Moçambique, os referidos nhinguitimo(s), no conto de nome idêntico, da autoria de Luís Bernardo Honwana.

Ao fazer referência a esses ventos, o poeta reclama a pouca atenção social na gestão da província de Maputo. O sujeito poético criado fala a partir da ilha, para alguém que está no continente, lugar com mais vantagens, embora seja um espaço com muitos problemas como a morte sem causa, enquanto que a ilha depende, no seu todo, de mantimentos vindos da parte continental: “fala-me desses ventos de que não sei senão breves rumores, dessa cidade onde a morte é um espelho, um espetáculo que cruza a remos e tu voando como uma bala, uma vela rasgada, um dissenso naufrágio”[…] TARUMA, 2018, pp. 27-28). Com o poema também presta homenagem a alguns naufragados na ilha. Na sua obra é recorrente o ceticismo do poeta quanto aos destinos do país, tal como se pode ver nas palavras do sujeito poético: […] “conta-me daí uma pequena mentira porque cá a verdade é de aquietados motins: um fardo de medo sobre as costas do mundo, sobre os livros, sobre as mesas gastas à fome, sobre a vida que escolheste nessa margem submersa da nuvem: o reduto das coisas líquidas” (TARUMA, 2018, p. 28).

Esse trecho remete-nos à ideia de precariedade da vida em Moçambique, algo que é recorrente em quase toda a obra Matéria para um Grito. Aliás, o poeta utiliza a poesia para denunciar a perda de valores morais e as matanças no país. Há muitos crimes não explicados. O poema intitulado “Vento imóvel (a um país)” é disso exemplo. Nele, o poeta faz referência a comentadores políticos que levaram tiros em Maputo, por defenderem a democracia e por apontarem os males na política do governo-dia. Além desses, o poeta faz menção a pessoas que foram mortas pela mesma causa.  O poema, epigrafado por uma frase de Leonard Cohen, remete à espera da chegada de um milagre:

 

[…] Eu quero que as pessoas se fodam! Ou melhor, eu quero que as pessoas se expludam. […] O que ouves nas canções de Leonard Cohen (waiting for the miracle to come)? Não ouves nada: zarolho de ouvidos e outras coisas! Não ouves a trombeta soar sob o signo da morte? Não ouves o grito dos prisioneiros sobre a muralha sitiada? Cardoso, Macuácua, Mcuane, Sistac, Salema…são apenas um nome sob a trágica emboscada do silêncio […]. (TARUMA, 2018, pp. 54-55)

 

O poeta denuncia ainda, nesta sua segunda obra, os males e desigualdades sociais, com recurso a um sujeito poético que se coloca em diferentes transportes públicos, anda pela cidade e diz o que vê. Os títulos dos poemas descrevem a marca e o tipo de transporte pelo qual o sujeito se desloca, bem como a rota que faz pela cidade de Maputo e arredores: “ADB-100 MP[faixa azul]/Rota: Anjo-Voador –Xipamanine (vamos ganhar tempo passageiros), p. 91; “APP-500 MC [Faixa Amarela]/ Rota: Praça dos Combatentes – Baixa ( Via  Compone)”, pp.93-94; “AEK-627 [Faixa Verde]/Rota: Zimpeto-Museu (se recalmar desce)”, pp.95-96; “O DITO DO COBRADOR DESDENTADO [Chapa desconhecido]/(Voz em off: amuyiveee, amuyivee, khomani amuyiveee!)”, p. 97, entre outros.

No primeiro poema são descritas as diferenças sociais e comparadas as vivências entre as senhoras com elevado estatuto social, as que usam vestidos de seda, afirma o poeta, versus as que vendem roupas no mercado informal. No segundo, é descrita a insensibilidade das pessoas abastadas, perante a pobreza urbana. O poeta chega a dizer que o seu modo de vida explica o amor que tem por estátuas. No terceiro, há uma crítica a valores morais. E no quarto há uma crítica à governação do país e à bajulação dos que nele acreditam.

São duas obras bem conseguidas as do autor apresentado e que mereceram uma boa classificação da crítica.

 

REFERÊNCIAS

TARUMA, Álvaro. Para uma cartografia da noite. Maputo: Literatas, 2016.

________________ . Matéria para um grito. Maputo: Cavalo do Mar, 2018.

WHITE, Eduardo (2011). A mecânica lunar e A escrita desassossegada. Maputo: Texto Editores, 2011.

 

 

* Sara A. Jona Laisse. Docente na Universidade Politécnica. Contacto saralaisse@yahoo.com.br

[1] Há marcos socio-históricos na História da Literatura Moçambicana, que dão como adquirida a ideia da existência das seguintes gerações de escritores moçambicanos: a primeira, a dos combatentes da Luta de Libertação Nacional, os cultores da Poesia de Combate; a segunda, a dos “jovens da Charrua”, que começaram com as suas publicações nos anos 80, rompendo com a estética literária anterior, a da poesia panfletária; e uma nova vaga de escritores, a maioria dos quais começa a publicar nos anos 90, a chamada nova geração de escritores.

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