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ARTIGOS DE OPINIÃO

No cenário literário moçambicano a ausência das mulheres é evidente e factual, só que isso agrava-se ainda mais quando se trata de prosa, já nem falo de romance. Conta-se a dedo mulheres que viajam nesse estilo. Não tenciono aqui fazer uma pseudo-ideia de que, geneticamente, as mulheres não podem, mas que esse facto difícil e deprimente deve-se, mesmo, às condições sociais, económicas, culturais e, quiçá, políticas.

No dia do lançamento dessa Antologia, de mulheres em prosa, no centro cultural moçambicano alemão, uma questão momentânea me foi colocada em mãos por António Magaia, questionando sobre esse facto, de pouca adesão das mulheres na prosa (e literatura no geral). Disse-lhe que, em primeiro plano, está a educação. É preciso manter a mulher na escola e dar-lhe portas para o ensino superior, daí, tudo se desenrola, o que, de certa forma, Lucílio Manjate também explicou depois de ter feito a apresentação do livro.

Numa outra oportunidade, o escritor Eduardo Quive, também organizador desta antologia, na noite literária no Ntsindya disse que o livro é coisa de burgueses. Não poderia estar mais de acordo com alguém. Só que no lugar de burgues, eu coloco elite, para não circunscrever essa discussão ao nível económico. Também não falo das elites políticas, mas académicas, financeiras e até culturais (é mais fácil o homem ter tempo para ler um livro que uma mulher vendo o seu dia a dia).

Essa é uma forma de congratular a iniciativa da catalogus pela oficina “vez das mulheres”, e que já vêem-se os frutos. Contra toda essa pesada realidade, incentivar a literatura nas mulheres é um passo grande para o futuro principalmente se olhando isso nas palavras do Malcom X que asseguram: “If you educate a man, you educate an individual, but if you educate a woman, you educate and liberate a family.”

 

Como narram as mulheres?

Se hoje me questionassem a visão que me guia sobre a literatura, seria essa: caso a literatura tenha um objecto de trabalho e estudo, esse seria a forma em vez da coisa, o caminho no lugar do destino. Como o docente Manusse disse, numa das suas aulas de Introdução aos estudos literários I, na literatura, o que interessa não é o que se diz, mas como se diz. Tudo atrás exposto é explicado nessa frase: na literatura, não nos interessa a história como tal, mas como é contada essa história. Por conta disso, presumo, o próprio Lucílio Manjate abordou a necessidade dessas oficinas de escrita como há oficinas de canto, pintura, etc., pois, acima das estórias está a técnica, os recursos de linguagem e tudo mais.

Nessa senda, Mia couto uma vez disse que todo mundo conta uma história, inventada ou não; agora imagino-o a dizer que a maneira pela qual contamos as histórias é a que definem e diferenciam um bom contador de um menos bom contador de histórias. Numa análise geral, as 14 mulheres devem passar a ter isso em mente quando rabiscarem os seus textos, tanto em prosa como verso.

 

  1. Antes de nascer o sol, de Anastácia Sigodo

Esse texto não tem nada de narrativa. Caso a intenção da autora era escrever uma narrativa, então ela excluiu feio. Apesar de o martelo pegar a pensar nisso como narrativa – isso devido ao projecto literário – a Anastácia tem um tacto para a poesia. Esse texto é uma prosa poética linda, limpa e sensorial, com um sentido imagético bem construído. “O silêncio que abraça a madrugada escura do inverno”, “O coração […] consumindo tudo o que é cor dentro de mim” (p.15).

O sentido dessa poesia é um tanto escorregadio, sempre levando-nos dentro de nós mesmos.

“Antes de nascer do sol” é uma prosa poética onde o eu lírico é acossado pela insónia durante noites “frias de junho” (p. 16), onde “derrama lágrimas cristalinas” e o coração a puxa sempre para o abismo. Nessas noites ofegantes, as letras brotam sobre esse tempo que arrasta o sono e o sorriso. É um texto melancólico, de difícil digestão por conta do terror dessas madrugadas. Essas noites lembram as noites da Dulcineia no seu poema Sem título I, “em noites como essa/ rejeito a anestesia do sono/ […] e vivo, cada segundo da agonia (…)” Repiso, caso a intenção era contar uma história então seria insatisfatório. Sendo prosa poética, então é regular.

 

  1. Afinal sou eu? De Anchura Mires

Primeiro que não entendi a relação da temática e do título. “Afinal sou eu?” é uma narrativa sobre um homem que visita o pai, ou um pai que recebe a visita do filho, depois de muito tempo num período de seca de quase um ano. O texto desenrola sobre essa temática de seca, mudanças climáticas, causas e consequências. Afinal, essa era a relação, explicada no último parágrafo:

“Buanael consentiu com preocupação ao que disse Malik e ficou o pensar, por

um momento, que teria contribuído para aquela situação de falta de água e ao

mesmo tempo parecia satisfeito ao saber que ele poderia fazer algo para

resolver o problema” (p. 22)

O sobre do texto é importante, principalmente nessa época, contudo falta técnica de suspense, onde o leitor pergunta-se o que vai acontecer depois. Na, além da vinda do filho, não vejo um evento que possa ser classificado como um conflito. A seca que dura a quase não pode ser um conflito na literatura tanto como a pobreza não é um conflito. E acontece que o conflito é, para minha opinião, o coração de um conto e outras narrativas. O conflito coloca o protagonista a agir, então um bom conflito pode dar numa boa narrativa. Numa das entrevistas de Mia couto, disse que uma história começa num conflito, se há um, inventa. Apesar disso, a o texto apresenta características de uma narrativa.

Satisfatório

 

  1. A filha do Mwene de Carina Mulieca

Um texto sobre uma filha do chefe, Emma, que foi desposada por um mercador. Um história típica de Moçambique.

Há nuances interessantes a serem levantados nesse texto. O primeiro é o mistério que sobrevoa o texto sobre o não dito que devia estar lá, mas não consta. Depois da Emma ainda entrar no mar das dúvidas sobre o ‘sim’ ou ‘não’ para o pedido/exigência do mercador que queria desposá-la, segue um momento em que tudo desaparece e acordamos, com a protagonista, dum lugar vazio, escuro e sem nada, e, no fim, parece que ela está num casamento polígamo. Se teve volição ou não, o texto não responde, deixa quieto, oculto.

Essa é uma característica do texto que grita por atenção, contudo, a ausência de tais respostas para perguntas como “como” e “quando” pode frustrar o leitor. Está claro que o sonho da protagonista não passava por casar (cedo), mas de cursar direito, o que torna esse “suposto” casamento com o mercador uma história digna de lágrimas de tristeza. Contudo, a pressa da autora em chegar onde ela “ouviu chamar o (seu) nome” (p. 26), e presumo que despertou do sono, ela engoliu-nos o desenvolvimento interessante do enredo. Como é que ela reage, se luta, tenta contradizer?

Umas outra característica do texto, e quiçá da autora, é a capacidade realmente considerável de conjugar dois momentos ou tempos numa mesma narrativa, o tempo da narração (geralmente, presente) e o tempo da história (passado).

 

  1. Tempo da narração: “Quero contar-vos uma história, a minha história”. “Gostaria de contar-vos sobre mim sem que me entristeça” (p.25)
  2. Tempo da história: “Certo dia, apareceu um homem chamado de Mercador” (p.26). “Foi então que percebi que o som vinha doutro lado da porta” (p.27).

Regular

 

  1. O valor das promessas de Deizy Joane

Um texto que é caracterizado por discursos/conversas, e menos acção, menos movimento, menos dinâmica no enredo.

Começa o conto com a protagonista, a Dalva sendo caraterizada como quem nunca gritou, nunca chorou, e parece algo estoico, mas ela sussurra para a Missava que ele, o marido, a trai.

Choque. Conflito certeiramente criado. Contudo, depois seguem-se diálogos, e promessas de alguma acção entre mulheres, mas nenhuma acção em concreto. Como é que a Dalva reage?

Pois bem, parece que até tenta, mas se resigna. A autora teria dramatizado o encontro entre a Dalva e o marido quando esse acontece e é anunciado por Missava, que sussurrou: “Você já viu que seu marido vem aí?”

A Dalva é satisfatoriamente desenvolvida. Uma mulher com sonhos grandes e um coração inocente, pobre, casada com um marido que a traiu, as outras carecem desse desenvolvimento nesse sentido. Sendo a Dalva a protagonista, não sabe quem bem são Missava, Machaka, etc.

Bem, há momentos que estão todas num casamento polígamo, mas há outros momentos que não. Isso confunde o leitor.

O narrador, às vezes, narra na primeira pessoa, outras vezes na terceira. Por si só, não é um vicio, se feito conscientemente e com a devida mestria, mas aqui há algo coisa que passou despercebido.

Começa dizendo: “Minha mãe sempre dizia que tinha dez serviçais. […] Foi o que ela me transferiu como legado” (p.31). Depois, no desenvolvimento, ela escreve: “Nenhum vizinho viu, alguma vez, Dalva a gritar, como se tomada por uma força incansável” (p. 31).

A Dalva que é mencionada por um narrador narrando na terceira pessoa é a mesma que fala sobre a sua mãe e o legado que ela a transferiu.

Satisfatório

 

  1. Flor de Lotus de Edna Aníbal

Um conto da Hira que decide entrar num lugar proibido, entre dois reinos, e, interpelada por soldados do reino rival, ela machuca-os. Depois de um tempo, o reino rival faz uma visita ao reino do seu pai, rei Artur, e a Hira encontra-se com o soldado Felipe e ela. Os dois rivais protagonizam uma luta no palácio, e, de repente, são “teletransportados” (p.44) para a floresta e lá lutam com uma bruxa, mas o seu destino “se perde na incerteza enquanto a chama das Ignis ardia com intensidade renovada no interior” (p.45). A questão, morrem ou não morrem?

A autora apresenta um alto nível de descrição consistente. Um trabalho que nos coloca dentro da luta entre a Hira os soldados. Ouve-se o ruído das espadas quando colidem no espaço, ou o sangue jorrando, e imagina-se também a agonia dos vencidos.

Contudo, o embate esperado entre Hira e Felipe começa, mas não termina. O desfecho que não acontece entre esses dois explicaria e justificaria o conflito. Não querendo isso, a autora estende muito com conversas, e surpreende com esse final, de um incêndio causado por fogo ancestral. Há quem possa gostar dessa extensão do clímax, mas cria uma agonia quando se pergunta o que acontece entre o “artista e o boisse (boss)”.

É de sugerir que a autora diferencie claramente os dois palácios para evitar confusão.

“Se ouve ao longe o cântico da Hira que decidira pela enésima vez sair do palácio para colher flores” (p. 39)

O palácio que se refere aqui é a do pai da Hira, rei Artur. Há um outro palácio que é referido no texto sem distinção nenhuma, o que pode causar esse desentendimento: “Felipe regressara ao lado dos soldados ao palácio” (p.41)

Apesar de haver uma separação entre partes, o que ocorre nos outros contos do mesmo livro, ela não é, diria, explicativa ou diretiva, no sentido de ‘está-se aqui num outro reino’.

Num contexto que nem o nosso, falar de palácios, ancestrais com nomes latinos, “Ignis”, pode não trazer muito interesse para os leitores, principalmente num momento em que há mais sede de ouvir histórias e estórias de África, não só de africanos. Essa questão não tira o mérito do texto, é só algo a se considerar. E o lado positivo disso, é que essa estória quebra a monotonia das estórias.

Regular

 

  1. A desgraça da Tsakani de Edna Matavel

Depois de terminada a leitura vem a pergunta: “O que li?” A Edna Matavel traz-nos aqui um conto episódico, que é uma construção anti-estrutura tradicional, essa que é de Freytag.

Dentro do conto seguem-se pequenos conflito e clímaces distintos. Se por uma lado isso pode ser visto como um rutura à tradição, é importante que essa rutura seja consciente e propositada porque pode ser um vício. E nisso, não estou querendo ser conservador. A originalidade é sempre bem vinda, como o Mia Couto, às vezes, no lugar de iniciar com a exposição, ele inicia com um conflito ou clímax (dependendo das pessoas) no conto quando mabata-bata explodiu. Aliada a originalidade, deve haver criatividade.

A Edna Matavel tem um alto sentido de imaginação. Ela voa, alto, e isso pode a trair, se não parar para analisar a coerência do seu texto. Nesse conto, a desgraça da Tsakani, ela narra a história de uma mulher, a Tsakani, que teve um sonho e contou para a Lurdes (que não é bem explicita a relação das duas), depois a sua avó morre sozinha, devido a doença, suponho. Só que, depois da morte da avó, seguem-se momentos e eventos que estão longe do conflito, ou que são, no mínimo, incoerentes. Uma sucessão desses eventos. No enterro da velha, a Tsakani tem inveja da Muzaya, e a enfeitiça. Essa perde o bebé que esperava e abandona o lar. Os pais procuraram médicos tradicionais e descobriram que a feiticeira é a Tsakani. Só que a Tsakani sabendo disso, também volta ao curandeiro e vai procurar um marido bom.

Então teve um namorado que trabalhava na África de Sul, mas não fluiu porque a maldição voltou contra ela. A aldeia descobriu disso, então a expulsaram, já com o pai, Malhasseia, na aldeia.

Malhasseia retornou a Africa de sul, e a Tsakani não atravessou a fronteira clandestinamente.

Foi presa. Ficou no quartel. Foi escrava sexual. Ficou gravida e teve um filho. Fugiu pelo mato deixando o filho para trás, e foi devorada pelo leão. Termina a história.

Apesar do titulo ser bem conseguido, o conto já é uma sucessão de eventos que não tem muito a ver. Um final despachado. Bem que esse texto poderia ter terminado onde a avó morre, e ela teria tentado desmistificar o segredo do sonho, que é o que ela propôs no início, mas fugiu da sua própria proposta. Escreveu só para preencher páginas.

Insatisfatório

 

  1. A sentença de Felismina Guetsa

A Merly foi sentenciada pelo médico. À que? Parece, a nunca mais ser normal. E isso acontece num ambiente difícil, calmo, mas uma calmaria de falta de esperança, naquele pensamento de “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. É uma atmosfera muito melancólica, onde se toma “cooktail (deveria ser cocktail) para aliviar a amargura da vida” e o outro, que nunca é identificado, mas é o narrador, se “parece uma neblina que não dura para sempre e é esquecida pelo dia” (p.59).

Esse texto está mais para prosa poética à narrativa, apesar de haver descrição movimentos, como bem o faz Álvaro Taruma. Não há um enredo como tal. Ela descreve poeticamente as coisas e os sentimentos. Seguem-se exemplos:

“[…] a morte é temida quando nos dada um infan momento de lazer” (p.58)

Se a ideia era escrever um conto, então é mau. Se a ideia era mesmo de uma prosa poética, então é satisfatório.

 

  1. Até quando de Jade Ferreira

Essa é uma história emocionante, e que permite reflexão, principalmente, na questão do amor, e as bases que a sustentam. Atenção, dinheiro, matéria, ou palavras lindas. No lugar de dar respostas sobre isso, vamos percebendo entre linhas o que importa para a narradora. Essa história, tal e qual a “filha do Mwene”, possuem um tom confessional, só que é muito mais evidente esse é mais evidente. A autora tem uma capacidade de controlar a si mesma durante

o voo reflexivo para não abrir outras gavetas que, no fim, fazem uma salada confusa na boca do leitor, como quando inicia um parágrafo novo com “De volta ao importante…” (p.63).

Esse detalhe funciona bem como rutura, uma forma de chamar de volta para o que ela quer, de facto, contar, o essencial da narrativa.

Um mesmo homem, alvo do amor da narradora, é descrito como infeliz e, ao mesmo tempo, como quem tem “lábios carnudos, corpo de atleta (…) ficava na janela do prédio a olhar para mim, como um quadro de pintura que precisava decifrar” (p. 63). Isso não é contraditório, mas a mesma pessoa que vê essas características padrão de beleza, ainda o chama infeliz. Ao mesmo tempo que ele era bom no sexo, e a “deixava satisfeita” (p.65), “tinha partes do meu corpo que ele nunca chegava (…) ele era limitado” (p.66). Essas contradições podem trazer um debate sobre parceiros bons, suficientes ou não.

Uma narrativa sem sobressaltos que chama atenção mesmo pela confissão que se sente ao ler.

Empregar a primeira pessoa tem, naturalmente, esse efeito, mas ela o faz muito bem usando termos que retratam uma energia negativa interior no que toca a essa história dela, a narradora, e o alvo de seu amor. Uma relação, diga-se, doce e azeda, muito mais azedada porque o homem apesar dos atributos não trabalhava e era sustentada por ela para comprar “cuecas” “créditos” “passagem” e mais.

Apesar disso tudo, esse texto não é um conto.

 

  1. Entre ruas de Julieta Panguene

Um conto narrado sob o ponto de vista de uma criança, ainda ficava de “neneca”, e descreve tudo nesse sentido. A história é sobre uma criança que, porque a irmã demorou chegar da escola e, na sua casa, ninguém estava para tomar conta dela, teve de ser levada pela mãe para se reunir com outras mamanas da poupança para levantarem o seu dinheiro. Só que os coordenadores dizem que os cofres foram roubados, e a confusão começou, até que a mãe da criança teve complicações e ficou inconsciente por um tempo.

Um texto diferente, muito descritivo, bem articulado. Um conflito, um clímax, onde a criança chora descontroladamente por conta da confusão na reunião, e um desfecho. Peca por não haver acções crescentes, que criam o suspense até o momento mais intenso do texto, que é o clímax. Por conta disso, o clímax até passa despercebido. Também houve menos discursos, o que enriquece uma narrativa. Os discursos/falas são uma oportunidade de outros personagens trazerem o contraditório, outra perspectiva, para que a história não seja linear. Essa história é muito linear, não emociona. O seu momento épico é a descrição do ambiente, o som dos carros, as folhas, as árvores, as ruas movimentadas, as pessoas circulando, falando ao celular.

Um conto urbano e actual. Esse nível de descrição possibilita que caminhemos com a criança e sintamos tudo que ela sente e vê. A autora tem um olhar refinado e atencioso para o dia a dia.

Num texto narrado sob o ponto de vista duma criança, tecer reflexões filosóficas sobre vida e existência pode soar não natural, um “contra naturam”. Por exemplo, “(…) em algumas partes do mundo infelizmente a vida é assim, o drama da luta pela sobrevivência é intrigante e preocupante” (p.73). Bom, isso não invalida a narrativa, que pode ser menos realista, contudo não é o que parece com essa história. Essa parece partir de um mundo real, com características próprias da realidade, e a reflexão, também, julgo, deveria, a certo nível, ter essas características.

Regular

 

  1. A viajante de dimensões de Happy Taimo

A Happy Taimo traz um conto com moral no fim, sobre o sentido da felicidade. Ela descobriu que ela está em pequenos detalhes que passam despercebidos, não somente em coisas materiais como dinheiro e ouro. A narradora-personagem faz-nos viajar num mundo onírico, o seu mundo onírico. A Maya, mesmo num lugar desconfortável, ainda consegue adormecer e sonhar ela num lugar complemente diferente da sua realidade miserável, humilhante, difícil, fatigante e outros adjectivos dessa linhagem. Sonha com um palácio, tudo feito de ouro, lugar lindo e bonito onde a pobreza não faz barulho. Come que se farta, mas nunca fica satisfeita.

Entra num quarto e vê baú de ouro, tenta o levar para a realidade, mas não é possível, e aí aparece homem, com ares de sábio, e que fala sobre os mistérios da felicidade, até que acorda para a sua dura realidade, mas com olhos diferentes. Talvez a vida ou felicidade seja só um ponto de vista, não, Happy?

Um conto bem construído. Lembra o “Sonho de um homem ridículo” (1877) do maestro Dostoevsky, em que um homem que se intitula ridículo decide matar-se, mas no momento adormece com a arma e sonha. No sonho, ele morre, e é levado para um outro planeta paralelo a terra, só que não terra. Lá encontra uma civilização boa, genuína, sem ódio, nem inveja, e ele vai contaminar com as doenças do planeta terra como inveja, ganancia, ódio e mais. Depois dele ter destruído aquele planeta, ele acorda e decide ser um humano melhor.

Também o homem ridículo de Dostoevsky como a Maya ambos são miseráveis, sonham, acordam num lugar diferente da realidade, depois voltam e decidem mudar.

A personagem Maya é bem construída e desenvolvida. Sabe-se quem é Maya, o que faz, sua condição existencial, seu estado de espírito que, no fim, depois muda. Um personagem rico, por isso redondo. Na narrativa aparece um outro personagem que a contraria. E mais aquele ladrão de frutas que a complica a vida.

A exposição é feita muito bem. Expõe-se o protagonista, o espaço (bairro de Mafalala), e o tempo. Ao de todo, é uma narrativa bem conseguida. Com aquela moral da história no final que pode ser um excesso nos tempos que correm, e em moçambique, ou um cliché.

Bom

 

  1. A Marca do arrependimento de Fernanda Hermano

A Fernanda conta-nos a história da Arminda que, casada com Adalima, homem descrito como trabalhador, vive sufocada e entediada. Conhece o John, que montaria tijoleiras na casa da Arminda, acabou conquistando-a. Levada pelo tédio, quis experimentar outras coisas, e saiu com ele para uma barraca. Beberam, e acabaram na cabana, com teto estragado um chão de areia batida, e fizeram sexo, numa casa onde a cortina era saco de arroz. Depois de feito o sexo, veio a gravidez. O marido não consegue lidar com a traição e a expulsa do lar. Ela volta para casa da mãe, tem o filho, e o mata com veneno. Acossada por remorsos, ela vai entregar-se à policia, e acaba presa.

Primeiro, esse texto dialoga com o “até quando” de Jade Ferreira. A narradora-personagem no texto da Jade queria algo mais do seu namorado (em algum momento decide ou pensa em trair o mesmo para ter alguma ajuda mas despesas porque o namorado era desempregado) e a Arminda quer se sentir viva, e trai o marido não por conta de bens materiais, até porque engravidou de homem que dormia numa cabana, o John. Há aqui duas formas de ver as coisas, onde, num jeito de provocação, acaba-se tendo em conta que nunca, de facto, se satisfaz uma mulher. Ou essas Duas estórias demonstram o quão o ser humano, no geral, aqui sendo mulheres, de dois lugares diferentes, uma de Maputo e outra de Inhambane, nunca fica satisfeito. Para coisas dessa natureza, há sempre o J. Cole que diz, “[there’s] no such as a life better than yours” (in love yours, mp3), apesar dos textos não trazerem aqui uma comparação das vidas das protagonistas e outros personagens.

Segundo que a forma como esse texto termina não satisfaz o leitor, para ser bem sincero, o texto propõe um caso de traição, teria o seu clímax no confronto entre o marido e a esposa já gravida ou quando este descobre a traição. Há esse encontro, entretanto, mas não há drama, não há aqui insultos, sangue advindo dessa colisão, desse choque. Havendo, é ligeiro que depois de termos lido, ainda vamos procurar por algo que nos s dela volta sua casa, matar o filho, e entregar-se na policia não é, ao de todo, incoerente com a proposta inicial, de traição.

Pelo contrário, são eventos que advém dela, mas, nesse caso, nesse texto, apenas prolongam o texto desnecessariamente. Também, a autora poupa falas dos outros personagens, do Adalima, por exemplo, apenas nos é dito pelo narrador, mas voz própria não possui. De igual modo, a sua mãe. Qual é a reação da mãe vendo a filha voltando do lar por conta de traição?

Quando a Arminda mata o filho, a mãe se opõe ou não? A Fernanda deveria ter dado voz a essa mãe. Não ficando por aí, num caso desses, o que a sociedade diz sobre isso?

Regular

 

  1. Comandante José de Iraneta Campos

O conto é sobre um José que ascende no dia vinte de Dezembro à comandante. Torna-se um novo líder do quartel. Por conta disso há uma festança, que acaba caindo perdendo a consciência por alguns segundos. Já coronel, ele manda matar toda população de Moamba, mas um escapa, o Nabucodonosor. Esse, sem saber o mandante, vai no quartel para relatar o ataque, mas acaba morto por comandante José.

Esse texto tem dois momentos, e ainda bem que tem porque, lendo desde o início, esse fim é um pouco deslocado. Pela ordem das coisas, o protagonista é o Comandante José, mas o texto, já na parte II, foca muito no Nabucodonosor, a sua fuga, a forma como chega no quartel, descobre que o mandante, afinal, era o comandante daquele quartel e acaba assassinado por ouvir a conversa atrás da porta. Numa narrativa mais longa como novela ou romance esse não é um problema, mas o conto é uma narrativa breve.

Por exemplo, por conta dessa troca de foco, ficamos sem saber os motivos pelos quais o comandante decidiu matar toda uma comunidade. Há um motivo por trás, qual é? Só porque é mau, como é referido ainda no início da narrativa?

Quando decide enviar pessoas para matar pessoas, uma comunidade inteira, não há quem se oponha, ache isso demasiado? Porque matar uma pessoa é uma coisa, agora uma comunidade inteira. E o que ele diz às autoridades. Provavelmente, se a autora tivesse dado mais atenção às falas, certamente teria dado muito disso. A fala/discurso num texto narrativo não é uma ornamentação, é uma oportunidade para enriquecer o texto, trazer mais vozes diferentes, contrarias, contraditórias. Tal como os personagens, não são objectos lá só para ornamentar um texto.

Essa separação de foco acaba sem dar um conflito ao Comandante, mas à comunidade e ao Nabucodonosor. Parece que a estória termina e ao Comandante José nada acontece. É elevado a comandante, mata pessoas, e fim.

Satisfatório

 

  1. Da Minha vida cuido eu de Natércia Chicane

Esse é daqueles textos que se notam que a autora preocupou-se mais com o sobre e o activismo/conscientização do que propriamente com a forma, ou e a história é contada.

Caracterizada por muitas falas. A protagonista, Flôr, acorda e vai ao mercado comprar carvão. Ao comprar carvão um senhor conservador, “negro, por dentro e por fora” (p.99) — fica no ar a questão sobre o que isso possa significar — interpela-a e a insulta por seu jeito de ser, homossexual. Ela apenas ignora o senhor e vai para casa. Lá debate-se com o chefe do quarteirão, mas acabam se entendendo. Além daquele mau estar no mercado com o senhor negro por dentro e por fora, que não dá em nada, aparentemente, não há mais nada. O texto segue até o momento em que vem o chefe de quarteirão, que não dá em nada.

Há aqui falta de suspense, de querer saber o que, de facto, de grave, conflituoso, acontece à Flôr, e acima de tudo, como é que ela reage a esse mesmo evento conflituoso. Isso é que faz um conto ser um conto, não necessariamente a história que é contada, apesar dessa história ser actual. Essa história só é capaz de ser notada e elogiada por conta de agendas meramente políticas e de activismo, e não literários. Como dizia Malangatana, quando estou na oficina, não sou deputado (ou politico) sou artista.

Insatisfatório

 

  1. Corpo de vidro de Sonisa Bavá

Um texto bastante truncado, de difícil leitura, compreensão e, um leitor comum, perde o fio facilmente. É sobre uma moça, de cerca de vinte anos (ou, há quase vinte anos que não conhece alguém como o emissor canceriano, o que pode significar outra coisa), que sendo solitária e espiritual conhece um jovem, aqui tratado como emissor canceriano (apesar de, em algum momento do texto, a moça faz o papel de emissor e o jovem de receptor). Ela acaba sentindo que esse jovem canceriano tem uma 8 Por exemplo, por g dessa troca de foco, ficamos que não sente com uma outra pessoa, e é por isso que esse jovem canceriano merece ser chamado de guru espiritual e também conselheiro.

Um pré-romance que acaba, no texto, com palavras não ditas, suspiros não feitos, e os dois fazendo chamadas sem ter, parece, coragem para ir a algo solido. Continuam assim, receptor e emissor. Essa forma de identificar os personagens faz com que se perceba a distância que existe entre os dois, que, a única coisa que lhes aproxima, são as chamadas em vídeo, graças à avanços tecnológicos.

A autora usa muito esses termos que acaba mesmo dificultando essa mensagem. Pensa-se, por vezes, que é um texto sobre tecnologia avançada, e trata a interação entre os dois como se fossem chamadas interplanetárias, mas é sobre um lance, que ainda está a começar, com aquele cuidado e estranhamento típico quando tudo ainda está a iniciar, o primeiro encontro físico caracterizado pela timidez e o medo de não dizer algo a mais.

Bom

A antologia “Todas as Coisas Visíveis” é mais do que uma colectânea de textos escritos por mulheres, é um testemunho do esforço e da ousadia de narrar em um espaço que historicamente lhes foi negado, onde as condições materiais, e culturais, não propiciam essa viagem na literatura, por isso, como uma das autoras escreveu na mini bio, só o faz em tempos livres. Apesar das lacunas narrativas e técnicas apontadas, é evidente que há um pulsar criativo que merece ser incentivado e lapidado. Este exercício crítico não visa anular o mérito das autoras, que só pelo não simples facto de terem publicado já merecem aplausos.

Mas visa abrir caminhos para que, com mais oficinas, leituras e persistência, a literatura feita por mulheres ganhe o lugar de relevância que lhe é de direito no cenário moçambicano.

 

A política africana, desde a alvorada colonial até os regimes pós-independência, especializou-se numa arte perversa: a de calar os seus profetas com convites para chá. O chá, aqui, não é bebida — é o ritual de domesticação. Um convite à mesa do poder onde, sob o pretexto de diálogo, se esvazia a rebeldia e se negocia a dignidade. E ontem, mais uma vez, Moçambique viu repetir-se este ritual secular.

Venâncio Mondlane, o homem que o povo chama de “Presidente do Povo”, voltou a sentar-se com Daniel Chapo. A mesma mesa, o mesmo silêncio, a mesma promessa reciclada nas redes sociais. A mesmíssima frase ensaiada: “Vou tratar de interesses do povo”. Um script previsível, sem uma vírgula de novidade, sem uma palavra de coragem para nomear os mortos das manifestações, os mutilados da repressão ou os órfãos da democracia fraudada.

A Frelimo, fiel ao seu manual de poder, mesmo quando perde, governa. Mesmo sem voto, toma posse. Mesmo sem povo, mantém o palácio. Deixa que o povo se manifeste, reprime, mata, amedronta. E quando a panela social ameaça explodir, oferece chá aos que gritam mais alto. Um diálogo disfarçado de reconciliação, onde o único objectivo é prolongar o controlo e legitimar o ilegítimo. Assim foi em 1992, em 2014, em 2019, 2024 e assim está a ensaiar-se para 2029.

A Frelimo, mesmo quando perde, leva. Perde nas urnas, mas leva nos tribunais. Perde nas ruas, mas leva nas balas. Perde no discurso moral, mas leva nas alianças de bastidores. É um regime que não cede lugar, apenas simula reformas. Não reconhece derrotas, apenas reconfigura a narrativa. A cada eleição, o povo vota — mas é o sistema que escolhe.

O que vemos não é democracia. É o teatro da alternância impossível. Um jogo em que o árbitro, o campo e as regras pertencem ao mesmo time. E quando o povo se cansa e decide levantar-se, como em 2023, o regime liberta a repressão: persegue, mata, aprisiona. Depois, quando sente o cansaço da massa, surge com a velha fórmula do diálogo: “Vamos conversar”, dizem. “Pelo bem da nação”, mentem.

Mas esse diálogo não é sobre reconciliação — é sobre reconfiguração do controlo. Permitir que o povo fale, para melhor silenciar. Ouvir as dores, para transformá-las em pretextos de estabilidade. Fingir abertura, para garantir mais tempo no trono. Sempre foi assim. Quando o povo está de pé, eles chamam para sentar. Quando o povo grita, eles oferecem microfones desligados. Quando o povo morre, eles escrevem comunicados de condolência e avançam com as campanhas.

O povo, esse mesmo povo que sepultou filhos sem caixão e que enterra esperança a cada ciclo eleitoral, perguntou indignado: “E nós? Onde vamos ser presidente?” “Que interesses são esses que não suportam a luz pública?” “Que diálogo é esse onde os nossos mortos não cabem na pauta?”

Nada disso foi respondido. A tradição africana é essa: quando o rebelde começa a incomodar, o palácio o convida. Quando aceita o chá, perde a rebeldia. É o método de sempre: Prometer o novo, repetir o velho. Falar em nome do povo, agir pelos interesses do palácio. Dialogar pela paz, perpetuar o controlo.

Desde os chefes tribais vendidos aos traficantes de escravos até aos líderes nacionalistas cooptados pelos colonizadores, a política africana tem sido um palco de diálogos privados que selam destinos públicos. Samora negociou com os portugueses em 1975, Mandela com De Klerk em 1990. E o povo? O povo ficou à porta.

As decisões sobre as nações africanas foram sempre feitas à sombra de palmeiras, de palácios ou de conferências internacionais onde os filhos da terra não tinham assento. Berlim 1884, Sentem o gosto amargo de Mueda, em 1960, onde o colono prometeu paz e entregou massacre.

Lembram a Paz de Roma, em 1992, que calou as armas, mas manteve os privilégios. Recordam o Acordo de Cessação das Hostilidades de 2014, assinado como segredo de Estado— os acordos mudam de lugar, os protagonistas mudam de nome, mas o método permanece. E as consequências recaem sempre sobre o mesmo: o povo.

Quando a elite política africana se senta para dialogar, raramente é pela paz dos povos. É, quase sempre, pela sobrevivência mútua das elites. Por isso, amnistiam-se assassinos, enquanto se esquecem vítimas. Aliviam-se os carrascos, enquanto se condenam as mães das vítimas a uma dor perpétua. Assim foi na Angola de 2002, no Zimbabwe de 1987, na RDC de Kabila, no Sudão de Bashir, e assim o ciclo continua. Tudo sempre entre homens de fato, atrás de portas fechadas, em nome de um povo ausente.

As amnistias na política africana não apagam o sangue derramado, apenas legalizam o esquecimento.

Venâncio Mondlane não é um político qualquer. Ele carrega o simbolismo de quem desafiou tribunais domesticados, enfrentou partidos militarizados e ousou verbalizar as dores caladas do povo. Por isso, sua aproximação ao palácio não é mero gesto político — é uma ferida aberta na confiança popular.

Ao repetir a mesma mensagem insossa, descontextualizada e sem prestação pública de contas, Mondlane reproduz o velho expediente dos que entram rebeldes e saem domesticados. A história africana sempre teve dois destinos para os insurgentes: ou são mortos, ou cooptados. Arebeldia sempre foi perigosa demais para ser deixada solta.

Mas, se a elite política africana conserva os vícios, o povo africano já não é o mesmo. Os filhos já não são obedientes. Questionam: Pai VM, por que entraste e nos deixaste cá fora? Pai VM, onde está o relatório do encontro anterior? Pai VM, e os nossos mortos, ficam onde?

Esse é o princípio da maturidade política. Um povo que já não se satisfaz com comunicados, que recusa panos quentes e exige relatórios públicos. Um povo que percebeu que quem negocia no escuro prepara traição à luz do dia.

A Frelimo sabe jogar esse jogo. Perde no voto, mas vence no controlo. Toma posse pela força, governa pelo medo. Desativa o protesto com convites. Apazigua a revolta com comissões e ensina os opositores a beber chá. Um sistema que se recusa a deixar o poder e que transforma qualquer aproximação política numa estratégia de sobrevivência. Por isso, cada vez que um líder da oposição é convidado para chá, não é sobre paz — é sobre permanência.

Mas há um elemento ainda mais perverso nesse ritual do chá: ele não serve apenas para domesticar o profeta — ele salva o regime. E em Moçambique, o regime tem nome e sobrenome: Frelimo. Um partido que perdeu a alma revolucionária, mas reteve as engrenagens do poder. Um regime que já não vence nas urnas com legitimidade, mas que continua a governar com a força da máquina.

Mas essa estratégia tem prazo. Porque a África de hoje já não é a de 1884, nem a de 1960. É uma África de órfãos que já não se contentam com amnistias para assassinos e promessas para as vítimas. Que não aceita mais lideranças messiânicas, nem figuras paternas. O povo quer dignidade, quer justiça, quer voz.

A política africana é um ofício cruel: ela não suporta vozes livres. Toda voz que se ergue ou é silenciada, ou convidada para chá. Quem aceita, invariavelmente sai com o gosto amargo da domesticação.

E Venâncio precisa entender isso. Precisa saber que quem aceita chá sem prestar contas ao povo, já não representa o povo. Quem se senta com o opressor sem exigir justiça pelos oprimidos, já não é voz — é eco. E o povo, que lhe depositou fé e esperança, hoje exige mais que palavras.

Exige posições.

Se Venâncio Mondlane quer honrar os mortos, que recuse o chá. Que convoque o povo. Que rompa o ciclo secular da política do silêncio. Se não fizer, será mais um. E o povo, cansado de ciclos viciados, saberá cobrar.

Como advertia Amílcar Cabral: as pessoas não lutam por ideias. Lutam por coisas. E o povo moçambicano luta hoje por justiça real, transparência pública e memória preservada. Se Venâncio quiser fazer história, que leia os ventos da história. Porque quem não ouve o clamor do povo, cedo ou tarde, é varrido por ele.

Esta história começa com um casamento no qual não fui convidado para a festa do salão, só fui convidado para o Xiguiane (conto isto para entenderem por que é que fui para a cerimónia já com um olhar crítico). O xiguiane foi num quintal aberto, algures na cidade da matola e, como não tinha sido convidado a festa do dia anterior no salão (acho que já tinha dito isto) cheguei cedo porque não estava cansado e isso me permitiu ver a festa desde o início, incluindo aos últimos acertos antes da chegada dos compadres, os famosos masseves nas várias línguas do sul.

Após uma ligeira espera, quando as mesas já estavam compostas, as chamussas e os rissóis já tinham sido devorados, os banhos-marias já estavam aquecidos para receber a comida, eis que os compadres decidem aparecer com a noiva. Antes da sua entrada, houve a tradicional cerimónia da troca de notas de metical penduradas no caniço (de forma breve: a família da noiva e a família do noivo devem, cada uma delas, sem combinação prévia, conseguir hastear, num pau de caniço, uma nota de metical com o mesmo valor. A família da noiva só entra na casa da família do noivo quando ambas conseguirem fazer esse acerto).

A cerimónia continuou, cortou-se o bolo, comeu-se e bebeu-se (aqui em voz baixa: descobri que algumas pessoas, que não foi o meu caso, espero que não duvidem de mim, rejubilaram por não terem sido convidadas à festa do dia anterior no salão porque, segundo as normas da religião da noiva, o álcool era totalmente proibido). De seguida chegamos a um dos momentos que me é favorito nas cerimónias de casamento e outras cerimónias comemorativas de grande envergadura social: a entrega dos presentes.

O mestre cerimónias passou pelas mesas e, com uma folha A4 ajeitada na hora, foi recolhendo os nomes dos grupos que haveriam de desfilar pelo “tapete vermelho”, que é um corredor que é montado para os grupos desfilarem enquanto se dirigem à mesa dos noivos para entregar os presentes. Diferente das cerimónias no salão, onde a entrega dos presentes é mais discreta, pois há uma mesa reservada para depositá-los, no dia de xiguiane os grupos de familiares, amigos, vizinhos, entre outros, esmeram-se entre cânticos, danças e nos detalhes na hora de realizar esta entrega. Tudo é passado a pente fino e merece um cântico, uma dança, uma mensagem especifica. 

O ralador, o pilão, a peneira, o copo, o cesto, o relógio, a mala…. Nada passa despercebido, pelo menos nas tradições do sul do país, que é de onde escrevo este texto. Há, inclusive, normas para a ordem dos grupos. Por exemplo, os pais do noivo e/ou os padrinhos, são sempre os últimos a entrar em cena.

Só de pensar neste momento tradicional e criativo que se aproximava, cheguei até a pensar que tinha sido bom não me terem convidado ao salão, porque a verdadeira festa mesmo era o xiguiane (esse era eu a tentar consolar-me por ter sido minhado no salão).

Porém, para a minha decepção, quando o primeiro grupo ia entrar, devia ser um grupo de primos ou amigos, no lugar de cantar à capela e em grupo, pediram ao DJ para tocar uma música e foram seguindo o som que emergia da coluna! Pensei que tivesse sido casual, mas a façanha repetiu-se em praticamente todos os grupos seguintes e muitas das músicas que o DJ tocou foram sendo repetidas. As vozes à capela e em grupo foram substituídas pelo som de “JBL’s”, o soprano daquela tia ou o tenor daquele tio que, a qualquer momento, podiam sempre reinventar a letra, alterar o ritmo, adicionar uma nova emoção, tudo para adptar o cântico à ocasião, fazendo sobressair a criatividade momentânea e, sobretudo, resgatar e dar vida a cânticos e ritmos tradicionais que vem (ou vinham) atravessando décadas e, se calhar, séculos. O clássico “yho yho…sê wa nguena padrinho” (Yho yho… agora já vai entrar o padrinho) perdeu-se algures entre o spotify e o youtube do DJ. Senti o toque de humanidade a se esvaziar na automatização que estava entre o aumentar e o diminuir do volume.

Não foi a primeira e nem a última cerimónia que esta substituição do “tradicional” pelo “moderno” acontece, mas tenho sentido que vem acontecendo num ritmo acelerado. Goste-se ou não, os cânticos em grupo, à capela ou ao som do batuque, da xigovia, da mbira, da guitarra, estão a desaparecer das nossas cerimónias, sobretudo nas zonas urbanas.

Mas por quê isto? Uma das razões, penso eu, é que se, num passado, os cânticos e as danças, eram comumente ensinados aos mais novos de forma muito espontânea e genérica dentro das comunidades, de uns tempos para cá, com a degradação do sentido de comunidade, sobretudo nas zonas urbanas, tal já não acontece. Chegados a um estágio sócio-histórico em que “quase ninguém” se lembra como é que se canta para, por exemplo, entregar presentes, ou, por exemplo, dirigir as cerimónias fúnebres, os cantores visionários já encontraram solução. Gravaram os sons tradicionais e os tornaram amplificáveis nas JBL’s, permitindo assim que não se esteja mais dependente do tenor daquele tio ou do soprano daquela tia, cujo papel dela nas cerimónias era exactamente esse, o de dirigir os momentos musicais.

Adicionalmente, pode haver outra hipótese que não anula a primeira: a comodidade. Vamos combinar, é mais cómodo pedir ao DJ lançar um som da Marlene ou do Mr. Bow, do que nós próprios usarmos a nossa voz ou, pior ainda, termos a obrigação de participar naqueles ensaios “chatos” que antecediam às cerimónias de grande envergadura social, como o casamento (Para pessoas como eu que tem as notas vocais tortas de nascença, esta solução é duplamente cômoda). A vida corrida da cidade não nos permite ter esse tempo de ensaiar, seja em família, na comunidade ou grupo coral da igreja.

Por outra, ainda na senda da comodidade, o tradicional está cada vez mais caro para os urbanistas.

Para quem deseja desafiar a modernização desses momentos e pretenda ter um grupo tradicional para animar a sua cerimónia, vai ter que adicionar mais uma linha no orçamento e tem de ser uma linha recheada porque estes grupos tradicionais não cobram barato, daí ser realmente mais cómodo confiar no DJ e o passado e o tradicional que entendam.

E no meio disto pergunto-me, onde está a famosa identidade africana que vamos celebrar no dia 25 de Maio? Reinventou-se ou desapareceu de vez? Ou se calhar nem interessa assim tanto pensar nela? Ou o que interessa é vestir uma peça de capulana e o resto é resto? Daqui a alguns anos teremos, por exemplo, nos ritos de iniciação no centro e norte do país, JBL’s a substituírem o grupo de mulheres e de homens que tem animado essas cerimónias porque o “moderno” ficou mais cómodo e barato em relação ao “tradicional”. E se calhar não deve faltar muito para que o “loku ni file mu nga ni rilenee… a milhoti yha nwina yhi ni pfalela tilo”, que é cantando nas cerimónias fúnebres, seja tocado na JBL. (tradução: Quando eu morrer não chorem por mim! As vossas lágrimas vão me vedar o acesso ao céu).

E agora? Estão a ver problemas que criaram por não terem me convidado ao salão?!! Evitem!.

 

O Gabinete de Candidatura a Secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), encabeçado pelo escritor, crítico literário e Professor, Luís Abel dos Santos Cezerilo, torna pública a sua candidatura constituída por 98% de jovens que perfazem a lista como órgãos sociais. Uma candidatura apresentada por jovens escritores, que cientes da necessidade de criar-se uma revitalização e nova dinâmica na AEMO, unem sinergias para que, através de seu engajamento, os escritores, tenham espaço aberto para todos e a diversidade de vozes da literatura moçambicana tenha uma convivência saudável, confluência de gerações e criação de parcerias para internacionalizar a literatura moçambicana.

Pelo facto de avizinhar-se o pleito eleitoral referente a sucessão da actual direcção da AEMO, depreende-se ser necessário ter-se uma liderança que confira dignidade a esta agremiação e que aquiesça a convivência inter-geracional garantido a continuidade do legado iniciado por José Craveirinha e entre outros, como resposta a dinâmica social, política e cultural da contemporaneidade.

Este manifesto tem como pressupostos as seguintes linhas: promover o hábito da leitura, eventos e festivais, desafios literários, revisão de pares, recursos literários, plataforma online, diversidade literária, divulgação literária, fomentar a criatividade e colaboração e cooperação.

Luís Cezerilo, tem uma larga experiência na literatura, destaca-se na valorização da literatura moçambicana e no fortalecimento da identidade cultural, por via de suas publicações e estudos literários sobre a poesia de José Craveirinha, bem como, a de Eduardo White. A candidatura de Cezerilo conta com a parceria de entidades como a Editora Moderna de Angola, que manifestou recentemente a sua  total disponibilidade para estabelecer uma parceria estratégica com a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), representada por este candidato, e esta parceria consiste em estabelecer um quadro da edição, promoção e circulação de obras de autores moçambicanos, edição conjunta de autores moçambicanos, com padrões editoriais internacionais, garantindo rigor, qualidade gráfica e ampla distribuição nos mercados angolano, moçambicano e em outros países de língua portuguesa; promoção de intercâmbios culturais, através de lançamentos de obras, feiras do livro, conferências e residências literárias, aproximando os escritores de ambos os países e projectando a voz da literatura africana lusófona no mundo; concessão de prémios e distinções conjuntas, que incentivem a produção literária de qualidade e reconheçam o mérito dos escritores que promovam o diálogo cultural e a inovação estética; definição de um plano editorial bienal, onde ambas as instituições participem na escolha de autores.

“Estamos convictos de que, sob a liderança visionária de V. Exa. Sr. Luís Abel Cezerilo, este caminho de cooperação poderá ser iniciado com pragmatismo e visão estratégica, garantindo benefícios concretos para os escritores moçambicanos e o fortalecimento das nossas literaturas nacionais no contexto internacional.” Lê-se do comunicado da Editora Moderna de Angola.

Luís Cezerilo tem uma dezena de livros publicados, é patrono da Associação Casa Museu, um lugar de encontro de artistas nacionais e internacionais para a divulgação da literatura, artes plásticas e música. É Pós-Doutorado em Estudos Literários pela Universidade Estadual Julio de Mesquita Filho *UNESP-Campus de Araraquara (2009); Doutor em Estudos Comparados de Literatura Africana de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) em (2005); possui graduação pela Universidade de Évora (1999), Professor Auxiliar na Universidade Eduardo Mondlane em Moçambique-Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Membro Fundador do Núcleo de Pesquisa de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Camilo Castelo Branco.

Juntos, podemos fazer da nossa AEMO um farol da excelência literária e um espaço onde todos os escritores possam florescer.

XV capítulos — quinze passos de Salomão rumo a um território onde os sonhos se desfazem e as escolhas têm gosto de sangue.

Sangue em Flecha, de Suzana Espada, vai além de ser o percurso de um jovem tragado pela vertigem do prazer e da irresponsabilidade, ou seja, é o reflexo estilhaçado de uma sociedade em que o masculino se edifica pela violência, pelo domínio e pela recusa da ternura. 

Narrado na primeira pessoa do singular, o romance permite ao leitor aproximar-se da perspectiva de Salomão, expondo, através de sua própria voz, as contradições e fragilidades.

Salomão não foge apenas da rigidez do pai, que transforma o lar num quartel, como ele próprio afirma: “A nossa casa era uma academia militar” (p. 27), mas também da responsabilidade de assumir as suas escolhas. 

Formado em Economia por imposição paterna, quando o que almeja é ser fotógrafo, Salomão parte para Mapulanguene com a câmara ao pescoço e nas costas o legado de uma masculinidade forjada na escassez de afecto e na obediência automática. É nesse ambiente rural, supostamente apaziguador, que se apaixona por Elisa, uma das mulheres do seu tio Arão.

O protagonista da história se descreve como alvo do desejo feminino, centro das atenções, mas suas relações são marcadas por superficialidade, vazio emocional e instrumentalização do outro.

Suzana Espada, com a narrativa, constrói uma crítica subtil à masculinidade tóxica, não por meio de denúncia explícita, mas sim pela exposição crua da subjectividade de um homem em colapso.

Salomão caminha entre um pai autoritário e uma mãe que “fazia as coisas ao seu gosto”, entretanto, incapaz de cortar o vínculo infantil que o imobiliza, permanece preso a uma adolescência estendida. As bofetadas dadas pelo seu pai que ainda recebe aos 30 anos, a falta de interesse no trabalho, os envolvimentos sucessivos com mulheres que não ama, tudo isso aponta para um indivíduo que não amadureceu, embora se esforce por parecer firme.

A sua ida a Mapulanguene é motivada pelo desejo de respirar longe do ambiente repressivo em que cresceu e de explorar a paixão pela fotografia em novos cenários. Enquanto trabalha como motorista para um português — o Mulungo — é surpreendido pelo seu primo Romão, que lhe propõe integrar num projecto supostamente financiado pelas Nações Unidas, em Joanesburgo. A proposta soa promissora, mas não passa de uma armadilha. Salomão acaba conduzido a uma zona isolada, onde é forçado a entrar no mundo da caça furtiva, coagido pelo medo de represálias à sua família, caso recusasse.

O mundo em que se envolve é regido por códigos perversos: ali, o silêncio é comprado com ameaças, e o dinheiro nasce do extermínio da vida selvagem. No primeiro dia, três rinocerontes são abatidos — numa sequência que mistura brutalidade e rituais: os envolvidos procuram curandeiros para tornarem-se invisíveis aos olhos da polícia sul-africana, no Kruger Park. No entanto, o que se torna realmente invisível é o valor pelos animais, como lembra John Berger, em Why Look at Animals?, “ o animal tornou-se segredo que não se partilha”. 

No romance, a caça furtiva é o espelho da degradação humana, da corrupção dos vínculos e da falência ética de uma sociedade que aprendeu a substituir afecto por lucro.

Com o “dinheiro sujo”, o protagonista compra um Mazda dupla cabine — um veículo ironicamente vendido por Romão — e regressa a Maputo. Lá, tenta preencher o vazio com prazeres imediatos: procura uma mulher na Rua Araújo, que passa a ser sua conselheira nos conflitos conjugais com Lídia.

Embora consiga se libertar da caça furtiva e, posteriormente, funde o projecto Casa da Natureza com o intuito de sensibilizar comunidades para a protecção ambiental, essa mudança não consegue apagar o rastro de destruição que deixou. É um gesto de redenção, mas tardio, talvez impulsionado mais pelo peso da culpa do que por genuína transformação interior.

Sangue em Flecha, apesar da força temática, sofre de certa previsibilidade, que acaba por enfraquecer a tensão narrativa. A linearidade dos acontecimentos, a ausência de momentos verdadeiramente desconcertantes limitam a capacidade do texto de surpreender o leitor.

Ainda assim, o livro oferece um terreno fértil para discutir temas relevantes e contemporâneos: o tráfico de animais, as masculinidades tóxicas, a juventude desencantada e as falsas promessas de ascensão.

Ao fim da leitura, é como se uma flecha também nos atravessasse — não no corpo, mas na consciência. E talvez o romance nos interpele: quantos homens, como Salomão, confundem liberdade com a ausência de responsabilidade?

 

A Associação dos Escritores Moçambicanos convocou, no passado dia 19, os seus membros para a realização da sua Assembleia-geral, acto que culminará com a eleição de novos corpos sociais. Qualquer eleição a este nível será sempre um jogo, e ao expressar “jogo” não disse “guerra”. Uma guerra ocorre entre inimigos e há morte. Um jogo ocorre entre adversários que se multiplicam em estratégias conducentes à derrota do adversário.

Uma derrota eleitoral não significa o fim último das relações entre os contendores, pelo contrário reaviva a esperança de vitória numa próxima partida. Contudo, depois da eleição passada da AEMO testemunhamos uma espécie de desaparição de escritores, o que nalgum contexto pode significar mesmo morte social, etc. Para a presente eleição decidi, instigado por alguns confrades, candidatar-me ao cargo de Secretário-geral da AEMO.

Como futuro candidato, espero uma disputa diferente, caracterizada por uma campanha eleitoral, onde impere o debate de ideias, sobre projectos apresentados pelos candidatos, condizentes ao progresso da literatura moçambicana: entro nesta disputa interessado em discutir pontos de vista e não pessoas ou supostos erros de secretariados passados.

Mora um pecado original na discussão de pessoas, este que resulta do facto de as agremiações nacionais andarem empenhadas em fazer eleger pessoas e não projectos viabilizadores de algum crescimento institucional, logo a pessoa torna-se alvo preferencial dos debates. Nesta eleição, em que os membros da AEMO têm a oportunidade de eleger o seu XII Secretário-geral, apelaria ainda ao respeito à própria capacidade de discernimento individual, de modo a não mover-se massas intelectualizadas no sentido de votar em pessoas. Nos próximos dias há risco de vermos uma “vara” de “escritores” a caminharem “like zombies” no sentido de voltar em quem um determinado mestre aponta: aquele é o nosso HOMEM. Um escritor é um ser pensante e quem pensa não sente algum incómodo em estar fora do rebanho, pelo contrário, abrirá sempre a trilha do seu próprio destino, levado pelo seu pensamento. Passo a partilhar um excerto de um poema que influencia a minha existência desde que dei conta de ser sujeito homem, “Cântico Negro”, de José Regio: .

 

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

 

E porque estamos no campo literário, e o nosso régio, por cá, uma vez aqueceu a opinião pública ao falar, num dos debates em que participa, de “histeria das massas”. Escritores dignos de sê-lo devem também estar imunes dessa manifestação colectiva de pessoas que acreditam sofrer de uma mesma doença. As artes e a literatura em particular são um campo de rivalidades que podem catalisar a criação de magníficas obras, dada a competitividade associada. Todavia, apenas haverá rivalidade onde existam, no mínimo, dois talentos invulgares. Mas, ocorre no meio disto também a pura inveja pela capacidade criativa alheia. A pura inveja não tem capacidade de combater o talento alheio com talento, há-de sobreviver no meio artístico pela maledicência, recrutando igual mediocridade para formar um rebanho que se alimenta de irracionalidade. Um escritor não é um ser irracional e não deve ir às urnas alimentado de cegos instintos.

Ignorados cegos instintos, tenho comigo a ideia de ser de extrema falta de respeito à inteligência de outrem, nesta altura do campeonato, o desdobramento em meros pedidos de votos. Numa eleição digna da AEMO os membros devem ter a oportunidade de reflectir sobre projectos a serem apresentados por cada candidato, pois simpatia e boa vontade em si não dirigem eficazmente as instituições. Portanto, em respeito aos nossos confrades, sobretudo à capacidade individual de discernimento, de cada escritor, os candidatos que se propuserem a esta eleição, que façam uso do tempo que dista da eleição do dia 26 de Julho para apresentar ideias e projectos, para serem escalpelizadas em tempo útil, sem riscos de induzir o voto a incidir em simples listas de intenções disfarçadas em manifestos eleitorais, sem nenhuma capacidade de execução e meios.

Por uma eleição consciente!

 

“Que se calem as armas, pois o meu coração está apertado. Que vivam todos aqueles que acreditam no amor. Como viver sem celebrar a amizade? Como viver sem sonhar que, um dia, seremos todos amigos?”

Dos mais variados e assombrosos materiais e equipamentos que a humanidade ousou construir — e que o mundo consagrou como eternos —, o livro deve, seguramente, ser o mais poderoso e importante, ocupando o lugar cimeiro no ranking da criatividade. Das escrituras sagradas até ao mais fútil e desprezível dos livros, as suas páginas retractam a própria humanidade, o seu percurso e as suas maiores conquistas. Jorge Luís Borges, escritor e poeta argentino, no seu livro “Ensaio”, colocava o livro como inigualável de entre todas as invenções humanas. Todas as restantes seriam, como dizia, extensões do próprio corpo humano. O microscópio e o telescópio seriam extensões da vista, o telefone o prolongamento da voz, o arado e a espada eram as extensões do corpo.

Porém, o livro, era tudo isso e um pouco mais; era a extensão da memória e da própria imaginação. A gloriosa viagem entre o recordar de sonhos ou o revisitar de um passado mais alegre, tenebroso, memorial, retroactivo ou transacto. Se o livro é tudo isso, então, pela leitura os humanos transcrevem o tempo decorrido até a modernidade, pós-modernidade ou o futuro. Podemos, até, discordar das opiniões dos livros e dos seus autores, podem existir conceitos que o tempo prova estarem errados; ainda assim, descobrimos, em cada livro, algo de sagrado e divino, personagens, ideias, justiça e protagonismo, reflexões, os espelhos da empatia, relatos que assombram, ficção irrealizável, histórias abençoadas e, acima de tudo, o desejo de reencontrar no final da leitura a felicidade e a sabedoria.

Vem este intróito a propósito do livro “Observador de Sonhos”, escrito e lançado em 2024, fora dos holofotes e parangonas dos jornais ou das revistas de especialidade. É um livro fortemente influenciado pela oralidade e tradição africana, que combina uma linguagem moderna com recursos que evocam os ecos da tradição oral. Escrito por Bruno Morgado, jovem de múltiplos talentos e, sobretudo, com imensa sensibilidade para os desafios da vida e que reflecte esse ambiente urbano para um país que tem distintas veias e artérias, sempre tão desiguais e com sensibilidades distintas. Morgado faz um apelo, e com facilidade, mergulha em temáticas existenciais, explorando a solidão, o amor e um mergulho na modernidade e nos seus perigos e descasos.

É um livro que, convenhamos, retoma toda a teoria desenvolvida por Friedrich Schiller, poeta e filósofo alemão, na obra “A educação Estética do Homem”, que considerava que escrever corresponde a viver e sonhar, e sonhar com o prazer equivaleria a ser sábio. Schiller era apologista de que a arte de escrever deveria servir uma finalidade que transcendia a finalidade educativa e de formação do intelecto. Essa teoria ressoa e traz de volta as passagens desenhadas e pintadas pelo escritor e poeta Bruno Morgado. Com efeito, esses escritos, ainda que desinteressados e sem o intuito de entrar para o mundo da literatura, edificam essa grande obra de arte da vida. Escrever, escrever e escrever, enaltecendo a vida e o mundo.

Calane da Silva, nosso saudoso escritor que perdura em nossas memórias, conviveu com a família Morgado e sublinhou, em sua trajectória, a existência de inúmeros escritores anónimos na literatura moçambicana, cujas obras ainda carecem de leitura e apropriação por parte do grande público. Aqueles que, à boa maneira de George Orwell, sem precisarem de ser compulsivos, debruçaram-se sobre a actualidade social e política do seu tempo, num olhar implacável, tendo como trave-mestra a cosmovisão e a denúncia dos exageros e da indignação. Porém, existem aqueles que se mantêm anónimos em vida e se fazem conhecidos já na eternidade quando só podem dialogar com Deus. Escritores cuja pena lírica, de tantos anos, apenas se torna conhecida bem mais tarde. Está é a descrição que Calane prefaciou no livro “Poemetria” de Carlos Morgado, por sinal, progenitor de Bruno Morgado, que, igualmente, fartou-se de escrever em folhas A4 soltas, guardanapos de papel de restaurantes, interiores de capas de revistas, enfim, em tudo por onde era possível colocar um lápis e uma caneta.

Carlos Morgado pode ter dado o mote ao seu filho, apesar dos estilos de escrita diferenciados. Ele dedicou-se, fundamentalmente, à poesia lírica e por vezes dramática, muitas vezes didáctica, e à ode ao amor e felicidade, sem abstracções ou limitações. A sua obra veio ao grande público, e ao mundo da crítica literária, 10 anos depois de ter partido para o encontro do Redentor. Morgado pai deixou para o Moçambique essa capacidade firme de sonhar, apesar das adversidades, e a certeza de que sonhar seria uma forma de reconciliar e instigar ao próximo o sentimento e crença de que nada seria mais importante do que acreditar no país, na sua potencialidade e capacidade de oferecer ao cidadão o essencial.

“Poemetria” foi o título que Carlos Morgado nunca sonhou para o seu livro. Os outros o fizeram por ele. Os títulos não expressam a inspiração e nem sempre os tempos. Assim, Calane da Silva questionava se a poesia teria medidas, se teria tamanho e se a lírica poderia ser quantificada. Estas indagações surgiram-me de imediato quando lia e desfolhava o “Observador de Sonhos”, livro de Bruno Morgado.

A poemetria em Bruno Morgado, também ele primogénito e que carrega os segredos, os mistérios poéticos e empresariais do pai, revela-se com uma cumplicidade e tonalidade que se assemelha bem a algo congénito, apenas separados pelo tempo. Como seria, então, possível, medir e padronizar a lírica metafórica e cantada pelos dedos e pelos olhos do coração do jovem escritor Bruno Morgado, ainda na sua adolescência de escrita?

Convenhamos que Bruno Morgado entende a poesia como uma provocação do pensamento. Coloca, de forma simplista e natural, as ideias que não podem ser ditas de outra forma, esses sonhos amarrados, bem como a inquietude da lealdade e a convivência resumida a conceitos linguísticos fáceis de interpretar e tão difíceis de alcançar. Bruno apresenta-se como ostensivamente ousado e sonhador, instigador que, para gáudio dos que tiveram a oportunidade de o ler, compreende que por detrás da simplicidade e do despercebido, existe um poeta que vai trilhar por essa carreira brilhante e sem encenações. Mas, ao mesmo tempo, mostra-se suficientemente tímido para desvendar a melancolia e introspecção de uma sociedade carregada de tantos tons e dilemas existenciais.

“Se eu pudesse Lobolar o céu, entregaria o mar em troca, só para o mar saber quem manda.”

Bruno Morgado chegou à literatura e ao complicado mercado livreiro nacional com o seu primeiro livro “Caverna dos Corajosos”, uma espécie de aventura mágica sobre a família, o amor, a coragem e a união baseada numa praia algures do país. Se neste primeiro livro procurava o seu próprio norte, como se a bússola pudesse indicar outro ponto cardeal mais conveniente, no segundo livro ele se refina e reencontra algo que não conseguiu alcançar antes. Esse novo desafio parece ser já mastigado, na simbiose entre o lirismo e o místico, procurando o reencontro entre a transcendência da comunhão nessa busca pela felicidade que nos escapa por todas as esquinas, dedos e momentos políticos desta nação com a idade do escritor.

“Que vivam felizes os que tenham que viver e que esses sejam todos”.

Tal como afirmara Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas da língua alemã do século XX, cada escritor segue a sua geração e as suas tendências. Cada um tem de voltar-se para si mesmo, investigando o motivo que o impele a escrever, e comprovando se a sua escrita se estende até às raízes e ao ponto mais profundo do seu coração. Simultaneamente, tem de se confessar, a si mesmo, se morreria caso fosse proibido de escrever. Bruno Morgado tem seguido este conselho com alguma flexibilidade, porém, os com seus critérios, parâmetros e tempos. Esta obra tem seguido este prognóstico e Bruno Morgado, também, na crista do jubileu, idealiza a amizade como o centro do universo, com o cerne da sua poesia entretida entre essa mesma amizade e cordialidade, acreditando que valeu a pena viver a vida, só para ter a honra de temer não poder ser feliz.

Este “Observador de Sonhos” é, como descreve a nota introdutória do livro, o lugar onde poderemos ver o mundo, o real e o imaginário, o concreto e o ficcional. Um mundo sem qualquer espaço e condição para algo que não seja a amizade como denominador comum e pressuposto essencial da amizade. A propósito, Bruno Morgado regressa a Cabo Delgado, a martirizada província do norte, com uma abordagem que minimiza a descrição de senso comum, mas, ao mesmo tempo, aprofunda uma perspectiva de maldição que não augura futuro de prosperidade e bem estar para a região. Uma metáfora que começa a ser assumida por todos os locais e que traduz bem tudo o que tem sido prometido e está a acontecer aos olhos de todos.

“Estávamos no ano 2023 na vila Karibu Kinada, quando sobre aquele povoado pairou uma nuvem de um verde carregado – bastante assustador. De repente um raio fulminante deu início a uma forte chuva de dinheiro que durou sete dias. Todos que puderam, naquele país,

para ali se dirigiram. Entre agressões e tiros ninguém sobreviveu para contar a história – apenas o dono da nuvem que nem sequer ali queria ficar.”

Este pode ser o texto mais difícil de omitir, por sair do plano da maldição e se centrar na ausência de indicadores e modelos que trarão prosperidade à comunidade local. As famílias convivem entre promessas de riqueza e a violência que por lá se instalou na última década. Cabo Delgado continua sendo o mote preferido por escritores e músicos que, perplexos pela barbárie e pela incapacidade de se colocar um ponto final na situação, vai alimentando páginas de livros, artigos e canções. O autor não fica indiferente e apresenta a temática de forma indirecta, porém, com a mesma incidência e profundidade. Afinal Cabo Delgado também é Moçambique. Um slogan que os locais fazem como apelo, para que todos entendam que ninguém merece passar por tanto sofrimento e crueldade.

Um outro texto do livro que se divide em três partes, revisita os sonhos em ebulição, para além de abordar os textos do além e o quarto de histórias. Diz o autor: “Corriam rumores de que um misterioso feiticeiro tinha realizado um feitiço sobre aquele povoado e que já ninguém mais teria filhos. No mês seguinte, metade das mulheres estavam grávidas. Agora ninguém se lembra do feiticeiro.” Este poema espelha bem o testemunho de uma clarividência que está bem associada ao seu país e povo, tantas vezes, tão obscurantista, outras, trivial e crente de misticismos e futilidades. Crença e fé banalizadas até à exaustão.

Paralelamente, o livro chama a atenção pela rima métrica que, articulando ideias e assunções por parágrafos meticulosamente pequenos e sintéticos, encerra conteúdos profundos que poderiam ser ditos por frases mais longas. Uma espécie de fuga dos cânones de uma poesia mais solta e que procura colocar todas as ideias e conteúdos na mesma quadra, para que o leitor navegue na imaginação e reencontre  outras interpretações que não sejam aquelas do próprio autor.

O “Observador de Sonhos”, de Bruno Morgado, editado pela Catálogos com antologias sobre novas vozes, encontrou o espaço adequado para se apresentar como novas vozes. Esse lugar onde se pode ver o mundo e que permite que se possa sonhar sem medo de tropeçar, apesar de todos os desafios do mundo de hoje. Este mundo de muitas contradições e hesitações, que, por vezes, parece não ter espaço para as angústias e essa sensação de vazios. A Catálogos se assume como uma editora não só preocupada com o ficcional e o imaginário, mas, sobretudo, com o concreto e com um país que procura se reconciliar e prosperar.

Bruno Morgado não escolheu a Catálogos, foi a editora que abriu as portas para essas novas vozes e ela própria defende a liberdade intelectual contra os avanços dos desmandos e de algum totalitarismo que perpassa os argumentos. Não será nunca fácil para a literatura ou qualquer das artes florescer em sociedades e tempos de grandes conflitos e muita incerteza. Escritores e outros agentes artísticos são, por vezes, vistos como rebeldes, mas desempenham também o papel de educar e informar o público, assumindo a missão de substituir discursos propagandísticos por narrativas mais realistas e coerentes.

Não existe poesia desligada da política, sobretudo nesta época de medos e ódios, e as lealdades de carácter político estão na consciência de todos. Como o Morgado mesmo diz: “Impiedosa a força com que aquele povo avançava rumo a liberdade. Cânticos e odes a um futuro melhor, a um país de homens e mulheres livres e unidos em torno das causas mais nobres que há. O direito a dormir bem. Será que dormimos? Um dia o Grande Rei aboliu a escravatura mental que proibia os cidadãos de amar sem remorsos, de amar sem limites”.

“Um bom escritor não sana as dúvidas — ele as honra”, como escreveu Oliver Harden. Em tempos de respostas fáceis e opiniões ruidosas, precisamos, mais do que nunca, de uma literatura que indaga, de uma escrita que, em vez de encerrar o pensamento, o inaugura. Ipsis verbis: “O significado perguntou um dia ao significante por que se achava tão importante. O significante respondeu que não queria se tornar tão insignificante quanto o significado.” Com efeito, o escritor não tem a pretensão de responder a tudo, tampouco de esclarecer ou tornar-se porta-voz de verdades absolutas – justamente para não transformar a linguagem em instrumento de doutrinação. “Observador de Sonhos”, entre certezas e incertezas, revela um sentido profundo e educa de forma subversiva, deslocando-se da zona de conforto e das

convenções. É uma obra que instiga, mais do que resolve, e que busca envolver o leitor antes de qualquer tentativa de explicar. Por tudo isso, vale a pena lê-la – e carregá-la no bolso.

Albertino Mabunda, era um jovem sonhador de 35 anos de idade, cuja alma carregava uma tristeza latente, uma sombra que se infiltrava na essência de cada dia. Vivia numa vila esquecida pelo tempo, longe do burburinho da cidade, na casa modesta dos seus pais. A sua esposa, Alzira Uqueio, era uma jovem de beleza singular, com um corpo como se a mão tivesse sido esculpido, cabelos crespos e longos que caiam como cascatas, olhos castanhos profundos e uma pele escura que refletia a luz do sol com orgulho. Os seus dentes, alvos como pérolas, contrastavam com a sua pele, causando admiração a quem a visse.

O jovem casal tinha três filhos: Rogéria, Teresa e Alberto, a esperança e alegria que serpenteavam na rotina silenciosa daquela vida simples. Albertino, um homem de sonhos que jaziam presos num mundo que parecia cruel e indiferente, tinha-se formado em engenharia civil numa faculdade na cidade grande. Mas o destino, impiedoso, recusou-se a sorrir-lhe: não conseguiu encontrar trabalho na sua área, obrigando-o a regressar à aldeia, ao seio da sua família, onde continuava a cultivar a terra com os seus pais, numa esperança vã de dias melhores.

Dias e mais dias passaram-se num fio de esperança que torcia o coração de Albertino. Até que, finalmente, uma oportunidade surgiu numa cidade próxima, uma vaga de padeiro numa padaria recém-inaugurada que parecia uma luz no fim do túnel. Ele voltava a casa aos finais de semana, ansiando pelo calor da sua esposa e pelo riso dos seus filhos, numa rotina que durou aproximadamente dois anos, enquanto fingia acreditar que era feliz.

Porém, no fundo, o seu coração sofria. Sentia-se prisioneiro de um sonho que nunca poderia alcançar: construir grandes obras, deixar a sua marca no mundo, sentir-se útil em algo que transcendesse o pão que amassava com as próprias mãos. E, apesar de tudo, ali mesmo, naquele acto de moldar o pão, encontrava um breve consolo, uma ansiedade que o libertava por momentos da dureza da sua alma. Era como se, ao apertar a massa, tentasse esmagar também as dores que carregava, transformando a melancolia numa esperança efémera que se desfazia ao toque do trigo sob a sua mão insegura.

Num dos finais de semana, uma sombra de ansiedade e esperança pairou no ar quando Albertino decidiu confrontar a sua mulher, numa conversa carregada de emoção. Com a voz embargada, revelou-lhe que, após conversa com um colega na padaria, tinha tomado uma decisão irrevogável: sair à procura de uma vida melhor noutra cidade, longe daquela vila esquecida pelo tempo. Ouviu dizer que lá, as possibilidades eram mais promissoras, que o sorriso de esperança poderia finalmente iluminar o seu rosto carregado de frustração. Confessou, com uma mistura de tristeza e determinação que sentia-se sufocado por aquela rotina vazia, por aquela pobreza que lhe corroía a alma, e que a única saída era perseguir a verdadeira felicidade, mesmo que ela estivesse a anos-luz.

A notícia caiu sobre Alzira como uma lâmina fria. A sua alma quase partiu ao meio, ao imaginar-se sem o seu amor, sem o seu companheiro que sempre fora o seu porto de abrigo. Sabia, no fundo do seu coração, que o mundo lá fora era cruel, violento e implacável; que o risco de nunca mais ver Albertino aumentava a cada silêncio opressivo que pairava entre eles. Com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, ela implorou com toda a força que ainda tinha que ele não fosse, que encontrassem uma maneira de ficar juntos, de lutar contra a dor e a pobreza que os esmagava. Prometeu-lhe que ela própria iria procurar trabalho na cidade onde ele trabalhava na padaria — talvez como empregada doméstica, mas que, de algum modo, poderiam encontrar uma solução.

Mas o coração de Albertino, cego pela sua vontade de escapar, não quis escutar. Uma determinação desesperada flamejava nos seus olhos. Era como se uma força invisível o empurrasse, cegando-o para todo o resto, sobretudo para o amor que ainda lhe restava naquelas palavras desesperadas de Alzira.

Na manhã seguinte, com o nascer do sol a iluminar um céu carregado de incerteza, Albertino levantou-se cedo. Ainda escutava os soluços de Alzira, que não tinha conseguido dormir naquela noite de angústia. Ela tentou convencê-lo, tocou-lhe o braço, pediu-lhe que reconsiderasse, mas tudo foi em vão. Sem olhar para trás, sem uma palavra que pudesse deter a sua marcha, Albertino pegou na sua trocha e partiu rumo ao desconhecido, deixando para trás a esperança, o amor e a queixa silenciosa de uma mulher cujo coração se despedaçava a cada passo daquele caminho de despedida.

Albertino caminhou dias a fio, enfrentando o destino e a saudade, até que, por fim, avistou uma visão que lhe roubou o fôlego: Vilária. Era como um sonho feito carne, uma cidade onde o sol parecia brilhar com uma luz mais intensa, quase mágica, como se fosse uma dádiva, para quem ali habitava. As árvores, verdes vibrantes, reluziam como se estivessem cobertas de jade, e uma brisa sedutora e suave, cheia de sussurros de esperança e promessas, envolvia-o, convidando-o a permanecer naquele paraíso mortal.  

As mulheres de Vilária eram como criaturas de outra era, de uma beleza quase sobrenatural, com a pele mais clara que o albor da manhã, quase translúcida, e roupas que mal escondiam a perfeição de seus corpos, deixando entrever a suavidade das suas curvas sob tecidos finíssimos. O ar estava impregnado por aromas de comidas tentadoras, pratos que pareciam saídos de um conto de fadas — peixe dourado com especiarias raras, frutas doces como mel, e pães que derretiam na boca, com uma fartura tal que parecia uma dádiva celestial. Albertino sentiu-se como um rei, um governante de um reino de prazeres, e num coração embriagado de ilusão, decidiu que ali seria seu novo lar.  

Durante meses, viveu como sultão numa terra de deleites: as mulheres, os alimentos, os prazeres sem limites. Sentia-se, mesmo que por instantes, como alguém que conquistara o topo do mundo, envolto numa névoa de felicidade fugaz. Mas, lentamente, uma sombra começou a surgir na sua alma. A emoção inicial deu lugar a uma melancolia silenciosa, a uma sensação de vazio, uma dúvida que crescia no seu interior como uma ferida que não cessa de sangrar.  

Naqueles dias de luz fugaz, tentou se convencer de que tinha encontrado o que sempre procurara. Mas, à medida que o tempo avançava, a sua alma clamava por algo mais profundo, mais verdadeiro. A ilusão de Vilária começou a se desfazer, como uma miragem que desmancha ao toque da verdade. Com o coração pesado de uma tristeza que não podia explicar, Albertino tomou a decisão mais difícil: pegar em sua trocha, despedir-se das delícias efêmeras e partir rumo a um novo destino.  

Um mês de caminhada o conduziu até Capitalis, uma cidade imensa, onde o ouro e a glória brilhavam de forma tão intensa que parecia uma promessa de felicidade eterna — o palco perfeito para um homem que buscava realização. Lá, tudo era maior, mais imponente, como se o próprio céu tivesse sido desenhado para acolher as ambições de quem ali chegasse. Albertino, com o coração inflado de esperança renovada, acreditou, de imediato, que ali, naquela cidade luminosa, finalmente encontraria a felicidade que lhe escapara por entre os dedos em Vilária. Cada passada, cada conquista parecia afirmar que o destino lhe sorriu, que a paz, tão desejada, poderia finalmente abraçar-lhe a alma cansada.  

Depois de laboriosas semanas, conseguiu fazer o seu nome em Capitalis. As suas obras grandiosas, erguidas com dedicação e talento, tornaram-se símbolos de admiração. O nome de Albertino ressoava por toda a cidade, e todos pagavam sem hesitar para que os seus dedos pudessem moldar o destino das grandes construções. A sua fama crescia, o seu rosto tornara-se uma lenda, e por um breve momento, sentiu-se no topo do mundo, como se o sonho que sempre perseguiu estivesse finalmente ao alcance da sua mão.  

Mas, mesmo rodeado de riquezas, cercado por uma cidade que reluzia como um sonho materializado, uma sombra silenciosa começava a invadir o âmago do seu ser. Uma dúvida profunda, uma saudade que lhe cortava o coração como uma lâmina gelada. Porque, apesar de todas as riquezas e do sucesso aparente, a lembrança da sua família, de Alzira, dos seus filhos — Rogéria, Teresa e Alberto — continuava a assombrá-lo com uma intensidade dolorosa. Era como uma ferida aberta, uma lembrança de um amor que nunca conseguiu abandonar por completo, mesmo que tudo o mais parecesse perfeito. E assim, por trás de cada conquista, escondia-se o eco de uma ausência que nunca deixou de viver dentro dele, alimentando uma esperança triste e uma tristeza silenciosa que nunca se dissiparia completamente. 

Albertino, movido por uma vontade quase desesperada de preencher o vazio que o atormentava, decidiu abandonar tudo: a fama, a honra, o reconhecimento e o ouro que adquirira em Capitalis. Era como se uma força invisível o puxasse para um destino incerto, uma última tentativa de encontrar algo que nem mesmo ele sabia definir. Sem olhar para trás, seus olhos encheram-se de lágrimas não ditas, enquanto seus pés finalmente se desprendiam do chão, caminhando por dias rumo ao desconhecido, até chegar a Refúgios.

A cidade era diferente de tudo o que tinha conhecido. Não tinha a ostentação de Capitalis, nem a exuberância de Vilária. Era calma, quase silenciosa, com casas modestas e ruas silenciosas. Lá, a riqueza não reluzia, mas a simplicidade tinha uma beleza triste, quase evocativa de uma esperança esquecida. No entanto, havia algo naquele lugar que lhe encantou de imediato: as mulheres. Vestidas até aos pés, com mantos que escondiam suas curvas e um sorriso tímido nos lábios, elas pareciam guardar segredos antigos, recatadas, mas de uma beleza serena, quase misteriosa.  

Foi nesse cenário que Albertino conheceu Faira, uma jovem de olhos bilhantes que brilhavam como duas estrelas escondidas sob uma cortina de seda, com um sorriso tímido e encantador. A sua aparência delicada, quase etérea, deixou-o completamente enfeitiçado. Apaixonou-se à primeira vista, encantado com a pureza e a doçura daquela mulher que parecia proteger segredos e sonhos. Seus pais eram ricos de uma forma diferente, criadores de gado e terras vastas, e seu pai, o homem mais influente da cidade, viu na união uma oportunidade de aliança e prestígio.  

Com o tempo, Albertino casou-se com Faira, e a fama voltou a acompanhar-lhe os passos — agora como marido de uma mulher de linhagem importante. Trouxeram ao mundo um filho, a quem chamaram Gayash, uma esperança silenciosa de um amor renovado. Albertino viveu anos de uma felicidade aparente, rodeado de bens, de segurança, de uma família que parecia completa. Mas, no fundo da alma, uma inquietação persistia. Uma sensação de vazio, como uma ferida aberta, que nem mesmo as riquezas ou o amor de Faira conseguiam curar.  

Numa noite silenciosa, enquanto olhos fixos no teto, Albertino refletiu sobre toda a sua jornada. Os anos de longe, as conquistas e as perdas, as ilusões e as desilusões. Percebeu, com uma clareza sublime e dolorosa, que a verdadeira felicidade não residia nos bens materiais, nem na glória conquistada. Era o amor, aquele que se entrega de alma e coração, que preenche o vazio mais profundo de cada ser. E naqueles instantes, sentiu o peso de tudo o que deixara para trás — sua esposa, seus filhos, a essência do que realmente importava — como uma ponte que se desfez ao se aproximar do infinito.  

Decidiu então que era momento de regressar ao seu lar, mesmo sem certezas, mesmo com a saudade a dilacerar-lhe o peito. Sem olhar para trás, despediu-se de Faira e pegou sua trouxa, com um coração apertado, atravessando a noite escura. O caminho de volta era uma travessia de esperança e arrependimento, de um homem que finalmente compreendeu que, por mais que se busque o inalcançável, a felicidade verdadeira só se encontra onde o amor sempre residiu — na sua própria casa, no abraço da família que nunca deveria ter partido do seu coração.  

Albertino voltou, não mais como um conquistador, mas como um homem que, na sua melancolia, descobriu a beleza de um amor simples, que transcende riquezas e glórias, um amor que agora sabia ser a sua maior riqueza.

Depois de dias de caminhada, numa manhã de céu cinzento e passos trêmulos, finalmente avistou a sua aldeia ao longe. Cada detalhe pequeno parecia pulsar na sua memória, como se fosse a primeira vez que os via. O coração acelerava descompassado, uma mistura de esperança e medo de tudo o que poderia encontrar.  

Ao chegar à porta de casa, o silêncio era alguém que aguardava silenciosamente o seu momento, até que ouviu uma voz suave, carregada de lágrimas e esperança. Era Alzira. Ela saiu ao encontro dele, os olhos marejados, o rosto pálido de tanto esperar.  

Por um instante, o mundo pareceu parar. Albertino estendeu os braços, e ela, sem hesitar, lançou-se ao seu peito, as lágrimas caindo como chuva em ambos. Seus corpos encostaram-se num abraço apertado, profundo, como se quisessem esconder no abraço toda a dor, toda a saudade acumulada ao longo de anos separados.  

Nesse reencontro, nada mais importava — nem o tempo, nem as riquezas, nem as palavras. Tudo se resumiu ao sussurro da esperança que ainda havia no fundo dos seus corações. E, naquele instante, sob o céu de nuvens carregadas, Albertino e Alzira perceberam que o amor verdadeiro nunca se perde; apenas adormece, esperando o momento de despertar.

A história de Albertino revela uma profunda lição: por mais que busquemos o mundo e suas riquezas para preencher o vazio do coração, nada substitui o amor verdadeiro, aquele que construímos com quem realmente importa. Muitas vezes, só ao perder tudo, aprendemos que a felicidade genuína está nas pessoas que amamos e na paz de um lar que carregamos dentro de nós. Que cada um de nós nunca perca de vista a essência do que realmente importa na vida, pois, no final, são esses laços que dão sentido à nossa existência.

Elísio Miambo não escreve a partir de uma zona de conforto. A sua escrita é uma travessia inquieta por territórios híbridos da linguagem. Já na epígrafe, o autor avisa: o livro não se pretende poesia nem prosa, mas algo entre — ou além —, um “senão prosódico, expressivo e contemplativo”. É aí que começa a sua audácia: no rompimento com os géneros, na recusa em ser domesticado por formas fixas, na aposta numa escrita que se ergue sobre o ritmo, a ressonância e a musicalidade do pensamento.

A estrutura do livro organiza-se em três movimentos. O Primeiro Acto, intitulado Catarse, apresenta-nos um eu-lírico que expulsa, expõe e exorciza. É o território da crise íntima, da consciência em desassossego, do poeta que transforma a escrita em divã e sacrário. Aqui, os versos — quase sempre curtos, fragmentados ou quebrados — espelham os estados de alma de alguém que não deseja consolar nem ser consolado, mas apenas dizer a verdade no limite da linguagem.

No Segundo Acto, Kiini — palavra swahili que significa “essência” —, a travessia torna-se mais vertical: o autor mergulha na dimensão ontológica da existência africana. A escrita adquire uma densidade telúrica, marcada por ecos que vão de Senghor e Césaire a Wole Soyinka e aos tigres do Oriente. Há aqui uma crítica às idealizações ocidentais da “africanidade”, bem como uma auto-reflexão sobre os impasses do pan-africanismo. É neste núcleo que as brumas se começam a desfazer: enunciam-se as raízes, as dores herdadas, as contradições de pertença, as fendas na ideia de identidade.

A terceira parte, Epístolas, é um tratado animista em forma de cartas. Dezassete missivas dirigidas a entidades simbólicas — credos, génios, monarcas, egos, filhos, escravos e senhores.

Este caderno articula, com rara sensibilidade, um discurso ético, político e existencial. O poeta assume-se aqui como cronista do tempo: escreve com a consciência de que o presente é uma ruína líquida, onde se confundem memórias e simulacros, identidades e rótulos, realidades e espectros.

No plano das influências, Miambo é um autor de muitas vozes, se quiser, referências. A sua escrita conjuga os ecos de Fernando Pessoa e José Saramago, mas também a cadência jazzística de Erykah Badu, a sonoridade reflexiva de Lokua Kanza, a lírica urbana de Mr. Hudson e a iconoclastia do rap lisboeta. Nota-se, ao longo da obra, um diálogo constante com a filosofia africana, com o existencialismo ocidental e com a teologia da libertação. E há ainda uma herança local que pulsa: a reverência à Associação Xitende, não necessariamente no plano estético, mas como território simbólico que se inscreve na carne da sua escrita.

A linguagem de Elísio Miambo é paradoxal: barroca e límpida, opulenta no léxico, mas precisa na emoção. A sua maior ousadia talvez não seja formal, mas espiritual: escreve para se despir das clausuras — não apenas as do corpo, mas também as da linguagem, da moral, da história, da fé, da memória, da própria ideia de sujeito. A escrita, para ele, penso, não é mero gesto estético: é um acto de sobrevivência, um processo alquímico de conversão da dor em forma, do silêncio em som, do íntimo em partilha.

Importa dizer com clareza: Brumas desfeitas, clausuras desnudadas é um livro que exige do leitor uma escuta poética afiada, uma disposição para o abismo, um desejo de atravessar espelhos e opacidades. Mas é precisamente por isso que se revela um livro necessário ou talvez urgente.

Porque nele se faz da literatura o último reduto de resistência e de revelação.

 

Nota:

Texto apresentado durante a conversa com o autor no dia 03 de Maio de 2025, durante a FELGA na Biblioteca Pública Provincial de Gaza.

 

A expressão “pensar fora da caixa” significa adoptar uma perspectiva criativa e não convencional para resolver problemas ou enfrentar desafios. Implica afastar-se das soluções tradicionais ou óbvias e explorar abordagens inovadoras.

No contexto das artes, “pensar fora da caixa” significa romper com as normas tradicionais da arte, seja na forma, no conteúdo ou nos materiais utilizados para criar algo original, provocador ou inovador.

Esta colecção é um convite inesperado para os dias que correm, pois, constitui um grande desafio retratar figuras, situações que podem ser observadas no quotidiano, combinar disciplinas, sensações com narrativas diárias de uma forma inédita.

Desafiar convenções sociais através da arte, como fizeram, Albino Mahumana e Renaldo Siquisse, ao apresentarem a exposição conjunta, intitulada “pensar fora da caixa”.

Ao todo, o trabalho conjunto é composto por cerca de 30 quadros. No entanto, por se tratar de uma colecção que está aberta ao público, apenas uma tela será analisada a fim de estimular e despertar curiosidade de visitar a exposição que ficará aberta ao público até dia 31 de Maio, na Fundação Fernando Leite Couto. Neste artigo, importa apenas falar da tela intitulada “Batalhas Diárias”, quadro Acrílico s/ tela 44x50cm.

O termo “batalhas diárias” pode remeter a várias coisas, dependendo do contexto como um sacrifício, luta para obter algo, é comum em ambientes laborais e pode simbolizar trabalho, rotina, disciplina. 

É um quadro dinâmico e cheio de movimentos. As linhas anguladas e pinceladas vibrantes criam um senso de energia, esforço e talvez dor.

A técnica lembra o expressionismo, onde a emoção e a experiência subjectiva são mais importantes do que a representação fiel da realidade. Há também um certo grau de abstração na forma como os corpos e roupas são delineados. 

Quanto à composição, na tela, se pode observar uma figura central encurvada, com expressão sofrida ou tensa, um segundo rosto ou corpo sobreposto, como que emergindo da figura principal com mãos e pés alongados e em destaque, sugerindo esforço físico, os movimentos nos traços, com linhas brancas criam uma sensação de deslocamento, fadiga ou perda de energia corporal.

A imagem do bebê nas costas da mãe representa o peso das responsabilidades diárias que uma mulher, mãe, enfrenta para segurar o seu lar e ser aceite pela sociedade. Também traz consigo a metáfora de uma figura que carrega algo maior do que a si próprio, simboliza o trabalho forçado, maternidade, ou o peso da existência, uma situação idêntica é observada em “Laurinda tu vai mbunhar” um dos contos retratados em “O regresso do morto” do escritor moçambicano, Suleiman Cassamo.

“O pão rouba força nos joelhos, cega os olhos, gira o juízo da Laurinda.”

Em “Laurinda tu vai mbunhar” assim como na “Batalha diária “pode-se observar a luta pelo pão que não só simboliza a necessidade básica de sobrevivência, mas também o papel fundamental da mulher na resistência e transformação social.

“As mulheres na luta pelo pão” é uma expressão simbólica e histórica que remete à participação activa das mulheres nas lutas sociais, especialmente em momentos de crise económica, pobreza e desigualdade. Em vários contextos históricos como nas revoluções, nas greves e nos movimentos operários as mulheres estiveram na linha da frente a exigir melhores condições de vida, trabalho digno e alimento para as suas famílias.

Albino Mahumana apresenta aqui não apenas uma pintura, mas um testemunho visual da condição feminina em Moçambique, que muitas vezes é silenciada. Sua obra dialoga com temas universais como trabalho, maternidade, sacrifício e esperança, estabelecendo uma ponte entre o local e o global, o individual e o colectivo.

Na despersonalização, a forma distorcida como o autor passa as pinceladas de cor branca sugere como a identidade se desfaz no esforço diário, talvez ligado ao simbolismo das “batalhas diárias”.

A presença de duas figuras pode evocar conflitos internos, sobrecarga emocional, ou mesmo gerações.

A técnica expressionista com pinceladas cruas e cores fortes transmite angústia e sofrimento, mas também resiliência. O uso de cores quentes (vermelho, amarelo) e frias (verde, azul) pode sugerir um contraste entre dor e esperança, ou conflito e paz interior.

“Batalhas diárias” representa um comentário visual sobre a condição humana especialmente da mulher ou do trabalhador, numa sociedade que exige força e resiliência constante. Também insere-se numa linha temática que valoriza a força invisibilizada da mulher trabalhadora moçambicana. A presença do bebé acentua a dimensão intergeracional desse esforço, evocando o ciclo contínuo da vida que se renova mesmo nas condições mais adversas. É uma obra que denuncia silenciosamente, mas também homenageia com vigor as mulheres.

 

Não sei como falar deste senhor que hoje está sendo merecidamente homenageado, neste maravilhoso espaço e nesta significativa cerimónia concebida pela Elvira Viegas, pessoa que a nossa Cultura muito deve. Não sei a quem hoje devo prestar o meu tributo, se ao simples cidadão Pedro Baptista Chissano ou ao escritor Mikas Dunga, nome com o qual assinou seus textos. Ambos se confundem. Ambos se comportam como se fossem irmãos gémeos. Ambos se esforçam em serem dignos e respeitáveis: o escritor Mikas Dunga, ao inventar palavras para as suas crónicas e estórias, e o Chissano, cidadão exemplar, pai de uma prole “chissaniana” que conseguiu criar, apesar das vicissitudes da vida. Prefiro falar do escritor, com quem convivi anos à fio. O outro, o funcionário público Pedro Chissano, o chefe da família, o militante de todas as causas, esse não conheço. Esse cidadão simples, de acordo com os que muito bem o conhecem, tem uma história que merece um livro e estou convencido que um dia, alguém vai se dispor a escrevê-lo.

Quando conheci o Pedro Chissano, ele, mais o Eduardo White, o Juvenal Bucuane, o Ungulani Baka Khosa, o Hélder Muteia, o Idasse Tembe, o Tomás Vieira Mário, o Armando Artur, o Elias Khosa, estavam a preparar um barco através do qual pretendiam dar início a uma grande viagem através de um mar de sonhos, essa viagem chamava-se Charrua, uma revista literária que pontificou na década de oitenta. Todos eles, com aquela energia e exuberância que a juventude concede, estavam cheios de grandes expectativas, desejosos de alcançar o céu com as palavras que preenchiam os papeis que faziam circular, ali, nos corredores da Associação dos Escritores Moçambicanos. Foram bons tempos. Inigualáveis.

Únicos na história da literatura moçambicana. Os debates, sobretudo sobre a escrita, sucediam-se intermináveis, e Pedro Chissano, dono de um discurso invejável, esgrimia os seus argumentos, falava dos clássicos da literatura universal, introduzia-nos nos meandros do surrealismo fantástico, nessa voz pausada, cheia de palavras bem articuladas que a cerveja gelada e os petiscos da saudosa Dona Cindoca não conseguiam modificar. Estávamos perante um Pedro Chissano impecável no seu modo de ser e estar, um machangana gingão, de fala pausada e aristocrática. Mas sobretudo um gajo porreiro. É a esse Chissano que tiro o chapéu e para quem debito estas palavras que pecam por serem escassas e provavelmente incapazes de traçar o verdadeiro perfil deste homem que a todos nós prestigia. Foram bons tempos que contribuíram para crescermos por dentro. Penso que terão sido essas tertúlias que fizeram do Pedro Chissano o intelectual que é hoje, o escritor que prestigia a literatura moçambicana e, por conseguinte, merecedor desta homenagem.

Diz-se que não é a quantidade de livros que faz o escritor. Comungo dessa opinião. O Pedro nunca se preocupou em acrescentar livros no seu historial. Em quase 30 anos de careira, apenas dois livros de crónicas o sustentam: BOAS FESTAS CHIQUITO, uma colecção de 20 crónicas publicadas no jornal Notícias entre 1988-1990, e editado em 2007 pela Associação dos Escritores Moçambicanos e ALGUMAS ESTÓRIAS e BRINCADEIRAS COM B GRANDE, quando decorria o ano de 2013. Dizia que Chissano nunca fez do livro e da publicação o seu objectivo, isto é, o seu porto de ancoragem. Satisfaziam-no, isso sim, os livros dos outros e também os que habitavam a sua cabeça. Esses livros, esses best-sellers, fazia questão de mencioná-los, com o seu discurso eloquente, descrevendo interessantes capítulos, criando personagens fantásticos e desenvolvendo enredos fascinantes. Satisfaziam-no, também, as crónicas que duma forma quase religiosa escreveu para o jornal NOTICIAS e que levariam o Nelson Saúte, também ele cronista de méritos reconhecidos, a dizer, e eu cito, que “O espaço de intervenção do nosso jornalismo é comandado pela acção da crónica.

Muitas vezes pede-se a ela que assuma a vocação do jornal e sublime a ausência do jornalismo interventivo. Será que o parco fôlego o permitirá?”. E Nelson Saúte ainda acrescenta: “Confesso que estas e outras dúvidas inquietam-me. Mas, espero que o Pedro Chissano concorde comigo, se eu disser que as estórias que escrevemos nos jornais ajudam-nos a viver este tempo de urgências, neste tempo conturbado da nossa história, neste território, onde muitas vezes o insólito e, por vezes, o sórdido, sustentam conteúdos que transcendem o domínio da ficção. E é nesta contingência em que o nosso cronista (sobre) vive.” Fim da citação.

Ao que se sabe, há algum tempo que Pedro Chissano persegue uma ideia dum livro que começou a escrever, buscando sempre essa perfeição que encontrou em autores renomados, alguns dos quais, ao longo dos tempos, foram tomando conta da sua mesinha de cabeceira. O Chissano é um escritor obcecado pela perfeição. Não concebe e nem consente um livro escrito “com a pressa do vento na mudança das estações”. Um livro exige tempo, labor, criatividade. Só deste modo é que uma obra literária pode se vestir de alguma

grandeza. Mas sabe, o Pedro Chissano, que essa perfeição que ele persegue é difícil de alcançar, e talvez seja esta a razão que faz com que o escritor se busque sempre, se tente ultrapassar sempre, e que felizmente, para o bem da literatura, nunca alcança.

Pediram-me para escrever algumas palavras sobre o Pedro Chissano, confesso-vos agora, que “desconsegui”, como gostava de dizer o poeta José Craveirinha. Porque são necessárias muitas palavras e um excelente exercício de memória para falar deste machangana originário de Guijá, lá nas terras de Gaza, no distante ano de 1956, lugar donde sairia ainda jovem para Lourenço Marques, terra que o acolheu, o fez crescer e o transformou nesse ilustre cidadão que estamos, hoje, a prestar esta justa homenagem.

Passa muito tempo desde que eu e o Pedro nos conhecemos. E a medida que crescíamos a pátria também crescia e as exigências socioprofissionais tornaram-se acrescidas. Chissano se metamorfoseou em tarefas várias. Foi Secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Editor da revista cultural LUA NOVA. Membro fundador da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade. Membro do Conselho de Administração do FUNDAC. Coordenador para a Área de Cultura da Agenda 2025, dentre tantas outras ocupações ao longo dos últimos anos. Depois deste atribulado percurso decidiu escolher o seu lugar de exilio, a Matola, onde espera, entre outras coisas, continuar a viver, a cuidar dos seus, a amar quem o ama e sobretudo, ter o tempo suficiente para escrever o grande livro da sua vida.

Por tudo isto, e pelo enorme contributo que deu a nossa sociedade, a nossa Cultura e a nossa Pátria, digo: muito obrigado Pedro Chissano.

 

10 de Maio 2025

A cidade da Maxixe despontava com o vigor de sempre, como se o pulsar da vida tivesse sido meticulosamente sincronizado com o romper do dia. Sob a claridade generosa de um sol abrasador, o Mercado Tsuwula vibrava de energia. As ruas pavimentadas de paralelepípedos tornavam-se o palco de uma azáfama única: mulheres equilibravam cestos de vegetais na cabeça, homens carregavam sacos de farinha, e os vendedores anunciavam os seus produtos em vozes que competiam com o caos envolvente.

Era aqui, entre a multidão e o burburinho incessante, que Joaquim passava os seus dias. O rapaz de quinze anos era um rosto conhecido naquele mercado. Magro, com o corpo marcado pela exaustão precoce, carregava nos olhos castanhos um brilho resiliente que contradizia a sua magreza. Ele era o mais velho de sete irmãos, o sustento de uma família onde a pobreza fazia morada há gerações.

“Mamã, vou vender,” dizia Joaquim todas as manhãs, antes de sair de casa. A voz era firme, embora o cansaço das madrugadas acordadas o traísse.

“Vai, meu filho. Que Deus te acompanhe,” respondia a mãe, sempre com a mesma frase, como se o pedido divino fosse o único escudo que podia oferecer.

Joaquim saía de casa ainda sob o manto da madrugada, enquanto a cidade dormia. No SOCOPOL, uma loja famosa da Maxixe, fazia as suas compras diárias: refrigerantes, pacotes de bolachas e garrafas de água que depois revendia no mercado. Cada metical era contado com precisão matemática, como se o peso do dinheiro fosse tão real quanto o das mercadorias na mochila.

Ao chegar ao Tsuwula, a visão do mercado fervilhante enchia Joaquim de um misto de esperança e angústia. A rua principal, feita de pavê, estava repleta de bancas improvisadas e vendedores ambulantes que tentavam atrair compradores com os seus gritos persistentes. Joaquim posicionava-se num canto estratégico, perto de uma loja de eletrodomésticos que atraía bastante movimento.

“Água fresquinha! Bolachas gostosas! Quem leva?!” gritava ele, com a voz carregada de uma determinação que desafiava a sua idade.

A cada venda, sentia um pequeno triunfo, uma faísca de alívio que o mantinha em pé. Mas não podia descansar. A polícia municipal costumava aparecer sem aviso, e quando o fazia, o mercado transformava-se numa cena de fuga desesperada. Os fiscais retiravam os vendedores, confiscavam mercadorias e, às vezes, distribuíam multas que ninguém tinha como pagar.

Naquele dia, o calor era sufocante e o ar parecia parado, como se o próprio vento tivesse desistido de soprar. Joaquim já tinha vendido algumas garrafas de água e pacotes de bolachas. O dinheiro no bolso não era muito, mas suficiente para garantir algo na panela em casa. Foi então que o aviso soou:

“A polícia está a chegar!”

O mercado explodiu em movimento. Joaquim apressou-se a recolher os produtos. Com a mochila às costas, lançou-se numa corrida para escapar, seguindo outros vendedores que também fugiam. Porém, na pressa de atravessar a rua, não olhou para os lados.

O som de um autocarro a travar encheu o ar. Depois, um impacto seco.

Joaquim caiu no chão. A mochila que tanto protegera foi arremessada para longe. O sangue tingiu o pavê, enquanto a vida no mercado parecia congelar. Os gritos substituíram o barulho habitual.

“Mamã, tragam a mãe dele!”

A mãe de Joaquim chegou descalça, o rosto desfigurado pelo desespero. Ajoelhou-se no pavê quente, puxando o filho para os braços.

“Filho, fala comigo! Fala comigo, por favor!”

Joaquim abriu os olhos, mas a sua voz era um sussurro fraco.

“Mamã… eu vou, eu vou…”

“Não, meu filho! Não vais! Quem vai cuidar dos teus irmãos?!”

“Mamã… cuida deles… eu vou.”

Os olhos de Joaquim fecharam-se pela última vez, e o grito da mãe ecoou pelo mercado, um som que rasgou os corações de todos os presentes.

Nos dias que se seguiram, a ausência de Joaquim foi sentida no Mercado Tsuwula. O canto onde costumava ficar parecia vazio, mesmo no meio do caos habitual. A sua família, agora sem o seu provedor, enfrentava um futuro mais incerto do que nunca.

A história de Joaquim é a de muitos outros meninos e meninas que carregam nas costas um peso que não lhes pertence. Crianças obrigadas a trocarem a inocência por responsabilidades esmagadoras, enquanto a sociedade continua a ignorar o impacto de políticas ineficazes e da pobreza enraizada.

O Mercado Tsuwula, com as suas ruas cheias de vida, esconde tragédias que se desenrolam todos os dias. A fiscalização implacável dos vendedores informais é apenas mais um sintoma de uma sociedade que não reconhece a luta diária pela sobrevivência.

E o que dizer das crianças como Joaquim? Meninos que deviam estar nas salas de aula, mas que são empurrados para as ruas para garantir que os seus irmãos tenham algo para comer. Quem os protege? Quem lhes dá voz?

“Mamã, eu vou,” dizia Joaquim todas as manhãs. Hoje, as suas palavras ressoam como um eco de resistência e um lembrete da fragilidade humana perante as desigualdades.

O sol da Maxixe continua a brilhar com a mesma intensidade, mas para a mãe de Joaquim, cada amanhecer é uma nova batalha, onde a ausência do filho se faz sentir em cada canto da casa.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. 

Frase emprestada por Fernando Pessoa ao general Pompeu. 

 

Era para ter sido um final de quinta-feira normal e igual a tantas outras que animam culturalmente a nossa cidade capital, até que Aurélio Ginja convidou-me a sair, para segundo ele, colocar as agendas culturais em dia, aceitei o convite e acabamos por escolher um cantinho no centro da cidade, com alguma inclinação para a gastronomia portuguesa e moçambicana, já que o chouriço, a broa e o frango a passarinho que ali é servido é de agradável degustação para serenar a mente e deixar-se levar pela fluidez do “papo da malta”.

Quando ali chegamos, deparamo-nos, surpreendentemente, com Xixel Langa e Elcides Carlos afinando os seus instrumentos para animar a noite que se apresentava meio chuvosa e agradável para culturar o amor e o abraço do encontro com Moçambique.  

Ao ver Chido Tomás chegar naquele lugar, Ginja que outrora teria me apresentado Chico António (em memória) naquela noite mágica em que Sara Laisse, por sinal, colega de escola de Aurélio Ginja, lançou _Moçambique Margem Sul_, em voz baixa e com corpo inclinado para o meu lado direito sussurrou, aquele ali em frente com a Xixel é o grande baixista moçambicano e integrou, em tempos, a banda Alambique, foi um pouco depois da independência e nessa altura eles cantaram uma música que convida sempre a fazer a ponte com um grande músico cubano, o Pablo Milanês, com Título Yolanda, e que em algum momento diz: “Esto no puede ser no más que una canción; Quisiera fuera una declaración de amor; Romántica sin reparar en formas tales; Que ponga un freno a lo que siento ahora a raudales_” a mesma foi escrita pelo maior poeta Cubano, Nicolás Guillén. Ah, lembrei-me Rudêncio, a música tem como título A Lirandzo, e tenho em memória que Hortêncio Langa chegou a contá-la com Maria João, a maior referência do Jazz Português, e olha que por feliz coincidência, ela nasceu em Moçambique. Enquanto o Ginja falava eu discutia comigo mesmo, não sabia se parava e registava, ou me deixava viajar nessa aula e correr o risco de perder algumas notas dessa viagem por Moçambique musical no pós-independência. A  verdade é que fiquei pelas duas e lá o show começou. 

As quintas, a cidade acorda, e desta vez, bateu a porta a mescla da voz da Xixel Langa e os chuviscos que se perdiam no dedilhar de Elcides Carlos no coração da cidade, uma espécie de namoro existencial, temperado a moda moçambicana para celebrar os vestígios de um tempo que a todos abraça na melodia dos grandes compositores da música moçambicana. 

Abraçou-me a saudade ao ouvir _Bossa Nova_, e não tardou, confidenciou-me novamente, Aurélio Ginja, que a seguir a Independência, Hortêncio Langa, Arão Litsuri, Childo Tomás, Adérito Gomati e Celso Paco, através da Banda Alambique, misturaram os ritmos da Bossa Nova e os elementos do Jazz com a nossa marrabenta, tendo, na época, marcado a revolução da música moçambicana. Daí a facilidade com a qual Xixel Langa navega nesses ritmos, uma vez que bebera da fonte desde a tenra idade e foi com o tempo decantando, ao seu estilo, a música que a veste. 

O ponto mais alto da noite apareceu quando, a convite da Xixel Langa, Chido Tomás desfez-se da cadeira e dos amigos com os quais conversava para junto da Xixel interpretarem “A Lirandzo”, pegou com delicadeza a viola baixo e como quem reajusta o cinto da calça ou penteia o cabelo e faz a barba antes de sair para o encontro da sua vida, a ajustou ao seu corpo e devolveu-nos a década 80 num tocar gingado de qualidade superior que nos convidou a navegar na música feita em Moçambique. De coração maravilhado, transformado num final de quinta-feira que parecia norma em Poesia, música, conversa. “Uma tríade sensacional. Emoldurada pela música cósmica da chuva”. Eu, simples aprendiz, que nunca tivera a oportunidade de viajar com a Xixel a Solo em sua música, guardava memórias da celebração do Massone, álbum de Carlos Gove, na qual ela participa, acabei por conhecer uma Xixel extraordinária, amiga da música no tempo, com marcas da sua passagem por Cape Town (uma das cidades da cultura africana) e do “bebedouro” sempre cheio de arte que foi a sua casa.

 

O sol de Inharrime preparava-se para se esconder, tingindo o céu com tons de laranja e dourado, quando os meus passos me levaram a um pequeno mercado de barracas de madeira. Havia algo encantador naquela vila. Era um lugar de contrastes, onde a simplicidade da vida rural coexistia com uma tristeza quase palpável, escondida nos olhares furtivos dos seus habitantes.

Foi ali, naquele final de tarde, que vi Amina pela primeira vez. Era jovem, talvez no final dos seus vinte anos, e tinha uma beleza tão delicada que parecia esculpida pela brisa que varria as margens do rio Inharrime. Mas, por mais que os traços do seu rosto fossem perfeitos, havia algo que os obscurecia: um olhar vazio, como se carregasse nos ombros todo o peso do mundo.

Ela estava sentada num banco improvisado, ao lado de uma pequena banca onde vendia frutas e legumes. Vestia uma capulana azul vibrante, mas os seus olhos traíam a cor e a vida que aquela peça de tecido parecia oferecer. Aproximei-me, não tanto pelos produtos, mas porque algo nela despertava uma inquietação que eu não conseguia ignorar.

“Boa tarde”, cumprimentei, tentando quebrar o gelo.

Ela ergueu os olhos, e por um breve instante, vi um lampejo de surpresa, talvez por alguém ter notado a sua presença.

“Boa tarde”, respondeu, com uma voz tão suave que quase se perdeu no som da brisa.

Perguntei pelos produtos e comprei algumas bananas, mas logo percebi que não era por aquilo que estava ali. Algo em mim sabia que havia uma história por detrás daqueles olhos cansados, uma história que pedia para ser contada.

“Posso sentar-me?” perguntei, apontando para o espaço ao lado dela.

Ela hesitou por um momento, mas assentiu. Assim começou uma conversa que mudaria a forma como via o mundo.

“Chamo-me Amina”, disse ela, depois de algum tempo.

O nome parecia carregar uma doçura que contrastava com a dor evidente no seu semblante. Não precisei pressioná-la muito; era como se ela quisesse desabafar, como se a dor reprimida finalmente tivesse encontrado uma brecha para escapar.

Amina era casada há sete anos. O marido, Joaquim, era um homem trabalhador, pescador, como muitos outros na vila. No início, o casamento deles foi cheio de sonhos. Planejavam ter uma família grande, crianças que corressem pelas areias e rissem sob as mangueiras. Mas os anos passaram, e os filhos nunca vieram.

“Fizemos todos os tratamentos que pudemos pagar. Fui a curandeiros, tomei chá de todas as folhas que me indicaram. Até ao hospital fui… Mas nada. O médico disse que o problema está em mim.”

As palavras saíram entrecortadas, como se fossem lâminas a rasgar-lhe o coração.

“O Joaquim era um homem paciente… No início”, continuou. “Mas a paciência dele acabou. Agora mal fala comigo. Às vezes passa dias fora de casa. E quando está em casa, não olha para mim. É como se eu fosse invisível.”

O silêncio entre nós era preenchido apenas pelo som distante de crianças a brincar e pelo murmúrio do vento.

“Na nossa cultura”, continuou ela, “uma mulher que não dá filhos ao marido não é uma mulher completa. É como se eu fosse um campo estéril, sem valor. As vizinhas cochicham, e até as crianças da aldeia olham para mim com piedade.”

Amina contou-me sobre um episódio recente, que parecia ser uma ferida aberta. Uma das vizinhas, ao saber que ela não podia ter filhos, fez questão de dizer em voz alta que “uma casa sem crianças é uma casa morta”.

“Senti-me a morrer por dentro”, confessou. “Quis desaparecer, deixar tudo para trás, mas onde iria? Não tenho para onde ir. Esta é a minha casa.”

O rosto dela tornou-se ainda mais sombrio quando mencionou a sogra, que constantemente incentivava Joaquim a arranjar outra mulher.

“Ela diz que é o direito dele. Que ele não pode envelhecer sem um filho para continuar o nome da família.”

Enquanto ela falava, não pude deixar de admirar a sua beleza. A pele escura brilhava à luz do entardecer, os olhos grandes e expressivos tinham uma profundidade que parecia conter oceanos de dor. Mas era uma beleza entristecida, marcada por uma luta constante para encontrar o seu lugar num mundo que a rejeitava por algo que ela não podia controlar.

“Às vezes, pergunto-me o que fiz para merecer isto. Será que Deus está a castigar-me por algo?”

A pergunta dela ficou suspensa no ar, ecoando no silêncio ao nosso redor. Não sabia o que responder. Como é que se explica a uma mulher que a sua dor não é um castigo, mas uma circunstância cruel da vida?

Amina ergueu-se de repente, como se tivesse dito tudo o que precisava. Olhou-me nos olhos, e naquele momento percebi que o que ela queria não era piedade. Era compreensão. Era alguém que a visse, que reconhecesse a sua existência para além da esterilidade que a sociedade tanto apontava.

“Obrigada por ouvir-me”, disse, com um sorriso frágil que não chegou aos olhos.

Enquanto a via afastar-se, o céu de Inharrime escurecia, anunciando a chegada da noite. Fiquei sentado por mais alguns minutos, tentando digerir tudo o que tinha ouvido. Amina não era apenas uma mulher estéril; era um reflexo de tantas outras mulheres que vivem sob o peso de expectativas que as esmagam.

Naquela noite, escrevi sobre ela, tentando fazer justiça à sua dor, à sua força silenciosa e à injustiça de um mundo que mede o valor de uma mulher pela sua capacidade de gerar filhos.

E, enquanto escrevia, só conseguia pensar numa coisa: Amina merecia mais. Merecia um mundo onde fosse amada pelo que era, e não pelo que não podia ser.

Conheci Ana numa tarde abafada, em Jangamo, numa casa pequena e desgastada, onde o tempo parecia ter parado. Estava sentada num canto, com as mãos sobre os joelhos, abraçando-se de forma quase desesperada. A luz que entrava pelas janelas sujas iluminava seu rosto marcado por uma tristeza profunda, mas seus olhos, aqueles olhos, pareciam conter toda a dor de um passado que ela ainda não conseguia deixar para trás. 

Era uma jovem de 18 anos, mas a sua alma parecia carregar o peso de uma vida inteira. Ana não me conhecia, mas a necessidade de partilhar sua história era tão grande que ela começou a falar antes mesmo de eu conseguir perguntar. Eu nunca tinha visto alguém com tanto sofrimento dentro de si, como se tudo aquilo tivesse sido engolido sem remédio, sem possibilidade de cura.  

“Queria ser enfermeira”, ela começou, quase sem fôlego. As palavras saíam com dificuldade, como se o ar fosse denso demais para que ela conseguisse falar. “Sonhava em ajudar as pessoas. Lembro-me de como adorava a escola, de como as aulas de ciências me fascinavam. Eu sabia que, com esforço, poderia chegar longe. Mas… a minha mãe…” A voz dela vacilou, e ela abaixou a cabeça, como se aquele nome fosse um peso impossível de carregar.  

Ela suspirou, e antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, as palavras foram saindo, uma após a outra, sem controle. “Ela tinha uma dívida com um homem, com um homem que trabalhava na África do Sul. Ele estava sempre a pedir mais dinheiro, mais dinheiro, até que um dia, ela disse que não tinha como pagar. Foi aí que ela me chamou e… entregou-me.” 

A casa onde tudo se passou era um lugar, melhorado para a realidade local, com casa de pedra, furo de água, corrente eléctrica, televisão onde poderia assistir novelas. Mas o cenário se desfazia em segundo plano. O que realmente importava era o que acontecia ali, naquele espaço onde aos 16 anos de idade, Ana foi forçada a ser nada mais do que um objeto. Não um ser humano. Não uma criança.  

“A minha mãe falou com ele. Disse que não havia outra maneira e o homem aceitou. Eu não sabia o que fazer. Ela me mandou embora, disse que tudo ia ficar bem, que eu teria uma casa e um marido, e que ele me cuidaria.” Ana parecia perdida no tempo, como se aquelas palavras estivessem sendo ditas pela sua mãe novamente, ecoando na sua memória.  

Ela descreveu o homem com um leve estremecer na voz, tentando dissociá-lo da figura de pai que ele nunca seria. Tinha 37 anos. Era alto, com uma cara dura e olhos de quem já viu demais. Tinha uma voz grossa, uma forma de falar que fazia Ana sentir-se como se fosse uma criança insignificante, sem valor. No início, o homem dizia que ela deveria ajudá-lo na casa, que tinha que aprender a ser uma boa esposa. Depois, os “ajuda-me” tornaram-se exigências. E logo, Ana entendeu que nada na vida dela seria uma escolha. Ela tinha se tornado propriedade.  

As tarefas eram intermináveis. Limpar, cozinhar, lavar, cuidar da casa. Mas não bastava isso. O homem queria algo mais. “À noite, ele vinha. Fazia coisas com o meu corpo, coisas que eu não queria fazer. Eu não sabia o que fazer. Fiquei com medo. Ele dizia que era a minha obrigação.” As palavras saíam devagar, como se ela estivesse tentando entender o que tinha acontecido consigo, mas não conseguia.  

O semblante de Ana já não tinha a juventude e a leveza de uma adolescente. Seus olhos, que antes refletiam sonhos, agora estavam embotados por uma dor que atravessava gerações. Era impossível entender como ela ainda estava ali, tão jovem, mas tão consumida pelo peso daquilo tudo.  

“Ele queria mais filhos. Disse que eu não servia para nada, que eu era só uma reprodutora. Quando fiquei grávida, ele ficou furioso porque esperava que eu tivesse mais filhos.” Ana engoliu seco, uma lágrima teimosa escorrendo pelo seu rosto. “E ninguém fez nada. Ninguém. Os pais dele sabiam. Os vizinhos sabiam. E a minha mãe…” Nesse instante, ela parou de falar e olhou para mim, como se procurasse alguma forma de compreensão, de aprovação. Mas não havia nada que eu pudesse dizer. Eu não tinha palavras. Eu não tinha nada para dar.  

O silêncio se fez pesado. A sala estava abafada, mas o calor parecia vir de dentro dela, daquilo que ela tinha vivido, de tudo o que não tinha sido capaz de viver. Ana, a menina que sonhava ser enfermeira, agora se via como um objeto, como uma mulher que nunca teve o direito de ser apenas quem era. 

“Por que você não fugiu?”, perguntei, depois de um longo silêncio. A resposta não veio imediatamente. Ela parecia pesar a pergunta, como se fosse algo tão fora do seu alcance que nem sabia por onde começar.  

“Eu não sabia para onde ir. O homem… ele me trancava. Às vezes, eu só queria desaparecer. Mas não podia. As pessoas que viam nada faziam. Diziam que era minha obrigação. Diziam que era assim que as mulheres deviam ser.”  

Foi a polícia que, por acaso, encontrou Ana. Não foi um ato de denúncia, mas um acaso, um pequeno milagre. Ela estava com o bebé no colo, visivelmente malnutrida. Alguém, alguém que ainda tinha um mínimo de humanidade, foi até as autoridades. Foi assim que ela foi retirada da casa, mas, por dentro, Ana já estava quebrada. Não havia cura para o que ela tinha vivido.  

Enquanto a ouvia, o choque se transformava numa raiva profunda. Como foi possível ninguém ter feito nada? Como foi possível que todos, na comunidade inteira, vissem e se calassem? Como foi possível que a mãe dela, a pessoa que deveria protegê-la, entregasse sua própria filha para pagar uma dívida, como se ela fosse um bem material?  

E, mais uma vez, a sociedade se faz conivente. Aceita a dor e o sofrimento, a exploração e o abuso, e cria desculpas. “É assim que as coisas são.” Mas não é assim. Não deveria ser. E, no entanto, continuamos a viver num mundo onde histórias como a de Ana se repetem, dia após dia, em silêncio.  

Quando me despedi de Ana, eu sabia que a sua história não seria apenas mais uma que se perde nas páginas de um jornal. Ela era uma voz que gritava, mas ninguém ouvia. Era uma vida roubada, um sonho esmagado, uma adolescência arrancada. E, mais do que tudo, ela era a vítima de uma sociedade que aceita a violência como se fosse algo normal, que normaliza o impossível.  

A dívida de Ana nunca foi financeira. A dívida que a sociedade tem para com ela e com tantas outras meninas é imensurável. Porque cada vez que fechamos os olhos, cada vez que calamos os gritos delas, nós estamos permitindo que mais uma Ana seja forçada a perder sua infância, seus sonhos, sua liberdade. A pergunta que fica é: até quando vamos permitir que isso aconteça? E quando seremos capazes de dar a elas a chance que tanto merecem?

Subtítulo: A repressão dos Naparamas em Moçambique levanta questões sérias sobre o papel do Estado na preservação da cultura e na escuta das realidades locais.

Num momento em que se fala tanto de “valores culturais” e “identidade nacional”, é

profundamente contraditório que Moçambique assista, silenciosamente, à repressão

violenta de um dos seus movimentos mais singulares: os Naparamas. 

Nos últimos tempos, surgiram notícias inquietantes sobre detenções e até mortes de membros deste grupo tradicional, que no passado desempenhou um papel importante na protecção de comunidades durante o conflito armado.

Importa recordar: os Naparamas não são um movimento novo, nem uma invenção de tempos recentes. Emergiram como um movimento de resistência popular e espiritual que surgiu no Norte de Moçambique durante a guerra civil (1977–1992), especialmente nas províncias da Zambézia, Nampula e Niassa. O nome “Naparama” significa literalmente “aquele que vai à guerra” em algumas línguas locais. Sem acesso a armamento moderno, organizaram-se com o que tinham: a fé, o corpo, o saber dos mais velhos e o desejo de proteger os seus. Foram, para muitos, a única barreira entre a violência armada e a sobrevivência das comunidades rurais.

Hoje, décadas depois, vê-los retratados como “ameaça à ordem pública” ou “forças de desestabilização” revela uma profunda desconexão entre o Estado e a sua própria base sociocultural. A resposta às suas manifestações não deveria ser policial ou militar.

Deveria ser académica, política e comunitária. Onde estão os sociólogos, antropólogos e estudiosos da cultura moçambicana? Onde estão os líderes políticos que tanto falam em “inclusão” e “diálogo”?

Reprimir os Naparamas não é apenas reprimir um grupo é atacar uma expressão viva da resistência cultural, espiritual e social moçambicana. A história ensina-nos que, quando o poder ignora ou reprime a tradição, está a cavar um fosso entre a nação oficial e o povo real.

Este é, pois, um momento crucial. Não se trata apenas de segurança, mas de identidade e soberania cultural. Em vez de soldados, precisamos de mediadores. Em vez de armas, precisamos de diálogo. E, acima de tudo, precisamos de reconhecer que a diversidade de formas de existir, resistir e proteger é parte da riqueza deste país.

Matar os Naparamas é, simbolicamente, matar o que ainda resta de uma memória

colectiva ancestral. É negar a possibilidade de um Moçambique plural, onde os saberes locais têm lugar ao lado do conhecimento formal.

Mais do que nunca, é tempo de escutar antes de reprimir. De compreender antes de

julgar. E de defender o que é nosso — mesmo quando nos desafia.

 

Maputo 21 de abril 2025

 

Uma pequena bola de trapos, também conhecida por xingufo em algumas regiões de Moçambique, fez parte da diplomacia do Papa Francisco, no seu pontificado. Este xingufo que elevou para os pedestais mais visíveis este país, serviu de chave mestra para lendas do futebol mundial como Eusébio e Matateu, mas, também, de tantos outros “Pelés” que o mundo conheceu.

O xingufo representa muito mais que uma bola improvisada. Essa pequena amostra do globo, algumas vezes disforme, porém, com toda a arquitectura circular, converteu-se em símbolo de resistência, criatividade e paixão pelo mundo da arte do futebol e de tantos outros desportos que apaixonam milhões, enlouquecem os obstinados e servem, simultaneamente, como a primeira actividade lúdica de milhões de crianças em todos os continentes.

Papa Francisco, esse impetuoso homem, designava por pelota, nome hispânico para bola de trapos, também na sua Argentina e na América latina, do qual foi o mais consagrado representante. Falava de forma empolgada e com paixão invulgar desta pelota, pois, também ele jogou com estas bolas com os seus amigos de infância e tantos outros. Os xingufos se converteram na expressão artística de juntar peúgas velhas, esponjas fora de uso, plásticos e outros restos de roupas usadas. 

Quando em Setembro de 2019, o Papa Francisco esteve em Moçambique, na sua primeira e última visita, coincidente com o auge de uma campanha política eleitoral, nem por isso isenta de polémica, disfuncionalidades e contestações, ele estendeu um convite para um diálogo matutino na residência do Núncio Apostólico, onde se hospedou. O xingufo foi meio que o guia da nossa conversa.

Naturalmente que sua abordagem, ainda que santificada sobre o xingufo e no primeiro dia oficial da sua visita, reservava outras temáticas. Não me recordo de alguma vez ter tornado público o teor destas conversas, porque se tratava de uma conversa reservada e que não carecia de qualquer tipo de divulgação.

A bem da verdade, eu também estava desconfortável por ter sido escolhido e convidado para uma visita privada e por ter tido a honra de o acompanhar no café matinal e com sabor a espiritual. Para além do xingufo, Papa Francisco pretendia explicar a criação da Universidade do Sentido, de que ele estava profundamente empenhado e, na circunstância, preparava uma conversa que teria lugar no Vaticano, em Maio de 2020.

No seu “portunhol”, muito mais compreensível do que o nosso português, Papa, ainda com um xingufo em suas mãos, falou sobre colocar a pessoa humana no centro do processo educativo. O foco assentava na promoção de uma educação proactiva que promovesse a escuta, a criatividade e diálogo entre diferentes culturas e gerações. Na sua visão, incentivava a busca pelo sentido da vida e das coisas. A gestão desta universidade seria feita por uma fundação por si criada, denominada Scholas Ocurrentes.

Mesmo sem muitos detalhes sobre o projecto futuro da Universidade do Sentido — idealizada para ser abrangente e aberta — a instituição foi criada em 15 de Agosto de 2023, num contexto em que a pandemia já estava praticamente erradicada, por meio de um quirógrafo. Na sua missão, essa Universidade deveria responder à crise global vivida pela humanidade. A Universidade do Sentido tem sido gerida pelo movimento internacional Scholas Occurrentes, com sede no Vaticano.

Como parte de sua estratégia operacional, a universidade adoptou um modelo descentralizado, estabelecendo micro sedes em universidades públicas e privadas já existentes ao redor do mundo. Dessa forma, a Universidade do Sentido se insere e actua dentro de um movimento global, intergeracional, multicultural e inter-religioso, promovendo a educação como instrumento de encontro, diálogo e transformação.

Moçambique, por meio da Universidade Pedagógica de Maputo, participou em diversas reuniões preparatórias, onde partilhou parte da sua experiência formativa — uma experiência marcada pela formação de jovens provenientes de diferentes famílias moçambicanas, distribuídas por todos os distritos e, em grande parte, pelas localidades do país.

Desta forma, a Universidade quebrava o dogma e o mito de que o ensino superior apenas serviria às elites e ao capitalismo emergente. A Universidade Pedagógica de Maputo se converteu, igualmente, num espaço onde famílias e moçambicanos com poucas posses e, muitas vezes, sem recursos financeiros tiveram uma oportunidade de fazer o ensino superior.

A missão de São Benedito dos Muchopes, em Manguze, província de Gaza, tem sido um bom exemplo de envolvimento social e comunitário, tendo ajudado a dinamizar a produção de bolas de trapos. Estas eram as bolas que o Papa solicitou que continuássemos a produzir e que pudessem ser enviadas para o Vaticano. Ele, pessoalmente, se encarregaria de fazer chegar às mãos de ilustres figuras e que, posteriormente, iriam contribuir para que os xingufos chegassem às mãos de pessoas beneplácitas e altruístas, que ajudariam num “fundraising” para ajudar crianças carentes.

Esta missão em Manguze é dirigida pelo pároco João Gabriel Arias, de nacionalidade argentina, que foi o responsável por juntar e enviar para Papa Francisco os primeiros exemplares de bolas de trapo de Moçambique que chagaram ao Vaticano. Papa Francisco, por sua vez, fez com que estas bolas, poucas, chegassem às mãos ou até aos pés de Leonel Messi, esse astro do futebol argentino e mundial, que simpatizou com o projecto e colocou em sua agenda a comunidade de Manguze como uma das suas prioridades e projectos favoritos. Messi enviou para a comunidade das escolas da região de Manguze uma papa fortificada, que ajuda na alimentação e redução dos índices de desnutrição crónica ou aguda.

Moçambique hospedou alguns outros importantes projectos de produção de bolas de trapo. Em 2009, com apoio do Brasil, foi lançada uma fábrica de bolas como parte do programa designado “pintando a cidadania”. Esta era a forma pragmática de produção de diversos tipos de bolas, desde as sintéticas até as de trapo, para as diferentes modalidades, mas eram, na essência, uma forma de valorizar a cultura e tradição local. É impossível esquecer a exposição que apresentou bolas de trapos e outras conhecidas como “as magias do pano” — uma verdadeira celebração de identidade, que atravessa gerações e continua viva em Moçambique, estendendo-se, de alguma forma, pelos cinco continentes.

A conversa com Papa Francisco decorreu entre sorrisos e muitos questionamentos. O Xingufo que voltamos a oferecer, ora ficava nas suas mãos, ora ia para uma mesa bem próxima — num gesto quase ritual, carregado de simbolismo. Foi um momento descontraído, porém, soberbo e muito profundo. Uma verdadeira lição sobre a escuta: como num confessionário onde se revelam pecados, mas onde não há lugar para culpa ou culpados — apenas para o perdão em abundância e um caminho aberto para a clemência e o entendimento. O verdadeiro caminho do sentido e da convergência.

Recordo esse 5 de Setembro como o diálogo mais iluminado que já vivi. Era a minha pequenez diante desse homem universal, impetuoso e sereno, cuja presença alternava entre o entusiasmo apaixonado e uma autoridade serena que não deixava ninguém indiferente. Sem que tivesse dado conta, eu estava sentado diante da própria paz que não experimentei nunca no nosso jubileu.

Nesta hora de partida, muito vai ser dito e escrito sobre a sua personalidade, sobre os seus discursos que, em tempos, pareceram controversos diante de uma igreja que permanece refém de muitas das suas ideias e crenças originais. Ele viveu nessa fronteira entre um pontificado que pretendia ajustar-se às verdades da vida, mas, que ao mesmo tempo, revelou os segredos mais incómodos pelos quais o cristianismo pode ter passado.

Nos últimos momentos, ao lado da verdade, dedicou-se com fervor à defesa dos desamparados, combatendo a pobreza, as guerras e a ganância, e se opôs ao colapso do mundo diante da vontade dos poderosos. Parte um homem que transmitiu o espírito de paz, união, harmonia, humildade e solidariedade aos mais vulneráveis Aquele que soube transmitir os valores da tolerância se junta a Deus. Nenhuma tristeza tomará nossos corações, pois ele fez o melhor que pôde em um mundo ainda governado pela maldade e pela ambição. A nossa Universidade do Sentido e este xingufo que ele tanto advogou será um legado para todo o sempre.  

Um Papa que a partir das ruas que fazem o dia a dia do nosso povo, ensinou-nos, acenando as mãos e com o rosto afável, a abraçar com os olhos, e a ser igreja caminhante, uma igreja viva e que a todos chama para sonhar juntos, sem se esquecer das nossas raízes, as bibliotecas do amor e da vida.

“Perante a crise de identidade …, talvez tenhamos que sair dos lugares importantes e solenes; temos de voltar aos lugares onde fomos chamados, onde era evidente que a iniciativa e o poder eram de Deus. Irmãos e irmãs, voltar a Nazaré, voltar à Galileia pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade. Depois da sua ressurreição, Jesus convida-nos a voltar à Galileia, para O encontrar. Voltar a Nazaré, à primeira chamada, voltar à Galileia para solucionar a crise de identidade, para nos renovarmos”. Papa Francisco.

Moçambique _ maningue nice, _ é como é carinhosamente tratada esta terra que, no assobio luminoso das águas do Índico, ganhou a mania de acordar sem vergar aos desafios de, aos poucos, ir consolidando-se Nação, onde cabemos todos e todos preenchemos. É Moçambique a mania nossa de ser, a certeza de que amanhã o sopro melancólico das casuarinas terão se diluído na sonoridade da timbila e dos tambores que os rasgões da alma nos ensinaram a tocar; primeiro em silêncio e sem nenhum gesto, depois, gritando e movendo o corpo, é Moçambique o sol que nos aquece as veias e nos faz nutrir a alegria de viver no “alegre canto das andorinhas” que por vezes somos quando nos deixamos ser a força do encontro.

É esse Moçambique que se moveu em 2019, no acenar das mãos do Papa Francisco e se dilatou enorme, chorou de emoção e soube, no abraço tenro do Papa, ser canção do tempo que vestiu a memória da “malta” de todas as idades que saiu à rua para viver a presença do Papa em solo moçambicano.

Quando em 2019 o Papa pisou o pavilhão do Maxaquene, um enorme frio foi ali gerado, o corpo e as vozes tremiam, gritava-se reconciliação, reconciliação, reconciliação, depois, ouviu-se em uníssono, um cantar que nos une sem limite das religiões, cantávamos e dizíamos arrepiados no caminhar lento e dócil do Papa Francisco, que somos os Jovens da Paz, que a nossa missão é a reconciliação, cantamos com alma, força e Moçambicanidade.

Quando os jovens Católicos subiram ao palco, para apresentar a sua mensagem ao Papa, num texto que viajou entre Idai, Kenneth e depois os ataques de Cabo Delgado, algo me veio a cabeça, conhecia aqueles jovens, aquelas vozes, aquele fluxo, o gesticular remetia-me aos festivais juvenis da Arquidiocese de Maputo; são bons no que fazem, têm vida e movimento. Senti que aquela apresentação era uma sutura, uma cirurgia social, e porquê não uma reconciliação com aqueles que sabem fazer bem o que fazem. A juventude não se “autodiminuiu” deu espaço aos melhores, e os melhores foram o eco da elevação de uma juventude que, no calor do Papa se faz enorme, madura e consciente, o texto vestido de alma partilhada foi escrito por jovens moçambicanos, tendo a sua representação feito o Papa Francisco, mover as mãos para um bater de palmas que nos arrefecia a alma e nos vestia de um espírito renovado, paz, esperança e reconciliação.

Quando o Papa falou, percorreu-nos de alma descalça um dos maiores exemplos da juventude, falou-nos da Lurdes Mutola, como poucos falamos sentimos e pensamos, falou da sua infância difícil, das suas conquistas e de como depois de ganhar tudo e ser referência nos 800m, não deixou de ser moçambicana e vestiu sempre as cores que corporizam o peito desta terra, o Papa elevou Lurdes ao nível de exemplo para juventude Moçambicana, e aconselhou-a a caminhar unida “juntos” sempre que pretenda chegar longe, a não desistir na primeira queda, que a juventude não perca a alegria de viver, e por fim pediu que se continuasse a rezar por Ele e que o Senhor nos abençoe.

Este foi e continuará sendo o Papa Francisco que se nos existe presente abraçando-nos a essência caminhante de uma igreja que quer sempre sonhar juntos.

Está marcada, em princípio para os próximos meses, a Assembleia-Geral da AEMO

(Associação dos Escritores Moçambicanos). É um marco importante para a agremiação, pois poderá culminar com a eleição dos novos corpos directivos, já que o actual elenco, que tem como secretário-geral Carlos Paradona, está em fim de mandato. Um ciclo que teve um primeiro mandato notável, tendo porém tido alguns problemas no segundo (foram dois mandatos), onde não teve o apoio de uma franja relevante dos membros, pela forma como o processo eleitoral foi conduzido, sem transparência, levantando clivagens internas.

A AEMO tem um histórico de eleições pacíficas desde a sua fundação. Com Rui Nogar a dar o mote, passando por Albino Magaia, Suleimane Cassamo, Lília Momplé, Armando Artur, Juvenal Bucuane, Jorge Oliveira, Ungulani Ba Ka Khosa e agora Carlos Paradona. Com este último há mudança de paradigma, ou seja, todos os outros secretários-gerais tiveram dois mandatos de dois anos cada. Porém, com a entrada do actual secretário, decidiu-se estender a vigência para três anos, e essa medida foi acordada por todos em Assembleia-geral. Pois chegou-se à conclusão de que dois anos não seriam suficientes para que se cumpra com os planos de actividades programadas.

É importante referir que o actual secretário-geral já cumpriu o seu segundo mandato de três anos. Tendo feito, como já fizemos referência, um brilhante trabalho no primeiro, mas no segundo pode ter experimentado algumas dificuldades, sobretudo na área financeira, que contribuíram no retraimento dos trabalhos da agremiação.

Ora, o que se propõe daqui para frente, contrariamente ao que vinha acontecendo – os membros votavam na pessoa do candidato – é que se vote no programa do concorrente, para que os apoiantes tenham conhecimento das linhas de orientação e evitarem-se prováveis  desenlaces durante o percurso. E pelo que se percebe a partir dos corredores, já há movimentações com os escritores a afiarem as facas com vista ao pleito. Apelando-se para que sejam realizadas eleições livres, justas e transparentes, pois as últimas não tiveram lisura. Outrossim, tomando em conta que Paradona está fora de mandato, espera-se que a demora que se verifica para a realização da Assembleia-Geral, tenha como resultado um escrutínio limpo.

A AEMO foi sempre uma instituição fervorosa, de debate e convívio. E respeito mútuo.

Então é preciso manter esse ritmo, esse modus vivendi para que a harmonia prevaleça.

Aquele que for a candidatar-se ao cargo de secretário-geral e ganhar, terá que reavivar esse equilíbrio, é isso que se espera. Mas antes cada um deverá nos dizer efectivamente o quê que vai fazer caso ganhe, para que os eleitores escolham o melhor programa. É preciso explicar aos potenciais votantes como é que vão implementar o que propõem, com que meios. E como é que vão trazer esses meios, aonde é que vão buscá-los. Não basta que os membros se simpatizem com o candidato, é preciso que o candidato lhes mostre o seu plano de forma clara e transparente.

Há uma grande expectativa e nervosismo nos corredores da AEMO, mas isso é bom. É vitalidade. O que se deseja é que a Associação retumbe e volte a brilhar. E todos os membros com quotas pagas têm o direito de se candidatar e todos eles estão de acordo que existe capacidade para trazer o comboio aos carris. Para o bem das artes e letras.

 

Esta coisa dos títulos tem das suas. Umas vezes esclarecedoras. Outras vezes desviantes.

Algumas, enfim, estão lá como a folha de louro está para alguns pratos: lá está, mas nem todos dão-se conta da sua presença ou ausência.

Dizer que os ghostwriters e os agentes literários são ausentes no nosso “sistema literário” pode-nos dividir imensamente. Por um lado, porque se se diz que estes são ausentes, por si só já denuncia que não temos um sistema. Daí o “amortecimento” do peso do termo através das aspas:

todo sistema literário que se prese tem de ter ghostwriters e agentes literários. Por outro, trata-se de uma colocação um tanto quanto acusatória, porque estas figuras existem no plano material, mas se escondem ou assumem outra identificação à semelhança dos críticos literários que se assumem como ensaístas e, por que não (?), dos escritores que se assumem como contadores de histórias. “Ya, são maningue cenas!”

Penso nestas figuras pelo bem que as mesmas fariam aos nossos escritores, quer emergentes, quer consagrados. São poucos os escritores que ganham a triste noção de que o “poço secou”, ou, na melhor das hipóteses, a água está cada vez mais escassa. É natural. É comum. Não é o fim.

Pode ser uma estação. Podem ser coisa da idade. Mas também pode ser uma sina. Cada um tem a sua, não é!? Não são raros os casos de “génios” que depois de terem produzido o seu Magnum Opus não se conseguiram superar. Rasgam os textos após duas linhas. É triste. É desolador.

Transtorna. Sobretudo quando se tem de responder à pergunta “para quando o teu próximo

livro?”

Muitos escritores (ou artistas, em geral) não têm consciência de que a criatividade é uma predisposição falível: tem momentos bons e maus. Os músicos, pela dimensão da representação do seu objecto de arte, convivem muito bem com as figuras de compositor, letrista, produtor e tantos outros que constituem uma verdadeira máquina por detrás da marca na qual o seu nome se tornou. A dúvida com a qual convivo é se os seus admiradores têm igual nível de compressão e cedência quanto a esse aspecto. É, em todo caso, matéria para outra conversa.

O nosso “sistema” em constante construção qual obra que nunca se assume como edifício acabado devido às constantes modificações, é permeado de revisitações (é o termo mais adequado que encontrei) de temáticas, de perfis de personagens, de descrições, etc., muitas vezes feitas pelo mesmo autor à semelhança de um arquitecto que faz diversos projectos no mesmo bairro e a diferença estivesse no tamanho dos compartimentos e nas escolhas dos proprietários na decoração dos edifícios.

Em situações deste género, mesmo que tal não signifique “crise de criatividade”, faz muito bem a figura de um ghostwriter ou de um agente:

  1. a) a primeira é, em muitas circunstâncias, admiradora senão seguidora do estilo de um certo autor. Estuda. Pesquisa. Imita e domina o estilo de tal autor muito melhor que o crítico literário que se dedica ao estudo de suas obras para fins académicos. É daquelas figuras que, geralmente, se for a publicar os seus próprios textos, haverá muita possibilidade de ser confundido com o autor que é objecto da sua imitação. Voltando à música, são vários “rumores” de artistas que cederam ao ímpeto de fazer a própria carreira para trabalhar nos bastidores de outro que já era uma marca. Bem analisada a questão, é uma relação contratual “win-win”. O público sai a ganhar e a “mídia cor-de-rosa” (hábito que, hoje, é coisa dos grupos de chat) perde a fofoca de “fulano é copista de fulano”.
  2. b) no caso do agente literário, além da dimensão “lobista” que este possa assumir, há um exercício de mentoria inicial que pode ser feito: nem todo livro deve ser, a priori, objecto de discussão com um editor. Este último tem um “mindset” corporativo que pode não ser o que o escritor precisa em primeira instância. Há um olhar que o agente tem que, na verdade, o editor também o tem, mas o segundo anda “contaminado” por certas pressões imediatistas que o podem impedir de dar valor a certas “aventuras” do escritor que, não raras vezes, estão adiantadas em relação ao seu tempo. E, curiosamente, é nesse tempo (presente) que o editor quer vender. Diga-se, porém, que esta disposição das funções só é válida onde há, efectivamente, um mercado.

Mas, pronto, vale a reflexão.

Em síntese e para o nosso agrado, temos estas figuras, mas ninguém as assume, conforme disse no início deste texto. Uns dizem-se revisores. Outros amigos (primeiros leitores do autor).

Alguns assumem-se como escritores experientes com amigos editores. Outros são jornalistas com lóbis nos corredores literários. Alguns, não poucos, são dinamizadores da leitura e escrita em clubes de leitura, agremiações culturais (literárias) e até professores. Com um pouco mais de interesse, organizamos o nosso dumbanengue literário e saímos todos a ganhar.

 

Resposta ao Texto “A Última Páscoa dos Moçambicanos”, de Severino Ngoenha

 

Professor Severino Ngoenha,

O seu texto é uma elegia poderosa. Uma convocação ética. Uma denúncia litúrgica.

Mas permita-me, com a devida raiva lúcida que a nossa pátria exige, ousar continuar onde o seu Domingo termina — ou talvez, onde já não há mais tempo para esperar por ele.

Uma amiga muito lúcida, Ângela Maria Serras Pires, ao ler o seu texto, sugeriu este título: “A Frelimo destruiu a alma da nação”. É um título, e ao mesmo tempo, uma frase de corte político.

Mas deixemos os títulos. Professor, li e reli o seu santo texto com muito thauma; senti gosto enorme nas entrelinhas e no seu jeito único de escrever. E, a partir disso, fiz minhas anotações anatômicas, que aqui partilho.

 

  1. “Há demasiado tempo que Moçambique vive entre a cruz e o túmulo…”

Professor, quer dizer que a nação moçambicana está presa num tempo litúrgico? Entre a Sexta-feira da crucificação e o Sábado do silêncio?

Mas será que Moçambique precisa dessa cronologia cristã para se pensar a si mesmo?

Não é essa metáfora já um cárcere simbólico? A cruz, o túmulo, o sofrimento — tudo isto não são heranças coloniais do imaginário europeu-cristão?

Penso que não vivemos entre a cruz e o túmulo. Vivemos, isso sim, num presente político morto-vivo, onde a cruz é um logotipo partidário e o túmulo é a urna eleitoral.

Aqui, não se ressuscita ninguém — nem sequer a esperança.

E se há uma “última Páscoa”, como escreve o Professor Ngoenha, então é porque todas as outras fracassaram.

Mas não basta poetizar o sofrimento, nem transformar a Sexta-feira Santa em metáfora política.

É preciso nomear o culpado. Não há redenção onde não há verdade.

 

E a verdade, professor, é esta: a Frelimo destruiu a alma da nação.

Carregamos um país crucificado, sim — mas foi crucificado pelo Estado, com a cumplicidade das igrejas.

Cristo não morreu por nós. Morreu connosco — no desemprego, na fome, no tribalismo.

E continua morrendo, todos os dias, com cada jovem assassinado no nascimento de sua consciência política.

  1. “A cultura da Sexta-feira tornou-se a estrutura invisível do nosso quotidiano.”

Será mesmo invisível? Ou estamos diante de uma estrutura escancaradamente visível, sustentada por um Estado que se alimenta do medo e da miséria?

Professor, não seria mais honesto dizer: a Sexta-feira foi institucionalizada — pelo partido, pela igreja, pela academia — e tornou-se estrutura visível, e legitimada?

Não é mais cultura do sofrimento.

É a indústria da opressão.

Professor, sua Sexta-feira é nobre, mas falta-lhe a denúncia.

Falta-lhe o nome do carrasco.

Falta-lhe o nome do deus que o povo adora enquanto é espoliado: o deus-Presidente, o deus-Pastor, o deus-General.

Essa é a cruz real.

A cruz da corrupção.

A cruz do silêncio comprado.

A cruz da esperança vencida.

  1. “Nessa Sexta-feira eterna, as crianças morrem de fome… o povo morre de silêncio.”

Mas quem é que construiu essa eternidade?

Quem sustentou os rituais do silêncio?

Quem ensinou o povo a jejuar pela salvação e votar pela opressão?

Professor, não foi a mesma igreja que abençoou as armas do colonizador, que agora abençoa os palanques da Frelimo?

 

Não foi a teologia da cruz que nos fez aceitar que o sofrimento redime?

Pois eu digo: o sofrimento embrutece, não redime.

A cruz não é metáfora — é mecanismo de dominação. E aqui professor a fé e política de um político é o sinônimo.

  1. “O Sábado é pior. Porque já não há grito — só ausência.”

E será que ainda há tempo para gritar, Professor?

O grito, aqui, tornou-se prova de crime.

Quem grita contra o sistema é terrorista.

Quem escreve contra a cruz, é herege.

Quem pensa diferente, é morto civil.

E a ausência?

Não é divina — é programada.

É a consequência da má-fé institucionalizada.

E depois… o Sábado.

Não o Sábado de espera — mas o Sábado de apatia.

Onde a religião se ajoelha ao lado do Estado para rezar pelo status quo.

Onde os intelectuais se prostituem em projectos financiados pelo Banco Mundial, FMI e os teólogos se calam por medo de perder a bênção presidencial.

A verdade é esta: a intelligentsia moçambicana perdeu a coragem de pensar fora do

sistema que a sustenta.

Peter Sloterdijk escreveu:

“Vivemos numa era de cínicos esclarecidos — sabem o que fazem, mas continuam a fazê-lo.”

 

Eis o retrato dos nossos dirigentes.

E dos nossos professores.

E dos nossos chefes religiosos.

 

É verdade, professor: vivemos um Sábado.

Mas é um Sábado sem sombra de Domingo.

Porque para ter Domingo é preciso um povo que diga basta.

E o nosso povo, cansado, jejuando por ignorância e votando por desespero, já nem distingue fé de propaganda.

  1. “Mas a história — a verdadeira história — não termina aí. Há uma outra cultura

possível: a cultura do Domingo.”

Aqui, Professor, permito-me discordar radicalmente.

A “cultura do Domingo” é uma esperança mística.

É o prolongamento da lógica cristã: após o sofrimento, a redenção.

Mas quem nos garante o Domingo?

Quem nos prometeu essa ressurreição?

Nietzsche já nos advertiu: o “Deus do Domingo” está morto.

E mais: em Moçambique, foi a Igreja que o sepultou — com dízimo, missa e a bênção presidencial.

  1. “É tempo — último tempo — de dizermos: ‘Basta!’”

Mas quem dirá esse “basta”, Professor? O povo ainda acredita.

Nos partidos.

Na igreja.

Na televisão.

No pastor.

No boletim de voto.

E quem não acredita, cala — com medo.

Então, esse “basta” só virá quando negarmos todas as estruturas que ainda sustentamos por hábito e fé.

Eu digo: não precisamos de um Domingo.

 

Precisamos de ateísmo político.

De raiva lúcida.

De ética niilista.

De um corte radical com os messianismos, tanto religiosos quanto partidários.

Nem Cristo. Nem Frelimisto. Moçambique não precisa de milagres.

Precisa de raiva lúcida. De revolta sem mística deísta nem messianismo frelimista.

De uma Páscoa sem Cristo — e sem Frelimisto. Não há redenção possível enquanto a mentira for o idioma nacional.

Páscoa significa passagem. Mas Moçambique não passa.

Está preso — Preso à nostalgia colonial, à incompetência dos “libertadores”, à ilusão infantil de que “Deus proverá”.

Mas Deus fugiu.

O Filho morreu.

E ninguém vem.

Georges Bataille disse:

“O ser humano só se realiza quando ultrapassa os seus próprios limites, na vertigem, no sacrifício, na negação de si.”

Mas aqui, ninguém ultrapassa nada.

Vivemos o mesmo ciclo, o mesmo trauma, a mesma mentira:

“Tudo vai melhorar”, dizem.

Mas não vai.

Melhorar é verbo interdito num país onde:

— pensar é crime,

— exigir justiça é terrorismo,

— falar verdade é provocação.

Não há mais espaço para profetas eleitorais.

 

Nem para messias de palanque.

A esperança morreu afogada na corrupção, e ninguém chorou o funeral.

O que temos são:

Igrejas-empresas institucionalizadas.

Partidos-seitas institucionalizados.

Pastores-vampiros institucionalizados.

É um povo anémico que confunde salvação com sobrevivência.

Que Páscoa pode haver num Estado que crucifica a juventude?

Que mata o sonho nas aldeias?

Que transforma o diploma em papel higiénico?

A nossa única esperança — se ainda existe — é a morte de todas as esperanças fáceis.

É o ateísmo político.

É o niilismo como método.

É a raiva transformada em ética.

Günther Anders disse:

“O mundo tornou-se tão monstruoso que o verdadeiro escândalo é suportá-lo.”

Pois que nos escandalizemos!

Que deixemos de aceitar!

Que sejamos heresia e incêndio — não liturgia, nem conformismo.

  1. “Se esta for a última Páscoa dos moçambicanos, que ao menos ela seja memorável…”

Pois que seja.

Mas não pelo cordeiro.

Pelo grito.

E o grito, hoje, não é oração e nem alelluia.

É confrontação.

 

É heresia.

É coragem de cuspir no altar da Frelimo e no púlpito dos vendilhões da fé.

Nietzsche matou Deus.

Mas em Moçambique professor, foi a igreja que O enterrou — com missa, incenso,

dízimo e bênção presidencial são eles que ditam as regras.

Professor, aqui a crucificação virou contrato público.

A ressurreição virou imposto.

E o inferno… é viver aqui, esperando um céu que nunca virá.

Professor Ngoenha,

O seu texto oferece um grande densidade simbólica e poética.

Mas a metáfora cristã — cruz, túmulo, sábado, domingo — já não serve como chave de leitura para uma nação que precisa, antes de tudo, descrer, decolonizar, destituir, e renascer.

Moçambique não precisa de um novo Domingo.

Precisa de um novo idioma.

Sem crucificados.

Sem redentores.

Sem Deus.

Sem partido uno.

Apenas um povo lúcido, insurgente, e sem medo.

Professor, a língua é o novo Domingo.

Se há algo que pode nos salvar — não será o Cristo, nem a Cruz e nem partidos Frelimo, Renamo, MDM, Podemos, Anamalala, Nova Democracia…

Será a língua.

Mas não essa — a língua do colonizador, da catequese, do partido.

 

Será a língua do povo. Do Shimakonde, do Kimuani, do xichangana, do echuwabo, do elomwe, do bitonga, do emakhuwa, do xindao, do xinyanja, do xisena, do ximanica, do xiyao, do xironga…Étcetera Étcetera.

Porque só se pensa com as palavras que se vivem.

E Moçambique vive em muitas línguas — mas governa-se em poucas.

A nossa salvação não está na ressurreição. Está na tradução do país para si mesmo.

Se esta for mesmo a Última Páscoa dos Moçambicanos, que ela não seja lembrada pelo cordeiro — mas pelo grito de um povo muito aturado e cansado.

Não pela fé.

Mas pela coragem de negar tudo o que nos mantém mortos.

Não pelo Domingo simbólico.

Mas pela escolha concreta de matar a mentira que nos crucifica há cinquenta anos.

A última Páscoa… talvez não precise de ressurreição.

Mas de ruptura.

O Fim da Páscoa

 

O sol ainda estava escondido no horizonte quando deixei a Vila de Inhassoro naquela madrugada fria. Eram cinco horas, e a brisa suave carregava o perfume da vegetação que cercava o pequeno cruzamento. Estávamos em missão: explorar o coração de Buchane, uma localidade quase mítica, onde o guano, o excremento de morcegos, é extraído e usado como fertilizante. Era trabalho para o programa MOZGROW, da STV, mas a viagem, como descobriríamos, era mais do que uma simples ida ao interior – era um mergulho num universo de mistérios.

Conduzia a viatura acompanhado pelo repórter cinematográfico Félix Jamisse e pelo nosso guia local. O carro cortava a estrada em silêncio, como se respeitasse a quietude daquela hora. O plano era simples: abastecer, seguir viagem e cumprir a pauta. Mas os planos têm o hábito estranho de se reinventarem.

Parei no cruzamento de Inhassoro para abastecer o carro. Era uma rotina sem surpresas: desligar o motor, encher o tanque, pagar e partir. Contudo, quando tentei ligar o carro novamente, o motor recusou-se a responder. Não fez sequer o som de tentativa.

– Parece que o carro perdeu a alma – murmurou Félix, a olhar para o painel inerte.

Liguei imediatamente para o mecânico. Do outro lado da linha, ele tentou tranquilizar-me, sugerindo que o problema fosse elétrico. A recomendação foi clara: chamar um eletricista auto. Segui o conselho e fiz a ligação. O eletricista garantiu que estaria connosco em breve. Contudo, meia hora depois, ao ligar novamente para confirmar, ele deu-me outra notícia:

– Hugo, o carro em que estou avariou. Vou ter de apanhar um Chapa 100. Peço só um pouco mais de paciência.

A paciência estava a ser testada quando o guia local, subitamente alarmado, exclamou:

– Esqueci-me de avisar o líder da comunidade!

Era um erro grave. Ele apressou-se a ligar, e algo mudou naquele instante. Enquanto desligava o telefone, Félix olhou para mim com um misto de convicção e intuição:

– Hugo, tenta ligar o carro outra vez. Algo diz-me que agora vai funcionar.

Não fazia sentido, mas fiz o que ele sugeriu. Rodei a chave, e o motor rugiu com vigor, como se nunca tivesse estado inoperante. Todos nos entreolhámos, sem explicações. Era apenas o início de uma série de acontecimentos que desafiaram a nossa compreensão.

Seguimos viagem, mas o guia trouxe-nos outro aviso, desta vez mais inquietante:

– O líder disse que devemos cobrir os espelhos do carro e não os abrir durante todo o percurso.

– Cobrir os espelhos? – perguntei, confuso.

– É tradição. Protege-nos, mas não posso explicar.

Cobri os espelhos. Durante os 30 quilómetros que se seguiram, o silêncio na viatura era quase palpável. As estradas pareciam mais longas, e o peso do desconhecido pairava sobre nós como uma nuvem densa.

Chegámos a Buchane e fomos recebidos pelo líder local, que nos conduziu até à gruta onde o guano é extraído. Enquanto Félix entrava na gruta com a câmara, fiquei do lado de fora, observando. Era um lugar de contrastes: a natureza exuberante parecia guardar um segredo antigo.

De repente, a vegetação moveu-se. Um movimento serpenteante e rápido chamou a atenção de alguns jovens locais, que murmuraram em citswa:

– Hi yona.

O coração disparou.

– O que é? – perguntei, tentando disfarçar o medo.

– É uma cobra – respondeu um deles, sorrindo. – Mas não se preocupe. Não vai fazer nada.

Eu, que sempre tive pavor de cobras, congelei. Aquele instante pareceu uma eternidade. Mas, seguindo o conselho do jovem, mantive a calma – ou pelo menos fingi. Quando Félix voltou, senti-me como se tivesse sido resgatado de um pesadelo.

Após concluirmos o trabalho, o líder local deu-nos uma orientação clara e firme:

– Não deem boleia a ninguém. Seja quem for.

Havia algo na sua voz que nos deixou sem argumentos. No regresso, passámos por várias pessoas à beira da estrada. Mães com crianças ao colo, jovens com olhares de súplica e até mulheres grávidas. Doeu-me no peito, mas obedeci. Algo maior parecia guiar aquele dia.

Quando finalmente chegámos a Inhassoro, o peso dos acontecimentos ainda pairava sobre nós. A viatura que não ligava, o aviso sobre os espelhos, a cobra e a ordem de não dar boleia – tudo isso parecia interligado de forma que a lógica não conseguia explicar.

Quando a tensão começava a dissipar-se, foi então que o guia decidiu partilhar uma história que nos arrepiou.

– A primeira vez que fui a Buchane, não recebi essa orientação. No regresso, demos boleia a uma senhora. Ela estava na parte de trás do camião de carga. Num certo ponto, o motorista olhou pelo espelho e não viu a senhora. Viu uma cobra
– O quê? – interrompeu Félix, espantado.

– Parámos imediatamente. Ligámos ao líder para contar o que aconteceu. Ele pediu que esperássemos. Poucos minutos depois, a cobra desceu do camião e desapareceu na mata. Desde então, nunca ignoramos as recomendações.

O silêncio voltou a tomar conta do ambiente. As palavras do guia ecoavam nas nossas mentes. Era difícil não ligar a história às nossas próprias experiências daquele dia – o carro que voltou a funcionar, os espelhos cobertos, os olhares de súplica ignorados na estrada

De volta à minha rotina, a história daquele dia não me abandonava. Seriam todos esses episódios mera coincidência? Ou será que há forças, crenças e tradições que transcendem o que a ciência explica?

Moçambique é um país de mistérios. Nas suas paisagens, tradições e silêncios, há verdades que não são ditas, mas vividas. Talvez, no coração de Buchane, tenhamos tocado um desses segredos – um que nos lembra que nem tudo precisa de explicação para ser real.

“A arte serve para consolar aqueles que foram quebrados pela vida.”
Vincent van Gogh

 

A imagem fotográfica é uma forma de preservação do que está condenado a desaparecer, revela-nos Roland Barthes. A verdade é que tudo está condenado a desaparecer – desde o que é físico até o que não se confina ao palpável. No final, tudo se esvai, esboroa-se. Tal como, filosoficamente, Heraclito de Éfeso (século VI a.C.) viu a vida como um rio em que “nenhum homem entra duas vezes”, as coisas não são estáticas. Ou seja, panta rhei (tudo flui) – até os nossos sentimentos, as nossas emoções, o nosso próprio “eu”, ao qual nos agarramos como se fosse algo pré-existente à nossa própria existência.

“Where do I land?” (Onde aterro? / Onde vou aterrar?) é um lugar onde se tenta preservar a efemeridade. Mas, se pararmos o tempo, nota-se a profundidade de tudo aquilo que passa depressa, que flui sem se perceber. Esta é a primeira exposição individual de Lillian Benny, e ela aproveita o espaço para interpelar o destino sobre o próprio destino: “Where do I land?”. A confusão é compreensível – o destino aqui não é geográfico, mas interno. São cidades mentais, sempre em dissolução, onde tudo, de facto, flui.

A beleza da exposição reside no que nos causa estranheza. Mas talvez isso seja o mais natural: tudo o que é reflexo da alma há-de causar espanto, porque a alma é como o espaço sideral – pouco se sabe dele e raramente se empreendem viagens de descoberta. Aos poucos, reconsidero o espaço do estranho na arte, porque parece que pode ser – e talvez deva ser – a sua essência.

“As legendas conferem direcção moral à imagem. São um meio de impor um significado, de canalizar a interpretação.” (Sontag, On Photography, 1977) A interpretação das fotografias foi, por momentos, difícil, pois os títulos das obras estão maioritariamente em inglês. Assim, a “interpretação” teve uma canalização algo apertada. Esta limitação interpretativa trouxe, no entanto, um certo requinte e elegância à exposição. O que certos títulos perdem na facilitação de leitura e imposição de sentido, ganham-no no sublime, no estético e no poético que emerge do misterioso e do estranho – como em “De nobilis ipsi silenums”, “Siegfried” ou mesmo “Erasure”.

É em “Erasure” que, mais do que ver ou traçar linhas interpretativas – porventura tortuosas –, sentimos a imensidão da vida. Quando se é criança, a vida parece caber toda na palma da mão.

Mas, à medida que crescemos, a vida cresce também – e fá-lo numa proporção muito superior à nossa. E o que nos resta? “São maningue cenas” parece ser a única forma possível de explicar o peso desta imensidão.

“Erasure” é um retrato da vida repleta de muitas vidas. O coqueiro representa a vida não orgânica – aquela que se desenvolve na convivência entre nós e os outros, misturada com sentimentos, emoções, lutas e corridas. Essa vida, embora fruto da nossa própria criação, cresce tanto que ganha vida própria, erguendo-se para além de nós. E nesse momento, instala-se a contrariedade:

já ninguém sabe o que fazer com essa vida que se impõe, pressiona (socialmente) e exige ser aceite. Tudo isto gira como uma bola de nove que rola montanha abaixo – ninguém a segura.

Esta vida cresce até se tornar um coqueiro, e vemo-nos, por vezes, desesperadamente pequenos – tal como o personagem na fotografia.

A vida, quanto mais cresce, mais nos torna pequenos e ínfimos. Esmaga-nos esta discrepância entre a sua robustez e a nossa fragilidade. E, assim, sentimo-nos cada vez mais diminuídos, mais apagados.

Outro aspecto relevante: toda a exposição é monocromática. Preto e branco – apenas – em todas as fotografias, o que adensa a atmosfera e intensifica a melancolia de quem observa. É um ambiente denso e profundo, que favorece a reflexão e a introspecção. Na fotografia em questão, a coloração cinzenta harmoniza-se com o céu nublado, remetendo para os meses que antecedem Junho, o prefácio do frio. A estação da vida que pede agasalho, recolhimento e, talvez, um abraço É algo digno de nota: em todas as fotografias há apenas uma figura humana e paisagens (muitas delas interiores), sugerindo uma viagem solitária em direcção ao destino. A obra “Erasure” segue essa mesma linha sugestiva. Aqui, ao contrário das outras, a fotógrafa parece querer dizer-nos que cada um, singularmente, sente o peso da vida. Ou que há viagens, na vida, cujo bilhete é só de ida e apenas para um. Como escreveu Dostoiévski, “Todos somos fadados a ser solitários, e passamos a vida a tentar não o ser.” (in Notas do Subsolo) A fotografia “Erasure” Integra a exposição “Where do I land?”, a estreia individual de Lillian Benny, patente até 30 de Maio. Nela, mergulhamos nas profundezas da alma humana – nesse lado escuro, no porão da casa, onde tudo está desorganizado e paira o cheiro a poeira.

 

Que desastre!

A Natureza pode estar doente e os ciclones, a seca extrema, inundações que têm assolado o nosso país, ceifando vidas e destruindo a esperança das comunidades podem ser sinais e sintomas que resultam desta doença, chamada mudanças climáticas. Este problema mexe não só com os moçambicanos, mas com todos e exige uma resposta à altura. Não se trata de quem polui menos ou mais, não se trata de ser um país desenvolvimento ou em desenvolvimento, o problema é de todo o planeta.

Com recurso à escrita, imaginação e criatividade, os autores de Crónicas de Desastres unem-se para despertar a consciência de todos nós sobre as mudanças climáticas, transmitindo o seu ponto de vista, bem como apresentando estratégias ou acções concretas como forma a mitigar os problemas que surgem em consequência dos desastres naturais, um mal que frequentemente têm assolado o país.  

Moçambique tem mais de três meses para se preparar para época chuvosa, porém, durante esse tempo, o Governo fica invisível, nada faz e nada fala. E quando a época chuvosa chega, o Governo só aparece 48 horas depois do desastre ter acontecido e, mesmo assim, nada faz, a não ser desfilar a sua classe e apreciar o cenário para, depois, falar com a imprensa. Quem socorre a população são os voluntários.

Na primeira crónica do livro, “Crepúsculo Sombrio”, o Governo é convidado a reflectir sobre o seu papel na redução dos impactos dos riscos causados pelos desastres naturais. Exige-se desse mesmo Governo, que cobra impostos à população, a construção de infra-estruturas resilientes de forma antecipada, bem como ter uma intervenção activa, sobretudo no apoia às vítimas das enxurradas que vêem as suas casas, machambas, animais e outros bens a serem engolidas pelas águas da chuva. 

Enquanto uns reclamam da chuva, outros choram por conta da seca causada pelas mudanças climáticas. Os rios e lagos secam por falta de chuva, o gado fica esqueleto pois a fúria do sol queima o capim. Tudo mudou com as mudanças climáticas e nem podemos contar com a ajuda do Pangolim, que antigamente, tinha a missão de trazer de volta a chuva (esse mamífero tem sido raro nos dias de hoje). 

Por isso, na crónica “Sequestrador da Chuva”, a ciência é vista como uma ferramenta a ser usada para resolver os problemas que afectam as comunidades, e todos nós somos chamados a envolvermo-nos em campanhas ecológicas de adaptação e resiliência climática, a plantar árvores e outras plantas imunes ao sal, à volta da costa para que a terra não seja engolida pelo mar, evitar caçar, usando fogo que destrói a floresta e empobrece o solo. 

Deve-se buscar uma harmonia entre a humanidade e o clima. A força e coragem de um povo moçambicano não são suficientes para lidar com a magnitude das mudanças climáticas. Todos temos que caminhar em direcção à redução das emissões de gases de efeito estufa e implementar estratégias de adaptação. 

É com a crónica “Dança do Clima” que somos lembrados da necessidade do mundo unir-se para salvar a nossa biodiversidade, conservar o ecossistema para evitar a degradação da camada do ozono, e a garantir um futuro sustentável para as gerações vindouras antes que a vida se torne insustentável na terra.

O problema do planeta terra não só afecta o ser humano, os animais também sofrem a cada abate de árvore, que transforma a sua casa e o seu  alimento, num simples troco para o fabrico de objecto para o Homem, sem sequer se importar com a vida do animal e da própria árvore. 

“A Sombra Derrubada” mostra-nos que a falta de consciência ambiental e priorização do lucro, em detrimento do bem-estar do planeta, faz com que a humanidade explore de forma irresponsável os recursos naturais, visando apenas benefícios financeiros sem levar em consideração possíveis impactos das suas acções para o ambiente. 

O abate indiscriminado de árvores sem substituição, assim como as queimadas descontroladas associadas à caça, leva ao desflorestamento, reduzindo deste modo, tudo a deserto. Sem as árvores, sem a chuva, e o sol intenso, só resistem dúzia de árvores, com destaque para embondeiros e arbustos. 

Na crónica “Seca em Kanhemba” e “As cheias em Ndziluene”, este cenário cria a necessidade de se traçarem medidas para o reflorestamento, a reposição das espécies de árvores em extinção, mostrando, deste modo, a importância do Homem cuidar bem das florestas e a caçar de forma racional. A construção de casas em zonas baixas, nos cursos de drenagem da água de chuva, é também uma outra realidade apresentada ainda naquela crónica. De forma a evitar a perda de bens, a crónica faz-nos repensar a possibilidade de habitar em zonas altas e seguras, longe dos cursos de drenagem da água de chuva.

Sobre as drenagens, que quase não existem, em “Para a água Desalgemanda”, o Governo  é convocado a assumir o seu papel em projectos ambientais, assim como nas construções de reservas de águas das chuvas que inundam as casas, machambas e arrastam o gados todos os anos, por não terem um caminho por onde passar. Assim como são feitas estradas para os carros circularem, devem ser construídas estradas (valas) para as águas passarem. 

O nosso mau hábito de deitar frequentemente o lixo em qualquer lugar, faz com que o lixo também se apoderam dos caminhos das águas, constituindo um obstáculo para a sua passagem. 

Em “Lixotoleles”, o maluco da lixeira de Hulene chama atenção aos estudos e letrados para a gestão dos resíduos sólidos, sendo que, a falta da gestão do lixo acumulado à beira da estrada, chega a parecer uma autêntica biblioteca, com plásticos, papel, vidro ou até mesmo chega a parecer um supermercado de ratos, moscas e cães vadios.

Na crónica “Pensem Comigo”, vemos que o ser humano é a maior fonte de desgraça que assola o meio onde ele mesmo vive. O seu desrespeito e a sua negligência com o meio onde vivemos faz-lhe  poluir onde vive. Precisamos de criar uma cultura de protecção do meio, o que implica cuidar e respeitar o meio ambiente. Não é por falta de leis ambientais que os país têm ficado mais doente e mais sensível e quase nada se faz para o curar. Em Moçambique, as leis ambientais apenas servem para minimizar os estragos. 

A necessidade de deixar a Natureza respirar, e não substituir os lugares verdes, o habitat do mangal pelos prédios de betão, é também invocada em “Memória de um sonho”, quando o homem, usando a sua coragem, invade uma zona que não lhe pertence e retira o mangal do seu habitat para, em seu lugar, erguer casas, sem pensar no impacto desta acção. 

Tempos depois, a água invade a casa que o homem considera como proprietário em busca do que lhe pertence por natureza, e, consequentemente, ventos fortes, chuvas, ciclones são respostas da Natureza aos actos cometidos pelo próprio homem. A conservação do mangal não é apenas uma questão ambiental, mas uma questão de sobrevivência para variedade de espécies marinhas, aves e muitas comunidades costeiras. Para além de serem essenciais para combater as mudanças climáticas. 

A ambição do Homem levou-o ao abate de árvores, para fornecer matéria-prima às indústrias nacionais e estrangeiras que poluem o ambiente, mas isso não bastou, o seu egoísmo o levou à extração de recursos naturais, até de areias pesadas. Todas essas acções têm impacto, são casas, estradas destruídas por terramoto, ciclone, tsunamis, aquecimento global, chuvas intensas e erosão. 

“A Esposa Corajosa” convida-nos a pensar sobre a preservação da vegetação, respeitar as zonas impróprias para a exploração, incentivando o plantio de árvores. 

A ganância do ser humano transcende também para a exploração de gás, levando ao enriquecimento do Homem, deixando o alto mar poluído. Vemos essa narrativa em “O Ngoza Tombou”, onde o Homem tem a sua vida facilitada, mas a emissão de gases nocivos que lesionam a camada de ozono é maior, com o uso de máquinas que funcionam dos motores a combustível. E como forma de vingança, o mar cospe de volta o lixo depositado nele, com as suas ondas engole os barcos e navios no alto mar, e a terra estremece causando a ocorrência dos ciclones.  

Em nome do desenvolvimento e da melhoria da vida humana, o Homem violenta a terra até ao extremo. 

A crónica “E Depois de Marte?” revela que a liberdade do Homem mostra a sua irresponsabilidade para com a terra. Uma vez que o Homem, a partir de actividades industriais,  faz a libertação de gases tóxicos à terra e envenena o ambiente com os resíduos industriais, tudo isso contamina o solo, causando aquecimentos globais, ciclones, vulcões e sismos. 

Apesar de estamos no século dominado pela tecnologia, a terra não pode ser restaurada como um smartphone, mas pode-se melhorar o que lhe resta.  E há necessidade de se resgatar no Homem o espírito do ECO 92, COP 27 e o cumprimento da agenda-2030, pois as cicatrizes deixadas pelas mudanças climáticas são muitas.

Ainda vivenciamos catástrofes naturais e doenças. Os desastres naturais ocorrem com maior incidência em África e a sua economia não é tão robusta como a dos países desenvolvidos, mas isso é um ponto de partida, pois, neste mundo onde tudo se resume em negócio,  os países desenvolvidos aproveitam-se disso e, de forma camuflada, mostram solidariedade aos países em desenvolvimento, como Moçambique.

Em  “Redução de Riscos de Desastres”, somos alertados sobre a solidariedade dos países em desenvolvimento, o que sai muito caro aos países em desenvolvimento, pois os investidores encontram meios de explorar as riquezas dos países em desenvolvimento, e, de seguida, dão migalhas em nome de ajuda às populações. Em contrapartida, as suas fábricas de plásticos destroem a natureza. Os mecanismos de gestão dos desastres naturais são uma vantagem para os líderes encherem os seus bolsos. 

Os eventos climáticos extremos continuaram a acontecer, mas temos que ter sabedoria e acção rápida em prol da redução dos riscos de desastres naturais, se quisermos vivenciar “O renascer da cidade de Idai”. Não devemos nos acomodar, temos que buscar novas soluções, pois a natureza é dinâmica e imprevisível, e a resiliência exige constante aprimoramento. A solidariedade e a união são pilares fundamentais na busca pela resiliência.

A redução dos riscos de desastre não se limita apenas aos aspectos técnicos. Todos, desde  o Governo, engenheiros, arquitectos, líderes comunitários e a população em geral, somos chamados, na crónica “O renascer da cidade de Idai”, ao compromisso com a resiliência e sustentabilidade, para actuar em situação de emergência. Para isso, há necessidade de criação de sistemas de alerta precoce sobre a incidência de alguns desastres naturais.

“A ortotanásia da pureza de Muhira” também retrata a necessidade de a comunidade abandonar as suas casas em zonas baixas e pedir abrigo em casas seguras e situadas em altitudes. Isso só é possível quando os ciclones são anunciados antecipadamente. Ter conhecimento da ocorrência de desastres naturais com antecedência, dá tempo às pessoas para se prepararem. Com a informação as  pessoas saberão o que devem e o que não devem fazer. É certo que os ventos arrastam os pertences das famílias, mas as suas vidas estarão salvas.

Muitas vezes, a falta de informação sobre as zonas propensas a inundações faz-nos sofrer. Abandonamos os locais inseguros à procura de melhores condições e acabamos por nos abrir novamente em zonas com as mesmas características. Uma Situação retratada em  “Sofrimento por ignorância”, onde somos convidados a procurar junto com um especialista por zonas seguras e fazer construções resilientes. 

E que tal se fizermos o mapeamento das áreas de risco susceptíveis a ciclones, cheias e outros desastres e transformá-las em parques e reservas naturais de modo que não sejam ocupadas inadequadamente? A transformação não acontece de noite para o dia, mas, com o tempo, com a perseverança e crença de que a acção contribui para a construção de um futuro onde a convivência com a Natureza é harmônica e segura. 

Ainda há muito trabalho a ser feito para alcançar um futuro sustentável.  A biodiversidade foi afectada e até a saúde da população foi comprometida, pois com as temperaturas elevadas cada vez mais preocupantes, as doenças tropicais aumentaram. Enfrentar os obstáculos impostos pela resistência do sector económico sobre o ambiente, assim como superar obstáculos políticos e burocráticos, é a missão de todos nós.

Por isso, em  “A Guardiã do Clima” somos atribuídos a missão de proteger o meio ambiente dos desequilíbrios causados pelas mudanças climáticas, assim como, consciencializados a  tomar medidas de reflorestamento, protecção do ecossistema, investimento em energias renováveis para redução da emissão de gases de efeito estufa.

A preservação da vegetação, assim com o respeito às zonas impróprias para a exploração, incentivando o plantio de árvores, são também apontados em “A esposa corajosa”, onde, através de uma narrativa, reparamos que a ambição do Homem levou-o ao abate de árvores, para fornecer matéria-prima às indústrias nacionais e internacionais que poluem o ambiente, mas isso não bastou, o seu egoísmo levou-o à extracção de recursos naturais, até de areias pesadas. 

Com essas acções, a Natureza se zanga, e para mostrar o quão grandiosa e majestosa é, causa   terremoto, ciclone, tsunamis, chuvas intensas, erosão e invoca a camada de ozono para queimar o ser humano com o sol, aquecimento global.

As mudanças de temperaturas fazem parecer que Deus está zangado com o planeta e estamos no fim do mundo. Se não aquece de forma excessiva, faz frio, se não é ciclone, são terramotos ou cheia. Há sempre algo complicado a acontecer. É com  “Deus não fritou o mundo”, que percebemos que Deus não é culpado por isso, o Homem é que é o causador das queimadas descontroladas, emissão de gases produzido pelas fábricas e queimadura de plásticos, é que é o diabo da Natureza, o inimigo da Natureza.

O desastre, na maioria das vezes, é causado por nós próprios. Para acabar com o desabamento, cheias e outros desastres naturais, a população é convidada, na crónica “O renascimento da minha terra”, a assinar um acordo de paz com a natureza, pois um depende do outro para a sua sobrevivência. A natureza acompanha-nos até à morte e nós devemos cuidar dela para que ela nos dê o que tem de melhor. 

É importante que o Homem cuide da Natureza. Para isso, é fundamental que ele tenha conhecimento sobre as mudanças climáticas. 

A crónica “E se soubéssemos” faz-nos reflectir em torno da prevenção, planeamento, preparação, alerta, resposta, resiliência, sustentabilidade, mitigação e educação ambiental, para lidar com as mudanças climáticas e o aumento de ocorrências dos desastres naturais.

Com esta viagem que acontece dentro das 115 páginas e vinte crónicas, conduzida por 20 estudantes de vários pontos do país, o leitor é convidado a uma reflexão sobre a importância da redução dos riscos causados pelos desastres naturais. 

A colectânea “Crónicas de Desastres” mostra ainda que precisamos aprender com os erros e buscar novas soluções, porque a jornada da redução dos riscos de desastre não tem fim, mas um começo.

* Texto escrito na sequência da apresentação do livro “Crónicas de Desastres”, no Instituto Guimarães Rosa, em Maputo. 

Nascem de um projecto, Boa Coisa, uma associação sem fins lucrativos que promove a arte e cultura moçambicana, e afirmam-se como parte das recomendações do governo no sector da cultura em Moçambique, que é transformar a cultura em actividades de renda e auto-sustento para os artistas e as comunidades moçambicanas.

Quiosques artesanais, patentes na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo, inaugurados na presença da Secretária das Artes e Cultura, contém um espaço palco para eventos músicas, teatro, conversas, com uma cobertura ao céu, arquitectónica em madeira pinus, dando passagem do ar para o alívio dos fumadores e do público. 

Um design de construção que voltou a transformar a FEIMA, o projecto vem mostrando e oferecendo aos munícipes, mas um espaço de lazer e divulgação cultural.  Matilde Muocha ficou impressionada com o projecto tento reforçado que o mesmo deve ser abrangente e divulgado aos demais fazedores culturais, como um espaço aberto para a utilização de todos.

Um espaço aos custos projectado pela associação, é possível à venda de diversos produtos artesanais, de pintura, bijuteria, alimentares. Para os amantes da moda, o espaço dá este privilégio a um desfile encantador das marcas de roupa, de alta costura a iniciantes. Dentro da cidade das acácias, os quiosques artesanais são uma realidade, não emprestam o cenário elitista, mas sim de divulgação cultural. É um espaço aberto ao turismo.

São quiosques simples. Mas com adornos. São artesanais porque foram feitos com recursos a técnicas industriais, com atenção aos detalhes, valorização da qualidade e autenticidade, usaram-se contentores para os fabricar, mas os detalhes das pinturas, dos embelezamentos tem toques da nossa forma de viver entre os povos e culturas, com uma ode à arte, inspira, degusta-se metaforicamente os nossos apetites de transcendermos.

 

Como comecei a gostar de livros 

Geralmente, a memória da infância, onde as primeiras sementes da imaginação são lançadas, guarda os rastros luminosos dos primeiros encontros com a palavra escrita. Para mim, este despertar ocorreu ao som das histórias contadas pelo meu avô, um contador de palavras que transformava o quotidiano em aventura e o passado em lição. A estas narrativas fundadoras, acrescentaram-se as cores vibrantes e as personagens singulares dos livros da “Rua Sésamo” e a banda desenhada, onde a imagem e a palavra fundiam-se, revelando a gramática secreta da narrativa visual.

Nessa fase inicial, a apreensão do livro não se limitava ao seu conteúdo semântico; antes, estava centrada na sua materialidade, na sua presença física como objecto. Cada volume, com o seu característico cheiro, a textura das suas páginas e o peso específico na mão, despertava uma atmosfera de mistério. Na verdade, para a criança que lê um livro, todos eles são, na sua essência, “objectos enfeitiçados”, portais para dimensões desconhecidas, uma promessa de mundos ocultos sob as suas capas.

 

Como me iniciei na escrita?

O passo seguinte, quase inevitável para os que se deixam envolver pela magia das histórias, foi o desejo de participar [activamente] desse processo de criação de mundos. Inicialmente, essa participação começou de maneira mais simples: a criação das minhas próprias narrativas, contadas com a mesma vivacidade com que ouvia as do meu avô, numa tentativa de prolongar o encantamento e oferecer, em troca, outras paisagens.

Com o decorrer do tempo, esta vontade de contar evoluiu (gosto de pensar que sim) para a poesia, um exercício de condensação da emoção e da ideia num ritmo e numa melodia próprios. Depois, a participação em concursos literários, ainda que com a insegurança típica da juventude, foi uma primeira tentativa de lançar as minhas próprias criações ao encontro de outros olhares, de testar o seu valor (venceria, assim, o 3.º lugar no Concurso de Ficção Narrativa João Dias, em 2009).

Descobri, assim, que a escrita não somente era como uma forma de expressão individual, mas uma ponte para o outro, uma maneira de estabelecer uma comunhão de sentimentos e de experiências. Escrever é, sobretudo, uma forma de estar com os outros, de partilhar fragmentos da nossa essência, de oferecer ao mundo a nossa própria interpretação da realidade. É, em última instância, a concretização das nossas crenças e a projecção da nossa visão do mundo, um acto de ousadia de querer brincar de Deus.

 

Por que é importante ler?

A questão da relevância da leitura é fundamentada por uma série de razões, cada uma delas a iluminar uma faceta essencial do seu impacto na formação do indivíduo e da sociedade.

(a) Em primeiro lugar, a leitura é uma das formas de acesso à cidadania plena. Através do contacto com a palavra escrita, o homem aprende a compreender o mundo, analisar criticamente a informação, formar opiniões e participar no debate público. A leitura emancipa o cidadão, munindo-o das ferramentas intelectuais necessárias para exercer os seus direitos e deveres de forma consciente e responsável.

(b) A leitura é, de certa forma, um acto de libertação. Permite-nos transcender os limites do quotidiano, viajar por tempos e espaços distantes e experimentar vidas e perspectivas distintas. Ao mergulharmos nas páginas de um livro, libertamo-nos das amarras da nossa realidade imediata, expandindo os nossos horizontes e enriquecendo a compreensão da condição humana. A leitura também desenvolve a capacidade de expressão livre, permitindo-nos reconhecer na escrita de terceiros a legitimidade das nossas próprias palavras e incentivando-nos a expressar as nossas ideias e sentimentos.

O hábito de ler, sem importar o género ou o tema, é de importância inquestionável. Não me refiro aqui à leitura fragmentada e superficial das mensagens instantâneas ou dos posts. Falo da imersão profunda nos contos, romances, poesias, etc., aventuras que expandem a imaginação. É esta leitura consistente e absorvente que nutre o intelecto e a sensibilidade.

(c) A leitura tem algo de misterioso em si, uma alquimia peculiar que transforma a palavra escrita em experiência viva. Como evoca uma imagem poética, a leitura acontece quando “uma palavra que faz cócegas nos ouvidos”, despertando em nós ressonâncias inesperadas, emoções subtis e novas formas de compreender o mundo.

(d) Por fim, a leitura não se limita à aquisição de informações ou ao entretenimento passivo.

“É preciso ler para ser”, para nos construirmos como pessoas (sujeitas de direitos e deveres), capazes de pensar, de empatia e de compreender a nossa própria humanidade. A leitura é crucial para a contínua construção do ser.

 

O livro é importante?

A importância do livro, enquanto objecto físico que transporta consigo séculos de conhecimento e de imaginação, permanece inabalável (“os dinossauros não sabiam ler e estão extintos, será coincidência?”). Da mesma forma, as bibliotecas, esses “templos do saber e da imaginação”, continuam a desempenhar um papel crucial na democratização do acesso à cultura e à informação.

A relevância da literatura infantil para o desenvolvimento da criança é indiscutível, estudada e documentada. Os livros bem concebidos estimulam o gosto pela leitura, a imaginação, a criatividade e oferecem ferramentas para compreender o mundo e formar o carácter. Um bom livro infantil transcende a sua aparente simplicidade e desafia as crianças e os adultos a reflectir sobre questões profundas e universais.

Num mundo cada vez mais digital, a biblioteca física, por sua vez, preserva a importância do encontro com o livro enquanto objecto tangível e promove um ambiente propício à concentração e à imersão no universo da leitura.

Para concluir, na semana em que se celebra mundialmente o livro e os direitos do autor, é crucial reconhecer a relevância do livro e da leitura, reforçando os pilares que sustentam o seu acesso, uma vez que é na “palavra enfeitiçada” que reside uma das mais poderosas ferramentas para a formação de indivíduos mais livres, críticos e humanos.

* É professor, escritor e editor. O presente texto é uma versão escrita de uma palestra apresentada no Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, 23 de Abril de 2017, na Escola Secundária das Acácias, Maputo.

 

Em “História secreta de um romance”, o genial escritor peruano, Mario Vargas Llosa, que abandonou o mundo dos vivos no domingo, ao relatar como redigiu um dos seus mais belos e pungentes romances, intitulado “A Casa Verde”, diz o seguinte e eu cito: “Escrever um romance é uma cerimónia parecida com o “strip-tease”. Como a rapariga que, sob impudicos reflectores, despe as suas roupas e mostra, um por um, os seus encantos secretos, também o romancista desnuda em público a sua intimidade através dos seus romances. Há, evidentemente, diferenças. Aquilo que o romancista exibe de si mesmo não são os seus encantos secretos, como a rapariga desenvolta, mas demônios que o atormentam e obcecam, a parte mais feia de si mesmo: as suas nostalgias, as suas culpas e os seus rancores. Outra diferença é que, num “strip-tease”, a rapariga começa vestida e acaba despida. No caso do romance, a trajectória é inversa: o romancista começa por estar despido e acaba vestido. As experiências pessoais (vividas, sonhadas, ouvidas, lidas) que constituíram o principal estímulo para escrever a história mantêm-se tão maliciosamente disfarçadas durante o processo de criação que, uma vez terminado o romance, ninguém, muitas vezes nem o próprio romancista, consegue escutar facilmente esse coração autobiográfico que palpita fatalmente em toda a ficção. Escrever um romance é um “strip-tease” invertido e todos os romancistas são exibicionistas discretos.”

Mario Vargas Llosa, para além de ser um extraordinário fabulador, era também um brilhante ensaísta. Ao contar a história como escreveu, entre 1962 e 1965, “A Casa Verde”, uma história secreta, na qual ele desvenda o processo que o levou à criação desse belo livro, complexo e imaginativo, que se situa em dois lugares e planos diferentes – Piura, no extremo norte da costa e Andes – dois lugares e dois mundos históricos, sociais e geográficos, opostos e antagónicos de certo modo, há o gênio, o talento, e, sobretudo, a grande arte narrativa de Vargas Llosa.

Lembrei-me, esta noite, deste livrinho quase melancólico – “História secreta de um romance” -, que recolhe uma conferência, proferida na Washignton State University (Pullman, Washingtom, em 11 de dezembro de 1968) e escrita, como o escritor acautela, originalmente, num inglês rudimentar, mas que este haveria de reescrever em 1971. É fascinante ler este pequeno livro e habitar o universo, os demônios, as incertezas, as dúvidas, as nostalgias e as culpas do romancista. Nele, Vargas Llosa demonstra cabalmente a sua tese e o faz esplendidamente.  

Mario Vargas Llosa é o último grande vulto do chamado “boom” latino-americano. Escreveu livros notáveis e recebeu inúmeros prémios, entre os quais o Nobel, que chegou em 2010 quando, provavelmente, ele já não o esperava. Desde “A Cidade e os Cães” (1962) a “Cinco Esquinas” (2016) escreveu livros inolvidáveis. Para mim, para além de “A Casa Verde”, que motivou aquela história bela e secreta, destacaria “A Conversa na Catedral” (1969), “A Tia Júlia e o Escrevedor” (1977), “A Festa do Chibo” (2000). Bastaria ele ter escrito “A Conversa na Catedral” e “A Festa do Chibo” para entrar no meu panteão. Mas devo-lhe, devemos-lhe muito mais.

Quando lhe deram o Nobel, “por sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens pungentes sobre a resistência, revolta e derrota dos indivíduos” (Academia Sueca dixit), lembrei-me, inevitavelmente, de um outro romancista, latino-americano, que o tivera em 1982, de quem fora grande amigo, sobre quem escrevera inclusive um livro culto e notável – “História de um Deicídio” – e com quem rompera em 1976: Gabriel García Márquez.

Em Julho de 2017, numa conversa sobre o colombiano que falecera três anos antes, Vargas falou de García Márquez e da amizade literária mais mítica da América Latina. Durante anos declinara comentar sobre o fim dessa amizade. Quem conhece Vargas Llosa e os seus escritos não encontrou, provavelmente, novidade nesse momento nostálgico. Lá estão os anos 50/60 de Paris, onde se descobrira como latino-americanos (a sua obra “História Afectiva da América Latina” é uma extraordinária evocação desse tempo e das suas personagens), lá estão as leituras, a influência de Sartre, o amor comum por Faulkner, a influência de Virgínia Woolf sobre o colombiano, o tempo de Barcelona (onde foram todos parar por influência de Carmen Balcells, a agente literária que os lançou), lá está a conversa sobre Cuba e as contradições que a revolução, Fidel e o caso Padilla incendiaram, o terramoto (termo meu) que o livro “Cem Anos de Solidão” provocou, entre outros.

Surpreendeu-me – e isso foi uma novidade para mim – a opinião dele sobre “O Outono do Patriarca”. Quando li este livro fascinou-me essa cartografia de poder que García Márquez fez, também é um grande mestre. Mario Vargas Llosa afirma sobre aquela obra: “Não gostei. Talvez seja um pouco exagerado dizer assim, mas achei a caricatura de García Márquez, como se estivesse imitando a si mesmo. O personagem não me parece nada verosímil. Os personagens de “Cem Anos de Solidão”, ao mesmo tempo que são desenfreados e além do possível, são sempre verosímeis, o romance tem a capacidade de torná-los verosímeis dentro do seu exagero. Ao contrário, o personagem do ditador me pareceu muito caricatural, um personagem que era como uma caricatura de García Márquez. Além disso, acho que que a prosa não funcionai, que nesse romance ele tentou um tipo de linguagem muito diferente da que tinha utilizado nos romances anteriores e não deu certo. Não era uma prosa que dava verosimilhança e persuasão à história que contava. De todos os romances que ele escreveu acho esse o mais fraco.”

Plinio Apuleyo de Mendonza sobre o “O Outono do Patriarca” perguntara a Gabriel García Márquez: “Disseste sobre “O Outono do Patriarca” coisas bastante paradoxais. Primeiro que é o mais popular de todos os teus livros do ponto de vista da linguagem, quando na realidade pareceria o mais barroco, o mais difícil…”

Gabriel García Márquez responderia: “Não, está escrito utilizando uma grande quantidade de expressões e refrãos populares de toda a zona do Caribe. Os tradutores às vezes ficam loucos tentando encontrar o sentido de frases que os motoristas de táxi de Barranquilla entenderiam de imediato, e com uma risada. É um livro raivosamente caribenho, costeño, um luxo que se permite o autor de “Cem Anos de Solidão” quando decide por fim escrever o que quer.”

A conversa, em “O Aroma da Goiaba” prossegue. Não importa transcrevê-la por inteiro. A opinião do Vargas Llosa, no entanto, desassossegou-me.

Tenho que reler “O Outono do Patriarca”. Li-o demasiado jovem. Há meses reli “Ninguém Escreve ao Coronel” e exultei. Tinha-o o lido antes dos 20 anos. Para além desse livro sou um devoto de “O Amor nos Tempos de Cólera”, dos contos de “Os Funerais da Mamã Grande”, dos “Cem Anos de Solidão”, ou da “Crónica de uma Morte Anunciada”. Li com emoção a autobiografia “Viver para Contá-la”.

A amizade entre Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez, que nascera de uma admiração mútua, cartografada antes por correspondência, antes de ambos se encontrarem, em 1967, no aeroporto de Caracas, foi interrompida em 1976. Um manto cobre as razões. Vargas escusa-se a falar disso. Nenhum deles esclareceu. Diz-se que quando Vargas ganhou o Nobel, Márquez terá admitido: “Cuentas iguales”. Como quem diz: estamos empatados. Verdade ou mito?

Alguém disse algures: durante anos se dizia que Mario era muito bom, mas o verdadeiro génio era Gabo (García Márquez). O seu Nobel, em 1982, assinalou essa ligeira superioridade. Entretanto, em 2010, ficaram empatados. Nunca mais se viram desde o rompimento. Como recebeu a notícia da morte de García Márquez? – quis saber Carlos Granés numa conversa recentíssima.

Mario Vargas Llosa respondeu: “Com pena certamente. É uma época que acaba, como com a morte de Cortázar ou de Carlos Fuentes. Eram escritores magníficos, mas também foram grandes amigos, e o foram num momento no qual a América Latina chamou a atenção do mundo inteiro.

Como escritores, vivemos um período em que a literatura latino-americana era uma credencial positiva. Descobrir que, de repente, sou o último sobrevivente dessa geração e o último que pode falar em primeira pessoa dessa experiência é algo triste.”

Seja como for, ao ler esta revelação melancólica, assinalo que tanto um como o outro são dois notabilíssimos escritores. Pessoalmente, sinto-me dividido entre ambos, entre a perícia técnica e a capacidade fabular do peruano e a exuberante e torrencial narrativa do colombiano. Um era mais cerebral e o outro mais poético. Mas ambos praticavam o mesmo exercício de “strip-tease” de que falava Vargas Llosa na sua história secreta de “A Casa Verde”, que era curiosamente, uma casa de alterne.  

Termino, este breve elogio ao peruano agora desaparecido, citando parte desta entrevista onde Mario Vargas Llosa traça o perfil literário de Gabriel García Márquez, sobre o qual não tenho resistência nem dificuldade em aceitar. Vargas Llosa: “Era extraordinariamente divertido, um óptimo contador de casos, mas não era um intelectual, funcionava mais como um artista, como um poeta, não estava em condições de explicar intelectualmente o enorme talento que tinha para escrever. Funcionava à base de intuição, instinto, palpite. Essa disposição tão extraordinária que tinha para com os adjectivos, com os advérbios e sobretudo com a trama e a matéria narrativa não passava pelo conceitual. Naqueles anos em que fomos tão amigos eu tinha a sensação de que muitas vezes ele não era consciente das coisas mágicas, milagrosas que fazia ao compor as suas histórias.”

Não sei, quando de Lima se noticia o seu declínio, o que pensar: se numa rapariga desenvolta, perante os impudicos reflectores, enquanto se despe, peça a peça, revelando os seus secretos encantos, ou, pelo contrário, se cogito no destino do último resistente do “boom” latino-americano, se me indago se temos a noção da magia, do milagre e do espanto que a sua extensíssima obra provoca, se penso nos seus demónios, nas suas incertezas e contradições, nas dúvidas e nostalgias, se penso no homem que defendia intransigentemente a liberdade, ou, simplesmente, se fico detido naquela imagem poderosa, lembrando a sua actuação longa e extraordinária, genial e incontornável, do contador de histórias, esse mestre imortal, subscrita no “strip-tease” do romancista que acontece inversamente.

 

Cidade do Cabo, 15 de Abril de 2025

 

A savana política de Moçambique nunca dorme, mas a Girafa quer descansar. Com o seu longo pescoço, ela enxerga de longe os perigos e os aliados, mas não vê o que está bem debaixo do seu nariz. Para dormir em paz, precisa garantir que ninguém faça barulho, que os ventos da contestação não soprem forte o bastante para balançar a sua estabilidade.

A Girafa já não fazia coito há tempos. Não porque não queria, mas porque simplesmente não conseguia. O barulho da floresta, as esquinas cheias de vozes, as imagens que saltam da televisão, os debates sem nexo na internet — tudo isso lhe tirava o desejo, apagava-lhe o apetite. A comida não descia no estômago, a cabeça pesava, o corpo reclamava. Não há espaço para prazer quando a floresta inteira se contorce na agonia de uma governação que, em vez de soluções, só oferece reuniões fúteis com animais desnecessários, discursos tardios e sorrisos forçados.

Foi por isso que, em plena noite, chamou a Raposa para um encontro. Mas a Raposa, astuta e perspicaz, como sempre, sabia que não fora convidada para um banquete nem para discutir o destino da savana. O que a Girafa queria era simples: domesticá-la, torná-la inofensiva, fazê-la parte do sistema. Porque uma Raposa solta na floresta pode ser um grande problema — ela sabe onde estão os rastros dos predadores, conhece os atalhos do poder e, acima de tudo, pode ensinar os outros animais a não caírem nas armadilhas da Girafa.

Os Girafinhos, pequenos, mas vorazes, inquietaram-se. Durante muito tempo, reinaram absolutos, negociando tudo que podiam – da carne dos búfalos ao próprio destino dos filhotes indefesos. A savana era deles, e ninguém ousava contestar a sua autoridade. Mas, de repente, o inesperado aconteceu, houve barulho. A floresta agitou-se, os ventos mudaram de direcção. As hienas ficaram alertas, os elefantes trombetearam desconfortáveis, e até os abutres interromperam o seu banquete para observar a movimentação. Algo estava fora do controlo. O tumulto era perigoso. O que aconteceria se o tumulto continuasse? O tráfico de presas e ossos corria o risco de parar. O comércio dos órgãos, das caças clandestinas, das riquezas da floresta, tudo poderia ser afectado e, os negócios poderiam parar e, com isso, os Girafinhos perderiam a sua fonte de alimento.

A Girafa, sentindo a perturbação no ar, precisava agir rápido. Mas como? Os seus aliados já não conseguiam mais conter os rumores. Os tambores da floresta batiam cada vez mais forte.
Ela tentou acalmar os animais com discursos de unidade, prometeu mudanças, ofereceu lugares na mesa do poder. Mas todos sabiam que era apenas teatro. Foi então que a Girafa decidiu agir. A solução parecia óbvia: selar um acordo com a Raposa. Mas como convencer um animal astuto a fazer parte de um jogo que sempre o excluiu?

A floresta inteira estava em alvoroço, e a Girafa, desesperada por silêncio, já não conseguia fazer coito. Porque, no fundo, a política e a vida se entrelaçam de formas inesperadas.

Quando uma floresta está doente, quando a esperança evapora, quando tudo cheira à podridão e conluio, nem mesmo os corpos respondem como deveriam. Não há prazer onde a fome se impõe, onde a incerteza paralisa, onde o futuro parece ser apenas uma repetição do passado.

Foi nesse contexto que chamou a Raposa para um encontro privado. Propôs-lhe um lugar especial na Assembleia dos Animais, onde poderia estar perto dos poderosos e longe dos perigos. Afinal, a Constituição dos Animais exigia que a Raposa tivesse um assento entre os conselheiros do reino. Mas a pergunta era: ela aceitaria esse papel ou continuaria sendo uma ameaça?

A Raposa hesitou. Aceitou o encontro, sim. Mas sabia que se sentar à mesa da Girafa significava perder parte de sua astúcia. Ser vigiada. Ser controlada. Por outro lado, recusar poderia significar continuar lutando sozinha, cercada, correndo riscos imprevisíveis. O que fazer?

Mas a verdadeira questão não é apenas o que a Raposa fará. A questão é: o que os outros animais — os que realmente vivem da terra, bebem dos rios e caminham sobre o chão árido — iriam fazer diante desse grande teatro onde poucos se alimentam enquanto muitos apenas assistem?

Os Leões dissidentes, rugiam nos bastidores: “Esse encontro não é sobre o futuro da floresta. É sobre a Girafa tentar pacificar a Raposa, antes que ela cause estragos.” Mas seria a Raposa tão facilmente domesticada?

A política da savana não se decide em debates públicos, mas nos bastidores, onde os animais de pescoço longo tramam longe dos olhares da alcateia.
Enquanto isso, a floresta inteira observava.

Os babuínos, que riam nos bastidores.

Os abutres, que esperavam ver quem cairia primeiro.

Os elefantes, que fingiam neutralidade, mas nunca esqueciam.

E, claro, os simples habitantes da terra, que só queriam viver as suas vidas sem que a grande política os sufocasse.

No final do dia, a Girafa só quer dormir bem, fazer coito com a sua fêmea, gozar da tranquilidade do poder, cuidar dos seus filhotes e garantir que os Girafinhos continuassem seus negócios escusos sem perturbações.

Mas a Raposa aceitaria a proposta?

Ou manteria sua astúcia e continuaria a desafiar a ordem imposta pelos pescoços longos da savana?

Na política da savana, a paz nunca é real — é apenas um intervalo entre os próximos movimentos do jogo.

Talvez um dia o sono volte, talvez até o coito do Girafa aconteça.

Mas só quando as ruas estiverem realmente livres — e não apenas silenciosas porque todos aprenderam a temer.

Parte II

Acordar em Gurué deve ser uma das coisas mais maravilhosas que já me aconteceu na vida.

Depois de uma viagem cheia de solavancos, traições e desilusões, acordo com a vista de uma montanha larga, que se encontrava a namorar com uma nuvem gigante e cinzenta, tornando o seu cume invisível. À volta desta montanha, estendem-se verdes campos exuberantes, conectando-a a outras montanhas vizinhas, inspirando paz e tranquilidade ao meu coração.

Olhar aquelas colinas dava-me uma sensação terapêutica, porém, o melhor ainda estava por vir no longo dia que me esperava.

A fresca temperatura que se fazia sentir, o cantar dos pássaros que competia com o roncar de algumas motos, as vozes dos transeuntes, carregados de produtos agrícolas à cabeça ou às costas, que se apressavam em “ganhar” o mercado, foram as primeiras sensações que senti de Gurué.

A minha primeira aventura é, sem dúvida, conhecer e escalar o monte Namúli. Paulina Chiziane apresenta os montes Namúli como o centro da sua narrativa e da história de vários povos oriundos daquela região do país. É a esta história, que traz consigo traços de ancestralidade, que ambiciono me conectar. O trajecto entre a vila de Gurué até ao local a partir de onde se pode escalar o monte Namúli é de cerca de 15 quilómetros e o trajecto só pode ser feito, em segurança, de mota.

Durante os 90 minutos do nosso trajecto, em cima de uma moto-táxi, aos saltitões, descidas e subidas, navego dentro de uma parte do universo dos povos desta região da Zambézia. Perto do centro da cidade, encontramos verdes campos de chá e, dentro deles, várias pessoas.

Algumas destas colectavam o chá e outras podavam as plantações do chá, para que, em breve, novas folhas surgissem. São essas, as novas folhas, que são úteis para a produção de chá.

Para a minha surpresa, diferentemente das culturas comuns como o amendoim, o milho, o feijão, e etc., as plantações do chá não se removem para voltar a plantar novas. As plantas do chá que eu vi, são exactamente as mesmas que foram plantadas no início da década 40, pelo então governo português. Hoje, mais de 80 anos passados, as plantas continuam a produzir e a alimentar a indústria do chá, principal referência desta cidade. O tapete das plantações de chá estendem-se por quilómetros e quilómetros, percorrendo vales e colinas, até a vista não mais alcançar. É qualquer coisa incrível contemplar aquelas paisagens verdes.

Ainda no trajecto, cruzamo-nos com vários agricultores e moto-táxis que, entre montanhas, transportavam diversos produtos agrícolas para venderem no centro da cidade. O principal produto destes meses de Março e Abril é o feijão boer. Por cima das motas, vejo sacos e sacos de feijão sendo levados até à cidade para que de lá sigam em grandes camiões para Nampula, Quelimane e Maputo. “Este feijão daqui de Gurué é diferente dos outros feijões porque este não precisa de remédios para crescer, ele cresce sozinho. Basta a chuva daqui para ele crescer, aqui chove todos os dias, não tem hora para chover, tudo germina aqui” – Diz o motoqueiro da moto-táxi, que, além de piloto, é um guia muito conhecedor da região. 

Encontramos também peregrinos que se dirigiam a um local de culto, que se situa em uma das montanhas à volta, conhecido como “a santinha”. É um local criado há não mais de duas décadas pela missão católica Dohoniana, que está presente em Gurué desde 1947. Este local de culto é dedicado à santinha que permite com que haja quedas de água entre as montanhas. Um local muito aconchegante que inspira a reflexão e conexão divina.

Outros agricultores, simplesmente, caminhavam, conectando as suas montanhas “mãe” com outras montanhas vizinhas para realizar diversas actividades sociais. Subir e descer colinas parece não assustar nenhum morador desta região. Neste momento compreendo que o meu amor por Gurué não era platónico, era real. O amor e o cuidado com a natureza que pude testemunhar neste trajecto, os caminhos verdes entre montanhas, árvores enfileiradas como se abrissem caminhos para os transeuntes, as plantações de banana, milho, cana-de-açúcar, mandioca, inhame, ananás, beringela… etc. que se estendem entre as colinas, a visão que se pode ter de um horizonte montanhoso que, como disse o meu guia, alcança até aos distritos de Namarroi e Milange, na Zambézia, e o distrito de Malema, em Nampula, fizeram-me voltar a sonhar com um mundo verde e sustentável onde a natureza é bem cuidada por se entender que esta faz parte e é indispensável para a existência humana. Eu estava realmente apaixonado por Gurué.

Depois de 90 minutos, chegamos ao local por onde poderíamos escalar o monte Namúli. Antes de escalarmos, é preciso respeitar as exigências da tradição. Só se escala a montanha mediante a autorização de uma Rainha que reside ao pé da montanha. Para obter essa autorização, é preciso levar oferendas a ela e, por seu turno, ela deve realizar uma cerimónia de comunicação com os ancestrais a informar-lhes que viajantes vão escalar o monte. Caso algum “escalador” decida ignorar este ritual, a sanção prevista é severa: escalar a montanha será a última coisa que essa pessoa vai fazer na vida, pois de lá não vai regressar.

Para o meu azar, a Rainha não estava presente. Ela encontrava-se a conduzir as cerimónias fúnebres do seu sobrinho, que havia falecido recentemente. E agora, o que faço? Nada!

Simplesmente nada, pois a Rainha não tem substituto e a sua ausência era imprevisível. Além disso, a região onde reside é remota, situada a uma altitude considerável, sem rede de telefonia móvel que permitisse uma chamada para avisar da nossa chegada.

Tradição é tradição e tem de se respeitar. Dei meia volta com alguma decepção na alma, mas com a mente e o coração em paz. O monte Namúli pode até ser apenas um monte que gera curiosidade exótica para mim, porém, para aquele povo ao redor da montanha, aquele é um local sagrado, é um local de conexão com a ancestralidade, é ali onde eles invocam os seus deuses. Respeitar as tradições por eles impostas é aceitar que o país em que vivemos é laico e que cada povo tem direito de viver e exercer as suas crenças dentro do seu território. A minha paixão por Gurué só crescia.

Ao retornar à sede da cidade, pude conhecer uma cidade tranquila, com maior parte das suas construções datadas da época colonial (como todas as cidades moçambicanas), limpa, ordeira e com um ar muito peculiar. Surpreendeu-me pela positiva saber que o cinema da cidade (construído no tempo colonial) ainda é casa de transmissão de filmes aos finais de semana.

Nunca tinha encontrado algo do género em nenhuma das cidades moçambicanas que visitei.

Tive ainda a oportunidade de, mais uma vez, entre solavancos e pedregulhos, subir até à nascente do gigante Licungo. Água fria sobressai à grande pressão das montanhas algures em Gurué e dá vida a um dos maiores rios da região Centro do país que, todos os dias, dá e sustenta a existência de centenas de comunidades ao longo dos seus 350 quilómetros que o separam da sua nascente, em Gurué, até a sua foz no Oceano Índico.

É na nascente do Rio Licungo que paro, observo as colinas, as árvores, o verde, ouço o som das águas a caírem pela primeira vez sobre as pedras, ouço o chilrear dos pássaros, fecho os olhos, sinto o som da natureza, sinto a origem da humanidade, e pergunto-me: onde e quando é que o homem se perdeu na natureza e passou a venerar as cidades? É aqui onde termina a minha aventura por esta linda e mística cidade que, de certeza, ainda guarda muitos segredos por revelar. Talvez seja o prelúdio de uma paixão que transcende um final de semana. Quem sabe, um dia, escreveremos juntos novos capítulos desta história. Um romance? Quem sabe?

 

No dia 4 de Abril de 2025, realizou-se, no Núcleo d’Arte, uma exposição colectiva de artistas do sexo feminino, intitulada “Mulheres, Arte e Cura”, em homenagem ao 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana. 

A exposição teve como lema principal “Arte como cura colectiva”, explorando subtemas como: A resiliência, a união, e a luta contra a violência, com técnicas de expressão como pintura, reciclagem, etc.

Participaram da exposição as artistas Sakitifa, Sandra Pizura, Bena Filipe, Emília, Fernanda Lima, Carina Unisse, Capitine, Melice Massongani, Farida, Lizie Ana e Cristina Gonzalez (a exposição foi concebida sob curadoria de Raquel Vedor). 

O público aderiu em massa à exposição, e as artistas libertaram o seu grito artístico e sobretudo de mulher, através dos seus discursos sob o lema da exposição e também das suas obras de arte.

O evento iniciou com olhares espevitados do público sobre as várias obras artísticas no local, a miscelânea com um cocktail servido ao público, para melhor degustação da exposição.

Um detalhe interessante da exposição foi um quadro situado à frente e à esquerda do Núcleo, que dizia: “Faz a tua Arte”. 

O público foi convidado a fazer arte de acordo com a sua imaginação e percepção, à sua disposição estavam tecidos de capulana, tesoura, cola, cartolinas brancas, lápis de cor, marcador e outros materiais para que cada um se expressasse conforme o seu tino.

Tornou-se assim uma exposição inclusiva, com artes e mensagens igualmente interessantes vindas do público. A fotografia do evento também esteve a cargo duma mulher, a fotógrafa Dádiva Abrantes, que, através das suas lentes, gravou a simbiose dos sorrisos da exposição.

A pintura deve ser uma poesia muda, e a poesia uma pintura que fale (Plutarco).

Um momento paradoxal do evento, foi exactamente o momento da poesia. O ambiente vivido no Núcleo d’Arte já era poético em si, mas nada seria melhor que ouvir a poesia em palavras e elevar as almas ao êxtase. 

No meio da exposição, com as emoções ao rubro, a poetisa Naty foi convidada a dizer versos de cura em forma de poesia.

Para o meu espanto, e de alguns amantes deste tipo de expressão, infelizmente, os versos nada tinham de poesia, foram três poemas ao total, e quanto mais os poemas eram recitados, mais a poesia se distanciava deles, o último texto praticamente era narrativo.

A poesia não é apenas um conjunto de palavras em versos, existe uma construção trabalhosa até que um poema se torne poesia, como disse Plutarco, deve haver uma pintura de palavras, e nos três textos não houve qualquer poesia.

O lema da exposição é mais profundo do que aparenta, arte como cura colectiva é uma porta que se abre a cada artista e espectador, para curar-se dos dias turbulentos em que vivemos, com a crise afectiva nos relacionamentos, a arte surge como uma das raras fontes de manifestação do amor, fraternidade e conexão de pessoas independentemente de classe social, raça, status quo etc.

O quadro com o título “Love and dream”, de Sakitifa, feito com recurso à técnica de oléo sobre tela, e com as dimensões 110x78cm, é um dos símbolos da exposição.

No quadro em apreço, um conjunto de mulheres figura num espaço central, de mãos dadas e unidas caminhando juntas.

As linhas da obra são finas, e as figuras possuem formas corporais femininas.

A primeira atenção do espectador vai para o centro do quadro, o gesto de mãos dadas entre as mulheres. O lado central inferior do quadro transmite uma ilusão óptica ao espectador, dando a sensação de movimento ou marcha das mulheres.

O quadro é colorido, com sobreposição de cores tanto primárias quanto secundárias, por exemplo o vermelho destaca-se na linha do horizonte das mulheres, enquanto o amarelo destaca-se acima da linha do horizonte, o azul e o verde foram mais empregados na forma das personagens do quadro.

Sakitifa, ao colorir o quadro, trouxe com o seu talento uma representação da terra, da flora que cerca os seres vivos, normalmente repleta de cores que significam vida.

O gesto de mãos dadas entre as mulheres simboliza a união que as mulheres tanto necessitam no seu quotidiano. São vários desafios enfrentados pela mulher moçambicana, o baixo nível de escolaridade, em comparação com o homem, a violência a que é submetida, dentre outros flagelos.

No quadro em causa, Sakitifa traz recursos visuais para mostrar a própria mulher como seria um mundo em que a mulher é unida e anda de mãos dadas. O espaço geográfico do quadro representa o universo inteiro, a linha do horizonte provavelmente quer dizer que a artista sonha que todas as mulheres do universo sejam unidas.

Da esquerda para a direita, a penúltima mulher olha para a outra à direita como quem diz: Estás bem? Estou aqui para te apoiar. Este simples gesto visual significa que as mulheres devem cuidar umas das outras, não importando as circunstâncias difíceis. No nosso país, são várias as mulheres jovens e adolescentes, abandonadas pelos pais para viver com as avós, ou com terceiros, sendo que os pais estão em vida.

A sensação de movimento na parte inferior do quadro, mostra, inclusive, a flora abanando a um possível vento, que se levanta ao redor das mulheres enquanto elas marcham para frente, este vento ao redor representa as dificuldades que as mulheres enfrentam, mas que, apesar disso, não podem abandonar a marcha, rumo as sua emancipação e ao seu desenvolvimento.

A cura, de facto, foi colectiva. 

Naquela tarde quente de domingo em novembro de 2020, o sol brilhava com uma intensidade quase abençoada. Em Malova, distrito de Massinga, Nomsa e Sílvina, primas inseparáveis, regressavam da praia, onde haviam passado o dia a rir, a correr e a sonhar. O mar, testemunha silenciosa da alegria delas, despedira-se sem saber que seria pela última vez. Jovens, com apenas 16 e 17 anos, carregavam o mesmo sonho: tornarem-se catequistas, servir a Deus e ajudar a comunidade com a fé e a esperança que emanavam. Era como se cada passo delas fosse guiado por um propósito maior, um chamamento divino. Mas aquele domingo guardava uma reviravolta cruel.

O regresso para casa, que deveria ser tranquilo, foi interrompido por uma tragédia. O som de pneus a derrapar sobre o asfalto seco, seguido por um estrondo ensurdecedor, silenciou para sempre os risos das duas. O carro, conduzido por um jovem sem carta de condução, despistou e capotou. A violência do impacto foi tamanha que não lhes deu tempo para reagir. No local, o silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor que o próprio acidente. O motorista fugiu, deixando para trás não apenas os corpos, mas uma comunidade inteira mergulhada em dor e incredulidade.

Quando cheguei ao local como jornalista, o cenário era desolador. A terra revolvida pelo impacto, sapatos abandonados no acostamento e manchas que contavam uma história de dor irreparável. A pequena comunidade de Malova parecia paralisada. As pessoas murmuravam entre si, tentando compreender como algo tão devastador podia acontecer num dia que começara com tanta alegria.

Dias depois, o funeral das primas tornou-se um marco de tristeza na aldeia. Foi ali, diante daqueles dois caixões, que vi o peso insuportável do luto. A mãe de Nomsa, sentada numa esteira, não tinha mais lágrimas para chorar. Em suas mãos, segurava um rosário e uma fotografia antiga das filhas. Cada prece que murmurava era acompanhada por soluços que ecoavam na alma de todos os presentes. Ao seu lado, a avó de Sílvina, de cabelos brancos e olhar perdido, repetia apenas uma frase: “Por quê, meu Deus? Por quê?”

O ambiente era sufocante. O cheiro da terra molhada pelas chuvas recentes misturava-se ao incenso que queimava ao lado dos caixões. O som dos tambores era cadenciado, mas cada batida parecia amplificar a dor. Os cantos de lamento das mulheres ecoavam pelo quintal, e as crianças, sem entenderem a dimensão do que acontecia, choravam ao verem os adultos desmoronarem. Nomsa e Sílvina não eram apenas duas jovens; eram a esperança de duas famílias, dois pilares de sonhos que foram brutalmente derrubados.

Para quem fica, o vazio é uma presença constante. As mães ainda mantêm os quartos das filhas intactos. As roupas, os livros, os sapatos – tudo permanece como estava, como se, de alguma forma, isso pudesse trazer as meninas de volta. Mas a vida nunca mais foi a mesma. Cada vez que o sol se põe, ele leva consigo um pedaço da esperança de que o futuro seja menos doloroso. É impossível apagar as memórias de domingos felizes, das brincadeiras, dos sonhos partilhados ao redor de uma fogueira.

E então, surge a questão da responsabilidade. A estrada, que deveria ser um lugar de ligação, tornou-se um campo de despedidas. O jovem motorista que causou o acidente carregava consigo a irresponsabilidade de quem nunca deveria estar ao volante. A sua fuga foi um acto de covardia que simboliza a negligência tão comum nas nossas estradas. Quantas vidas mais precisam ser perdidas para que aprendamos a respeitar a vida alheia? A estrada não é apenas asfalto; é palco de histórias que podem ser transformadas em tragédias irreparáveis.

Quando passo por Malova, vejo mais do que uma aldeia. Vejo as marcas de um acidente que não deveria ter acontecido. Vejo uma mãe que nunca mais sorrirá da mesma forma. Vejo amigos que nunca mais ouvirão as risadas de Nomsa e Sílvina. Vejo um lembrete constante de que a vida é frágil e que cada decisão que tomamos pode ter consequências imensuráveis.

Nomsa e Sílvina não voltarão, mas as suas memórias continuam a iluminar aqueles que as conheceram. Que a história delas nos ensine a valorizar cada instante, a respeitar a vida e a transformar as estradas em caminhos de encontros, não de despedidas. Que cada motorista lembre que, ao volante, carrega não apenas o seu destino, mas também os sonhos e as vidas de tantos outros. Porque não há perda maior do que aquela que poderia ter sido evitada.

“Dizem que sonhar é um crime atrás das grades. Mas prefiro apodrecer numa cadeia de sonhos, do que viver em liberdade e sentir-me atrás das grades” Flash Enccy (Em liberdade de sonhar)

Que a existência da mulher nunca foi algo fácil, isso é de conhecimento geral. É uma “verdade”. A razão das aspas é justificável, pois Foucault discute o sentido da verdade (e seus regimes) e morreu com uma perspectiva produtiva: a verdade tem a sua história. Ou seja, o que para uns, num determinado lugar e tempo, constituía verdade, para outros, num outro momento do tecido histórico, pode não ser. Esse é o caso da mulher, como papel social.

Ao longo do tempo, muitas grades e correntes foram forjadas e celas erguidas. As mulheres são e foram confinadas, por exemplo, ao espaço doméstico, privadas de circular livremente, estudar ou trabalhar. “Lugar da mulher é na cozinha”, é comum ouvir isso. Ao todo, não é completamente um erro, mas começa a ter aparências de violência quando são cortadas as asas e só podem se confinar naquele espaço, longe do mundo e de todos. Não é ao de todo um erro porque mulher querendo se confinar e cozinhar, não porque foi ensinada que “o lugar da mulher é na cozinha”, é livre de o fazer. Até porque já ensinou Mia Couto, cozinhar nem é um trabalho, mas uma forma de amar os outros porque na comida verte-se ódio ou amor.

As grades não só foram visíveis, como as paredes domésticas, mas também invisíveis. Por exemplo, a obrigação em ter que casar e fazer filhos. O controlo do corpo e da sexualidade feminina. E outras prisões que possam existir pelo mundo, e que somente as mulheres possam relatar na pele e no sangue.

Mas, enquanto presas, a primeira forma de resistência é, provavelmente, sonhar. E elas vão sonhando com a liberdade. Essa é a proposta artística de Bena Filipe, com o seu 80×90 cm.

O quadro, com a técnica acrílico sobre tela, tem uma textura que oferece a possibilidade de sentir o quadro pelo tato. Também, olhando para a paleta de cores, o contraste não é uma força vital da obra, contudo não é por aí onde a obra não é bem conseguida. A falta de contraste proporciona uma sensação de ‘quentura’ por conta da cor meio quente usada, e isso lembra um pouco o inferno, que nos vai lembrar o sofrimento perpétuo.

A autora projecta tanto correntes nos pulsos e grades. Ambos objectos representam o aprisionamento, o cárcere. E esses objectos vão além da prisão formal, mas representam a limitação, as grades colocadas para mulheres ficarem num único mundo, uma única realidade. Atrás das mesmas grades aparecem figuras difíceis de definir a forma. Isso dá-se pelo facto de ser um abstracionismo parcial, pois há uma mistura do reconhecível e o irreconhecível. Há um equilíbrio do real e o imaginário. Esse jogo entre o concreto e o subjectivo sugere camadas de profundidade. Partindo da suposição de que o abstracto representa o subjectivo, a personalidade das mulheres no quadro encontra-se dilacerada e derretida.

O conteúdo da obra é instigante, pois traz à tona o debate. Até onde a mulher quer a liberdade, e até onde considera algo prisão? Pois no contexto moçambicano, em particular, tudo que é tipicamente africano pode ser visto como culturalmente degradante, mas o de outros quadrantes não. E caso alguém prove que Deus é machista, libertar-se-ão dele, ou acharão uma pergunta que conduz ao pecado e, consecutivamente, ao inferno?

O que, de facto, seria uma prisão, se as pessoas, às vezes, escolhem estar em lugares que para outros são prisões? Talvez, a palavra chave esteja na escolha, pois para escolher é preciso liberdade. Chego até aqui com uma acepção: um lugar só é uma prisão quando se é impedido de sair, e limitado a circular, e outros direitos proibidos. Por exemplo, uma casa e um relacionamento podem ser prisões, caso há impedimentos, limitações, direitos suprimidos.

É importante também saber que isso vai depender também de perspectivas, porque “a melhor maneira de manter alguém prisioneiro é tendo certeza que ele nunca saiba que está na prisão” (citação atribuída a Dostoievsky). E a única forma de fazer isso, talvez seja negar educação, por isso o verdadeiro empoderamento da mulher (e de todos) é a educação e colocar um livro na mão. 

No filme “O conde de monte Cristo” (2002) há um encontro de dois prisioneiros numa prisão, um deles é padre, que promete ensinar a ler e escrever:

– Em troca da sua ajuda, oferece-te algo inestimável.

– A minha liberdade?

– A liberdade pode ser tirada, como você bem sabe. Eu te ofereço o meu conhecimento.

A temática liberdade é muito abrangente e pertinente. E ressoa em toda a exposição colectiva de mulheres sobre mulheres, no núcleo de arte. E, porque é sobre mulheres, então é sobre vida. Entre artes visuais e literatura, há algo diferenciado, em que todos os visitantes podem também, por algum momento, criar algo e expressar a sua dor para a cura colectiva através da arte.

Como Flash Enccy cantou, sonhos são lembranças, sonhos são troféus. E mesmo atrás das grades, a Bena mostra que as mulheres lembram a liberdade. E mais do que lembrar, as mulheres, unidas, movem montanhas.

 

Quando me lembro do isolamento ou afastamento da consciência humana nos problemas que afectam ou assolam o bem comum, abraço-me ao pensamento de Vanessa Aguiare, que refere: “Há sempre uma guerra, mesmo que não seja no seu quintal; em algum lugar, alguém está a lutar por comida, por religião, por política ou pela própria sanidade mental”.

Quando o mundo domina a consciência com pensamentos e emoções em forma de monólogo e observa de forma passiva os fenómenos que influenciam o comportamento nocivo humano, pode-se associar a vida a uma imagem que se assemelha à dos tempos da antiga Babilónia, caracterizada pela corrupção espiritual, como as práticas idólatras, a decadência moral e a rejeição dos mandamentos de Deus. Ou mesmo, pode-se compará-la às atrocidades morais, que marcaram Sodoma e Gomorra. O mundo, assim desenhado, sofrerá sempre com escassez de Maná, privando-se do alimento espiritual e social necessário para suprir os estômagos tímidos e calados, que apenas aguardam a chegada do dia da Ceia do Céu, celebrado ao som e ritmo da orquestra dos Anjos.

Virar as costas ao sofrimento do pobre e multiplicar afecto e abraços nos ombros do rico já saciado anima o falso de consciência ou mendigo social, que desvia o pincel que carrega as cores do bem comum – cores essas que poderiam embelezar as asas da borboleta da vida, soprando um futuro melhor para todos os não eternos, que lutam pela preservação do dom mais precioso: a vida.

O mundo precisa participar activamente na busca de soluções que respondam às questões que ferem a veia social. O mundo precisa se levantar para orientar a locomotiva que puxa vagões carregados de esperança, modificando o prazer de viver e o conceito de vida dos mais necessitados. O mundo precisa pensar em soluções que erradiquem o sofrimento.

O mundo dos ricos precisa unir-se ao espírito sofrido dos pobres para sentir a dor da guerra que arranca almas inocentes, deixando uma sociedade desprovida de segurança. O mundo precisa enxergar as lágrimas da criança sem colo de esperança, sem um feixe de luz que a guie, para que possa navegar no oceano do futuro, onde as ondas absorvem as lágrimas e o vento fresco seca o sofrimento.

O mundo precisa unir-se pela preservação da natureza e preparar condições necessárias para as futuras gerações. Precisa de uma educação ambiental que valorize a natureza como a única casa com condições de sustentar a vida. A responsabilidade de cuidar do meio ambiente cabe a todos os seus habitantes. A convivência com a natureza deve ocorrer respeitando o futuro das futuras gerações.

O medo de se envolver em problemas que não afectam directamente a nossa vida sempre fez parte da natureza humana. Pedro negou 3X conhecer o Mestre Jesus, mesmo caminhando diariamente ao seu lado. Assistir ao sofrimento alheio sem agir, apesar de ter condições para ajudar, sempre fez parte do lado egoísta do ser humano, que ignora sua consciência social. A luta e a culpa foram sempre individualizadas.

O mundo precisa participar da construção de uma nova Arca da Aliança, onde se conservará a santidade de um compromisso eterno, depositando nela os valores essenciais da vida, que guiarão o mundo rumo a uma convivência social harmoniosa, num lounge de solidariedade, sem medo nem receio.

Não sei se alguém já abordou esta questão, mas, por mim, nunca li nem ouvi nada a respeito. E, sim, precisamos de falar dele. Precisamos de falar de Gilberto Mendes.

Precisamos de falar sobre a forma como ele conseguiu preservar a sua essência, manter-se fiel a si mesmo, mesmo depois de ocupar um cargo político de grande relevância no último mandato. Gilberto não se perdeu nos corredores do poder, não se diluiu na vaidade nem se afastou do homem que sempre foi. Manteve a sua rotina, a sua presença nos palcos, a sua escrita. E, depois de sair do cargo, a vida prosseguiu sem rupturas, sem teatros de grandeza: ele continuou a fazer o que sempre fez, como se a política tivesse sido apenas um capítulo – importante, sim –, mas não definidor da sua existência.

Quantas histórias ouvimos de políticos que, ao não conseguirem renovar os seus mandatos, mergulharam na irrelevância e na miséria? Quantos se viram incapazes de se reinserir na sociedade, como se o cargo tivesse sido não apenas um emprego, mas a única âncora das suas vidas? E quantos não foram os que, mesmo sem méritos visíveis, se agarraram a bens públicos, imóveis e privilégios, com a justificação de que nada tinham construído durante os anos de mandato?

É urgente falarmos disso.

É urgente reflectirmos sobre a excepção que Gilberto Mendes representa. Um homem que, mesmo dentro da engrenagem política, continuou a escrever, a representar, a dar corpo e alma ao teatro. E mais do que isso: a sua figura política, o seu lugar nas estruturas do poder, por vezes misturava-se nas personagens, invadia os palcos e servia de matéria-prima para novas obras. Ele levou a política ao teatro e não o contrário. Trouxe humanidade para os dois mundos.

Na nossa realidade, quando muitos dos nossos políticos conseguem finalmente um lugar à mesa do bolo, a primeira coisa que fazem é afastar-se das suas raízes, das suas comunidades, dos seus próprios espelhos. Agem como se nunca tivessem vindo de onde vieram, como se a proximidade com o povo fosse uma doença contagiosa. Lembram os antigos judeus a evitarem os leprosos, não por maldade apenas, mas por medo de serem novamente confundidos com aquilo que um dia foram.

Gilberto Mendes, porém, permanece inteiro. Consegue, com uma naturalidade desconcertante, estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, sem exibir desconforto ou arrogância. Ele não se desfigurou com o poder, não se blindou com títulos, não se afastou da sua humanidade. E isso, por si só, já é um feito.

Precisamos de falar disso. Urgentemente.

Dito isto, importa sublinhar que estas palavras nascem de alguém que testemunhou tudo de longe. É o olhar de quem acompanhou, com atenção e respeito, mas sem proximidade directa, o trajecto de Gilberto Mendes por entre as luzes da ribalta e as sombras da política. É possível – e até natural – que existam outras leituras, visões diferentes, percepções menos generosas ou mais críticas. Mas este é o meu testemunho. E senti que precisava de ser dito.

Lembro-me daquele dia como se fosse ontem. E não porque o calendário mo grite, mas porque o coração ainda o guarda, como uma ferida aberta que insiste em não sarar. Era 12 de Março de 2024 quando a tempestade tropical Filipo tombou sobre Vilankulo. O céu escureceu de repente, como se alguém tivesse apagado a luz do mundo. O vento começou a soprar com uma raiva estranha, como se tivesse contas a ajustar com esta terra. E depois veio a água. Muita água. Tanta que parecia querer lavar tudo: as ruas, as casas, as árvores, os sonhos.

Nesse dia, senti pela primeira vez o que é o medo colectivo. Não era só meu, era de todos. Vi vizinhos a correrem com filhos ao colo, ouvi preces murmuradas ao vento, vi o mar a invadir espaços que antes lhe eram proibidos. A marginal, essa nossa velha amiga que sempre nos ofereceu o melhor nascee do sol da costa, foi uma das primeiras a ceder. Vi o chão a rachar como se a terra chorasse, árvores centenárias a tombarem como se não suportassem mais a dor, e as condutas de água a romperem como veias abertas de uma cidade ferida.

Mas a tempestade passou. Porque tudo passa, não é? Ou devia passar. Só que, um ano depois, a destruição continua ali. Intacta. Como um museu da negligência, ao ar livre. E essa é, talvez, a parte mais difícil de aceitar: não foi só a natureza que nos castigou — foi o esquecimento.

Hoje, ao caminhar pela marginal, não vejo apenas buracos e escombros. Vejo memórias partidas. Lembro-me dos domingos passados quando eu e minha família compravamos gelado de coco ali na esquina e sentávamos a ver os barcos regressarem da pesca. Lembro-me das sessões fotográficas improvisadas de casais apaixonados, das feiras de artesanato onde o riso e a música se misturavam com o cheiro a camarão grelhado. Tudo isso parece tão distante, como se pertencesse a outra vida. Uma vida que Filipo levou… e que ninguém se deu ao trabalho de tentar resgatar.

Os moradores das zonas adjacentes vivem hoje com um nó na garganta. Não é só a tristeza, é o medo também. Cada nuvem escura que se forma no horizonte é motivo de alerta. “E se vier outra tempestade?” — perguntam-se, em silêncio, enquanto olham para a estrada gretada e para as águas que, sem contenção, continuam a corroer o que resta da via. Já ninguém dorme tranquilo quando o tempo muda. Porque sabem que a marginal está nua. Desprotegida. Vulnerável.

E os automobilistas? Esses arriscam diariamente as suas vidas a transitar por ali. Alguns por necessidade, outros por desconhecimento. Mas todos partilham o mesmo risco: o de ver o carro engolido por uma cratera, o de ser surpreendido por uma derrocada. Há troços onde já nem se sabe o que é estrada e o que é erosão. É um jogo de adivinhação mortal.

A pergunta impõe-se: como é que chegámos aqui? Como é que deixámos um dos maiores postais turísticos de Vilankulo tornar-se um símbolo de abandono? Onde estavam — e onde estão — as soluções? Sim, ouvimos as mesmas palavras repetidas vezes: “não há recursos”, “é um processo”. Mas palavras não tapam buracos. Palavras não reconstroem estradas. Palavras não salvam vidas.

A marginal de Vilankulo não era apenas uma estrada. Era um espaço de encontro, de lazer, de identidade. Era ali que os turistas tiravam as fotos que depois rodavam o mundo. Era ali que os jovens sonhavam, que os artistas se inspiravam, que os idosos recordavam os seus dias de juventude. Hoje, o que resta? Um caminho perigoso, árvores tombadas como cadáveres de pé, canos a céu aberto, lixo acumulado nos cantos da desilusão.

O edil reconhece o problema. É verdade. Mas de que vale reconhecer sem agir? Um ano é tempo mais do que suficiente para se fazer pelo menos o início de algo. Um sinal de que há esperança. Mas nem isso. E enquanto isso, o turismo, que é a alma económica de Vilankulo, afunda-se com a estrada. Os visitantes já não vêm como antes. Quem viria, afinal, para ver destroços?

Não escrevo esta crónica para culpar apenas. Escrevo porque me dói. Dói-me ver a minha cidade assim. Dói-me ver tanta beleza esquecida. Dói-me ver o tempo a passar e a ferida a crescer. Porque Vilankulo merece mais. Os seus moradores merecem mais. As suas memórias merecem ser preservadas. E se ninguém gritar, tudo continuará assim: paralisado na espera.

A cada época chuvosa, com ela, a angústia renova-se. Até quando? Até quando vamos esperar por uma intervenção que nunca chega? Até quando vamos permitir que a negligência tenha mais força do que o amor à terra?

Sei que há quem diga que “há prioridades maiores”. Mas pergunto: o que é mais prioritário do que a dignidade de um povo? Do que a segurança de uma cidade? Do que o resgate de um lugar que foi, em tempos, um orgulho nacional?

A marginal de Vilankulo ainda pode ser salva. Ainda pode renascer. Mas para isso é preciso mais do que promessas. É preciso vontade. Compromisso. Ação. E acima de tudo, é preciso coração.

Porque uma cidade que perde a sua marginal, não perde apenas uma estrada. Perde parte de si. E não há tempestade no mundo que justifique esse tipo de perda. Só a indiferença o consegue fazer. E essa, meus caros, é a mais perigosa das tempestades.

Parte I: “Operação Gurué – Entre Arranhões, Emoções e Adrenalina”. Chego ao parque de transportadoras interprovinciais, na cidade de Nampula, por volta das seis horas da manhã. De pasta nas costas e ânimo no coração sigo a minha jornada com apenas um objectivo: conhecer a histórica cidade de Gurué. Desde muito cedo, ainda na escola primária, ouvi falar dos largos campos de chá nas margens do Rio Licungo e nas serras à volta.

Recorrentemente, ao longo dos anos, fui ouvindo falar da cidade de Gurué como um dos celeiros da Província da Zambézia, mas não só, Gurué sempre chegou aos meus ouvidos e olhos como uma cidade bela e rica que se situa entre verdes colinas no interior daquela província do centro do país. Foi assim que me apaixonei por Gurué mesmo sem a conhecer. Muito clichê isso, eu sei. Mas foi o que aconteceu. Esta paixão cresceu ainda mais quando, através do Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane levou-me a conhecer os montes Namúli, terra do José dos montes. Algum dia nesta vida eu tinha de conhecer esta cidade.

390 Quilómetros estavam entre o meu ponto de partida (cidade de Nampula) e o meu destino (Gurué). O mapa do google estimava que a viagem fosse durar, no máximo, seis horas. A experiência dos motoristas e outros colaboradores das transportadoras dizia que em cinco horas mais tardar eu estaria em Gurué. Porque onde desenvolve-se e alimenta-se uma grande paixão, abre-se também margem para grandes desilusões, a primeira tentativa de desiludir o meu amor platónico por Gurué começa aí mesmo, ainda em Nampula. As normas informais asseveram que o carro só sai do parque quando estiver cheio. Da mini-bus (vulgo TNS ou chapinha) desenhada para 15 pessoas, contando com o motorista, espera-se que nela viagem 21 pessoas. 

Passam-se trinta, quarenta, sessenta, noventa minutos e o carro não enche e por isso não sai. Não se pode reclamar e nem se pode recorrer a uma alternativa, porque não existe nenhuma alternativa de transporte público que queira fazer o trajecto Nampula-Gurué. Aparentemente não é um trajecto com muito negócio e, por isso, os poucos que permanecem no negócio têm poder absoluto sobre as regras. Às nove horas, três horas depois da minha chegada, quando eu já queria começar a desistir do meu amor por Gurué, vinte e uma pessoas estão a bordo do chapinha e já podemos seguir viagem. Recupero o fôlego e peço perdão a Gurué. Foi um momento de tensão, mas a paixão continua.

O trajecto segue. Andamos a voar, todos em silêncio, ninguém reclama da velocidade, é como se tivesse havido um acordo informal entre o motorista e os passageiros na tentativa de compensar o longo tempo de espera antes da nossa partida. O Problema é que a estrada ficou alheia a esses concertos informais feitos na anuência do silêncio. Eu ia dizer buracos, mas não é esteticamente belo incluir tal palavra num texto de amor. Digamos que os arranhões profundos que a estrada possui, não nos permitem “voar” com tranquilidade. Entre frequentes saltos, solavancos, curvas e contracurvas em plena estrada rectilinear, fomos adoçando a nossa jornada dentro daquele chapa e, nisso, eu já começava a desiludir-me novamente.

Para tentar esquecer a decepção, vou alimentando a minha alma com bela paisagem verde e montanhosa que envelopa o nosso trajecto. É de encher a alma ver os verdes e lindos campos que habitam nestas terras. Ao passar por Alto-Ligonha vejo os resquícios ainda bem presentes das últimas manifestações pós-eleitorais. Restos de um camião incinerado jazem em plena estrada nacional número um. O posto policial e algumas sedes distritais também tiveram o mesmo destino.

Seguimos viagem. À beira da entrada é um pouco do mesmo que vemos em toda a EN1. crianças, adolescentes, mulheres com bebé ao colo, arriscam as suas vidas e um pouco mais para se aproximar de qualquer carro que faça passagem na sua localidade e vender-lhes frutas, verduras, legumes e outras singularidades de cada local.

Chego ao desvio de Nampevo por volta das 13 horas e tenho de deixar o primeiro chapa porque este ia à Quelimane. Ao desviar de Nampevo em direcção ao interior da Província da Zambézia, 90 km separam-me de Gurué. Eu já tinha feito 300, então o que faltava era pouco.

Era praticamente a quarta parte de todo o trajecto, porém, para a minha desilusão e quase desapaixonamento, foi o trajecto mais longo. Entrei num chapa que prometeu me deixar em Gurué dentro de duas horas no máximo. Era eu e mais onze. Faltavam dez para preencher o carro, por isso, a cada pessoa que se encontrava à beira da entrada o carro parava para carregar e descarregar. Era uma lentidão sem fim que foi sento apimentada por novos e mais profundos arranhões que ornamentam a estrada que segue até Gurué. Estão a decorrer obras de reabilitação neste momento, o que já é uma esperança para o futuro, porém, no presente, a experiência dos solavancos e saltitões dentro do carro não passa despercebida. Passadas as duas horas prometidas, o motorista decidiu cumprir a sua promessa e deixou-me. Mas ainda não estava em Gurué, estava na sede do distrito de île, que dista a 65 km de Gurué, ou seja, dos 90 km só tinhamos feito 25.

Ao ser abandonado pelo chapa, alegando não haver passageiros que justificassem a sua chegada a Gurué, eis que sou obrigado a esperar mais uma hora para, às 16 horas, conseguir embarcar a bordo de uma camioneta caixa aberta que me levaria até ao meu destino. A mim e a mais 20, 30 ou 40. Não sei. Éramos muitos e o sistema era o mesmo: pára, carrega, continua, pára, descarrega, continua, esquiva buraco… desculpa, arranhão, … e eu, apaixonado que sou, começo a questionar seriamente o meu amor por Gurué. Não teria sido melhor se eu tivesse mantido esse amor no plano platónico? Será que valia a pena sofrer daquela forma para chegar a Gurué? 

Já se passam doze horas desde a hora que eu saí de casa em Nampula até alcançar a cidade de Gurué. Uma escalada dura e que, mais uma vez, vem evidenciar que o turismo interno em Moçambique não está acessível para todos. No regresso à Nampula, a experiência foi similar.

Saí às 8h de Gurué e cheguei às 20h em Nampula. Certamente que se eu tivesse uma viatura particular, ou tivesse condições de alugar uma, eu estaria aqui a narrar uma história totalmente diferente. Mas, para a maioria dos moçambicanos, grupo no qual faço parte, que não tem alternativa a não ser viajar de transportes públicos, estes são alguns dos dramas que desincentivam a realização do turismo interno.

Às 18 horas, com os nervos e desilusão à flor da pele, verdes campos que se estendem em

colinas e um horizonte que dá alento aos olhos e acalma qualquer alma inquieta. Pergunto discretamente a um passageiro do que se tratava aquelas paisagens verdes e, como se de algo vulgar se tratasse, ele responde: são os campos de Chá. Nesse momento esqueço-me tudo o que passei e volto a apaixonar-me por Gurué, uma paixão que eu só teria condições de a viver no dia seguinte.

 

 

Realizada em Fevereiro do ano em curso (2025), não foi mero propósito o trabalho minucioso, bastante perspicaz, como é o traço deste Professor das artes plásticas, Jorge Dias.

Uma exposição aclamada pelo público que alude a beleza e crítica, tal como foi feita pela conceituada Professora Alda Costa.

Este trabalho, foi muito mais além das memórias que jazem nas estampas das capulanas, uma mescla em surdina no ser, de quem sente e vê, tal como a série “paisagens ambulantes”.

No som de uma sinfonia, o artista na sua destreza, trás-nos a melodia sonora de três camponesas, guerreiras, não traçadas pela guerra, mas por um sentimento, de lá para aqui.

Na obra, “Daniel na cova dos leões”,  vislumbra-se  um sentimento que nos remete às escrituras, lá está, esta figura enigmática, com os olhos arregalados, em todas as vértebras, como quase um questionamento. 

… o lá daqui.

Voltamos à terra, como um ser da natureza. Por que sonhar, se podemos ver?

Na série: Trabalho sobre a terra I

É um envolver do néctar de sentidos, o que se fecunda com a vida, a um renascer. O ciclo da vida, numa representação ambígua, do presente e futuro.

E quem é está individualidade!?

Ser  multidisciplinar. 

Jorge Dias é conhecido pela sua genialidade na arte contemporânea, explorando sempre as vicissitudes na imersão técnica do detalhe, recorte, sentido, extensão, permeado sempre a uma criatividade uno. 

Não se trata somente do guru das artes plásticas, crítico, pesquisador e inovador, o seu trabalho interdisciplinar é aguçado, no limiar de uma ponte, entre o nascer do sol até ao horizonte, isto é, atravessa com mestria a construção da história das artes plásticas em Moçambique. Um carimbar indelével, entretanto sem desforrar o  seu sublime fraquejo. Dias  é um montanhista, gigante na terra dos rostos cruzantes, quase no silêncio de um pêndulo que alicerça uma vasta gama de artistas plásticos nacionais e não só. Assim ele o-é, como poeticamente ele descreve  “Fico a ver o lá daqui “.

A palavra é uma bala: Não tem recuo.

Mia Couto

No dia 24 de Março, o jardim do CCMA acolheu um evento de Spoken Word, intitulado “Heroínas”, com acesso livre. Matilde Chabana foi a mestre de cerimónias do evento.  

“Heroínas” é um projecto poético que consiste nas poetas: Denise Fazenda, Jessica Cristina, Lorna Zita e Emma de Jesus. 

A expressão “Spoken Word”, em português poesia falada, é uma nova construção de poesia, que tem como objectivo principal expressar sentimentos, ideias sobre temas muitas vezes ignorados ou com uma percepção social limitada.

O nome “Heroínas”, provavelmente, deve-se à travessia caótica que as mulheres trilham no quotidiano moçambicano, são vários flagelos que assolam a mulher, desde assédios sexuais no trabalho, na faculdade, escola, aos estupros domésticos, raptos, desaparecimentos e estrangulamentos da mulher até à morte.

“Heroínas” decorreu sob a forte presença de mulheres e jovens que aderiram ao evento, a missão do público era manter o ouvido aberto e das poetisas era mandar as “balas” ao público.

Heroínas começou com declamações singulares e intercalares das poetisas, a miscelânia com a voz da cantora Dórcia Chanázia, que foi chamada a abrilhantar o evento.

“Heroínas” tinham uma missão clara: Mudar a percepção do público em relação à figura da mulher, transportar o público ao interior da alma feminina, exalar as dores e cicatrizes que a mulher carrega e, quiçá, emprestar a pele da mulher a ver se se percebem os seus tormentos.

Dórcia Chanázia, de voz suave, trocou simpatias com o público, sua voz contagiou a juventude a cada actuação no jardim do CCMA. Uma das surpresas do evento foi o mais recente livro da escritora Denise Fazenda, intitulado “Na lente delas”, que esteve à venda no local do evento.

A marcha poética de “Heroínas” teve várias abordagens sobre a mesma causa, interessa aqui destacar, três reflexões, suportadas por três poemas das “Heroínas”.

Poema 1 Filhas da mãe – 

Em “Filhas da mãe”, “Heroínas” apresentaram uma declamação colectiva, que aborda a frágil condição social da mulher, os versos seguintes ajudam a entender essa visão:

“Fui condenada antes mesmo de falar” 

Fui silenciada porque nasci mulher

E minha mãe, também filha da mãe chora um luto que o mundo ignora

Ela grita por mim como gritou por outras… enquanto o mundo segue, indiferente, cúmplice e conivente”

No poema, “Heroínas” denunciam uma condição diferente entre sexos, o silêncio e a violência reservada apenas à mulher, o grito de uma mãe não pode ser ouvido, mas pode ser ignorado, recebido com indiferença e cumplicidade.

Quantas vezes ignoramos o grito da mulher na nossa vizinhança? Quantas vezes alegamos ser briga de casal quando uma mulher é vítima de pancadaria? É sobre esta cumplicidade e indiferença que “Filhas da Mãe” exorta:

Poema 2 Uniões Prematuras

Em uniões prematuras, “Heroínas” apresentaram igualmente uma declamação colectiva e milimetricamente sequenciada. O poema convida-nos a um discurso vindo do imaginário de uma adolescente de 13 anos, que apela à consciência dos seus pais e da sociedade acerca das uniões prematuras. Um trecho do poema nos permitirá melhor análise.

Eu era só uma menina, 

Quando fui obrigada a mente fechar e as pernas abrir

quando senti o peso daquele corpo sufocando-me até não mais conseguir respirar

Fui obrigada a balões de rosa parar de soprar para ver minha barriga inchar

Eu só tenho 13 anos, como querem que tenha forças para um bebé de mim retirar?…

Rompeu-se, foi vítima da fístula obstétrica…

Não, fui vítima da vossa criminalidade, ambição, egocentrismo e falta de amor

Uniões prematuras são um flagelo que aumenta o ciclo da pobreza, devido ao abandono da rapariga na escola, e sua dependência ao homem a que foi entregue. Uniões prematuras matam sonhos, e depreciam a vida da mulher. A fístula obstétrica é uma doença que retira toda a dignidade e auto estima de uma mulher (sobretudo criança), a sociedade é chamada a parar e pensar nestes versos, uniões prematuras são intoleráveis, e destroem o futuro da família.

Poema 3 

Já podes comemorar mamã tua filha para tua casa não voltará

Lembras mamã quando eu disse que não queria casar?

Que do meu namorado já estava a desconfiar?

E tu me disseste que… não podia violar a tradição

Te contei que durante três meses tratei ITS 6 vezes

Aquela boca com pontos, não foi acidente de carro como ele te contou

Foi ele, agrediu-me violentamente, mamã

No poema “Heroínas”, há um culpado pelo sofrimento da mulher por vezes oculto, pois é, a própria mulher, a própria mãe, a própria tia, que olha para o casamento como uma fonte de renda para si, um fonte de status social, uma forma de manter a tradição dos antepassados, sem ter em conta os sentimentos e a opinião de quem efectivamente vai se casar.

No texto, um conjunto de sinais de que o casamento era tóxico foi dado à mãe, mas ela preferiu ignorar para manter o status, a tradição e pode dizer de boca cheia, que a sua filha casou.

A base do casamento é o amor, a felicidade do casal, e não a tradição, ou o status desejado pelos pais. No poema, a filha pede asilo em casa da mãe porque a sua vida está insuportável, mas é recomendada a aguentar, e aguentou tanto até perder a sua vida, num lar que nunca desejou estar.

“Já podes comemorar mamã tua filha para tua casa não voltará”, disse a filha depois de perder a sua vida.

“Heroínas” nos lembram que a vida de uma mulher deve ser cuidada desde que ela nasce, até à fase adulta, uma união prematura, ou um casamento feito às pressas pode destruir a própria vida da mulher e a sua família. Salve as “Heroínas”.

 

Era por volta das 20 horas quando regressei à cidade de Inhambane, depois de mais um dia de trabalho intenso. A noite começava a envolver as ruas com o seu manto escuro e silencioso. Ao aproximar-me da zona de Nhapossa, na entrada da cidade, presenciei uma cena que, infelizmente, já não é estranha aos habituais viajantes da estrada. Um cobrador, pendurado precariamente do lado de fora de um chapa 100, equilibrava-se entre o risco iminente e a indiferença coletiva. O silêncio dentro do carro era quase ensurdecedor, como se aquele cenário fosse um mero detalhe de um dia comum.

Pergunto-me: em que momento normalizámos o absurdo? Como chegámos ao ponto de ignorar o perigo à nossa frente, tratando-o como parte de uma rotina inevitável? O cobrador, desafiando as leis da física e da prudência, representava não apenas a negligência dos transportadores, mas também o reflexo de um sistema que insiste em valorizar a pressa em detrimento da segurança. E nós, os passageiros, calados, será que somos cúmplices dessa imprudência?

O episódio daquela noite é apenas um entre tantos outros que se repetem diariamente nas estradas moçambicanas. Os chapas, lotados muito além da sua capacidade, percorrem caminhos que mais parecem testes de sobrevivência. Condutores e cobradores desafiam não só as regras de trânsito, mas também os limites da responsabilidade. E quem viaja como passageiro assiste a esse teatro de imprudência com uma apatia que assusta.

É impossível não se questionar: onde está a voz do povo? Onde está a coragem para exigir respeito? Como podemos aceitar que a vida humana seja tratada com tamanha negligência? Cada um de nós, ao permanecer calado, legitima um sistema que perpetua a indiferença. A cada dia, vemos mais cobradores pendurados, mais ultrapassagens perigosas, mais vidas postas em risco. E, ainda assim, seguimos como espectadores passivos desse cenário.

Os condutores desses chapas, muitas vezes pressionados pelos patrões para atingir metas financeiras impossíveis, acabam por sacrificar a segurança em nome da rapidez. Mas será que essa justificação basta? Será justo colocar toda a responsabilidade sobre os ombros dos trabalhadores, ignorando o papel de um sistema que pouco ou nada faz para regulamentar e fiscalizar de forma efetiva o transporte público?

E os passageiros, por que não se levantam? Por que não reclamam? Aquele cobrador pendurado na entrada de Inhambane podia ter caído e perdido a vida, mas a indiferença no interior do carro era quase palpável. O que nos impede de agir? O medo de represálias? A resignação de que nada vai mudar? Ou é simplesmente o peso de uma cultura que nos ensina a aceitar o que é errado como norma?

A situação dos chapas em Inhambane é um reflexo claro de um problema maior. Não se trata apenas de transporte, mas de uma crise de valores e de consciência coletiva. Quando toleramos a negligência, quando permitimos que a rapidez seja mais importante do que a segurança, estamos a enviar uma mensagem perigosa às gerações futuras: a de que a vida humana é descartável.

Mas há soluções. O que falta é vontade. Fiscalizações mais rígidas, punições exemplares para os infratores, campanhas de educação cívica que incentivem os passageiros a exigir os seus direitos. E, acima de tudo, é necessário despertar a consciência coletiva de que o silêncio também é uma forma de violência. Quando nós, passageiros, aceitamos passivamente as condições precárias dos transportes, estamos a contribuir para a perpetuação de um sistema que despreza a vida humana.

Que o episódio daquela noite em Nhapossa sirva como um alerta. Que possamos olhar para o cobrador pendurado, para o motorista imprudente, e entender que eles também são vítimas de um sistema falho. Mas nós, passageiros, também somos parte desse sistema. E cabe a nós decidir se queremos continuar como espectadores ou se queremos ser agentes de mudança. Porque, ao fim da linha, o preço do silêncio será sempre mais alto do que qualquer bilhete que possamos pagar.

“Sangue em flecha” é um romance que se desdobra entre Maputo, Magude, África do Sul e China, e, mais para o fim, Niassa. É-nos revelado por um narrador autodiegético, talvez por isso com mais propriedade o caro leitor se mergulhe e perca na história, confundindo as suas peripécias com a sua história de vida, pela naturalidade com que é narrada a vida de Salomão, jovem que não se entende com o pai e, por isso, é muito apegado à mãe.

Salomão é um jovem oriundo de uma família com posses, que vive no centro da cidade de Maputo. Economista de formação, entretanto, nunca chegou a exercer a sua profissão, pois não gosta de trabalhar e depende dos pais, pelo que se dedica a gerir namoros efémeros com distintas mulheres que, apesar do amor não correspondido, morrem de amores.

Por conta das desavenças frontais com o pai, decide abandonar os pais e ir a Magude, terra natal do pai, à procura de reestruturação da sua vida. Por ser apaixonado pela fotografia, leva consigo uma máquina fotográfica, para registar todos os momentos e lugares pelos quais passaria. Em Magude, é convidado por um português, Mulungo, a trabalhar como motorista e este aceita. Todavia, o seu espírito de “rabo de saia” possuía-o, pelo que se apaixona pela esposa mais nova do seu polígamo tio, Arão. Por conta do possível incesto que fosse cometer, porque já tinha fotografias suficientes para uma possível exposição, Salomão decide abandonar o emprego e o tio, alegando que já tinha recolhido imagens suficientes.

Nesse interlúdio, Romão, seu primo, convida-o a um projecto supostamente financiado pelos EUA. Salomão entrava, involuntariamente, num grupo de caça-furtiva, sediado na África do Sul, dentro do qual, com as idas e voltas a Maputo, África do Sul e Magude, vivia um triângulo amoroso mal construído com Elisa e Jane, até que lhe é apresentada a Luísa, que se torna sua esposa e ajuda a concentrar-se.

Nesse ínterim, Salomão consegue sair do xadrez criado pelo primo, até que fizesse parte do grupo de caça-furtiva e mergulha-se não no ramo da Economia, mas de Educação Ambiental, tendo criado o projecto Casa da Natureza, com o objectivo de ensinar às comunidades, principalmente crianças, lições de protecção ao ambiente, com especial enfoque para recursos faunísticos.

Salomão metia-se, afinal, num outro problema, pois o seu passado o perseguia. Romão, que outrora estava morto, ressurge para atormentar a sua vida; Lídia já não aguentava as ausências de Salomão e via o seu relacionamento esfriar, banhado de mentiras e incongruências. Salomão vê a Casa da Natureza em chamas e, consequentemente, os seus sonhos tornando-se em cinza.

Nisto, Salomão, de em quando em vez, recompunha-se na Rua Araújo, com a prostituta Rosa que, mais do que uma prostituta, se servia de conselheira; chegando, em algumas vezes, a não se envolverem sexualmente.

Ora, em “Sangue em flecha”, há uma representação clara do realismo social moçambicano, nomeadamente a dicotomia campo-cidade, a poligamia, a traição, etc., apresentando uma intertextualidade com as obras “Niketche”, de Paulina Chiziane, e “Ilusão à Primeira Vista”, de Almeida Cumbane.

O realismo foi um movimento artístico-literário que surgiu nas últimas décadas do século XIX, na França, no qual os escritores retratavam o Homem e a sociedade tal como eram. Tal como se pode aferir em diversas fontes, ele surge na Europa, especificamente na França, e vai sendo desenvolvido noutros continentes, porém, é manifesto em textos em prosa. 

Para Reis e Lopes (2002), a representação pode ser abordada em termos dialécticos e não dicotómicos, o que significa que, entre o representante e o representado, existe uma relação de interdependência activa, de tal modo que o primeiro constitui uma entidade mediadora capaz de concretizar uma solução discursiva que, entretanto, continua ausente.

Esta abordagem conduz-nos à noção de pseudoreferencialidade que, de acordo com Silva (1984), se configura não por referencialidade imediata, mas mediata, pois que, embora haja uma relação de interdependência activa entre o representante e o representado, o discurso artístico afirma-se relativamente autónomo.

Veja-se, por exemplo, quando o narrador descreve a vida do campo e, igualmente, a poligamia, quando diz:

“Tinha dito que não voltaria para o almoço, mas, pelo caminho, arrependi-me. Devia era ter dito ao tio Arão. Ele é que fazia a gestão de tudo em casa, desde as quantidades do que comíamos todos os dias até à hora das refeições. Na hora das “manjas”, o meu tio vigiava as panelas. Os olhos acompanhavam cada pedaço de galinha que ia aos nossos pratos. Ele ficava sempre com a melhor parte. A Elisa preparava uma galinha inteira só para ele.

Quando se comesse peixe, os maiores peixes eram para o meu tio. Eu achava tudo aquilo repelente. Tive que me habituar. Ele era o oposto do meu pai. A única semelhança que havia entre eles era idade, o mesmo rosto e muita altura. Altura que herdei. Meu tio parecia mais velho que o meu pai. Talvez seja por gerir muitas mulheres e muitos filhos, isso também envelhece muito rápido a qualquer um.” (Espada, 2025:43) (destaque nosso) No que concerne à traição que, aliás, Espada soube muito bem encaixá-la, através da analepse (recuo), um recurso estilístico muito usado para arrefecer a narração e, através do encaixe que o caracteriza, esclarecer algumas nuances da narrativa, o narrador revela que foi naquela circunstância em que ficou a saber que o pai, Jerónimo, se envolvera com a esposa do irmão, mãe do Romão, quando assevera:

“(…) Meu pai baixou a cabeça. Eu acompanhei tudo. Foi nesse mesmo

dia em que fiquei a saber que os dois partilhavam apenas o mesmo quarto.

Durante muitos anos, o meu pai dormia num colchão. Nunca pensei que aquele

colchão que tantas vezes vi era onde o meu pai se deitava todas as noites.”

(Espada, 2025:47)

Como que em vaticínio à máxima segundo a qual “filho de peixe peixinho é”, o narrador expõe em claro o facto de ter sido um bom aprendiz, quando diz:

“Pela primeira vez, olhei para a minha tia. Nunca tinha reparado que

ela era uma mulher linda e com a parte traseira avantajada. Tomei banho e

decidi descansar. Eu estava cansado. Dormi só cinco minutos ou dez minutos.

Acordei e, ainda deitado, lembrei-me da Elisa. O seu corpo de menina

passeava pelos meus olhos. Levantei-me e saí para contemplá-la apenas.

Ninguém me podia proibir de sonhar um pouco e alimentar a minha vista. Nem

mesmo Deus. Ocorreu-me que eu estivesse a ficar maluco. (Espada,

2025:50) (destaques nossos)

Portanto, “Sangue em flecha” trata-se de um romance que retracta, numa linguagem simples e moçambicanamente trinchada, coadjuvada por suspenses e surpresas, o realismo social moçambicano, pincelado por poligamia, a vida do campo vs. cidade, traições e, acima de tudo, feridas abertas por flechas humanas. Estamos perante um romance que conjuga o

amor e o ódio, a perseguição e o amor à natureza e, por que não ao próximo?

Vale, por isso, lembrar o leitor que “não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade.” (Aristóteles, 2003) Não é o nosso objectivo esgotar as nuances sugeridas pelo romance “Sangue em flecha”, mas, sim, espevitá-lo a que o adquire e navegue neste sangue que, por causa das flechas que a vida nos prega, jorra em nossas

vidas; pelo que deverá descobrir:

(i) Como terminou o relacionamento entre Salomão e Jane?

(ii) Como terminou o amor doentio entre Salomão e Elisa, sua tia mais nova?

(iii) Como terminou a Rosa, a prostituta conselheira? e

(iv) Que desfecho Salomão deu à sua vida?

Por fim, parafraseando Cumbane, após a leitura, se o livro for bom, recomende-o aos seus amigos; se for mau, aos seus inimigos. Só não deixe de o recomendar.

 

BIBLIOGRAFIA

ARISTÓTELES. (2003). Poética, 7ªed., Lisboa. Volume VIII.

ESPADA, S. (2025). Sangue em flecha, Maputo: Ethale Publishing.

REIS, C. e Lopes, A. (2002). Dicionário de Narratologia, 7ª.ed., Coimbra: Almedina.

SILVA, V. (1984). Teoria da literatura. 6ªed., Coimbra: Livraria Almedina.

 

carlosdagraca18@gmail.com

Assim como a mistura entre as cores azul e amarelo dá origem ao verde, eu insisti em acreditar que a fusão da minha vontade de ser alguém com o meu esforço incessante poderia também resultar numa tonalidade vibrante de esperança. O verde, dizem, é a cor da esperança. Mas, que ironia amarga, para mim, esse verde não floresce. Porque, na realidade, sinto-me afogada numa palete de cinzentos nebulosos, banhada por uma profunda melancolia que não se dissipa.

Como posso eu julgar que existe qualquer resquício de esperança quando os pilares da minha existência — a minha família — me atribuem um preço? Oiço as palavras atormentadas que ecoam na minha mente, questionando: quanto vale uma vida? Tinha eu a crença ingénua de que a minha vida era inestimável, mas segundo os meus próprios progenitores, sacrifícios e valores monetários tornaram-se o preço cobrado pelo meu futuro, pelo meu bem-estar e pelos meus sonhos mais queridos.

Fui ferida duas vezes, e cada ferida carrega um peso insuportável que me acompanha a cada passo que dou. A primeira vez, pela ferocidade de um homem que deveria ser portador de amor e proteção, com idade para ser meu avô, que, na visão de muitos, deveria oferecer mimos e carinho incondicional, mas no meu caso se revelava como o estuprador que despojou minha infância e a inocência que ainda me restava. Em um único momento, ele se tornou o arauto da dor, obliterando a luz que emitia em meu ser e transformando aquele que deveria ser um refúgio seguro num labirinto de terror.

A segunda ferida, mais insidiosa, veio do silêncio cúmplice dos meus próprios pais, que, ao invés de se levantarem em minha defesa, optaram por um acto de traição. Trocaram a dor da minha alma por algumas migalhas, como se o meu sofrimento pudesse ser apagado por uma mesquinha oferta de alimentos e um valor monetário, aceitando essas sobras como se fossem uma desculpa válida. Com isso, negaram não só a gravidade do que havia ocorrido, mas também a chance de eu me sentir válida e protegida. Cada uma dessas feridas tornou-se uma tatuagem invisível em minha alma, um lembrete constante das promessas quebradas e da inocência que nunca mais retornará. 

A dor não se apaga, e a luta para encontrar novos significados em meio a tanto sofrimento é um caminho tortuoso, onde cada dia é uma batalha entre a vontade de renascer e as lembranças que insistem em me manter presa ao passado. Se os avós deveriam ser sinônimo de amor, por que na minha história eles se transformaram em algo tão oposto? Essa dualidade persiste, e sigo à procura de um futuro onde a dor que me foi infligida não defina minha identidade, mas sim a força que sou capaz de reunir para superar.Que esperança pode ainda existir em mim, quando a confiança se desfez nas sombras da traição? O meu coração anseia por uma luz que não chega, enquanto o peso da tristeza me sufoca, como uma neblina densa, impedindo-me de ver o caminho à frente. A vida tornou-se uma tela manchada pelas dores do passado, e só deliro ao imaginar um futuro onde a cor verde da esperança possa, finalmente, renascer.

Este é o relato de uma criança cujos olhos, outrora brilhantes e cheios de esperança, se viram envoltos na escuridão de um pesadelo inimaginável. Nos braços de um homem que deveria ser um protetor, a sua inocência foi despedaçada, deixando uma cicatriz indelével na sua alma ainda delicada. Aquele momento cruel não foi apenas um ataque à sua integridade; foi uma violação da própria essência do ser infantil, um roubo que ecoaria por toda a sua vida.

E quando a criança olhou em busca de amparo, de conforto e de amor nos braços dos seus pais, encontrou-se em vez disso, com a frieza de uma traição que não esperava. O segundo golpe, mais devastador que o primeiro, desferido por aqueles que deviam ser os seus maiores defensores, que deveriam proteger e cuidar, mas que, em vez disso, se tornaram cúmplices silenciosos do acto mais odioso que a vida poderia infligir.

O fardo que estas crianças carregam é insuportável, e é impossível não sentir um profundo desejo de que todos aqueles que destroem os sonhos inocentes, assim como os que olham para o lado e permitem que essas atrocidades aconteçam, fossem eliminados do tecido da sociedade. A injustiça que se perpetrava sob a tutela de quem devia cuidar grita por mudança, pede por justiça, clama por um mundo onde nenhuma criança tenha de sofrer a dor que traz consigo. Que cada um de nós encontre o valor e a coragem para agir, para proteger, e, assim, garantir que a inocência das crianças não seja mais uma vítima das sombras que se escondem entre sorrisos e promessas quebradas.

Muitos podem assumir que a violação sexual se limita ao acto físico, mas, na verdade, essa dor se estende além da mera carne, permeando atitudes e acções que invadem a intimidade de uma forma devastadora. Vejamos o relato de uma jovem maior de idade, cuja vida se tornaria marcada por um trauma inesperado em um dia que deveria ser de celebração.

Era uma tarde radiante de sol, onde as risadas ecoavam e o amor pairava no ar durante a celebração de um matrimônio. Todos estavam felizes, imersos na alegria daquela união, e a jovem, como testemunha do amor, também tentava se deixar levar pela energia contagiante do momento. No entanto, ela nunca imaginou que aquele dia lhe traria uma das experiências mais sombrias e profundas de sua vida.

Durante a sessão de fotografias, enquanto todos posavam com sorrisos luminosos, um senhor, que era parte daquele evento, decidiu cruzar uma linha que não deveria ser ultrapassada. Enquanto se preparavam para capturar aquele instante, ele, de forma intencional e cruel, apalpou as nádegas da jovem. A sua mente levou um momento para processar a invasão, até que, ao se voltar, se deparou com o sorriso insidioso daquele homem, que, mesmo acompanhado da esposa, parecia se regozijar na sua própria impunidade. Ele piscou um olho para ela, como se a sua acção fosse um jogo.

Neste instante, a jovem sentiu-se a pessoa mais suja e envergonhada do mundo. Todo aquele brilho e alegria do casamento se desfizeram como areia entre os dedos. O único desejo que a consumia era o de encontrar um buraco onde pudesse enfiar-se, longe daquela realidade cruel que lhe havia sido imposta. Desde aquele momento até o final da celebração, a jovem que ostentava um sorriso para os outros mergulhou num profundo poço de tristeza, um luto pela sua inocência e segurança. 

Embora ocupasse um papel relevante na cerimônia, a sua única vontade era ir para casa, para se afastar daquele homem que a ferira de tão perto, que transformara um dia de amor em um pesadelo silencioso. Hoje, passados cinco anos, o eco daquilo ainda ressoa dentro dela; as memórias não se apagam, e o impacto daquela acção tão desumana continua a marcar sua vida, refletindo que a violação vai além do corpo, petrificando-se na alma e nos sentimentos. É um lembrete doloroso de que o respeito pelo outro deve ser inegociável, e que cada sorriso escondido pode ocultar cicatrizes que nunca se fecham.

Que essa história chegue aos corações dos que a leem, que desperte a compaixão por aqueles que sofrem em silêncio, e que nos faça a todos mais atentos, mais protetores. Que possamos ser a mudança que queremos ver, lutando para proteger a inocência das crianças e garantir que ninguém tenha que enfrentar a dor que destrói sonhos e arroba a vida. É preciso aprender a ouvir, a acolher e a agir, para que possamos, juntos, construir um mundo onde cada ser possa prosperar em dignidade e amor…!

Estamos em 1992. Sob o sol quente de um dia que parecia carregar em si os ventos da história, eu e a minha mãe empreendemos uma jornada singela, mas carregada de significado. Acompanhávamos o meu primo, um jovem de coração aberto e olhar sorridente, até a vila do Caniçado, em Guijá, na província de Gaza. Era o dia da sua apresentação formal na casa dos pais da namorada, um ritual cultural que tecia os fios da tradição com os da esperança. O caminho, poeirento e sinuoso, parecia sussurrar promessas de união, enquanto o horizonte se desenhava em tons de terra e céu. 

Chegamos, enfim, àquele lar simples, mas erguido com a dignidade de quem sabe acolher. A hospitalidade moçambicana, essa chama que nunca se apaga, envolveu-nos como um abraço. Os cumprimentos dançaram no ar, palavras gentis trocadas como presentes, e as apresentações, feitas com o devido respeito, abriram as portas para o que estava por vir.

O meu primo, em seu momento de solenidade, foi apresentado como o namorado da filha da casa. Tudo transcorreu em harmonia, como se o próprio tempo, em reverência às regras culturais, tivesse pausado para abençoar aquele instante.

Após a cerimónia, o aroma de um almoço generoso invadiu o ambiente. Os pratos fumegantes, os risos que ecoavam como música, e as conversas que se entrelaçavam como rios em busca do mar. Foi então, entre garfadas e memórias partilhadas, que o pai da namorada, um homem de semblante simpático mas olhos curiosos, voltou-se para a minha mãe com uma pergunta simples, quase casual: “E vocês, que língua nacional falam?” A minha mãe, com a serenidade de quem carrega a sua identidade como um tesouro, respondeu: “Somos lomwés da Zambézia, e por isso falamos a língua Lomwé.” O que se seguiu foi um instante de pura magia, um daqueles momentos em que o destino parece rir de contentamento.

Para o nosso espanto, o homem, com um sorriso que desvendava segredos, começou a falar Lomwé com uma fluência que nos deixou boquiabertos. As palavras saíam da sua boca como pássaros livres, voando em direcção à minha mãe, que, surpresa, respondeu na mesma língua. De repente, o quintal daquela casa em Caniçado transformou-se num palco de reencontro improvável. A conversa entre os dois ganhou vida, um diálogo animado que dançava ao som de uma melodia ancestral, enquanto nós, os mais jovens, observávamos, atónitos, o florescer daquela conexão inesperada.

Curiosos, pedimos que ele contasse como viera a dominar tão bem a nossa língua. E ele, com a calma de quem já viveu muitas vidas, abriu as portas do passado. Contou-nos que aprendera o Lomwé em São Tomé e Príncipe, para onde fora levado como deportado, numa época de sombras e exílio. Lá, entre moçambicanos, a saudade da terra natal os unira. Foi nesse chão distante que ele encontrou um amigo moçambicano, um companheiro de alma, com quem fez um pacto simples, mas profundo: ensinar um ao outro as suas línguas maternas. E assim, dia após dia, entre risos e silêncios, trocaram palavras, sons e pedaços das suas raízes. Ele aprendeu o Lomwé, e o amigo, por sua vez, abraçou a língua dele, o Shangana. Um acto de resistência, de amor, de humanidade.

Aquele encontro no Caniçado, que começara como uma formalidade, tornou-se algo maior. A apresentação do meu primo, agora, repousava sobre um alicerce mais forte, banhado pela familiaridade de duas etnias que, por um capricho do destino, partilhavam o mesmo idioma. O que era apenas um namoro ganhou contornos de promessa, de laços que transcendiam o tempo e o espaço. E ali, sob o céu de Gaza, enquanto o sol se despedia lentamente, eu não pude deixar de pensar: o mundo, sim, é redondo. Redondo como as histórias que nos encontram, como os caminhos que se cruzam, como as línguas que, mesmo separadas por rios, montanhas ou mares, acabam por se abraçar.

 

Era uma daquelas tardes abrasadoras que só o interior de Moçambique sabe oferecer. A terra em Funhalouro estava seca, cansada e sedenta, como se o calor fosse eterno. Mas ali, onde o silêncio reina e o horizonte parece intocável, havia mais do que uma vila à espera de água. Havia uma história à espera de ser contada.

Foi neste pequeno canto da província de Inhambane que uma lição de liderança brotou do chão, não pelas mãos da tecnologia, mas pela sabedoria do povo. Tudo começou com uma missão aparentemente simples: abrir furos para trazer água às comunidades locais. A equipa chegou munida de máquinas e convicções, mas esqueceram o essencial – o diálogo.

Cinco tentativas frustradas depois, o responsável pela obra viu-se encurralado entre a terra que se recusava a ceder e a pressão de entregar resultados. Num momento de desespero, o líder da equipe decidiu ligar ao então Governador de Inhambane, Daniel Chapo, talvez na esperança de ouvir uma solução técnica ou, quem sabe, uma autorização para desistir. Mas Chapo, com a calma de quem já enfrentou outras secas – físicas e metafóricas –, ofereceu uma resposta que ninguém esperava.

“Já falaram com a comunidade? Já ouviram o que eles têm a dizer?”

A resposta foi um desconcertante “não”. Afinal, na cabeça de quem está habituado a operar máquinas e consultar mapas, a terra deveria ser dominada pela ciência, e não pela história oral. Chapo insistiu: “Voltem. Sentem-se com as pessoas. Escutem. A sabedoria delas vale mais do que qualquer equipamento.”

E assim foi. Numa roda simples, cercados pela humildade de quem conhece a terra como a palma da mão, a equipa ouviu as vozes que antes ignoraram. Um régulo, com um sorriso que parecia misturar paciência e ironia, resumiu tudo numa frase: “Pensámos que sabiam o que estavam a fazer. Mas já que perguntam, podemos ajudar.”

Guiados pelos conselhos da comunidade, os engenheiros começaram a perfurar onde a população indicava. E, como se a terra quisesse premiar a escuta e a colaboração, cada furo trouxe à superfície a água tão aguardada. A alegria que brotou do chão era apenas igualada pelo alívio de quem, finalmente, foi ouvido.

Mas esta história não é apenas sobre água. É sobre liderança. Sobre o tipo de líder que não se esconde atrás de estatísticas ou teorias, mas que entende que a força de Moçambique está no seu povo.

Daniel Chapo, que hoje preside o país, mostrou, naquele dia em Funhalouro, que a verdadeira liderança não nasce de decisões solitárias, mas da humildade de saber ouvir. E, agora, ao olhar para ele como Presidente, a pergunta que ecoa é: será que manterá essa proximidade? Será que continuará a acreditar que o futuro de Moçambique só pode ser construído de mãos dadas com o povo?

Os moçambicanos querem um presidente que saiba que as máquinas sozinhas não constroem o progresso e que o desenvolvimento só acontece quando se trabalha com as pessoas, e não para elas. Queremos um país onde cada voz conta, onde o agricultor, o pescador e o estudante têm tanto a ensinar quanto o economista ou o engenheiro.

Talvez a maior lição de Funhalouro seja esta: não importa quão avançada seja a tecnologia ou quão bem-intencionadas sejam as políticas. Se o povo não for ouvido, os furos continuarão secos.

Hoje, Daniel Chapo carrega o peso de um país cheio de sonhos e desafios. Mas, como Funhalouro mostrou, a solução não está apenas nas suas mãos. Está nas vozes dos moçambicanos, nas comunidades que, tal como a terra, esperam apenas ser tocadas com respeito e atenção.

Moçambique é uma terra de potencial, mas esse potencial só será realizado quando todos forem incluídos no processo. Como em Funhalouro, o sucesso de Chapo como Presidente não será medido pelo número de projetos concluídos, mas pelo impacto real na vida das pessoas.

A água de Funhalouro não foi apenas um recurso encontrado; foi uma lição aprendida. E que esta lição seja a bússola que guie Moçambique para um futuro mais justo, mais inclusivo e mais humano.

Pois, no final, a verdadeira força de um líder não está em impor soluções, mas em construir pontes para que o povo possa, ele próprio, encontrar as respostas que sempre teve.

Tal como foi em Inhambane, acredito num Daniel Chapo, agora Presidente, mostrando que o verdadeiro sucesso da liderança está em ouvir, em aprender, e em trabalhar lado a lado com o povo. Pois, no final, como ele bem sabe, a verdadeira força de Moçambique não vem das sondas ou dos furos, mas da sabedoria coletiva e da colaboração constante entre governo e cidadãos. 

Esse é o Moçambique que queremos ver crescer.

A precariedade da educação leva-nos a afirmar, muitas vezes de forma simplista, que “há jovens que não falam as suas línguas nativas. Eles são uma vergonha!”. Mas será essa uma análise justa?

Fiz parte de uma geração que cresceu num período em que falar línguas moçambicanas na escola era não apenas desencorajado, mas expressamente proibido e até motivo de insulto e castigos. Para aqueles cuja língua materna era o cinyungwe, aprender qualquer matéria se tornava um desafio gigantesco, pois o ensino era exclusivamente em português. Eu, por outro lado, tive o privilégio de ter o português como língua materna e, por isso, nunca enfrentei barreiras linguísticas na escola. Se não compreendia algo, sabia que a dificuldade não era linguística.

Até há pouco tempo, essa realidade era considerada normal. Afinal, há pessoas que chegaram aos 50 anos sem jamais serem fluentes nas suas línguas nativas.

Poderemos considerá-las neofalantes? Não sei. Para o serem, seria necessário que tivessem abandonado voluntariamente a sua língua materna em prol de outra, atingindo, nessa nova língua, um domínio oral e escrito considerável. Contudo, o que se verifica é que muitos moçambicanos não chegam a ser fluentes nem em português nem nas suas línguas nativas, resultado directo de uma realidade que, por décadas, fragilizou e marginalizou as línguas africanas, retardando sua aceitação, padronização e valorização.

O cenário actual é ainda mais crítico quando compreendemos que essa supressão linguística foi reforçada pela infame “lei do assimilado” do regime colonial português. Esta legislação promovia a ideia de que as línguas africanas eram destituídas de valor e que apenas a proficiência em português permitiria aos moçambicanos alguma vantagem. Ser fluente em português tornava-se um passaporte para determinadas funções no Estado, para a participação em cerimónias oficiais e para a ascensão a uma elite que, muitas vezes sem se dar conta, operava a favor do regime colonial. Até à queda desse regime, as nossas línguas já eram amplamente marginalizadas, consideradas indignas, apelidadas de “línguas de cão”. Essa barreira ideológica demorou a ser quebrada, e apenas nas últimas duas décadas começaram a surgir políticas linguísticas voltadas para a sua valorização.

A necessidade de introduzir as línguas moçambicanas no sistema de ensino tornou-se evidente, mas a forma como esse processo foi conduzido gerou estranheza e resistência. Recordo-me de 2007, quando uma brigada visitou a escola primária onde eu estudava para recrutar alunos interessados em aprender cinyungwe. A adesão foi mínima. Para a maioria, parecia ilógico aprender formalmente uma língua que já falava e, para mim, que só dominava o português, parecia inútil estudar uma língua que a sociedade ainda estigmatizava. Em qualquer dos casos, não se viam vantagens. A falta de uma explicação clara sobre a importância dessa mudança fez com que o projecto fosse recebido com desinteresse e desconfiança. Esse preconceito linguístico persiste até hoje.

O reflexo desse histórico de marginalização é evidente: durante muito tempo, as elevadas taxas de reprovação escolar coincidiram com a alta percentagem de alunos não fluentes em português. Esse factor levou professores a adoptarem estratégias para equilibrar as notas no final do ano, mascarando uma realidade preocupante. Contrastando com essa situação, no período imediatamente após a independência, o saber era valorizado acima da origem ou da idade. Muitos moçambicanos foram nomeados para cargos e funções importantes, pelo conhecimento e experiência que possuíam e, acredito, só depois pelo domínio do português.

A reflexão impõe-se: estaremos, agora, a tentar reverter um processo que não começou connosco? Ou estaremos apenas a tentar sobreviver às cicatrizes de um passado linguístico imposto?

Neofalantismo e a importância do cinyungwe 

Quando cheguei à oitava classe (2008), a restrição de falar as nossas línguas na escola já não era tão rígida. Muitos colegas meus eram fluentes em cinyungwe, e foi então que, por iniciativa própria, decidi começar a falar a minha língua. Esse momento marcou uma mudança significativa na minha relação com o idioma e com a minha identidade cultural.

Durante muito tempo, a escola representou um espaço onde a língua portuguesa era a norma, enquanto as línguas locais eram desincentivadas. Esse fenómeno não é exclusivo de Moçambique; ocorre em diversos contextos onde uma língua oficial, muitas vezes herdada do colonialismo, ocupa uma posição de prestígio em detrimento das línguas indígenas. No entanto, ao ver os meus colegas expressando-se naturalmente em cinyungwe, percebi que havia um espaço para retomar minha língua de herança. 

Não me interessa muito se esse processo de reapropriação da língua pode ser descrito como um caso de neofalantismo, um termo usado para designar aqueles que, apesar de não terem aprendido uma língua desde a infância ou não a terem usado activamente por algum período, passam a adoptá-la como meio de comunicação no dia-a-dia. Para mim, essa transição foi tanto um desafio quanto um acto de resistência. No início, enfrentei dificuldades para encontrar as palavras certas e formular frases com fluidez, mas, com o tempo, fui ganhando confiança e desenvolvendo um sentimento de pertencimento mais profundo.

Falar cinyungwe não era apenas uma questão linguística, mas também uma forma de me reconectar com a minha cultura e com a minha comunidade. Era um reencontro com as histórias, expressões e sabedorias que fazem parte do meu povo. A língua carrega em si a memória colectiva, os valores e a cosmovisão de um grupo, e resgatá-la é um passo essencial para fortalecer a identidade cultural.

Actualmente, as línguas moçambicanas ainda enfrentam desafios no reconhecimento e valorização dentro da sociedade. Embora haja políticas linguísticas que busquem promover o ensino e o uso das línguas locais, ainda há um longo caminho a percorrer para que o cinyungwe e outras línguas moçambicanas tenham o espaço que merecem. Ser um neofalante, nesse contexto, não é apenas uma escolha pessoal, mas um acto político e social. 

Acredito que a valorização das línguas locais deve ser uma missão colectiva. O cinyungwe, assim como o changana, o macua, o sena e tantas outras línguas faladas em Moçambique, são parte fundamental do nosso património cultural. 

Cada vez que escolhemos falar, aprender e ensinar as nossas línguas, estamos contribuindo para a sua preservação e continuidade para as futuras gerações.

O meu percurso como neofalante da minha própria língua foi uma jornada de descoberta e empoderamento. Espero que mais jovens sintam-se encorajados a abraçar as suas línguas maternas e perceber que nelas há uma riqueza inestimável.

A língua não é apenas um meio de comunicação, mas também uma afirmação de quem somos e de onde viemos.

Aura é um conceito com vários significados, considerando os distintos contextos de inserção do termo. Segundo o dicionário Prebiram da internet, a Aura é descrita como um ambiente psicológico que parece envolver ou influenciar algo ou alguém.

A AI inteligência artificial possui uma definição similar, aura é um suposto círculo de luz ou energia que envolve o corpo.

Se a exposição de Maria Chale, patente na Fundação Fernando Leite Couto, denominada “Agente da passiva”, que foi inaugurada no dia 12 de Março de 2025, também for entendida como um “corpo”, podemos, seguramente, dizer que esta exposição também possui uma aura, cabe a cada espectador desvendar a aura da exposição.

O título “Agente da passiva” remete-nos a uma dupla fragilidade humana, a incapacidade de sermos protagonistas de todos os eventos que nos ocorrem, e a dificuldade que temos em admitir que somos criaturas frágeis.

Os rostos da exposição, se metamorfoseiam em rostos vividos no nosso quotidiano, são rostos do mercado, da nossa vizinhança, são rostos do nosso prédio, do nosso bairro, são figuras moçambicanizadas visualmente pelos seus rostos e pelas suas vivências.

Se Maria Chale, durante um plebiscito com as telas e aguarelas, foi passada para “agente da passiva”, com certeza uma aura lhe foi entregue para recriar o quotidiano social em que vivemos em quadros como: o preço do saco subiu, a nova cunhada, a patrulha.

Enfeitiçada pela aura do ofício visual, Maria recriou visualmente as diversas auras que tomam posse de si enquanto uma “agente da passiva” que não pode parar o imprevisto de dar vida às telas.

O quadro Aura X feito com recurso a técnica Aguarela sobre papel, com a dimensão de 20x30cm, criado em 2025, é parte da exposição, Maria Chale com o seu talento, convida o espectador a interpretar as emoções visuais do quadro.

Aura X é um quadro que caracteriza o mistério, o desconhecido, com um fundo branco, apresenta linhas e formas indefinidas, as cores ganham vida sobrepondo-se umas por cima das outras, numa tonalidade ora esverdeada ora enegrecida, a tonalidade escura transmite a ideia de algo errado.

O quadro é intrigante, as cores estão em desarmonia, o espectador é transportado para um lugar de desconforto e meditação, a sensação mais patente do quadro é o inconformismo. Chale provavelmente quis espelhar o estado de um cidadão, ou uma aura rebelde, que segue o seu próprio curso, e pelo caminho encontra vários obstáculos, mas inconformada, vai criando, novos caminhos, novas estradas, representadas através das várias curvas de aguarela na tela, essas curvas são saídas, são processos complexos e trabalhosos até este cidadão ou aura chegar ao topo do quadro, o seu destino final.

Para espectadores com menos sensibilidade visual, o facto de não haverem formas convencionais no quadro, e o único recurso de imaginação ser a palavra aura, que por sinal foi tida em vários quadros, pode originar uma limitação na interpretação do quadro.

Aura X pode ser a personificação do clima de tensão e instabilidade que vivemos em Moçambique, deixando cada cidadão em estado de lamúrias e inconformismo.

Aliás, inconformismo é o que todos precisamos para buscar uma mudança e a paz.

Maria Chale é licenciada em Arquitectura e Planeamento Físico pela Universidade Eduardo Mondlane, segue uma carreira apaixonada, e está actualmente na sua terceira exposição individual.

 

Quando se constituiu o artigo 51 que garante à população o direito ao ajuntamento e

manifestação foi com base na fé racional de que, num Estado Democrático, a opinião e participação do povo são essenciais para que haja uma boa governação no país.

Neste sentido, o direito à manifestação devia ser tido como um veículo democrático concebido para transportar a opinião, o clamor, as inquietações das maiorias ou minorias sobre um determinado fenômeno social até a uma autoridade governamental com objectivo de esta criar um espaço de discussão ou negociação em busca de uma solução eficaz ao problema.

Por isso, não era suposto que as manifestações fossem vistas como um empecilho para a realização e consolidação do Estado Democrático em Moçambique. Pelo contrário, o seu exercício deveria ser tido como um meio fidedigno de captar-se a  real vontade, a sensibilidade e a opinião do povo sobre assuntos importantes para

estabilidade, união e progresso duma nação.

E, quando avaliado o grito dos manifestantes e notar-se a sua pertinência, o governo deveria estar apto a criar um espaço de diálogo com os próprios manifestantes, buscando esclarecer mal-entendidos ou corrigir-se dos seus erros cometidos. Todo e qualquer governo que se põe a ouvir a inquietação do povo e se predispõe a dialogar com ele, consegue claramente encontrar soluções pacíficas e eficazes à altura dos problemas apresentados. A comunicação pode salvar uma nação.

Todavia, uma ideia errônea sobre a importância do direito à manifestação tem norteado mal o regime do dia. De forma prática, o governo moçambicano continua com a perniciosa concepção de que aquele que se manifesta nas ruas assume uma posição inimiga contra o Estado ou mesmo serve de boicote à governação do partido no poder.

Sendo assim, todos os grupos que se fizerem à rua com alguma objecção sócio-política amiúde têm sofrido repreensão violenta da Polícia, uma força legal sob o comando do executivo. Em Moçambique, as manifestações que não registam ocorrências de casos de violência policial são aquelas que normalmente louvam algum feito do governo. E, curiosamente, têm sido manifestações lideradas pelos grupos pró-governo como OJM, OMM, CNJ e outras filiações do partido no poder.

Esta clara descriminação reforça a impressão duma postura antidemocrática do governo quando se trata de respeitar as práticas civis previstas na constituição. Deste modo, servindo-se da política de violência policial contra as manifestações pacíficas, o governo fecha a esfera pública, proibindo assim o exercício da liberdade de expressão colectiva tanto às maiorias como às minorias na nossa sociedade.

 

Não havendo aceitação política de os grupos sociais participarem, ainda que de forma pacífica, na esfera pública, automaticamente, o governo impede-lhes o direito de serem ouvidos e a possibilidade de terem os seus problemas ou inquietações resolvidos por ele próprio. Esta postura de ignorar as reivindicações daqueles que marcham, protestam traduz fielmente uma política do silêncio de um regime ditatorial.

Ante este comportamento antidemocrático de uso excessivo da força policial e indiferença do governo às reais inquietações dos protestantes, que alternativas restam a este povo oprimido e ignorado?

Não resta outra alternativa conveniente às massas senão responder à ditadura com as versões da mesma moeda: violência, vandalismo, desobediência, insurreição. O líder socialista venezuelano, Hugo Chávez, já havia constatado essa eventual reacção de um povo farto de ditadura, quando sentenciou:

“Los que le cierram el camino a la revolución pacífica, le abren al miesmo tiempo el camino a la revolución violenta” (Trad.: aqueles que impedem o caminho para revolução (manifestação) pacífica, abrem, ao mesmo tempo, o caminho à revolução violenta.)

Em Moçambique, tal caminho para acções populares violentas ficou aberto, como consequência de um longo período de repreensão violenta a manifestações pacíficas que reivindicavam a verdade eleitoral, salários atrasados, raptos dos empregadores, má governação e alto custo de vida.

Quando se proíbe que um povo manifeste a sua indignação na rua, de forma pacífica e ordeira, o mesmo povo acaba vendo-se obrigado a recorrer à destruição como uma forma legítima de obter atenção suprema ou criar a pressão sobre o seu governo no desespero de que os seus problemas não sejam mais ignorados. Sendo assim, barricar as vias públicas, queimar pneus, pilhar e destruir as instituições públicas, incluindo propriedades privadas, passa a ser o seu novo modus operandi acompanhado de desobediência civil e, às vezes, de assassinatos dos supostos apoiantes ou defensores do regime.

Este comportamento popular, embora bárbaro e censurável, é de fácil compreensão,

pois é um comportamento que até se observa em relações interpessoais. Quando, por exemplo, um credor lhe é devido o seu dinheiro pelo caloteiro, e ele usa meios pacíficos para reaver o seu valor, mas é ignorado, evitado e, às vezes, humilhado, o que acontece é que este credor se acaba vendo na obrigação de mudar de método de cobrança da sua dívida. E, muitas vezes, o meio de pressão que ele encontra acaba envolvendo ultimatos, pancadarias e apreensão de bens. Reitero: a violência é um meio que se deve censurar e desencorajar, entretanto, a melhor maneira de dissuadi-la é abrir canais de diálogo e liberdade de expressão. Sem essas condições, as massas tenderão sempre a recorrer ao caos para impor a sua vontade ou obrigar que a sua reclamação seja ouvida e acautelada pelas autoridades, a qualquer custo.

Em suma, é a falta de abertura a um diálogo responsável e o uso excessivo da força

policial que obrigou o povo a recorrer a manifestações violentas e desobediência civil como meio de expressão. Se o povo chega a desobedecer ou violentar um polícia, é que predominou nele a sensação de que esta autoridade não está mais a servir os interesses do Estado para os quais foi consagrada, mas os interesses particulares do regime. Se o povo chega a queimar tribunais e sedes do partido, é porque provavelmente teve a percepção que estas instituições são lhe corruptas e manipuladoras.

Para os males presentes de vandalismo e desobediência que se ameaçam deteriorar em anarquia absoluta ou guerra civil, não há outro remédio mais eficaz que abertura a um diálogo comprometido com mudanças necessárias capazes de tornar as instituições públicas autônomas e credíveis. As sementes da insurreição popular, em Moçambique, já foram lançadas, desde as eleições turbulentas de 2024, e não há que as impedir de germinar com uso de mais violência estatal, isso seria mesmo que as regar e adubar.

Em tempos de ódio, apenas o diálogo e compromisso com a mudança podem impedir a derrocada de uma nação. Delongar o processo de reconciliação nacional assemelha-se a deixar a tuberculose propagar-se por mais tempo no nosso organismo. Quanto mais tarde a doença for tratada, mais penosa e difícil será a sua cura, como disse Nicolau Maquiavel.

O caminho para paz não passa por perseguir aqueles que  estão no lado oposto ou contrário do regime, mas corrigir as razões que os levaram a passar para o outro lado, tal como apelou o artista moçambicano, Azagaia, “mude a causa para mudar a consequência” (in Povo no Poder).

 

A história de um país não se escreve apenas com factos, mas também com silêncios. Há episódios que são meticulosamente arquivados, distorcidos ou simplesmente apagados. Em Moçambique, a memória colectiva ergue-se nesse equilíbrio frágil entre o que se revela e o que se omite. Chave de Areia, de Bento Baloi, inscreve-se nesse território instável, onde a busca pela verdade se choca com relatos dispersos e identidades voláteis.

O romance não apenas revisita um dos episódios mais enigmáticos da história moçambicana — o desastre de Mbuzini —, como também entrelaça essa tragédia nacional aos estilhaços de uma família consumida por traições, segredos e revelações inesperadas.

A obra opera em múltiplos níveis: há uma investigação sobre a morte de Samora Machel, onde política e conspiração se entrecruzam; um drama íntimo, tecido pelo triângulo amoroso entre Márcia, Roberto e Chirindza; e uma jornada identitária, conduzida por Dambu, um jovem que se vê confrontado com a instabilidade de suas origens.

Essas camadas não são independentes — o pessoal e o político se fundem a tal ponto que a pergunta que se impõe não é apenas “o que realmente aconteceu?” mas também, “o que significa ser moçambicano quando a própria memória do país é uma disputa?”.

A morte de Samora Machel, em Mbuzini, permanece como um mistério envolto em versões contraditórias. Bento Baloi não busca fornecer respostas definitivas, mas insere essa tragédia no centro da narrativa, transformando-a em um espelho para reflectir outras formas de silenciamento e distorção da verdade.

O romance não se limita a reconstruir os acontecimentos históricos. Ele os coloca em tensão com personagens que também vivem cercados por verdades provisórias e lembranças que se desmancham ao toque. O autor conduz o leitor por documentos, relatos e investigações, tornando a obra um exercício de memória colectiva.

No entanto, essa sobrecarga informativa, por vezes, atrasa a fluidez da história, exigindo um leitor atento. Ainda assim, essa escolha estilística reforça a ideia de que compreender o passado — seja nacional ou pessoal — exige esforço, paciência e persistência.

 

No plano íntimo, o romance desvela relações corroídas pelo tempo e pelas circunstâncias.

 

Márcia, investigadora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, não carrega apenas documentos e pesquisas — traz consigo os escombros de uma vida permeada por escolhas difíceis. Chirindza, seu antigo amor, partiu para estudar no exterior e, ao regressar, encontrou-a casada com Roberto, seu grande amigo. Esse reencontro não só é um choque emocional, como também uma metáfora para um país onde as ausências nunca deixam o espaço vazio por muito tempo, ou seja, “nós sempre deixamos alguma coisa para trás. Não podemos evitar. Isso é o que nos define” ( In: A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera).

O conflito entre Chirindza e Roberto não se limita à disputa amorosa. É um embate onde ninguém sai ileso.

Para Dambu, que sempre acreditou pertencer àquela história, a revelação de que não é filho biológico de Márcia desmorona as suas certezas. Sua identidade, que parecia tão bem definida, revela-se frágil, quase ilusória. O que resta quando tudo aquilo que nos definia se dissolve?

O título da obra não é um detalhe arbitrário. Chave de Areia sugere uma metáfora: a chave, símbolo de acesso ao conhecimento, à verdade e à identidade, se desfaz antes mesmo de cumprir a sua função. Como a areia que escapa entre os dedos, a História de Moçambique, as memórias familiares e as certezas de Dambu se fragmentam à medida que ele avança em sua busca.

Bento Baloi constrói um romance que desafia o leitor a questionar para além do passado oficial do país, também as narrativas que sustentam nossas próprias existências. Há momentos em que a densidade da trama exige esforço, mas esse é o preço de uma obra que se recusa a oferecer respostas simplistas.

E, no fim, o livro nos deixa uma inquietação: é possível construir uma identidade sobre alicerces movediços? Se a história de um país se faz tanto do que se conta quanto do que se cala, onde está, afinal, a verdade?

Talvez ela resida menos nas respostas e mais nas perguntas que ousamos fazer, nas memórias que recusamos enterrar. Porque compreender Moçambique – e a nós mesmos – exige encarar o que se dissolve, se distorce e se reconstrói. E, acima de tudo, exige a consciência de que a luta não termina na última página. Como dizia Samora Machel, “a luta continua!”.

 

Ancorando novas coordenadas, traçando novos planos, as duas sessões anuais (Assembleia Popular Nacional e Conferência Consultiva Política do Povo Chinês) da China, que acabaram de ter lugar em Beijing, semeam a confiança na modernização ao estilo chinês e iluminam uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.

Navio económico gigantesco navega pelas ondas e ventos.

Em 2024, o Produto Interno Bruto da China alcançou 134,9 trilhões de yuans, com um crescimento de 5% em relação ao ano anterior. A produção de cereais atingiu pela primeira vez 700 mil milhões de quilogramas. Foram criados 12,56 milhões de novos postos de trabalho urbanos. A produção anual de veículos de nova energia superou as 13 milhões de unidades. Os dados encorajadores apresentados no relatório do governo central mostrou ao mundo a força e vitalidade extraordinária da

economia chinesa. O desenvolvimento económico da China é sólido e repleto de vantagens. A China é o único país com todas as categorias industriais definidas pela ONU e os valores agregados da manufatura chinesa têm ocupado o primeiro lugar

do mundo por 14 anos consecutivos. A resiliência e o potencial do desenvolvimento económico da China são fortes. A taxa de contribuição chinesa para o crescimento económico global mantém-se em torno de 30%. O vasto mercado continua a oferecer dividendos de desenvolvimento para o mundo.

O ano corrente marca o final do 14º plano quinquenal da China e o início do planeamento do 15º plano quinquenal. A China continuará a impulsionar um maior aprofundamento integral da reforma, promovendo a construção de um grande país e o empreendimento da revitalização nacional por meio da modernização chinesa. Ao mesmo tempo, continuará a trazer mais oportunidades para a recuperação e crescimento da economia mundial.

Diplomacia de grande potência é vanguarda beneficiando o mundo.

Atualmente, a situação internacional está cheia de mudanças e desafios, com conflitos geopolíticos escalados. Os fenômenos do “desacoplamento e fragmentação das cadeias industriais e de abastecimento”, “pequenos pátios com vedações altas” e “cortinas de ferro tarifárias”; tornam-se cada vez mais evidentes.

Diante de desafios globais constantemente emergentes, a China adere a um verdadeiro multilateralismo e defende o conceito de governação global baseado na consulta, construção e partilha conjuntas. Honramos os compromissos do Acordo de Paris e construímos o maior sistema de produção de energia limpa do mundo. A China é o primeiro país do mundo a classificar oficialmente as substâncias relacionadas com o fentanil como uma classe, dando um contributo notável para a causa internacional da luta contra a droga. Insistimos numa cooperação económica e comercial mutuamente benéfica, opomo-nos às guerras tarifárias e comerciais que prejudicam os outros e a si próprio, e rejeitamos a politização e a instrumentalização das questões económicas e comerciais. A China propôs e implementou três iniciativas globais, e atualmente 82 países fazem parte do “Grupo de Amigos da Iniciativa Global de Desenvolvimento”, enquanto 119 países e organizações internacionais apoiam a Iniciativa Global de Segurança. A 78ª sessão da Assembleia Geral da ONU aprovou por unânime a resolução sobre o Estabelecimento do Dia Internacional para o Diálogo entre Civilizações, proposta pela China.

O ano corrente marca o 80º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e a vitória da Guerra Antifascista Mundial. A China é um dos fundadores e beneficiários da ordem internacional pós-WW II e também é um dos principais defensores e construtores dessa ordem. A China vai ficar firmemente ao lado correto da história e do progresso humano, defender a autoridade e o estatuto da ONU e opor-se ao hegemonismo, à política de poder, a todas as formas de unilateralismo e protecionismo, salvaguardando a justiça e a equidade internacionais e oferecendo mais fatores de certeza para um mundo incerto com a estabilidade da China.

Cooperação China-África atravessa montanhas e mares para abrir uma nova viagem. 

A China e a África são amigas, parceiras e irmãos verdadeiros que compartilham o mesmo futuro. Sob a liderança do presidente Xi Jinping e dos líderes africanos, as relações China-África abraça o melhor período na sua história, elevadas para uma comunidade com futuro compartilhado China-África de todos os tempos na nova era. A Ferrovia Tanzânia–Zâmbia, a Ferrovia Mombasa-Nairobi e a Ferrovia Addis Abeba–Djibuti, são exemplos da amizade China-África que liga o caminho da felicidade. O cultivo de arroz, a tecnologia de fungos e o atelier Lu Ban, são exemplo da cooperação China-África que entoa a canção da prosperidade.

O ano corrente marca o 25º aniversário da fundação do FOCAC e o 50º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas China-Moçambique. A China está disposta a trabalhar em conjunto com Moçambique para impulsionar a implementação das seis principais propostas de modernização e das dez ações de parceria, de forma a promover a modernização conjunta China-África. A China está disposta a fortalecer os intercâmbios de experiências da governança, implementar o tratamento de taxas alfandegárias zero a 100 por cento dos produtos de Moçambique e outras medidas preferenciais, expandir as oportunidades de cooperação nas áreas tais como economia digital e desenvolvimento verde, a fim de criar mais benefícios tangíveis para os povos dos dois países, escrevendo um novo

capítulo da amizade tradicional sino-moçambicana e injetando uma nova força para o desenvolvimento acelerado do Sul Global.

O labirinto de estradas em Massinga, pontuada por poeira e o cheiro da terra quente, levou-me ao Centro de Apoio a Idosos, um espaço simples, mas impregnado de histórias que, muitas vezes, preferíamos não ouvir. Foi lá que conheci Joaquina, uma mulher de 72 anos, pele enrugada pelo tempo e olhar vazio, mas com uma história tão pesada que me sufocou enquanto ela falava.

Sentada numa cadeira de madeira, com um lenço amarrado na cabeça, Joaquina contou-me sobre os dias mais sombrios da sua vida. “O meu filho tentou matar-me, senhor jornalista. Ele dizia que eu era uma feiticeira, que eu tinha amaldiçoado a sua vida. Mas eu sou apenas uma mãe…” A voz dela tremia, e os olhos, húmidos, carregavam uma mistura de dor e vergonha.

Joaquina teve quatro filhos, mas apenas um sobrevivia. Esse filho, que em tempos foi o centro do seu mundo, trabalhava na África do Sul, onde procurava o sustento que nunca chegou. Segundo ele, as suas constantes desgraças eram culpa da mãe. “Dizia que eu era a razão pela qual ele não prosperava, que eu o tinha enfeitiçado para não ter sorte no trabalho nem em nada.”

No princípio, as palavras eram cortantes, mas ainda suportáveis. “Chamava-me coisas feias… dizia que eu era má, que devia morrer. Eu fingia que não ouvia, mas, por dentro, doía tanto.” A violência psicológica deu lugar à física. Joaquina relatou que, quando o filho voltava de madrugada, embriagado, obrigava-a a ficar de pé durante horas enquanto ele a insultava. “Uma vez, ele atirou-me um prato cheio de comida à cara e disse: ‘Não precisas disto, feiticeira!’ Depois disso, parou de me dar de comer.”

O ponto mais baixo chegou numa noite fria. Após uma consulta com um curandeiro, o filho voltou com um olhar de ódio que Joaquina nunca tinha visto antes. “Disse-me que o curandeiro tinha-lhe explicado tudo: que eu tinha lançado feitiços para ele não arranjar mulher, para ele ter disfunção sexual e não sair de casa. Disse que eu queria controlá-lo para sempre.”

Foi nessa noite que ele tentou matá-la. “Agarrou numa faca e veio para cima de mim. Se não fosse o vizinho que ouviu os meus gritos, eu não estaria aqui para contar esta história.” Joaquina foi levada para o centro por esses vizinhos, mas o trauma ficou para sempre. Ela chora à noite, perguntando a Deus onde errou como mãe.

Enquanto ouvia Joaquina, sentia-me esmagado por uma questão: como pode alguém tentar matar a mulher que lhe deu a vida? Não é apenas a história de Joaquina. A província de Inhambane está repleta de casos semelhantes. Muitos idosos são acusados de feitiçaria pelos próprios filhos, netos ou vizinhos, com base em crenças alimentadas por curandeiros que agem como juízes e carrascos.

Esses curandeiros, que deveriam ser guardiões das nossas tradições, muitas vezes são catalisadores de tragédias. Como é possível que, em pleno século XXI, pessoas recorram a tais práticas para justificar fracassos pessoais? Por que é mais fácil culpar os pais do que assumir responsabilidades? Joaquina não é uma feiticeira. É uma mãe que amamentou, criou, chorou e lutou pelo filho. Mas, no final, tornou-se vítima dele.

Enquanto deixava o centro, a pergunta ecoava na minha mente: quando perdemos a nossa humanidade? Os filhos, que deveriam proteger os pais, agora são os algozes. A tradição, que deveria ser um pilar de união e respeito, tornou-se uma arma letal nas mãos de quem não entende o seu verdadeiro valor.

E quanto aos curandeiros? Não têm responsabilidade alguma neste ciclo de violência? Até que ponto eles contribuem para a construção de uma sociedade mais justa? Não deveriam ser educadores do amor e do respeito ao próximo, em vez de perpetuarem o ódio e a destruição de laços familiares?

Joaquina é apenas uma entre milhares. A violência contra os idosos é uma ferida aberta que denuncia o nosso fracasso enquanto sociedade. Somos um povo que canta o amor, mas que o mata em silêncio nas casas de Massinga, Vilankulo ou Morrumbene.

Ao regressar, as palavras de Joaquina ecoavam na minha mente: “Eu só queria que ele me chamasse de mãe outra vez.” E eu pergunto a cada um de nós: onde está o amor que juramos às nossas mães e pais quando eles nos carregavam no colo? Quando perdemos a capacidade de os ver como os seres que mais nos amaram?

Talvez ainda haja tempo para nos reencontrarmos com a humanidade perdida. Porque, no fim, o que resta é a pergunta que Joaquina nunca deixou de se fazer: “Mãe, não me mates mais.” Mas quem, realmente, matou quem?

Já é sobejamente conhecida a ideia de que a crítica literária pode ser tomada de determinada forma em função do espaço em que circula, dos objectivos que condicionam a sua produção, bem como dos mecanismos discursivos que a sustentam.

Vem daí a ideia de se distinguir a crítica literária jornalística da académica. Há, actualmente, uma crescente tendência de se prestar certa atenção à crítica literária que é feita em meios “contra-hegemónicos” (blogs, vlogs, redes de chat, etc.), mas, de uma ou de outra forma, esses
são, para mim, espaços de divulgação. Não vejo outra característica particular de textos que surgem nesses meios. Casos há em que um texto crítico publicado em tais meios é eminentemente jornalístico e, noutros casos, não poucos, é um texto académico.

Há, contudo, uma crescente apropriação do género crónica argumentativa/de opinião no domínio da crítica literária feita nesses meios. Tal apropriação não se resume a criadores de conteúdos de crítica literária, mas a vários intelectuais de diversas áreas que, pelo meio em que pretendem fazer circular o texto, despem-se das suas amarras académicas e dão ao texto um ar mais leve.

Mais agradável. Engraçado, porém profundo. Já agora, foi com esse propósito que surgiu a coluna “tasaver”.

Ainda que neste último caso e no da crítica jornalística haja um interesse de tornar o texto leve e menos “picante”, há sempre reacções crispadas. Defensivas. Agressivas, às vezes. É interessante quando tais reacções culminam em troca de cartas nos jornais ou em notas de esclarecimentos nos mesmos meios em que a crítica circulou. É até um exercício elegante.

Não penso que isto ocorra por acaso. Nem por causa de quem criticou ou por causa do criticado.

O facto é simples e claro: a crítica dói, meus senhores. Mas, muitas vezes, representa o choque de realidade de que precisamos. É essa consciência que faz com que doa menos e fiquemos gratos quando nos é dirigida nos meios jornalísticos tradicionais ou nos digitais (contra-
hegemónicos).

Curiosamente, esta é a crítica a que os autores têm acesso, porque circula. Gera debate. Promove a obra, mas também pode desacreditá-la.

Enquanto isso, a crítica académica anda ali como a dama intocável da zona. Que deseja alguns rapazes mas não se quer dirigir a eles. Vive fazendo comentários em surdina e quando um dos jovens (por si admirado ou não) se aproxima, finge que “não está nem aí”. É assim a academia. É assim a indústria cultural. É assim a sociedade. Todas essas são instâncias de poder. Onde há poder, há hipocrisia.

Comparando o que se produz, do ponto de vista crítico, no jornalismo, nos meios digitais e na academia, seria interessante que os escritores lessem géneros académicos produzidos sobre os seus livros. Na sua maioria, são textos ancorados a uma crítica de fundamentação. Uma crítica que “produz” uma teoria e procura fundamentá-la com base em excertos da obra ou na sua macro/micro-estrutura.

Mas nisso não há, apesar de me parecer um exercício um tanto quanto gasto pela perspectiva em que é tomado. Muitas vezes é feito de fora para dentro e não de dentro para fora, o que, quanto a mim, seria um pouco mais interessante.

Nesse exercício feito de fora para dentro. Dito de outra forma, da teoria para a fundamentação no texto, há um processo contínuo e cansativo de sacralização do texto e, outro pecado maior, o de endeusamento do autor empírico como se este e o autor textual fossem a mesma instância.

Seria interessante que os escritores lessem géneros académicos produzidos sobre os seus livros.

São textos muito elogiosos. Capazes de dizer o que nem o autor pensou quando escreveu tal texto. Nada vejo contra tal exercício: afinal a leitura interactiva dá espaço para esse mágico acontecimento: o texto terá diversas interpretações cada vez que passa pela igual diversidade de
leitores. É justo. Mas, cá entre nós, há exageros. Fazemos interpretações forçadas. Nesse movimento “de fora para dentro” há teorias que não encontram, na obra, um terreno fértil para ganhar vida, mas nós damos sempre um “empurrãozinho”. Um adubo acrescido. Uma rega aqui e
acolá, e zás, surge o título da crítica académica: “a manifestação de [FENÓMENO] em [TÍTULO DO LIVRO] de [AUTOR]” com argumentos totalmente “martelados”.

São estes “martelanços” que me fazem pensar no quão interessante seria se os autores tivessem acesso aos textos produzidos no meio académico sobre a sua produção literária à semelhança dos que são produzidos noutros meios e que geram reacções crispadas, pelo que surgem algumas perguntas de base:

1. Haveria igual reacção, mesmo não concordando com o que é dito?
2. Haveria interesse em interagir com o autor do texto crítico para entender melhor a sua
perspectiva?
3. Haveria um retorno ao exercício oficinal para aprimorar certos aspectos que possam ter
gerado a eventual “desorientação” do leitor crítico?
4. Haveria uma carta ao júri de defesa, se tiver sido um trabalho de culminação de curso?
5. Haveria uma carta ao editor da revista, se tiver sido um artigo publicado numa revista
científica?

Enfim! São muitas perguntas, para uma só resposta: seria interessante!

A graça disso não estaria no prazer de ver uma potencial “guerra de titãs” mas na movimentação do “sistema literário” que isso iria representar. Não seria novidade: há casos relatados em outras latitudes em que certos autores fizeram a carreira inteira de costas viradas
com um certo crítico ou um conjunto deles e as partes seguiram tranquilamente as suas vidas e continuaram a exercer o seu papel com consciência do que estavam a fazer…afinal, nem o autor nem o crítico são semideuses avessos ao contraditório. O fim máximo dessa divergência de perspectivas/opiniões/escolhas estéticas não foi sobre quem ganhou e quem perdeu, mas sobre a importância que isso teve para a manutenção do sistema literário que se estava a construir.

Em síntese, se quisermos um sistema sério e estivermos comprometidos com isso, precisamos de ultrapassar as “guerras das comadres”, “as lutas de almofadas”, “as doxas de bar e dos grupos de chat” e assumirmos um compromisso sério com a “sarna” que escolhemos para nos coçar: a escrita e publicação de livros.

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