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As Organizações Sem Fins Lucrativos negam que estejam envolvidas em crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Por isso, exigem um tratamento diferenciado diante dos bancos comerciais e das autoridades públicas ligadas à matéria.

Por constarem da lista dos suspeitos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo há cerca de dois anos, nesta quinta-feira decidiram sentar-se à mesma mesa com o Governo e os bancos comerciais para limpar o seu nome e exigir também um tratamento menos asfixiante.

Num evento que contou com a participação da secretária permanente do Ministério das Finanças, as organizações queixaram-se de estar a enfrentar problemas sérios para abrir contas bancárias e para receber dinheiro de doadores externos para os seus projectos.

“O doador manda o recurso e o banco informa, às vezes depois de duas a três semanas, que recebeu uma transferência e começa a pedir uma série de documentos. Muitas vezes, esses documentos já foram entregues, às vezes não é um contrato novo. É uma transferência para implementar imediatamente. O tempo demora tanto, às vezes dois a três meses. Em alguns casos, há organizações que reportaram que não conseguem receber esse dinheiro e acabam perdendo o recurso. Por exemplo, se é uma resposta a uma emergência, como cheias ou outra coisa, depois de três a quatro meses torna-se irrelevante”, defende a activista social Paula Monjane, representante do Movimento para a Liberdade de Associação.

Diante das constatações, as organizações consideram inaceitável que cumpram os requisitos exigidos pelos bancos para gerir uma conta bancária e que, mesmo assim, os seus processos não corram. Acusam os bancos de ignorar as recomendações das autoridades oficiais.

“As nossas recomendações são: primeiro, que a avaliação sectorial de risco seja uma ferramenta de uso dos bancos e do sistema financeiro para definir as medidas proporcionais. Segundo, que as boas práticas do GAFI também sejam consideradas no processo de definição de medidas baseadas no risco. Terceiro, que haja um diálogo permanente entre o Governo, o sector financeiro e a sociedade civil. Quarto, que as medidas sejam proporcionais, de tal forma que não levem as organizações a abandonar o sistema financeiro formal para começarem a usar um sistema informal, no qual não vai ser possível encontrar e controlar operações suspeitas”, detalha a activista social Quitéria Guirengane.

Contudo, as organizações sem fins lucrativos exigem um tratamento tendo em conta o risco de cada uma delas. “O que nós exigimos como sociedade civil, sobretudo como CESC, é que essa lista das organizações que supostamente foram detectadas na avaliação fosse entregue aos bancos, no sentido de que, na altura das transacções financeiras, fosse a esse tipo de organizações que se devia demandar mais documentação. Não faz sentido, por exemplo, uma organização pequena, ao nível de Cabo Delgado, que precisa de receber fundos para poder implementar os seus pequenos projectos de desenvolvimento para alavancar o desenvolvimento local, não ter acesso a fundos porque, supostamente, as organizações da sociedade civil são susceptíveis de abuso, mesmo que não haja evidências sobre isso”, considera Domingos do Rosário, gestor do CESC, uma organização da sociedade civil.

Por sua vez, os bancos comerciais dizem estar a trabalhar com listas oficiais de suspeitos e com base na legislação, motivo pelo qual exigem melhor organização aos queixosos.

“Temos um sistema de identificação de entidades nacionais relacionadas com o financiamento do terrorismo, e isso consta de umas listas que são publicadas também ao nível nacional e enviadas aos bancos para que adoptem medidas proporcionais ou medidas de mitigação relativamente a essas entidades. Agora, identificar casos em concreto não seria o momento para trazer aqui. O que se pretende mesmo é que as instituições estejam preparadas para evitar que estes riscos de facto se concretizem e que haja de facto este uso do sector para o financiamento do terrorismo”, explicou aos jornalistas Edgar Fortes, da área de anti-branqueamento de capitais do Banco de Moçambique.

Por seu turno, Samir Zacarias, representante da Associação Moçambicana de Bancos (AMB), explica que os bancos têm métricas específicas para medir os riscos das organizações. “Tendo em conta o resultado, a documentação que é solicitada pode divergir em alguns pontos. Quando nós calculamos o nível de risco de uma associação, há associações que operam em áreas de alto risco. Vou dar um exemplo de Cabo Delgado, que é uma área assolada pelo terrorismo. Há outras que não operam numa área de alto risco. Evidentemente, o resultado do nível de risco dessas duas associações pode ser diferente”, explicou.

Na última avaliação, as confissões religiosas apareciam com maior risco. Mas há trabalhos em curso para melhorar a situação e, em breve, haverá uma nova avaliação.

“68% das confissões religiosas foram apontadas com algum nível de risco. Elas estão identificadas na avaliação nacional de risco. Nós temos dados que apontam para as confissões religiosas, é preciso que se retenha o que se está a dizer. E quais são esses riscos? Não há contas bancárias, (…) há uma série de elementos que contrariam a Lei 14 do Branqueamento de Capitais”, destaca Luís Cezerilo, coordenador nacional de políticas de prevenção ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e proliferação de armas.

Espera-se que a reunião que teve lugar ontem em Maputo produza consensos entre os bancos, as organizações sem fins lucrativos e as autoridades do Governo, sem prejuízo das partes.

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A África do Sul está a solicitar a vários países africanos o reembolso dos custos relacionados com o repatriamento de dezenas de milhares de cidadãos estrangeiros, depois de o país ter deportado ou ajudado no regresso de mais de 80 mil migrantes aos seus países de origem.

Segundo o Ministério dos Assuntos Internos da África do Sul, o Governo gastou cerca de 18 milhões de dólares norte-americanos para acomodar e transportar migrantes que regressaram aos seus países. Pedidos formais de compensação foram já enviados ao Malawi, Etiópia e Nigéria.

Os custos incluem transporte em autocarros, instalação de centros temporários de repatriamento e pagamento de horas extraordinárias aos funcionários envolvidos nas operações. O director-geral do Departamento de Assuntos Internos, Tommy Makhode, classificou as despesas como “imprevistas e inevitáveis”.

O ministro dos Assuntos Internos, Leon Schreiber, considerou sem precedentes o actual volume de deportações e repatriamentos, realizados num contexto de crescente tensão em torno da imigração ilegal na África do Sul.

Grupos que se opõem à imigração ilegal têm promovido protestos e, em alguns casos, registaram-se ataques contra cidadãos estrangeiros. Os manifestantes acusam os imigrantes de contribuírem para o desemprego, o aumento da criminalidade e a sobrecarga dos serviços públicos.

Alguns países africanos acusaram o Governo sul-africano de não proteger devidamente os seus cidadãos, acusação rejeitada pelas autoridades de Pretória. O Gana chegou recentemente a defender a inclusão da situação dos migrantes na África do Sul na agenda de uma próxima reunião da União Africana, proposta que acabou por ser rejeitada.

Dados do Governo sul-africano indicam que 82.875 pessoas foram voluntariamente repatriadas ou deportadas desde o início do actual período de tensão migratória. Contudo, números apresentados pelos países de origem apontam para cerca de 178 mil pessoas que terão regressado.

Entre Abril e Julho, 16.078 cidadãos estrangeiros, sobretudo do Lesotho, Malawi, Tanzânia, Zimbabwe e Moçambique, foram deportados através do Centro de Repatriamento de Lindela.

As autoridades policiais sul-africanas anunciaram ainda o reforço das operações contra a imigração ilegal e crimes associados. Quase 60 mil pessoas em situação irregular foram detidas, das quais 16.208 apenas durante o mês de Julho.

A questão migratória continua, assim, a gerar tensão entre a África do Sul e outros países africanos, ao mesmo tempo que o Governo sul-africano procura fazer face aos elevados custos das operações de deportação e repatriamento.

 

A juíza do Tribunal Judicial de Manica, afecta à Secção de Menores, Kátia Dinís, alerta para a existência de casos em que mulheres instauram vários processos de pensão de alimentos contra diferentes pais dos seus filhos, encarando, em alguns casos, o benefício como uma fonte de rendimento.

Segundo Kátia Dinís, esta prática pode prejudicar o desenvolvimento das crianças, sobretudo quando a questão financeira se sobrepõe à necessidade de garantir aos menores um ambiente familiar estável, afecto e acompanhamento parental.

A magistrada considera preocupante que algumas mulheres possam encarar a maternidade como uma estratégia de sobrevivência económica, advertindo que os filhos não devem ser tratados como uma forma de obtenção de rendimento.

Kátia Dinís sublinha ainda a importância da presença da figura paterna no crescimento das crianças, defendendo que, para além do cumprimento da obrigação de prestar alimentos, os pais devem participar activamente na vida dos filhos, proporcionando-lhes afecto, acompanhamento e apoio.

A juíza apela, por isso, à responsabilidade dos progenitores, recordando que a pensão de alimentos constitui um direito da criança e deve ser utilizada para garantir o seu bem-estar, educação, saúde e desenvolvimento, e não como instrumento de benefício pessoal dos pais.

Duas linguagens artísticas distintas encontram-se na exposição “Configurações performativas”, patente no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo. A mostra reúne obras dos artistas moçambicanos Ventura Mulalene e Fernando Chaleca, que, através da pintura e de instalações, exploram a relação entre o ser humano, a memória, a natureza e o espaço que o rodeia.

Nas obras de Ventura Mulalene, as plantas assumem novas formas e significados. O artista trabalha a ideia de performance associada ao movimento e à caminhada, inspirando-se na forma como as pessoas circulam em diferentes espaços, como mercados e bairros.

Fernando Chaleca, por sua vez, constrói abrigos e estruturas recorrendo sobretudo a materiais industriais e resíduos. A sua abordagem procura também chamar a atenção para a gestão dos resíduos sólidos e para a reutilização de materiais que são habitualmente descartados.

Com curadoria de Titus Pelembe, a exposição convida o público a interagir com as obras. Uma das instalações de Chaleca, por exemplo, apresenta uma estrutura semelhante a uma escadaria e a um pequeno labirinto, obrigando o visitante a movimentar-se, baixar o olhar e fazer pausas durante o percurso. A experiência procura levá-lo a reflectir sobre a ideia de abrigo enquanto espaço de protecção e acolhimento.

A mostra conta igualmente com o apoio do Millennium bim, instituição que mantém um acervo artístico e afirma investir no desenvolvimento da arte e da cultura moçambicanas, com particular atenção aos jovens artistas.

“Configurações performativas” estará patente no Centro Cultural Franco-Moçambicano de 11 de Agosto a 12 de Outubro, reunindo obras que procuram transformar formas, memórias, movimentos e materiais descartados em experiências de reflexão sobre a relação entre o indivíduo e o seu espaço.

 

Quatorze candidatos disputam a Presidência da Zâmbia nas próximas eleições, numa corrida em que o actual chefe de Estado, Hakainde Hichilema, parte como favorito à conquista de um segundo mandato.

Entre os principais adversários está Brian Mundubile, líder da oposição, que acusa as autoridades de terem condicionado a campanha do seu partido. Segundo Mundubile, a oposição enfrentou restrições para realizar comícios e deslocar-se pelo país, enquanto Hichilema teria beneficiado de maiores facilidades para fazer campanha.

O antigo advogado afirma ainda que esteve quatro meses sem passaporte e sem telefone, alegadamente na sequência da apreensão dos seus documentos e aparelhos. Mundubile acusa igualmente a Polícia de interferência nas actividades da oposição e o partido governamental, UPND, de envolvimento em actos de violência durante a campanha.

O líder oposicionista critica também a Comissão Eleitoral da Zâmbia por, segundo afirma, não ter tomado medidas contra o partido no poder perante as alegadas irregularidades.

Hakainde Hichilema chegou à Presidência em 2021, na sua sexta tentativa, ao derrotar Edgar Lungu com uma vitória expressiva. Apesar das acusações da oposição, a expectativa geral é de que o actual Presidente consiga renovar o mandato e permaneça no poder por mais cinco anos.

 

O director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou para a rápida propagação do surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC), após uma visita ao país, onde se reuniu com o Presidente e destacou os esforços das autoridades no combate à doença.

Segundo o responsável da OMS, a actual epidemia já é a segunda maior de que há registo e está a propagar-se mais rapidamente do que qualquer outro surto anterior. Ao ritmo actual, poderá ultrapassar a epidemia registada na África Ocidental entre 2014 e 2016.

Até ao momento, foram oficialmente reportados 4.449 casos confirmados e 2.061 mortes em cinco províncias e 53 zonas de saúde.

Tedros manifestou ainda preocupação com o elevado número de mortes registadas nas comunidades, sobretudo em locais onde não existem centros de tratamento, situação que dificulta o rastreio e acompanhamento dos contactos.

“O mais preocupante é que vemos uma alta proporção de mortes nas comunidades, em vez de em unidades de tratamento, fora das listas de contactos conhecidos”, afirmou, alertando que os dados indicam a existência de cadeias de transmissão ainda desconhecidas.

O director-geral da OMS sublinhou que, enquanto essas cadeias não forem identificadas e interrompidas, será difícil conter o surto.

A actual epidemia é provocada pela variante Bundibugyo do vírus Ébola e, segundo a OMS, a tendência de propagação indica que poderá superar a epidemia da África Ocidental, que entre 2014 e 2016 provocou milhares de mortes.

 

Pelo menos 44 pessoas morreram afogadas depois de uma balsa sobrelotada ter virado no Lago Kariba, no Zimbabwe, anunciou a polícia esta quarta-feira, actualizando o balanço do acidente ocorrido na véspera.

O desastre aconteceu na terça-feira, em condições meteorológicas adversas. Uma testemunha contou à AFP que, pouco depois do naufrágio, era possível avistar corpos na água enquanto as equipas de socorro tentavam alcançar a embarcação.

Segundo a Unidade de Protecção Civil (CPU), a balsa transportava 114 passageiros adultos, cinco tripulantes e um número ainda desconhecido de crianças. A embarcação, pertencente à Agência de Desenvolvimento de Infra-estruturas Rurais (RIDA), tinha capacidade para 90 pessoas, mas fazia o transporte de passageiros entre a cidade de Kariba, no norte do país, e várias ilhas e comunidades piscatórias do lago.

Inicialmente, as autoridades tinham informado que 77 pessoas haviam sido resgatadas e que 15 corpos tinham sido recuperados. Na quarta-feira, porém, a Polícia da República do Zimbabué (ZRP) confirmou um aumento significativo do número de vítimas mortais.

“A ZRP informa o público de que o número de mortos no acidente com a embarcação Kariba RIDA é agora de 44”, escreveu a polícia na rede social X.

O acidente é considerado um dos mais graves desastres envolvendo embarcações de passageiros registados no Lago Kariba, situado na fronteira entre o Zimbabué e a Zâmbia, a mais de 300 quilómetros a nordeste de Harare. Trata-se do maior lago artificial do mundo em volume.

As operações de busca e salvamento prosseguem, uma vez que continuam a existir pessoas dadas como desaparecidas. A Unidade de Protecção Civil informou que foram contratadas duas agências funerárias para proceder à recolha dos corpos.

Maxton Kanhema, uma das testemunhas, relatou que a embarcação deixou a margem durante a manhã, apesar do mau tempo, e poderá ter sido atingida por uma onda, provocando, aparentemente, a paragem dos motores.

“Quando estávamos na água, vimos um sinal de socorro e, pouco depois, embarcações que se encontravam nas proximidades dirigiram-se para o local”, contou Kanhema à AFP.

Um parque nacional disponibilizou um helicóptero para apoiar as operações, enquanto barcos de maior dimensão, mergulhadores locais e elementos do exército também participam nas buscas. Uma equipa especializada em salvamento aquático foi ainda transportada de avião para a região.

Kanhema descreveu a situação como particularmente dramática, afirmando que havia pessoas em perigo e corpos a flutuar na água. Os sobreviventes resgatados foram posteriormente transportados para Long Island, uma ilha situada no interior do Lago Kariba.

As autoridades continuam a procurar eventuais sobreviventes e a recuperar os corpos das vítimas, enquanto deverão ser investigadas as circunstâncias que levaram ao naufrágio da embarcação.

Famílias desalojadas pela Polícia da República de Moçambique de um espaço alegadamente alheio no bairro das Mahotas continuam a viver ao relento três semanas após o despejo. nunca foi apresentado o mandado judicial para demolições, e o Município de Maputo não quer falar do assunto.

Nos últimos três dias, o frio apertou em Maputo, e para estas famílias, que há três semanas vivem sem casas no bairro das Mahotas, na capital do País, as baixas temperaturas tornam ainda mais difícil enfrentar a realidade.

Entre tendas improvisadas, lareiras e cobertores, procuram abrigo para mais um dia. 

“Estamos aqui, ao relento”, introduziu Hortência Eugénia, uma moradora entrevistada na manhã desta quarta-feira. Segundo a fonte, “aqui ninguém aparece do Governo, eles não conhecem esta população aqui acampada.”

Margarida Zimila, outra entrevistada no local, denuncia um alegado “esquecimento” questionando “porque Rasaque Manique não levanta para vir ver esta situação aqui? As famílias foram vítimas de uma suposta acção judicial que culminou com a destruição de casas  construídas num espaço alegadamente alheio. Depois da demolição, as famílias continuam a passar as noites frias na rua. “Estamos na rua, a sofrer, mas nós não vamos sair daqui, nós queremos que a senhora que nos colocou aqui venha, e ainda que não venha, um dia, a justiça será feita”, desabafou Margarida Zimila

A estes dias, a preocupação nem é com a comida, se bem que também falta. A chuva que pode molhar o pouco que salvaram do despejo, atormenta as pessoas principalmente as crianças que “passam mal e algumas estão frequentemente doentes”.

Embora os moradores citem uma entidade ligada ao Município de Maputo como responsável de atribuição de espaços onde foram desalojados, a comunicação e imagem do Conselho Municipal reiterou, nesta quarta-feira, que não vai pronunciar-se sobre o caso.

Enquanto as famílias permanecem ao relento, o alegado proprietário do espaço, que nunca apresentou o mandado judicial que fundamentou o uso da força do Estado para desalojar as famílias, avança com obras de vedação do espaço ora ocupado.

Um moçambicano vítima da xenofobia na África do Sul está internado nos cuidados intensivos, com queimaduras no corpo, após ter sido brutalmente agredido em sua residência, em KwaZulu-Natal. As autoridades moçambicanas dizem estar a acompanhar a situação junto da contraparte sul-africana.

Os actos xenófobos na África do Sul continuam a fazer vítimas moçambicanas,  apesar dos apelos à paz e à irmandade, vindos de todos os países africanos.

Face ao cenário, que ganhou mais intensidade entre Abril e Maio, com registo formal de sete moçambicanos mortos e várias infra-estruturas destruídas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação diz que a África do Sul geriu mal a migração na terra do Rand e explica: “Há duas semanas, um moçambicano em KwaZulu-Natal. Era mecânico, tinha a sua oficina. À noite, sabiam que a esposa não estava lá, que era uma esposa sul-africana, foram lá e maltrataram-na. Com queimaduras do primeiro grau, está, agora, nos cuidados intensivos. Então, outros moçambicanos foram surpreendidos nas suas casas, foram retirados de lá, não conseguiram tirar nada. Então, o que nós estamos a dizer é que nós entendemos a situação, mas, possivelmente, como família, devíamos ter sentado e ver como é que nós nos organizamos para que aqueles que não têm documentos, que estão de uma forma ilegal na África do Sul, pudessem sair, mas com dignidade. Para isso, alternativas podiam ter sido consideradas: em alguns países europeus, há aqueles vistos de três meses, quatro meses para a recolha de frutas, e depois regressam. Então, todo o moçambicano podia saber – vou ser necessário, vou-me inscrever para um visto de três, quatro, cinco, seis meses, vou trabalhar e depois volto para casa.”

A ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, respondia a perguntas de jornalistas durante a conferência de imprensa após a cerimónia de recepção de cartas credenciais de novos embaixadores em Moçambique, e um destes diplomatas é o embaixador da África do Sul, que usou a oportunidade para reconhecer os erros.

“O alto-comissário da África do Sul apresentou… em nome do governo sul-africano, pediu perdão ao povo moçambicano, e disse que isto que aconteceu não devia acontecer, porque nós somos um único povo”, afirmou.

A ministra explica que os governos de Moçambique e África do Sul estão em constante contacto na busca de soluções, e a 46ª Cimeira da SADC, a acontecer em Durban, a 17 de Agosto, será uma importante plataforma de diálogo.

A cimeira, presidida por Cyril Ramaphosa e sob o lema “Industrialização resiliente, sustentável e inclusiva através do desenvolvimento de infra-estrutura”, para além de industrialização e infra-estruturas e integração económica, tem a paz e segurança como um dos principais temas de debate.

O tema com foco na análise da estabilidade regional e geopolítica na África Austral, será antecedido por uma reunião de grupo, no dia 16 de Agosto, outra oportunidade para os líderes da região austral discutirem soluções para África.

Manuela Lucas recorda de algumas decisões saídas do encontro entre Chapo e Ramaphosa.

“Chegaram a um ponto de dizer ‘vamos organizar alguma coisa na fronteira’. A África do Sul está um pouco mais avançada. Estão a criar uma zona económica especial. Então, a própria África do Sul disse ‘vamos estender essa zona económica especial para Moçambique e para Eswatini, para podermos ter ali agricultura, fábricas para transformar alguns dos nossos produtos’. E os nossos moçambicanos, quando chegassem à fronteira, do nosso lado mesmo, encontrariam emprego, encontrariam coisas, porque as pessoas vão lá, é mais para ir trabalhar, para tentar encontrar emprego. Então, vamos continuar a trabalhar juntos com a África do Sul, mas acho que essa é uma boa oportunidade para os chefes de Estado, como família, falarem sobre esse assunto e ver também o que nós podemos fazer juntos para melhorar esta situação”, disse.

E, perante o cenário,  o número de regressados não pára de aumentar.

“Na semana passada, tivemos cerca de 599. Quase 600, que foram repatriados da África do Sul, mas foi um repatriamento coordenado. Estavam todos em Lindela, informaram-nos, então conseguimos organizar-nos. Nós estivemos ali, na fronteira, para receber os moçambicanos.”

Assim, sobe para 2083 o número de moçambicanos repatriados pelo Governo, além de outros mais de 30 mil moçambicanos regressados por meios próprios.

Sobre o outro grupo de repatriados, o Governo teria reconhecido a falta de controlo do grupo, uma vez que, em muitos casos, estes não usam as fronteiras formais para travessia.

Numa entrevista exclusiva ao “O País”, o Instituto Nacional para as Comunidades Moçambicanas no Exterior afirmou existirem, nas províncias de Gaza e Manica, fronteiras informais comumente usadas pelos viajantes, para ir e vir da África do Sul, sem passar por nenhum registo.

Apesar de ser menos dramática a situação actual, as marchas anti-imigrantes, que têm lugar todas as quintas-feiras, em muitas cidades sul-africanas, têm culminado, quase sempre, com mais e mais vítimas estrangeiras, independentemente de estarem ou não legais no País.

Comunidades camponesas denunciam alegadas irregularidades no processo de inscrição dos proprietários das machambas onde deverão ser construídas 25 mil casas na cidade da Beira. O processo iniciou-se na passada segunda-feira, mas o município diz desconhecer a iniciativa.

O caso ocorre no bairro da Maraza, onde o Município da Beira pretende erguer 25 mil casas, com apoio de parceiros nacionais e estrangeiros, para garantir habitação condigna e resiliente às mudanças climáticas a milhares de cidadãos.

Na passada segunda-feira, os proprietários das machambas localizadas nas áreas abrangidas pelo projecto foram informados de que se iniciaria o processo de inscrição para efeitos de compensação.

Segundo os camponeses, o processo está a ser marcado por alegadas irregularidades, com a inscrição de pessoas que não seriam proprietárias das machambas e a exclusão dos verdadeiros titulares das terras.

“Trouxeram cinquenta Bilhetes de Identidade de pessoas desconhecidas, e nós ficámos sentados nas nossas machambas sem perceber o que estava a acontecer. Alguns indivíduos até pagavam para constar das listas”, denunciou Maria Vinho.

A camponesa acrescenta que os produtores ficaram ainda mais perplexos quando perceberam que algumas listas já estavam preenchidas, enquanto os legítimos proprietários das machambas ainda não tinham sido contemplados.

Os camponeses dizem estar a ser excluídos das listas pelos secretários dos bairros e afirmam que, quando procuram esclarecimentos, não obtêm respostas.

“Eles nos ignoram quando questionamos, não respondem absolutamente nada”, disse um dos camponeses.

Para a comunidade, a situação representa o risco de perder as terras de cultivo e, consequentemente, a principal fonte de sustento. Muitas das famílias dizem cultivar aquelas áreas há várias gerações.

“A minha mãe começou a fazer uso desta terra ainda na era colonial. Hoje ela já é incapaz, e eu passei a trabalhar aqui”, contou Isabel Bundo.

Perante a situação, os camponeses exigem a suspensão imediata das inscrições até que seja feita uma verificação rigorosa dos verdadeiros proprietários das machambas abrangidas pelo projecto.

“Queremos que cada proprietário seja inscrito na sua própria machamba. Isso vai evitar infiltrados”, exigiu um dos camponeses.

Contactada pela nossa equipa de reportagem, a vereadora para a área da Agricultura, sem gravar entrevista, disse que o Município da Beira desconhece o processo de inscrição que está a decorrer nas áreas abrangidas pelo projecto das 25 mil casas e prometeu averiguar a situação.

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