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ARTIGOS DE OPINIÃO

“Mati”, de Selma Uamusse, é o ponto de partida para o que consideranos canto de sereia. A voz da cantora moçambicana é um convite ao ênfase sensorial. Na música, o som da água ao fundo é um espectáculo que nos permite, ainda que de olhos fechados, contemplar o fluxo de emoções que se vai intensificando conjuntamente com o timbre da cantora.

“Mati”, do ronga/changana, significa água em português. Assim, a música de Selma Uamusse trata da água, mas não apenas como elemento da natureza. Também  trata da água que mexe com o eu-lírico, a água como bênção capaz de curar.

A composição mistura o ronga/changana e o inglês, o que constitui uma combinação fascinante, principalmente no trecho “You’re Mati/ Mati for my mind/ Healing Mati/ Mati for my soul”.

Nas passagens acima, as línguas parecem ser uma só, abrindo portas para uma óbvia reflexão: A água é água em qualquer canto do mundo, o que nos leva a pensar: como todos encaramos o líquido?

A composição de “Mati” é cíclica, sendo feita de repetições melódicas. Assim como os três estados da água: líquido, sólido e gasoso, que se vão alterando consoante a mudança de temperatura.

O eu-lírico relaciona a água ao amor. Nesse exercício, a água é alimento, cura, economia e respiração. Percebe-se, assim, o uso da personificação, por se emprestarem acções humanas a seres, definitivamente, inanimados. Contudo, entende-se a mensagem a passar: o uso racional da água, que, nesse caso, estará “viva” e em óptimas condições de curar enquanto for economizada, um  auxílio importante para o ecossistema, evidenciado no trecho “Healing water/ Saving water/ Feeding water/ Changing water”.

mensagem acima, portanto, passada com tamanha sutileza, é um mérito indiscutível do(a) compositor(a).

Ao contrário de “Mati”, de Selma Uamusse, o conto “Nuvem de espuma”, de Bento Baloi apresenta a água como calamidade. É por causa da água que Nyaswa perde tudo o que tem. O conto começa de forma inquietante: “A água chega com os mochos. Os pássaros da morte movem-se pelos ares, sussurrando segredinhos apocalípticos aos ventos frios da madrugada. O Búzi nega em deixar-se comprimir por um par de margens já flácidas. Borbulha por aqui e por ali, galgando o interior de impotentes paredes da argila”.

A referência à chegada da água, juntamente com os mochos, é aterrorizante, é a certeza de que mortes virão e de que legados serão encerrados.

O Rio Búzi é descrito como um corpo vivo, revoltado, que se recusa a obedecer às margens, como se a natureza, cansada de contenção, se insurgisse contra o Homem e as suas frágeis estruturas.

A imagem da água que “borbulha por aqui e por ali”, transmite uma sensação de caos crescente, de desordem que escapa ao controle humano.

Enquanto “Mati” evoca a água como sopro divino, bênção que cura e renova, “Nuvem de Espuma” a apresenta como entidade vingativa, destruidora de vidas, famílias e memórias.

Nyaswa, protagonista do conto de Bento Baloi, vê-se diante de um luto que não é apenas pessoal, mas colectivo: o luto por uma terra afogada, por tradições soterradas na lama, por histórias interrompidas pela correnteza.

Ambas as obras, apesar dos seus contrastes, convergem num ponto essencial: a água nunca é neutra.  É agente da transformação. Tanto no respiro suave da canção de Selma Uamusse  quanto na inundação brutal narrada por Bento Baloi, a água atua como força que exige resposta, como presença que nos obriga a reflectir sobre o equilíbrio entre o cuidado e a negligência, entre o respeito e o abuso.

Há também uma camada simbólica comum entre as duas obras: a água como expressão da mulher africana.

Em “Mati”, a água é vida e voz: canta, cura e conduz. Em “Nuvem de Espuma”, a água é dor e perda: carrega a morte do filho de Nyaswa, imagem pungente de um útero que, em vez de gerar, desaba. O feminino é, assim, atravessado pela contradição da água: fértil e feroz, suave e avassalador.

Tanto “Mati” quanto “Nuvem de Espuma” elucidam a duplicidade da vida. Costumamos exaltar a água como fonte de vida, esquecendo-nos da sua força destruidora e imprevisível. Em “Mati”, essa imprevisibilidade abençoa e faz nascer a esperança. Já em “Nuvem de Espuma”, a água amaldiçoa e afoga qualquer possibilidade de esperança . A esperança de Nyaswa, como de tantas mães, neste mundo, reside no seu filho, e é exactamente essa esperança que se perde nas águas do Búzi.

É esse dualismo que torna a leitura das duas obras tão complementar. Uma não nega a outra. Juntas, as obras revelam que a natureza, assim como o ser humano, não se resume a uma só face. Portanto, é preciso saber ouvir tanto o canto da sereia quanto o sussurro dos mochos, porque, no fim, ambos anunciam aquilo que a água sempre soube: que toda vida, para existir, precisa saber dançar entre o fluxo e a fúria.

26 de julho de 2025.

Nota do editor: Texto resultado das actividades na oficina de escrita sobre crítica de arte, na Fundação Fernando Leite Couto.

Por mais que não sejas formalmente associado, é inevitável não tomar conhecimento das três listas que pretendem dirigir os destinos da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) nos próximos três anos. Os telemóveis andam pejados de cartazes com fotografias e slogans, autênticos chavões que nos remetem ao mesmo cenário vivido na nossa política doméstica: exposição de pessoas e não de ideias.

Ainda que se esteja a pensar num fórum próprio para o efeito, nada obsta que haja um debate público partilhado nos mesmos canais pelos quais esses cartazes passam. Das duas, uma: se há fórum próprio para o debate de ideias, que haja, igualmente, fórum próprio para a partilha de fotografias e slogans.

Penso nestas coisas e na mensagem que construo na minha mente cada vez que vejo estas listas. Na ausência da divulgação de ideias, salvo uma e outra lista que o faz, detenho-me nas pessoas: talvez o fim máximo seja esse. Nunca se sabe!

Cá para mim: (1) ou o meu networking no meio literário está cada vez maior ou (2) os  “underdogs” querem controlar a narrativa a partir do mainstream.

A primeira hipótese tem um argumento que sustenta, igualmente, a segunda. Os nomes que constam das três listas são de figuras que não me são distantes. Não me refiro, objectivamente, aos nomes do topo, mas aos dos integrantes que, em síntese, constituem a engrenagem através da qual a máquina poderá seguir nos próximos tempos.

A segunda hipótese que, tal como disse, sustenta-se, também, pelo argumento anterior, surge de uma orfandade que há muito se vive no meio literário se se considerar o objectivo macro da AEMO: defender os interesses dos escritores nacionais e promover a literatura moçambicana.

Se formos a examinar, sem paixões, a acção desta agremiação neste quesito, poderemos questionar muita coisa que não caberia nestas linhas que se pretendem breves. Mas há uma pergunta basilar que escancara tudo: quantos (jovens) escritores com uma crescente relevância no nosso meio tiveram os seus interesses defendidos pela AEMO?

Sim. A resposta é essa. Portanto, alguns destes que não nutrem paixões de adolescência pela AEMO (do passado até hoje) constam destas listas. Seguramente, a agenda é clara. Há um sentimento de se estar na periferia e pensa-se que dirigindo os destinos da AEMO se possa mudar tanto o sentimento quanto o cenário da cada vez mais crescente polarização.

Independentemente da legitimidade da leitura que faço desta azáfama, penso que a consciência dos membros destas listas podia reservar alguns minutos para reflectir sobre a sua eventual acção futura:

(1) num contexto em que são escassos ou quase inacessíveis os meios tradicionais de partilha de textos literários (jornais, revistas, antologias, etc.) e os escritores se fazem conhecer no mercado literário nacional e internacional “à sua maneira”;

(2) neste tempo em que se faz literatura sem uma filiação formal e efectiva com a AEMO e fora do principal espaço midiático (Maputo);

(3) na constante busca pela pluralidade associativa com igual legitimidade para defender os interesses dos escritores nacionais e de promover a literatura moçambicana.

elisiomiamboem@gmail.com

Resumo: Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de patriotismo no contexto moçambicano contemporâneo, traçando a sua evolução desde as origens históricas globais até às suas interpretações actuais no país. Parte de um diálogo informal para problematizar o uso crescente e, muitas vezes, instrumentalizado da palavra “patriotismo” em discursos políticos e sociais recentes, sobretudo após as manifestações populares de 2024. O texto argumenta que, enquanto no passado o patriotismo foi associado à lealdade aos reis, à luta de libertação ou ao partido no poder, nos dias de hoje, deve ser reconfigurado como um compromisso com a justiça, a responsabilização e a cidadania activa. Sustenta-se que o verdadeiro patriota não é o que aplaude incondicionalmente o governo, mas aquele que pensa criticamente, denuncia injustiças e participa activamente na construção de um Moçambique mais justo, democrático e inclusivo.

Contexto: Foi numa troca de ideias informal, ao telefone com o professor e investigador PHD Egídio Chaimite, com quem tenho colaborado em diversos trabalhos académicos.  No decurso da conversa, que versava sobre a actual situação política do país, sobressaiu um questionamento: o que significa, afinal, ser patriota nos dias que correm? O tema surgiu de forma espontânea, mas com tal densidade, que acabou por dar origem a este artigo, como extensão daquela conversa telefónica.

A pertinência da reflexão funda-se no facto de, nos últimos tempos, o termo “patriotismo” ter ressurgido com força no debate público moçambicano. Invocado amplamente em discursos políticos, artigos de opinião e publicações nas redes sociais, tornou-se uma espécie de carimbo moral: ou se é patriota, ou se está contra o país. A palavra deixou de ser um sentimento partilhado para se tornar numa arma discursiva, usada para separar os “bons moçambicanos” (aqueles que são os obedientes), dos “antipatriotas”, aparentemente os críticos. Esta polarização, longe de enriquecer o debate democrático, empobrece-o. 

Do lado político, em particular, a palavra “patriotismo” passou a ecoar em discursos políticos como instrumento inovador para recuperar a estabilidade social e política, mas o uso indiscriminado deste termo levanta suspeitas. Muitos dos que mais o invocam são os mesmos que fazem da bajulação um modo de vida. Em nome do patriotismo, confunde-se lealdade com silêncio, crítica com traição. Será patriota apenas quem aplaude o governo? Será que amar a pátria é obedecer, sem pensar, à lógica do poder? Estas são as perguntas que este artigo propõe discutir.

O Conceito: Patriotismo é um sentimento de amor, orgulho e dedicação à pátria, esta que é entendida, no sentido lato, como espaço simbólico (não meramente geográfico) de memória colectiva, cultura, história e de lutas comuns. No entanto, este sentido variou ao longo da história e em diversos quadrantes.

Na Europa, por exemplo, no século XVIII, ser patriota era sinónimo de defender a monarquia ou combater nas suas guerras. No entanto, a partir do século XIX, com a Revolução Francesa e a Revolução Americana, o patriotismo passou a ser associado à lealdade dos cidadãos, não aos reis, mas sim a ideais comuns de liberdade, igualdade e soberania nacional.

No século XX, esta transformação aprofundou-se. Durante a Segunda Guerra Mundial, o patriotismo em países como o Reino Unido ou os Estados Unidos manifestava-se através do sacrifício colectivo em prol da sobrevivência das democracias. No entanto, a partir da década de 1960, com os movimentos pelos direitos civis e os protestos contra a guerra, emergiu uma nova forma de patriotismo, aquela que questionava se os governos estariam realmente a cumprir os seus próprios princípios. Criticar a injustiça, começaram muitos a defender, também podia ser uma expressão de amor à pátria.

No continente africano, o patriotismo seguiu uma trajectória própria, mas não menos poderosa. A partir da metade do século XX, o conceito foi moldado pela resistência ao colonialismo europeu. Em países como o Gana, Quénia, Argélia ou Angola, ser patriota significava lutar pela independência das potências europeias. Figuras como Kwame Nkrumah e Jomo Kenyatta tornaram-se símbolos nacionais de um patriotismo enraizado na libertação, unidade e dignidade africanas.

Com a conquista das independências, o conceito voltou a transformar-se. Em vários países, a lealdade ao partido no poder passou a ser considerada critério de patriotismo, mesmo quando os governos não correspondiam às expectativas geradas durante a luta. Na África do Sul, por exemplo, o patriotismo adquiriu novos contornos, com o fim do apartheid, fundindo a lealdade ao novo Estado democrático com um compromisso profundo com a reconciliação nacional.

Em Moçambique, o patriotismo teve, em tempos, um significado claro e mobilizador, sobretudo durante a luta de libertação, nos anos 60 e 70. A batalha pela independência de Portugal, liderada pela FRELIMO, foi uma causa nacional unificadora. Milhares de moçambicanos arriscaram (e muitos perderam) as suas vidas, movidos pela convicção de que a liberdade traria justiça, desenvolvimento e dignidade ao povo. Ser patriota, então, significava aderir à luta, apoiar a revolução e participar na construção de uma nova nação.

Com a independência alcançada em 1975, o patriotismo assumiu uma nova feição, apoiar o Estado, proteger a soberania e defender as conquistas duramente alcançadas. Durante a guerra civil que se seguiu, o discurso patriótico foi apropriado por ambos os lados, cada qual reivindicando a defesa do verdadeiro futuro da nação. Nas décadas seguintes, o patriotismo manteve-se presente, mas frequentemente associado à lealdade política, à identidade partidária ou então à força e quistas de um movimento nacional (FRELIMO), que outrora serviu de base de mobilização nacional, e que se transformou numa entidade de direito privado (partido político). Hoje, o conceito de patriotismo em Moçambique continua em mutação — mas a pergunta mantém-se: como devemos, afinal, defini-lo nos nossos tempos?

Em defesa do “patriota”: no Moçambique pós-independência, o patriotismo tem sido, durante muito tempo, entendido através da lente da lealdade — lealdade à nação, ao movimento de libertação e, muitas vezes, ao partido no poder. Esta interpretação fazia sentido nos primeiros anos de construção do Estado. O país emergia do colonialismo e entrava num período profundo de reconstrução nacional. A linguagem da unidade e do apoio era vital para manter de pé um Estado ainda frágil.

Porém, passadas quase cinco décadas, o panorama político, económico e social transformou-se. Moçambique já não é um Estado recém-liberto; é uma democracia em fase de maturação, com uma população cada vez mais diversa nos seus pensamentos, aspirações e experiências de vida. No entanto, a ideia dominante de patriotismo permanece, em larga medida, inalterada, ainda centrada na obediência, no silêncio e no elogio, ou ainda no tão famigerado lambe-botismo.

É aqui que reside um dos equívocos mais perigosos. Ser patriota não é fingir que tudo está bem. Não é calar-se perante o sofrimento, a injustiça ou o fracasso. Na verdade, os cidadãos mais patriotas, em qualquer sociedade, são frequentemente aqueles que falam mais alto, não para destruir o país, mas para o empurrar na direcção do seu maior potencial.

Pelo mundo fora, multiplicam-se os exemplos deste tipo de patriotismo crítico. Nos Estados Unidos, líderes pelos direitos civis como Martin Luther King Jr. foram, no seu tempo, rotulados como antipatriotas, mas hoje a História recorda-os como heróis que amaram o seu país o suficiente para exigir que fosse melhor. Na África do Sul, Steve Biko denunciou as injustiças socais durante o período do Apartheid, e Desmond Tutu não hesitou em denunciar a corrupção governamental, mesmo depois do fim do apartheid, insistindo que a lealdade aos valores democráticos deve estar acima da lealdade ao poder, nesse caso do seu partido ANC. Os líderes do movimento contra a colonização portuguesa foram perseguidos, mortos e rotulados terroristas, mas hoje tanto Eduardo Mondandle bem como Samora Machael são considerados heróis nacionais.

No país enfrentamos hoje desafios graves, captura do Estado e do poder judiciário, escândalos de corrupção tais como dívidas ocultas e Sustenta, má gestão de recursos (isenções à indústria extractiva e compra de tractores para transportes passageiros no lugar de construir estradas), instabilidade em Cabo Delgado, altas taxas de desemprego juvenil e um fosso crescente entre as elites urbanas e as comunidades suburbanas e rurais. Neste contexto, patriota não é quem diz “sim” a tudo o que o governo faz, mas, sobretudo, quem interpela e questiona: “Isto está mesmo a servir o povo?”

Continuar a defender o indefensável não só mostra um tipo de problema cognitivo, mas uma cumplicidade na manutenção do status quo e com o socialmente errado, e sobretudo não ajuda o progresso desta nação. Criticar um chefe não pode ser um problema. Aliás, por outro lado, o chefe deve ser o primeiro a desejar implementar a política anti-lambibotismo, anti-fofoca e assassinato de carácter na instituição que dirige.

O verdadeiro patriotismo exige que se denuncie o que está mal e que se proponham caminhos melhores. É proteger a Constituição, defender a liberdade de imprensa, promover a transparência e exigir responsabilização dos que exercem o poder. É apoiar a polícia quando esta defende a lei, mas condená-la quando viola os direitos humanos. É celebrar os avanços alcançados através de políticas governamentais, mas também lamentar os fracassos e apresentar as suas críticas sendo justo na análise. Numa democracia, o silêncio não é sinal de lealdade, é sinal de medo, e Moçambique não pode continuar a confundir medo com patriotismo. Onde há medo não há expressão de ideias, e onde elas não florescem não há inovação e muito menos progresso.

 

Por um Novo Tipo de Patriotismo: Moçambique encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. A crise que hoje enfrentamos não é apenas económica ou institucional, é, sobretudo, uma crise de valores cívicos e de entendimento do que significa servir a pátria. Continuar a evocar o patriotismo como mero sinónimo de obediência e silêncio é, não apenas anacrónico, mas perigoso para qualquer sociedade que se pretenda democrática.

Com isto, precisamos urgentemente de redefinir o patriotismo à luz dos desafios do presente. Um patriotismo que não se rende ao medo, nem se acomoda ao conforto dos bajuladores. Um patriotismo que se expressa na crítica construtiva, na defesa intransigente da justiça, na coragem de romper com o conformismo. Ser patriota hoje não é aplaudir o poder, mas sim confrontá-lo quando trai os compromissos constitucionais, sociais e éticos assumidos com o povo.

Moçambique não carece de amor à pátria, carece de espaço para que esse amor se manifeste em liberdade, inclusão, integridade e acção transformadora. O verdadeiro patriota é aquele que defende o bem comum, mesmo contra a corrente. É aquele que diz “não” à corrupção danosa ao desenvolvimento, à injustiça e ao medo, porque acredita que este país pode ser mais do que tem sido. É precisamente desse patriotismo crítico, corajoso e comprometido que o futuro de Moçambique depende.

Precisamos de um novo tipo de patriotismo; um que reflicta as realidades do presente e as esperanças do futuro. Um patriotismo que não se baseia no silêncio, no medo ou na lealdade imposta, mas sim na coragem, na responsabilidade e num cuidado genuíno pelo destino de todos os moçambicanos.

Esse patriotismo é, assim propomos: (i) o estudante que questiona políticas educativas ultrapassadas; (ii) o jornalista que denuncia a corrupção, mesmo quando isso representa risco pessoal; (iii) o profissional de saúde que exige melhores condições para as clínicas rurais; (iv) o cidadão que participa num protesto pacífico, não para destruir infra-estrutura ou matar polícia, mas para melhorar o país; (iv) o dirigente que ouve críticas e responde com humildade, não com hostilidade; (v) o juiz que toma decisões, não com base em orientações políticas e subornos, mas usando a sua capacidade e bom senso; (vi) aquele que não nos deixa entrar em agendas externas a troco de patrocínios ou doações; (vii) é o membro do partido que diz: isto não.

Este é o patriotismo de que Moçambique precisa. Um que protege o povo, e não apenas o Estado. Um que valoriza a verdade mais do que o conforto. Um que recusa conformar-se com o mínimo quando sabemos que o nosso país é capaz de muito mais.

Sejamos claros: criticar o governo não significa odiar o país. Significa, antes de tudo, acreditar que Moçambique pode e deve cumprir as promessas consagradas na sua Constituição e aquelas que, durante o período de luta de libertação e civil, os nossos pais e irmãos lutaram defendendo. Significa também querer que a justiça chegue, não só às cidades, mas também às províncias. Significa desejar que cada criança cresça num país que a valorize, não apenas nos discursos, mas também nas políticas e nas acções concretas.

Moçambique sempre foi terra de pessoas resilientes, brilhantes e corajosas. O nosso futuro dependerá da capacidade de permitirmos que essas vozes se façam ouvir, não apenas quando dizem “sim”, mas sobretudo quando ousam dizer “não”. Por isso, ensinemos nas escolas e em casa às nossas crianças um sentido mais profundo de patriotismo. Um que vá para além de agitar a bandeira ou entoar o Hino Nacional. Um patriotismo que lhes ensine a questionar, a pensar, a agir, a cuidar do seu próximo (no one is left behind). Porque o verdadeiro patriota não é aquele que diz: “O governo tem sempre razão.” É aquele que afirma: “Moçambique merece melhor — e eu vou ajudar a torná-lo possível sem violência.”

A boa intenção não pode substituir a coragem.

É preciso coragem para enfrentar o silêncio, mas é preciso ainda mais coragem para enfrentar o ruído da rendição disfarçada de civismo. Em Moçambique, atravessamos um momento histórico perigoso, em que a crítica política se dissolve em selfies com opressores e o conceito de civismo é confundido com submissão. A rendição veste o traje elegante da boa intenção. Mas não há conciliação possível com quem nega a tua dignidade. E não há civismo possível quando os direitos são violados à luz do dia por um regime que, historicamente, matou os seus próprios filhos.

A FRELIMO, na sua génese como movimento de libertação, nasceu sob o signo da luta popular.

Mas essa mesma luta, uma vez institucionalizada, foi capturada pelo autoritarismo e pelo controle ideológico. Samora Machel, figura complexa, foi também vítima do próprio sistema que ajudou a criar. A partir do momento em que a FRELIMO se transformou em partido único, deixou de ser libertadora e passou a ser opressora. O sangue dos seus, dos que divergiam, foi derramado em nome da unidade nacional. E, com isso, uma nova forma de colonialismo interno foi estabelecida — uma colonização ideológica onde se incutia no povo que pensar diferente era traição.

É urgente questionar o que é ideologia — não como abstração académica, mas como instrumento de dominação. Ideologia é a lente através da qual se legitima o poder, se cria o inimigo e se forma o cidadão obediente. É o mecanismo através do qual se convence a maioria a servir uma minoria. Em Moçambique, a ideologia da FRELIMO construiu um Estado à sua imagem, onde oposição era sinónimo de guerra, e divergência, um crime de lesa-pátria.

África não precisa de políticos sem ideologia. Esse discurso pseudo-neutro é uma falácia que apenas esconde o desejo de agradar a todos e evitar o confronto com o sistema. Ser político é assumir posição, é ter doutrina e visão clara de mundo. Como disse Jean-Paul Sartre: “A omissão é também uma escolha”. Ao rejeitar compromissos ideológicos, o sujeito político torna-se vulnerável à cooptação e à lógica do mercado eleitoral.

Neste quadro, as chamadas sociedades civis foram capturadas. As que surgiram de forma espontânea foram destruídas ou cooptadas. Hoje, muitos dos nossos debates, encontros e até ativismos são realizados entre os mesmos de sempre, com os mesmos fundos, as mesmas agendas e, frequentemente, os mesmos partidos por trás. Não se pode construir uma nação crítica a partir de um ativismo submisso. O ativista que só critica um lado — o poder — sem questionar também a oposição que nada propõe, está apenas a fazer parte do jogo.

O verdadeiro ativismo é apolítico e antipartidário. Não porque ignore a política, mas porque rejeita a partidarização da justiça social. A cidadania crítica nasce da ruptura com o sistema — não da acomodação. Como escreveu Frantz Fanon: “Cada geração deve, na relativa opacidade de seu tempo, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la.”

É preciso, pois, definir o que é oportunismo político: é a capacidade de adaptar discursos conforme o contexto, abandonando princípios em nome de ganhos pessoais ou de poder. Isso não é exclusividade do partido no poder; é também um vício dos que se dizem oposição.

O caso recente de Venâncio Mondlane é emblemático. Um homem que diz querer representar todos os moçambicanos, mas que se fotografa sorridente com André Ventura, político europeu que nega a humanidade de imigrantes, africanos e muçulmanos. Isso não é civismo. É rendição.

É uma entrega simbólica aos inimigos do povo, feita em nome de uma suposta inclusão. Mas inclusão sem crítica é cumplicidade. E neutralidade frente à opressão é tomar o lado do opressor.

É fundamental analisar tanto o sistema quanto os que se opõem a ele. Não basta criticar a FRELIMO. É preciso criticar também os partidos de oposição que falham em construir propostas, que se perdem em rivalidades internas, que se alinham a ideologias coloniais e que não conseguem formar uma frente unida. A falta de união entre os partidos políticos em Moçambique ou África não é apenas uma fraqueza estratégica — é uma traição histórica ao povo que clama por mudança. Não basta querer tomar o poder; é preciso ter um projecto de país.

A história da FRELIMO, dos movimentos de libertação até aos dias de hoje, é marcada por contradições. Do espírito revolucionário dos anos 1960 à morte de Mondlane e Magaia, passando por Samora e os dissidentes da luta armada que não estão na lista da história oficial, o país foi sendo tomado por uma nova elite que replicou as mesmas formas coloniais de dominação: clientelismo, tribalismo, corrupção e o uso da lei como instrumento de opressão.

E hoje, o que devem fazer os partidos? Os partidos têm uma missão urgente: repolitizar a sociedade. Isso não se faz com discursos demagógicos ou alianças oportunistas. Faz-se com formação, com trabalho de base, com propostas claras. É preciso combater o regime autoritário e corrupto não apenas com emoção e populismo, mas com estrutura, com consciência e com acção organizada. Devemos mostrar ao mundo que o movimento pela mudança está no terreno.

Se o sistema vigente é neocolonial, então urge imaginar um novo sistema. Não basta tirar o Chapo ou o Forquilha depois de cinco anos. É preciso pensar num novo pacto social, num modelo de governança enraizado nos valores comunitários africanos, mas atento à complexidade contemporânea. Não se combate o império apenas com ressentimento. Combate-se com visão.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de um novo começo. E isso não virá dos partidos como estão, mas de uma nova consciência colectiva, de uma sociedade civil que pense com autonomia, que organize encontros livres, que rejeite o partidarismo cego e que esteja disposta a desobedecer em nome da justiça. Como disse Albert Camus: “O homem revoltado é aquele que diz não. Mas se recusa a abdicar.”

A política moçambicana, se quiser renascer, terá de romper com o seu passado de rendição. Terá de reencontrar no povo o seu centro. E o povo, por sua vez, terá de deixar de ser espectador e voltar a ser protagonista. Não através de eleições manipuladas, mas através da ocupação consciente dos espaços públicos, do questionamento sistemático do poder e da construção de um novo imaginário político.

A liberdade não se negocia com quem lucra com a escravidão. E a democracia não se constrói com selfies. Constrói-se com luta, com memória e com uma crítica radical que começa por perguntar: O que estamos dispostos a perder para finalmente sermos livres?

Em Moçambique, a cultura é, muitas vezes, tratada como um ornamento nacional — uma vitrine de danças, trajes e monumentos que preenchem brochuras turísticas e discursos institucionais. No entanto, esta perspectiva redutora obscurece a verdadeira densidade do termo. Para a antropologia linguística, a cultura é um sistema vivo de significados partilhados que se constrói e se transmite, sobretudo, através da linguagem. Mais do que um conjunto de expressões artísticas, cultura é o modo como um povo interpreta o mundo, organiza o tempo, estrutura os afectos e molda os seus silêncios, ao mesmo tempo, se n adequando às tendências globais.

Alessandro Duranti, um dos principais nomes da antropologia linguística, afirma que a linguagem é um meio de acção cultural, e não apenas um reflexo da realidade social. Isto significa que, ao falarmos, não apenas comunicamos, como também criamos o mundo em que vivemos. Cultura, então, é uma performance contínua, uma negociação simbólica, uma reinvenção diária. É este carácter dinâmico e polifónico que a torna, ao mesmo tempo, fascinante e politicamente delicada.

Quando se exige que a cultura “sirva” o país, corre-se o risco de reverter esse fluxo vital, forçando-a a tornar-se instrumento de um projecto político ou ideológico. O país, enquanto entidade político-administrativa, tende à ordem, à homogeneidade e à previsibilidade. Já a cultura, por sua natureza, é dissonante, subversiva e plural. Historicamente, os regimes que buscaram domesticar a cultura, do fascismo aos autoritarismos contemporâneos, não hesitaram em apagar vozes marginais, silenciar dissidentes e padronizar os modos de sentir.

Nestes contextos, a cultura perde a sua força crítica e transforma-se em vitrina de obediência. Mas e se invertermos a pergunta? E se o país existisse, antes de tudo, para servir à cultura? Esta inversão não significa colocar a arte acima da lei, nem propor um modelo anárquico. Trata-se de reconhecer que o que torna uma nação verdadeiramente viva é a sua capacidade de escutar os múltiplos sotaques que a compõem, os ritmos que a perpassam, os conflitos que a atravessam. Servir a cultura, neste sentido, é garantir liberdade de expressão, fomentar a diversidade estética, apoiar a criação independente e proteger o direito de cada grupo de contar a sua própria história.

Num mundo onde a cultura tende a ser capturada pelo mercado ou domesticada pelo Estado, urge resgatar a sua função original: ser espaço de questionamento, de invenção e de resistência. Como escreveu Edward Said, "nenhuma cultura é monolítica, nenhuma permanece imóvel". A cultura vive do desconforto, e é nele que reside a sua maior potência transformadora.

A conclusão a que se chega, portanto, é clara: a cultura não deve servir ao país. Pelo contrário, é o país que deve estar ao serviço da cultura. Não como um mecenas que financia por interesse, mas como um guardião que protege o terreno fértil onde o pensamento floresce. Um país que sufoca a cultura está a comprometer o seu próprio futuro; um país que a alimenta, está a plantar as sementes da liberdade.

 

Quando olhamos para Virgília Ferrão temos a impressão de que o tempo não passa para a jovem autora. O seu semblante é o mesmo da menina que, há 20 anos, se refugiou no mundo da literatura. Essa aparência exterioriza o espírito desprendido e sonhador com que vem criando, desde então, de forma bem-sucedida, os mundos encantatórios dos seus livros.

Numa entrevista com Eduardo Quive, ela disse o seguinte: “O meu passatempo favorito era criar outros mundos e depois viver nesses mundos.” Isto é, ficar longe das limitações e pressões da realidade.

Um paradoxo, porque, quando ela queria passar de forma discreta, vivendo nesses outros mundos, os seus livros, que incluem O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane (2005), O Inspector de Xindzimila (2016), Sina de Aruanda (2021) e Os Nossos Feitiços (Ed. I, 2022-Ed. II, 2024), a colocam em destaque entre as novas vozes do panorama literário moçambicano.

A escritora pertence a uma geração que busca, através da arte, reflectir sobre os dilemas do presente e as cicatrizes do passado. Mas ela vai mais além ao propor iniciativas que procuram dar espaço a outras vozes. Disso são exemplos o blog Diário duma Qawwi e a antologia Espíritos Quânticos. Como sinal da sua projecção, tem contos antologiados no estrangeiro e, num outro nível, colaborações que buscam por novos caminhos criativos, como é o caso da ficção especulativa.

Nos seus escritos, Ferrão dá-nos uma imagem actual da sociedade moçambicana, em geral e do vale do Zambeze em particular. O retrato que faz desse espaço rico em mitos e tradições, o chão donde vêm as suas raízes, é marcado por tensão entre transformação e tradição, discurso e realidade, desafios e resiliência. Com isso, estamos perante uma escritora que caminha com o seu tempo.

O Inspector de Xindzimila, seu segundo livro, representa um momento particular da sua carreira. Na conversa com Eduardo Quive, fala deste livro como uma incursão num “género pouco explorado na nossa literatura”, justificando a “ousadia” nos seguintes termos: “Sempre gostei de usar elementos como suspense e mistério nas minhas narrativas.”

A trama gira em torno de Dionísio, protagonista que retorna à sua vila natal, Xindzimila, para assumir o cargo de inspector na área de investigação policial. O início das suas funções é marcado por uma série de assassinatos misteriosos e ressentimentos antigos.

O facto de a estória ser contada a partir da perspectiva dos personagens contribui para a criação de uma atmosfera de introspecção, na qual o leitor, em meio ao escopo temático acima referido, se vê convidado a reflectir sobre temas mais íntimos como inveja, amor e perdão.

A parte inicial do livro fala da chegada de Dionísio a Xindzimila, o ambiente na vila e no seio da família e o reencontro com os amigos depois de muitos anos de ausência. Essa parte serve para preparar o “chão”, o espaço-tempo da narrativa. Até então as marcas do género policial propriamente dito são apenas afloradas por chamadas que o inspector recebe ao telefone, chamadas breves com conteúdo truncado ou não revelado. É quase a meio do romance que as acções com mortes, suspeitas, actividade
detectivesca, confrontos com uso de armas, etc. passam ao primeiro plano. A narrativa adensa, torna-se não-linear, o suspense e o mistério sobem ao clímax.

A publicação de Sina de Aruanda, em 2021 consolida o amadurecimento literário de Virgília Ferrão, com uma proposta que mistura ambientes históricos e contemporâneos para criar um relato de amor, conflito e desafios ambientais que se estende por séculos.

Nesta obra, a narrativa é estruturada a partir de dois enredos paralelos: o primeiro passa-se no século XIX e o segundo no século XXI. No enredo do século XIX,  companhamos a história de Carina de Sousa, uma criada negra acusada de bruxaria, e seu amor proibido com Pedro Lucas, o filho do patrão; no do século XXI, o professor Daniel de Barros e a estudante Maria Cristina empreendem a missão de restaurar uma região ameaçada pela exploração predatória, descobrindo, ao longo do
percurso, que são reencarnações dos protagonistas do passado. Essa dualidade temporal permite uma reflexão profunda sobre os ciclos da história, os conflitos humanos, as questões ambientais e sociais.

Os Nossos Feitiços é uma narrativa em que a autora faz a fusão entre o mundo real e o sobrenatural, expondo a influência das tradições e memórias do passado nas práticas sociais contemporâneas. Em torno da Laila Lubrino, a protagonista e narradora, gravitam acontecimentos, sentimentos e interacções em meio a conflitos.
Quanto à forma, entre O Inspector de Xindzimila e Sina de Aruanda, nota-se uma diferença de registos, que podiam ser vistos como extremos, não fosse o facto de terem aspectos que são comuns. Os Nossos Feitiços situar-se-á entre aqueles dois registos.

Em O Inspector… temos uma escrita profusa; que flui como um rio caudaloso, transportando a matéria em trama. A narração corre na primeira pessoa do singular, numa “fala normal”, desprendida e introspectiva, onde as palavras são apenas acessórios na construção da estória. Já em Sina de Aruanda nota-se mais equilíbrio entre descrição e acção, o estilo é frio e pragmático, mais sintéticos os diálogos, as palavras (as frases) passaram por uma balança, uma tesoura cortou ao texto as rebarbas. Nisso, resulta um registo comparativamente mais enxuto, mais depurado.

A prosa virgiliana não deslumbra tanto pelo arroubo poético, ou pelo engodo da palavra, mas antes cativa pela inventiva, pela capacidade de enredar (ligar as acções num todo lógico), pela subtileza, pelo humanismo dos personagens, pelos detalhes do dia-a-dia, com o atípico a surgir como uma falha abrupta na corrente do que parecia trivial.

Como já dito, um e outro estilo convivem. A autora, que, em nossa opinião, já faz bem o que tem feito, querendo, tem aqui várias opções: privilegiar uma das técnicas narrativas mencionadas atrás, fundi-las numa só ou ainda evoluir para um estilo algo distinto. Seja como for, a nós, no fecho deste pequeno ensaio, resta manifestar a crença de que _ parafraseando Luís Vaz de Camões _ se mais mundos houver por criar, Virgília lá chegará.

Em Moçambique, a esfera pública vive um momento de tensão e deformação. Longe de ser um espaço vibrante, plural e desinibido de ideias — como deveria ser numa sociedade aberta —, ela está cada vez mais ameaçada por forças que silenciam, distorcem e desqualificam o pensamento crítico. 

Vivemos tempos em que pensar com liberdade é um risco, e dizer a verdade é quase um acto de desobediência. Neste contexto, emerge a figura do intelectual orgânico, cuja missão é hoje mais urgente do que nunca.

O conceito de intelectual orgânico, cunhado pelo filósofo Antonio Gramsci, remete-nos a um tipo de pensador profundamente ligado às estruturas sociais e políticas do seu grupo ou classe. Ao contrário do intelectual tradicional, que se pretende distante e neutro, o intelectual orgânico está inserido no processo histórico e político. Ele pensa com um lado — mas pensa. Reflecte, questiona, provoca e, acima de tudo, critica. E a sua crítica não é traição: é amor em forma de exigência.

Num país em mudança com o está Moçambique, com novos rostos no poder e novos desafios sociais, económicos e culturais, o intelectual orgânico é simultaneamente um aliado e um espelho do seu partido ou movimento político. Ele não se limita a aplaudir discursos, mas analisa os erros. Não se esconde às sombras da conveniência, mas ilumina as contradições. O intelectual orgânico é, ou deveria ser, o primeiro crítico da sua própria casa políticaporque quer vê-la melhor, mais forte e mais justa.

Ora, em Moçambique, o silêncio tem sido confundido com prudência. O silêncio do intelectual orgânico na esfera pública é associado a um comportamento decente. É decente todo o intelectual orgânico que mantém o código do silêncio. Não fala porque é decente. E quem é decente ensinou-lhe a cultura do medo, não colocar em causa o bem-estar da sua família. Foi educado e socializado para proteger quem viola as regras — e não quem as denuncia. A sua lógica prefere preservar a aparência do que enfrentar a verdade. Por isso tem medo da cidadania, pois exercer a cidadania exigiria romper com a falsa decência e abraçar a integridade como valor superior. O medo de exercer a cidadania é generalizado.

A cultura política dominante ensinou-nos que ser leal ao grupo é mais importante do que ser íntegro com a verdade. E, assim, a integridade foi colocada abaixo da lealdade. Quem escolhe falar é tratado como traidor e/ou reaccionário. Quem silencia é tido como “companheiro confiável”. O resultado é um ambiente em que os intelectuais orgânicos — que deveriam ser a consciência crítica dos seus partidos — se tornaram os seus advogados de defesa incondicional, principalmente quando os erros são gritantes e os riscos de decadência institucional são evidentes.

E as consequências desta atitude não são abstractas: são o colapso progressivo da credibilidade pública, o afastamento das bases sociais – o bloqueio de novas ideias e a instalação de uma mediocridade crónica no pensamento político e estratégico.

Vale lembrar que quem exige silêncio aos intelectuais orgânicos, aqueles cuja vocação é pensar criticamente analisando com minúcia as estratégias e políticas, está a exigir que o país caminhe com uma bússula desparametrizada ou sem ela e isso não protege ninguém muito menos os próprios líderes.

Quando o intelectual troca a verdade pela conveniência, ajuda a cimentar a mentira como base da acção política e/ou governação — e, nesse processo, sabota silenciosamente o futuro do país.

Em Moçambique, as lideranças partidárias moçambicanas enfrentam hoje um dilema existencial: ouvir a verdade crua dos intelectuais orgânicos que pensam com responsabilidade histórica ou cercar-se de aduladores que falam o que agrada, mas destroem por dentro. O futuro dos partidos — todos, sem excepção — dependerá da postura corajosa e ética dos seus intelectuais orgânicos. Cabe aos intelectuaus orgâncicos tornarem-se agentes de transformação, ou serão os últimos a apagar a luz.

Não há desenvolvimento sem crítica. Não há renovação sem autocrítica. Não há poder duradouro sem verdade. Que os intelectuais orgânicos de Moçambique escolham ser mais do que decoradores de discursos. Que escolham ser construtores de uma nova cultura política, baseada na liberdade de pensamento, na responsabilidade moral e na coragem de contribuir para o bem comum — mesmo quando isso exige desconforto.

É também importante reconhecer que a nova cultura política não se materializará apenas com discursos sobre ética, meritocracia ou patriotismo. Esses valores não se implantam por decreto — exigem o engajamento firme e coerente dos intelectuais, dispostos a pensar e agir em conformidade com esses princípios. A luta que travamos é, acima de tudo, uma luta ideológica de visão de mundo. De um lado, os conformados, os “decentes”, que sempre viveram à sombra do status quo e se recusam a fazer diferente. Estes combatem de forma acérima toda a empreitada política tendende a lançar as bases para renovar Moçambique. Do outro, “indecentes”, que se recusam a silenciar, que analisam com objectividade os fenómenos, argumentam com ética e agem com sentido patriótico. O resultado desta luta ideológica – entre os “decentes” que acomodam e os indecentes que ousam – vai determinatr o nosso futuro imediato, como país.

A verdade dói,  mas a verdade liberta (Jo 8:32).

Texto dedicado ao meu amigo JJM

Há homens cuja vida se escreve não apenas com palavras, mas com obras que permanecem como árvores frondosas, oferecendo sombra muito depois de terem sido plantadas. O Professor Tito Fernandes é um desses homens. Nesta semana, em que Nampula voltou a debater a desnutrição infantil e a confrontar números alarmantes, com 47% das suas crianças afectadas, tornou-se inadiável e imprescindível revisitar a figura deste Professor e Cientista. Foi ele quem esteve na génese dos primeiros cursos superiores de Nutrição, tanto no Porto em Portugal, nos anos 70, bem como em Nampula, em 2007, impulsionando inúmeras investigações nesta área vital. Na verdade, há um tributo que lhe é devido, pela sua contribuição generosa e discreta às diversas esferas do saber em Moçambique. Tito Fernandes pertence a esse grupo raro de cidadãos que, no silêncio, engrandecem a nação, embora a esfera política tantas vezes tenha dificuldade em identificá-los e reconhecê-los.

Filho de moçambicanos Maximiliano Fernandes e Aninha Fernandes, viu o sol pela primeira vez no hospital S. José de Lhanguene, hoje José Macamo. Nasceu em 1948, no Dia de São Valentim e, ao longo da vida, carregou consigo o espírito de Valentino. Eventualmente, não haja data mais simbólica para um homem assim.

Contemplou as rosas que lhe foram oferecidas e as margens serenas do Índico. Cresceu ao sabor dos ventos de Lourenço Marques, entre bairros que misturavam cores, cheiros e sabores, mas onde já se percebia, com nitidez, a natureza do regime e a presença áspera da ausência de liberdade.

Como todas as crianças de sua idade fez as suas primeiras aprendizagens na escola oficial. Na adolescência, amadurecido pelas experiências e contradições, decidiu dedicar-se ao cuidado da vida, formando-se como médico veterinário. Estas decisões foram, sempre, ponderadas ao nível familiar e serviam de afirmação. O seu pai, regente de uma orquestra juvenil, não se opôs às escolhas do seu filho, o segundo de uma prole de quatro, embora não tenha abdicado do desejo de vê-lo seguir também a carreira musical. Max Fernandes era um homem profundamente comprometido com a música, a que se entregava com fervor. Foi ele o responsável pela criação da Orquestra Cívica de Lourenço Marques e do respectivo Coral Moçambicano. Por conseguinte, Tito Fernandes foi nutrido entre a sonoridade e a melodia dos sonhos mais clássicos, e a exigência da mocidade e religiosidade portuguesa.

Fez parte dos primeiros grupos de estudantes de cor a ingressar e a percorrer o seu caminho académico nos então Estudos Gerais Universitários de Moçambique, instituição que mais tarde se converteria na Universidade de Lourenço Marques, marco fundamental na consolidação da estrutura universitária em Moçambique. A exuberante fauna selvagem, diversidade de espécies e sua distribuição pelos diferentes ecossistemas, foram terreno fértil para o convencer a seguir por uma área que prometia e atraía jovens curiosos. Analogamente, beneficiou das influências de Armando Sá Rosinha, Jaime Travassos Dias, José da Costa, Raul Machado, e outros, que se impregnaram no horizonte juvenil das famílias da época. Cuidar da fauna selvagem parecia uma obsessão e veterinária era o caminho óbvio.

Todavia, a sua curiosidade e sede de conhecimento não conheceram fronteiras. De família de classe média, cujas origens eram Goa, não tardou que tivesse seguido para a capital da metrópole, Lisboa, para terminar os seus estudos e iniciar a sua pós-graduação. Esta foi a janela que permitiu que ele tivesse abraçado e acumulado outros saberes, os quais levaria sempre consigo, de volta ao seu lugar de origem, mas, principalmente, às universidades onde esteve filiado.

Fez o mestrado e doutoramento na cidade fria e chuvosa de Newcastle, Reino Unido, trajectória lhe valeu uma oportunidade para obter uma bolsa de estudos do conceituado British Council.

Uma das frases marcantes do Professor Tito Fernandes teve mesmo a ver com a vontade de estudar e a sua habilidade de pesquisar. A seu ver, a investigação científica podia nascer de qualquer tema, de qualquer ponto de partida, por mais remoto que fosse. O essencial, repetia, era o método, a energia aplicada e a capacidade de construir, a partir de um tema, as premissas que sustentam uma reflexão rigorosa.

Nacionalista desde a juventude, partilhou sonhos e convívios com outros grandes nomes da libertação de Moçambique. Conheceu a família Honwana, o Luís Bernardo e a Gita; privou com amigos e familiares de Óscar Monteiro, e esteve com Graça Machel, em Londres. A lista parece longa, uma espécie de cartografia e um testemunho do seu tempo; personagens matrizes da cultura e responsáveis pela nossa liberdade. Muitos destes concidadãos, os quais se tornaram revolucionários, tiveram a oportunidade de fazer os estudos em Lisboa e, embalados pelos ventos das mudanças, fizeram dessa cidade a placa giratória e o trampolim para países como Espanha, Franca, Suíça, etc., e se juntaram aos restantes que viriam a compor a espinha dorsal das lutas de libertação, dos nossos actuais Estados, agora cinquentenários. Esta clandestinidade silenciosa, porém persistente, foi crucial para a difusão de ideias de resistência e de liberdade e para a desestabilização do poder colonial.

O comprometido Professor Tito Fernandes fez parte do grupo que optou por uma luta mais silenciosa, mas não menos valiosa. A luta pelo saber, pela dignidade da ciência, pelo desenvolvimento do seu povo através da educação e da pesquisa. Ainda assim, mesmo no recato da academia, a clandestinidade permitiu a distribuição de panfletos, materiais de propagandas que denunciavam a censura, a repressão e a falta de liberdades políticas. Esta foi a luta contra a indignidade e, por vezes, bem menos visível e sujeita ao vexame do alheamento. Mas esse alheamento, seja ele individual ou colectivo, nunca foi sinónimo de omissão ou desmemória, pois a história, quando se recusa a esquecer, resgata e consagra.

Em Portugal, construiu uma sólida carreira académica, alcançando o mais alto grau da docência e tornando-se numa referência incontornável no campo das ciências veterinárias. Contudo, um leque mais amplo de cursos e oportunidades levou-o a aprofundar estudos em nutrição, especificamente nutrição humana. Esta tornou-se a sua verdadeira paixão, fruto da convicção de que o ser humano pode ser mais diligente, ter uma alimentação mais assertiva e mudar o cenário do opróbrio do descaso. Certamente, nunca esqueceu Moçambique, onde deixou a sua marca mais profunda na área de nutrição, razão pela qual, qualquer debate nos remete à sua colaboração e escritos. Em Moçambique, apesar dos esforços e das políticas dos sucessivos governos, persistem níveis alarmantes de desnutrição, decorrentes tanto de problemas relacionados à segurança alimentar quanto da disponibilidade insuficiente de géneros alimentícios.

Na Universidade Lúrio, em Nampula, o professor Tito Fernandes foi pioneiro e pilar fundamental para o debate sobre nutrição, ao mesmo tempo que ajudou os jovens docentes e pesquisadores a enquadrarem melhor a sua abordagem. Durante anos, foi o único catedrático, responsável por formar quadros e consolidar uma instituição que procurava se afirmar no panorama científico nacional e regional, ao mesmo tempo que emprestava a região Norte uma oportunidade de estudar as suas próprias potencialidades e oportunidades. Fez parte em Pretória do ICSU/ROA, Escritório Regional para a África do Conselho Internacional para a Ciência, em representação de Moçambique.

Graças à sua contribuição, os cursos de Nutrição tornaram-se pilares do ensino superior na região norte e em todo o país. Hoje, dezenas de profissionais formados sob sua orientação estão espalhados por todas as províncias, actuando em hospitais distritais e provinciais. Foi um dos maiores entusiastas na defesa de uma abordagem inovadora para a nutrição no norte de Moçambique, orientando centenas de estudantes e transformando-se, para muitos, num mestre e exemplo a ser seguido.

Plantar é um acto de paciência e uma acção que dá fôlego ao planeta. Estudar tem os mesmos contornos. Recordava, com frequência, que sua passagem pela Escola Superior de Medicina Veterinária, em Lisboa, lhe ensinou a plantar, na própria mente, a importância do ensino ao longo da vida. Para ele, estudar era mais do que plantar, significava colocar na cabeça de todos as sementes da mudança. Assim resumiu o tempo que passou pela Universidade Técnica de Lisboa, onde assumiu diferentes posições na carreira docente e chegou a Director da Faculdade. O actual Reitor da Universidade de Lisboa, foi seu aluno e assistente durante toda a sua carreira.

Chega a titulação e a cátedra no final dos anos 70, depois de um período intenso de trabalho e de ter incentivado várias pesquisas e o surgimento de um novo conjunto de pesquisadores para a própria faculdade e para o país. Tito Fernandes a simbiose perfeita de uma emergente investigação académica que tinha de se afirmar e, da necessidade crescente de deixar uma marca indelével numa academia portuguesa em transformação, que se democratizava e ganhava novos contornos e pergaminhos. O ensino superior em Portugal tinha apenas seis universidades, composto principalmente por escolas técnicas, estas últimas com foco em áreas especificas de conhecimento.

O período correspondia a própria transição política que influenciou o desenvolvimento do ensino superior. Moçambique já era independente e Tito Fernandes não regressa de imediato. Muitos dos antigos colegas com quem estudara em Lourenço Marques, abandonam a cidade e a convulsão política empurrou-os para longe do jovem país independente. Reencontrou alguns desses antigos companheiros e foi testemunha do nascimento de novas universidades e institutos politécnicos. Ainda assim, nunca perdeu de vista o desejo de regressar à sua terra e contribuir para o fortalecimento do sistema universitário moçambicano.

Enquanto isso, apoia na estruturação e no engrandecimento da Ordem dos Médicos Veterinários de Portugal, tendo sido Bastonário, ajudando a dar corpo a uma instituição indispensável para a regulação e a dignidade da profissão. Assumiu um papel central nesse processo, e os doze anos que passou à frente da Faculdade de Medicina Veterinária, aliados à sua colaboração próxima com a Ordem, abriram-lhe as portas da Europa, onde colabora com a Comissão Europeia, sendo Conselheiro Oficial em Nutrição durante 15 anos e como Membro do Comité Científico da EFSA-European Food Safety Authority.

A sua produção científica é impressionante. Desde esse período e até ao presente ele escreve e virou co-autor de mais de 300 artigos publicados nas mais variadas revistas científicas indexadas. Os destaques vão para o European Journal of Agriculture and Food Sciences; Foods; Nutrients; J Applied Science; J Pediatrics & Pediatrics and Medicine; Oncotarget; Fermentation; Revista AULP; EC Nutrition, e muitas outras. Analogamente, virou autor de mais vinte e sete (27) livros técnicos e científicos.

Ao longo da carreira científica e profissional foi outorgado com nada mais e nada menos que seis (6) títulos de Doutor Honoris Causa, atribuídos por universidades Europeias da Roménia, Bulgária, Eslovénia, Macedónia, bem como títulos Honoríficos de Espanha e Brasil, em reconhecimento ao seu imenso contributo ao conhecimento científico, inovação na pesquisa e ao firme contributo de formação de jovens. Mas estes títulos honoríficos tem um outro valor, reconhecem essa personalidade eminente, por se destacar, singularmente, pela contribuição à cultura e a Humanidade.

Diz um provérbio africano que “quando a árvore envelhece, ainda dá sombra”. E assim ele continua a oferecer sombra e frutos. Já na recta final de uma ventura carreira, em Lisboa, regressa ao seu Moçambique, cidade do Maputo, para estabelecer vínculos com a sua instituição de formação inicial, a UEM. Era uma formalidade quase desnecessária, pois, jamais deixara de colaborar com diferentes académicos e pesquisadores, para além de facilitar a vinda de muitos destes para Portugal. Todavia, as burocracias locais, apenas, permitem que estabeleça contractos de curta duração e, participa de coração aberto e entrega total em diferentes júris de doutoramento, orienta investigadores e colabora activamente com diferentes instituições que solicitam seu saber e experiência.

Esta passagem por Moçambique permite que seja eleito para a Academia Africana de Ciências, partilhando a sua sabedoria em Nutrição com as novas gerações. Para além de ser um dos raros moçambicanos, ou mesmo único, a integrar esta Academia Africana de Ciências, Tito Fernandes assumiu múltiplas responsabilidades na coordenação.

Foi igualmente determinante no processo de oficialização da Ordem dos Médicos Veterinários de Moçambique, ao abrigo da Lei n.º 13/2011, contribuindo decisivamente para o fortalecimento da profissão no seu país natal. Trouxe consigo a experiência acumulada ao longo dos seis anos em que presidiu a Associação Europeia de Estabelecimentos para o Ensino Veterinário (EAEVE), que congrega mais de cem universidades europeias, e da qual viria a tornar-se Presidente honorário.

A filosofia popular lembra-nos que “o rio não bebe a sua própria água”. O Professor Tito Fernandes sempre entendeu o saber como um bem comum, e a sua vida foi dedicada a irrigar mentes e comunidades com o que aprendeu e pesquisou. O seu exemplo confirma ainda que “quem planta tâmaras não come os frutos, mas deixa-os para os filhos do amanhã”.

De Maputo a Nampula foi um desafio circunstancial e um convite improvável. Existia um projecto em criação e muitos sonhos de jovens que procuravam sua afirmação. Esta proposta o cativou, mesmo sabendo que seria difícil fazer a mobilidade e se estabelecer distante da cidade capital. A Universidade Lúrio era incipiente e tudo ainda precisava ser criado, estruturado, afirmado. Faltavam instalações adequadas e programas cuidadosamente definidos. Era como mergulhar num mar de incertezas. Fez as viagens iniciais para entender o tamanho do desafio e mesmo municiado de um manancial epistemológico aceitou com reservas. Depois, decidiu colaborar e assumir o projecto de formação universitária em áreas de saúde, no Norte do país, nas províncias mais populosas e com enormes recursos naturais e sem capital humano.

Ele foi um dos pilares da criação e estruturação da Universidade Lúrio, em Nampula. Durante anos, foi o único Catedrático da instituição, ajudando a fundar o primeiro curso superior de Nutrição do país e liderando a Direcção Científica. Participou de conselhos e foi ele próprio, um conselheiro indispensável. Era-o nas palavras escritas e nas entrelinhas dos seus comentários, nos gestos comedidos, na sua forma discreta de estar e de ser. Era-o quando sorria sorrateiramente, quando recomendava prudência aos colegas mais ávidos em resolver tudo de uma única vez. Era-o quando se entregava às visitas aos bairros e quando recebia visitantes de outras universidades, naquele inglês que a todos superava. Professor Tito deixou a marca de um homem genuíno, astuto, desenvolto, sagaz, que nos iluminava com algo que não sabíamos discernir, mas sabíamos que nele havia uma luz.

Nampula permitiu-lhe adquirir uma casa na Ilha de Moçambique. Uma casa de veraneio, sim, mas também um reencontro com a natureza que sempre amou e admirou. A Ilha, outrora primeira capital de Moçambique e insubstituível mosaico de influências culturais, degradava e perdia muito do seu brio. Daquele imaculado ponto de encontro de rotas comerciais e culturais, que outrora facilitava a interacção entre diferentes povos, sobravam os resquícios de uma capital que virava uma imagem apagada de tanta história e gloria.

Ainda assim, a Ilha ofereceu-lhe um refúgio idílico por onde reencontraria a paz no sabor das brisas do Índico. O clima o apaixonou e as gentes o enfeitiçaram. Reencontrou a fortaleza de São Sebastião, entendeu melhor a cidade de Macuti e encontrou espaço para repensar a universidade. Algumas vezes, a sua esposa teve a oportunidade de mergulhar e explorar as dezenas de navios submersos na Baía e os seus tesouros que ficaram nas profundidades e entranhas de um mar de tantas histórias.

A Ilha revelou um lado íntimo e humano que o complementa e rejuvenesce. Sem se aperceber retoma o gosto especial pela música local, o Tufo, e a música clássica do seu pai e dos amigos de juventude com quem tocou e fez todos os acordes e melodias. A paixão pelos sons, a fusão do momento e do tradicional o transportam para recordações juvenis. Mas a Ilha é assim: vive de encantos e mistérios. Não por acaso foi chamada de Ilha dos Poetas, e Licínio Azevedo a nomeou, com justeza, Ilha dos Feitiços.

Para um antigo violinista que conserva essa delicadeza na alma, os sons métricos da percussão o enfeitiçaram de forma infinita. Escrevi, certa vez, que na sua propagação as ondas cantam a história da Humanidade, os sonhos de um povo, os gritos dos escravizados e a fantasia das sereias. O mar veste-se a rigor e comunica. Explica aos insulares o sentido da musicalidade, e aos continentais, que toda a vida terrestre depende do mar. As ondas, vaidosas, fazem a comunicação mais eficiente e nítida que conhecemos. A vida é uma onda.

As memórias o transportam para o coral moçambicano da catedral de Lourenço Marques, inaugurado, em 1944, pelo Cardeal Cerejeira. O seu pai, Maestro Max Fernandes, igualmente, se dedicou a música e ensinou dezenas de jovens a tocar diferentes instrumentos musicais. Os ritmos do Tufo transportaram-no de volta a essas memórias, fazendo da ilha tanto um repositório de lembranças quanto um espaço para suas críticas à falta de uma política consistente de incentivo cultural nos governos descentralizados.

Nampula propiciou a abertura de portas para os jovens docentes que procuravam formação. Muitos deles de uma raiz humilde, mas todos extraordinários e comprometidos como sempre defendeu. Os programas com a comunidade circunvizinha, pois o campus estava alguns quilómetros fora da cidade, em Marrere, e abertura de outros campi no Niassa, Wannagu, e Chuiba em Pemba, Cabo Delgado, foram um novo atractivo para quem já tinha feito e visto de tudo um pouco. Bebeu da cultura local e saiu para rua com ouvidos de escutar e aprender. Poder ver fruta fresca em cada esquina e imaginar que ninguém consumia e só servia para revender, era inconcebível.

Numa das cerimónias de abertura do ano académico, que no ensino superior moçambicano parecem já ter se tornado rotina, tivemos a honra de receber o antigo Chefe de Estado de Cabo Verde, ninguém menos que o Comandante Pedro Pires. Embora marcado pelo peso dos anos, conservava uma lucidez impressionante ao abordar os temas, cativando a atenção e o interesse de todos.

Professor Tito foi um dos escolhidos para o acompanhar pelas voltas a cidade e a região. Foi um momento mágico para ele, reencontrar alguém que já havia seguido de longe, nos tempos em que ambos viviam em Portugal, mas com quem ainda não havia tido a oportunidade de conviver pessoalmente. Juntos, viajaram para Pemba e depois para a Ilha de Vamizi. Um momento para experimentarem as límpidas e sempre quentes águas do Indico e da Biodiversidade que se estendia por uma costa azulada e de areias límpidas. Um encontro para lá de profissional que retomou tantos episódios e narrativas de percursos libertadores e democráticos.

Professor Tito Fernandes explicou, com orgulho, da funcionalidade dos seus laboratórios, em Nampula, que testavam os níveis e teores de aflatoxinas, substâncias toxicas produzidas por fungos, que contaminavam alimentos como milho, feijão, mandioca e amendoim. Esses laboratórios realizavam análises para avaliar os níveis de contaminação. Contudo, Nampula, embora sempre considerada um celeiro agrícola, nunca conseguiu nutrir adequadamente sua população. Ao contrário, repetidas vezes, deixou seus habitantes à mercê de uma pobreza extrema e de níveis inconcebíveis de desnutrição crónica e aguda, especialmente entre as crianças. Esses resultados reflectem os vestígios de modelos e práticas baseados na monocultura, mercados distorcidos e a flagrante ausência de educação alimentar e nutricional. Os cereais e as oleaginosas serviram os revendedores e nunca os produtores.

A cidade de Nampula, com o apoio de universidades da Europa e da América Latina, acolheu os dois primeiros congressos internacionais dedicados à nutrição humana e às estratégias para reduzir a desnutrição crónica e aguda que afecta mais de 50% das crianças em diversos distritos. Faltava proteína animal e vegetal, escasseavam as vitaminas e as lições não foram apreendidas e nem os ensinamentos captados.

Retomar esses debates quinze anos depois provoca angústia e nostalgia. As estatísticas terão de ser melhores, defende ele com convicção. O trabalho dos jovens nutricionistas melhorou as práticas e os modelos antes adoptados. Nesta área, ele se revela não apenas um especialista ostensivo, mas também um orador desconcertante. Na realidade, bem mais que um conhecedor, ele pode ser, também, instigador.

No sossego de Sintra, onde as energias para grandes deslocações já não abundam, permanecem as preocupações de ler teses e dissertações, acompanhar as notícias e publicar. Mergulha em tudo que diz respeito a Moçambique, escuta atentamente os boletins noticiosos e comenta as principais decisões políticas. Entre o vasto repertório acumulado e o constante referencial teórico, mantém-se atento e perspicaz nas suas análises.

Com a sua esposa Avril, britânica, com quem partilha a vida, tem, nas suas duas filhas, o suporte teórico para unificar a práxis e teorizar sobre as ciências e políticas. Com as três netas que herdaram o brilho do seu olhar curioso, ele reencontra os segredos para a longevidade e para reaprender do ensinamento infantil aquilo que o mundo adulto esconde. Sintra parece outra metade da Ilha de Moçambique, onde vive momentos serenos e inesquecíveis com a família, entre histórias e memórias.

O Professor Tito Fernandes vive com a convicção de que seu conhecimento é um bem a ser compartilhado, tenho dito. A sua vida confirma ainda que os frutos não precisam de ser comidos hoje. Hoje celebramos a sua longa carreira, não apenas como um percurso pessoal de excelência, mas como um legado colectivo. Um homem de ciência, de causas e de afectos, que semeou saberes com generosidade e coragem. Um Professor que acredita no amanhã e, por isso, nos ensina que o verdadeiro mestre nunca deixa de aprender, nem de partilhar. Que continue a dar sombra e frutos, como as grandes árvores do seu Moçambique. (X)

 

  1. Introdução

A ideia segundo a qual a “sexta-feira” é o dia do homem remonta a muito antes de Joana Coana (doravante JC) lançar o seu clássico “Sexta-feira”. Sempre que se escuta este número musical, corre-se à ideia de “liberdade”, “curtição”, “legitimidade para curtir”, etc. Entretanto, em “Sexta-feira”, de JC, mais do que se confirmar e frisar que “sexta-feira é o dia do homem”, depreende-se a representação do (in) sensível, motivo pelo qual nos propomos dissertar neste artigo.

  1. Aspectos teórico-conceptuais

1.1. Teoria de base

1.1.1. Fenomenologia Social de Alfredo Schutz

O mundo é feito de experiências do nosso dia-a-dia que beneficiam um certo conhecimento. Este mundo é o âmbito em que os sujeitos se encontram inseridos no seio de esquemas interpretativos que estruturam o desdobrar da vida cotidiana. (Schutz, 1979, apud Matsinhe, 2012)

Dito de outro modo, a teoria de Schutz permite, de modo geral, analisar os processos de interacção e significação que os indivíduos vivenciam no seio dos contextos sociais em que se encontram inseridos. (Matsinhe, 2012)

Portanto, para uma abordagem de natureza da nossa pesquisa, interessa uma teoria voltada para a vida cotidiana dos indivíduos e para o processo de construção social da realidade. Deste modo, a Fenomenologia Social de Alfredo Schutz mostra-se mais adequada, pois que, de acordo com Matsinhe (2012), “é uma teoria que dá relevância à construção da realidade social e de um dado fenómeno”, neste caso, a concepção de sexta-feira e suas peripécias em indivíduos inseridos em determinado contexto social (moçambicano).

No mundo, a vida insere os usos, os significados, os valores, os conhecimentos típicos da cultura de pertença e a linguagem. Assim, a Fenomenologia trata de uma estrutura face a face, entendendo que as acções sociais têm um significado contextualizado, de configuração social e não puramente individual. (Schutz, 1979, apud Matsinhe, 2012)

Assim, a presente abordagem enquadra-se na Fenomenologia Social, pelo facto de dar relevância à construção da realidade social e de um dado fenómeno, no caso concreto, do conceito de sexta-feira, conjugando-o com as práticas sociais vigentes nesse dia de semana; pelo que, mais do que demonstrar por que razões a sexta-feira é dia do homem, objectivamos, com este artigo, explicitar a dialéctica do (in) sensível.

1.2. Aspectos conceptuais

1.2.1. O (in) sensível

Conforme assevera Shelling (s/d), apud Silva (2002:127), o (in) sensível, em Literatura, depreende-se quando o “Eu”, portanto, não é sensível se não existe nele uma actividade que ultrapassa o limite. Devido a esta actividade, o “Eu” deve, para ser sensível a si mesmo, colher em si o estranho.

Dito de outro modo, “O (in) sensível, sendo o que se produziu com o transcender, sem que as personagens tenham consciência do mesmo, é resultado da impulsividade, desejo, apetite e aspiração (…)” (Monjane, 2024) (parênteses e grifo nossos)

1.2.1. Sexta-feira

Sexta-feira significa “sexto dia da semana, seguindo a quinta-feira e precedendo o sábado, sendo um dia comum de trabalho e lazer; também tem um dia de significado religioso. A etimologia também a relaciona com a deusa romana Vénus. Em algumas culturas, como a cristã, a sexta-feira é associada à crucificação de Jesus Cristo, sendo um dia de reflexão e oração, especialmente na Sexta-feira Santa.”

Todavia, fora dos conceitos retro mencionados (incluindo lazer), no contexto moçambicano, a sexta-feira, quiçá por ser o último dia laboral da semana, é tida como o dia em que o descanso se inicia e, por isso, conota-se como o dia do homem, no qual este aproveita para divertir-se à fartura, porquanto que, no dia seguinte, não irá ao trabalho. Trata-se, portanto, de uma “configuração social e não puramente individual deste conceito”, conforme atesta Schutz (1979), apud Matsinhe (2012).

1.3. Aspectos metodológicos

Conforme retro expusemos, a nossa abordagem centra-se na Fenomenologia Social de Schutz e, metodologicamente, para o efeito, porque a letra da música se encontra indisponível, servir-nos-emos da transcrição e posterior tradução (livre) para o Português, uma vez que se encontra em XiChangana, uma língua autóctone moçambicana que, segundo a classificação de Guthrie, pertence ao grupo Tshwa-Ronga e é codificada S. 50, grupo linguístico que engloba três línguas mutuamente inteligíveis.

  1. A dialéctica do (in) sensível em “Sexta-feira”, de JC

Conforme explicitámos no início da nossa alocução, mais do que se depreender que a “sexta-feira é o dia do homem”, em “Sexta-feira”, de JC, infere-se, igualmente, a (in) sensibilidade do homem para com a esposa e família, em detrimento da “curtição” e/ou proveito do dia que, socialmente, se instituiu como seu (do homem).

Por exemplo, para traduzir a sua indignação com o parceiro, devido à insensibilidade apresentada por si às sextas-feiras, o sujeito poético (mulher/esposa), em “Sexta-feira”, começa por dizer: ‘Desistimos de alguns homens por coisas que/ não sabemos (…)/ descobrimo-los por coisas/ que não as vemos (…)’, como quem diz entretanto, sabemos que acontecem, quando entoa “avavanuna hi va tsukula hi svin’wani svaku/ kala hi nga svitivi (…)/ avavanuna hi va gungula hi svin’wani/ svaku kala hi nga svivoni” (JC, s/d)

Na continuidade, o sujeito poético assevera que tudo isso se sucede por conta da máxima segundo a qual “sexta-feira é o dia do homem”, ou seja, independentemente do que aconteça ou esteja a acontecer em casa (com os filhos, com a esposa, etc.), eu vou curtir, quando diz: “Vali (dizem) sexta-feira é o dia do homem,/ eu vou curtir (…) eu vou à curtição (…)” (JC, s/d)

Ora, só com o exórdio, o sujeito poético (esposa) revela a sua indignação para com o homem (seu esposo), por culpa do conceito que se atribui à sexta-feira no contexto moçambicano. Mas, porque nenhuma asserção se basta por si só, o sujeito poético, na segunda estrofe, parte à argumentação, para fundamentá-la, nos seguintes moldes:

“(…) hiku vabya n’wana lani muntini, awahuma a famba/ hiku hiseta bebe lani muntini, awahuma a famba (…)/ hikuvabya nkosikazi, yuh, awafamba (…)”, i.e., [‘mesmo quando a criança está doente em casa, ele sai rumo à curtição/ mesmo quando o bebé está febril em casa, ele sai rumo à curtição (…)/ inclusive quando a esposa está doente, ele sai de casa rumo à curtição (…)’] e, para vincar a sua indignação, o sujeito poético serve-se da interjeição “yuh!”, que exprime exclamação, susto e/ou admiração (?)

Ou seja, apesar de a sexta-feira ser dia do homem, o expectável é que, quando se trata da saúde dos filhos e/ou esposa, o marido ignore a sexta-feira e cuide dos seus. Entretanto, o tipo de marido descrito neste número musical é o (in) sensível, para quem a saúde da família pouco importa; aliás, para quem a sexta-feira importa mais do que a saúde da família.

Estamos, portanto, perante o (in) sensível, i.e., “o sensível, sendo o que se produziu com o transcender, sem que as personagens tenham consciência do mesmo, é resultado da impulsividade, desejo, apetite e aspiração (…)” (Monjane, 2024) Isto se trata, segundo Schutz (1970), apud Matsinhe (2012), de uma acção social com um significado contextualizado, de configuração social e não puramente individual.

Ademais, conforme assevera Shelling (s/d), apud Silva (2002:127), o (in)sensível em Literatura depreende-se quando o “Eu”, portanto, não é sensível se não existe nele uma actividade que ultrapassa o limite. Devido a esta actividade, o “Eu” deve, para ser sensível a si mesmo, colher em si o estranho: abandonar um filho ou esposa doente para “curtir” a sexta-feira. (destaque nosso)

De seguida, face à situação de abandono para se aproveitar a sexta-feira, o sujeito poético traz um alerta aos homens, quando assevera: ‘(…) entretanto, toma cuidado, um dia voltarás para casa e não encontrarás a tua esposa em casa (…)’, quando entoa “(…) kambe tivonele, utatshuka ukuma svaku a nsati a fambile (…)” (JC, s/d) Ora, a pergunta que não se quer calar para o leitor/ouvinte é: Aonde irá esta mulher sofrida, né?

Como que em resposta, o sujeito poético remata [‘(…) jurei morrer no lar,/ mas, por tua causa (homem), ir-me-ei embora;/ jurei nunca amantizar,/ mas, por tua culpa (homem), amantizarei;/ jurei nunca beber,/ mas, por tua culpa (homem), beberei (…)’], quando entoa: “ani bejelile kufela lani wukatini,/ kambe hikola kawena nita famba/ ani bejelile ku kala ninga mbuyeti,/ kambe hikola kawena nita mbuyeta/ ani bejelile kukala ninga phuzi,/ kambe hikola kawena nita phuza (…) (JC, s/d)

Estamos, aparentemente, perante um argumento-chantagem, mas, no fundo, o sujeito poético evoca “ir embora”, “amantizar” e “passar a beber” não como chantagem, mas, sim, como forma de se aliviar diante da situação que vive, facto que se pode depreender na continuidade da estrofe, quando entoa:

“nita phuza byala niku pfotlo,/ kumbe anita twisa moya/ nita phuza byala niku ruu…/ kumbe anita twisa moya (…) nita dakwa njani mina,/ kumbe anita twisa moya” (JC, s/d), que significa [‘vou consumir álcool descontroladamente,/ para ver se alivio o meu espírito ou estado de espírito/ vou consumir álcool até perder os sentidos,/ para ver se alivio o meu espírito/estado de espírito (…) vou-me embriagar tanto,/ para ver se me alivio’], ou seja, a argumentação retro mencionada não objectiva vingança e/ou chantagem, mas, sim, aliviar-se perante a situação de abandono e (in) sensibilidade por parte do seu cônjuge, consubstanciando-se naquilo que Sartre (s/d), apud Da Silva (2002), assevera: “o Homem (homem e mulher) é aquela realidade que não é o que é, é o que não é (…) o ser que se realiza na sua própria superação.” (destaque e parênteses nossos)

À guisa de conclusão

Portanto, em “Sexta-feira”, de JC, mais do que se fomentar e/ou frisar a máxima segundo a qual “a sexta-feira é o dia do homem”, explicita-se a (in) sensibilidade de certos homens com relação à família, tudo por conta da sexta-feira, e chama-se-lhes atenção para mais compreensão (ou compaixão?), sob o risco de a mulher, em busca de alívio, cometer actos que periguem ou manchem o seu relacionamento.

 

BIBLIOGRAFIA

ACTIVA:

PASSIVA:

 

 

carlosdagraca18@gmail.com

 

Em maio a “malta” reuniu-se para celebrar os tantos anos de Kapa Dech, uma viagem na esteira da noite que se fez nostálgica e imersa nas vozes delicadas de Cizequiel & Roberto Isaías. Com uma plateia vestida de saudades de um tempo não muito distante, percorremos,  juntos, os álbuns Katchume lançado em 1998 e Tsuketani lançando em 2001.

O tempo foi passando e se me era difícil escrever estas linhas, aquela sensação de que é preciso apurar e deixar decantar o que se sente porque as vozes, os gestos, as vibrações da plateia e o toque de cada membro da banda, ainda se faziam ouvir suavemente em minha mente, e acredito que também,  na mente de todos que por ali estiveram para saudar a vida e obra de uma banda que cantou moçambique e a sua gente.

Mais do que cantar e tocar a música, os Kapa Dech, cantaram e tocaram a alma da gente, com vozes teleguiadas no tempo e um painel luminoso por traz, com as imagens dos que partiram, elevaram a dimensão do significado da palavra “_ companheirismo _”, exteriorizando as vivências e as memórias que compõem  os percursos que nos abraçam fazendo o poema da vida.

É verdade que “as estrelas não brilham durante o dia”, elas precisam da noite para remover com sua sabedoria a mancha do invisível. Na noite de 16 de Maio de 2025, o coração de maputo foi preenchido por estrelas que iluminam as notas que fazem a musicalidade da alma descalça do nosso povo, foi um musical com timbres vocais de outros tempos e que emergiram da periferia para os grandes centros urbanos onde hoje abrimos o coração para dizer obrigado Kapa Dech, pela música, pelo significado e pelo beijo mulato da noite no aroma dos lambirintos dos nossos bairros.

 

A exposição individual “sussurros do tempo: lendas e mitos”, do artista moçambicano Bruno Chichava, apresentada na Fundação Fernando Couto, em Maputo, é uma experiência sensorial e poética que mergulha profundamente nas camadas da identidade feminina.

Com um olhar íntimo e simbólico, Chichava constrói um corpo de obras que desafia a linearidade do tempo, explorando a ancestralidade, a memória e a corporeidade como forças indissociáveis da experiência da mulher.

Visualmente, sussurros do tempo se destaca pela diversidade de ações que evocam o cotidiano feminino sem nunca se prender ao óbvio. Há uma paleta terrosa e orgânica que percorre toda a exposição tons que remetem à pele, ao barro, ao sangue e à natureza criando uma atmosfera cálida, visceral e acolhedora, como um ventre.

A presença do corpo, sugerida ou explicitada, é constante, seja por contornos sutis, silhuetas fragmentadas ou marcas impressas como vestígios de presenças ancestrais. Chichava utiliza o corpo não apenas como tema, mas como meio, em algumas obras, é possível sentir a fisicalidade da criação, como se o artista tivesse bordado, desenhado ou pintado com a própria carne.

A exposição não segue uma linearidade rígida, e isso é parte de sua força. Em vez de uma narrativa fechada, Sussurros propõe um percurso sensorial, onde cada obra funciona como um portal de memória coletiva e pessoal. Há uma tensão entre o íntimo e o universal, entre o silêncio e o grito e é nesse espaço liminar que a exposição mais pulsa.

Sussurros é uma exposição potente e sensível, que propõe uma escuta ativa do feminino em suas múltiplas camadas. Chichava reafirma-se como um artista de discurso maduro, capaz de unir a crítica social da arte com a delicadeza de uma poética visual refinada. A Fundação Fernando Couto acerta ao abrir espaço para uma produção que, ao mesmo tempo, confronta e acolhe como o próprio feminino.

A exposição não apenas celebra a mulher, o passado, a preservação da identidade, mas, também, propõe uma imersão em sua complexidade, com lirismo e coragem.

Uma exposição que ecoa dentro do visitante mesmo após a saída da galeria. Em “ Mulher Asfalto”, um dos temas retratados na exposição, a técnica mista combina linhas expressivas a tinta preta com lavagens aquareladas em tons sépia e castanho. Este contraste entre o traço duro e o fundo fluido evoca a tensão entre o interior psicológico e o ambiente externo.

O uso de traços soltos e instáveis sublinha o caos emocional. A paleta de cores reduzida intensifica a sensação de abandono ou melancolia. A figura humana é desenhada com uma anatomia intencionalmente deformada sugerindo mais expressão emocional do que realismo físico. Este tipo de composição aproxima-se do expressionismo figurativo contemporâneo, onde a forma é distorcida ao serviço do conteúdo emocional.

A centralidade da figura humana isolada sugere que esta é uma obra sobre a condição humana, mais especificamente: sugere angústia existencial; sofrimento psicológico e enclausuramento interno.

Teias de aranha ao redor do corpo indicam que a figura está presa no tempo ou numa memória paralisante. Já as linhas que explodem em todas as direções representam uma ruptura interna ou com o mundo exterior.

O corpo nu, fechado sobre si mesmo, não indica erotismo, mas sim fragilidade, defesa e até vergonha. As criaturas laterais, semelhantes a répteis ou escorpiões, intensificam o ambiente de ameaça, seja ela real ou simbólica.

A obra pode ser lida como uma metáfora visual do estado de confinamento emocional vivido por muitos indivíduos no mundo moderno presos entre o peso do passado, os medos interiores e uma sensação de impotência.

É também um comentário sobre o isolamento, quer seja físico ou mental. A ausência de qualquer outro elemento humano no cenário reforça a solidão da figura, como se estivesse num “não-lugar” psicológico, entre o colapso e a libertação.

Esta é uma peça forte, visualmente impactante, que transmite uma narrativa sem palavras, feita de dor, tensão e introspeção. A escolha estética de misturar o caos visual com uma pose retraída cria uma dualidade poderosa, o mundo interno em turbulência versus o corpo em defesa.

A obra é uma declaração silenciosa, mas intensa, sobre a fragilidade humana e sobre a complexidade emocional que muitas vezes carregamos sem mostrar.

 

Título: Mulher Asfalto, aguarela e tinta-da-china s/ papel, 41×55 cm, 2016
Artista: Bruno Chichava
Curadoria: Yolanda Couto
Fotografia: Sheiza Nhachengo

Quando o amigo Baldeu Chande se juntou a eternidade, foi tormentoso fazer uma mensagem de elogio ou até de despedida. A dor falava mais alto que qualquer palavra, e qualquer que fosse a mensagem, certamente, jamais ecoaria em nenhum coração mais sensato e emocionado. Lidar com a despedida é uma das experiências mais difíceis da vida. As emoções envolvidas, no imediato, nesse processo, podem ser avassaladoras, e muitas vezes, é desafiador encontrar os vocábulos que expressem os sentimentos de perda e saudade. Não se perde, apenas, um amigo e colega, mas o manancial de vivências, experiências, conhecimentos e de tanto que ficou por partilhar.

Hoje, com o mesmo coração pesado, dilacerado e ainda incrédulo, revivo as emoções para me despedir do companheiro e amigo Roberto Zolho, esse homem de todas as compleições físicas, astuto e perspicaz, mas que, mesmo no silêncio das matas e savanas, dizia mais com os seus actos do que muitos de nós conseguimos dizer por palavras e sugestões.

A natureza não se faz com campanhas, reuniões e promessas. Quem vive no seu interior conhece bem os ditames.

Roberto nasceu no coração de Sofala, onde as águas do Púnguè se deitam sobre a planície, e a terra nos ensina a respeitar o ritmo da chuva, do vento e dos bichos gigantes, e de todos os tamanhos. Cresceu e se fez para o mundo num lugar onde a vida dos homens e a vida dos animais se entrelaçam e, talvez por isso, motivado pela vivência, sempre cuidou mais da fauna selvagem e da flora bem mais, e melhor, do que tomou conta de si próprio. Imagino que deu nome a uma centena de animais e árvores.

Conheceu a história de cada um e chorou o final triste de cada árvore abatida na floresta, de cada búfalo que seguiu para caça furtiva e dos contra sensos na Administração destes ecossistemas. Aprendeu a entender seus instintos e, sobre eles, reproduziu os seus próprios modelos de vida e teorias.

Em Dezembro de 1981, quando a guerra chegou ao Parque Nacional da Gorongosa, agora privatizado e mediatizado, com troféus ocidentais e quase nenhum da comunidade circunvizinha, as balas profanaram aquele santuário, nesse confronto entre irmãos que se desentenderam por motivos políticos, idiossincrasias, sedes pelo poder e democracias envenenadas. Ele foi um dos primeiros a erguer-se em defesa dos que lá viviam, bem no interior da Gorongosa, essa montanha final do Vale do Rift, cuidando de homens, mulheres, elefantes, leões, árvores centenárias.

Com saber e mestria se converteu num apaziguador, num diplomata das florestas e em alguém que sabia escutar mais do que falar. Quem sabe o seu gaguejar foi um propósito divino.

Zolho se agigantou e uniu em si força e redenção para recriar a arca de Noé dos novos tempos. Sem recorrer à espiritualidade, mas guiado por crenças e determinação, levou o armistício para outros níveis de tranquilidade, onde animais e homens passaram a comungar o sonho da mesma paz, de uma reconciliação e de uma vida de irmandade e distante das armas. Aquilo que o conflito jamais conseguiu conquistar. Armas não fazem amigos, tampouco geram prosperidade. O abraço e a honestidade, sim.

Arriscou-se para proteger os outros, como sempre fazem os que protegem a natureza e dela aprenderem o sentido da coragem. E, depois dessa escuridão, continuou a trabalhar por Moçambique, ajudando a reconstruir não só o parque, mas, também, a esperança. O sonho de Mondlane, no seu lutar por Moçambique, que segue pulsando à margem deste Índico idílico.

Foi agraciado com a medalha de Mérito do Ambiente, mas a maior homenagem que a terra lhe presta está na sombra das acácias, no bater das asas das aves que voltaram à Gorongosa, e no olhar dos jovens guardas-florestais que, ainda hoje, seguem os seus passos e seus exemplos. Escutam, nítida, a sua voz e o seu comando.

Os provérbios da nossa terra são pródigos e revelam verdades que vão além do que a língua portuguesa pode oferecer. Agora me ocorre um deles: “A árvore não come os seus próprios frutos.” Profundo e apropriado para lembrar este amigo e colega das matas e savanas. Roberto foi assim: deu sombra, deu frutos, deu tudo, mas não guardou nada só para si.

Que a sua alma encontre descanso junto das matas de Miombo e Mopane, que ele tanto amou e cuidou. Que os animais que ele protegeu, se tornem o seu cântico eterno. E que nós, os que cá ficamos, aprendamos com ele a cuidar daquilo que importa, a terra, a vida, e uns dos outros, reconciliados e em paz com a natureza.

 

Dizem os antigos: quem não sabe onde começou, também não sabe onde parar. E hoje decidi reflectir sobre muito daquilo que nos corrói por dentro — em cada esquina, em cada bairro, nas famílias, universidades, parlamentos, igrejas, conselhos municipais e até nas academias: a mediocridade.

Terão que me perdoar por longo texto, mas devemos escrever. Mas antes de filosofar bonito, vamos ao princípio. No tempo dos mais-velhos kwiyanga, chamava-se ntumuwa — aquele que andava sempre atrás dos outros, sem coragem de pensar com a própria cabeça. Era o que repetia o chefe, seguia a multidão, obedecia sem questionar. Medíocre é aquele que ocupa espaço, mas não exerce pensamento.

A palavra vem do latim medíocres, que significa “aquele que está no meio”. Não o meio como ponto de equilíbrio, mas como limbo — onde não se cresce, nem se desaparece. É o espaço da indecisão, da covardia intelectual, da falta de ousadia. A mediocridade é o confortável raso: sabe-se um pouco de tudo, mas nada em profundidade. Lê-se o título, mas nunca o conteúdo.

Fala-se o que se ouviu, nunca o que se pensou. A mediocridade, dizia Nietzsche, é a mais confortável das virtudes burguesas: acomoda-se no consenso, evita o desconforto do pensamento e se alimenta da vulgaridade colectiva. Moçambique, desde a sua independência, fez da mediocridade o seu principal projecto nacional. Não por acidente — por desenho.

É preciso definir a mediocridade não é ausência de talento. É o triunfo da preguiça mental, da incompetência assumida e do hábito de manter tudo abaixo do nível mínimo de dignidade

intelectual e moral. É o elogio do básico, a celebração do irrelevante, a consagração do vazio.

Quando a Frelimo tomou o poder, em 1975, havia duas possibilidades: fundar um país de excelência ou estabelecer um território de conveniência. Preferiram a segunda. Deram-se o direito de reescrever a história, de sufocar o dissenso e de forjar uma cultura nacional onde discordar é crime, pensar é perigoso e questionar é traição.

Transformaram o país num grande quartel ideológico onde a única coisa obrigatória era a obediência e a única virtude permitida era a mediocridade partidária. O intelectual virou inimigo, o questionador tornou-se traidor e o talentoso foi exilado. Amílcar Cabral já advertira:

“Nenhum povo se liberta se não libertar antes a sua cultura”, Moçambique não libertou. Pelo contrário, prendeu-a. Colonizou-a com slogans, bandeiras e discursos vazios. A Frelimo criou uma estética do medo e da submissão, onde se promovia o mais fiel e se silenciava o mais lúcido. A mediocridade tem raízes antigas. No tempo colonial, o “bom negro” era o que obedecia, calava e não fazia perguntas difíceis. O que apanhava num dia e voltava a trabalhar no outro. A obediência cega virou moeda de valor. E mesmo após a independência, os donos do poder mudaram, mas a lógica ficou: quem pensa é perigoso, quem questiona é inimigo. A mediocridade passou a ser aliada do poder.

Em 1975, a juventude tinha voz, marchava, exigia. Foram domesticados. O partido ocupou a

OJM, e para mulheres OMM, destruiu os grêmios literários e marginalizou jovens críticos.

Hoje, os jovens só se importam com festa, álcool (xhovaxongo) e fama no TikTok.

Mediocridade assumida e promovida com sucesso. O Estado investe mais em festas da  juventude do sistema OJM e OMM do que em bibliotecas. Vejam só, antes às igrejas denunciavam injustiças. Na pós-independência foram perseguidas, igrejas fechadas, líderes presos. Depois reabilitadas, mas compradas. Hoje nos neocolonias são empresas de lucro, cúmplices do poder. Os pastores, padres e bispos tornaram-se aliados da mediocridade política.

Vendem esperança enquanto o povo morre na miséria.

A política moçambicana é um relicário de vaidades e um museu de impostores. Desde 1975,

este país foi entregue nas mãos de uma elite partidária que se auto-intitulou dona da libertação nacional, como se o povo moçambicano fosse apenas espectador da sua própria história. A Frelimo — esse nome que ocupa todos os corredores do poder — não se contentou em libertar o território; quis libertar também as consciências, padronizar os pensamentos e monopolizar o discurso patriótico. Criou-se a ideia de que questionar o partido era trair a pátria. Quem ousasse discordar não era adversário político — era inimigo da nação.

Os camaradas fundaram uma cultura de medo e de intimidação social. Instalaram nas aldeias, nos bairros e nas instituições públicas a vigilância mútua. Os vizinhos se espionavam, os colegas se denunciavam, os familiares se calavam. Até hoje, basta alguém levantar a hipótese de refundar o Estado ou de criar uma nova ordem política e logo ouve: “Isso é perigoso, camarada.

Deixe essas ideias, pode desaparecer…” E assim, não se tenta nada. Não se sonha com outra Constituição, não se propõe outro modelo de governo, não se refundam instituições. A cultura do medo virou religião civil. O discurso político oficial se repete desde 1975: “Nós, os

libertadores, fizemos a revolução, trouxemos a paz, construímos a unidade nacional.” Mas que unidade é essa? Que paz é essa? Que revolução continua a ser essa? A paz de Moçambique é de cemitério. A unidade é de obediência. E a revolução virou expediente para manutenção de privilégios.

A política tornou-se refém de veteranos e filhos de veteranos. O poder circula num pequeno clube de apelidos sagrados. As eleições são formalidades. Os candidatos da oposição são tolerados como figurantes para validar um jogo já decidido. E o povo, reduzido a plateia silenciosa, é chamado de patriota quando obedece e de divisionista quando contesta. Quem fala de mudança é rotulado de radical. Quem pede auditoria é subversivo. Quem sonha com uma nova independência mental é imediatamente acusado de conspirar com estrangeiros.

Moçambique vive hoje uma ditadura velada onde a mediocridade reina porque é funcional. O

líder medíocre não ameaça o status quo, não questiona as ordens superiores, não reivindica

autonomia. Por isso, os cargos públicos são ocupados por incompetentes, bajuladores e corruptos sem escrúpulos. E quem governa o país há 49 anos não tem nenhum interesse em refundar nada. Porque refundar o Estado significaria renunciar ao privilégio, ao poder absoluto e à narrativa única. E isso, eles não admitem. A cultura do medo sobrevive porque as instituições servem ao partido, e não ao Estado. A polícia protege o camarada, não o cidadão. Os tribunais julgam com base em ordens, não em leis. As assembleias de deputados existem para aplaudir, não para fiscalizar. O Estado moçambicano é, portanto, um condomínio de mediocridade politicamente conveniente. Um projecto de manutenção da estupidez colectiva, onde a ignorância é promovida a doutrina e o medo, a política de Estado.

Desde a independência, a segurança nacional nunca foi pensada como protecção do cidadão, mas como proteção do partido no poder. O Ministério do Interior e os Serviços de Segurança do Estado (hoje SERNIC, outrora SNASP) foram desenhados para vigiar, perseguir, intimidar e anular qualquer tentativa de divergência política ou social. A cultura do medo foi institucionalizada. Havia delatores em todos os bairros, nas igrejas, nas escolas e nos locais de trabalho. As pessoas foram educadas a não confiar umas nas outras, a desconfiar até do próprio irmão. O camarada-presidente era sacralizado, e o Estado confundido com a pessoa de Samora, depois com Chissano, depois com Guebuza, depois com Nyusi, e com Chapo. Seguindo com os ditos generais mornos, ministros e outros caducos infiltrados de dirigentes que lesa a pátria. Como dizia Foucault, onde há poder, há resistência. Mas onde há mediocridade, há medo institucionalizado. As leis, por sua vez, nunca foram feitas para organizar a convivência social, mas para legitimar os caprichos do partido no poder. A Constituição da República é usada conforme a conveniência do dia. Quando convém, ela protege direitos; quando incomoda, é ignorada, reinterpretada ou violentada.

O Judiciário moçambicano tornou-se, desde a independência, uma extensão da vontade política do Executivo. Os tribunais, salvo raras exceções, funcionam como braços armados do regime. Os juízes são indicados pelo próprio poder político e alguns já nem fingem mais neutralidade. As leis protegem os poderosos e oprimem os desobedientes.

Um camponês que rouba uma galinha para alimentar a família pode ser condenado a anos de prisão, enquanto um político que desvia milhões de dólares é tratado com deferência e mantém os seus privilégios intactos. As eleições, desde 1994, não são um exercício de soberania popular, mas uma farsa cronometrada, controlada e fraudada. A Frelimo nunca aceitou a ideia de alternância no poder. Os resultados são cozinhados na CNE, e quem contesta é reprimido, ameaçado ou eliminado. O povo vota, mas não escolhe. As autarquias foram criadas como uma promessa de descentralização, mas na prática funcionam como escritórios locais do partido. Os presidentes dos Conselhos  Municipais são escolhidos não pela competência, mas pela fidelidade. Os recursos são centralizados e distribuídos com base em critérios partidários, e as autarquias da oposição são sabotadas desde Maputo. A Segurança Nacional protege mais as elites políticas do que o povo. Os tribunais fazem mais justiça aos ricos do que aos pobres. As eleições mantêm o mesmo partido há 50 anos. As autarquias são controladas como feudos.

E tudo isso é resultado de uma cultura de mediocridade política cultivada desde os tempos de Samora. Quando se misturou partido e Estado, selou-se a tragédia. Hoje, o cidadão moçambicano tem medo de falar, medo de questionar, medo de tentar refundar o país. O Estado tornou-se um condomínio de mediocridade consentida e sustentada por leis feitas à medida dos seus donos. Aquela geração de 1975 descobriu sua missão, mas a traiu ao fundar um Estado que priorizou o controle sobre o bem-estar. E assim seguimos: mediocrizados, anestesiados e domesticados.

Nas aldeias comunais, o primeiro que aprendeu a ler virou sábio, mesmo sem nunca buscar mais conhecimento. Nas igrejas, quem decorava versículos virava pastor ou, até mesmo catequista qualificado e os filhos logo deviam ir na missão dos missionários estudar. Nas cidades, quem falava português “bonito” sem sotaque virava doutor na hora. E o saber virou vaidade, não prática. A educação foi transformada em símbolo de mando, não de libertação. O saber virou repetição, não reflexão. Nas escolas, alunos criativos eram rotulados de “problemáticos, confusos”. Nas famílias, o filho curioso era silenciado. E o país inteiro aprendeu a calar, repetir e não se destacar.

E assim, Moçambique passou a cultivar a mediocridade como única política de Estado. Onde, a mediocridade virou estilo de vida — modus vivendi. Tornou-se cultura, método de sobrevivência, filosofia sem nome. No tempo dos nossos avós, quando se queria dizer que alguém era fraco, dizia-se: “é um homem do meio”. Um ser que não fede nem cheira. Que finge saber, mas teme pensar. Que segue os outros, com medo de traçar o próprio caminho.

 

A educação em Moçambique sempre foi tratada como arma, nunca como direito. No calor da neo(in)dependência, entre gritos de vitória e hinos revolucionários, prometeram escolas para todos, para “formar homem novo” mas não disseram o que se iria ensinar. A pressa em domesticar mentes foi tanta que preferiram abrir salas de aula com quadros de giz e professores sem preparo, do que permitir que os jovens lessem pensadores livres.

Expulsaram missionários, queimaram livros considerados reacionários, até a filosofia foi removido no sistema educacional, e ensinaram à criança que só há um herói: o camarada Presidente. A escola moçambicana desde 1975 deixou de ser espaço de debate para se tornar oficina de obediência. E partindo daí, deu início a deturbação e invenção da história nacional.

Quem ousava pensar diferente era denunciado como inimigo da revolução. A cultura de pensar foi vista como ameaça. Questionar era crime. Debater, traição. A mediocridade tornou-se celeiro ou seja, método de governo.

A década de 80 fabricou professores que apenas decoravam slogans. A de 90 de segunda república, preparou directores que aprendiam mais política partidária do que pedagogia. Os anos 2000 trouxeram consigo os “canudos de conveniência” — diplomas comprados, teses plagiadas e universidades abertas como padarias. De 2005 a hoje, a educação em Moçambique é um projecto de domesticação, rebotizada, automatizada. Os professores são prisioneiros do medo e do salário, incapazes de educar para a liberdade. Os estudantes são reféns de um currículo obsoleto e desonesto.

O Ministério da Educação e Cultura tornou-se o quartel-general da mediocridade académica. Os livros didáticos continuam cheios de erros, com mais fotos do camarada Presidente do que de filósofos e cientistas. A História contada é uma narrativa controlada. Não há espaço para Fanon, Ngugi wa Thiong’o, Amílcar Cabral ou mesmo Karl Marx em profundidade — só resumos domesticados. Os livros de Filosofia são panfletos ideológicos mal escritos. Os jovens decoram respostas para exames e esquecem tudo no dia seguinte. O ministério que deveria formar pensadores virou o gabinete oficial de distribuição de mediocridade. E os ministros são padrinhos dos presidentes.

As universidades, salvo raríssimas excepções, são fábricas de canudos vazios. A maioria dos estudantes universitários não lê livros completos. Não porque não queiram, mas porque o sistema educacional lhes ensinou desde cedo a odiar o saber. Bibliotecas sem livros. Salas sem debate. Professores que mal sabem o que ensinam mesmo assim, encontram quase esses mesmos professores em todos cantos das instituições do ensino no capital do país. E assim o Estado fabrica seu exército de medíocres obedientes.

No final, a sociedade celebra quem tirou 20 valores decorando fórmulas sem entender nada. E aqueles que ousam fazer perguntas desconfortáveis são perseguidos ou excluídos dos círculos acadêmicos. Mediocridade não é acidente. É projecto. E quem denuncia isso é logo chamado de inimigo da pátria, frustrado ou revoltado. Como se a revolta não fosse o mais sagrado direito do espírito lúcido.

Em Moçambique, o diploma virou certificado de submissão e o título académico, medalha de

mediocridade. Por isso há tantos mestres e doutores incompetentes, incapazes de formular uma ideia original ou de resolver problemas concretos do país. Tornaram-se apenas repetidores de ordens, burocratas da ignorância institucionalizada. E assim seguimos: um país com milhares de licenciados e quase nenhum pensador. Com o tempo, a mediocridade se disfarçou de humildade, vestiu-se de tradição, ganhou palmas nos púlpitos e aplausos nas bancadas parlamentares.

Tornou-se virtude nacional. Na escola, como falei, o importante não é aprender — é passar. Na universidade, não é pesquisar — é decorar. Na política, não é servir — é obedecer. A cultura política moçambicana nasce, cresce e se reproduz nesse ecossistema de incompetência funcional e mediocridade celebrada.

O Estado tornou-se um condomínio de medíocres, sim, onde se compra influência, se vende

silêncio e se premia a inépcia. Onde ministros são escolhidos não pela capacidade, mas pelo sobrenome ou pela disponibilidade para ajoelhar-se. Onde os órgãos de justiça são salas de espera do partido e onde a oposição é permitida desde que se mantenha fraca e previsível com isso, estamos a presenciar a decadência e negação e rejeição do partido ou movimento neorevolucionário “Anamalala” étcetera, étcetera. Nos anos da revolução, a justiça popular substituía tribunais. Depois, os tribunais foram ocupados por camaradas, e hoje os juízes esperam ordens do partido para decidir sentenças. Corrupção institucionalizada. Mediocridade jurídica endêmica.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset já diagnosticava em seu tempo: "A mediocridade organizou-se, tomou os postos de comando e governa." Moçambique é exatamente isso: um país governado pela organização da mediocridade. E os efeitos estão aí: A juventude é ensinada a admirar quem ostenta, não quem pensa. Os artistas são premiados por bajular, não por questionar. Os escritores só são lidos se forem seguros para o sistema. Os empresários são prisioneiros da burocracia de comadres. Os velhos transmitem a cultura do medo, e não da coragem. No bar, na família, nas instituições a mediocridade é norma social. O debate foi trocado pela fofoca. Os bares são palcos de discussões vazias e alienação. As famílias ensinam o medo, não a coragem. As instituições públicas são controladas por camaradas incompetentes. A elite artística foi cooptada. Quem canta o partido, sobrevive. Surgiram os MCs e influencers de lixo, promovendo ignorância, sexo fácil, ostentação fútil e zero reflexão social. A mediocridade estética e ética é celebrada. Os apresentadores e apresentadoras viraram bonecos da propaganda.

Não bastasse, a mediocridade virou cultura oficial e familiar. As igrejas trocam ética por marketing e vendem bênçãos a crédito. Tudo mediocrizado. E o mais grave: a mediocridade tornou-se orgulho nacional. Hoje, quem pensa é suspeito. Quem exige é arrogante. Quem questiona é subversivo. Quem lê é lunático. E quem se rebela, desaparece. Se a educação ensinou a obedecer, a cultura ensinou a ajoelhar. Moçambique, pátria de tambores, batuques e contadores de histórias, viu sua alma cultural sequestrada pela política. Logo após a independência, a FRELIMO compreendeu que controlar a cultura era controlar o espírito de um povo. Assim, transformaram artistas em propagandistas, e o palco em palanque.

A cultura deixou de ser expressão livre para se tornar arma ideológica. Os músicos eram obrigados a cantar hinos de louvor ao partido. Os poetas escreviam versos sobre a glória do camarada Presidente, e os grupos de dança ensaiavam coreografias que exaltavam a revolução.

A arte deixou de provocar para apenas bajular. Os teatros viraram templos de doutrinação. As canções populares foram censuradas. Os músicos que não aceitavam o enredo oficial eram silenciados ou forçados ao exílio. A cultura de questionamento, herança ancestral dos griots, foi assassinada pelo medo.

A década de 90 abriu as portas à mediocridade comercial. Com o mercado livre, surgiram os

primeiros artistas sem conteúdo, interessados apenas em dinheiro e fama. Os rappers esqueceram a denúncia social e começaram a rimar sobre carros, roupas de marca e conquistas fáceis. Os escritores passaram a publicar panfletos sem rigor literário. Os palcos se encheram de humoristas sem graça e atores mal ensaiados. Hoje, a cultura moçambicana é um cemitério de talentos enterrados pela mediocridade institucional. O Ministério da Educação e Cultura financia projectos inócuos, patrocina festivais sem alma e entrega prémios a artistas bajuladores.

Os concursos literários premiam a mediocridade servil. As artes plásticas ficaram reféns do turismo e da conveniência política. As rádios e televisões promovem mais putarias e influenciadores vazios do que músicos de verdade. Os MCs de hoje não são poetas  urbanos, mas palhaços digitais a serviço do entretenimento fácil. Os jovens artistas são ensinados a evitar temas polémicos, a não citar Samora Machel com crítica, a não fazer canções que exponham o Estado e a fingir que tudo vai bem.

A cultura de resistência virou cultura de bajulação. E assim a mediocridade tornou-se norma.

Quem ousa ser autêntico é abafado. Os grandes mestres morrem anônimos e os medíocres

sobem ao palco. O Estado moçambicano, esse condomínio de mediocridade, fabrica fama sem talento, arte sem conteúdo e cultura sem coragem. E quem denuncia isso é acusado de inveja ou de querer desestabilizar a “paz social”. Como se a paz fosse possível sem dignidade cultural.

A economia moçambicana é, desde a independência, uma vítima sequestrada e torturada por decisões políticas medíocres e interesses partidários disfarçados de patriotismo. E o mais grave:

essa destruição não foi obra do acaso, foi um projeto. Um projeto de ruína, arquitetado pela mesma elite libertadora que, ao tomar o Estado, confundiu o erário público com propriedade privada e fez da gestão nacional uma extensão do partido. Ainda após a independência, em 1975, a Frelimo, embriagada pela vitória, decidiu nacionalizar quase tudo: terras, empresas, casas, bancos e até pequenas padarias. O Estado tornou-se o único patrão. E como patrão, não sabia produzir, não sabia negociar, não sabia sequer organizar. Sabia apenas acumular poder e perseguir quem não obedecia.

Os comerciantes portugueses fugiram, os empresários locais foram silenciados, e quem tinha competência foi taxado de reacionário burguês. Resultado: os armazéns ficaram vazios, as fábricas pararam, e a fome bateu à porta de uma população que tinha recém-celebrado a libertação. A economia informal explodiu como mecanismo de sobrevivência, e com ela veio a corrupção institucionalizada. O plano de socialismo centralizado fracassou rapidamente. Mas em vez de reconhecer o erro, o partido culpou a guerra, culpou a sabotagem externa, culpou até o clima — menos a própria incompetência. E quando chegou a década de 1990, abriram-se as portas ao capitalismo neoliberal através do Banco Mundial e do FMI, vendendo-se tudo o que antes fora nacionalizado.

As privatizações não foram feitas para salvar a economia, mas para enriquecer os camaradas. As empresas do Estado foram leiloadas entre amigos, generais, ministros e seus filhos. Os que ontem gritavam socialismo ou morte tornaram-se, de súbito, capitalistas vorazes. E o povo?

Continuou a morrer, mas de fome. Hoje, a economia moçambicana não pertence aos moçambicanos. É um corpo sem alma, controlado por multinacionais, elites familiares e intermediários políticos. Os camaradas continuam a decidir quem fica rico e quem permanece na miséria. As grandes concessões de gás, carvão, rubis e areias pesadas são feitas no escuro, entre brindes de whisky e contas offshore. O Estado usa o orçamento para sustentar uma máquina pública ineficiente e um exército de gestores incompetentes, cujo único mérito é ser leal ao partido. O funcionalismo público é inchado com empregos fictícios e salários fantasmas.

As dívidas ocultas, negociadas à margem da legalidade, afundaram o país num escândalo internacional, e até hoje ninguém tocou nos verdadeiros responsáveis.

Como bem denunciou Eduardo Galeano: “As dívidas não se pagam; se renegociam. Os povos pagam e pagam, e ficam cada vez mais pobres.” Moçambique não possui uma economia real — possui uma economia de fachada, de megaprojectos estrangeiros e mercados informais. A maioria do povo continua vendendo na rua, enquanto a elite política ostenta mansões, carros blindados e contas bancárias na África do Sul e em Portugal. O resultado dessa mediocridade planejada é visível: Hospitais sem remédios. Escolas sem carteiras. Universidades sem livros.

Estradas que viram crateras. Obras públicas que demoram décadas.

A única economia que funciona bem é a economia do saque. Saque ao Tesouro, saque às empresas públicas, saque aos recursos naturais. A Frelimo criou, desde a independência, um modelo económico predador, onde poucos vivem como príncipes e a maioria sobrevive como servos. E quem ousa dizer isso, ainda hoje, é ameaçado, perseguido ou desacreditado como antipatriota. Moçambique é, economicamente, um país sequestrado pela mediocridade institucionalizada. E só uma ruptura séria com esse modelo poderá devolver a economia aos moçambicanos de verdade.

Moçambique tornou-se, sim, um condomínio onde o síndico é o partido, os inquilinos são os

bajuladores e os poucos pensadores são os invasores indesejados. É necessário dizer isso sem floreio, sem panos quentes, sem poesia patriótica. Porque enquanto a mediocridade continuar a ser o cimento desta casa chamada Moçambique, tudo o que se construir aqui — seja escola, hospital ou democracia — será um monumento ao fracasso. Moçambique está afundado num sistema de mediocridade funcional e intelectual, plantada e irrigada pela Frelimo desde 1975. O povo foi ensinado a aceitar o mínimo. Os talentosos ou fogem ou morrem na lama. Mas uma geração lúcida pode enterrar essa mediocridade organizada e refundar o país. Porque como disse Frantz Fanon: “Cada geração deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la.” E a missão da minha geração é enterrar a mediocridade antes que ela enterre o país.

Uma nova era fiscal se aproxima. Tributar o carbono localmente não é apenas necessário — é a chance de recuperar receita, fortalecer o Estado e preparar o país para a economia do futuro.

Resumo introdutório: Moçambique enfrenta uma crise fiscal sem precedentes, marcada por dívida pública elevada, baixa capacidade tributária e pressão social crescente. No meio desse cenário, a União Europeia introduz o Mecanismo de Ajustamento de Carbono nas Fronteiras (CBAM), um imposto sobre emissões que impactará directamente as exportações moçambicanas de alumínio, aço e cimento. Este artigo defende que o país deve aproveitar essa realidade global para implementar uma tributação verde nacional, recuperando soberania fiscal e gerando receitas importantes para investimentos sociais e climáticos. Com base no caso exemplar da Mozal, que produz alumínio com energia limpa, e na experiência de países africanos que reformaram com sucesso os seus sistemas fiscais, apresenta-se uma proposta estratégica, técnica e política para transformar a crise em oportunidade de desenvolvimento sustentável com o potencial de gerar aproximadamente USD 200 milhões por ano, competindo com os impostos vindos da indústria de Oil & Gás.

Entre Crise e Oportunidade: Moçambique no Divisor de Águas Fiscal

Nas últimas décadas, Moçambique viveu sucessivos ciclos de crescimento, estagnação e crise fiscal. Hoje, mais uma vez, o país confronta-se com uma dura realidade: um Estado excessivamente endividado, dependente de ajuda externa e com fraca capacidade de gerar receita interna. O boletim oficial recentemente publicado pelo Ministério das Finanças sobre a dívida pública, relativo ao primeiro trimestre de 2025, não deixa margem para ilusões propositadas: o stock total da dívida do Governo, em representação do Estado, ultrapassa 1 bilião de meticais, com um crescimento trimestral de 2,7% impulsionado sobretudo por dívida interna, alimentada por sucessivas emissões de bilhetes do tesouro e crédito do Banco Central.

Há quem diga que a dívida não é um problema. De facto, pode não ser. Ora vejamos: em 2024, a dívida total dos EUA alcançou cerca de 36,4 biliões de dólares, o que corresponde a 98% do PIB (no final do ano fiscal). Contudo, a dívida deve ser analisada à luz de diferentes variáveis, sendo que, no meu ponto de vista, a principal é a capacidade de geração de receita e o risco. Aliás, este é o princípio fundamental para qualquer avalista de crédito.

No caso actual de Moçambique, a esta fragilidade fiscal acima mencionada somam-se pressões crescentes sobre a despesa pública (sobretudo o peso da massa salarial), tensões político-institucionais (crise social pós-eleitoral), volatilidade cambial, escassez de divisas no mercado formal e choques externos como alterações climáticas e guerras geoeconómicas. Este facto permite concluir que, para além do risco, o espaço de manobra da política fiscal é cada vez mais estreito. E, ainda assim, com esses alertas vermelhos, continuamos a tratar o debate fiscal como se fosse apenas uma questão de cortar despesas ou esperar pela próxima tranche de financiamento internacional do FMI, Banco Mundial ou de um outro bom samaritano de alma caridosa e cheia de boas intenções. 

Alias, reduzir os gastos públicos como salários, subsídios, investimentos e transferências sociais pode parecer uma solução rápida para conter o défice orçamental, mas não resolve a raiz da crise fiscal que Moçambique enfrenta hoje. Na verdade, este tipo de medida, aplicada de forma cega, pode agravar o problema em vez de o mitigar. A despesa pública moçambicana já é, proporcionalmente ao PIB (cerca de 23%/PIB), inferior à média da África Subsaariana (cerca de 29% em média), o que indica que o problema não está no excesso de gastos, mas sim em outros pontos da política fiscal. Por outro lado, cortar salários ou reduzir serviços públicos essenciais como saúde e educação poderá paralisar ainda mais o Estado e aprofundar a percepção de abandono, sobretudo entre os mais pobres. 

Continuando, lendo a Proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) 2025 de cima para baixo, podemos afirmar com alguma segurança que o comboio entrou em marcha de colisão. Ora vejamos, o PESOE 2025 prevê uma redução orçamental em vários sectores estratégicos, nomeadamente: (i) Educação: redução de 3,7% face ao orçamento de 2024; (ii) Saúde: redução de 2,2% em relação ao ano anterior; (iii) Infra-estruturas (estradas, habitação, saneamento): redução de 14,5%; (iv) Abastecimento de água e recursos hídricos: redução de 18,3%; (v) Energia: corte significativo de 21,9%. Estes cortes significam que, por exemplo no sector da educação, o Estado passa a contratar menos professores, deixando de fora centenas de milhares de crianças que potencialmente irão engrossar a massa populacional analfabeta e com impacto negativo na produtividade geral do sector económico nacional.

O caso do Gana é ilustrativo. Em 2022-23, o país iniciou cortes agressivos na despesa pública no âmbito de um programa de austeridade, mas a medida teve efeito contrário: provocou convulsões sociais, greves generalizadas e protestos populares, enquanto os indicadores macroeconómicos continuaram a deteriorar-se.

Por outro lado, aumentar impostos sem uma base fiscal sólida e sem contrapartidas visíveis também pode ser desastroso. O Quénia é um exemplo recente. Em 2023 e 2024, o governo aprovou uma série de aumentos fiscais e introduziu novos impostos para tentar estabilizar as finanças públicas, mas a população respondeu com protestos massivos violentos e rejeição social, forçando o recuo de várias medidas. 

Porém, se cortes públicos, por exemplo, não são o único caminho que vai dar à Roma, que outras opções estratégicas merecem maior atenção por parte dos formuladores da política fiscal em Moçambique? A crise actual pode e deve ser vista como uma oportunidade para repensar profundamente a forma como o Estado arrecada receitas, com criatividade, soberania e visão de longo prazo. Um desses caminhos passa, paradoxalmente, por um mecanismo externo: o Mecanismo de Ajustamento de Carbono nas Fronteiras (CBAM) da União Europeia (EU), que entrará em vigor em Janeiro de 2026.

Antes de avançarmos no detalhe sobre a solidão CBAM, permita-me, caro leitor, fazer uma pausa para destacar a questão da visão estratégica por parte das nossas lideranças acima mencionadas. Nós sabemos e temos a certeza de que os nossos líderes, no exercício das suas funções, carregam consigo boas intenções e amor à pátria, mas isso não salva o Romano da queda. (Engraçado que uma das causas da queda do poderoso Império Roma foi a crise económica-fiscal). É preciso definir o rumo ou então mudar a forma de ver as coisas. Já diz o velho ditado: “Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”. Por outro lado, como é amplamente reconhecido na psicologia, mudar a forma como vemos uma situação (coisa) pode transformar a própria realidade dessa situação. Portanto, é urgente e imperioso olhar para os desafios com uma nova lente. Dito isto doutra forma, os “limões” já estão nas nossas mãos. Cabe agora transformar esses limões em limonada, em vez de lamentar. As soluções devem partir de nós, gestores públicos, nós, moçambicanos, nós, académicos, nós, alunos, nós, carpinteiros, e nós, camponeses. Cabe aos “outros” enquadrar-se.

Voltando à vaca fria, a CBAM obriga os exportadores de produtos como alumínio e aço a pagarem uma taxa equivalente ao preço das emissões de carbono aplicado na União Europeia (UE). Se o país de origem não tributar essas emissões, o pagamento será feito na fronteira europeia. Contudo, é aqui onde mora a oportunidade. Se o país de origem já tiver um imposto sobre o carbono, o exportador é creditado por esse valor, ficando, assim, isento de pagar o referido imposto na UE (seguindo o princípio de não dupla tributação). Pagando o imposto CBAM em Moçambique, o operador é automaticamente isento de pagar nas fronteiras da UE. Em outras palavras, o imposto será cobrado de qualquer forma. A única escolha é quem fica com a receita: a UE ou Moçambique.

O caso da Mozal, a maior exportadora do país, é paradigmático. Produz alumínio com base em energia hidroeléctrica (considerada limpa), o que confere uma vantagem comparativa relevante num mundo que caminha para penalizar a produção poluente. Com o CBAM, o alumínio moçambicano, de baixa intensidade carbónica, pode tornar-se ainda mais competitivo nos mercados europeus. Contudo, se Moçambique não tributar as emissões na origem, perderá uma potencial fonte de receita significativa e, mais uma vez, verá os lucros de um recurso nacional escaparem para fora.

Este artigo defende que, para sair da sua crise fiscal histórica, Moçambique precisa urgentemente de expandir a sua base tributária e captar receitas onde elas existem, inclusive no comércio internacional e nas emissões de carbono. O CBAM é um exemplo de como a geoeconomia climática pode ser transformada em fonte de arrecadação doméstica, se o país agir com inteligência estratégica.

Não se trata apenas de responder a uma nova regra europeia. Trata-se de compreender que o futuro da política fiscal nos países em desenvolvimento dependerá cada vez mais da capacidade de se adaptar a um novo contexto global: um contexto em que a descarbonização da economia e a justiça fiscal se interrelacionam. E quem se antecipar colherá os frutos.

Respire fundo três vezes, agora vamos entrar em detalhe no que acima foi dito…

Uma dívida que ameaça a soberania fiscal

No final dos anos 1990, Moçambique enfrentou a maior crise fiscal, com uma dívida externa superior a 6 mil milhões de dólares, representando cerca de 200% do PIB. Foi reduzida no âmbito da Iniciativa HIPC, tendo o Clube de Paris perdoado parte substancial do montante.

Vinte e quadro (24) anos depois, Moçambique vive hoje uma das maiores crises fiscais da sua história recente. No primeiro trimestre de 2025, o stock da dívida pública do Governo Central atingiu 1,07 biliões de meticais, o equivalente a cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Este rácio coloca o país numa zona de alto risco de sobre-endividamento e fragiliza profundamente a sua posição financeira internacional.

(Estar numa zona de alto risco de sobre-endividamento é como uma família que vive de salários baixos, mas acumula dívidas para manter as despesas básicas, como escola das crianças, alimentação e transporte. No início, o crédito ajuda a sobreviver, mas, com o tempo, a dívida cresce tanto que o salário já não cobre nem os juros. A família começa a pedir emprestado só para pagar outras dívidas. Os bancos deixam de emprestar, os vizinhos perdem a confiança, e até comprar fiado na mercearia se torna difícil. Para continuar a viver, essa família é forçada a cortar despesas essenciais, como alimentação ou saúde, e acaba por entrar em colapso. O mesmo acontece com o Estado: quando a dívida cresce além da sua capacidade de pagamento, o país perde credibilidade, acesso a crédito e liberdade de escolha. E quando isso acontece, quem mais sofre é o cidadão comum, com salários em atraso, escolas sem carteiras, centros de saúde sem medicamentos e estradas por acabar.)

A actual dívida de Moçambique está repartida entre dois grandes blocos: 58,6% é dívida externa, contraída junto de parceiros multilaterais e bilaterais como o FMI, Banco Mundial, China ou Portugal; e 41,3% corresponde à dívida interna, essencialmente formada por Bilhetes e Obrigações do Tesouro adquiridos por bancos e instituições financeiras domésticas.

Embora ambas tenham utilidade estratégica, a dívida externa tem condições mais favoráveis taxas de juro mais baixas e prazos mais longos (em média 10-30 anos), o que permite algum alívio no serviço da dívida. Em contrapartida, a dívida interna é no inverso mais onerosa e imediata, com juros mais elevados (quatro vezes mais altos do que os juros da divida externa), maturidades curtas (3-5 anos em média) e impacto directo sobre a liquidez interna, retirando espaço ao crédito produtivo e pressionando o sistema financeiro nacional. Num contexto de baixa capacidade de arrecadação, esta estrutura torna-se insustentável. Neste contexto, o país caminha para uma situação em que contrai nova dívida para pagar dívidas antigas, um ciclo que reduz a soberania orçamental e compromete o futuro das gerações vindouras.

A fragilidade da receita fiscal e os seus efeitos sociais

A arrecadação de impostos em Moçambique continua a ser estruturalmente baixa. Para ilustrar, o país arrecada entre 13% e 15% do PIB em impostos. Esta é a dita pressão fiscal (economistas adoram expressões disruptivas para dizerem coisas básicas), ou seja, a proporção da riqueza nacional que o Estado consegue transformar em receita pública. Em países como a África do Sul ou Cabo Verde, essa pressão fiscal ultrapassa os 25%. Como exemplo ilustrativo: se o PIB for de 100 mil milhões de meticais, o Estado arrecada apenas 13 a 15 mil milhões em impostos, um valor claramente insuficiente para financiar saúde, educação, segurança e infra-estrutura. O Governo está a “sofrer” por não cobrar bem os impostos.

Essa fragilidade é particularmente grave em momentos de crise, como o actual. Sem receita suficiente, o Estado torna-se incapaz de intervir em momentos críticos. Um dos reflexos mais imediatos da crise fiscal é o aumento do custo de vida, pois o Governo não tem capacidade para subsidiar bens essenciais ou controlar os preços. Alimentos da cesta básica como arroz, óleo e farinha registaram aumentos de 15% a 25% entre 2024 e 2025, enquanto os salários da função pública permanecem estagnados. Famílias moçambicanas, já duramente pressionadas, enfrentam o dilema entre alimentar-se ou pagar transporte público, vulgo chapa.

Essa situação, aliada ao descontentamento generalizado com a gestão pública danosa, desencadeou em parte protestos espontâneos no período pós-eleitoral em 2024, sobretudo nos subúrbios das principais cidades, com destaque para Maputo, Beira e Nampula. A erosão da legitimidade do Estado, quando este falha em responder às necessidades básicas, vê-se reduzido a um papel simbólico, pode alimentar novas formas de instabilidade social. Por outras, o país vive, assim, um círculo vicioso: sem receita suficiente, o Estado não investe; sem investimento não há progresso, aumenta o descontentamento; e o descontentamento mina a estabilidade, afastando o investimento privado e agravando ainda mais a crise fiscal.

É preciso levar a sério as mudanças em marcha no cenário global

A conjuntura internacional também é desfavorável. Fenómenos como a crise da migração, crise de habitação, desemprego e, principalmente, o ressurgimento na arena política ocidental dos partidos da extrema levam-nos a pensar que o ciclo da “ajuda fácil” parece ter terminado ou, pelo menos, caminha para o fim. Os doadores tradicionais estão a redireccionar fundos para as suas prioridades domésticas e a exigir maior responsabilidade e resultados concretos. Por outro lado, os mercados financeiros internacionais tornaram-se mais selectivos e mais caros, com taxas de juro elevadas e prazos mais curtos.

Em 2025, no início do seu segundo mandato, o Presidente Donald Trump criou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk. Uma das primeiras medidas foi o corte súbito e sem aviso prévio da ajuda externa gerida pela USAID. Esta agência, com mais de 63 anos de actuação, operava em mais de 100 países com um orçamento anual de cerca de 23 mil milhões de dólares. Os cortes afectaram áreas críticas como saúde, educação e segurança alimentar. Muitos programas foram suspensos de um dia para o outro, deixando países vulneráveis sem apoio essencial. 

Portanto, há uma mensagem inequívoca para os países, e para Moçambique em particular, de que é urgente repensar com seriedade a eficiência e a eficácia da despesa pública, exigindo uma gestão mais responsável, transparente e orientada para resultados. Mais do que nunca, o Estado precisa de reforçar a sua independência fiscal e assumir plenamente o seu papel de Zaqueu moderno, não como mero cobrador de impostos.

Ruanda: um exemplo africano de como é possível mudar

Nem todos os caminhos levam ao colapso. Há exemplos positivos em África. O caso do Ruanda é um dos mais notáveis. Nas últimas duas décadas, o país reformou profundamente a sua arquitectura fiscal, investindo na digitalização da administração tributária, com sistemas electrónicos de declaração, cobrança e fiscalização que reduziram drasticamente as barreiras burocráticas e principalmente a evasão. Alargou a base tributária com políticas simples, mas eficazes, para captar receita de pequenas e médias empresas. E, sobretudo, fez da transparência e do reinvestimento social dos impostos uma prioridade, o que aumentou a confiança dos cidadãos no sistema.

Como resultado: entre 2012 e 2022, a pressão fiscal do Ruanda passou de 13% para mais de 17% do PIB. No mesmo período, a dependência de ajuda internacional caiu de 75% para menos de 35% do orçamento nacional. Estas receitas adicionais foram canalizadas para educação, saúde e infra-estruturas, consolidando um Estado funcional e resiliente. Este exemplo, mostra que reformar a política fiscal é possível, mesmo num país com escassos recursos naturais. Porém, requer vontade política, visão estratégica e coerência institucional, três elementos de que Moçambique também dispõe, se souber aproveitá-los.

Na vida real, às vezes é preciso usar os ombros dos outros para enxergar o fim do rio….

 

O CBAM como catalisador de novas receitas

A partir de Janeiro de 2026, a União Europeia irá aplicar integralmente o Mecanismo de Ajustamento de Carbono nas Fronteiras (CBAM). Este mecanismo obriga empresas que exportam para a UE a pagarem um imposto sobre as emissões de carbono associadas à produção dos seus bens, de forma a garantir que os produtos estrangeiros não tenham vantagem competitiva face aos produzidos na Europa, onde já existe um custo regulado para as emissões. (Uma protecção aduaneira à vista. Onde está a OMC? Desculpa: é carbono, não proteccionismo.)

O CBAM incide inicialmente sobre seis sectores intensivos em carbono: aço, alumínio, cimento, fertilizantes, electricidade e hidrogénio. Importadores desses produtos na UE terão de adquirir “certificados de carbono” equivalentes ao preço do carbono europeu (cerca de 96 USD/ton CO₂ em 2023), a menos que os países de origem já tenham aplicado um imposto equivalente.

 

Sistema económico “ou tributamos nós, ou tributam eles

A actual arquitectura do CBAM oferece a Moçambique uma oportunidade rara: a possibilidade de recolher receitas internas sem perda de competitividade internacional. Exportadores que paguem o imposto no país de origem não sofrerão prejuízo face aos seus concorrentes, porque o valor será descontado na fronteira europeia. Em outras palavras, se Moçambique introduzir um imposto nacional sobre carbono, os exportadores serão creditados por esse pagamento e não precisarão de pagar novamente na Europa. Assim, o país pode: (i) criar uma fonte de receita fiscal climática, alinhada com as exigências internacionais; (ii) evitar a perda de divisas, que seriam canalizadas para o orçamento europeu; (iii) reforçar a sua posição negocial internacional, mostrando compromisso com a transição verde. Mais ainda, num contexto de fragilidade orçamental e dívida elevada, esta é uma alavanca inteligente, justa e tecnicamente viável.

Caro leitor, imagine uma situação hipotética em que lidera uma associação que produz e vende tomate, religiosamente, a uma cooperativa de produtores hortícolas. De forma repentina, a cooperativa decide introduzir uma nova taxa sobre o tomate e a cebola, à qual chama Taxa de Limpeza (TL), alegadamente para cobrir os custos de higienização antes do empacotamento. Com o objectivo de demonstrar transparência e alinhamento com as normas locais de comércio, a cooperativa permite que a TL seja paga fora das suas instalações. Coincidentemente, a sua associação é reconhecida no mercado por fornecer o tomate mais limpo disponível. Ainda assim, a taxa é obrigatória e não admite exceções, (afinal, a sua associação não é a única fornecedora) e sobretudo, a cooperativa é o único mercado existente. Perante esse cenário, restam-lhe apenas duas opções: (i) permitir que os seus associados sejam tributados pela cooperativa, que depois usará esse dinheiro para investir no seu próprio país e, futuramente, emprestar-lho com juros e sem condições favoráveis; ou (ii) criar a sua própria taxa interna, utilizar os recursos para pagar dívidas à cooperativa e investir parte no aumento da produtividade dos seus próprios membros.

Não precisa de pensar muito para ver que a segunda opção é a mais estratégica, visto que cria maior autonomia e controlo dos recursos, retorno directo e, sobretudo, reforça a legitimidade do gestor ao demonstrar capacidade de auto-regulação e gestão responsável. Em linguagem de teoria dos jogos, é o movimento no xadrez que evita submissão total ao sistema do outro jogador e transforma a regra imposta numa vantagem estratégica, virando o jogo a seu favor.

O estranho caso da Mozal

A Mozal, uma empresa dedicada à fundição de alumínio nos arredores de Maputo, é o maior exportador industrial de Moçambique (contribuir com 28-30 % das exportações totais; cerca de 75 % das exportações manufactureiras e aproximadamente 3,2-5% do PB). A empresa produz alumínio de alta qualidade com base em energia hidroeléctrica proveniente da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, o que confere à sua produção uma baixa intensidade carbónica em comparação com concorrentes que utilizam carvão, como na China ou Índia, uma vez que usa uma energia limpa. Apesar da elevada produção, beneficia-se de regime fiscal especial, mantendo uma contribuição modesta de cerca de 0,5 % da receita fiscal total do Estado.

Segundo dados de um estudo do International Growth Centre (IGC), uma instituição de pesquisa aplicada criada pela Universidade de Oxford em parceria com a London School Of Economics (LSE), a Mozal está entre as operações mais limpas do mundo no sector do alumínio. Esta situação confere-lhe duas vantagens decisivas no contexto do CBAM: (i) competitividade em preço: ao não ter de pagar elevados certificados de carbono na UE, o alumínio moçambicano será mais atractivo; e (ii) potencial de receita doméstica: se Moçambique tributar as emissões de forma proporcional, a Mozal poderá pagar localmente sem impacto nos seus custos finais.

Uma das maiores virtudes do CBAM, para países como Moçambique, é a simplicidade administrativa do modelo de receita tornando simplesmente viável para o nosso país. Ao incidir sobre grandes exportadores industriais concentrados, como a Mozal ou outras fábricas de cimento e aço, o imposto pode ser: a) aplicado selectivamente apenas sobre sectores abrangidos; b) cobrado directamente no ponto de exportação, com base em dados já exigidos pela UE; e c) monitorado com baixo custo, por meio de parcerias com a indústria e a Administração Tributária.

Receita climática como novo pilar da política fiscal

Continuando… a implementação de uma tributação sobre carbono nas exportações estratégicas não deve ser vista como uma medida isolada, mas como o início de uma nova arquitectura fiscal baseada em justiça intergeracional e sustentabilidade. Moçambique enfrenta riscos graves devido às alterações climáticas como ciclones, secas e cheias são cada vez mais frequentes e custosos. Ao internalizar o preço do carbono e reinvestir parte dessas receitas em resiliência climática, energias renováveis ou transportes sustentáveis, o país poderá alinhar-se com os compromissos do Acordo de Paris e simultaneamente reforçar a sua capacidade de investimento público.

Oportunidade fiscal com impacto imediato

Moçambique tem a oportunidade única de implementar um imposto nacional sobre as emissões de carbono associadas às exportações de bens intensivos em energia, como alumínio, aço e cimento. Este imposto, ao incidir sobre um número reduzido de empresas exportadoras de grande escala como a Mozal seria de fácil administração, com baixa evasão e elevado potencial de arrecadação. Segundo a análise do IGC, a introdução de um preço do carbono em linha com o CBAM europeu (cerca de 96 USD por tonelada de CO₂) não afectaria negativamente a competitividade da Mozal, pois a sua intensidade carbónica é baixa e o custo do carbono já seria inevitável nas fronteiras europeias.

Nesse sentido, tributar internamente é um acto de soberania. Deixar que a União Europeia recolha esse potencial fundo equivale a ceder receita fiscal sobre recursos e produção instalados em território moçambicano de “mão beijada” uma incoerência fiscal inaceitável num país em crise orçamental.

Chegados a esta fase, é importante responder a uma questão central: como implementar um imposto verde nacional? Para responder a esta pergunta, o nosso artigo fez uma análise das evidências científicas trazidas pelo relatório acima mencionado. Assim, a proposta é simples e tecnicamente viável. Eis os elementos essenciais da medida: (i) case de incidência: apenas empresas exportadoras de sectores abrangidos pelo CBAM (inicialmente alumínio, aço e cimento); (ii) fato gerador: emissões de CO₂ associadas à produção exportada; (iii) alíquota: indexada ao valor do mercado europeu de carbono, com eventual ajuste para protecção da indústria nascente; (iv) créditos fiscais internacionais: as empresas seriam credenciadas para deduzirem esse imposto do que pagariam na EU; (v) Gestão: sob alçada da Autoridade Tributária, com apoio técnico do Ministério do Ambiente e da indústria. Este imposto seria o embrião de uma estrutura de tributação ambiental progressiva, começando nos grandes emissores e podendo ser expandido gradualmente para outros sectores poluentes e consumo doméstico. 

Uma outra questão relevante seria: quanto se pode arrecadar? Um exercício estimativo: A Mozal exporta, em média, cerca de 570.000 toneladas de alumínio por ano. Considerando uma intensidade média de emissões da sua produção em torno de 4 toneladas de CO₂ por tonelada de alumínio, isso representa aproximadamente 2,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Com um imposto nacional equivalente a 96 USD por tonelada de CO₂, isso daria uma arrecadação bruta potencial de cerca de 220 milhões de USD por ano mais de 14 mil milhões de meticais anuais ao câmbio actual.  Este montante representa quase 1/3 do total da dívida interna emitida pelo Governo em um trimestre. Trata-se, portanto, de uma fonte de receita significativa, estável e previsível, numa conjuntura em que o país luta para pagar salários e manter os serviços básicos em funcionamento. Este valor poderá crescer se decidirmos tributar outras indústrias abrangidas pela CBAM.

No entanto, se o país não agir, a Mozal será obrigada a pagar esse imposto na fronteira europeia e a receita irá directamente para o orçamento da UE. Trata-se de um caso emblemático de perda de soberania fiscal por inacção.

Este artigo recomenda que a introdução de um imposto verde deve vir acompanhada de mecanismos de equidade, transparência e de combate à corrupção. Algumas recomendações fundamentais: a) Criação de um Fundo Nacional de Transição Verde, para onde reverteriam as receitas do imposto, com regras claras de alocação; b) Aplicação das receitas prioritariamente em sectores sociais e ambientais: electrificação rural, transportes sustentáveis, adaptação climática e compensações para comunidades afectadas; c) Auditoria pública e participação social, com publicação regular dos montantes arrecadados e gastos; d) Não aplicação retroactiva nem sobre produção destinada ao consumo interno, evitando penalizar empresas ou consumidores locais. Com essas garantias, a tributação verde deixa de ser apenas uma medida fiscal e passa a ser um instrumento de transformação estrutural e justiça intergeracional.

Num momento em que a legitimidade do Estado é questionada, a criação de um imposto nacional sobre carbono associado às exportações reforça a autoridade pública sobre os recursos nacionais e projecta Moçambique como um país alinhado com as novas dinâmicas da economia internacional. A medida também melhora a posição do país perante credores, investidores e doadores: demonstra capacidade de inovação fiscal, compromisso com o ambiente e disposição para mobilizar recursos internos sob três critérios centrais para qualquer nova parceria financeira no actual contexto global, ou seja, é uma estratégia que fortalece o Estado.

Condições de sucesso a considerar

A adopção de um imposto nacional sobre carbono, como ferramenta de justiça fiscal e transição climática, não depende apenas do mérito técnico da proposta, mas de um conjunto de condições estruturais e políticas que garantam a sua viabilidade e sustentabilidade. Trata-se de uma reforma com implicações profundas na forma como o Estado se financia, se posiciona perante os seus parceiros e responde às exigências de uma economia verde emergente. Para que tal medida seja implementada com sucesso, Moçambique deve assegurar cinco pilares essenciais que envolvem liderança política, capacidade institucional, legitimidade social, articulação internacional e um quadro legal estável e previsível. Esses elementos são mutuamente dependentes e constituem o alicerce sobre o qual se pode construir uma reforma fiscal transformadora. Abaixo segue uma a explicação detalhada de cada pilar:

  • Vontade política e liderança estratégica: a primeira condição para o sucesso de um imposto nacional sobre carbono é a existência de vontade política clara ao mais alto nível do Estado. Não se trata de uma mera medida técnica ou fiscal, trata-se de uma reforma com implicações estratégicas para a soberania, a justiça social e o posicionamento internacional de Moçambique. A liderança política deve ser capaz de:
  • Assumir a narrativa pública de soberania fiscal e justiça ambiental;
  • Mobilizar o Parlamento para aprovar o enquadramento legal necessário;
  • Resistir a pressões de grupos de interesse, que poderão tentar minar a proposta por temerem precedentes tributários.

 

  1. Capacidade institucional da Autoridade Tributária: A Autoridade Tributária de Moçambique (AT) será um actor central. Para implementar eficazmente o imposto sobre carbono associado às exportações, a AT deve:
  • Dispor de uma unidade técnica especializada em fiscalidade verde e comércio internacional;
  • Ter acesso a informação actualizada sobre emissões e fluxos de exportação, em cooperação com os Ministérios da Indústria, Energia e Ambiente;
  • Estabelecer mecanismos de certificação e verificação das emissões, em articulação com as exigências da União Europeia.

  • Legitimidade social — Comunicar, ouvir, reverter em benefícios: nenhuma reforma fiscal sobrevive sem legitimidade social. A implementação de um imposto nacional sobre o carbono deve ser acompanhada por uma estratégia de comunicação robusta e inclusiva, que:
  • Explique à população que o imposto não será pago por famílias nem pequenas empresas, mas sim por grandes exportadores que de qualquer forma já pagarão à UE;
  • Destaque os benefícios directos que o país colherá, ao reter receitas e reinvesti-las no território nacional;
  • Demonstre de forma concreta como essas receitas serão aplicadas, em áreas como educação, energia rural, infraestruturas verdes e resiliência climática.

A criação de um Fundo de Transição Verde com participação da sociedade civil será uma âncora importante para garantir transparência e confiança pública.

  • Cooperação internacional e alinhamento com parceiros – Ao mesmo tempo, Moçambique deve dialogar com os seus principais parceiros comerciais e técnicos, incluindo:
  • A União Europeia, para garantir reconhecimento pleno do imposto nacional e evitar dupla tributação;
  • Agências multilaterais como o FMI, Banco Mundial e PNUD, para mobilizar apoio técnico e institucional;
  • Organizações regionais como a SADC e a UA, para incentivar abordagens comuns à tributação verde e evitar competição desleal entre países vizinhos.

 

  1. Um marco legal sólido e sustentável – Por fim, será necessário aprovar um enquadramento legal claro, duradouro e tecnicamente robusto, que:
  • Defina a base tributável com critérios mensuráveis e alinhados com normas internacionais;
  • Estabeleça a forma de cálculo, cobrança e dedução do imposto;
  • Determine os critérios de isenção ou diferimento temporário para sectores emergentes;
  • Crie mecanismos de actualização automática da alíquota com base no preço do carbono na UE.

Este marco legal deve ser protegido de interferência política ou mudanças frequentes, garantindo previsibilidade e confiança para os investidores.

Notas finas: Moçambique encontra-se diante de uma escolha histórica. Por um lado, carrega o peso de uma dívida pública insustentável, uma base tributária estreita e um Estado fragilizado na sua capacidade de investimento e resposta social. Por outro lado, abre-se diante de si uma nova realidade global — marcada pela transição energética, pela tributação das emissões e por mecanismos como o CBAM europeu.

O que este novo cenário internacional oferece não é apenas um desafio — é, sobretudo, uma janela de oportunidade fiscal e estratégica. A possibilidade de tributar as emissões de carbono nas exportações nacionais, antes que outros o façam, permite ao país recuperar uma parte da sua soberania orçamental e alinhar-se com os padrões da economia do futuro. O caso da Mozal demonstra com clareza: há activos nacionais que, pela sua natureza limpa e estratégica, conferem a Moçambique uma vantagem comparativa real. Mas essa vantagem só se materializa se o Estado for capaz de agir criando mecanismos fiscais inteligentes, simples, justos e com retorno social claro.

Mais do que uma proposta técnica, o imposto sobre carbono nacional deve ser entendido como um acto de afirmação política e moral: de que o país está disposto a assumir o controlo da sua política fiscal, a proteger os seus recursos, a antecipar tendências globais e a construir um futuro mais resiliente e inclusivo.

Adiar essa decisão é perder receita, depender mais de credores e aprofundar o ciclo de vulnerabilidade. Assumi-la, pelo contrário, é transformar a crise fiscal num ponto de viragem histórica.

 

Mais vale nós do que eles….

  1. Introdução

O presente artigo surge do facto de consumirmos os trabalhos musicais de Nordino Chambal e Mavundja. Aliás, Nordino Chambal (doravante NC), autor de “Mamã”, “Ntombi ya kona”, “Famba kwatsi” e outros números, é um artista que se destaca por retratar, nas suas músicas, não só o realismo social moçambicano como também dar voz às mulheres, exprimindo os seus sentimentos e/ou destacando-as como o suporte da existência humana.

Outrossim, Mavundja, autor de “Nilangile wena”, “Nkuvu”, “Love wami”, “Maxaka”, entre outros números, também aborda o amor, a resiliência, exalta a mulher e eleva-a no prisma social. Todavia, neste artigo, não nos focaremos nas nuances retro mencionadas, mas, sim, no kulaya, temática realçada, intertextualmente, nos seus trabalhos.

  1. Aspectos teórico-metodológicos
    • Kulaya

Para Guerra (2018), o kulaya consiste em as matronas serem chamadas para aconselhar as jovens, com ensinamentos de “cama e mesa”, mostrando como devem tratar os maridos, cuidar da casa, dos filhos e outras “obrigações” da mulher. Basicamente, os elementos centrais que organizam o kulaya são ensinamentos do respeito ao marido (e sua família) e da vida sexual.

O discurso sobre o respeito ao marido está sempre associado a um sentimento de tolerância e de inclusão que deve nortear as relações do casal, significando que a mulher deve ser obediente ao parceiro. (Osório, 2013, apud Guerra, 2018)

Entretanto, apesar de o kulaya, conforme atesta Guerra (2018), socorrendo-se de Osório (2013), apud Guerra (2018), consistir em as matronas serem chamadas para aconselhar as jovens, esta prática não é apenas para as noivas, mas, também, para os noivos e tem diferentes nuances em função do caso, zona e/ou contexto e, nos dias que correm, há tendências de busca por conselhos por parte dos homens e de inclusão dos mesmos, principalmente em situações pré e pós-matrimónio.

Conforme se pode ler em “Tradições e ritos: a mulher deve ser preparada para o lar”, “o kulaya atribuía toda a responsabilidade às mulheres e pouco se olhava para os homens como provedores de bem-estar no seio familiar. Hoje, pedimos a presença do noivo na sessão, uma vez que o homem e a mulher já estão em pé de igualdade no que diz respeito ao nível académico e profissional. O que é positivo. Mas é preciso saber gerir esta realidade com sabedoria, o homem deve saber dialogar e apoiar a sua esposa, da mesma forma que a esposa deve saber respeitar o seu parceiro”

Importa realçar que, para o caso de “Famba kwatsi”, de NC, o sujeito poético [progenitor(a) da recém-casada] aconselha a filha numa perspectiva de um casal que contrai o matrimónio, entretanto, não vai logo viver a sua casa com o seu esposo, mas, sim, à casa dos sogros; em contrapartida, em “Maxaka”, de Mavundja, o sujeito poético (noivo) aconselha a esposa num contexto de um casal que contrai o matrimónio já a viver junto ou passa a viver junto, na sua casa, após o casamento.

  • Intertext(o)ualidade

Segundo Corrales (s/d), falar de intertexto e de Literatura Comparada exige perceber que, ao lermos um texto A, estamos a ler um texto B, e este entrecruzamento de vozes percebidas ou levemente transparentes é algo que perpassa a escrita, em especial a Literatura, ao longo de todos os tempos.

Dito de outro modo, ao escutarmos “Famba kwatsi”, de NC, estamos a escutar “Maxaka”, de Mavundja; entretanto, enquanto em “Famba kwatsi” o artista dá voz a um sujeito poético [progenitor(a) da recém-casada] para a aconselhar (kulaya), em “Maxaka”, dá-se voz a um sujeito poético (esposo), a fim de  aconselhar a sua própria esposa.

  1. A representação do kulayaem “Famba kwatsi”, de Nordino Chambal, e “Maxaka ya mina”, de Mavundja

Em “Famba kwatsi”, o sujeito poético inicia a sua alocução lamentando a partida da sua filha rumo ao lar, quando entoa “Wafamba marhumekani (…)” (NC, 2024), que significa ‘já vai a minha prestativa filha’.

Na sequência, despede-se da mesma, dizendo “famba kwatsi, marhumekani/ uya va rungula lomu uyaka kona” (NC, 2024), i.e., [‘vai bem, minha prestativa filha/manda cumprimentos aonde vais’].

De seguida, para transmitir a ideia de kulaya, que nos propomos debruçar neste artigo, evoca o conceito de “lar”, quando declara “asvoyenca inge i mavun’wa, kambe i ntiyisu/ n’wana wa mina ayasungula njangu.” (NC, 2024), que significa [‘parecia mentira, mas é verdade/ a minha filha vai iniciar um lar.’]

Indo directo ao cerne da nossa discussão neste artigo (kulaya), o sujeito poético aconselha-a nos seguintes moldes: “kambe n’wananga tiva svaku/ kaya ka vapsele va nuna wa wena/ hahi kaya ka wena (…) awuveki nawu” (CN, 2024), i.e., [‘entretanto, minha filha, saiba que/ casa dos pais do teu marido/ não é tua casa (…) não dás ordens.’]

Ora, depreende-se, com a transcrição anterior, a ideia de que a noiva deve respeitar a família do noivo e submeter-se às regras da casa, pois que não está na sua casa e, consequentemente, os que lá comandam são os seus sogros, donos da casa.

Estamos perante a dimensão básica do kulaya – ensinamentos do respeito ao marido (e sua família) –, ressalvada por Guerra (2018) (destaque nosso). Na continuidade, o sujeito poético assevera que ‘lhe deseja bênçãos’, quando diz: “ina ka, nakulongelela minkateko.” (CN, 2024)

Na sequência dos conselhos/aconselhamentos (kulaya), o sujeito poético acrescenta que ‘ela não deve, no lar, parecer-se com um pinto perdido quando procura/ pela mãe e não a acha e começa a piar (pío-pío)’, conforme se pode depreender a partir da onomatopeia na música “…ungayi uya fana ni xiciwana loku xipfumala/ a mpsele wa xona, ciyô-ciyô…” (NC, 2024)

Seguidamente, o sujeito poético, talvez porque se trata de sua filha amada, decide, igualmente, deixar algum recado à família do noivo/genro, quando diz: “(…) vaka mani, yamukelani n’wana wamina (…) yamukelani ntombi yamina/ kusukela svosvi i n’wana wa n’wina (…) i ntombi yan’wina/ niyiwundle kufika lani, mayivona kusaseka/ nili yihlayiseni (…)” (NC, 2024), i.e., ‘… família X/Y, receba(m) a minha filha (…) receba(m) a minha menina/ a partir de hoje, é vossa filha (…) é vossa menina/ criei-a até  aqui, tão bonita que é/ portanto, cuide(m) dela’ (…)

Outrossim, em “Maxaka”, de Mavundja, o sujeito poético começa a sua alocução layando (aconselhando) a sua parceira, entoando: “maxaka ya mina, maxaka ya wena i xaka rin’nwe (…)” (Mavundja, 2024), i.e., ‘minha família e tua família são uma só família (…)’, denunciando, logo a prior, a dimensão básica do kulaya – ensinamentos do respeito ao marido (e sua família) –, ressalvada por Guerra (2018). (destaque nosso)

Na continuidade, o sujeito poético adverte que, no lar, ‘não existe minha família, não existe sua família, família é uma e única/ não existe família daquele, família deste, família é uma e única.’, quando diz: “akuna va ka mina, akuna va ka wena i xaka rin’we/ akuna va ka lweyani, akuna va ka lweyi, i xaka rin’we (…)” (Mavundja, 2024)

Ou seja, o sujeito poético, antes de dissertar sobre como tratar ou lidar com a visita tanto da parte do noivo quanto da noiva, dedica o seu exórdio a explicitar que, entre ambas as famílias, não existe exclusividade; ambas, a partir do momento da contracção do matrimónio, à semelhança dos nubentes, são uma só.

Indo ao kulaya propriamente dito, o sujeito poético grifa: “mamani wa mina ni wa wena i mamani, i mun’we ntsena/ papayi wamina ni wa wena i papayi, i mun’we ntsena.” (Mavundja, 2024), i.e., ‘A minha mãe e a tua mãe são uma só mãe/ o teu pai e o meu são um só pai’, para vincar que, à semelhança das famílias que passam a ser uma só, os pais, igualmente, são um só; não existe “meu pai, pai do meu marido”, ou seja, não existe tratamento desigual.

Assim, assevera: ‘quando vierem cá a nossa casa, atende-os, esposa/ recebe-os de todo o coração; quando se despedirem/ sorri e despede-te deles, igualmente, de todo o coração (…)’, o que se ouve em “loku vata lani kaya, vatenderi nkata/ vayamukeli hi mbilu hinkwayo; loku vaku hafamba/ vahlekeli, nkata, valeleli hi mbilu hinkwayo.” (Mavundja, 2024)

Ora, estamos perante claro kulaya – respeito à família –, neste caso, não só do marido quanto da esposa. O sujeito poético, diferentemente do habitual (ensinamentos que se dão à mulher), faz perceber estar consciente de que também tem, neste prisma, o dever de cuidar do lar, quando acrescenta: ‘Eu também, caso erre, segreda-me/ esposa, caso eu cometa tropeços, não me deixes/ segreda-me (…)’, quando diz: “naminawu, loku niphazama, nghanibyela, nihleveli/ nkata, naminawu, loko nihoxa, unganitshiki/ nihleveli nkata (…) (Mavundja, 2024)

À guisa de conclusão

Portanto, NC e Mavundla, intertextualmente, retratam, em “Famba kwatsi” e “Maxaka”, o kulaya, uma prática cultural que se desencadeia por um familiar do noivo e/ou noiva, como forma de a aconselhar sobre como cuidar e/ou tratar do lar, do marido/esposa e sua(s) família(s).

BIBLIOGRAFIA:

_____________Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Rio Grande do Sul, Brasil. Disponível em: https://www.google.com/search?q=luciano+corrales+-+a+intertextualidade+e+suas+origens+pdf&oq=Luciano+Corrales+-+a+intertextualidade+e+suas+origens+&aqs=chrome.1.69i57j33.34478j0j9&client=ms-android-huaweirev1&sourceid=chrome-mobile&ie=UTF-8, acessado em 18-11-2022, às 15:22

____________ In Jornal Domingo, disponível em: https://www.jornaldomingo.co.mz/sociedade/tradicoes-e-ritos-a-mulher-deve-ser-preparada-para-o-lar/

 

 

carlosdagraca18@gmail.com

Sonhei…  Sonhei que, no meio do impasse político, os líderes do país decidiram declarar um Dia Nacional de Oração e Perdão. Não era feriado. Era um chamamento de alma. Nesse dia, algo profundo e comovente aconteceu.

Sonhei que todos os que tinham cometido erros lesivos à pátria, intencionais ou não – governantes, dirigentes, empresários, políticos, combatentes, manifestantes, cidadãos comuns – pediam desculpas. Não por pressão política, não por cálculo estratégico, mas por arrependimento genuíno. Os líderes clamavam a Deus e ao povo.

A Renamo pedia desculpas pelos horrores da guerra. Os que dispararam contra cidadãos indefesos durante as manifestações violentas pós-eleições de Outubro de 2024 pediam perdão pelas vidas interrompidas. Os que desviaram recursos públicos enquanto gestores curvavam-se em vergonha e aplicavam o dinheiro em território nacional em programas definidos pelo Governo, gerando emprego e renda para milhares de famílias. Os que lideraram manifestações violentas que geraram caos, paralisação da economia e luto em centenas de famílias penitenciaram-se diante de Deus e do povo pela responsabilidade moral de tudo quanto aconteceu. O povo pedia desculpas a Deus por ter abandonado os caminhos da justiça, do amor ao próximo, da solidariedade.

Vi homens e mulheres abraçarem-se em lágrimas. Pais a pedir perdão aos filhos. Filhos a pedir perdão aos pais. Vi o país a lavar a alma.

No fim, o Presidente da República, ladeado pelos líderes dos principais partidos, pelo segundo candidato mais votado nas eleições presidenciais, pelas lideranças religiosas, das academias e da sociedade civil, levantava a mão direita e proclamava:

“Hoje declaramos o início de uma nova era. Uma era de reconciliação, de responsabilidade, de reconstrução. Uma era para Renovar Moçambique, resgatando a liberdade, justiça e prosperidade para todos os moçambicanos.”

O povo respondia com um só clamor: “Estamos juntos!” E todos se engajavam e trabalhavam, nas cidades e vilas, nos bairros, nos distritos, no campo, nas escolas, nos hospitais. Reunificados por dentro. Regenerados por dentro.

Foi então que despertei.

E, ao despertar, vi outro cenário: um grupo a fazer chacota do sonho, a desconstruir cada palavra, a dizer que perdão é fraqueza, que reconciliação é ilusão, que o poder vale mais do que a verdade. E caí em mim: estava em Moçambique.

Peguei na Bíblia. Clamei a Deus. E Ele respondeu-me com firmeza e ternura:

Enviarei uma praga para limpar os arrogantes, corruptos, escarnecedores e antipatriotas. Mas tu, não pares de orar! Não pares de trabalhar! Não faças nada para a tua exaltação. Tudo quanto faças que seja para minha honra e glória. Onde fores, leva a minha palavra. Eu prometi bênçãos e maravilhas a todas as nações da terra. A tua pátria, eu abençoei como nenhuma outra desta terra. Olhai e vede como sois abençoados.”

Desde então, sigo orando. E sigo lutando por Moçambique.

Não escrevo estas linhas para comover. Escrevo para desafiar. Que país queremos construir? Um país onde cada grupo se fecha na sua razão, na sua dor, na sua verdade isolada, um país em que os que têm medo do debate e de uma sociedade aberta assassinam o carácter de quem analisa objectivamente os fenómenos tendo presente que há outros olhares sobre o mesmo que devem ser respeitados, ou um país onde finalmente ousamos dizer uns aos outros: “Errei. Perdoa-me. Vamos recomeçar?”

O perdão não apaga o passado, mas pode limpar o terreno onde se constrói o futuro.

Este sonho não é ingenuidade, é visão. E, se há coisa de que Moçambique precisa neste momento — 50 anos depois da independência — é de uma visão corajosa, disruptiva, generosa, transformadora. É desta vontade de renovar Moçambique, esta vontade de fazer diferente para alcançar resultados diferentes, uma vontade que precisa de engajamento e suporte de todos os moçambicanos. As reformas que geram renovação só acontecem com engajamento e suporte popular.

Sonhei com um país que não tem vergonha de pedir desculpas. Sonhei com um país que decide reconciliar-se consigo mesmo. Sonhei com um país onde a humildade guia os líderes e a verdade liberta os oprimidos.

Pudera esse sonho tornar-se real. Pudera…

O projecto “Música para Todos”, apoiado pelo programa PROCULTURA – financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões, I.P. teve impacto relevante em Moçambique e Angola, promovendo a empregabilidade de professores de música, formação artística de jovens, bolsas de estudo internacionais, inclusão cultural e o fortalecimento das economias criativas locais.

No contexto mais amplo do PROCULTURA PALOP-TL, que tem impulsionado o sector cultural nos países lusófonos de África e em Timor-Leste, destaca-se também o apoio das Embaixadas da Irlanda e da Suíça (através do programa SDC), que cofinanciaram actividades voltadas para soluções culturais sustentáveis. Estas acções fizeram face a desafios humanitários com abordagens criativas e ecológicas e abriram caminhos para a criação de empregos e sustentabilidade futura no sector artístico.

O projecto foi concebido por um consórcio de cinco instituições de Moçambique, Angola e Portugal: a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Aveiro, a Fundação MUSIARTE – Conservatório de Música e Arte Dramática (Maputo), a Fundação Hakuna Matata (Pemba), a Direcção Provincial de Cultura e Turismo de Cabo Delgado (Pemba) e a Casa da Música de Benguela.

Em 2019, teve início o exigente processo de concepção e definição da visão do projecto, marcado por um planeamento cuidadoso e uma intensa colaboração entre os parceiros. Esse trabalho permitiu estabelecer objectivos claros, responsabilidades e benefícios esperados, além de implementar mecanismos de gestão eficazes e consolidar uma visão estratégica de longo prazo. A coordenação, atribuída à Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Aveiro, permitiu que as instituições do consórcio de Moçambique e Angola beneficiassem de experiências consolidadas no ensino artístico, contribuindo para objectivos comuns: desenvolver a educação musical, profissionalizar o sector e criar oportunidades de emprego.

Com o encerramento desta fase, partilhamos com o grande público os resultados alcançados, num exercício de transparência e balanço na visão da MUSIARTE, sem imputar responsabilidades a parceiros ou financiadores. Assim, este balanço insere informações sobre a (i) Monotorização e avaliação; (ii) Síntese dos principais resultados; (iii) Sustentabilidade; (iv) Desafios e (v) Conclusão.

  1. Monitoria e Avaliação: Estudos de Base e de Impacto

Em linha com boas práticas, o projecto contou com um Estudo de Linha de Base (2022), focado na empregabilidade dos professores de música em Moçambique e Angola, e um Estudo de Impacto Final (2024-2025), com amostras em Maputo e Cabo Delgado. Estes estudos, incluindo o relatório do caso de Angola, estão disponíveis em www.conservatorio.org.mz/publicações.

  1. Síntese dos Principais Resultados (2021-2025)
  • O projeto alcançou 90% das metas previstas para o período 2021–2025;
  • Empregabilidade: 42 postos de trabalho foram criados (acima dos 40 previstos);
  • Formação: 10 bolsas de estudo para Portugal e Itália; 11 professores participaram em job-shadowing; dois cursos de curta duração em pedagogia e didática de música realizados na MUSIARTE (Maputo), com participação de professores de várias instituições privadas e públicas.
  • Infra-estruturas: 4 salas de aula construídas em Pemba; 1 atelier de construção de instrumentos musicais totalmente equipado no Centro Yopipila (Pemba) construído com materiais ecológicos e recicláveis; 1 palco móvel solar concebido e construído para actividades em zonas remotas.
  • Currículo: Desenvolvido 1 currículo de iniciação musical e 1 currículo metodológico avançado em parceria com os conservatórios de Calouste Gulbenkian de Aveiro (Portugal) e Agostino Steffani de Castelfranco, Veneto (Itália).
  • Outreach e Acções de Advocacia: 1300 crianças beneficiaram de aulas de iniciação musical; destaque em advocacia junto das autoridade para a necessidade de reintegração da disciplina de música no ensino público. Diversos workshops de formação em instituições de educação pública e Ministério da Terra e Ambiente na sensibilização de reciclagens criativas e mudanças climáticas.
  • Gestão Institucional: Embora tenham sido alcançados avanços, persistem desafios em recursos humanos e autonomia financeira que permitam melhor gestão de recursos humanos e retenção dos mesmos para algumas entidades beneficiárias.

iii. Sustentabilidade

A sustentabilidade foi considerada desde o início do desenho do projecto uma prioridade estratégica que incluiu: a) Formação de quadros locais; b) Criação de estruturas  permanentes (salas e atelier); c) Desenvolvimento de equipamentos próprios (palco móvel solar); d) Parcerias com governos, escolas e conservatórios internacionais.

iv. Desafios e Caminhos Futuros

A continuidade requer o compromisso dos parceiros locais e o reforço de políticas públicas.

Recomenda-se:

  • Fortalecer redes culturais;
  • Firmar parcerias com instituições locais, regionais e internacionais;
  • Investir em formação em captação de recursos;
  • Atrair o apoio de empresas e instituições locais. Nem sempre as ajudas chegam por meio de financiamento directo. É preciso criar mecanismos inovadores que reforcem a sustentabilidade do sector cultural e das indústrias criativas.

 

v. Conclusão

O projeto “Música para Todos” evidenciou que, para além do financiamento inicial, é fundamental investir em estruturas duradouras, no fortalecimento dos recursos humanos locais e na consolidação da capacidade institucional. A verdadeira sustentabilidade marca o

início de um novo ciclo de autonomia e transformação no sector artístico e educativo dos PALOP. Para que essa sustentabilidade seja efectiva e duradoura, é indispensável promover o conhecimento, a formação e a inclusão activa dos cidadãos e talentos nas áreas artísticas.

 

Sinto que a minha alma está a sair de mim. Mas eu estarei sempre aqui, mesmo sabendo que carrego a escassez de emoções e pensamentos capazes de trazer o sorriso do mundo nas madrugadas da vida, ao som dos assobios das gaivotas.

Sinto que a consciência social se afasta do banquete que celebra a paz – onde o ritmo da música, que canta os valores esquecidos, mexe no silêncio das almas que ainda sonham com um mundo bom, sem os vícios que disfarçam as carícias da pobreza.

Sinto a minha alma a sair porque, por vezes, estou no mundo apenas a atrapalhar as vocações dos escolhidos, alimentando o muro egoísta do talento que tanto anima o meu Eu. Isolo-me da vida social, deixo de proteger o Eu do outro e esqueço de cuidar da carne que protege a minha própria alma.

Deixo de oferecer rosas aos que me cercam, de agraciar as almas com o perfume do pólen que alivia o sofrimento e protege os corações doces com as pétalas macias do bem.

Sinto que a minha alma já não anima as almas da juventude com o buquê de oxigénio que

recorda o tempo de criança. A minha alma esquece-se de dizer “sim” à vida, quando o dia traz o sol da esperança.

Sinto em mim uma alma deficiente, por não saber oferecer um enxoval de tempo que cubra o coração bom que sustenta uma alma cansada.

Mas repito, como um dia escrevi: estou aqui.

Se eu conseguir viajar, para onde quer que for, levar-te-ei comigo, ó minha alma. Onde eu estiver, acomodar-te-ei no berço de paz que descansa na esquina nobre do meu modesto coração.

Onde eu estiver, irás contar comigo as experiências belas que partilhámos, nessa matemática estranha que tenta calcular o sentido da vida social, cheia de incógnitas.

Sinto a minha alma a murmurar que a palavra “esperança” foi inventada para distrair o universo e fazer o tempo de a vida passar, sem que se questione a razão de certas emoções, satisfações ou mesmo de alguns fenómenos.

A minha alma compreende, em metáfora, que a esperança é a palavra mágica que transforma o difícil de viver no suportável de continuar. Esperança é o termo que sustenta o futuro, uma palavra que acomoda a alma. Mas as almas mais atentas percebem que “esperança” e “futuro” são talvez termos de consolo divino, que germinam paz interior e acalmam o silêncio de viver… sem olhar de ver, sem questionar o presente.

 

Há infâncias que nascem condenadas. Crescem com as asas aparadas, cercadas por muros invisíveis que proíbem o voo. Em muitos contextos africanos, incluindo o moçambicano, as crianças continuam a ser empurradas para gaiolas sociais onde os sonhos não têm espaço, onde a liberdade é um luxo negado, e onde o simples acto de imaginar pode ser visto como um desvio.

É nesta paisagem que O Caçador de Pássaros, de João Baptista, se torna mais do que uma
história de um menino que persegue pássaros, ou seja, torna-se um espelho social que reimagina a infância como espaço de voo e de libertação.

Benjamin, o menino protagonista,“vai à escola com sua sacola de sonhos. Mas não entra na
sala de aulas. Porque o menino gosta de caçar pássaros”. Com efeito, ele escapa porque as práticas educativas vigentes não lhe oferecem asas, todavia, deveriam ser o solo fértil para o florescimento das infâncias, e aqui aparecem como um ambiente incapaz de dialogar com a espontaneidade, com a criatividade e com os interesses genuínos das crianças.

“O passarinheiro ergueu uma casa na rua. Abandonou a nobreza de sua família. Transformou-se em menino de rua”.

A passagem ecoa fortemente na realidade moçambicana e africana, onde, não raras vezes, persistem métodos educativos que ainda não consideram plenamente as especificidades culturais, emocionais e sociais dos petizes, e onde, por vezes, estas são conduzidas por caminhos que limitam o seu pleno desenvolvimento e o direito de explorar o próprio voo.

A obra desdobra-se como uma metáfora sobre o direito à liberdade, especialmente o direito da criança a sonhar, a brincar, a explorar o mundo sem as correntes que em muitas realidades sociais, se manifestam sob a forma de violência, trabalho forçado ou discriminação. Em muitas comunidades, as crianças são ainda hoje subjugadas: forçadas a sustentar as suas famílias, vítimas de abandono ou alvos fáceis de abusos.

Como Benjamin, essas crianças olham para o céu e desejam voar, mas encontram ninhos vazios onde deveria haver protecção e habitação da esperança.

João Baptista constrói, com subtileza, uma história que vai além da aventura infantil. Ao mostrar que o ninho que Benjamin procura está vazio, torna-se inevitável questionar: quantos espaços criados para acolher crianças — escolas (como se vê em escolas rurais onde crianças abandonam os estudos por falta de incentivo), lares, comunidades — estão hoje vazios de afecto e responsabilidade? Como Paulo Freire alertou, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. É este vazio — de cuidado, de compromisso e de liberdade — que alimenta uma sociedade que promete, mas não entrega.

Que se diz protectora, mas permite que as crianças se percam, se cansem, se tornem adultos antes do tempo.
A amizade entre Benjamin e o pássaro Pinguim, personagem de aura mágica, oferece um respiro poético à narrativa. É Pinguim quem ensina Benjamin que nem todas as caçadas são bem-sucedidas, que há dias de vitória e de derrota, e que o voo pode nascer até da tristeza.

Através desta relação, o autor convoca-nos a olhar para as crianças como seres capazes de resiliência, entretanto, ainda assim, necessitam de redes de protecção e de contextos onde a sua imaginação e os seus direitos sejam respeitados.

As ilustrações de Walter Zand, que acompanham a obra reforçam este universo de encantamento e liberdade, permitindo que o leitor, viaje com Benjamin, voe com ele, sinta o
sabor do vento e das folhas. Este aspecto visual amplifica o impacto da narrativa, tornando-a ainda mais eficaz como ferramenta de reflexão social e educativa.

Num olhar menos convencional percebe-se que o foco quase exclusivo em Benjamin e Pinguim torna o universo da história algo solitário. Seria importante inserir personagens ou animais de traços distintos (corajoso, tímido, curioso, preguiçoso), o que poderia enriquecer a narrativa e espelhar melhor a diversidade das crianças.

Por outro lado, nota-se a falta de aspectos que permitam tirar lições possíveis de aplicar em
sua vida cotidiana — como a importância da persistência, solidariedade ou da educação. Desta forma, poderia haver uma frase ou imagem que contasse o sonho de Benjamin a um gesto concreto — por exemplo, voltando a escola ensinando outras crianças a cuidarem dos
pássaros.

Ainda assim, há na obra, esperança. E essa nasce quando entendemos que as crianças não precisam fugir para serem livres. Urge criar espaços férteis e alegres onde possam aprender, sonhar e voar. É possível substituir as gaiolas por jardins. É possível ensinar a ganhar e a perder sem violência. É possível construir um mundo onde o voo seja um direito e nunca um privilégio.

João Baptista oferece-nos, assim, uma história que é simultaneamente simples e revolucionária. Convida-nos a questionar: quantos Benjamins conhecemos? Ou então, quantas crianças foram impedidas de voar porque as suas asas foram cortadas pela pobreza, pelo preconceito, pela negligência social?

O Caçador de Pássaros, portanto, é um chamado para que as comunidades, as famílias e as instituições revisitem os seus papéis no cuidado das infâncias. Benjamin aprendeu a voar, e ao leitor, cabe a tarefa de garantir que nenhuma criança precise primeiro fugir ou chorar para descobrir as suas asas.

Como quase sempre na minha vida, tudo começa com uma história. Desta vez estava eu no cemitério (graças aos hábitos e costumes de quase maior parte das regiões moçambicanas, não se precisa de um convite para ir a um funeral), assisti com muita consternação ao enterro de um ente querido de um conhecido ao qual nutro muito carinho. O enterro ocorreu em um dos antigos cemitérios da província de Maputo. Pairava sobre o ar um ambiente de respeito, tristeza e as canções que eram entoadas iam fazendo jus à situação.

Como de costume nessas ocasiões, a cerimónia teve grande adesão. Fomos circundando o local do enterro, o que fez com que alguns de nós, ligeiramente atrasados, tivéssemos de ficar mais distantes. Isso obrigou alguns a disputarem espaço entre as campas vizinhas.

A norma por aqui é clara: não se pode pisar numa campa, pois isso constitui um grave desrespeito aos defuntos e às suas famílias. Quem o fizer incorre no risco de sofrer várias consequências, entre elas, ser assombrado pelo defunto da campa pisada.

Eu como não gosto de testar coisas cujas consequências não estaria disposto a enfrentar, evito. Fui me ajeitando entre os “corredores” das campas. Mas era difícil e desconfortável estar ali porque havia uma grande vegetação à volta e no meio das campas, muitas delas estavam mal cuidadas, em outras havia garrafas plásticas, baldes e outros objectos similares pousados ali pelos vendedores informais de água que a eles essa norma de não pisar em campas não os abrange.

Mas esse é o pão de cada dia de quem vai aos cemitérios em Maputo e, pelo que pude testemunhar pessoalmente assim como pelo que os jornais e as redes sociais reportam, é a situação que é vivida um pouco por todo o país. Cemitérios descuidados, com dificuldades de circulação interna e, inclusive, vandalizados com fins comerciais. As cruzes, os mármores, os vasos de flores, entre outros objectos que adornam as campas, parecem ter um valor comercial (não quero aqui entrar em discussões valorativas e questionar quem teria a coragem de comprar tais objectos, porque uma vez fui à casa de um conhecido meu e percebi que uma das pedras do mármore da cozinha levou muito tempo a ser fabricada. É que havia lá uma inscrição que, apesar de ter sido bem raspada, os meus curiosos olhos conseguiram decodificá-la e perceber que a produção daquele mármore iniciara a 28-03-68 e concluíra-se a 13-06-2015. Só não consegui ler o nome do artista que produziu o mármore, mas qualquer coisa do género “Eterna saudade”).

Eu pretendia me calar e guardar estes pensamentos apenas para mim, mas o que sucedeu quando nos retirávamos do cemitério foi de quebrar o coração. Uma senhora, elegante e bem pausada, logo depois da oração final, afastou-se da aglomeração quando ouviu o seu nome ser chamado numa direcção contrária à que ela seguia. Isso a fez virar o rosto para trás, pronta a atender ao chamado. Nisso, não sei ao certo por qual razão, física ou geográfica, ela se desequilibrou e colocou o pé no meio de uma campa que estava à sua esquerda. Para o nosso espanto, o seu pé afundou ligeiramente, e ela precisou do nosso apoio para se remeter em pé.

Aparentemente, a campa em questão, além de ter sido vandalizada, havia sido desfeita pela água das chuvas.

O descuidado com os cemitérios e as campas nos últimos tempos tem me gerado alguma preocupação, pois esses locais possuem um valor fundamental no processo da reconstituição das histórias e das identidades sociais colectivas. No caso das sociedades moçambicanas, sobretudo as rurais, que, pelo que se sabe até agora, não possuem registos escritos significativos sobre a história das suas famílias e dos seus ancestrais, o descuidado, e o consequente desaparecimento destes locais de memória, aceleram cada vez mais o processo de desconhecimento e desconexão com as identidades sociais desta terra.

Ou seja, as campas e os breves registos deixados nela, ajudam, por exemplo, a reconstruir a árvore genealógica de uma família e a determinar o tempo exacto de vida de um ente querido e, com isso, estabelecer conexões sociais com outros ancestrais que tenha partilhado o mesmo tempo vida. Tal conhecimento tem um valor fundamental para um indivíduo e para uma sociedade.

Ainda me é presente na memória o dia em que encontrei, algures em Paris, uma conhecida que ficou maravilhada ao saber que eu conhecia a localização exata da terra onde o meu bisavô havia sido enterrado. O máximo que ela sabia de si mesmo era que o pai tinha emigrado de forma forçada de algum país de África para o Haiti e, posteriormente, tinha ela própria, após a morte do pai, emigrado para a França. Causava-lhe confusão à cabeça não saber de qual país africano o seu pai era originário, e sentia que estava condenada a viver com esse vácuo na sua história pessoal. 

Conhecer as histórias e identidades dos ancestrais não é mero capricho, é uma necessidade social pois são essas histórias que vão contribuir para a construção da memória colectiva e das identidades de uma sociedade. Conseguimos retraçar a história dos egípcios, Gregos, Sumérios, Tsongas, Zulos, Maraves… etc. através dos símbolos esculpidos ao longo da história, permitindo assim que parte significativa de sua trajectoria fosse conhecida.

E, por outro lado, uma família ou uma sociedade que é consciente da sua história, está mais apta para tomar melhores decisões para o seu futuro e, neste quesito, dou crédito ao filósofo espanhol George Santayana que, num dos seus escritos, afirmou que “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Compreendo que há muitas razões que impedem que o cuidado dos cemitérios e das campas seja feito com o zelo e a frequência necessária. Desde as questões logísticas-orçamentais (familiares próximos/directos a residirem em regiões distantes o mesmo estrangeiras) crenças e valores (há quem diga que a igreja não permite que se visite as campas ou que visitar as campas é incorrer o risco de receber a maldição que terá colocado fim a vida do seu ente querido, entre outros…), contudo, independentemente das crenças de cada um, não cuidar destes locais é, de alguma forma, contribuir para o desaparecimento de partes da história da nossa sociedade.

 

Junho 2025

 

Desconhece-se o primeiro homem ou mulher que se serviu da expressão “estou com ele/ela por causa dos filhos” para tornar as suas investidas amorosas um sucesso. Mas se essa expressão tem sido usada recorrentemente por pessoas comprometidas em momentos de paquera, talvez se deva admitir que ela realmente tenha uma grande força de persuasão. Afinal de contas, os filhos são o bem primário de casamento, o melhor fruto que se pode gerar de uma relação amorosa. Na perspectiva bíblica, os filhos configuram-se a mais preciosa finalidade de uma relação conjugal, ordenando-se no Génesis 1:28 “crescei e multiplicai-vos”.

Se realmente a finalidade do casamento é de formar uma família no sentido tradicional “pai, mãe e filho” quiçá, valham a pena muitos sacrifícios para manter-se sã e salva esta estrutura familiar. E muito se
sabe sobre a importância de os filhos crescerem dentro de uma estrutura familiar estável. As vantagens incluem a maturidade emocional, habilidades sociais, autoconfiança e capacidade de eles construir relações saudáveis no futuro. E o risco de os filhos crescerem sem uma estrutura familiar é de serem propensos a comportamentos autodestrutivos como uma forma de preencher a sentida ausência do pai ou da mãe na sua vida.

É, no entanto, importante ressalvar-se que as consequências referidas não constituem uma regra geral, mas são probabilidades acompanhadas obviamente de excepções. Ou seja, de modo algum, se deve ter como uma condenação fatal de que quem cresce fora de uma estrutura familiar acabe desgraçado.

Tratam-se de probabilidades que podem ser desafiadas e revertidas, quando houver esforço para tal. No entanto, o normal das probabilidades é de compor estatísticas e regras gerais. Dois artistas moçambicanos souberam explorar esse fenómeno social nas suas músicas. No presente artigo, proponho-me a analisar as canções “Ungani suvisie” de Eugénio Mucavel e “Mutchela Usiwana” de Avelino Mondlane. São duas canções que retratam, de forma comovente, as consequências nefastas que uma separação pode causar na família: filhos desamparados.

Os dois cantores foram unânimes ao destacar a desgraça dos filhos como uma terrível consequência de os pais se separarem. O estranho é que, em momento algum, os dois cantores chegam a questionar, em toda a sua composição, a felicidade dos parceiros, como se, no casamento, a maior felicidade consistisse em o casal cuidar dos seus filhos, garantindo-lhes um crescimento saudável. Tanto para Eugénio Mucável como para Avelino Mondlane, os filhos deveriam ser os maiores bens a ser preservados no casamento. Ou seja, os cônjuges deviam viver pelo bem-estar dos filhos. Os seguintes excertos da canção “ungani suvisie” e  mutchela usiwana” denotam esse propósito matrimonial.

Phula dri hola, nkata, a lizandzu hidza tsongo
(Vai com calma, esposa, o amor ainda é tenro)
(…)
Ungani suvisie, nkata, apswô, ni tsiki ni duwala nyana
(Não me descartes, minha esposa, deixa-me envelhecer um pouco)
A vana va hina vanga sala valhupeka
(os nossos filhos podem ficar a sofrer)
Swita kula hi usiwana, swita yentxa swinyolwetana
(Vão crescer na pobreza, serão marginais)
Swi pfumala tidjondzo, swi pfumala lhayiseko.
(Não terão ensinamentos, não terão o bem-estar)
Kasi swi oni yini?
(Afinal, que culpa eles têm?)

Alweyi wa nuna aku ongaka, anga tava gweta a vana va hina
(Esse homem que te está a iludir, não vai sustentar os nossos filhos)
(…)
Avelino Mondlane
In (Ungani suvise)
_________________
Mutchela usiwana a vana va nwina
(Vocês condenam à pobreza os vossos filhos)
Vata kula hi mbinyeto, vana va nwina
(Vão crescer no sofrimento, os vossos filhos)
Nava tiva ku mbava na mamane va a mbanili
(Sabendo que papai e mamãe separaram-se)
Mo kota mutsikana, mbava na mamane
(Ousaram mesmo separar-se, pai e mãe)
Mu yaki muti mule va mbhiri
(Construiram a casa a dois)
Mu yaki muti usiwanini
(Construiram a casa na pobreza)
Muyo randzana mule va mbhiri
Fizeram juras de amor a dois
Mu dumbisana ahu ntomwini
Comprometaram-se na vida
Malembe yaku tala mule va mbhiri,
(Após longos anos juntos…)
Mu tsikanela yini, mbava na mamane?
(Porque se separarem, pai e mãe?)
(…)
Avelino Mondlane
In (Mutshela usiwana)

Da primeira canção, percebe-se que Eugénio Mucável teme unicamente pelo futuro das crianças. Pouco questiona sobre a sua felicidade individual como marido e a felicidade dela, como se lhe não importasse dentro do casamento. A sua preocupação consiste unicamente no bem-estar dos filhos. E uma preocupação tão desesperadora que ele chega a duvidar das boas intenções do amante, pressentindo que este não será capaz de cuidar dos seus filhos. Nisto, o artista reforça ainda mais a ideia de que o casamento ou uma relação conjugal só fazem sentido se forem consagrados ao bem-estar dos filhos, pouco questionando se, na segunda relação, a sua mulher será verdadeiramente feliz. E se Mucável não se faz essa questão, subentende-se que a felicidade do casal, dentro do casamento, define-se unicamente pelo bem-estar dos filhos.

figura-se-nos que para Eugénio Mucável, qualquer tipo de felicidade matrimonial, que não inclua os filhos, é simplesmente uma miragem, perdição, vaidade.

O mesmo conceito de felicidade matrimonial é partilhado por Avelino Mondlane, na sua bela canção “Mutchela Usiwana” em que antevê um futuro desolador dos filhos com a separação dos pais. Ele também não chega a questionar se a felicidade individual dos parceiros é mais importante que o bom crescimento dos filhos. Avelino assume a priori que não há maior felicidade dentro do lar, senão aquela de ver os seus filhos crescerem felizes. E a condição sin quan non de garantir o bem-estar dos filhos é a presença e apoios financeiro e moral contínuos dos pais.

Se calhar, ambos os artistas estejam certos na sua forma de conceber a felicidade matrimonial que consiste no crescimento saudável e bem-estar das crianças. É indubitável que a separação dos pais, de modo geral, impacta negativamente no crescimento das crianças. Em termos de estatística, maior parte de casamentos falhados tem gerado filhos com sérios problemas de relações intrapessoal e interpessoal, tornando-os adultos com incapacidade de construir relacionamentos saudáveis. Este era o maior perigo que os nossos cantores da velha guarda como Avelino Mondlane, Eugénio Mucável, Gabar Mabote na sua canção  Helenani” entre outros artistas nos procuravam admoestar.

Feliz ou infelizmente, estes artistas se fizeram ouvir e conseguiram influenciar casais da sua geração.

Diga-se, com franqueza, que os casamentos daquela geração comparados aos casamentos desta geração são os mais duradouros e estáveis. E não se pode ignorar o impacto que a música da velha guarda teve na construção da moral familiar. Era quase uma tradição que, aos fins-de-semana, se ouvissem dos rádios cassetes da vizinhança canções destes artistas acompanhadas de um agradável cantarolar dos pais, tios e avós. A aceitação popular deste género musical era demasiado alta, sobretudo, em zonas periféricas. E, se tivermos que lhe definir o legado, o maior de todos foi o de disciplinar e unir famílias em Moçambique.

Todavia – temos de ser honestos – o facto de os filhos daquela geração crescerem em estruturas familiares sólidas nem sempre significou harmonia e paz. Era possível, sim, registarem-se casos tóxicos como violência, infidelidade, desrespeito e autoritarismo nessas famílias. Devemos, por isso, aceitar o facto de que a música não era o único pilar que sustentava as relações duradoras. A educação para submissão feminina, a baixa escolaridade das mulheres, a pobreza e a exclusão das mulheres no mercado formal de emprego eram factores negativos que, de algum modo, obrigavam as mulheres a permanecer por mais tempo nos seus relacionamentos.

Mas, deve-se concordar que o espírito de tolerância, paciência e resiliência era tão forte que muitas famílias conseguiam superar diversas crises que ameaçavam romper o casamento. Esse espírito resiliente que fazia perdurar as relações conjugais alimentava-se, em parte, das canções moralistas da velha guarda. Mas mais do que as causas de um casamento duradouro, este artigo busca questionar o sentido do casamento. Ou seja, vale a pena suportar crises no casamento pelos filhos ou priorizar sempre a sua felicidade particular?

A resposta é complexa. A felicidade particular é importante na vida, mas ela costuma ser instável e irregular. Às vezes, confunde-se com uma paixão voluptuosa que nos leva a cometer adultério, mas que, com o tempo, se vai esvaindo. A pessoa amada pela qual abandonamos a família não deve ser tida como uma garantia eterna da nossa felicidade. Devemos levar em consideração a hipótese de, um dia, ela deixar de amar-nos, ou entediar-se de nós, zangar-se, arrepender-se, cansar-se ao ponto de desistir de nós. O amor é uma chama que, às vezes, com o tempo, perde a intensidade do seu calor ou se apaga. Abandonar, por entanto, a missão matrimonial de criar e educar os filhos dentro de uma estrutura familiar sólida por causa de uma felicidade extraconjugal afigura-se uma decisão irresponsável.

No entanto, é uma atitude estúpida permanecer numa relação tóxica que contribui negativamente no desenvolvimento biopsicossocial dos filhos e que, ainda, arrisca a sua própria integridade física e moral. Continuar no casamento pelos filhos só se torna uma decisão sensata se houver condições para um desenvolvimento saudável dos mesmos. Se estiverem estabelecidas estas condições, ainda que não perfeitas, sim, vale a pena preterir a sua felicidade particular por eles. Como progenitores, a nossa obrigação de zelar pelo-bem estar dos filhos, deve estar acima da nossa felicidade como marido e mulher. É a nossa inteira responsabilidade assumirmos o compromisso de proteger, educar e apoiar as crias que trouxemos ao mundo.

A condição de pai ou mãe solteiros não tem sido favorável para um bom crescimento das crianças. A maioria dos casos de filhos que crescem sob a custódia de pais separados tem sido uma experiência turbulenta. Uma estrutura familiar sólida sempre será o melhor estado para o desenvolvimento saudável dos filhos, desde que o ambiente não seja tóxico. Casar, formar uma família e dedicar-se ao cuidado dos filhos configura-se o melhor propósito do matrimónio – eis a mensagem que Eugénio Mucável e Avelino Mondlane insistentemente nos procuraram transmitir.

“Laye, mesmo consciente dos graves problemas que o seu

continente passava, sendo ele negro colonizado, optou em

escrever sobre sua participação nas cerimónias de iniciação,

festas na aldeia, suas férias, etc. sem mencionar a luta

antecolonial ou a violência colonial, Laye ignorou o contexto

histórico do seu continente.” Bano (2017)

 

É uma honra para mim, e, ao mesmo tempo, um desafio analisar este clássico da literatura Guineense sob o tema acima apresentado. A obra “O Menino Negro” é considerada a primeira da literatura guineense, a história da literatura desse país começou com esta obra.

Os livros clássicos são como a bíblia sagrada, devem ser analisados com todo o cuidado possível, sob pena de se escrever blasfémias contra eles.

Toda a análise solicita, imperiosamente, uma base teórica sobre o assunto que se pretende abordar, por isso, a seguir apresento conceitos-chave que me serviram de subsídio.

Olhando para o conceito e indício, Barthes citado por Reis Lopes (1996), entende que são unidades integrativas, cuja funcionalidade se situa num nível superior de descrição e análise, elas adquirem o seu valor no quadro da interpretação global da história. Os indícios têm sempre significados implícitos, e, frequentemente, só se decifram a nível da detecção dos valores conotativos de certos lexemas ou expressões.

No tocante à negritude, Goncalves (2016), diz que este movimento tinha como prosta promover um momento de tomada de conciesncia de se ser negro e de assunção dessa identidade negada no processo da colonização. Todavia, Cesaire (2010) define a negritude como sendo a tomada de consciência da diferença, como memória, como fidelidade e solidariedade, ela é um despertar de dignidade, ela é luta contra a desigualdade. 

Para Pinheiros (2015) a negritude define-se pela valorização das práticas culturais, tradicionais pela formar como essas práticas devem ser respeitadas. No entanto, Margarido (1964) estabelece pontos de articulação da negritude os quais são: o racismo antirracista o sentimento do colectivismo, a comunicação com a natureza, o culto aos antepassados, etc.

Na mesma senda, Martins (2019) diz que a negritude traz em sua identidade elementos referenciais, como vida simples e instintiva, a predominância da natureza, o culto a ancestralidade, ideia de espontaneidade, pureza e inocência inata a raça negra, o regresso a origem a musicalidade, o ritmo e a dança.

Sobre o nosso o objecto de análise, Bezerra, Lima, Secco. Freitas (2022) dizem que

a obra mais conhecida e importante de Laye é sem dúvidas “L’Enfant Noir”, onde ele narra a história de uma criança africana que vive em um meio tradicional até chegar à maturidade, passando por provas iniciáticas e rituais tradicionais, até o momento em que deixa sua terra para ir estudar na França. Entendem ainda os autores supracitados, que Laye se envolveu muito na tradição sobre a qual escreveu e que se apropria da tradição para criar sua obra.

O movimento negritudinista esteve dividido em duas partes, uma política e outra literária. É possível notar no enquadramento teórico acima, que os autores apresentam diversas abordagens sobre a negritude. As questões que ficam são: Enquanto uns escreviam livros contra o colonizador, outros não podiam escrever livros de representação das suas tradições africanas? Afinal a ideia não era lutar por África em todos os aspectos e se exaltar a cultura?

A seguir apresento uma reflexão (análise) sobre a negritudinisse de O menino negro

de Camara Laye. 

 

  1. A Valorização das práticas culturais e tradicionais

1.1. Falar com a natureza

Vimos, na base teórica que, segundo Pinheiros (2015) a negritude pode ser entendida como a valorização das práticas culturais, tradicionais. No nosso objecto de análise, notasse a comunicação com a natureza por parte de algumas personagens. Este fenômeno não constitui algo estranho nalgumas tradições africanas, o seja não estamos diante do fantástico. As religiões modernas é que marginalizaram este fenômeno, pois, desde os tempos primórdios (khokhoi, San e Bantu), comunicar-se com a natureza era visto como algo natural, porém, não era qualquer um que tinha este poder:

 

“Um dia notei uma pequena cobra negra que se dirigia a oficina/essa cobra é o gênio do teu pai/é essa cobra quem avisa de tudo, não me espanto nada/ tude me é revelado durante a noite/devo tudo a cobra, ao gênio da nossa raça” (p.17 e 19)

 

1.2. O culto aos antepassados

É uma característica daS religiões africanas invocar os antepassados, de modo que protejam e abençoem seus entes queridos. No nosso objecto de análise, encontramos episódios implícitos em que os antepassados são invocados de modo que abençoasse o protagonista da trama. Um primeiro caso é “o gênio da nossa raça, a cobra”, o pai do narrador teve-o por meio dos seus antepassados, desde o momento que entrou em contacto com ela entrava também em contacto com estas entidades sobrenaturais, seus antepassados.

 

  1. Expressões e nomes tipicamente africanos

Se para Reis e Lopes (1996) os indícios têm sempre significados implícitos, e

frequentemente, só se decifram a nível da detecção dos valores conotativos de certos lexemas ou expressões, julgamos conveniente apresentar algumas expressões utilizadas pelo autor na construção do texto, pois estes, constituem, ao nosso entender, indícios que possivelmente tenham também a função de elevar a obra ao carácter negritudinista:

 

“O Menino Negro/Cobra Negra/o gênio da nossa raça/griot/kapokier/Framager/kola/

cabelos ainda negros/quadro negro/tantã”

Estes elementos podem, simplesmente, ter uma função estética na obra, entretanto,

não descartamos a ideia de que o autor socorreu-se de elementos pertencentes a África, no caso de nomes de árvores, objectos, etc., de modo a passar ao leitor a ideia de estar diante de uma obra da lietrarura africana, são traços pequenos mais de grande relevância olhando para o tempo em que foi escrito este livros.

 

  1. A ideia de Superioridade da raça branca

Visto que a negritude visava não só o despertar e tomada de consciência de se ser

negro, mas também a luta pela igualidade, e era um movomento antirracista, retomamos o pensamento de Margarido (1964), que diz que o humanismo negro só podia legitimar-se como um convite ao conhecimento, a consciência de um nacionalismo africano que se opõe a existência de uma consciência nacional europeia, no entanto, o negro considera o branco superior apenas pelo facto de este dominar as técnicas, por ser engenheiro eletrônico ou engenheiro mecânico. Vimos no nosso objecto de análise, a ideia de que o branco é superior ao negro o que Munanga (2016), chama de mito da civilização ocidental como modelo absoluto.

 

“Mal cheguei ao Cais fui assaltado pelas lisonjas. «tu já és tão sábio como os brancos!» «tu já és realmente tão grande como os brancos »/essa foi a primeira noite que passei numa casa europeia/era uma casa confortável, com uma cama macia, muito mais macia que qualquer daquelas em que se estenderá até então/de início, a minha cubata fora como todas as outras. Depois, pouco a pouco, acabara por revestir um aspecto que a aproximava da Europa/será que o médico branco conseguiria ser bem-sucedido precisamente onde os nossos curandeiros tinhaM falhado?/ os brancos não morrem de fome/ são gente que nunca está satisfeita com nada, eles sempre querem tudo! Não podem ver uma coisa sem que queiram logo possuí-la” (p.118, 122, 141, 148, 156 e 157)

 

Nestes trechos, pode-se ver construída a ideia da superioridade do homem branco em relação ao negro. O que a negritude lutou contra, pois, toda a raça tem a sua riqueza, seu valor, como defende Pinheiros (2015). O trecho acima conota a ideia de que é verdade que os brancos tinham, naquele tempo, total superioridade em um e outro aspecto, mas também a ideia de que nós, os africanos, podíamos sonhar alto. Pessoas de igual nível de desenvolvimento não têm como ensinar um ao outro não acham?

 

  1. O distanciamento dos problemas enfrentados pelo seu continente

Numa época em que muitos países do continente africano estavam sobjugo colonial, “O Menino Negro” é publicado em 1953. Para Bano (2017), Laye mesmo consciente dos graves problemas que seu continente passava, sendo ele negro colonizado…ignorou o contexto histórico do seu continente. Entendo que o movimento da negritude já existia na altura em que Laye escreveu sua obra, prefiro achar que Laye, sendo um indivíduo culto, como diz o nosso objecto de análise (se olharmos pela análise biografista), ele teve conhecimento deste movimento tanto no âmbito político assim como literário. Não acho que sua obra, pelo facto de não tocar na questão da colonização em África distancie-se da ideologia política da negritude.

Nesta obra, Laye, como autor empírico, denuncia a brutalidade nos ritos de iniciação, denuncia as injustiças que algumas crianças passavam nas escolas do seu país, as quais ele passou. Portanto, não seria justo dizer-se que esta obra, pelo facto de não apontar o dedo ao colonialismo, não se tenha importado com o estado do seu país, do seu continente. Se quisermos criar um juízo sobre o porquê de Laye não falar do contexto histórico do seu país e do seu continente e em que medida isso pode distanciar sua obra da negritude, devemos primeiro entender qual era o principal objectivo da Negritude quando foi criada, esta resposta nos é dada por dois autores. A primeira por Pinheiros (2015) que diz que a negritude define-se pela valorização das práticas culturais, tradicionais pela forma como essas práticas devem ser respeitadas e a segunda por Goncalves (2016), que diz que a negritude tinha como proposta, promover um momento de tomada de conciesncia de ser negro e de assunção dessa identidade negada no processo da colonização. Portanto, penso que na medida em que a negritude liga-se à ideia de luta contra o colonialismo, assume o seu carácter político. Portanto, concluo que “O Menino Negro” de Camara Laye é um marco quando se fala da negritude na literatura da Guiné Konacri, quando se está a olhar na vertente de valorização da cultura e tradição da antiga Alta Guine. Na vertente de contributo na luta contra a exploração do homem pelo homem, na luta contra o racismos, contra o colonialismo, contra desigualidade social, contra o espirito de superidade do raça branca, O Menino Negro não é uma obra negritudinista, pois não apresenta nenhum indício daquele que era o objectivo da negritude nesta vertente.

 

  1. Referências Bibliográficas

Bano, Issaka Maїnassara. (2017). O Menino Negro: As Memorias de Camra Laye. Cadernos

Ceru. v.28, n.2, 2-8. Acesso em: 11 de Junho de 2025.

Bezerra, A., Lima. T., Secco. C. T. & Freitas. S. (2022). Literatura Desigualdade Ensino.

Natal: Caule de Papiro

Cesáire, Aimé. (2010). Discurso sobre a Negritude. Belo Horizonte: Nandyala

Goncalves, Dayane de Oliveira. (2016). De Volta a Negritude: das Origens a alguns

Desdobramentos. Revista Versalete. v.4, n.7, 104-120. Acesso em: 02 de Junho de 2025.

Laye, Camara. (1979). O Menino Negro. Lisboa: Edições 70.

Margarido, Alfredo. (1964). Negritude e Humanismo. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império.

Martins, Cesar Francisco. (2019). A Negritude na poesia cabo-verdiana: uma polemica.

Mariana: UFUP.

Moniz, Antônio; Paz, Olegário. (1997). Dicionário Breve de Termos Literários. Lisboa: Editorial Presença.

Pinheiros, Lizandra Barbosa Macedo. (2015). Negritude, apropriação cultura e a crise conceitual das identidades na modernidade. Lugares dos Historiadores: velhos e novos desafios. 1-14. Acesso em: 15 de Junho de 2025.

Reis, Carlos; Lopes, Ana Cristina M. (1996). Dicionário de Narratologia. 5 a ed. Coimbra: Livraria Almedina

 

A música é mais que uma forma de expressão, é uma forma de afirmação, é uma partilha de pensamentos e ideias que por vezes fluem da alma e outras vezes das ambições.

“Bem Hajam 50 anos”, é uma música moçambicana recém lançada em 2025 pelos artistas Mc Roger, Humberto Luis, Mito Chocolatinho, Juvenal e Nikel.

A música foi lançada alusiva aos 50 anos de independência de Moçambique. O vídeo da música encontra-se disponível na plataforma youtube.

Em termos de sonoridade a música sabe a um ritmo tropical ou mesmo um Zouk, o início do vídeo é caracterizado pela bandeira de Moçambique no fundo e a seguir o título da música paira ao meio do ecrã, o nome dos artistas apresenta uma disparidade de tamanhos, o nome de Humberto Luís, Mito Chocolatinho, Juvenal e Nikel aparecem em miniatura na região central inferior, e o nome do Mc Roger aparece em letras garrafais isolado no centro superior do Ecrã.

O vídeo foi gravado na praça da independência, que reflete a alusão da música aos 50 anos de independência, a vibe da música é relaxante, os cantores aparecem trajados de cachecóis de Moçambique e segurando a bandeira nacional. No vídeo também são exploradas imagens como a ponte Maputo Katembe, a chama nacional, figuras políticas como o actual e ex dirigentes de estado, a estátua de Samora Machel etc.

Porque o maior instrumento da música é a voz, vamos atentar ao conteúdo da letra:

A música é aberta por Mc Roger louvando a unidade nacional, Humberto de seguida introduz o coro intercalando com Mito Chocolatinho.

Mc Roger interpretou o que já nos habituou desde a presidência de Joaquim Chissano, a cada novo governo Mc compõe letras de ovação a figuras políticas, empresariais, até porque faz parte da sua estratégia em se manter no mercado, ovacionar os dirigentes para incrementar sua influência. Pode-se ler em sua letra versos como : “Jovens e velhos querem a tocha tocar” O que Mc Roger afirma no verso acima em relação a tocha é bastante questionável, tendo em conta que a tocha nacional passou em vários troços guarnecida pelo exército sem qualquer presença do público.

Quando diz que as universidades são fruto da independência, Mc tem razão, porém a realidade dos licenciados e mestrados após a universidade também são fruto da independência. A realidade sócio económica é que os jovens são na maioria desempregados, sem acesso a créditos, sem espaço para aplicar o que aprendem na academia, este tipo de abordagens apresentam meias verdades na medida em que não abordam os 2 lados da moeda. Os 50 anos da independência devem ser narrados com responsabilidade e não com parcialidade.

No coro com Humberto Luís e Mito temos as frases:

“Olha o povo feliz weee”

Enquanto os artistas cantam : Olha o povo feliz, no video não se vê patavina de povo feliz, vê se os artistas dançando entre si, isto torna a letra incoerente sendo que quem devia estar feliz não são apenas os artistas que também são povo, mas o povo a quem eles se referem. Este povo ainda não está feliz, Moçambique viveu desde Setembro de 2024 um periodo sombrio com tumultos, instabilidade política, marchas, revoltas contra autoridades, que por si só traduz a insatisfação social, com os termos da governação, com a qualidade de vida no geral.

O verso “Moçambique a avançar wee” carrega em si outra incoerência, pois quem o afirma não faz parte do grupo do cidadão comum, mas sim de um outro grupo com condições privilegiadas, existem avanços em Moçambique sim, mas sectores básicos como a saúde, educação, transporte ainda apresentam grandes desafios para o cidadão comum que é a maioria da população e actualmente em termos estatísticos encontra grandes barreiras nestes sectores.

Outro aspecto questionável é se a chama nacional trouxe unidade ou apenas publicidade.

O CÓDIGO SECRETO 

Nikel é um jovem rapper de Maputo, no circuito “concios rap” em português rap consciente. Rap consciente é um estilo de rap com mensagens maduras, positivas que nos fazem reflectir.

Para quem não sabe, existe um “código secreto” no Rap consciente que está implícito a quem o faz. Este código não é dito mas é seguido, rappers que fazem rap consciente, procuram abordar sobre aspectos que sejam verídicos, coerentes e justos em suas letras.

Nikel surge na colaboração, como um rapper conhecido dentro do movimento Rap, mas meio desconhecido fora dele, não se pode ignorar o desafio em termos de alinhamento de conteúdo ao colaborar com o Mc Roger um nome influente que dispensa apresentação na música moçambicana.

A sua letra foi coerente em maior parte, enaltecendo alguns ex líderes como Eduardo Mondlane e Armando Guebuza, agradecendo às classes nobres como professores e médicos e tropas do exército moçambicano, que a bem da verdade merecem tal agradecimento.

Um dos códigos secretos foi abandonado no verso: “A chama da unidade fortalece o nosso vínculo”, neste verso Nikel refere se ao vínculo do povo para povo, a pergunta chave seria de que forma o povo teve o seu vínculo fortalecido após a passagem da chama? Chama da unidade é uma forma distinta de propaganda política, que este ano obteve muito descontentamento popular devido ao seu custo elevado, além disso a chama atravessou distritos em momentos de instabilidade sem a presença popular, conclui se aqui que o rapper apresentou um verso populista mas vazio da verdade.

O segundo código abandonado foi a coerência no verso : “Tomamos conta do nosso destino apostando no ensino”, um dos sectores que mais se degradou ao longo dos anos foi o setor da educação, com baixa qualidade de ensino, livros com erros graves, professores deixando de dar aulas por estarem em greve. Torna se um paradoxo quando Nikel diz: “apostando no ensino”, quando este sector é tão frágil, a ponto de se estudar ainda por baixo das árvores, é uma antítese que coloca o rapper tendo de abdicar do seu código secreto, para um discurso mais propagandista à semelhança do Mc Roger.

Conclusão, a música seria mais coerente se os artistas optassem por uma abordagem de transmitir esperança tendo em conta a realidade, do que interpretar uma felicidade e prosperidade utópica a qual o povo não se revê nela.

 

Torna-Se inadiável fazer a discussão da eticidade nos dias em que vivemos, onde o bem e a verdade são desprezados em cada canto do mundo. Pensar em afirmar princípios e valores no seio do cidadão que esta em processo lento de construção ė uma utopia. Viabilizar a ideia de conservar a dignidade durante a temporada da vida, já não importa. Parece estarmos a viver num mundo de loucos. Afirmar a dimensão ética durante o nosso trajecto de vida já não faz parte do pensar de muitos viventes, porque a dimensão econômica sobrepôs-se a dimensão ética. Articular a dimensão ética a dimensão econômica ficou longe de ser do ser humano.

O outro aspecto que a sociedade pouco discute e pensar no valor da ética na competência profissional, seja qual for a área. A competência sem ética afasta o saber que reproduz a reflexividade dum sistema social.

O ser consciente do cidadão em contribuir na formação duma sociedade ética foi consumido pela força superior do querer pôr a dimensão ética como a última de todas dimensões. O ethos social fez desaparecer o olhar sensível e deu lugar o olhar sarcástico ao próximo. Perdemos a arte de desenhar a vida com as letras do bem e da verdade. Esquecemos que a mente humana e a parte do intelecto infinito de Deus como refere Spinoza. Muitos tem a narrativa de construir o mal, poucos pensam na fórmula que cria o equilíbrio social. A ausência da aplicação ética da nossa experiencia de vida na construção de uma sociedade mais humana, vê-se na vontade que as pessoas tem de viver alheio ao sofrimento do outro.

Poucos lançam a semente da sabedoria no coração pobre para não fortalecer a mente com o poder critico ou saber infinito. Vivemos um mundo do egoísmo onde poucos doam o amor e afeto, mas muitos oferecem o sorriso de um bom lobo. Um mundo que sabe muito dividir decepções mas que perdeu a aritmética de viver as vitorias e emoções com o próximo. Esquecemos que as competências e habilidade técnicas podem não influenciar de forma positiva nos resultados esperados, quando a dimensão ética não estiver presente em todos momentos da manifestação da competência. O vigor professional pode não ter um brilho quando não for acompanhado com eticidade. Procurar viver com dignidade, deixou ser interesse de muitos. Os valores morais vão desparecendo rapidamente sem que haja formação de correntes que evidenciem os princípios éticos da dignidade humana. Alicerçar a conduta moral na plena consciência responsável e fugir do vazio da ignorância do bem, como o discípulo do Sócrates (Platão) faz referência nas suas escritas e fundamental para quem precisa de levar a vida com dignidade. Para Platão, as ideias existem apenas quando são percebidas pela razão e, o bem ė um imperativo moral. Conhecer a verdade ética torna o mundo melhor.

Para terminar deixo para reflexão o pensamento do filosofo Baruch de Spinoza ʺ Tudo está em Deus, tudo vive e se move em Deus. Uma paixão sem razão ė cega, e uma razão sem paixão ė mortaʺ 

A cidade de Nampula, conhecida como a “capital do norte” de Moçambique, pulsa com uma força cultural que vai muito além de suas paisagens e mercados movimentados. Berço de uma rica diversidade étnica, linguística e artística, vivendo um momento de reinvenção, em que a tradição e a inovação caminham lado a lado para moldar novas formas de expressão e desenvolvimento comunitário.
As danças tradicionais makhuwa, o artesanato em macuti, as histórias contadas à sombra das mangueiras e os cantos entoados em rituais ancestrais são muito mais do que símbolos de identidade: são tecnologias culturais que preservam a memória e orientam o presente. Em muitos bairros e comunidades, a cultura continua viva no quotidiano das famílias, passada de geração em geração.

No entanto, em um mundo cada vez mais conectado e visual, manter essa herança exige mais do que celebração exige reinterpretação. E é justamente isso que começa a acontecer em Nampula, onde uma nova geração de artistas, produtores culturais vem surgindo na cidade, aliando saberes tradicionais à linguagem contemporânea. Em bairros como Namicopo e Mutauanha, jovens utilizam o teatro
comunitário para abordar temas como o ambiente, igualdade de género e cidadania.

Grupos de dança urbana misturam passos de tufo com coreografias afro-contemporâneas. Poetas falam em makhuwa e português sobre identidade e sonhos.

Mais do que entretenimento, essas manifestações são ferramentas de formação crítica, inclusão social e transformação. A inovação cultural aqui não está na negação do passado, mas na sua capacidade de dialogar com o presente, apoderando-se do poder da tecnologia como um aliado da criação cultural local.

Jovens artistas usam plataformas como TikTok, Facebook e YouTube para divulgar seus trabalhos e ganhar visibilidade além das fronteiras de Nampula. Artesãos transformam o Instagram em vitrines virtuais, enquanto músicos gravam vídeos com qualidade sem sair dos quintais.

Além disso, iniciativas como oficinas de escrita, formações em artesanato e empreendedorismo começam a ganhar espaço, abrindo caminho para um ecossistema criativo mais sustentável e profissional.
Apesar das iniciativas promissoras, os desafios são muitos: falta de financiamento, escassez de espaços culturais formais, pouca valorização institucional da arte como setor estratégico. Ainda assim, há esperança de mobilizar o sector publico, ONGs, centros culturais e o público para consolidar um ambiente fértil que permita uma inovação cultural porque Nampula tem o que precisa: Talento, criatividade e juventude.

Inovar, em Nampula, não significa copiar modelos externos. Significa criar a partir do que se é. É transformar o batuque em trilha sonora digital. É fazer da oralidade um podcast. É bordar com pixels sem esquecer a palha. É, sobretudo, reconhecer que cultura é motor de desenvolvimento, identidade e futuro.

A terra é abrigo, ventre fecundo, guarda o segredo mais velho do mundo. Onde dos quatro cantos, soa um só clamor: Preserva o ambiente com mais amor. É da necessidade de preservar o planeta e reciclar o meio ambiente que em, “CATADORES”, Tchalata, apresenta duas figuras humanas compostas por objetos variados, montados de forma tridimensional sobre uma base bidimensional.

A figura da esquerda tem uma máscara oval colorida, de boca aberta, e braço com padrões decorativos coloridos. A figura da direita tem uma máscara escura, com expressão serena, remetendo a arte africana tradicional.

Os corpos estão compostos por uma colagem de sucata mecânica e objetos do dia a dia, representando talvez uma fusão entre o humano e o tecnológico ou entre o tradicional e o moderno.

A simetria entre as duas figuras sugere um vínculo talvez familiar, afetivo ou simbólico. Há uma exploração estética do caos ordenado, cada elemento é aparentemente aleatório, mas no conjunto formam silhuetas reconhecíveis e expressivas.

Embora composta por elementos heterogéneos, a obra é equilibrada visualmente. As Máscaras tradicionais contrastam com materiais industriais, criando uma tensão entre o sagrado e o profano, o artesanal e o industrial.

A técnica utilizada é de assemblage, uma forma de colagem tridimensional típica da arte moderna e contemporânea. A reutilização de materiais como metais, chinelos usados, plásticos e restos de máquinas sugere um forte discurso crítico.

O uso de lixo urbano denuncia o consumismo desenfreado e os impactos ambientais do desperdício. Ao transformar lixo em arte, o artista subverte a lógica de valor tradicional, dando novo significado ao que é descartado.

A justaposição com peças industriais simboliza o choque entre culturas locais e a globalização, evocando reflexões sobre colonização, progresso e perda de identidade.

Esta obra se por um lado encaixa-se no movimento de artistas africanos contemporâneos que usam resíduos urbanos para expressar a crítica social, política e ecológica e Pode ser lida como uma denúncia das desigualdades globais, África como destino final de resíduos industriais produzidos no mundo.

Por outro lado, expressa afirmação de uma arte periférica, descolonizada que se apropria de materiais impostos para criar algo genuinamente local.

A obra também educa, ao mostrar como o lixo pode ganhar vida.

“CATADORES” é uma obra provocadora. A estética de materiais usados é compensada pelo humor visual, pelas cores vibrantes e pela expressividade das formas. O observador sente surpresa, inquietação e, talvez, uma chamada à ação.

Através deste quadro, o artista, Tchalata, propõe uma reflexão sobre o consumo, areciclagem e o meio ambiente. A fusão de máscaras tribais com peças tecnológicas simboliza o conflito entre a tradição e modernidade.

Avaliado em cerca de 96 mil meticais no mercado, “CATADORES ” é parte da exposição patente na Fundação Fernando Leite Couto, “GUARDIÃO DA NATUREZA: Educar para ser”, estará afixada até 28 de Junho, composta por 22 quadros.

Em “ GUARDIÃO DA NATUREZA: Educar para ser” Tchalata, celebra a diversidade cultural, com um toque de humor e criatividade no uso de materiais.

Esta obra não é apenas um exercício estético, mas uma poderosa crítica social e ambiental. Ela problematiza o consumismo, revaloriza a identidade cultural africana e promove a sustentabilidade. É uma arte que “fala”, que desafia, que envolve.

 

Título da obra: CATADORES Nome do autor: Tchalata

Dimensões: 100 cm x 205 cm.

  1. Introdução

Num mundo cada vez mais interligado, a cultura dos povos enfrenta desafios e transformações profundas. Em Moçambique, um país de vasta riqueza cultural e diversidade linguística, assiste-se a uma crescente diluição das expressões culturais autênticas em favor de modelos globais — maioritariamente de origem ocidental. Esta realidade é visível em vários domínios: desde os conteúdos televisivos e musicais até ao estuário e hábitos linguísticos da juventude.

A presente reflexão tem como objectivo analisar as influências da globalização na forma como a cultura moçambicana é representada, percebida e difundida, com especial foco na linguagem como instrumento identitário e cultural. Para tal, recorre-se a conceitos da linguística, sobretudo da linguística antropológica e da sociolinguística, para compreender de que forma a língua participa na construção simbólica do que é “ser moçambicano”.

A abordagem proposta visa construir uma ponte entre teoria e prática, articulando os discursos académicos com a realidade concreta vivida em Moçambique — particularmente nas grandes cidades, onde o impacto da globalização é mais visível. É neste cruzamento entre cultura, linguagem e poder global que se pretende refletir criticamente sobre os caminhos possíveis para uma revalorização do património cultural moçambicano.

 

  1. Conceitos da Linguística Aplicados à Cultura

A relação entre língua e cultura tem sido amplamente debatida por linguistas e

antropólogos. Na perspectiva da linguística antropológica, a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um sistema simbólico que carrega consigo valores, crenças, práticas e visões do mundo. Isto é particularmente relevante no contexto moçambicano, onde a diversidade linguística é um reflexo directo da pluralidade cultural.

Um dos conceitos centrais neste debate é o da relatividade linguística, desenvolvido por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que sugere que a estrutura da língua influencia a forma como os seus falantes percebem a realidade. No nosso contexto, este princípio ajuda a compreender como as línguas bantu carregam formas específicas de ver o mundo, nomeadamente em relação à natureza, ao tempo, à família e à comunidade.

O queniano Ngũgĩ wa Thiong’o defende, no seu livro Decolonising the Mind, que a língua é o principal meio pelo qual uma cultura se mantém viva. Ele argumenta que a imposição de línguas coloniais (como o inglês ou o português) contribui para um distanciamento cultural e uma forma de alienação identitária. Este pensamento é particularmente aplicável a Moçambique, onde o português é a língua oficial, mas onde a maioria da população tem como língua materna uma das várias línguas bantu.

De forma semelhante, o moçambicano Armando Jorge Lopes tem defendido que o

multilinguismo deve ser uma riqueza valorizada e incorporada nas políticas públicas, especialmente na educação e nos media. Para Lopes, a marginalização das línguas nacionais nos espaços públicos e formais contribui para a invisibilidade das culturas associadas a essas línguas.

Outro autor relevante é Lourenço do Rosário, que tem chamado a atenção para o papel da língua na formação da identidade nacional. Para ele, a uniformização cultural promovida pela globalização ameaça não apenas as línguas locais, mas também os sistemas de conhecimento e valores enraizados na oralidade africana.

Finalmente, Kwesi Prah, num contexto mais amplo africano, defende que o verdadeiro desenvolvimento só é possível quando os povos africanos se expressam nas suas próprias línguas, argumentando que o uso exclusivo das línguas coloniais perpetua formas de dependência cultural e epistemológica.

Estes conceitos oferecem ferramentas essenciais para entender o impacto da globalização na cultura moçambicana: ao privilegiar o português (e, mais recentemente, o inglês, o chinês e outras línguas globais) e modelos culturais estrangeiros, há uma tendência para enfraquecer as formas tradicionais de expressão cultural, muitas das quais estão intrinsecamente ligadas às línguas moçambicanas.

 

  1. Cultura Moçambicana: Tradições, Línguas e Expressões Culturais

Moçambique é reconhecido pela sua vasta diversidade cultural e linguística. Com mais de 20 línguas bantu faladas em todo o território, o país é um verdadeiro mosaico de identidades, tradições e expressões culturais. Esta riqueza, no entanto, enfrenta o risco de ser ofuscada ou simplificada, num mundo cada vez mais dominado por referências globais e linguagens universais.

 

3.1. Diversidade linguística como espelho cultural

As línguas locais — como nyungwe, changana, macua, sena, ronga, entre outras — não são apenas veículos de comunicação, mas sistemas de conhecimento profundamente ligados ao modo de vida das suas comunidades. Estas línguas transportam expressões idiomáticas, provérbios, mitos, fórmulas rituais e maneiras específicas de interpretar a realidade, que dificilmente encontram tradução directa para o português.

A oralidade, por exemplo, é uma componente central da tradição moçambicana. Contadores de histórias (griots), provérbios e narrativas ancestrais desempenham um papel fundamental na transmissão intergeracional de valores, ética e sabedoria. No entanto, a hegemonia do português nas escolas e nos media tem enfraquecido esta prática.

 

3.2. Expressões culturais tradicionais

Entre as manifestações culturais mais emblemáticas de Moçambique, destacam-se:

 

A Timbila dos Chopi (província de Inhambane), um instrumento musical de percussão e melodia usado em orquestras, inscrito na lista do Património Cultural

Imaterial da Humanidade da UNESCO.

O Mapiko, dança tradicional do povo makonde (norte), que combina teatro, música e máscaras esculpidas, utilizada em cerimónias de iniciação masculina.

O Gule Wankulu, praticado por comunidades chewa, é uma dança secreta com fortes significados espirituais e sociais.

Festas tradicionais locais, como o Ngoma e rituais de iniciação Mapiko, que marcam momentos importantes do ciclo da vida e da comunidade.

Estas expressões são portadoras de uma estética própria, com vestuários, ritmos, instrumentos e linguagens corporais profundamente enraizados nas tradições locais.

Contudo, a sua visibilidade tem sido cada vez mais reduzida, nos espaços públicos, sobretudo nos media, que tendem a privilegiar conteúdos urbanos e globalizados.

 

3.3. A tensão entre tradição e modernidade

Nas zonas urbanas, especialmente em Maputo, Beira e Nampula, muitos jovens moçambicanos estão mais expostos à cultura global — desde a música pop até às redes sociais — do que às suas próprias tradições. Esta tensão cria um desafio identitário: como ser moderno sem abandonar as raízes?

Ao mesmo tempo, há movimentos que procuram revalorizar a cultura local, nomeadamente por meio da moda africana, da música tradicional reinventada (como a marrabenta, o pandza e o afro-jazz), e da valorização de línguas nacionais no rap e no spoken word.

 

  1. A Influência da Globalização

A globalização tem trazido benefícios inegáveis, como o acesso a tecnologias, circulação de informação e intercâmbio cultural. No entanto, esse fenómeno também tem contribuído para uma homogeneização cultural, que ameaça a expressão das identidades locais.

 

4.1. A linguística como ferramenta crítica

A linguística oferece instrumentos valiosos para analisar estas transformações. Quando se observa, por exemplo, a substituição das línguas locais por português ou inglês em ambientes informais, digitais e até mesmo profissionais, não se trata apenas de uma escolha funcional — trata-se, também, de um fenómeno simbólico que revela um reposicionamento identitário.

A presença (ou ausência) de uma língua em determinados domínios — televisão, educação, publicidade — revela que línguas não são neutras: são marcadores de poder, prestígio e identidade. Assim, o desuso de línguas moçambicanas em contextos públicos contribui para a sua desvalorização cultural.

 

  1. A Televisão e os Meios de Comunicação em Moçambique

A televisão desempenha um papel central na formação do imaginário colectivo moçambicano. No entanto, observa-se uma predominância de conteúdos inspirados em modelos estrangeiros, o que limita a visibilidade das expressões culturais locais e das línguas nacionais. Embora existam esforços pontuais para promover conteúdos enraizados na cultura moçambicana, estes ainda são esporádicos. A criação de políticas consistentes que valorizem as línguas e tradições nacionais nos media é essencial para uma representação mais inclusiva da identidade moçambicana.

 

5.2 Iniciativas pontuais e desafios estruturais

É importante reconhecer que existem iniciativas pontuais que tentam reverter esta tendência. Programas como Ngoma Moçambique ou concursos culturais escolares têm tentado incluir conteúdos tradicionais. Faltam, porém, políticas culturais e linguísticas coerentes, que incentivem de forma sistemática a produção e difusão de conteúdos culturalmente enraizados.

Outro desafio é a formação dos profissionais de media. Muitos jornalistas, produtores e apresentadores foram formados em ambientes urbanos e académicos que privilegiam o português e os modelos eurocêntricos, dificultando uma valorização autêntica do que é local.

 

  1. Caminhos para a Revalorização Cultural: Recuperar o que é Tipicamente Moçambicano

A revalorização da cultura moçambicana não pode ser apenas simbólica — deve ser concreta, estratégica e sistemática. Implica reconhecer, proteger e promover o que é genuinamente moçambicano, tanto nas artes, na música e no vestuário, como na linguagem, nos comportamentos e nas formas de expressão digital.

 

6.1 Reconhecer o que é “tipicamente moçambicano”

A identidade cultural moçambicana é marcada por: Pluralidade étnica e linguística: uma convivência rica entre línguas bantu e o português.

Oralidade e narrativa: o uso de provérbios, contos e histórias como instrumentos educativos.

Expressões idiomáticas: caracterizadas pelo uso criativo de onomatopeias e expressões que reproduzem elementos sonoros da natureza ou do quotidiano, conferindo à linguagem uma dimensão expressiva única.

Estética local: tecidos de capulana, penteados tradicionais, instrumentos como a timbila ou o mbira.

Rituais comunitários: cerimónias de iniciação, festas de colheita, rituais espirituais.

Humor e expressão corporal: formas de estar muito próprias, com expressão facial

e linguagem gestual rica.

Estes elementos, porém, raramente são visíveis nos conteúdos digitais e televisivos actuais.

 

6.2 Influência digital e o fenómeno da “brasileirização”

 

Nos últimos anos, tornou-se comum ver influenciadores moçambicanos — sobretudo jovens — adoptarem sotaques, gírias e expressões brasileiras, principalmente nas redes sociais como Facebook, YouTube, TikTok e Instagram. Palavras como “galera”, “tipo assim”, “cara”, “né” ou construções tipicamente cariocas aparecem com frequência. Este fenómeno revela não apenas o poder da cultura brasileira, mas também uma lacuna na construção de um discurso identitário moçambicano moderno.

Essa “brasileirização” pode parecer inofensiva, mas levanta questões sérias:

Por que razão jovens moçambicanos sentem que, para serem ouvidos, precisam parecer-se com brasileiros?

O que falta no espaço público e mediático moçambicano para tornar o falar e o ser

moçambicano algo atractivo e valorizado?

 

6.3 Propostas de acção para reverter a tendência

  1. Educação bilíngue de qualidade: promover o ensino em línguas locais no ensino primário e conteúdo multimídia em várias línguas nacionais.
  2. Criação de conteúdos digitais moçambicanos: investir em criadores de conteúdo que valorizem o sotaque, o humor, as referências culturais e linguísticas locais.
  3. Campanhas de valorização cultural: incentivar figuras públicas a usarem trajes, música e línguas tradicionais com orgulho.
  4. Quotas culturais nos media: obrigar canais televisivos e rádios a reservar uma percentagem de espaço para cultura moçambicana autêntica.
  5. Financiamento à produção cultural local: apoiar cineastas, músicos, estilistas e escritores que trabalhem com temas, línguas e estéticas moçambicanas.

 

6.4 O papel das universidades e instituições culturais

As instituições de ensino superior e centros culturais devem liderar este processo de revalorização, produzindo investigação, organizando festivais, publicando em línguas nacionais e formando profissionais capazes de integrar a cultura moçambicana nas novas tecnologias e tendências globais.

 

  1. Conclusão

Moçambique é, cultural e linguisticamente, um país extraordinariamente rico. No entanto, essa diversidade encontra-se hoje ameaçada por dinâmicas de globalização que impõem modelos culturais e linguísticos externos, frequentemente assimilados de forma acrítica. A televisão, as redes sociais e os influenciadores digitais tornaram-se vetores poderosos dessa influência, muitas vezes em detrimento da valorização do que é genuinamente moçambicano.

Contudo, a resistência cultural está longe de ser inexistente. Há artistas, educadores, comunidades e criadores de conteúdo que têm vindo a reinventar a tradição em moldes contemporâneos — seja através da música, da moda, da literatura, da pintura ou das redes sociais. Iniciativas de educação bilíngue, festivais culturais locais, o uso de línguas nacionais em projectos artísticos urbanos e o crescimento de plataformas digitais moçambicanas revelam que há caminhos possíveis, reais e já em curso.

Através da linguística — especialmente da linguística antropológica e da sociolinguística — compreendemos que a língua é mais do que um código: é um espelho da cultura, um marcador de identidade, e um campo de disputa simbólica. Quando os jovens valorizam as suas línguas e modos de ser, estão também a construir um futuro culturalmente soberano.

Para consolidar esta tendência positiva, é necessário um esforço colectivo: políticas

públicas consistentes, investimento na produção cultural nacional, e, sobretudo, uma mudança de mentalidade que valorize o que é “nosso” como sendo moderno, criativo e relevante.

A cultura moçambicana não precisa de competir com o mundo — ela já faz parte dele. O que precisa é de se afirmar nele, com confiança, inovação e autenticidade.

 

Referências Bibliográficas

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Na gíria popular moçambicana, há uma expressão amplamente utilizada para afirmar que, sem esforço, não há sustento: “Quem não trabalha, não manduca”. Trata-se de uma frase carregada de um significado profundo, que exclui os preguiçosos do direito à alimentação. Esta máxima remete-nos a discursos dos antepassados do território de Mussampili, onde se proclamava com firmeza: “Não há lugar para os preguiçosos”. 

Naquele tempo, o trabalho era visto como o alicerce da evolução. Vale lembrar trechos emblemáticos desses discursos: “Vamos ser implacáveis com os indisciplinados, os incompetentes, os preguiçosos, os negligentes, os corruptos, os que praticam o burocratismo, os que cultivam a inércia, os que se acomodam à rotina, os que desprezam o povo, os que esbanjam os bens do povo”. 

Com o passar do tempo, no entanto, surgiu uma sociedade sustentada pelo bajulismo e pela adulação. Uma sociedade em que vicejam a fofoca, a intriga e, por vezes, a incompetência de certos indivíduos que, ao que se dizia, se apoderaram de tudo quanto era necessário para o progresso comum. 

Desde o início, percebeu-se tratar-se de um verdadeiro espectáculo de sombras, dançando ao som de uma ilusão colectiva. Vestindo a máscara da sabedoria, encenavam erudição, simulavam grandeza. Mas, nos bastidores, reinava um imenso vazio. Fingiam ser uma sociedade instruída, repleta de mentes brilhantes, quando, na verdade, apenas representavam o conhecimento. E o mais grave: fingiam não perceber que estavam à deriva.

Infelizmente, viviam como abelhas — apenas sobrevivia quem fosse o primeiro a poisar na colmeia. Um mel, por vezes doce, por vezes amargamente indigesto. E a colmeia? Ninguém antes se preocupara em protegê-la ou em garantir a partilha justa do seu néctar. 

Será mesmo que vamos continuar a viver assim? Nkani mim…

Neste chamado ao trabalho, não há lugar nem canto para bajulação ou adulação. Preocupa-nos, sim, o facto de que muitos, durante anos, se fizeram passar por estafetas da bajulação, lambendo até as marraspas…

 

Estimad@s!

Ao celebrarmos hoje, 22 de Junho, o Dia Nacional do Geólogo, partilho esta breve reflexão sobre o que poderá significar fazer geologia no futuro.

Se, por um lado, os recursos minerais “fáceis de descobrir e explorar” se vão tornando escassos para uma população mundial crescente e fortemente dependente desses recursos, por outro, somos desafiados a acelerar o passo com que analisamos as incertezas associadas às nossas actividades de pesquisa, numa área de capital intensivo que enfrenta dois principais obstáculos:

  1. a) os desafios associados à transição energética;
  2. b) os desafios associados à mobilização de investimentos para a concretização de projectos de pesquisa.

Apesar desta realidade desafiante, o factor humano e o crescimento exponencial da Inteligência Artificial (IA — sigla inglesa: AI) parecem estar a nosso favor, na medida em que a sua aplicação combinada contribui significativamente para uma abordagem que minimiza os riscos associados às actividades de pesquisa geológica. Para responder a esta realidade, somos chamados a adoptar o conceito de geólogo “híbrido”. A realidade actual mostra-nos que já não basta fazer geologia: é necessário acrescentar duas dimensões. A primeira está ligada à programação; a segunda, ao pensamento estratégico, que pode, ou não, estar relacionado com a primeira. O motor desta visão reside na necessidade de dar uma resposta atempada aos desafios energéticos globais e às alterações climáticas, o que exige um pensamento integrado e interligado, promovendo uma visão flexível para os profissionais do futuro.

É importante ter sempre presente que “a Inteligência Artificial ainda comete erros, cria soluções incompletas e, muitas vezes, reproduz padrões limitados pelos dados que recebe”. É precisamente aqui que a sensibilidade humana e o pensamento crítico se tornam fundamentais. Num momento em que o mundo avança numa corrida desenfreada pelos minerais do futuro, com o olhar virado para a transição e eficiência energéticas, os profissionais “híbridos” das geociências farão a diferença: um especialista em GIS com domínio de programação, um geofísico com inclinação para o desenvolvimento de algoritmos de processamento, um geólogo com bases sólidas em desenvolvimento estratégico.

Porque  no futuro da geologia, a integração entre o conhecimento técnico, visão crítica e inovação será não apenas desejável. Será indispensável.

 

De que será que aquele senhor se está a rir?

Será que é por eu ser negra? Está a praticar racismo contra mim?

Fiz-me este inquérito mental, não porque me importe com racismo verbal. A mamã ensinou-me a ser “mais eu”, não ofendendo nem humilhando o outro. Ensinou-me a  conhecer o meu papel e lugar no mundo, e que todos somos importantes.

Porém, o senhor não parava de rir. Já parecia gargalhada de sarcasmo. Por pouco me esqueci da lição da mamã. É que ele já me estava a irritar. Quase me aproximei dele, mas contive-me. Depois, quase voltei a explodir, porque a senhora que estava com aquele senhor perto da velhice, de muletas, estava a esticar os lábios juntos com ele, uma sintonia de dar inveja até ao falecido Beethoven.

Afinal, o que se passa aqui?

Como vou saber? Ninguém fala inglês aqui. Só estão a apontar-me enquanto mostram os dentes já “amarelecidos” pela vida.

Santa paciência da lição da mamã!

Eh! Agora já estão a ir ter com outro senhor, não, um jovem de farda preta – deve ser o “cinzentinho” da China. Desvio o olhar para disfarçar, mas sei que o assunto sou eu. Só espero que não seja no tom “aquela preta escura o que faz de frente do Xinjiang Kanlun Hotel? Tirem-na dali”.

De qualquer forma, estava pronta para me defender. Sou jornalista e sou importante no meu país e no mundo. Sei que sou. Enquanto eu pensava, eles começaram a dar passos em minha direcção. Fraquejei, já não tinha tanta coragem, sou um peixe fora d’água, afinal é o país deles, mas ninguém iria saber que transpirei um pouco.

Ergui os ombros e endireitei a postura, pronta para tudo, mostrar o cartão do hotel e certificar que estou na área VIP e só saí para apreciar a rua depois de dois dias aquartelada na suíte. Os dois quase velhos continuavam a sorrir.

Mais perto, começaram a falar mandarim tradicional, uma língua que não nos ia permitir  conversar. No entanto, estavam calmos. O suposto polícia não tinha tom de autoridade de quem vai prender ou repreender alguém.

Afinal, o que eles querem? Tomei emprestada a famosa frase.

Ouvi de raspão um “biurifull”. Será? E, de novo, ouvi um “piktchure”…

Ah! Afinal, só queriam uma foto. Com a responsabilidade de quem carrega um continente, consenti e foram quatro fotos no seu e no meu telemóvel. O fotógrafo foi um chinês a quem a vida roubou parte do braço e toda a mão esquerda. Usou a direita, apoiou os telefones, um de cada vez, ao que lhe sobrava do outro braço e com o inteiro manejou os aparelhos, ficou de pé e agachou-se. Fez as melhores fotografias do mundo. Como eu, ele também conhece o seu lugar no mundo e não deixa que nada, nem ninguém o intimide por ter um braço a menos.

Naquela cidade, muitos chineses, quase todos, não falam inglês, mas falam sorrisos. Talvez não seja o dinheiro que fala todas línguas, mas o sorriso.

Na China, descobri que o idioma oficial não é exactamente o mandarim. Tampouco o inglês. É o sorriso.

A China pode não falar inglês, mas comunica com algo mais poderoso: empatia. Ali, a conexão não passa pelo idioma, mas pelo desejo genuíno de entender e acolher. No fim das contas, aprendi: há lugares onde o coração traduz melhor que qualquer aplicação. E a China é um deles.

Regina Ernesto, Xinjiang, China 2025.

Por Sara Laisse & Lucílio Manjate

 

A celebração dos vinte anos de carreira de Sangare Okapi ficará marcada pela reedição dos seus dois primeiros livros, que resultou na obra Poemas de Revisitação do corpo Seguido de Apoteose do Nada (2025). E, fará sentido celebrar estes 20 anos do poeta do Bairro do Aeroporto também com uma brevíssima incursão às obras publicadas em 2011 e 2018, Mafonematográfico Também Círculo Abstracto e Os Poros da Concha, respectivamente. 

Uma das marcas da poesia de Sangare Okapi é a sua diversidade formal e temática. Do ponto de vista formal, e pela novidade que, de uma forma geral, representa na literatura moçambicana, importa destacar a sua incursão pela poesia experimental (poesia experimental para os portugueses e poesia concreta para os brasileiros), por ser um dos poucos casos de escritores moçambicanos a explorar os aspectos grafemáticos da linguagem verbal, de onde resulta a natureza icónica dessa poesia. Referimo-nos à poesia visual como uma das manifestações do experimentalismo. Outro poeta da sua geração que explora este tipo de poesia é Dinis Muhai, que publicou Rascunhos para uma comunicação improvável (AEMO, 2008). Sangare Okapi e Dinis Muhai foram colaboradores da revista literária Oásis – Jovens pela Literatura.

A poesia visual e a poesia concreta 

A poesia visual apela a um olhar atento ao que é dito ou sugerido, de modo a aferir o seu sentido, a sua representação e construir o seu significado, a sua interpretação. Ela tem, comumente, sido grafada por imagens ou por caligramas. Sangare fá-lo em formato de caligramas: as palavras propagam-se na folha em branco, sugerindo que o leitor construa uma imagem desse mapa e associe essa imagem com os sentidos e significados das palavras que a compõem. A este tipo de poesia se designa, de forma mais específica, poesia concreta, que é uma variação da poesia visual. Mais do que ser escutada ou ouvida, a poesia concreta deve ser vista. Mafonematográfico […], livro publicado em 2011, é, sob este ponto de vista, um exemplo paradigmático:

Como se depreende, a poesia concreta exige que o seu autor realize um jogo de palavras que recorda um exercício de carpintaria. Neste sentido, é sugestivo o aviso colocado no pórtico da obra, onde se diz o seguinte: “ninguém sabe, mas ali sua-se”. Isso alerta-nos, de facto, para o trabalho oficinal representado pelo concretismo. No poema da página 25, essa oficina sugere que os caracteres do texto se esvoaçam ou se propagam, recordando o vento aludido. Leia-se, ainda, o poema da página 36, que se referindo ao mar e a barcos, parte dele está representado em formato de uma onda. Vejam-se ainda os poemas da página 38 e 39.

Por outro lado, do ponto de vista temático, destaque-se que grande parte do trabalho de Sangare Okapi é caracterizada pelo tratamento das seguintes questões: a memória e a metapoesia, o vazio, o absurdo, o erotismo. Ao celebrarmos os seus 20 anos de produção poética, decidimos aflorar sobretudo as suas manifestações temáticas, por serem estas as que, de forma simbólica, remeteram e remeterão os seus leitores para as questões existenciais, num mundo de “declarada” falência de utopias individuais e colectivas.

A memória (literária) moçambicana 

Mais do que serem textos pejados de simbolismo, os poemas de Sangare homenageiam, muitas das vezes, os seus gurus literários: José Craveirinha, Luís Carlos Patraquim, Filimone Meigos, Eduardo White, Rui Knopfli, Francisco Guita Jr., Heliodoro Baptista, Gulamo Khan, entre outros. Aliás, a poesia de Sangare é dos poucos exemplos moçambicanos que não disfarça uma espécie de compromisso em estabelecer um diálogo obsessivo com a memória literária moçambicana, como se pode ler no poema “Patraquimmiana” (p. 41), onde se ouvem, fundidas na sua voz, as vozes de Craveirinha e Patraquim (mas também a de Fonseca Amaral, entre outras menos explícitas). Neste sentido, a sua obra consegue ser esteticamente engajada no fortalecimento e consolidação de uma imagem de moçambicanidade literária.

Patraquimmiana

Para J.C

“Longe embora cidade paráclita

a língua se nos cola ao céu da boca

se vier o olvido.”

Fonseca Amaral. Exílio.

 

Não sei com que estranha miragem. Confesso.

Meu lírico cartomante das noitadas pela Mafalala!

Sim, agora que o medo já não puxa lustro na cidade. Velho Zé,

livre e limpo da morte, regressas pelos carris da memória,

mãos aninhadas nos bolsos rotos. A mesma cartola preta,

amarrada ao vento e um pássaro que já não cabe no verso

preso no nembo da língua, desmentem o teu estatuto

de cidadão do futuro e regressas, velho Zé!

Nenhuma epopeia trazida dos escombros se levanta do rosto,

nenhuma elegia brota do coração, nenhuma!

E regressas, velho Zé, poeta em todas as latitudes!…

                                                                                                              (p. 41)

A metapoesia

A poesia de Sangare é alegoricamente autorreflexiva: o poeta ou a poesia, através de uma associação com outras “realidades” pensa, questiona a sua própria natureza. A linguagem, para além de ser o campo da manifestação de sentimentos, emoções e ideias de um mundo que é interiorizado, transforma-se num processo de busca dos seus próprios fundamentos estéticos, do processo de transformação dos materiais da língua em arte. Simbolicamente, não deixa de ser, este exercício, um desafio que se propõe ao leitor, no sentido de buscar, ele também enquanto produto de diversas linguagens, enquanto matéria que é linguagem, a sua própria idiossincrasia. Leiam-se ainda sobre esta questão, nesta antologia, os poemas das páginas 26, e 29.

Transpiro nos dedos

        simples materiais

                           de carne

para a navegação

 

Mar     azul,

branco é o papel

sem a margem

do teu busto

 

Lanço as redes,

que são as letras,

no arremesso

do papel a cabeceira

                         começo.

 

Transporto outro poema

para o oriente do corpo.

                                        (p. 20)

 

O absurdo

A estética do absurdo, na óptica dos teóricos Carlos Ceia e Harry Shaw, aborda ou questiona o sentido da existência, ignora ou deforma as suas convenções tradicionais, revela o contra-senso, o incoerente, a inversão da lógica, do que resulta, muitas vezes, a representação da solidão e do isolamento. 

Azar! Azar é ter mil asas por vocação e não possuir uma para voar.

                                                                                                           (p. 75)

Quantas distopias caberão neste poema? Num ano em que países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe celebram os seus 50 anos de Interdependência, quantas evocações podem ser feitas, a partir dessas asas que não voam, para reparar os absurdos das nossas Histórias nacionais? Para compreender esta temática na presente antologia, podem ser lidos também os poemas às páginas 28, 34, 37.

O vazio

Wolfgang Iser advoga que a estética do vazio consisti no preenchimento, pelo leitor, de espaços em branco constantes de uma obra literária. Neste sentido, a obra se realiza no processo de leitura e em função da enciclopédia do leitor. Isto é passível de ser verificado na leitura de qualquer texto. Grande parte da obra de Sangare Okapi carece desse preenchimento de espaços, através do reconhecimento de algumas palavras que recordem um determinado contexto social, histórico ou cultural. A este propósito, em Mafonematográfico […] (p. 24), o poeta faz referência a “cinco elefantes africanos”, com recurso às iniciais dos seus nomes, a saber: EM, MC, JC, LH, UK. Estas entidades são caracterizadas como os “big five”. Conhecendo o contexto de escrita de Sangare, essas iniciais são reconstituíveis em Eduardo Mondlane, Mia Couto, José Craveirinha, Lindo Hlongo e Ungulani Ba ka Khosa. Pensando no que seriam os “big five” da História e da Cultura de Moçambique é que se descodifica os nomes e se preenchem os vazios da dedicatória e, por extensão, do que o livro vai sugerir. Entretanto, num contexto diferente (de quem desconheça esses “big five”), apenas entenderia a colagem de letras como manifestações do concretismo já referido anteriormente. Um outro exemplo desse deste tipo de vazio pode ser encontrado no poema da página 38.

Entretanto, de acordo com Carlos Ceia, a noção do vazio é extensível ao conteúdo do não ser, o que nos reenvia para questões e dilemas existenciais. São, portanto, duas componentes que podem caracterizar a compreensão do vazio literário. Quanto ao não ser, veja-se o exemplo seguinte:

Repara: a minha casa é um deserto certo e aberto. Tenho as portas por comportas e os braços em jeito de crucifixo que neles gostava que as mais humildes aves pousassem com todas as flores na boca. Eu, que sou vazio e singular sobre a pedra angular do destino. Como não? Mal me nasce uma garça na garganta pela aurora toda a desgraça sou: definitivamente, antes vale um Deus no verso que no Universo.

                                                                                                                                                  (p. 59)

Como expressão também do absurdo que reenvia para a solidão ou para o isolamento, o vazio em Sangare Okapi se manifesta sobretudo nas suas primeiras obras, a saber: Inventário de angústias ou apoteose do nada (2005) e Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo (2007). Leiam-se também os poemas das páginas 19, 23, 30.

 

A sensualidade

Na poesia de Sangare, os alertas para a abordagem do erotismo vêm desde a sua primeira obra, como se pode verificar no exemplo seguinte:

Amêijoa minha nocturna

tua é a cápsula aberta,

como na flor apta a corola

para a acepção do pólen.

                                                     (p. 11)

 

Há, entretanto, uma viragem para uma sensualidade mais acutilante, no livro Os Poros da Concha (alusão à uma concha já perfurada, portanto, nem tanto fechada). O livro é cheio de enigmas que carecem de conhecimento advindo da área cultural, para o descortinar. Logo desde o início, somos avisados, a partir dos paratextos, que a temática abordada é referente a representações do corpo. 

A abordagem desse tema é realizada de modo contido, mesmo em casos nos quais o léxico remeta directamente ao objecto representado. Enfim, trata-se de uma obra hermética.

No Ronga, língua do sul de Moçambique, a concha é designada, em linguagem corrente, por mbatsana. Em sentido figurado, a mesma palavra é utilizada para designar a vulva. Desse modo, para quem possa transitar entre o Português e o Ronga, constata, logo a partir da capa, a menção ao referido tema. O poema da página 53 desse livro é gritante para a explicação do título do livro. Daúde Amade, escritor moçambicano, faz, também, uma leitura na mesma linha, ao referir que Os Poros da Concha remetem às “aberturas do feminino”. Diz o poema:

 

jamais retornarás estes ínvios atalhos

como um notívago tropeçando o sonho

pois há no teu corpo um casulo com olhos

velando irremediavelmente em ti o canhu

 

chama-se casa e com ela uma vela piscando

                                                                                (p. 53)

O canhu é, na verdade, um fruto afrodisíaco. Esse fruto e a vela, referidos no poema, caracterizam, por extrapolação, dentro da cultura ronga, a viscosidade e a protuberância, respectivamente, susceptíveis de serem encontradas no interior da vulva. Os restantes poemas, alguns dos quais envoltos em jogos de palavras, são todos eróticos. Vejam-se, entre outros, os poemas das páginas 16, 17, 18, 20, 48.

Finalmente, cultivando a sensualidade, o vazio, o absurdo, a metapoesia, a memória ou o concretismo, a poesia de Sangare Okapi é eminentemente sonora. Isto significa que o poeta não dispensa o laborioso trabalho com a língua. A palavra é a chave mestra com que Sangare abre em nós universos de experiências individuais e colectivas.

Antes estar só era casual. Agora estar só é um ritual.

                                                                                             (p. 66)

É isto, e muito mais que fica por dizer, que faz de Sangare Okapi um poeta cuja preocupação com o simbólico é tutelar. Está de parabéns o poeta.

No passado dia 10 de junho, celebrou-se o primeiro Dia Internacional do Diálogo entre Civilizações das Nações Unidas. Em 15 de março de 2023, Xi Jinping, Secretário-Geral do Comité Central do Partido Comunista da China (PCCh) e Presidente da República Popular da China (RPC), apresentou a Iniciativa para a Civilização Global pela primeira vez ao mundo. Em 2024, com base na proposta de 83 países, a 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas adotou por unânime a designação de 10 de junho como o Dia Internacional do Diálogo entre Civilizações.

Em 10 de Junho, por ocasião do primeiro Dia Internacional do Diálogo entre Civilizações, S.E. Wang Yi, membro do Birô Político do Comité Central do PCCh e Ministro dos Negócios Estrangeiros da China proferiu um discurso salientou que, enfrentando o grande impato provocado pelas grandes mudanças nunca vistas em um século, o valor da civilização nunca foi tão proeminente. A interação entre as civilizações é crucial e o diálogo entre as civilizações é oportuno. O diálogo entre civilizações é um laço de paz, uma força motriz para o desenvolvimento e uma ponte de amizade. A China propôs que cada país deve ser um defensor da igualdade das civilizações, respeitando o caminho de desenvolvimento e o sistema social escolhidos de forma independente pelos povos de todos os países. Deve ser um praticante dos intercâmbios civilizacionais, reforçando os intercâmbios e a aprendizagem mútua e absorvendo sabedoria para resolver as questões globais através do diálogo civilizacional. Deve ser um promotor do progresso das civilizações, construindo uma comunidade com o futuro compartilhado que engloba diferentes civilizações.

O diálogo entre civilizações é um requisito inelutável para consolidar a confiança mútua política China—Moçambique.

No mundo atual, os múltiplos desafios e crises estão interligados e sobrepõem-se, a economia mundial está a lutar para recuperar, o fosso de desenvolvimento tem aumentado e a mentalidade da guerra fria está em prevalência. A sociedade humana encontra mais uma vez na encruzilhada da história. O Secretário-Geral Xi Jinping salientou que, numa altura em que o futuro e o destino de todos os países estão intimamente ligados, a coexistência inclusiva de diferentes civilizações, bem como os intercâmbios e a aprendizagem mútua, desempenha um papel insubstituível na promoção da modernização da sociedade humana e da prosperidade do jardim civilizado do mundo. Através do diálogo das civilizações, a China e Moçambique podem continuar a construir os alicerces da confiança mútua, apoiar-se mutuamente nas questões relacionadas com os interesses fundamentais de cada um, opor-se ao unilateralismo e aos atos hegemónicos, salvaguardando conjuntamente os direitos e interesses legítimos do Sul Global.

O diálogo entre civilizações é uma via inevitável para aprofundar a cooperação pragmática China—Moçambique.

O diálogo entre civilizações é um pré-requisito e uma força motriz para o desenvolvimento. A antiga Rota da Seda testemunhou os intercâmbios e a aprendizagem recíproca entre as duas grandes civilizações da China e de África. Hoje em dia, a construção de alta qualidade da “Cinturão e Rota” tornou-se num novo elo para promover intercâmbios amigáveis entre a China e Moçambique. A apreciação mútua entre as civilizações chinesa e moçambicana promoveu os frutos da cooperação pragmática China-Moçambique. A China tornou-se atualmente o segundo maior parceiro comercial, a segunda maior fonte de importações e o segundo maior destino de exportações de Moçambique. Durante a Cimeira de Beijing do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), no ano passado, a China anunciou tratamento tarifa zero a 100 por cento dos produtos moçambicanos exportados para a China, o que promoverá vigorosamente o desenvolvimento socio-económico de Moçambique e beneficiará efetivamente os povos dos dois países. Além disso, uma série de infraestruturas emblemáticas de assistência chinesa, tal como o Centro Cultural Moçambique-China, simboliza a apreciação mútua das civilizações entre a China e Moçambique e da amizade eterna dos dois países.

O diálogo entre civilizações é uma forma necessária para intensificar o entendimento dos povos China—Moçambique. Com a compreensão interpessoal, os povos podem expressar as suas opiniões e ser beneficiados. A ligação entre corações do povos contituem o canal mais básico, sólido e duradouro para o desenvolvimento sustentável da parceria de cooperação estratégica global entre os dois países. Já há mais de 600 anos, o navegador Zheng He realizou sete expedições marítimas de longa distância, tendo chegado até à atual Província de Sofala, em Moçambique, o que abriu o prefácio dos intercâmbios interpessoais entre a China e Moçambique. Desde o século XIX, o primeiro grupo dos chinesas embarcou na Ilha de Moçambique como trabalhadores, têm-se integrado na sociedade local, contribuindo para o desenvolvimento socio-económico de Moçambique. O ano corrente marca o 80º aniversário da vitória na guerra mundial antifascista. A amizade entre os povos da China e de Moçambique foi forjada na luta contra o imperialismo e o colonialismo e pela libertação política de Moçambique, tem sido consolidada no processo de construção dos respetivos países, e será certamente aprofundada na coexistência inclusiva e aprendizagem mútua entre as civilizações da China e de Moçambique.

Todo o passado é um prelúdio do futuro promissor. A China está disposta a aproveitar o primeiro Dia Internacional do Diálogo entre Civilizações e o 50º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre China-Moçambique como uma oportunidade para trabalhar com a parte moçambicana no sentido de reforçar os intercâmbios e as cooperações interpessoais, bem como construir uma rede de diálogo entre civilizações China-Moçambique, fazendo com que o diálogo das civilizações se torne numa ponte para reforçar a amizade China-Moçambique, e que as flores das civilizações sino-moçambicanas floresçam no jardim das civilizações mundiais.

Os temas sobre a nossa África estiveram sempre no centro das elucubrações, umas estreitamente numa perspectiva filosófica, outras de carácter mais socioantropológico. Maio é o mês de África e sempre vale a pena pensar na nossa querida casa, no nosso berço. É difícil estabelecer fronteiras disciplinares quando o pensamento está engajado por uma reflexão histórica da nossa liberdade.

Como diz o Professor Severino Ngoenha, na sua obra Pensamento Engajado, nós africanos entramos na dita história universal como escravos, colonizados e em fim como objectos e não sujeitos e fazedores da nossa história.

Celebramos este ano o sexagésimo segundo aniversário da Organização da Unidade Africana (OUA) e o vigésimo terceiro aniversário da União africana (UA); esta organização foi criada com o objectivo de lutar contra o colonialismo e neocolonialismo, promover a unidade, solidariedade e cooperação entre os Estados africanos, bem como defender a soberania e a integridade territorial do continente.

É importante mantermos a memória e a celebração em torno de nomes mais importantes que se destacaram nas duras lutas revolucionárias em diversos países africanos como Samora Machel, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah, Léopold Sédar Senghor, Agostinho Neto, Steve Biko, Cheikh Anta  Diop. 

Conquistadas as independências, o que justifica os anos de escuridão em que nos encontramos metidos como africanos, anos que não nos unem e nem facilitam o nosso entendimento mesmo usando o mesmo idioma e linguagem; o que justifica hoje pegarmos em armas e entrarmos nas “matas” largando o doce sabor das independências e fazendo alianças estranhas?

Hoje temos uma nova vaga a chegar às terras africanas em busca de recursos supostamente descobertos ou redescobertos no solo e subsolo dos países do continente africano: minerais, pedras preciosas, gás liquefeito, carvão, plantas medicinais (Castiano). Na verdade, trata-se de uma nova forma da colonização, de cariz financeiro e capitalista que rompe com as fronteiras físicas dos países que não conhecem a soberania das nações. Sabemos que a África vai tornar-se, em breve, um trecho, um continente trecho, um continente para todos os que querem cá vir alojar-se. 

Somos um continente que viverá uma grande mobilidade interna e externa; se assim quisermos, um continente de grandes migrações internas e externas. Mas para tal a África deve superar as vicissitudes da exclusão e pensar na inclusão, no combate à corrupção, pensar na estabilidade política e social, numa educação de qualidade, na saúde, na agricultura e na liberdade total das instituições políticas.

Quanto mais cedo a criança e o adolescente entram em contacto com o livro, melhor. As poucas escolas públicas (primárias e secundárias) que têm bibliotecas têm livros nas prateleiras? Têm livros de géneros literários? 

Defendo, incansavelmente, a ideia de que privar as crianças, adolescentes e jovens do direito à literatura é também um neocolonialismo. O livro e a refeição não têm diferença na vida de um ser humano. Como é que se pretende moldar jovens pensadores se não se dá a eles esta fundamental ferramentas? (o livro). Sirvo-me das palavras de António Cândido para elucidar esta ideia de que é imperioso que se dê livros às crianças nas escolas e aos jovens para a vida.   

“A literatura é uma necessidade universal, é um complemento da vida, ajuda a compreender melhor o mundo, enriquece a forma de pensar. A literatura melhora muito o ser humano, ensina-o de alguma maneira. Não se pode privar ao Homem do direito de ler, do direito de literatura. A literatura é o próprio Homem, porque transmite toda área de sentimentos, toda área mais humanizada.” 

Talvez eu seja a pessoa  menos indicada para abordar este assunto,  que tal se eu fizesse uma retomar ipis verbis das palavras dos professores: Nataniel Ngomane “Leiam! Leiam tudo”  e Lucílio Manjate “porque só a leitura é que salvará o mundo.” Um individuo que tem a capacidade de ler  interpretar temáticas abordadas e conotadas em obras literárias pode, também, compreender o mundo e tudo quanto nele acontece, até por que: 

“Existe uma outra leitura que não é a dos livros. São as primeiras leituras que fazemos do mundo que nos cerca, quando se reconhece o ambiente em que se vive, os elementos que o compõem, as pessoas com quem convivemos.” (FREIRE, 1994)

Olhando para a crise de obras literárias moçambicanas e de bibliotecas nas escolas públicas, pode se levantar a seguinte questão: se boa parte das nossas escolas estão em condições não boas, não seria um desperdício investir-se na construção e apetrechamento de bibliotecas ao invés de salas e carteiras?  Vou responder de forma objectiva: os sem tecto não têm o direito de se alimentar? 

“Ensino e biblioteca não se excluem, completam-se, uma escola sem biblioteca é um instrumento imperfeito. A biblioteca sem ensino, sem a tentativa de estimular, coordenar e organizar a leitura será um instrumento vago e incerto.” SILVA (1986)

Se não se pode construir bibliotecas para que os alunos possam ler livros, que se entregue livros aos professores, de modo que leiam para e com os seu alunos. Mia Couto disse que “o professor deve ser um contador de histórias”, portanto, ele, o professor, será a biblioteca. Um aluno que cultiva o hábito de leitura, será sempre diferente dos demais, porque segundo ANTUNES (1993), saber ler, gostar de ler, ter o hábito da leitura permite avançar, viver mais, são novos conhecimentos, novas experiências, novos mundos.

Para as poucas escolas que têm as bibliotecas activas, se quiserem formar pensadores, amantes da cultura e identidade moçambicana desde a fase escolar, entreguem os livros (especialmente de literatura moçambicana) às crianças, adolescentes e jovens. Uma geração de não leitores é uma geração falhada.  

São vários os meios de se construir o Homem, um deles, também mais importante, é o livro. A leitura de livros permite que o ser humano ganhe ferramentas para poder ler a vida, tudo e todos que o rodeiam. Porque o livro molda comportamentos, educa. Hão-de ver que o jovem que lê entende mais a vida e o mundo  do que o outro. 

Penso que o professor do ensino primário e secundário é a principal figura neste processo de formação de leitores e aspirantes a entendedores. Em contrapartida, é notória a dificuldade na leitura que os estudantes universitários apresentam logo nos prémios dois anos.  Mas porquê?

 

Bibliografia 

ANTUNES, Walda. (1993). Bibliotecas escolares. Brasília: CORBI.

FREIRE, Paulo. (1994). A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez.

SILVA, Ezequiel. (1986). Leitura e realidade brasileira. Porto Alegre: Mercado aberto.

Nas tardes em que o sol de Maputo parece repousar, cansado, sobre os telhados da nossa envelhecida cidade capital, é impossível não revisitar o quadro que ainda te consagra como um dos mais prestigiados ensaístas da praça – nesse teu jeito sereno de observar Mecanhelas, Quelimane, Moçambique, África e o mundo, como quem mastiga as palavras antes de as oferecer aos outros, já doces e deliciosas  de tanta sabedoria e prazeres de edição.

Escrevo-te, em meio a tantos ruídos e nuances dos tempos, como quem se dirige a um velho companheiro de caminhada, mas não numa caminhada qualquer, nem de destinos indefinidos. A nossa travessia é feita de livros, de ideias, de silêncios cúmplices, de ironias partilhadas nos corredores das universidades e das memórias que se demoram mais do que o tempo consente. Não tenho plena certeza se te quero exaltar ou celebrar; talvez apenas olhar para a nossa história, o nosso percurso, as tuas literaturas, nacionais e africanas, para que não sejam tomadas como obra do acaso ou como descontinuidades, mas sim como o mais grandioso projecto edificado no pós-independência. A literatura tem oferecido personalidade e voz a este país, bem mais do que qualquer outro projecto ou programa.

Agora que caminhas para os 65 anos de travessia pela estrada da vida, emprestei minha memória a algumas lembranças. Um convívio esporádico, sim, mas uma atenção sempre presente. Fui seguindo os teus passos e devaneios. Nesta amizade, curioso, nunca te chamei de Jojó. Evitei reduzir a tua personalidade a metades. O convite que me endereçaste para apresentar o teu livro Leituras Ensaiadas foi uma armadilha, ratoeira com drible de Maradona e remate de Eusébio. Na época, o mote oscilava entre o prazer da edição e a incerteza da leitura. Curioso: passaram-se tantos anos e, se a edição de livros parece não ter mãos a medir, a leitura, por sua vez, deixa tudo a desejar. Convenhamos, regredimos muitos furos. O que parece contar, de fato, são as cerimónias de lançamento de livros. Temos para todos os gostos e feitios. Terminou o debate sobre ser ou não ser, essa crise existencial de Shakespeare.

Um bom presente para te honrar e rememorar os teus 65 anos poderia consistir na selecção dos teus 65 livros e autores preferidos; as obras que moldaram a tua personalidade e a tua aptidão para as literaturas africanas, que são a tua especialidade. Aqueles clássicos que te tocaram fundo no âmago e transformaram os teus ideais e as tuas lutas. A selecção seria uma esplêndida lista para muitos ensaístas e leitores. Então, nesse teu jeito meio sério e muito a brincar, abririam-se as frestas da memória para indagar o que ainda nos atormenta na literatura nacional e, sobretudo, os destinos pelos quais a nossa literatura seguirá nos próximos tempos.

Leituras Ensaiadas pareceria a sentença de um risco calculado: na República das Letras, prevalecia o debate sobre os eleitos e o termómetro da criação literária. Dizias bem que o aparato conceptual erguido precisava incorporar outros espaços universitários que nos surpreendessem com a riqueza dessa miscigenação. Foi precisamente isso que complicou a minha apresentação na época. Abordar esse mosaico cultural, como o definias, com os Bantu, os árabes (ou melhor, os islamizados), e os europeus descendentes de Camões, afigurava-se como diálogo para muitas horas.

A minha apresentação foi atabalhoada e plena de ziguezagues. Ainda bem que, mais tarde, alguém nos recordou que os livros não carecem de apresentações. Carecemos, certamente, de fazer ensaios, sem rodeios, como forma de assegurar a venda do livro. Driblar o mercantilismo livreiro revestido de pele literária.

Nessa época, repetias muitas vezes o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht, citando o provérbio: “Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” Era uma crítica suave à tendência de culpar as consequências de um sistema opressivo, o rio, em vez de analisar as causas que o impõem, ou seja, as margens. Repeti essa frase vezes sem conta, e muitas delas te atribuí a autoria. A honra de ter um amigo inventor de provérbios.

Curioso que continuamos a criticar tantas águas desse mesmo rio, como se ele não tivesse uma localização geográfica, um país inocente e inominado. Eu acrescentava, sempre, ou quase sempre, que o tempo coloca cada rei no seu trono e cada palhaço no seu circo. Para cada um de nós, esta seria a implacável justiça do tempo. Será, amigo Almiro, que andamos equivocados nos resíduos do tempo por tanto tempo?

No lançamento da obra Os Bichos Têm Dono, pior que têm mesmo, quer seja metáfora ou qualquer outra forma de estilo, comovemo-nos com a forma como iniciaste a tua intervenção: “Não vos posso ver, mas sinto cada um de vós no meu coração.” Aquele longo silêncio na sala fez-nos pensar na condição humana. Sabemos que, contigo, não existe fronteira entre ficção e realidade. Essa é a linha descontínua que te foi típica ao longo dos anos.

As tuas palavras provaram, mais uma vez, como és ostensivamente inteligente e, simultaneamente, poeticamente surpreendente e desconcertante. Não deixas de ser aquele colega e amigo provocador e, tanto na oralidade como na escrita, instigas sempre uma boa provocação e, com ela, a reflexão. 

Recordo, com a nitidez que só a amizade sabe devolver, o dia em que me falaste da ideia de O Berlinde com Eusébio Lá Dentro. Eu queria saber da polémica com o Benfica; tu querias falar sobre literatura, como se a polémica não tivesse qualquer impacto nos teus dias e noites. Literatura não gera conflitos. Muito pelo contrário: aproxima povos, pessoas e sonhos.

Seguimos conversando sobre um pedido especial da Isabel Ferrão Tiemroth. Serias a melhor pessoa para regressar ao vale do Zambeze e rever Kalizamimba. Aquele prefácio foi curto e directo. Com mestria e ligeireza exuberante, em estilo romântico, a autora resgata, das marcas do tempo dos prazos da Coroa no século XVIII, os testemunhos de resistência à penetração colonial por parte dos reinos ali estabelecidos, o papel dos Achicunda e sua organização militar. Era uma forma de afirmação da identidade cultural de um povo e de povos que passaram por eloquentes formas de miscigenação e apropriação de identidades culturais significativas.

O berlinde era, então, a segunda parte desse prefácio ao livro da Isabel. Tratava-se das narrativas e dos testemunhos dos últimos anos do tempo colonial e do período pós-independência de Moçambique. Aquilo que havias vivenciado em lugares tão diversos e tão diferentes entre si. Naturalmente, eu tinha todo o interesse em conhecer algumas dessas histórias, pois conheço alguns desses locais, porém, com outras narrativas e memórias. Chinde, Mocubela, Maputo, Mepanhira, Quelimane e Lisboa.

São histórias da nossa geração, que cada um de nós partilha com os mais jovens e com suas famílias. Episódios que evocam o esforço, as angústias e os sonhos dessa reconstrução nacional, tão distante dos ideais do pós-independência. Algumas vicissitudes dos jovens do 8 de Março, essa geração de Samora Machel e Graça Machel, que, com o melhor do seu talento, também ajudou a fazer a revolução, e a abrir caminhos para a educação, a cultura, a economia e, enfim, para um novo país com nova bandeira.

Foi notável, durante a nossa conversa, como tinhas os olhos acesos, como faróis de pesca nocturna, e contavas que, dentro daquele berlinde, “não era de vidro, Jorge, era feito dos tempos que nos abraçam e dos quais também fomos protagonistas”, encerravas pedaços inteiros de uma infância atravessada por soldados, por balas perdidas e por sonhos que cabiam numa caixa de fósforos. Falavas do Eusébio como quem fala de um irmão mais velho, alguém que te inspirou a ser rápido, não com os pés, mas com o pensamento. Vendo bem, nem sequer fomos de tantos futebóis.

Eusébio, esse nome gigante, que foi sementeira em tantos corações africanos, tornou-se, então, em teu livro, não apenas personagem, mas verdadeiro espelho. Convenhamos: um pretexto para contar e recontar Moçambique e suas peripécias; para chorar e rir da infância colonizada; para fazer da escrita uma pá e uma enxada. Enfim, querias muito que eu entendesse que continuas a cultivar memórias como quem lavra o futuro.

A bem da verdade, pelas tuas páginas e livros, sabemos, e somos testemunhas, que continuas exímio e incomparável nessa e noutras descrições. Teus livros têm sido muito do percurso deste país que ainda procura se reencontrar e se afirmar.

Voltemos à história e ao berlinde de Eusébio.

Por isso, quando o Sport Lisboa e Benfica decidiu, com a leveza de uma censura mal disfarçada, proibir a venda do teu livro, perguntei-me: em que berlinde é que o Benfica meteu a cabeça? O autor do livro O Berlinde com Eusébio Lá Dentro foi acusado, pelo grupo de advogados do Benfica, eventualmente por qualquer desinformação, de estar a utilizar indevidamente a imagem de Eusébio na obra. Para a capa do livro, pediste ao fotógrafo que captasse uma imagem do teu filho, de 18 anos, a jogar à bola. Portanto, desde logo, ficou provado que a imagem da capa do livro não era de Eusébio da Silva Ferreira, com quem Almiro jamais privou em vida, mas sim do seu próprio filho.

Os teus berlindes não carregaram apenas Eusébio no seu interior. Foram milhões de sonhos e vidas que se afirmaram e reescreveram as histórias e os limites deste jovem país, com novas narrativas, novas palavras, novos mundos possíveis. Não saberão que o pós-independência não se joga apenas em campos relvados, mas também nas livrarias, nos cafés, nos bairros onde a memória se faz verbo? Como é possível que um clube que foi símbolo de resistência e sonho para tantos dos nossos, agora recuse espaço à literatura que ousa reinterpretar os heróis, os mitos e os silêncios do império?

Neste ano em que comemoramos 50 anos da independência nacional, as tuas crónicas e livros não poderiam ser mais oportunos nem mais necessários. São um libelo contra o esquecimento, contra a desmemória, contra o vexame do alheamento. A tua mais recente colectânea, Memórias Marginais, é uma forma imponente de te posicionares contra a indignidade do desconhecimento e da omissão. Memórias Marginais ou, por outras palavras, o degelo, o estalar do gelo espesso, para quebrar um longuíssimo silêncio de quase cinco décadas. Uma desmemória de uma geração que viveu e testemunhou as aventuras e dilemas, as contradições e obrigatoriedades, o sonho azul vivido por adolescentes que, nalguns casos com apenas 17, 18, 19, 20 anos, assumiram responsabilidades imensas para fazer um país. Um país que, ao destruir o aparelho de Estado colonial, tentava refazer o sonho de Eduardo Mondlane, de Samora Machel e de tantos outros.

Para a história fica o registo: ao partilhar textos escritos de forma simples, sem a pretensão de um critério rigoroso, as experiências dos Oitomarcistas provam, com clareza, que Almiro Lobo não apenas se preocupa em enriquecer a consciência histórica de Moçambique, como rebusca nas consciências dos colegas aquilo que ainda resta de memórias cansadas, e agora aposentadas. Estes são os marcos de um Moçambique feito de rascunhos e reescritas, onde o passado ainda espreita nas esquinas, e o futuro tropeça nos mesmos buracos do ontem.

Almiro Lobo será sempre a casa onde os que vieram antes podem entrar de pés descalços e sentar-se sem cerimónia, porque sabem que ali, na tua escrita, há lugar para todos. Se me pedissem para dizer quem és, eu diria apenas: um jardineiro de memórias. Um homem que soube plantar livros onde antes só havia silêncio. Um amigo que, aos 65 anos, ainda joga berlindes com os miúdos da palavra.

Que este texto não te chegue embrulhado em papel, mas com as metáforas que nos ensinaste a usar e abusar, com o verbo com que os bons escritores embrulham os sentimentos. 

Quando a experiência humana atinge o limiar do inexplicável, a literatura torna-se um instrumento de sobrevivência diante do abismo. “O Epitáfio do Josemar Araújo e outros ateus do criador”, de Ernestino Maute, move-se nesse vértice de tensão, onde a loucura e a morte transcendem a função temática para operar como chaves hermenêuticas do colapso.

Nas entranhas da psique, onde a razão se dissolve e as reverberações do viver soam em ritmos que jamais se encontram, Maute impele o leitor a uma incursão audaciosa, rompendo o formato tradicional de livro de contos e propondo uma experiência literária intensa, na qual o absurdo e o trágico se entrelaçam como resposta à severidade do real. Tal como propôs Albert Camus em “O Mito de Sísifo”, “o absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo”, e é precisamente nesse encontro que a obra encontra a sua potência, expondo o desalinho entre o desejo e a realidade.

Cada narrativa é atravessada por metáforas de alto teor que abordam temas como fome, guerra, prostituição e o insólito, não como assuntos isolados, mas como sintomas de uma crise ontológica.

No conto que dá o título à obra, o gesto de Josemar, ao tentar registrar um jumento como filho, expõe a impotência das instituições e a tentativa de dar sentido à realidade num cenário de completo desamparo. Passagens, como a mulher que “se contorce em dores de luz” ou o epitáfio “escrito com tinta de óleo num pedaço de madeira”, materializam o sofrimento.

Maute constrói, assim, um espaço narrativo onde o trágico e o absurdo se encontram, configurando uma resistência poética que desafia as explicações satisfatórias. A sua obra confere subjectividades em permanente deslocamento, articulando elementos que moldam a experiência dos personagens e tensionam as normas sociais vigentes.

Em “O Louco Vitalício”, a figura do tio, que “persiste em tecer com palha o tempo”, desloca-se da patologia para uma espécie de lucidez alternativa, que confronta os códigos de normalidade. Aqui, ressoa a afirmação de Michel Foucault em História da Loucura, de que “a loucura, longe de ser uma anomalia, pode ser a resposta mais lúcida ao insuportável”, pois a obra parece reivindicar, através dessa personagem, a capacidade de enxergar o mundo com olhos que recusam a lógica instituída.

Já em “Os Enterros do Meu Pai”, a morte não actua apenas como fim biológico, entretanto como ruptura na continuidade temporal, afectando a percepção do narrador — como sugerem as “lágrimas que ensoparam a Bíblia Sagrada”. A memória aqui não se oferece como registro fiel, no entanto como movimento sinuoso, contaminado pela dor e pela tentativa de reconstrução. Nessa fluidez, Maute explora as zonas nebulosas da consciência, convocando o leitor a escutar o que resiste no íntimo.

Entre os méritos mais marcantes da obra destaca-se a criação de personagens singulares que revelam com agudeza as múltiplas faces da existência. A expressão “Desde que se conhece como pessoa, nunca foi gente…”, encapsula o vazio que habita aqueles que vivem a margem esboçando com lirismo quem nunca teve lugar no mundo.

Embora a escrita do autor evidencie um domínio expressivo notável, por vezes a metáfora parece mais arquitectada do que sentida, emergindo como efeito de estilo dissociado da experiência emocional dos personagens. Essa tensão entre forma e vivência também se manifesta na construção das vozes narrativas, cuja homogeneidade compromete a intensidade e subjectiva que a obra propõe explorar.

Ainda assim, é justamente nesse esforço de empurrar os limites da linguagem e de tensionar as convenções do enredo que o autor contribui para um exercício literário ousado e instigante no panorama moçambicano.

No fim, o que a obra de Ernestino Maute recorda é que a literatura não apaga o abismo, entretanto, mostra que é possível habitá-lo sem perder a consciência. E, talvez por isso, como o autor afirma, “é difícil lapidar uma pátria na luz”, porque há na escrita o gesto de quem resiste, fazendo da palavra uma arma contra o silêncio. Portanto, o Epitáfio é mais do que o último gesto sobre a morte, ou seja, é a primeira denúncia contra tudo que matou antes do fim: a fome, o abandono, o vício, a loucura institucionalizada. Com isso não se escreve para lembrar quem morre, mas sim para questionar quem deixou de morrer.

O Vitorino Ubisse Oliveira, porque os mistérios do criar são indagáveis, não inventa histórias, ou, pelo menos, não parece que o faça. Ele escuta-as, sim, com a paciência que os anjos hão de ter para com os humanos; recolhe-as na vizinhança, nas praças, nas conversas que se atropelam ao crepúsculo, um pouco à maneira Lília Momplé, que também tem o dom de ouvir o mundo para depois o desenhar em palavras, sem grande vanglória, sem fogos de artifício, que a verdade, essa, não precisa de muito brilho para ser vista.

O espaço onde se desenrolam os dramas de “Mataram o nosso Chefe”, dramas pequenos e grandes, é quase sempre o rural, o campo, as casas de alvenaria, talvez as mais sólidas, as que resistem ao tempo e às intempéries da vida, onde os camponeses, ou diria, a sociedade tradicional, no sentido mais clássico, aquele que é caro a Émile Durkheim, vive e se desdobra em toda a sua complexidade. Assim, as narrativas acontecem em locais como Macuacuá, Chenapamimba, Mbonguene, Magumbela e a Vila Sede da Gorongosa, nomes que parecem respirar a terra, a autenticidade.

Há que reconhecer, contudo, algumas excepções, por via de um acaso ou de uma necessidade da narrativa: os contos “E Finiosse ficou por lá” e “A minha filha não casa com um pagão” ousaram aventurar-se pelas cidades, uma delas (indeterminada) na Alemanha, quem sabe se para provar que a estupidez humana e os corações perdidos não têm geografia, e a outra, a Beira, em Sofala, onde, coincidentemente, nasceu o autor.

As personagens de “Mataram o nosso Chefe”, por seu turno, são um mosaico humano complexo. Oscilam entre os instruídos, que talvez saibam mais do que convém para o seu próprio sossego, e os não escolarizados, que, por vezes, sabem mais da vida do que os instruídos. Entre funcionários de ministérios que assinam papéis e que talvez se julguem importantes, e executivos que movem mundos de dinheiro e de aparências, e militares que defendem o que nem sempre se entende. Uma tipologia vasta, para que ninguém se sinta esquecido no grande palco da vida, onde todos desempenhamos o nosso papel.

A temática dos oito contos é um mergulho (“étnico”, centro e sul) no campo cultural moçambicano, nas veias do interior, nas suas veias mais profundas, nos costumes e hábitos que tecem o quotidiano. E se alguns insistem em afirmar que se trata somente do local, que o façam, mas que não se esqueçam que as paixões, os amores, as traições, esses são universais. O amor, por exemplo, trespassa também as oito narrativas como um fio invisível, ou um pano de fundo que nunca nos abandona.

No conto “E Finiosse ficou por lá”, para além do contraste evidente entre as cidades, uma daqui, a outra de além-fronteiras, o amor é o pretexto para que Finiosse se perca na Alemanha, abandonando a família à pobreza, não por maldade, mas por conta de uma doença inventada que, por vezes, nos empurra para onde não queremos ir. “A Ira do Homem”, por sua vez, não hesita em tocar nas feridas da poligamia e da infidelidade, assuntos que inquietam, ainda hoje, as almas mais puritanas. “Pitamybyade” trata dos ritos de iniciação/purificação, tema que Carlos Paradona Roque Rufino também soube explorar em “Pitakufa”, e com ele os conflitos culturais que se sucedem. “Ligossi” e os restantes contos andam à volta da cultura como fonte de conflitos, pois a cultura que nos une é, por vezes, a mesma que nos divide. “A Ira do Homem”, “Pitamybyade”, “Mataram o Nosso Chefe”, “Duplo Lobolo” e “Capitão Mponha” debruçam-se sobre as infidelidades e as suas consequências multifacetadas, revelando as dores e as ironias da vida afectiva, que, muitas vezes, é mais labirinto que caminho.

Mas há algo mais em “Mataram o nosso Chefe”, algo que nos faz sorrir com um riso um pouco céptico, talvez, um riso que não é negro nem satírico, mas de um humor ingénuo, quase fotográfico, como se a máquina captasse o absurdo da condição humana, o humor que nasce da cultura de cada um. Vejam, por exemplo, a tirada das personagens do primeiro conto, ao acharem uma tamanha estupidez deixar Moçambique, terra de tantos rios, para ir ver (como turistas) um riacho na Alemanha; ou os múltiplos e curiosos desejos da Zinha, a grávida do terceiro conto, que em plena Maputo pensava em comer mbewas (ratito da machamba), como se o corpo soubesse mais que a razão e o desejo fosse uma fome insaciável que não se aplaca com iguarias de supermercado; ou o Jonasse, aquele que acha que o xitique foi invenção do diabo para desviar os dízimos da igreja. Por último, o Vovô Rele, que num acesso de fúria deserdou o neto Madalito (“madala” significa velho), por este ousar comer os testículos de cabrito, iguaria que por norma pertencia ao ancião, uma lição de hierarquia e de sabor que muitos de nós talvez nunca compreendamos.

O narrador de Ubisse em “Mataram o nosso Chefe” é a cereja no topo do bolo; trata-se de um narrador-personagem com um tom proverbial, que nos acompanha ao longo dos oito textos, como um amigo que nos conta histórias curiosas e trágicas numa mesa do bar. Ao longo da obra, não são raras as vezes que ele, o narrador-personagem, nos presenteia com uma máxima, um provérbio, uma verdade inconveniente ou um conselho disfarçado que nos faz parar e pensar sobre a suposta sabedoria do mundo: “A maioria é que vence” (1), “O preço da traição é alto” (2), “É uma fase da vida. Tudo passa” (3), “O ópio é do povo” (4), “Ninguém será tentado acima do que pode suportar” (5), “As mães sabem de tudo” (6), “O trabalho dignifica o homem” (7), “Onde morre um rei, fica um rei” (8), e muitas outras (“bíblicas”). São máximas que nos fazem questionar quem afinal inventou essas verdades e quem as segue cegamente.

E sim, já o havia dito antes, mas é bom repetir para não restarem dúvidas: as narrativas de “Mataram o nosso Chefe” são muito locais, a despeito de alguns quantos rasgos de “globalidade” que tentam fazer a ponte com o resto do mundo, o desenvolvimento ou a tecnologia (algumas personagens usam o WhatsApp e o Facebook). Ubisse não se assemelha a Mia Couto, que aportuguesa as línguas maternas e os pensamentos locais, tornando-as quase universais para consumo externo; nem a Suleimane Cassamo, n’ “O Regresso do Morto” (quem o conhece, sabe do que falo). Ubisse fá-lo com a inserção repetitiva, sem a necessidade de um glossário, de palavras locais: nomes de bebidas, de alimentos, de ritos, de status sociais, convidando-nos a adentrar no texto sem guia nem tradutor. Uma coragem ou uma teimosia, quem saberá dizer?

Há, contudo, um pormenor, uma particularidade que me deixou um amargo de boca: a introdução, no último conto, da mítica figura “Maria Zamuribodzi” (Maria uma Mama), que, reza a lenda, durante a Guerra Civil, amedrontou as tropas governamentais. Um potencial imenso, que infelizmente se revelou raso, quase um esboço que desapareceu sem deixar grandes vestígios na história.

Em suma, a obra “Mataram o nosso Chefe”, do Ubisse, é um espelho, ou diria, uma fotografia nítida da nossa cultura, das peripécias da nossa sociedade tradicional (e moderna), das suas doenças, sim, as suas doenças, as quais são muitas: a ignorância, a educação deficitária e desigual, o lado sombrio dos rituais de passagem e purificação, a intolerância social-cultural-religiosa, a pobreza e a guerra. É um retrato sem retoques, quase uma crítica social (quase!). Creio eu que, com mais maturidade e o tempo que a tudo transforma, Ubisse poderá ser um escritor, no sentido etnográfico ou sociológico, muito importante para a literatura nacional, um cronista da moçambicanidade, aquele que nos recorda quem somos e o que podemos ser.

Sobre, o tempo das narrativas, preferi não falar, afinal, é sobre o nosso tempo que escreve o autor. E sobre o chefe morto, esse que, felizmente, não é o camarada chefe das ancas salientes do Sérgio Raimundo, comprem o livro, leiam e descubram por vós mesmos como ocorreu o assassinato. 

Afinal, a verdade é, também, um prato que se serve frio e a curiosidade é o primeiro passo para a sabedoria, não é mesmo?

Muito obrigado por vossa paciência e atenção. Que o chefe que faleceu descanse em paz e que o Vitorino Ubisse Oliveira continue escrever as nossas histórias, por a literatura ser isso mesmo, um convite a ver o mundo com outros olhos e a questionar o que nunca havíamos ousado questionar. 

 

*Texto de apresentação do livro, Maputo, 3 de Junho de 2025

 

Através da direcção  de campanha da lista de candidatura de “escritores unidos pela literatura”, nesta nota coordenada pelo seu Director de Campanha, o escritor Izidro Dimande, reafirmamos o nosso comprometimento de participação no próximo pleito eleitoral da AEMO,  guiados pela inabalável visão de uma Associação dos Escritores  Moçambicanos  autossustentável, com uma clara distinção administrativa entre os poderes do Secretário-geral e do Secretário-geral Adjunto, que promove e pratica a responsabilização nas actividades; uma AEMO  livre de exclusão e subalternização do escritor pelo escritor; valorizar o literário sobre o extraliterário, desencorajando o clientelismo e o paternalismo; que respeita a diversidade de ideias e opiniões e que pratica boas relações com agremiações congêneres e fundações de cariz artístico-cultural e não só,  na base do princípio do mútuo benefício.

 

REFORMA INSTITUCIONAL DA ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES MOÇAMBICANOS

Liderados por um candidato focado na busca de soluções reais e  dotado de um profundo conhecimento das potencialidades e fragilidades da AEMO, o escritor Aurélio Furdela,  somos realmente uma candidatura de escritores unidos  pela literatura,  pretendendo conduzir uma profunda reforma institucional, que começa pela elaboração e aprovação nos primeiros  três meses do mandato, de um Regulamento Interno,  capaz de, em primeiro  lugar, levar efetivamente à limitação dos poderes  do secretário-geral, garantindo deste modo o pleno exercício de funções  administrativas ao Secretário-geral Adjunto, facto que contribuirá para conferir melhor desempenho à estrutura administrativa da AEMO. E de modo a desconcentrar das mãos do Secretário-geral a gestão das oportunidades de participação em eventos no exterior, incluindo através de convites destinados  à colectividade,  o Regulamento Interno deverá condicionar qualquer despacho a  emissão do parecer do Vogal de Programas, entre outros aspectos como  a obrigatoriedade de alocar parte das receitas institucionais a acções que  beneficiem directamente aos membros. Neste ponto em particular, por exemplo, pelo menos três meses da renda advinda do Centro Social devem garantir a participação moçambicana na Feira do Livro de Lisboa, com despesas suportadas integralmente pela AEMO. Por outro lado, devemos alargar a base de receitas, envolvendo os membros em actividades de empreendedorismo literário,  através de um braço económico da AEMO que actuará a nível das PME’s,  prestando ao mercado serviços de produção de conteúdos e realização de eventos. Abandonando essa velha chaga de que a literatura não gera dinheiro, a AEMO se tornará autossustentável. Temos que garantir ainda uma acção social inclusiva e sustentável a favor dos membros, algo que no nosso manifesto tratamos com maior propriedade e que por razões estratégicas não podemos por ora avançar como faremos.

 

RECONFIGURAÇÃO DO PANORAMA LITERÁRIO MOÇAMBICANO

A nossa candidatura propõe-se, entre outras medidas,  incentivar a prática regular da crítica literária, a nível da imprensa e da academia, de modo a garantir a avaliação qualitativa das obras literárias. Deste modo, a AEMO deve também encorajar o exercício regular da crítica à crítica literária, de modo a garantir  rigor acadêmico  e da honestidade intelectual, inclusive a nível da crítica jornalística. Se somos uma associação de escritores, temos que estimular o debate de ideias, ao mesmo tempo que promovemos e valorizamos os escritores moçambicanos em função da obra literária  e nunca  de aspectos extraliterários alheios à própria literatura. O escritor  deve ser valorizado pelo texto que produz, pelo    activismo literário que pratica e  reconhecido pelo impacto da sua obra  na sociedade.

 

DEVOLVER A AEMO AO SEU LUGAR DE PROA NA REALIZAÇÃO DE EVENTOS LITERÁRIOS

Candidatamo-nos para assegurar o lançamento interprovincial dos livros lançados pelos membros da AEMO, de modo a garantir a circulação do livro no país. Relançar a realização das jornadas literárias, de modo a incentivar o exercício da escrita no seio dos jovens das províncias e distritos. Devolver a realização de eventos literários à biblioteca da AEMO, caso da “Biblioteca Viva”, de modo a incentivar a participação das camadas infantis nos eventos da agremiação. Recuperar a realização de lançamentos glamorosos de livros de autores moçambicanos no espaço físico da AEMO.

 

ACTIVIDADE EDITORIAL A FAVOR DA JUVENTUDE

 Em Moçambique verifica-se um crescente interesse pelo exercício da criação literária, com maior enfoque para os jovens, todavia não têm tido acesso à possibilidade de publicação do primeiro livro pelas editoras nacionais, enfrentando ainda dificuldades para aceder a revisores experientes, e acesso ao patrocínio para efeitos de impressão gráfica. Candidatamo-nos deste modo para   fomentar a publicação do primeiro livro de autores sem obra publicada em livro,  com qualidade desejável, através da reactivação da “Coleção Início” da AEMO que deverá contar com o suporte do Gabinete técnico da AEMO, que é nossa prioridade reativá-lo. Instituir os seguintes  prémios de  revelação, com direito a publicação de livro e um valor pecuniário de cem mil meticais: Prémio Literário Regional Norte – Marcelino dos Santos; Prémio Literário Regional Centro – Heliodoro Baptista e Prémio Literário Regional Sul  – Isaac Zita. O nosso candidato tem experiência de realizar estas e muitas outras actividades na AEMO, que pretendemos hoje revigorar, contando com o apoio e confiança dos membros da agremiação.

 

12 de Maio de 2025. O norte do Burkina Faso sangra. Mais uma vez. Como sangra o norte de Moçambique, como sangrou o Ruanda, como sangra a Nigéria, o Mali, a RDC e qualquer pedaço de terra onde o cheiro do ouro, da droga ou do petróleo se misture ao sangue de jovens pobres. Dezenas de civis e militares foram executados no domingo na cidade de Djibo, cercados e abatidos como se as suas vidas fossem meros grãos de areia na vastidão da indiferença africana e internacional. Segundo às notícias que circulam e da fonte Lusa. vieram de motorizadas e viaturas, centenas deles, os chamados “extremistas islâmicos”, atacando destacamentos, esquadras e lares de famílias anónimas. Mataram homens na frente das esposas e filhos. Deixaram corpos no chão quente da terra vermelha de África. O Burkina Faso é apenas um dos palcos de uma guerra longa, suja, e que quase sempre não tem nome nem rosto. E quando tem, não são os rostos certos.

Por que África? Por que sempre aqui? Quem ganha com essa dor? E por que os nossos mortos não têm memória?

A pergunta que me atormenta não é só “por quê?” — mas por quem terrorismo em África, para quê e até quando?

A guerra invisível tem nomes. Muitos. Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI): herança das guerras sujas da Argélia nos anos 90. Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS): explosão do caos após a queda de Kadhafi.

Boko Haram, um movimento que começou denunciando a corrupção na Nigéria e terminou como mercenário religioso de guerras subterrâneas. Ora Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) a aliança jihadista que unificou facções para dominar o Sahel. Entre outros Burkina Faso, Chade, Congo, Nigéria, Moçambique e outros.

Mas raramente contam de onde vieram, quem os ensinou a manejar as armas, quem os financia, e o mais importante: quem ganha com a sua existência. Esses grupos dizem lutar por Deus, mas alimentam-se de ouro, tráfico, miséria e abandono. Alguns começaram como movimentos locais de autodefesa. Hoje são milícias transnacionais armadas até os dentes, em motos ou pickups, com GPS, drones e metralhadoras ocidentais.

Mas a verdade é que não nasceram do nada. Foram produto de décadas de abandono, má governação, manipulação étnica e religiosa, e sobretudo da geopolítica internacional que continua a tratar África como um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas.

Esses grupos não surgem do nada. São filhos bastardos da Guerra Fria, do fracasso dos Estados pós-coloniais e das intervenções “humanitárias” que destroem mais do que salvam. A Guerra Civil da Argélia (1990–2002) deixou desertos cheios de combatentes desempregados, que se espalharam. Quando o Mali caiu em golpe em 2012, o Sahel ficou exposto. O deserto tornou-se estrada da morte. Em 2011, a NATO destruiu a Líbia e, as armas circularam livremente. Armas pesadas, mísseis e milhares de soldados tribais dispersaram-se pelo Sahel. As fronteiras coloniais artificiais feitas a régua e compasso por franceses e britânicos facilitaram. Assim nascia o inferno onde também hoje eterniza norte de Moçambique.

A religião é só a capa. Por dentro, há ouro, urânio, petróleo, tráfico humano e cocaína vinda da América Latina. O Sahel é rota de tudo. E quem controla a rota, controla o poder.

Hoje, grupos “jihadistas” controlam zonas ricas em ouro, urânio, diamantes e tráfico de drogas, enquanto as capitais africanas fingem governar territórios onde nunca colocaram os pés.

 

Por que sempre África?

Porque África continua colonizada, mesmo sem colônia. Porque os Estados são frágeis, porque os sistemas de ensino são ruínas, porque metade da população é jovem, sem futuro, sem emprego, e a jihad aparece como única via de sentido e redenção.

As fronteiras foram desenhadas com régua por europeus. Dividiram povos, juntaram inimigos, e criaram bombas-relógio. Agora explodem.

 

África tornou-se o território perfeito para este tipo de guerra porque aqui o Estado é frágil, a educação falida, as forças armadas mal pagas e as comunidades divididas.

As potências coloniais nunca deixaram de facto os seus interesses. Mantêm-se presentes nos negócios de segurança, petróleo, mineração e consultoria militar. Precisam de zonas instáveis para justificar presenças militares e negócios opacos.

Aqui, o jovem não sonha com a universidade. Sonha com uma Kalashnikov e a promessa de salário mensal ou virgindades prometidas no paraíso. Num continente onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos e vive sem emprego, o terrorismo floresce como planta nativa.

 

Quem financia? Quem ganha?

Por detrás das siglas jihadistas estão rotas de cocaína sul-americana para a Europa, tráfico de armas da Líbia, e mineração ilegal em zonas sem lei.

Os chamados “extremistas religiosos” controlam minas de ouro e extorquem empresários locais.

Vendem segurança onde o Estado não chega. Alguns governos africanos mantêm acordos secretos para evitar ataques a certas áreas.

Ninguém sustenta uma guerra por décadas sem dinheiro. Os financiadores vêm do tráfico de drogas, do resgate de sequestros, da mineração ilegal. Mas também de grandes silências: de Estados que fingem não ver, de multinacionais que exploram recursos em zonas de conflito, de alianças que usam os grupos armados como peões em jogos maiores.

Companhias internacionais de segurança, empresas de exploração de recursos naturais e traficantes internacionais movimentam milhões com esta instabilidade.

E, claro, países estrangeiros mantêm bases militares sob o pretexto de combater o terror — quando o verdadeiro interesse é garantir acesso estratégico a recursos e controlar rotas comerciais.

Na África a morte tem patrocinadores. A miséria tem acionistas. No fundo, este terrorismo é a versão moderna da lógica colonial: dividir para reinar, enfraquecer Estados africanos, garantir zonas de instabilidade que justificam interferência externa e impossibilitam o crescimento de governos fortes.

Essa guerra é também filosófica. Ela reatualiza o controle colonial sob nova roupagem. A miséria programada, o caos funcional, o terrorismo como estratégia de contenção populacional.

Matam-se jovens pobres para que o sistema rico sobreviva.

A religião é instrumentalizada. A identidade é manipulada. A violência torna-se o idioma das relações internacionais. E o africano comum, sem voz, é o sacrifício contínuo em nome de uma ordem que nunca o inclui.

A religião é apenas um pretexto. O verdadeiro motor desta guerra é econômico e político.

As populações locais tornam-se prisioneiras entre o exército nacional corrupto, mercenários privados e jihadistas, sem saber quem é inimigo e quem é salvador.

Nestes estados de conflitos os chefes dizem que combate o terrorismo. Mas o que se vê é militarização, censura e paises onde jornalistas e ONGs são impedidos de reportar. As mortes desaparecem dos comunicados. A dor é apagada dos discursos oficiais.

As jutas militares não são solução. São mais um sintoma. A população continua refém. Sem Estado, sem proteção, sem futuro.

 

E Se gritássemos mais alto?

Chega de silêncios. Chega de aceitar que a África seja o palco perpétuo da dor do mundo.

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem.

A maior tragédia africana não é só a violência. É o silêncio intelectual e académico cúmplice.

Universidades discutem teorias europeias enquanto aldeias desaparecem. Escritores e filósofos calam-se para não incomodar governos militares ou embaixadas financiadoras.

África precisa de uma geração que denuncie, que acuse, que escreva, que nomeie os mentores desta guerra invisível.

Que diga alto: não é guerra santa, é guerra pelo ouro, pela droga e pelo controlo geopolítico. E que convoque a filosofia, a história, a antropologia e a política para desmontar esse teatro

macabro.

A guerra invisível é real. E só deixará de existir quando a pensarmos de frente, quando a nomearmos, quando a desmontarmos. Porque o terrorismo é uma construção. E tudo o que é construído pode ser demolido.

 

Para se identificar o espírito nacionalista de uma obra literária é necessário levar em conta alguns critérios essencias, como por exemplo, o critério linguístico, que não é infalível, o critério territorial e a cor local.

A obra literária não é um espelho do seu país? Os escritores têm um compromisso social no que diz respeito à representação daquilo que os seus países têm e do quotidiano da sua nação.

Não quero com isso dizer que as obras devem sempre optar pela cor local, até porque Bernd (1992, p.13) entende que a literatura pode nutrir-se da seiva que lhe oferece a sua região, contudo, conclui que o excesso de cor local pode vir a empobrecê-la.

Antes de trazer à superfície as amostras dos elementos que representam a nossa cor local em “A mulher sobressalente”, julgo ser imperioso apresentar uma base teórica que gira em terno do conceito e ideia de cor local. Por um lado, Ziberman (2014. p.14) define cor local como sendo a produção literária baseada no conteúdo nacional. Ou seja, é o processo em que a obra literária veste-se das cores do país. A autora conclui que este é único critério para que se possa produzir uma literatura autenticamente nacional, porque é imperioso que as obras tenham toques nacionais.

Por outro lado, Cardoso (2014) diz que cor local significa uma escrita que explora o discurso, a língua, a vestimenta, que em algumas regiões, ainda não tenha sofrido o processo da globalização, os hábitos de pensamento e a topografia peculiares de uma região.

Para Matusse (1998. p.74), estudar a moçambicanidade literária, enquanto construção (de uma identidade), não significa uma total arbitrariedade na escolha de elementos pelas quais é construída. Caminhos são procurados com o intuito de firmar uma identidade, contudo, os autores moçambicanos, movidos pelo desejo de representar a sociedade moçambicana, constroem a sua imagem.

No texto “O linchamento dos dólares”, temos representado o bairro da Munhava, pertencente ao município da Beira, onde o personagem Valdemar chora as dores da pobreza, à semelhança de muitos outros (olhando para a realidade empírica). Se serve de consolo, Valdemar não pode esquecer-se de que “[…] pobre pode perder tudo menos o sonho.” (pág.9). E o grito que emerge em língua bantu-moçambicana Cindau, quando na zona do Valdemar é capturado um ladrão “Mbava…Mbava…Mbava…” (pág. 13). Praticando justiça pelas próprias mãos, como temos visto nos telejornais, os munhavenses, à semelhança de outras partes do país, lincharam o “Mbava” (ladrão). Não é essa uma das nossas realidades?

No texto a “A mulher sobressalente”, temos representada a ideia de lobolo, como um acto cultural, nisto tudo, emerge também a ideia de ser este acto, uma condenação para algumas

mulheres, em sociedade conservadoras. Vemos no texto que a personagem Quinita pagou o preço pela irmã mais velha, lobolada, que só fazia meninas, engravidando do seu cunhado que tanto queria um menino. Mesmo em prantos, o pai de Quinita, que gastara o dinheiro do lobolo, disse, firme, que é assim como manda a tradição. “Isto é tradição e pronto.” (pág.43). Surge, daqui, a ideia de que a sociedade actual tem de entender que, a tradição, quando não salva condena.

Este acto, representado nesta obra literária, levanta uma interrogação: como fazer chegar a informação às comunidades e culturas que ainda praticam este acto (e vários outros) contra a mulher (menor de idade) de que é errado, e que estamos numa nova era. Em algumas regiões (la “no mato”) deste nosso belo Moçambique não há “magezi” (energia eléctrica) para terem televisor e acompanharem as mudanças do mundo, nem jornal chega lá.

Não se pode bater o martelo contra culturas que não sabem que aquilo que fazem já é errado. Mas pode condenar-se àquele que não faz chegar a informação.

São aludidos na obra “A mulher sobressalente”, espaços físicos como Praia Nova, Grande Hotel, e usadas expressões das línguas bantu-moçambicanas, como por exemplo, para além de Mbava e lobolo, temos xitique e maheu.

É possível notar que, os contos deste livro carregam consigo a aura da moçambicanidade. Até porque, dificilmente, uma obra literária se distancia da vida e do quotidiano do autor. Se

fizéssemos uma análise biografista, veríamos que, o autor empírico desta obra, Dany Wambire, a semelhança de muitos outros, possui em sua obra traços daquilo que vê e vive no dia-a-dia…

 

Bibliografia

Bernd, Zila. (1992). Literatura e Identidade Nacional. São Paulo: Editora UFRGS

Cardoso, Eduardo. (2014) Uma nação para ser vista: Desvelando o Tempo e o Espaço Nacionais por meio da Cor Local na Historiografia Oitocentista.___

Matusse, Gilberto. (1998). A Construção da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulane Ba Ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária

Wambire, Dany. (2020). A mulher sobressalente Beira: Fundza

Ziberman, Regina. (2014). Cor Local e História da Literatura._____

 

O sangue dos nomes/é o sangue dos homens/Suga-o também se és capaz/tu que não os amas.

Craveirinha, José. In Nunca mais é sábado: antologia de poesia moçambicana (NS:APM), p. 72.

 

Fui convidada por Nelson Saúte, para intervir no seu programa “Nunca mais é sábado”, uma tertúlia com o nome homónimo da antologia que este escritor e jornalista organizou em 2004; um livro que reitera, através do seu título, um poema de Rui Knopfli.

O cartaz do programa anunciava: “Nelson Saúte conversa com Sara Jona Laisse sobre os poetas de Maio”, tendo, entretanto, no convite, o seu editor mencionado “poetas de Maio”, consagrados e da antiga geração de escritos em Moçambique; decidi, nessa sequência, ser importante acrescentar outros-novos poetas, abrindo espaço para o alargamento do convívio literário entre diferentes gerações, até porque “todos os nomes contam”, tal como o refere José Craveirinha, na epígrafe acima, que inicia o seu poema “Hino à minha terra”. Há, além disso, em vários lugares do mundo, antologias que coligem autores consagrados e não consagrados, convívio que é salutar. A diversidade é sempre uma riqueza.

Em Moçambique, durante muitos anos, ficaram conhecidos como “poetas de Maio” cinco escribas, nomeadamente: José Craveirinha (JC), Glória de Sant´ Anna, Kalungano, Sérgio Vieira e Heliodoro Baptista (HB). Provavelmente houvesse outros, mas esses pontificavam a “Casa Literária”. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, hoje, podemos incluir no grupo dos “poetas de Maio” Hirondina Joshua (HJ), Japone Arijuane, Lino Mukurruza, e Lahissane, que se estrearam nos anos 2000.  Há muitos mais, no entanto, estes foram um exemplo colocados à conversa naquele programa.

O meu trabalho de dinamização literária tem me impelido a encontrar caminhos para a análise, interpretação e compreensão de obras literárias, sobretudo, de prosa. Pouco trabalho a poesia, por esta, para mim, ser para deleite. Estudo-a em casos imperiosos, os que exijam uma reflexão que se pretenda aprofundada. Anuí ao convite à tertúlia, decidindo verificar de que modo é que os “poetas de Maio” poderiam dialogar entre si, através das suas obras, até porque, tanto o programa, quanto a antologia acima mencionada são o reiterar de interações que se podem estabelecer, através da literatura, em diferentes textos. Obviamente, anotei algumas questões estéticas relativas aos trabalhos dos poetas a que aludi.

O diálogo que me propus abordar baseou-se na ideia de explicação da técnica da intertextualidade que pode ser realizada por diferentes vias: alusão, referência ou transcrição de excertos ou fragmentos de um texto no outro, de palavras, de fragmentos ou de títulos análogos ou exactamente os mesmos, ressonância de ideias, entre outros.

 

  1. Dos antigos poetas de Maio

 Iniciei, então, a animação da tertúlia chamando a atenção à leitura do poema intitulado “Intertextualidade”, da autoria de Filimone Meigos. Esse poema encontra-se antologiado no livro Nunca mais é sábado, pp. 521-523 e consta do livro Poema Kalash in Love. Filimone Meigos é um poeta de Março, entretanto, foi citado, por ter invocado, por via da intertextualidade, no seu poema já referido, os “antigos poetas de Maio”.

Trata-se de um poema epigrafado com uma alusão a um caderno de nome “Tindzolé”, do livro karingana ua karingana, de José Craveirinha, seguido da palavra tambor, que atravessa grande parte da obra desse autor, mais a obra de Kalungano,  este último, também aludido através do seu poema “Canto do amor natural”.

O poema está escrito em português, com recurso a utilização de lexemas em línguas bantu, tal como acontece em alguns poemas de JC. No poema “Intertextualidade”, o poeta Craveirinha é refererido através dos poemas “Karingana ua karingana”, “Mampsincha”, “Poema do futuro cidadão”, “Saborosas tanjarinas d´Inhambane”, “Sia-vuma” e “Subida”. Acrescenta-se a esses poemas a menção à rua Araújo, também, cantada por Craveirinha, mais a crítica relativa ao custo de vida, manifesta no poema “subida”, ao afirmar: “Ai a passividade animal”, p. 523. Há outras alusões.

Heliodoro Baptista é rememorado, através da alusão à aceitação da diferença e de modos de pensar, com recurso à invocação de fragmentos textuais, nos quais Meigos refere: “[…] Pensar que o vermelho dá a mesma sensação a todos?/Há os que usam cores não convencionais” […] p. 523. Tratou-se, neste caso, de homenagear HB, um exímio defensor da democracia.

Sérgio Vieira é lembrado através do seu poema intitulado “Poema para Eurídice negra”, no uso que Meigos faz, quando refere: “Eurídice negra: que tal ficasses duma vez por todas às riscas?”. Ficar às riscas sugere ser uma construção de Meigos, para demonstrar as diferentes cores e tonalidades que se pode ser, no mundo. cfr. p. 523 (aspecto que dialoga com as ideias de HB). Entretanto, vale acrescentar que, no poema de Sérgio Vieira, Eurídice, a negra é enaltecida num contexto de exaltação à África, com toda a diversidade que a caracteriza, daí a utilização da expressão “às riscas”, que lembra diversidade. Vale acrescentar que o poema de Sérgio Vieira canta com amor e esperança (dias melhores), a beleza dos diferentes países africanos que poderiam ter tido um outro percurso, se não tivessem sido escravizados.

O poema “Maternidade” da autoria de Glória de Sant´Anna, em Nunca mais é sábado, (p.134), diz nos versos que seguem: “ […] dos nossos ventres altos,/os filhos que brotarem/nos chamarão com a mesma palavra” […]. Estes são os desejos do sujeito poético criado pela autora, são retomados por Meigos: em jeito de ressonância do pensamento representado no poema “Maternidade”, tal como se pode ler em “Intertextualidade”: “…se a minha mãe plantou uma árvore, essa árvore/é muita e até sempre, e se deleita a bambolear-se belecando-nos/ numa errepeemidade sui generis que seus frutos têm o sabor destas/gentes que somos nós/obreiros naïves da nossa própria existência […]. Se nos recordarmos do dito por Glória de Sant’Anna, fica a ideia de que as mães são sempre mães, iguais a si próprias e iguais a qualquer outra mãe, de qualquer lugar do mundo. De algum modo,

Com excepção de JC, os poetas mencionados têm sido homenageados, de modo escasso, em Moçambique. Entretanto, vale recordar que todos eles, à excepção de Glória de Sant´Anna, povoam a memória dos moçambicanos, a partir do trabalho que é realizado pela Escola, por serem cânone literário ou seja, por fazerem parte dos textos obrigatórios no Ensino.  De todos eles, José Craveirinha é o mais estudado e, nos dias que correm, o grupo musical constituído por D´Manyssa e outros, tem musicado os seus poemas. Refira-se que o cânone faz parte da tradição que se pretende transmitir a determinada sociedade.

 

  1. “Novos poetas de Maio” e seu diálogo com os antigos

 […] É eu poder dizer-te aquilo que sou/e não aquilo que tenho/exercício de espirito/ou maneira de estar, /consuetudinários,/ou seja costumeiros, não porque somos filhos do rei/mas porque queremos ser netos […]

Meigos, Filimone. In NS:APM p.522. (o negrito é meu).

Do conjunto dos “novos poetas de Maio”, destaco, a seguir, alguns daqueles que, à semelhança do que se pode aprender a partir da epígrafe desta parte do texto, prestam atenção à tradição literária, “são consuetudinários […] costumeiros” ou, por outra, capazes de guardar memórias literárias dos seus predecessores. São os “netos”, aqueles que antes ou durante a o seu processo de escrita, leem os que os antecederam na escrita. São eles: Hirondina Joshua, Japone Arijuane, Lino Mukurruza e Lahissane. mais haverá, certamente.

Esses poetas tiveram uma iniciação literária baseada em movimentos de dinamização literária e de oficinas de literatura. Há, neles, a preocupação com o “lapidar a palavra”, de modo criativo, mas, também, de  amplificar a cultura estética que os precede, através da técnica da Intertextualidade. Evidencio-os pelo diálogo que estabelecem com os “poetas de Maio” mencionados acima.

Começo por apresentar Hirondina Joshua, que é autora das obras: Os Ângulos da casa (2016), prefaciado por Mia Couto; Como Um Levita À Sombra dos Altares (2021), prefácio de António Cabrita e Córtex (2021), que leva o prefácio Joana Bertholo. Tem trabalhos em co-autoria nacional e estrangeira  e está antologiada no país e no estrangeiro.

Uma vez que este texto se baseia na intertextualidade, vale recordar que ao estilo do sujeito poético criado por Eduardo White, em Janela para o oriente, sujeito que vê (ou imagina) o mundo a partir da janela do seu quarto; na obra de HJ, o sujeito apreende o mundo, ao seu redor, a partir dos ângulos de uma suposta casa. Especificamente, HJ tem poemas que sugerem a leitura do interior de uma casa, depois outros que revelam a saída desse interior, para o exterior. Leiam-se os poemas “1”, “Alto Maé que mora em mim” e “Fuga em Ré Menor”. Acrescentando, leia-se o poema “2”, do caderno “os ângulos da casa”, da já referida obra:

Como se estivesse num quarto todo desarrumado, gavetas/postas ao tecto, janelas ao chão, e o chão fosse parede, e/ a roupa estivesse estendida dentro do coração, que é a/ lareira gélida. Essa porta abrirá ao abismo, mas será um/abismo do abissal, onde se vê o fundo desse quarto, antes/ de ser aquilo. H.J, p. 14.

No poema “Alegorias”, desse mesmo livro, p. 43, o eu poético dialoga com o sujeito poético em Heliodoro Baptista, no seu poema intitulado “Alegoria”, faz parte dos textos obrigatórios no Ensino Secundário Geral em Moçambique e que está integrado no livro do autor, intitulado Por Cima de Toda a Folha, p. 31. Ambos poemas falam em aves e numa suposta dor. H.J. dialoga com H.B.  Com o mesmo título “Alegoria”, existe um poema de Glória de Sant’ Anna, na p. 9 do livro Um Denso azul silêncio. Entretanto, o conteúdo do texto desta última autora não se relaciona com os anteriormente referidos.

Hirondina iniciou a sua escrita, participando em “oficinas literárias” dirigidas por  Fernanda Angius, uma literata que viveu em Moçambique.

Japone Arijuane é autor das obras Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio (2014), Literatas e Ferramentas para desmontar a noite” (2020), pela FFLC. É prémio revelação CEMD-Lisboa (Ciclo de Escritores Moçambicanos na diáspora) e menção honrosa no Prémio Literário INCM/Eugénio Lisboa (2019), com o romance O Homem que vivia fugindo de si. É co-fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, apoiado pelo escritor Calane da Silva, que foi fundamental para a iniciação literária desse movimento.

Esteticamente, através do livro Dentro da pedra ou metamorfoses do silêncio, Arijuane chamou-me a atenção pelo tema que abordou, sobre a pedra, homenageando-a. Dando-lhe o valor que ela tem para a humanidade: símbolo do poder, defesa de território, caça, cozinha, fogo e valor espiritual. São poucos os autores que dedicam espaço de trabalho a este objecto, na arte da alma. Dos poetas da língua portuguesa são de referir: Carlos Drummond de Andrade, Ana Paula Tavares e Ruy Duarte de Carvalho.

Japone Arijuane tem um poema dedicado a José Craveirinha e a Stélio. A intertextualidade entre este poema e a obra de José Craveirinha assenta no facto de haver referência à vida e à obra de José Craveirinha, nomeadamente: Mafalala (lugar de poesia e de eleição para trajecto de fruição diária e morada-de facto de JC). Diz-nos o poema de Arijuane: “Passo pela Mafalala/para que em mim fique a ideia/de pisar os trilhos/galgados um dia pelo poeta”, p. 21. Há referência ao nome Felismina, que também é título de um poema de José Craveirinha. Além disso, neste texto, encontra-se uma referência à obra Xigubo e ao amor de Maria por Craveirinha. Diz o poema: “[…] mas pela ideia de saber/Craveirinha ali/sua Maria amou”, p. 21.

Importa dizer ainda que Arijuane comunga do mesmo amor pelas palavras, com Heliodoro Baptista. Aquele, no seu poema nr. “11”, dedicado à Fernanda Angius, p. 22 afirma: […] nunca me eduquei para amar/qualquer que fosse o silêncio/senão o das palavras. Já HB, no seu poema “Ode às palavras”, afirma: […] é preciso amar muito as palavras. /As velhas, perdidas no tempo e no ar/[…], p. 45, Por cima de toda a folha.

Lino Mukurruza publicou: Vontades de partir e outros desejos (2014), pelo FUNDAC; Almas em tácitas (2015); A extinção das cinzas (2021) e O Pouso do casco (2024). Este autor está antologiado em Moçambique. Tem sido uma figura preponderante, na dinamização literária em Quelimane, após alguns anos, ter sido activista literário em Lichinga.

Do ponto de vista estético, em A Extinção das cinzas, o autor prescinde da utilização de maiúsculas no início do texto, de sinais de pontuação que são realizados pela força ilocutória (propósito do falante), técnica aceite no que a literariedade diz respeito, recurso também utilizado por Pedro Pereira Lopes e por Virgílio Sithole, em Moçambique. Nessa obra, há um poema que diz: “o rosto é o único lugar que deixa marcas de ser/outro/o umbigo/marca das mães e filhos/no nó da matéria de ser”, p. 53. Este poema faz lembrar igualdade humana (mencionada no poema “Maternidade”, de Glória de Sant´Anna, acima referido), marcada a partir das mães, no nascimento de uma criança, igualada, simbolicamente, pelo umbigo.

Lahissane publicou Pores-do-sol (2022). É dinamizador literário do grupo Xitende, em Xai-Xai e co-autor de antologias publicadas no país e fora deste. Já foi destaque literário, no Brasil e nas Honduras, pela qualidade da sua obra.

Nesta conversa entre escritores, coloco Lahissane em dialogia com Heliodoro Baptista (poema “Ode às palavras”) e com Japone Arijuane, através do poema (sem título) acima referido, que alude ao amor à palavra. No seu poema intitulado “Na mesa de um poeta”, do seu livro Pores-do-sol, Lahissane afirma: “Há sempre uma poesia/cantando na mesa de um poeta/[…]//Sim, na mesa de um poeta pode falta/pode faltar tudo:/[…] mas nunca falta um jarro de poesia […]// Na mesa de um poeta/ come-se poesia/bebe-se poesia […].

Muito mais haveria a referir, acerca dos “poetas de Maio”, entretanto, o espaço de uma tertúlia não foi suficiente para tanto. Assim, tendo aprendido que “todos os nomes contam”, a partir da epígrafe do poema “Hino à minha terra”, que encima o presente texto,  eu não os quis “sugar” os nomes que nos dizem respeito, os dos jovens “poetas de Maio”, não seria justo; daí tê-los integrado na conversa com Nelson Saúte, através da interculturalidade, que é ampliadora de tradições ou de estéticas literárias. Outros nomes, certamente, virão, em outros debates e em outras tertúlias.

 

 

*Por Sara Laisse. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

Vivemos numa época marcada pela velocidade, superficialidade e produção em massa. A tecnologia encurtou distâncias, democratizou acessos e multiplicou vozes, mas também diluiu critérios e tornou o ruído quase indistinguível da substância. Nesse cenário, a qualidade emerge não como um luxo, mas como uma urgência inadiável.

Em todos os domínios, da arte à ciência, da educação à comunicação, a qualidade permanece como critério central de legitimidade, alicerce do legado e fonte de experiências duradouras. Investir em qualidade é resistir à mediocridade generalizada e afirmar a dignidade do trabalho bem feito.

A formação artística de excelência é, por isso, uma responsabilidade cultural e ética de primeira ordem. Ela envolve não apenas a transmissão de conhecimentos técnicos, mas também o cultivo da criatividade, o estímulo ao pensamento crítico e a valorização de uma ética de produção comprometida com a preservação e renovação do património cultural. A excelência artística transcende a técnica: é também atitude, consciência histórica e responsabilidade diante do público e da cultura tradicional ou erudita.

Este artigo propõe uma reflexão crítica-construtiva sobre a persistência da mediocridade nas práticas profissionais, com foco especial na formação artística em música erudita. Embora enraizado na experiência moçambicana, o debate tem validade transnacional. Em “Who Killed Classical Music?: Maestros, Managers, and Corporate Politics” (1996), o jornalista britânico Norman Lebrecht lança um olhar contundente sobre a crise de legitimidade e sustentabilidade da música clássica, abordando, entre outros fatores, a relação entre formação, visibilidade e exploração de talentos.

A excelência profissional, longe de ser um privilégio elitista, deve ser entendida como um compromisso ético e social. Especialmente no campo da educação artística, propõe-se que professores e artistas assumam um papel activo na formação do público e na defesa intransigente da qualidade. Ao criticar o conformismo e a reprodução acrítica de padrões, defende-se a excelência como ferramenta de transformação cultural.

 

A Normalização da Mediocridade nas Práticas Profissionais

No mundo contemporâneo, orientado pela lógica da visibilidade imediata e da produção acelerada, observa-se uma preocupante substituição da profundidade pela aparência. Em diversas profissões, inclusive nas artes, proliferam padrões mínimos de desempenho que legitimam uma cultura do “suficiente”. Essa banalização da qualidade compromete talentos, empobrece produtos e desfigura processos de formação.

A mediocridade, enquanto categoria ética e estética, constitui uma ameaça silenciosa mas crescente em múltiplos campos. No caso da formação artística, seus impactos são particularmente devastadores, dada a histórica desvalorização da área. É preciso denunciar esta tendência, propondo uma reflexão crítica e construtiva sobre seus efeitos, e reafirmar a excelência como necessidade cultural e imperativo ético. Especialmente num mundo mais global aonde a apropriação das culturas, dos géneros é positivamente para todos, e cada vez mais acessível com a nossa tecnologia.

No MUSIARTE-Conservatório de Música e Arte Dramática, sustentamos que a luta contra a mediocridade não é vaidade, mas compromisso com o rigor artístico e com a formação de públicos mais instruídos, críticos e sensíveis.

 

Formação Artística: Terreno Fértil para o Conformismo?

A abundância de talentos artísticos em Moçambique é comparável à riqueza dos seus recursos naturais. No entanto, esse potencial só se concretiza plenamente por meio de uma formação adequada e exigente. Independentemente do género musical, seja erudito ou tradicional, a busca por valores artísticos, genuínos e humanos deve ser de igual importância e contínua.

Na educação artística, a mediocridade manifesta-se de diversas formas: ausência de exigência técnica, linguística, desvalorização do pensamento crítico, repetição acrítica de modelos, negligência disciplinar e desactualização docente. Alunos jovens expostos a esse tipo de formação não apenas limitam seu potencial criativo como também internalizam padrões medíocres como “norma”.

 

O Papel Ético dos Professores e Artistas

Professores de arte são, acima de tudo, formadores de sensibilidade, ética e pensamento estético crítico. A sua missão vai além da técnica: inclui inspirar, desafiar e responsabilizar os alunos pela autenticidade e rigor de seu trabalho. Do mesmo modo, o artista, enquanto figura pública, é também um educador. Sua obra influencia o gosto colectivo e contribui para a construção (ou desconstrução) de um senso estético mais elevado.

Optar pela excelência, nesse contexto, é assumir um compromisso com a dignidade da profissão e com a cultura como bem público.

 

O Público Também se Educa: Uma Via de Mão Dupla

O público não é passivo. O gosto se educa, ou se atrofia, de acordo com a oferta cultural à qual é exposto. Apresentações medíocres, superficiais ou meramente imitativas contribuem para a erosão da exigência estética colectiva, colocando em risco até mesmo tradições seculares.

Formar um público sensível e exigente é responsabilidade compartilhada por instituições, educadores e artistas. Educar para a qualidade é também educar para a cidadania cultural.

 

Conclusão

A mediocridade na formação artística é mais do que uma falha pedagógica: é uma ameaça à saúde cultural da sociedade. Combatê-la é afirmar a arte como espaço de excelência, de liberdade criativa e de sentido.

A exigência, longe de ser opressiva, é libertadora. A excelência é um projecto colectivo, e sua defesa deve mobilizar todos os que acreditam na arte como motor de transformação. A busca por qualidade na formação artística deve ser entendida não apenas como uma meta técnica, mas como uma responsabilidade ética dos profissionais da cultura.

Cada professor, cada artista, cada instituição comprometida com a arte carrega o dever de educar o público, formar novas gerações com rigor e resistir activamente à normalização da mediocridade. Mais do que técnica, trata-se de uma luta por valores, por visão e por legado.

 

Maputo, 05 de Maio 2025

 

No cenário literário moçambicano a ausência das mulheres é evidente e factual, só que isso agrava-se ainda mais quando se trata de prosa, já nem falo de romance. Conta-se a dedo mulheres que viajam nesse estilo. Não tenciono aqui fazer uma pseudo-ideia de que, geneticamente, as mulheres não podem, mas que esse facto difícil e deprimente deve-se, mesmo, às condições sociais, económicas, culturais e, quiçá, políticas.

No dia do lançamento dessa Antologia, de mulheres em prosa, no centro cultural moçambicano alemão, uma questão momentânea me foi colocada em mãos por António Magaia, questionando sobre esse facto, de pouca adesão das mulheres na prosa (e literatura no geral). Disse-lhe que, em primeiro plano, está a educação. É preciso manter a mulher na escola e dar-lhe portas para o ensino superior, daí, tudo se desenrola, o que, de certa forma, Lucílio Manjate também explicou depois de ter feito a apresentação do livro.

Numa outra oportunidade, o escritor Eduardo Quive, também organizador desta antologia, na noite literária no Ntsindya disse que o livro é coisa de burgueses. Não poderia estar mais de acordo com alguém. Só que no lugar de burgues, eu coloco elite, para não circunscrever essa discussão ao nível económico. Também não falo das elites políticas, mas académicas, financeiras e até culturais (é mais fácil o homem ter tempo para ler um livro que uma mulher vendo o seu dia a dia).

Essa é uma forma de congratular a iniciativa da catalogus pela oficina “vez das mulheres”, e que já vêem-se os frutos. Contra toda essa pesada realidade, incentivar a literatura nas mulheres é um passo grande para o futuro principalmente se olhando isso nas palavras do Malcom X que asseguram: “If you educate a man, you educate an individual, but if you educate a woman, you educate and liberate a family.”

 

Como narram as mulheres?

Se hoje me questionassem a visão que me guia sobre a literatura, seria essa: caso a literatura tenha um objecto de trabalho e estudo, esse seria a forma em vez da coisa, o caminho no lugar do destino. Como o docente Manusse disse, numa das suas aulas de Introdução aos estudos literários I, na literatura, o que interessa não é o que se diz, mas como se diz. Tudo atrás exposto é explicado nessa frase: na literatura, não nos interessa a história como tal, mas como é contada essa história. Por conta disso, presumo, o próprio Lucílio Manjate abordou a necessidade dessas oficinas de escrita como há oficinas de canto, pintura, etc., pois, acima das estórias está a técnica, os recursos de linguagem e tudo mais.

Nessa senda, Mia couto uma vez disse que todo mundo conta uma história, inventada ou não; agora imagino-o a dizer que a maneira pela qual contamos as histórias é a que definem e diferenciam um bom contador de um menos bom contador de histórias. Numa análise geral, as 14 mulheres devem passar a ter isso em mente quando rabiscarem os seus textos, tanto em prosa como verso.

 

  1. Antes de nascer o sol, de Anastácia Sigodo

Esse texto não tem nada de narrativa. Caso a intenção da autora era escrever uma narrativa, então ela excluiu feio. Apesar de o martelo pegar a pensar nisso como narrativa – isso devido ao projecto literário – a Anastácia tem um tacto para a poesia. Esse texto é uma prosa poética linda, limpa e sensorial, com um sentido imagético bem construído. “O silêncio que abraça a madrugada escura do inverno”, “O coração […] consumindo tudo o que é cor dentro de mim” (p.15).

O sentido dessa poesia é um tanto escorregadio, sempre levando-nos dentro de nós mesmos.

“Antes de nascer do sol” é uma prosa poética onde o eu lírico é acossado pela insónia durante noites “frias de junho” (p. 16), onde “derrama lágrimas cristalinas” e o coração a puxa sempre para o abismo. Nessas noites ofegantes, as letras brotam sobre esse tempo que arrasta o sono e o sorriso. É um texto melancólico, de difícil digestão por conta do terror dessas madrugadas. Essas noites lembram as noites da Dulcineia no seu poema Sem título I, “em noites como essa/ rejeito a anestesia do sono/ […] e vivo, cada segundo da agonia (…)” Repiso, caso a intenção era contar uma história então seria insatisfatório. Sendo prosa poética, então é regular.

 

  1. Afinal sou eu? De Anchura Mires

Primeiro que não entendi a relação da temática e do título. “Afinal sou eu?” é uma narrativa sobre um homem que visita o pai, ou um pai que recebe a visita do filho, depois de muito tempo num período de seca de quase um ano. O texto desenrola sobre essa temática de seca, mudanças climáticas, causas e consequências. Afinal, essa era a relação, explicada no último parágrafo:

“Buanael consentiu com preocupação ao que disse Malik e ficou o pensar, por

um momento, que teria contribuído para aquela situação de falta de água e ao

mesmo tempo parecia satisfeito ao saber que ele poderia fazer algo para

resolver o problema” (p. 22)

O sobre do texto é importante, principalmente nessa época, contudo falta técnica de suspense, onde o leitor pergunta-se o que vai acontecer depois. Na, além da vinda do filho, não vejo um evento que possa ser classificado como um conflito. A seca que dura a quase não pode ser um conflito na literatura tanto como a pobreza não é um conflito. E acontece que o conflito é, para minha opinião, o coração de um conto e outras narrativas. O conflito coloca o protagonista a agir, então um bom conflito pode dar numa boa narrativa. Numa das entrevistas de Mia couto, disse que uma história começa num conflito, se há um, inventa. Apesar disso, a o texto apresenta características de uma narrativa.

Satisfatório

 

  1. A filha do Mwene de Carina Mulieca

Um texto sobre uma filha do chefe, Emma, que foi desposada por um mercador. Um história típica de Moçambique.

Há nuances interessantes a serem levantados nesse texto. O primeiro é o mistério que sobrevoa o texto sobre o não dito que devia estar lá, mas não consta. Depois da Emma ainda entrar no mar das dúvidas sobre o ‘sim’ ou ‘não’ para o pedido/exigência do mercador que queria desposá-la, segue um momento em que tudo desaparece e acordamos, com a protagonista, dum lugar vazio, escuro e sem nada, e, no fim, parece que ela está num casamento polígamo. Se teve volição ou não, o texto não responde, deixa quieto, oculto.

Essa é uma característica do texto que grita por atenção, contudo, a ausência de tais respostas para perguntas como “como” e “quando” pode frustrar o leitor. Está claro que o sonho da protagonista não passava por casar (cedo), mas de cursar direito, o que torna esse “suposto” casamento com o mercador uma história digna de lágrimas de tristeza. Contudo, a pressa da autora em chegar onde ela “ouviu chamar o (seu) nome” (p. 26), e presumo que despertou do sono, ela engoliu-nos o desenvolvimento interessante do enredo. Como é que ela reage, se luta, tenta contradizer?

Umas outra característica do texto, e quiçá da autora, é a capacidade realmente considerável de conjugar dois momentos ou tempos numa mesma narrativa, o tempo da narração (geralmente, presente) e o tempo da história (passado).

 

  1. Tempo da narração: “Quero contar-vos uma história, a minha história”. “Gostaria de contar-vos sobre mim sem que me entristeça” (p.25)
  2. Tempo da história: “Certo dia, apareceu um homem chamado de Mercador” (p.26). “Foi então que percebi que o som vinha doutro lado da porta” (p.27).

Regular

 

  1. O valor das promessas de Deizy Joane

Um texto que é caracterizado por discursos/conversas, e menos acção, menos movimento, menos dinâmica no enredo.

Começa o conto com a protagonista, a Dalva sendo caraterizada como quem nunca gritou, nunca chorou, e parece algo estoico, mas ela sussurra para a Missava que ele, o marido, a trai.

Choque. Conflito certeiramente criado. Contudo, depois seguem-se diálogos, e promessas de alguma acção entre mulheres, mas nenhuma acção em concreto. Como é que a Dalva reage?

Pois bem, parece que até tenta, mas se resigna. A autora teria dramatizado o encontro entre a Dalva e o marido quando esse acontece e é anunciado por Missava, que sussurrou: “Você já viu que seu marido vem aí?”

A Dalva é satisfatoriamente desenvolvida. Uma mulher com sonhos grandes e um coração inocente, pobre, casada com um marido que a traiu, as outras carecem desse desenvolvimento nesse sentido. Sendo a Dalva a protagonista, não sabe quem bem são Missava, Machaka, etc.

Bem, há momentos que estão todas num casamento polígamo, mas há outros momentos que não. Isso confunde o leitor.

O narrador, às vezes, narra na primeira pessoa, outras vezes na terceira. Por si só, não é um vicio, se feito conscientemente e com a devida mestria, mas aqui há algo coisa que passou despercebido.

Começa dizendo: “Minha mãe sempre dizia que tinha dez serviçais. […] Foi o que ela me transferiu como legado” (p.31). Depois, no desenvolvimento, ela escreve: “Nenhum vizinho viu, alguma vez, Dalva a gritar, como se tomada por uma força incansável” (p. 31).

A Dalva que é mencionada por um narrador narrando na terceira pessoa é a mesma que fala sobre a sua mãe e o legado que ela a transferiu.

Satisfatório

 

  1. Flor de Lotus de Edna Aníbal

Um conto da Hira que decide entrar num lugar proibido, entre dois reinos, e, interpelada por soldados do reino rival, ela machuca-os. Depois de um tempo, o reino rival faz uma visita ao reino do seu pai, rei Artur, e a Hira encontra-se com o soldado Felipe e ela. Os dois rivais protagonizam uma luta no palácio, e, de repente, são “teletransportados” (p.44) para a floresta e lá lutam com uma bruxa, mas o seu destino “se perde na incerteza enquanto a chama das Ignis ardia com intensidade renovada no interior” (p.45). A questão, morrem ou não morrem?

A autora apresenta um alto nível de descrição consistente. Um trabalho que nos coloca dentro da luta entre a Hira os soldados. Ouve-se o ruído das espadas quando colidem no espaço, ou o sangue jorrando, e imagina-se também a agonia dos vencidos.

Contudo, o embate esperado entre Hira e Felipe começa, mas não termina. O desfecho que não acontece entre esses dois explicaria e justificaria o conflito. Não querendo isso, a autora estende muito com conversas, e surpreende com esse final, de um incêndio causado por fogo ancestral. Há quem possa gostar dessa extensão do clímax, mas cria uma agonia quando se pergunta o que acontece entre o “artista e o boisse (boss)”.

É de sugerir que a autora diferencie claramente os dois palácios para evitar confusão.

“Se ouve ao longe o cântico da Hira que decidira pela enésima vez sair do palácio para colher flores” (p. 39)

O palácio que se refere aqui é a do pai da Hira, rei Artur. Há um outro palácio que é referido no texto sem distinção nenhuma, o que pode causar esse desentendimento: “Felipe regressara ao lado dos soldados ao palácio” (p.41)

Apesar de haver uma separação entre partes, o que ocorre nos outros contos do mesmo livro, ela não é, diria, explicativa ou diretiva, no sentido de ‘está-se aqui num outro reino’.

Num contexto que nem o nosso, falar de palácios, ancestrais com nomes latinos, “Ignis”, pode não trazer muito interesse para os leitores, principalmente num momento em que há mais sede de ouvir histórias e estórias de África, não só de africanos. Essa questão não tira o mérito do texto, é só algo a se considerar. E o lado positivo disso, é que essa estória quebra a monotonia das estórias.

Regular

 

  1. A desgraça da Tsakani de Edna Matavel

Depois de terminada a leitura vem a pergunta: “O que li?” A Edna Matavel traz-nos aqui um conto episódico, que é uma construção anti-estrutura tradicional, essa que é de Freytag.

Dentro do conto seguem-se pequenos conflito e clímaces distintos. Se por uma lado isso pode ser visto como um rutura à tradição, é importante que essa rutura seja consciente e propositada porque pode ser um vício. E nisso, não estou querendo ser conservador. A originalidade é sempre bem vinda, como o Mia Couto, às vezes, no lugar de iniciar com a exposição, ele inicia com um conflito ou clímax (dependendo das pessoas) no conto quando mabata-bata explodiu. Aliada a originalidade, deve haver criatividade.

A Edna Matavel tem um alto sentido de imaginação. Ela voa, alto, e isso pode a trair, se não parar para analisar a coerência do seu texto. Nesse conto, a desgraça da Tsakani, ela narra a história de uma mulher, a Tsakani, que teve um sonho e contou para a Lurdes (que não é bem explicita a relação das duas), depois a sua avó morre sozinha, devido a doença, suponho. Só que, depois da morte da avó, seguem-se momentos e eventos que estão longe do conflito, ou que são, no mínimo, incoerentes. Uma sucessão desses eventos. No enterro da velha, a Tsakani tem inveja da Muzaya, e a enfeitiça. Essa perde o bebé que esperava e abandona o lar. Os pais procuraram médicos tradicionais e descobriram que a feiticeira é a Tsakani. Só que a Tsakani sabendo disso, também volta ao curandeiro e vai procurar um marido bom.

Então teve um namorado que trabalhava na África de Sul, mas não fluiu porque a maldição voltou contra ela. A aldeia descobriu disso, então a expulsaram, já com o pai, Malhasseia, na aldeia.

Malhasseia retornou a Africa de sul, e a Tsakani não atravessou a fronteira clandestinamente.

Foi presa. Ficou no quartel. Foi escrava sexual. Ficou gravida e teve um filho. Fugiu pelo mato deixando o filho para trás, e foi devorada pelo leão. Termina a história.

Apesar do titulo ser bem conseguido, o conto já é uma sucessão de eventos que não tem muito a ver. Um final despachado. Bem que esse texto poderia ter terminado onde a avó morre, e ela teria tentado desmistificar o segredo do sonho, que é o que ela propôs no início, mas fugiu da sua própria proposta. Escreveu só para preencher páginas.

Insatisfatório

 

  1. A sentença de Felismina Guetsa

A Merly foi sentenciada pelo médico. À que? Parece, a nunca mais ser normal. E isso acontece num ambiente difícil, calmo, mas uma calmaria de falta de esperança, naquele pensamento de “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. É uma atmosfera muito melancólica, onde se toma “cooktail (deveria ser cocktail) para aliviar a amargura da vida” e o outro, que nunca é identificado, mas é o narrador, se “parece uma neblina que não dura para sempre e é esquecida pelo dia” (p.59).

Esse texto está mais para prosa poética à narrativa, apesar de haver descrição movimentos, como bem o faz Álvaro Taruma. Não há um enredo como tal. Ela descreve poeticamente as coisas e os sentimentos. Seguem-se exemplos:

“[…] a morte é temida quando nos dada um infan momento de lazer” (p.58)

Se a ideia era escrever um conto, então é mau. Se a ideia era mesmo de uma prosa poética, então é satisfatório.

 

  1. Até quando de Jade Ferreira

Essa é uma história emocionante, e que permite reflexão, principalmente, na questão do amor, e as bases que a sustentam. Atenção, dinheiro, matéria, ou palavras lindas. No lugar de dar respostas sobre isso, vamos percebendo entre linhas o que importa para a narradora. Essa história, tal e qual a “filha do Mwene”, possuem um tom confessional, só que é muito mais evidente esse é mais evidente. A autora tem uma capacidade de controlar a si mesma durante

o voo reflexivo para não abrir outras gavetas que, no fim, fazem uma salada confusa na boca do leitor, como quando inicia um parágrafo novo com “De volta ao importante…” (p.63).

Esse detalhe funciona bem como rutura, uma forma de chamar de volta para o que ela quer, de facto, contar, o essencial da narrativa.

Um mesmo homem, alvo do amor da narradora, é descrito como infeliz e, ao mesmo tempo, como quem tem “lábios carnudos, corpo de atleta (…) ficava na janela do prédio a olhar para mim, como um quadro de pintura que precisava decifrar” (p. 63). Isso não é contraditório, mas a mesma pessoa que vê essas características padrão de beleza, ainda o chama infeliz. Ao mesmo tempo que ele era bom no sexo, e a “deixava satisfeita” (p.65), “tinha partes do meu corpo que ele nunca chegava (…) ele era limitado” (p.66). Essas contradições podem trazer um debate sobre parceiros bons, suficientes ou não.

Uma narrativa sem sobressaltos que chama atenção mesmo pela confissão que se sente ao ler.

Empregar a primeira pessoa tem, naturalmente, esse efeito, mas ela o faz muito bem usando termos que retratam uma energia negativa interior no que toca a essa história dela, a narradora, e o alvo de seu amor. Uma relação, diga-se, doce e azeda, muito mais azedada porque o homem apesar dos atributos não trabalhava e era sustentada por ela para comprar “cuecas” “créditos” “passagem” e mais.

Apesar disso tudo, esse texto não é um conto.

 

  1. Entre ruas de Julieta Panguene

Um conto narrado sob o ponto de vista de uma criança, ainda ficava de “neneca”, e descreve tudo nesse sentido. A história é sobre uma criança que, porque a irmã demorou chegar da escola e, na sua casa, ninguém estava para tomar conta dela, teve de ser levada pela mãe para se reunir com outras mamanas da poupança para levantarem o seu dinheiro. Só que os coordenadores dizem que os cofres foram roubados, e a confusão começou, até que a mãe da criança teve complicações e ficou inconsciente por um tempo.

Um texto diferente, muito descritivo, bem articulado. Um conflito, um clímax, onde a criança chora descontroladamente por conta da confusão na reunião, e um desfecho. Peca por não haver acções crescentes, que criam o suspense até o momento mais intenso do texto, que é o clímax. Por conta disso, o clímax até passa despercebido. Também houve menos discursos, o que enriquece uma narrativa. Os discursos/falas são uma oportunidade de outros personagens trazerem o contraditório, outra perspectiva, para que a história não seja linear. Essa história é muito linear, não emociona. O seu momento épico é a descrição do ambiente, o som dos carros, as folhas, as árvores, as ruas movimentadas, as pessoas circulando, falando ao celular.

Um conto urbano e actual. Esse nível de descrição possibilita que caminhemos com a criança e sintamos tudo que ela sente e vê. A autora tem um olhar refinado e atencioso para o dia a dia.

Num texto narrado sob o ponto de vista duma criança, tecer reflexões filosóficas sobre vida e existência pode soar não natural, um “contra naturam”. Por exemplo, “(…) em algumas partes do mundo infelizmente a vida é assim, o drama da luta pela sobrevivência é intrigante e preocupante” (p.73). Bom, isso não invalida a narrativa, que pode ser menos realista, contudo não é o que parece com essa história. Essa parece partir de um mundo real, com características próprias da realidade, e a reflexão, também, julgo, deveria, a certo nível, ter essas características.

Regular

 

  1. A viajante de dimensões de Happy Taimo

A Happy Taimo traz um conto com moral no fim, sobre o sentido da felicidade. Ela descobriu que ela está em pequenos detalhes que passam despercebidos, não somente em coisas materiais como dinheiro e ouro. A narradora-personagem faz-nos viajar num mundo onírico, o seu mundo onírico. A Maya, mesmo num lugar desconfortável, ainda consegue adormecer e sonhar ela num lugar complemente diferente da sua realidade miserável, humilhante, difícil, fatigante e outros adjectivos dessa linhagem. Sonha com um palácio, tudo feito de ouro, lugar lindo e bonito onde a pobreza não faz barulho. Come que se farta, mas nunca fica satisfeita.

Entra num quarto e vê baú de ouro, tenta o levar para a realidade, mas não é possível, e aí aparece homem, com ares de sábio, e que fala sobre os mistérios da felicidade, até que acorda para a sua dura realidade, mas com olhos diferentes. Talvez a vida ou felicidade seja só um ponto de vista, não, Happy?

Um conto bem construído. Lembra o “Sonho de um homem ridículo” (1877) do maestro Dostoevsky, em que um homem que se intitula ridículo decide matar-se, mas no momento adormece com a arma e sonha. No sonho, ele morre, e é levado para um outro planeta paralelo a terra, só que não terra. Lá encontra uma civilização boa, genuína, sem ódio, nem inveja, e ele vai contaminar com as doenças do planeta terra como inveja, ganancia, ódio e mais. Depois dele ter destruído aquele planeta, ele acorda e decide ser um humano melhor.

Também o homem ridículo de Dostoevsky como a Maya ambos são miseráveis, sonham, acordam num lugar diferente da realidade, depois voltam e decidem mudar.

A personagem Maya é bem construída e desenvolvida. Sabe-se quem é Maya, o que faz, sua condição existencial, seu estado de espírito que, no fim, depois muda. Um personagem rico, por isso redondo. Na narrativa aparece um outro personagem que a contraria. E mais aquele ladrão de frutas que a complica a vida.

A exposição é feita muito bem. Expõe-se o protagonista, o espaço (bairro de Mafalala), e o tempo. Ao de todo, é uma narrativa bem conseguida. Com aquela moral da história no final que pode ser um excesso nos tempos que correm, e em moçambique, ou um cliché.

Bom

 

  1. A Marca do arrependimento de Fernanda Hermano

A Fernanda conta-nos a história da Arminda que, casada com Adalima, homem descrito como trabalhador, vive sufocada e entediada. Conhece o John, que montaria tijoleiras na casa da Arminda, acabou conquistando-a. Levada pelo tédio, quis experimentar outras coisas, e saiu com ele para uma barraca. Beberam, e acabaram na cabana, com teto estragado um chão de areia batida, e fizeram sexo, numa casa onde a cortina era saco de arroz. Depois de feito o sexo, veio a gravidez. O marido não consegue lidar com a traição e a expulsa do lar. Ela volta para casa da mãe, tem o filho, e o mata com veneno. Acossada por remorsos, ela vai entregar-se à policia, e acaba presa.

Primeiro, esse texto dialoga com o “até quando” de Jade Ferreira. A narradora-personagem no texto da Jade queria algo mais do seu namorado (em algum momento decide ou pensa em trair o mesmo para ter alguma ajuda mas despesas porque o namorado era desempregado) e a Arminda quer se sentir viva, e trai o marido não por conta de bens materiais, até porque engravidou de homem que dormia numa cabana, o John. Há aqui duas formas de ver as coisas, onde, num jeito de provocação, acaba-se tendo em conta que nunca, de facto, se satisfaz uma mulher. Ou essas Duas estórias demonstram o quão o ser humano, no geral, aqui sendo mulheres, de dois lugares diferentes, uma de Maputo e outra de Inhambane, nunca fica satisfeito. Para coisas dessa natureza, há sempre o J. Cole que diz, “[there’s] no such as a life better than yours” (in love yours, mp3), apesar dos textos não trazerem aqui uma comparação das vidas das protagonistas e outros personagens.

Segundo que a forma como esse texto termina não satisfaz o leitor, para ser bem sincero, o texto propõe um caso de traição, teria o seu clímax no confronto entre o marido e a esposa já gravida ou quando este descobre a traição. Há esse encontro, entretanto, mas não há drama, não há aqui insultos, sangue advindo dessa colisão, desse choque. Havendo, é ligeiro que depois de termos lido, ainda vamos procurar por algo que nos s dela volta sua casa, matar o filho, e entregar-se na policia não é, ao de todo, incoerente com a proposta inicial, de traição.

Pelo contrário, são eventos que advém dela, mas, nesse caso, nesse texto, apenas prolongam o texto desnecessariamente. Também, a autora poupa falas dos outros personagens, do Adalima, por exemplo, apenas nos é dito pelo narrador, mas voz própria não possui. De igual modo, a sua mãe. Qual é a reação da mãe vendo a filha voltando do lar por conta de traição?

Quando a Arminda mata o filho, a mãe se opõe ou não? A Fernanda deveria ter dado voz a essa mãe. Não ficando por aí, num caso desses, o que a sociedade diz sobre isso?

Regular

 

  1. Comandante José de Iraneta Campos

O conto é sobre um José que ascende no dia vinte de Dezembro à comandante. Torna-se um novo líder do quartel. Por conta disso há uma festança, que acaba caindo perdendo a consciência por alguns segundos. Já coronel, ele manda matar toda população de Moamba, mas um escapa, o Nabucodonosor. Esse, sem saber o mandante, vai no quartel para relatar o ataque, mas acaba morto por comandante José.

Esse texto tem dois momentos, e ainda bem que tem porque, lendo desde o início, esse fim é um pouco deslocado. Pela ordem das coisas, o protagonista é o Comandante José, mas o texto, já na parte II, foca muito no Nabucodonosor, a sua fuga, a forma como chega no quartel, descobre que o mandante, afinal, era o comandante daquele quartel e acaba assassinado por ouvir a conversa atrás da porta. Numa narrativa mais longa como novela ou romance esse não é um problema, mas o conto é uma narrativa breve.

Por exemplo, por conta dessa troca de foco, ficamos sem saber os motivos pelos quais o comandante decidiu matar toda uma comunidade. Há um motivo por trás, qual é? Só porque é mau, como é referido ainda no início da narrativa?

Quando decide enviar pessoas para matar pessoas, uma comunidade inteira, não há quem se oponha, ache isso demasiado? Porque matar uma pessoa é uma coisa, agora uma comunidade inteira. E o que ele diz às autoridades. Provavelmente, se a autora tivesse dado mais atenção às falas, certamente teria dado muito disso. A fala/discurso num texto narrativo não é uma ornamentação, é uma oportunidade para enriquecer o texto, trazer mais vozes diferentes, contrarias, contraditórias. Tal como os personagens, não são objectos lá só para ornamentar um texto.

Essa separação de foco acaba sem dar um conflito ao Comandante, mas à comunidade e ao Nabucodonosor. Parece que a estória termina e ao Comandante José nada acontece. É elevado a comandante, mata pessoas, e fim.

Satisfatório

 

  1. Da Minha vida cuido eu de Natércia Chicane

Esse é daqueles textos que se notam que a autora preocupou-se mais com o sobre e o activismo/conscientização do que propriamente com a forma, ou e a história é contada.

Caracterizada por muitas falas. A protagonista, Flôr, acorda e vai ao mercado comprar carvão. Ao comprar carvão um senhor conservador, “negro, por dentro e por fora” (p.99) — fica no ar a questão sobre o que isso possa significar — interpela-a e a insulta por seu jeito de ser, homossexual. Ela apenas ignora o senhor e vai para casa. Lá debate-se com o chefe do quarteirão, mas acabam se entendendo. Além daquele mau estar no mercado com o senhor negro por dentro e por fora, que não dá em nada, aparentemente, não há mais nada. O texto segue até o momento em que vem o chefe de quarteirão, que não dá em nada.

Há aqui falta de suspense, de querer saber o que, de facto, de grave, conflituoso, acontece à Flôr, e acima de tudo, como é que ela reage a esse mesmo evento conflituoso. Isso é que faz um conto ser um conto, não necessariamente a história que é contada, apesar dessa história ser actual. Essa história só é capaz de ser notada e elogiada por conta de agendas meramente políticas e de activismo, e não literários. Como dizia Malangatana, quando estou na oficina, não sou deputado (ou politico) sou artista.

Insatisfatório

 

  1. Corpo de vidro de Sonisa Bavá

Um texto bastante truncado, de difícil leitura, compreensão e, um leitor comum, perde o fio facilmente. É sobre uma moça, de cerca de vinte anos (ou, há quase vinte anos que não conhece alguém como o emissor canceriano, o que pode significar outra coisa), que sendo solitária e espiritual conhece um jovem, aqui tratado como emissor canceriano (apesar de, em algum momento do texto, a moça faz o papel de emissor e o jovem de receptor). Ela acaba sentindo que esse jovem canceriano tem uma 8 Por exemplo, por g dessa troca de foco, ficamos que não sente com uma outra pessoa, e é por isso que esse jovem canceriano merece ser chamado de guru espiritual e também conselheiro.

Um pré-romance que acaba, no texto, com palavras não ditas, suspiros não feitos, e os dois fazendo chamadas sem ter, parece, coragem para ir a algo solido. Continuam assim, receptor e emissor. Essa forma de identificar os personagens faz com que se perceba a distância que existe entre os dois, que, a única coisa que lhes aproxima, são as chamadas em vídeo, graças à avanços tecnológicos.

A autora usa muito esses termos que acaba mesmo dificultando essa mensagem. Pensa-se, por vezes, que é um texto sobre tecnologia avançada, e trata a interação entre os dois como se fossem chamadas interplanetárias, mas é sobre um lance, que ainda está a começar, com aquele cuidado e estranhamento típico quando tudo ainda está a iniciar, o primeiro encontro físico caracterizado pela timidez e o medo de não dizer algo a mais.

Bom

A antologia “Todas as Coisas Visíveis” é mais do que uma colectânea de textos escritos por mulheres, é um testemunho do esforço e da ousadia de narrar em um espaço que historicamente lhes foi negado, onde as condições materiais, e culturais, não propiciam essa viagem na literatura, por isso, como uma das autoras escreveu na mini bio, só o faz em tempos livres. Apesar das lacunas narrativas e técnicas apontadas, é evidente que há um pulsar criativo que merece ser incentivado e lapidado. Este exercício crítico não visa anular o mérito das autoras, que só pelo não simples facto de terem publicado já merecem aplausos.

Mas visa abrir caminhos para que, com mais oficinas, leituras e persistência, a literatura feita por mulheres ganhe o lugar de relevância que lhe é de direito no cenário moçambicano.

 

A política africana, desde a alvorada colonial até os regimes pós-independência, especializou-se numa arte perversa: a de calar os seus profetas com convites para chá. O chá, aqui, não é bebida — é o ritual de domesticação. Um convite à mesa do poder onde, sob o pretexto de diálogo, se esvazia a rebeldia e se negocia a dignidade. E ontem, mais uma vez, Moçambique viu repetir-se este ritual secular.

Venâncio Mondlane, o homem que o povo chama de “Presidente do Povo”, voltou a sentar-se com Daniel Chapo. A mesma mesa, o mesmo silêncio, a mesma promessa reciclada nas redes sociais. A mesmíssima frase ensaiada: “Vou tratar de interesses do povo”. Um script previsível, sem uma vírgula de novidade, sem uma palavra de coragem para nomear os mortos das manifestações, os mutilados da repressão ou os órfãos da democracia fraudada.

A Frelimo, fiel ao seu manual de poder, mesmo quando perde, governa. Mesmo sem voto, toma posse. Mesmo sem povo, mantém o palácio. Deixa que o povo se manifeste, reprime, mata, amedronta. E quando a panela social ameaça explodir, oferece chá aos que gritam mais alto. Um diálogo disfarçado de reconciliação, onde o único objectivo é prolongar o controlo e legitimar o ilegítimo. Assim foi em 1992, em 2014, em 2019, 2024 e assim está a ensaiar-se para 2029.

A Frelimo, mesmo quando perde, leva. Perde nas urnas, mas leva nos tribunais. Perde nas ruas, mas leva nas balas. Perde no discurso moral, mas leva nas alianças de bastidores. É um regime que não cede lugar, apenas simula reformas. Não reconhece derrotas, apenas reconfigura a narrativa. A cada eleição, o povo vota — mas é o sistema que escolhe.

O que vemos não é democracia. É o teatro da alternância impossível. Um jogo em que o árbitro, o campo e as regras pertencem ao mesmo time. E quando o povo se cansa e decide levantar-se, como em 2023, o regime liberta a repressão: persegue, mata, aprisiona. Depois, quando sente o cansaço da massa, surge com a velha fórmula do diálogo: “Vamos conversar”, dizem. “Pelo bem da nação”, mentem.

Mas esse diálogo não é sobre reconciliação — é sobre reconfiguração do controlo. Permitir que o povo fale, para melhor silenciar. Ouvir as dores, para transformá-las em pretextos de estabilidade. Fingir abertura, para garantir mais tempo no trono. Sempre foi assim. Quando o povo está de pé, eles chamam para sentar. Quando o povo grita, eles oferecem microfones desligados. Quando o povo morre, eles escrevem comunicados de condolência e avançam com as campanhas.

O povo, esse mesmo povo que sepultou filhos sem caixão e que enterra esperança a cada ciclo eleitoral, perguntou indignado: “E nós? Onde vamos ser presidente?” “Que interesses são esses que não suportam a luz pública?” “Que diálogo é esse onde os nossos mortos não cabem na pauta?”

Nada disso foi respondido. A tradição africana é essa: quando o rebelde começa a incomodar, o palácio o convida. Quando aceita o chá, perde a rebeldia. É o método de sempre: Prometer o novo, repetir o velho. Falar em nome do povo, agir pelos interesses do palácio. Dialogar pela paz, perpetuar o controlo.

Desde os chefes tribais vendidos aos traficantes de escravos até aos líderes nacionalistas cooptados pelos colonizadores, a política africana tem sido um palco de diálogos privados que selam destinos públicos. Samora negociou com os portugueses em 1975, Mandela com De Klerk em 1990. E o povo? O povo ficou à porta.

As decisões sobre as nações africanas foram sempre feitas à sombra de palmeiras, de palácios ou de conferências internacionais onde os filhos da terra não tinham assento. Berlim 1884, Sentem o gosto amargo de Mueda, em 1960, onde o colono prometeu paz e entregou massacre.

Lembram a Paz de Roma, em 1992, que calou as armas, mas manteve os privilégios. Recordam o Acordo de Cessação das Hostilidades de 2014, assinado como segredo de Estado— os acordos mudam de lugar, os protagonistas mudam de nome, mas o método permanece. E as consequências recaem sempre sobre o mesmo: o povo.

Quando a elite política africana se senta para dialogar, raramente é pela paz dos povos. É, quase sempre, pela sobrevivência mútua das elites. Por isso, amnistiam-se assassinos, enquanto se esquecem vítimas. Aliviam-se os carrascos, enquanto se condenam as mães das vítimas a uma dor perpétua. Assim foi na Angola de 2002, no Zimbabwe de 1987, na RDC de Kabila, no Sudão de Bashir, e assim o ciclo continua. Tudo sempre entre homens de fato, atrás de portas fechadas, em nome de um povo ausente.

As amnistias na política africana não apagam o sangue derramado, apenas legalizam o esquecimento.

Venâncio Mondlane não é um político qualquer. Ele carrega o simbolismo de quem desafiou tribunais domesticados, enfrentou partidos militarizados e ousou verbalizar as dores caladas do povo. Por isso, sua aproximação ao palácio não é mero gesto político — é uma ferida aberta na confiança popular.

Ao repetir a mesma mensagem insossa, descontextualizada e sem prestação pública de contas, Mondlane reproduz o velho expediente dos que entram rebeldes e saem domesticados. A história africana sempre teve dois destinos para os insurgentes: ou são mortos, ou cooptados. Arebeldia sempre foi perigosa demais para ser deixada solta.

Mas, se a elite política africana conserva os vícios, o povo africano já não é o mesmo. Os filhos já não são obedientes. Questionam: Pai VM, por que entraste e nos deixaste cá fora? Pai VM, onde está o relatório do encontro anterior? Pai VM, e os nossos mortos, ficam onde?

Esse é o princípio da maturidade política. Um povo que já não se satisfaz com comunicados, que recusa panos quentes e exige relatórios públicos. Um povo que percebeu que quem negocia no escuro prepara traição à luz do dia.

A Frelimo sabe jogar esse jogo. Perde no voto, mas vence no controlo. Toma posse pela força, governa pelo medo. Desativa o protesto com convites. Apazigua a revolta com comissões e ensina os opositores a beber chá. Um sistema que se recusa a deixar o poder e que transforma qualquer aproximação política numa estratégia de sobrevivência. Por isso, cada vez que um líder da oposição é convidado para chá, não é sobre paz — é sobre permanência.

Mas há um elemento ainda mais perverso nesse ritual do chá: ele não serve apenas para domesticar o profeta — ele salva o regime. E em Moçambique, o regime tem nome e sobrenome: Frelimo. Um partido que perdeu a alma revolucionária, mas reteve as engrenagens do poder. Um regime que já não vence nas urnas com legitimidade, mas que continua a governar com a força da máquina.

Mas essa estratégia tem prazo. Porque a África de hoje já não é a de 1884, nem a de 1960. É uma África de órfãos que já não se contentam com amnistias para assassinos e promessas para as vítimas. Que não aceita mais lideranças messiânicas, nem figuras paternas. O povo quer dignidade, quer justiça, quer voz.

A política africana é um ofício cruel: ela não suporta vozes livres. Toda voz que se ergue ou é silenciada, ou convidada para chá. Quem aceita, invariavelmente sai com o gosto amargo da domesticação.

E Venâncio precisa entender isso. Precisa saber que quem aceita chá sem prestar contas ao povo, já não representa o povo. Quem se senta com o opressor sem exigir justiça pelos oprimidos, já não é voz — é eco. E o povo, que lhe depositou fé e esperança, hoje exige mais que palavras.

Exige posições.

Se Venâncio Mondlane quer honrar os mortos, que recuse o chá. Que convoque o povo. Que rompa o ciclo secular da política do silêncio. Se não fizer, será mais um. E o povo, cansado de ciclos viciados, saberá cobrar.

Como advertia Amílcar Cabral: as pessoas não lutam por ideias. Lutam por coisas. E o povo moçambicano luta hoje por justiça real, transparência pública e memória preservada. Se Venâncio quiser fazer história, que leia os ventos da história. Porque quem não ouve o clamor do povo, cedo ou tarde, é varrido por ele.

Esta história começa com um casamento no qual não fui convidado para a festa do salão, só fui convidado para o Xiguiane (conto isto para entenderem por que é que fui para a cerimónia já com um olhar crítico). O xiguiane foi num quintal aberto, algures na cidade da matola e, como não tinha sido convidado a festa do dia anterior no salão (acho que já tinha dito isto) cheguei cedo porque não estava cansado e isso me permitiu ver a festa desde o início, incluindo aos últimos acertos antes da chegada dos compadres, os famosos masseves nas várias línguas do sul.

Após uma ligeira espera, quando as mesas já estavam compostas, as chamussas e os rissóis já tinham sido devorados, os banhos-marias já estavam aquecidos para receber a comida, eis que os compadres decidem aparecer com a noiva. Antes da sua entrada, houve a tradicional cerimónia da troca de notas de metical penduradas no caniço (de forma breve: a família da noiva e a família do noivo devem, cada uma delas, sem combinação prévia, conseguir hastear, num pau de caniço, uma nota de metical com o mesmo valor. A família da noiva só entra na casa da família do noivo quando ambas conseguirem fazer esse acerto).

A cerimónia continuou, cortou-se o bolo, comeu-se e bebeu-se (aqui em voz baixa: descobri que algumas pessoas, que não foi o meu caso, espero que não duvidem de mim, rejubilaram por não terem sido convidadas à festa do dia anterior no salão porque, segundo as normas da religião da noiva, o álcool era totalmente proibido). De seguida chegamos a um dos momentos que me é favorito nas cerimónias de casamento e outras cerimónias comemorativas de grande envergadura social: a entrega dos presentes.

O mestre cerimónias passou pelas mesas e, com uma folha A4 ajeitada na hora, foi recolhendo os nomes dos grupos que haveriam de desfilar pelo “tapete vermelho”, que é um corredor que é montado para os grupos desfilarem enquanto se dirigem à mesa dos noivos para entregar os presentes. Diferente das cerimónias no salão, onde a entrega dos presentes é mais discreta, pois há uma mesa reservada para depositá-los, no dia de xiguiane os grupos de familiares, amigos, vizinhos, entre outros, esmeram-se entre cânticos, danças e nos detalhes na hora de realizar esta entrega. Tudo é passado a pente fino e merece um cântico, uma dança, uma mensagem especifica. 

O ralador, o pilão, a peneira, o copo, o cesto, o relógio, a mala…. Nada passa despercebido, pelo menos nas tradições do sul do país, que é de onde escrevo este texto. Há, inclusive, normas para a ordem dos grupos. Por exemplo, os pais do noivo e/ou os padrinhos, são sempre os últimos a entrar em cena.

Só de pensar neste momento tradicional e criativo que se aproximava, cheguei até a pensar que tinha sido bom não me terem convidado ao salão, porque a verdadeira festa mesmo era o xiguiane (esse era eu a tentar consolar-me por ter sido minhado no salão).

Porém, para a minha decepção, quando o primeiro grupo ia entrar, devia ser um grupo de primos ou amigos, no lugar de cantar à capela e em grupo, pediram ao DJ para tocar uma música e foram seguindo o som que emergia da coluna! Pensei que tivesse sido casual, mas a façanha repetiu-se em praticamente todos os grupos seguintes e muitas das músicas que o DJ tocou foram sendo repetidas. As vozes à capela e em grupo foram substituídas pelo som de “JBL’s”, o soprano daquela tia ou o tenor daquele tio que, a qualquer momento, podiam sempre reinventar a letra, alterar o ritmo, adicionar uma nova emoção, tudo para adptar o cântico à ocasião, fazendo sobressair a criatividade momentânea e, sobretudo, resgatar e dar vida a cânticos e ritmos tradicionais que vem (ou vinham) atravessando décadas e, se calhar, séculos. O clássico “yho yho…sê wa nguena padrinho” (Yho yho… agora já vai entrar o padrinho) perdeu-se algures entre o spotify e o youtube do DJ. Senti o toque de humanidade a se esvaziar na automatização que estava entre o aumentar e o diminuir do volume.

Não foi a primeira e nem a última cerimónia que esta substituição do “tradicional” pelo “moderno” acontece, mas tenho sentido que vem acontecendo num ritmo acelerado. Goste-se ou não, os cânticos em grupo, à capela ou ao som do batuque, da xigovia, da mbira, da guitarra, estão a desaparecer das nossas cerimónias, sobretudo nas zonas urbanas.

Mas por quê isto? Uma das razões, penso eu, é que se, num passado, os cânticos e as danças, eram comumente ensinados aos mais novos de forma muito espontânea e genérica dentro das comunidades, de uns tempos para cá, com a degradação do sentido de comunidade, sobretudo nas zonas urbanas, tal já não acontece. Chegados a um estágio sócio-histórico em que “quase ninguém” se lembra como é que se canta para, por exemplo, entregar presentes, ou, por exemplo, dirigir as cerimónias fúnebres, os cantores visionários já encontraram solução. Gravaram os sons tradicionais e os tornaram amplificáveis nas JBL’s, permitindo assim que não se esteja mais dependente do tenor daquele tio ou do soprano daquela tia, cujo papel dela nas cerimónias era exactamente esse, o de dirigir os momentos musicais.

Adicionalmente, pode haver outra hipótese que não anula a primeira: a comodidade. Vamos combinar, é mais cómodo pedir ao DJ lançar um som da Marlene ou do Mr. Bow, do que nós próprios usarmos a nossa voz ou, pior ainda, termos a obrigação de participar naqueles ensaios “chatos” que antecediam às cerimónias de grande envergadura social, como o casamento (Para pessoas como eu que tem as notas vocais tortas de nascença, esta solução é duplamente cômoda). A vida corrida da cidade não nos permite ter esse tempo de ensaiar, seja em família, na comunidade ou grupo coral da igreja.

Por outra, ainda na senda da comodidade, o tradicional está cada vez mais caro para os urbanistas.

Para quem deseja desafiar a modernização desses momentos e pretenda ter um grupo tradicional para animar a sua cerimónia, vai ter que adicionar mais uma linha no orçamento e tem de ser uma linha recheada porque estes grupos tradicionais não cobram barato, daí ser realmente mais cómodo confiar no DJ e o passado e o tradicional que entendam.

E no meio disto pergunto-me, onde está a famosa identidade africana que vamos celebrar no dia 25 de Maio? Reinventou-se ou desapareceu de vez? Ou se calhar nem interessa assim tanto pensar nela? Ou o que interessa é vestir uma peça de capulana e o resto é resto? Daqui a alguns anos teremos, por exemplo, nos ritos de iniciação no centro e norte do país, JBL’s a substituírem o grupo de mulheres e de homens que tem animado essas cerimónias porque o “moderno” ficou mais cómodo e barato em relação ao “tradicional”. E se calhar não deve faltar muito para que o “loku ni file mu nga ni rilenee… a milhoti yha nwina yhi ni pfalela tilo”, que é cantando nas cerimónias fúnebres, seja tocado na JBL. (tradução: Quando eu morrer não chorem por mim! As vossas lágrimas vão me vedar o acesso ao céu).

E agora? Estão a ver problemas que criaram por não terem me convidado ao salão?!! Evitem!.

 

O Gabinete de Candidatura a Secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), encabeçado pelo escritor, crítico literário e Professor, Luís Abel dos Santos Cezerilo, torna pública a sua candidatura constituída por 98% de jovens que perfazem a lista como órgãos sociais. Uma candidatura apresentada por jovens escritores, que cientes da necessidade de criar-se uma revitalização e nova dinâmica na AEMO, unem sinergias para que, através de seu engajamento, os escritores, tenham espaço aberto para todos e a diversidade de vozes da literatura moçambicana tenha uma convivência saudável, confluência de gerações e criação de parcerias para internacionalizar a literatura moçambicana.

Pelo facto de avizinhar-se o pleito eleitoral referente a sucessão da actual direcção da AEMO, depreende-se ser necessário ter-se uma liderança que confira dignidade a esta agremiação e que aquiesça a convivência inter-geracional garantido a continuidade do legado iniciado por José Craveirinha e entre outros, como resposta a dinâmica social, política e cultural da contemporaneidade.

Este manifesto tem como pressupostos as seguintes linhas: promover o hábito da leitura, eventos e festivais, desafios literários, revisão de pares, recursos literários, plataforma online, diversidade literária, divulgação literária, fomentar a criatividade e colaboração e cooperação.

Luís Cezerilo, tem uma larga experiência na literatura, destaca-se na valorização da literatura moçambicana e no fortalecimento da identidade cultural, por via de suas publicações e estudos literários sobre a poesia de José Craveirinha, bem como, a de Eduardo White. A candidatura de Cezerilo conta com a parceria de entidades como a Editora Moderna de Angola, que manifestou recentemente a sua  total disponibilidade para estabelecer uma parceria estratégica com a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), representada por este candidato, e esta parceria consiste em estabelecer um quadro da edição, promoção e circulação de obras de autores moçambicanos, edição conjunta de autores moçambicanos, com padrões editoriais internacionais, garantindo rigor, qualidade gráfica e ampla distribuição nos mercados angolano, moçambicano e em outros países de língua portuguesa; promoção de intercâmbios culturais, através de lançamentos de obras, feiras do livro, conferências e residências literárias, aproximando os escritores de ambos os países e projectando a voz da literatura africana lusófona no mundo; concessão de prémios e distinções conjuntas, que incentivem a produção literária de qualidade e reconheçam o mérito dos escritores que promovam o diálogo cultural e a inovação estética; definição de um plano editorial bienal, onde ambas as instituições participem na escolha de autores.

“Estamos convictos de que, sob a liderança visionária de V. Exa. Sr. Luís Abel Cezerilo, este caminho de cooperação poderá ser iniciado com pragmatismo e visão estratégica, garantindo benefícios concretos para os escritores moçambicanos e o fortalecimento das nossas literaturas nacionais no contexto internacional.” Lê-se do comunicado da Editora Moderna de Angola.

Luís Cezerilo tem uma dezena de livros publicados, é patrono da Associação Casa Museu, um lugar de encontro de artistas nacionais e internacionais para a divulgação da literatura, artes plásticas e música. É Pós-Doutorado em Estudos Literários pela Universidade Estadual Julio de Mesquita Filho *UNESP-Campus de Araraquara (2009); Doutor em Estudos Comparados de Literatura Africana de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) em (2005); possui graduação pela Universidade de Évora (1999), Professor Auxiliar na Universidade Eduardo Mondlane em Moçambique-Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Membro Fundador do Núcleo de Pesquisa de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Camilo Castelo Branco.

Juntos, podemos fazer da nossa AEMO um farol da excelência literária e um espaço onde todos os escritores possam florescer.

XV capítulos — quinze passos de Salomão rumo a um território onde os sonhos se desfazem e as escolhas têm gosto de sangue.

Sangue em Flecha, de Suzana Espada, vai além de ser o percurso de um jovem tragado pela vertigem do prazer e da irresponsabilidade, ou seja, é o reflexo estilhaçado de uma sociedade em que o masculino se edifica pela violência, pelo domínio e pela recusa da ternura. 

Narrado na primeira pessoa do singular, o romance permite ao leitor aproximar-se da perspectiva de Salomão, expondo, através de sua própria voz, as contradições e fragilidades.

Salomão não foge apenas da rigidez do pai, que transforma o lar num quartel, como ele próprio afirma: “A nossa casa era uma academia militar” (p. 27), mas também da responsabilidade de assumir as suas escolhas. 

Formado em Economia por imposição paterna, quando o que almeja é ser fotógrafo, Salomão parte para Mapulanguene com a câmara ao pescoço e nas costas o legado de uma masculinidade forjada na escassez de afecto e na obediência automática. É nesse ambiente rural, supostamente apaziguador, que se apaixona por Elisa, uma das mulheres do seu tio Arão.

O protagonista da história se descreve como alvo do desejo feminino, centro das atenções, mas suas relações são marcadas por superficialidade, vazio emocional e instrumentalização do outro.

Suzana Espada, com a narrativa, constrói uma crítica subtil à masculinidade tóxica, não por meio de denúncia explícita, mas sim pela exposição crua da subjectividade de um homem em colapso.

Salomão caminha entre um pai autoritário e uma mãe que “fazia as coisas ao seu gosto”, entretanto, incapaz de cortar o vínculo infantil que o imobiliza, permanece preso a uma adolescência estendida. As bofetadas dadas pelo seu pai que ainda recebe aos 30 anos, a falta de interesse no trabalho, os envolvimentos sucessivos com mulheres que não ama, tudo isso aponta para um indivíduo que não amadureceu, embora se esforce por parecer firme.

A sua ida a Mapulanguene é motivada pelo desejo de respirar longe do ambiente repressivo em que cresceu e de explorar a paixão pela fotografia em novos cenários. Enquanto trabalha como motorista para um português — o Mulungo — é surpreendido pelo seu primo Romão, que lhe propõe integrar num projecto supostamente financiado pelas Nações Unidas, em Joanesburgo. A proposta soa promissora, mas não passa de uma armadilha. Salomão acaba conduzido a uma zona isolada, onde é forçado a entrar no mundo da caça furtiva, coagido pelo medo de represálias à sua família, caso recusasse.

O mundo em que se envolve é regido por códigos perversos: ali, o silêncio é comprado com ameaças, e o dinheiro nasce do extermínio da vida selvagem. No primeiro dia, três rinocerontes são abatidos — numa sequência que mistura brutalidade e rituais: os envolvidos procuram curandeiros para tornarem-se invisíveis aos olhos da polícia sul-africana, no Kruger Park. No entanto, o que se torna realmente invisível é o valor pelos animais, como lembra John Berger, em Why Look at Animals?, “ o animal tornou-se segredo que não se partilha”. 

No romance, a caça furtiva é o espelho da degradação humana, da corrupção dos vínculos e da falência ética de uma sociedade que aprendeu a substituir afecto por lucro.

Com o “dinheiro sujo”, o protagonista compra um Mazda dupla cabine — um veículo ironicamente vendido por Romão — e regressa a Maputo. Lá, tenta preencher o vazio com prazeres imediatos: procura uma mulher na Rua Araújo, que passa a ser sua conselheira nos conflitos conjugais com Lídia.

Embora consiga se libertar da caça furtiva e, posteriormente, funde o projecto Casa da Natureza com o intuito de sensibilizar comunidades para a protecção ambiental, essa mudança não consegue apagar o rastro de destruição que deixou. É um gesto de redenção, mas tardio, talvez impulsionado mais pelo peso da culpa do que por genuína transformação interior.

Sangue em Flecha, apesar da força temática, sofre de certa previsibilidade, que acaba por enfraquecer a tensão narrativa. A linearidade dos acontecimentos, a ausência de momentos verdadeiramente desconcertantes limitam a capacidade do texto de surpreender o leitor.

Ainda assim, o livro oferece um terreno fértil para discutir temas relevantes e contemporâneos: o tráfico de animais, as masculinidades tóxicas, a juventude desencantada e as falsas promessas de ascensão.

Ao fim da leitura, é como se uma flecha também nos atravessasse — não no corpo, mas na consciência. E talvez o romance nos interpele: quantos homens, como Salomão, confundem liberdade com a ausência de responsabilidade?

 

A Associação dos Escritores Moçambicanos convocou, no passado dia 19, os seus membros para a realização da sua Assembleia-geral, acto que culminará com a eleição de novos corpos sociais. Qualquer eleição a este nível será sempre um jogo, e ao expressar “jogo” não disse “guerra”. Uma guerra ocorre entre inimigos e há morte. Um jogo ocorre entre adversários que se multiplicam em estratégias conducentes à derrota do adversário.

Uma derrota eleitoral não significa o fim último das relações entre os contendores, pelo contrário reaviva a esperança de vitória numa próxima partida. Contudo, depois da eleição passada da AEMO testemunhamos uma espécie de desaparição de escritores, o que nalgum contexto pode significar mesmo morte social, etc. Para a presente eleição decidi, instigado por alguns confrades, candidatar-me ao cargo de Secretário-geral da AEMO.

Como futuro candidato, espero uma disputa diferente, caracterizada por uma campanha eleitoral, onde impere o debate de ideias, sobre projectos apresentados pelos candidatos, condizentes ao progresso da literatura moçambicana: entro nesta disputa interessado em discutir pontos de vista e não pessoas ou supostos erros de secretariados passados.

Mora um pecado original na discussão de pessoas, este que resulta do facto de as agremiações nacionais andarem empenhadas em fazer eleger pessoas e não projectos viabilizadores de algum crescimento institucional, logo a pessoa torna-se alvo preferencial dos debates. Nesta eleição, em que os membros da AEMO têm a oportunidade de eleger o seu XII Secretário-geral, apelaria ainda ao respeito à própria capacidade de discernimento individual, de modo a não mover-se massas intelectualizadas no sentido de votar em pessoas. Nos próximos dias há risco de vermos uma “vara” de “escritores” a caminharem “like zombies” no sentido de voltar em quem um determinado mestre aponta: aquele é o nosso HOMEM. Um escritor é um ser pensante e quem pensa não sente algum incómodo em estar fora do rebanho, pelo contrário, abrirá sempre a trilha do seu próprio destino, levado pelo seu pensamento. Passo a partilhar um excerto de um poema que influencia a minha existência desde que dei conta de ser sujeito homem, “Cântico Negro”, de José Regio: .

 

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

 

E porque estamos no campo literário, e o nosso régio, por cá, uma vez aqueceu a opinião pública ao falar, num dos debates em que participa, de “histeria das massas”. Escritores dignos de sê-lo devem também estar imunes dessa manifestação colectiva de pessoas que acreditam sofrer de uma mesma doença. As artes e a literatura em particular são um campo de rivalidades que podem catalisar a criação de magníficas obras, dada a competitividade associada. Todavia, apenas haverá rivalidade onde existam, no mínimo, dois talentos invulgares. Mas, ocorre no meio disto também a pura inveja pela capacidade criativa alheia. A pura inveja não tem capacidade de combater o talento alheio com talento, há-de sobreviver no meio artístico pela maledicência, recrutando igual mediocridade para formar um rebanho que se alimenta de irracionalidade. Um escritor não é um ser irracional e não deve ir às urnas alimentado de cegos instintos.

Ignorados cegos instintos, tenho comigo a ideia de ser de extrema falta de respeito à inteligência de outrem, nesta altura do campeonato, o desdobramento em meros pedidos de votos. Numa eleição digna da AEMO os membros devem ter a oportunidade de reflectir sobre projectos a serem apresentados por cada candidato, pois simpatia e boa vontade em si não dirigem eficazmente as instituições. Portanto, em respeito aos nossos confrades, sobretudo à capacidade individual de discernimento, de cada escritor, os candidatos que se propuserem a esta eleição, que façam uso do tempo que dista da eleição do dia 26 de Julho para apresentar ideias e projectos, para serem escalpelizadas em tempo útil, sem riscos de induzir o voto a incidir em simples listas de intenções disfarçadas em manifestos eleitorais, sem nenhuma capacidade de execução e meios.

Por uma eleição consciente!

 

“Que se calem as armas, pois o meu coração está apertado. Que vivam todos aqueles que acreditam no amor. Como viver sem celebrar a amizade? Como viver sem sonhar que, um dia, seremos todos amigos?”

Dos mais variados e assombrosos materiais e equipamentos que a humanidade ousou construir — e que o mundo consagrou como eternos —, o livro deve, seguramente, ser o mais poderoso e importante, ocupando o lugar cimeiro no ranking da criatividade. Das escrituras sagradas até ao mais fútil e desprezível dos livros, as suas páginas retractam a própria humanidade, o seu percurso e as suas maiores conquistas. Jorge Luís Borges, escritor e poeta argentino, no seu livro “Ensaio”, colocava o livro como inigualável de entre todas as invenções humanas. Todas as restantes seriam, como dizia, extensões do próprio corpo humano. O microscópio e o telescópio seriam extensões da vista, o telefone o prolongamento da voz, o arado e a espada eram as extensões do corpo.

Porém, o livro, era tudo isso e um pouco mais; era a extensão da memória e da própria imaginação. A gloriosa viagem entre o recordar de sonhos ou o revisitar de um passado mais alegre, tenebroso, memorial, retroactivo ou transacto. Se o livro é tudo isso, então, pela leitura os humanos transcrevem o tempo decorrido até a modernidade, pós-modernidade ou o futuro. Podemos, até, discordar das opiniões dos livros e dos seus autores, podem existir conceitos que o tempo prova estarem errados; ainda assim, descobrimos, em cada livro, algo de sagrado e divino, personagens, ideias, justiça e protagonismo, reflexões, os espelhos da empatia, relatos que assombram, ficção irrealizável, histórias abençoadas e, acima de tudo, o desejo de reencontrar no final da leitura a felicidade e a sabedoria.

Vem este intróito a propósito do livro “Observador de Sonhos”, escrito e lançado em 2024, fora dos holofotes e parangonas dos jornais ou das revistas de especialidade. É um livro fortemente influenciado pela oralidade e tradição africana, que combina uma linguagem moderna com recursos que evocam os ecos da tradição oral. Escrito por Bruno Morgado, jovem de múltiplos talentos e, sobretudo, com imensa sensibilidade para os desafios da vida e que reflecte esse ambiente urbano para um país que tem distintas veias e artérias, sempre tão desiguais e com sensibilidades distintas. Morgado faz um apelo, e com facilidade, mergulha em temáticas existenciais, explorando a solidão, o amor e um mergulho na modernidade e nos seus perigos e descasos.

É um livro que, convenhamos, retoma toda a teoria desenvolvida por Friedrich Schiller, poeta e filósofo alemão, na obra “A educação Estética do Homem”, que considerava que escrever corresponde a viver e sonhar, e sonhar com o prazer equivaleria a ser sábio. Schiller era apologista de que a arte de escrever deveria servir uma finalidade que transcendia a finalidade educativa e de formação do intelecto. Essa teoria ressoa e traz de volta as passagens desenhadas e pintadas pelo escritor e poeta Bruno Morgado. Com efeito, esses escritos, ainda que desinteressados e sem o intuito de entrar para o mundo da literatura, edificam essa grande obra de arte da vida. Escrever, escrever e escrever, enaltecendo a vida e o mundo.

Calane da Silva, nosso saudoso escritor que perdura em nossas memórias, conviveu com a família Morgado e sublinhou, em sua trajectória, a existência de inúmeros escritores anónimos na literatura moçambicana, cujas obras ainda carecem de leitura e apropriação por parte do grande público. Aqueles que, à boa maneira de George Orwell, sem precisarem de ser compulsivos, debruçaram-se sobre a actualidade social e política do seu tempo, num olhar implacável, tendo como trave-mestra a cosmovisão e a denúncia dos exageros e da indignação. Porém, existem aqueles que se mantêm anónimos em vida e se fazem conhecidos já na eternidade quando só podem dialogar com Deus. Escritores cuja pena lírica, de tantos anos, apenas se torna conhecida bem mais tarde. Está é a descrição que Calane prefaciou no livro “Poemetria” de Carlos Morgado, por sinal, progenitor de Bruno Morgado, que, igualmente, fartou-se de escrever em folhas A4 soltas, guardanapos de papel de restaurantes, interiores de capas de revistas, enfim, em tudo por onde era possível colocar um lápis e uma caneta.

Carlos Morgado pode ter dado o mote ao seu filho, apesar dos estilos de escrita diferenciados. Ele dedicou-se, fundamentalmente, à poesia lírica e por vezes dramática, muitas vezes didáctica, e à ode ao amor e felicidade, sem abstracções ou limitações. A sua obra veio ao grande público, e ao mundo da crítica literária, 10 anos depois de ter partido para o encontro do Redentor. Morgado pai deixou para o Moçambique essa capacidade firme de sonhar, apesar das adversidades, e a certeza de que sonhar seria uma forma de reconciliar e instigar ao próximo o sentimento e crença de que nada seria mais importante do que acreditar no país, na sua potencialidade e capacidade de oferecer ao cidadão o essencial.

“Poemetria” foi o título que Carlos Morgado nunca sonhou para o seu livro. Os outros o fizeram por ele. Os títulos não expressam a inspiração e nem sempre os tempos. Assim, Calane da Silva questionava se a poesia teria medidas, se teria tamanho e se a lírica poderia ser quantificada. Estas indagações surgiram-me de imediato quando lia e desfolhava o “Observador de Sonhos”, livro de Bruno Morgado.

A poemetria em Bruno Morgado, também ele primogénito e que carrega os segredos, os mistérios poéticos e empresariais do pai, revela-se com uma cumplicidade e tonalidade que se assemelha bem a algo congénito, apenas separados pelo tempo. Como seria, então, possível, medir e padronizar a lírica metafórica e cantada pelos dedos e pelos olhos do coração do jovem escritor Bruno Morgado, ainda na sua adolescência de escrita?

Convenhamos que Bruno Morgado entende a poesia como uma provocação do pensamento. Coloca, de forma simplista e natural, as ideias que não podem ser ditas de outra forma, esses sonhos amarrados, bem como a inquietude da lealdade e a convivência resumida a conceitos linguísticos fáceis de interpretar e tão difíceis de alcançar. Bruno apresenta-se como ostensivamente ousado e sonhador, instigador que, para gáudio dos que tiveram a oportunidade de o ler, compreende que por detrás da simplicidade e do despercebido, existe um poeta que vai trilhar por essa carreira brilhante e sem encenações. Mas, ao mesmo tempo, mostra-se suficientemente tímido para desvendar a melancolia e introspecção de uma sociedade carregada de tantos tons e dilemas existenciais.

“Se eu pudesse Lobolar o céu, entregaria o mar em troca, só para o mar saber quem manda.”

Bruno Morgado chegou à literatura e ao complicado mercado livreiro nacional com o seu primeiro livro “Caverna dos Corajosos”, uma espécie de aventura mágica sobre a família, o amor, a coragem e a união baseada numa praia algures do país. Se neste primeiro livro procurava o seu próprio norte, como se a bússola pudesse indicar outro ponto cardeal mais conveniente, no segundo livro ele se refina e reencontra algo que não conseguiu alcançar antes. Esse novo desafio parece ser já mastigado, na simbiose entre o lirismo e o místico, procurando o reencontro entre a transcendência da comunhão nessa busca pela felicidade que nos escapa por todas as esquinas, dedos e momentos políticos desta nação com a idade do escritor.

“Que vivam felizes os que tenham que viver e que esses sejam todos”.

Tal como afirmara Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas da língua alemã do século XX, cada escritor segue a sua geração e as suas tendências. Cada um tem de voltar-se para si mesmo, investigando o motivo que o impele a escrever, e comprovando se a sua escrita se estende até às raízes e ao ponto mais profundo do seu coração. Simultaneamente, tem de se confessar, a si mesmo, se morreria caso fosse proibido de escrever. Bruno Morgado tem seguido este conselho com alguma flexibilidade, porém, os com seus critérios, parâmetros e tempos. Esta obra tem seguido este prognóstico e Bruno Morgado, também, na crista do jubileu, idealiza a amizade como o centro do universo, com o cerne da sua poesia entretida entre essa mesma amizade e cordialidade, acreditando que valeu a pena viver a vida, só para ter a honra de temer não poder ser feliz.

Este “Observador de Sonhos” é, como descreve a nota introdutória do livro, o lugar onde poderemos ver o mundo, o real e o imaginário, o concreto e o ficcional. Um mundo sem qualquer espaço e condição para algo que não seja a amizade como denominador comum e pressuposto essencial da amizade. A propósito, Bruno Morgado regressa a Cabo Delgado, a martirizada província do norte, com uma abordagem que minimiza a descrição de senso comum, mas, ao mesmo tempo, aprofunda uma perspectiva de maldição que não augura futuro de prosperidade e bem estar para a região. Uma metáfora que começa a ser assumida por todos os locais e que traduz bem tudo o que tem sido prometido e está a acontecer aos olhos de todos.

“Estávamos no ano 2023 na vila Karibu Kinada, quando sobre aquele povoado pairou uma nuvem de um verde carregado – bastante assustador. De repente um raio fulminante deu início a uma forte chuva de dinheiro que durou sete dias. Todos que puderam, naquele país,

para ali se dirigiram. Entre agressões e tiros ninguém sobreviveu para contar a história – apenas o dono da nuvem que nem sequer ali queria ficar.”

Este pode ser o texto mais difícil de omitir, por sair do plano da maldição e se centrar na ausência de indicadores e modelos que trarão prosperidade à comunidade local. As famílias convivem entre promessas de riqueza e a violência que por lá se instalou na última década. Cabo Delgado continua sendo o mote preferido por escritores e músicos que, perplexos pela barbárie e pela incapacidade de se colocar um ponto final na situação, vai alimentando páginas de livros, artigos e canções. O autor não fica indiferente e apresenta a temática de forma indirecta, porém, com a mesma incidência e profundidade. Afinal Cabo Delgado também é Moçambique. Um slogan que os locais fazem como apelo, para que todos entendam que ninguém merece passar por tanto sofrimento e crueldade.

Um outro texto do livro que se divide em três partes, revisita os sonhos em ebulição, para além de abordar os textos do além e o quarto de histórias. Diz o autor: “Corriam rumores de que um misterioso feiticeiro tinha realizado um feitiço sobre aquele povoado e que já ninguém mais teria filhos. No mês seguinte, metade das mulheres estavam grávidas. Agora ninguém se lembra do feiticeiro.” Este poema espelha bem o testemunho de uma clarividência que está bem associada ao seu país e povo, tantas vezes, tão obscurantista, outras, trivial e crente de misticismos e futilidades. Crença e fé banalizadas até à exaustão.

Paralelamente, o livro chama a atenção pela rima métrica que, articulando ideias e assunções por parágrafos meticulosamente pequenos e sintéticos, encerra conteúdos profundos que poderiam ser ditos por frases mais longas. Uma espécie de fuga dos cânones de uma poesia mais solta e que procura colocar todas as ideias e conteúdos na mesma quadra, para que o leitor navegue na imaginação e reencontre  outras interpretações que não sejam aquelas do próprio autor.

O “Observador de Sonhos”, de Bruno Morgado, editado pela Catálogos com antologias sobre novas vozes, encontrou o espaço adequado para se apresentar como novas vozes. Esse lugar onde se pode ver o mundo e que permite que se possa sonhar sem medo de tropeçar, apesar de todos os desafios do mundo de hoje. Este mundo de muitas contradições e hesitações, que, por vezes, parece não ter espaço para as angústias e essa sensação de vazios. A Catálogos se assume como uma editora não só preocupada com o ficcional e o imaginário, mas, sobretudo, com o concreto e com um país que procura se reconciliar e prosperar.

Bruno Morgado não escolheu a Catálogos, foi a editora que abriu as portas para essas novas vozes e ela própria defende a liberdade intelectual contra os avanços dos desmandos e de algum totalitarismo que perpassa os argumentos. Não será nunca fácil para a literatura ou qualquer das artes florescer em sociedades e tempos de grandes conflitos e muita incerteza. Escritores e outros agentes artísticos são, por vezes, vistos como rebeldes, mas desempenham também o papel de educar e informar o público, assumindo a missão de substituir discursos propagandísticos por narrativas mais realistas e coerentes.

Não existe poesia desligada da política, sobretudo nesta época de medos e ódios, e as lealdades de carácter político estão na consciência de todos. Como o Morgado mesmo diz: “Impiedosa a força com que aquele povo avançava rumo a liberdade. Cânticos e odes a um futuro melhor, a um país de homens e mulheres livres e unidos em torno das causas mais nobres que há. O direito a dormir bem. Será que dormimos? Um dia o Grande Rei aboliu a escravatura mental que proibia os cidadãos de amar sem remorsos, de amar sem limites”.

“Um bom escritor não sana as dúvidas — ele as honra”, como escreveu Oliver Harden. Em tempos de respostas fáceis e opiniões ruidosas, precisamos, mais do que nunca, de uma literatura que indaga, de uma escrita que, em vez de encerrar o pensamento, o inaugura. Ipsis verbis: “O significado perguntou um dia ao significante por que se achava tão importante. O significante respondeu que não queria se tornar tão insignificante quanto o significado.” Com efeito, o escritor não tem a pretensão de responder a tudo, tampouco de esclarecer ou tornar-se porta-voz de verdades absolutas – justamente para não transformar a linguagem em instrumento de doutrinação. “Observador de Sonhos”, entre certezas e incertezas, revela um sentido profundo e educa de forma subversiva, deslocando-se da zona de conforto e das

convenções. É uma obra que instiga, mais do que resolve, e que busca envolver o leitor antes de qualquer tentativa de explicar. Por tudo isso, vale a pena lê-la – e carregá-la no bolso.

Albertino Mabunda, era um jovem sonhador de 35 anos de idade, cuja alma carregava uma tristeza latente, uma sombra que se infiltrava na essência de cada dia. Vivia numa vila esquecida pelo tempo, longe do burburinho da cidade, na casa modesta dos seus pais. A sua esposa, Alzira Uqueio, era uma jovem de beleza singular, com um corpo como se a mão tivesse sido esculpido, cabelos crespos e longos que caiam como cascatas, olhos castanhos profundos e uma pele escura que refletia a luz do sol com orgulho. Os seus dentes, alvos como pérolas, contrastavam com a sua pele, causando admiração a quem a visse.

O jovem casal tinha três filhos: Rogéria, Teresa e Alberto, a esperança e alegria que serpenteavam na rotina silenciosa daquela vida simples. Albertino, um homem de sonhos que jaziam presos num mundo que parecia cruel e indiferente, tinha-se formado em engenharia civil numa faculdade na cidade grande. Mas o destino, impiedoso, recusou-se a sorrir-lhe: não conseguiu encontrar trabalho na sua área, obrigando-o a regressar à aldeia, ao seio da sua família, onde continuava a cultivar a terra com os seus pais, numa esperança vã de dias melhores.

Dias e mais dias passaram-se num fio de esperança que torcia o coração de Albertino. Até que, finalmente, uma oportunidade surgiu numa cidade próxima, uma vaga de padeiro numa padaria recém-inaugurada que parecia uma luz no fim do túnel. Ele voltava a casa aos finais de semana, ansiando pelo calor da sua esposa e pelo riso dos seus filhos, numa rotina que durou aproximadamente dois anos, enquanto fingia acreditar que era feliz.

Porém, no fundo, o seu coração sofria. Sentia-se prisioneiro de um sonho que nunca poderia alcançar: construir grandes obras, deixar a sua marca no mundo, sentir-se útil em algo que transcendesse o pão que amassava com as próprias mãos. E, apesar de tudo, ali mesmo, naquele acto de moldar o pão, encontrava um breve consolo, uma ansiedade que o libertava por momentos da dureza da sua alma. Era como se, ao apertar a massa, tentasse esmagar também as dores que carregava, transformando a melancolia numa esperança efémera que se desfazia ao toque do trigo sob a sua mão insegura.

Num dos finais de semana, uma sombra de ansiedade e esperança pairou no ar quando Albertino decidiu confrontar a sua mulher, numa conversa carregada de emoção. Com a voz embargada, revelou-lhe que, após conversa com um colega na padaria, tinha tomado uma decisão irrevogável: sair à procura de uma vida melhor noutra cidade, longe daquela vila esquecida pelo tempo. Ouviu dizer que lá, as possibilidades eram mais promissoras, que o sorriso de esperança poderia finalmente iluminar o seu rosto carregado de frustração. Confessou, com uma mistura de tristeza e determinação que sentia-se sufocado por aquela rotina vazia, por aquela pobreza que lhe corroía a alma, e que a única saída era perseguir a verdadeira felicidade, mesmo que ela estivesse a anos-luz.

A notícia caiu sobre Alzira como uma lâmina fria. A sua alma quase partiu ao meio, ao imaginar-se sem o seu amor, sem o seu companheiro que sempre fora o seu porto de abrigo. Sabia, no fundo do seu coração, que o mundo lá fora era cruel, violento e implacável; que o risco de nunca mais ver Albertino aumentava a cada silêncio opressivo que pairava entre eles. Com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, ela implorou com toda a força que ainda tinha que ele não fosse, que encontrassem uma maneira de ficar juntos, de lutar contra a dor e a pobreza que os esmagava. Prometeu-lhe que ela própria iria procurar trabalho na cidade onde ele trabalhava na padaria — talvez como empregada doméstica, mas que, de algum modo, poderiam encontrar uma solução.

Mas o coração de Albertino, cego pela sua vontade de escapar, não quis escutar. Uma determinação desesperada flamejava nos seus olhos. Era como se uma força invisível o empurrasse, cegando-o para todo o resto, sobretudo para o amor que ainda lhe restava naquelas palavras desesperadas de Alzira.

Na manhã seguinte, com o nascer do sol a iluminar um céu carregado de incerteza, Albertino levantou-se cedo. Ainda escutava os soluços de Alzira, que não tinha conseguido dormir naquela noite de angústia. Ela tentou convencê-lo, tocou-lhe o braço, pediu-lhe que reconsiderasse, mas tudo foi em vão. Sem olhar para trás, sem uma palavra que pudesse deter a sua marcha, Albertino pegou na sua trocha e partiu rumo ao desconhecido, deixando para trás a esperança, o amor e a queixa silenciosa de uma mulher cujo coração se despedaçava a cada passo daquele caminho de despedida.

Albertino caminhou dias a fio, enfrentando o destino e a saudade, até que, por fim, avistou uma visão que lhe roubou o fôlego: Vilária. Era como um sonho feito carne, uma cidade onde o sol parecia brilhar com uma luz mais intensa, quase mágica, como se fosse uma dádiva, para quem ali habitava. As árvores, verdes vibrantes, reluziam como se estivessem cobertas de jade, e uma brisa sedutora e suave, cheia de sussurros de esperança e promessas, envolvia-o, convidando-o a permanecer naquele paraíso mortal.  

As mulheres de Vilária eram como criaturas de outra era, de uma beleza quase sobrenatural, com a pele mais clara que o albor da manhã, quase translúcida, e roupas que mal escondiam a perfeição de seus corpos, deixando entrever a suavidade das suas curvas sob tecidos finíssimos. O ar estava impregnado por aromas de comidas tentadoras, pratos que pareciam saídos de um conto de fadas — peixe dourado com especiarias raras, frutas doces como mel, e pães que derretiam na boca, com uma fartura tal que parecia uma dádiva celestial. Albertino sentiu-se como um rei, um governante de um reino de prazeres, e num coração embriagado de ilusão, decidiu que ali seria seu novo lar.  

Durante meses, viveu como sultão numa terra de deleites: as mulheres, os alimentos, os prazeres sem limites. Sentia-se, mesmo que por instantes, como alguém que conquistara o topo do mundo, envolto numa névoa de felicidade fugaz. Mas, lentamente, uma sombra começou a surgir na sua alma. A emoção inicial deu lugar a uma melancolia silenciosa, a uma sensação de vazio, uma dúvida que crescia no seu interior como uma ferida que não cessa de sangrar.  

Naqueles dias de luz fugaz, tentou se convencer de que tinha encontrado o que sempre procurara. Mas, à medida que o tempo avançava, a sua alma clamava por algo mais profundo, mais verdadeiro. A ilusão de Vilária começou a se desfazer, como uma miragem que desmancha ao toque da verdade. Com o coração pesado de uma tristeza que não podia explicar, Albertino tomou a decisão mais difícil: pegar em sua trocha, despedir-se das delícias efêmeras e partir rumo a um novo destino.  

Um mês de caminhada o conduziu até Capitalis, uma cidade imensa, onde o ouro e a glória brilhavam de forma tão intensa que parecia uma promessa de felicidade eterna — o palco perfeito para um homem que buscava realização. Lá, tudo era maior, mais imponente, como se o próprio céu tivesse sido desenhado para acolher as ambições de quem ali chegasse. Albertino, com o coração inflado de esperança renovada, acreditou, de imediato, que ali, naquela cidade luminosa, finalmente encontraria a felicidade que lhe escapara por entre os dedos em Vilária. Cada passada, cada conquista parecia afirmar que o destino lhe sorriu, que a paz, tão desejada, poderia finalmente abraçar-lhe a alma cansada.  

Depois de laboriosas semanas, conseguiu fazer o seu nome em Capitalis. As suas obras grandiosas, erguidas com dedicação e talento, tornaram-se símbolos de admiração. O nome de Albertino ressoava por toda a cidade, e todos pagavam sem hesitar para que os seus dedos pudessem moldar o destino das grandes construções. A sua fama crescia, o seu rosto tornara-se uma lenda, e por um breve momento, sentiu-se no topo do mundo, como se o sonho que sempre perseguiu estivesse finalmente ao alcance da sua mão.  

Mas, mesmo rodeado de riquezas, cercado por uma cidade que reluzia como um sonho materializado, uma sombra silenciosa começava a invadir o âmago do seu ser. Uma dúvida profunda, uma saudade que lhe cortava o coração como uma lâmina gelada. Porque, apesar de todas as riquezas e do sucesso aparente, a lembrança da sua família, de Alzira, dos seus filhos — Rogéria, Teresa e Alberto — continuava a assombrá-lo com uma intensidade dolorosa. Era como uma ferida aberta, uma lembrança de um amor que nunca conseguiu abandonar por completo, mesmo que tudo o mais parecesse perfeito. E assim, por trás de cada conquista, escondia-se o eco de uma ausência que nunca deixou de viver dentro dele, alimentando uma esperança triste e uma tristeza silenciosa que nunca se dissiparia completamente. 

Albertino, movido por uma vontade quase desesperada de preencher o vazio que o atormentava, decidiu abandonar tudo: a fama, a honra, o reconhecimento e o ouro que adquirira em Capitalis. Era como se uma força invisível o puxasse para um destino incerto, uma última tentativa de encontrar algo que nem mesmo ele sabia definir. Sem olhar para trás, seus olhos encheram-se de lágrimas não ditas, enquanto seus pés finalmente se desprendiam do chão, caminhando por dias rumo ao desconhecido, até chegar a Refúgios.

A cidade era diferente de tudo o que tinha conhecido. Não tinha a ostentação de Capitalis, nem a exuberância de Vilária. Era calma, quase silenciosa, com casas modestas e ruas silenciosas. Lá, a riqueza não reluzia, mas a simplicidade tinha uma beleza triste, quase evocativa de uma esperança esquecida. No entanto, havia algo naquele lugar que lhe encantou de imediato: as mulheres. Vestidas até aos pés, com mantos que escondiam suas curvas e um sorriso tímido nos lábios, elas pareciam guardar segredos antigos, recatadas, mas de uma beleza serena, quase misteriosa.  

Foi nesse cenário que Albertino conheceu Faira, uma jovem de olhos bilhantes que brilhavam como duas estrelas escondidas sob uma cortina de seda, com um sorriso tímido e encantador. A sua aparência delicada, quase etérea, deixou-o completamente enfeitiçado. Apaixonou-se à primeira vista, encantado com a pureza e a doçura daquela mulher que parecia proteger segredos e sonhos. Seus pais eram ricos de uma forma diferente, criadores de gado e terras vastas, e seu pai, o homem mais influente da cidade, viu na união uma oportunidade de aliança e prestígio.  

Com o tempo, Albertino casou-se com Faira, e a fama voltou a acompanhar-lhe os passos — agora como marido de uma mulher de linhagem importante. Trouxeram ao mundo um filho, a quem chamaram Gayash, uma esperança silenciosa de um amor renovado. Albertino viveu anos de uma felicidade aparente, rodeado de bens, de segurança, de uma família que parecia completa. Mas, no fundo da alma, uma inquietação persistia. Uma sensação de vazio, como uma ferida aberta, que nem mesmo as riquezas ou o amor de Faira conseguiam curar.  

Numa noite silenciosa, enquanto olhos fixos no teto, Albertino refletiu sobre toda a sua jornada. Os anos de longe, as conquistas e as perdas, as ilusões e as desilusões. Percebeu, com uma clareza sublime e dolorosa, que a verdadeira felicidade não residia nos bens materiais, nem na glória conquistada. Era o amor, aquele que se entrega de alma e coração, que preenche o vazio mais profundo de cada ser. E naqueles instantes, sentiu o peso de tudo o que deixara para trás — sua esposa, seus filhos, a essência do que realmente importava — como uma ponte que se desfez ao se aproximar do infinito.  

Decidiu então que era momento de regressar ao seu lar, mesmo sem certezas, mesmo com a saudade a dilacerar-lhe o peito. Sem olhar para trás, despediu-se de Faira e pegou sua trouxa, com um coração apertado, atravessando a noite escura. O caminho de volta era uma travessia de esperança e arrependimento, de um homem que finalmente compreendeu que, por mais que se busque o inalcançável, a felicidade verdadeira só se encontra onde o amor sempre residiu — na sua própria casa, no abraço da família que nunca deveria ter partido do seu coração.  

Albertino voltou, não mais como um conquistador, mas como um homem que, na sua melancolia, descobriu a beleza de um amor simples, que transcende riquezas e glórias, um amor que agora sabia ser a sua maior riqueza.

Depois de dias de caminhada, numa manhã de céu cinzento e passos trêmulos, finalmente avistou a sua aldeia ao longe. Cada detalhe pequeno parecia pulsar na sua memória, como se fosse a primeira vez que os via. O coração acelerava descompassado, uma mistura de esperança e medo de tudo o que poderia encontrar.  

Ao chegar à porta de casa, o silêncio era alguém que aguardava silenciosamente o seu momento, até que ouviu uma voz suave, carregada de lágrimas e esperança. Era Alzira. Ela saiu ao encontro dele, os olhos marejados, o rosto pálido de tanto esperar.  

Por um instante, o mundo pareceu parar. Albertino estendeu os braços, e ela, sem hesitar, lançou-se ao seu peito, as lágrimas caindo como chuva em ambos. Seus corpos encostaram-se num abraço apertado, profundo, como se quisessem esconder no abraço toda a dor, toda a saudade acumulada ao longo de anos separados.  

Nesse reencontro, nada mais importava — nem o tempo, nem as riquezas, nem as palavras. Tudo se resumiu ao sussurro da esperança que ainda havia no fundo dos seus corações. E, naquele instante, sob o céu de nuvens carregadas, Albertino e Alzira perceberam que o amor verdadeiro nunca se perde; apenas adormece, esperando o momento de despertar.

A história de Albertino revela uma profunda lição: por mais que busquemos o mundo e suas riquezas para preencher o vazio do coração, nada substitui o amor verdadeiro, aquele que construímos com quem realmente importa. Muitas vezes, só ao perder tudo, aprendemos que a felicidade genuína está nas pessoas que amamos e na paz de um lar que carregamos dentro de nós. Que cada um de nós nunca perca de vista a essência do que realmente importa na vida, pois, no final, são esses laços que dão sentido à nossa existência.

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