O País – A verdade como notícia

Carota N’tchakatcha – feitiços e mitos; N’tsai Tchassassa – a virgem de missangas; e Mueda – nos labirintos dos ritos de iniciação são os títulos dos livros que Carlos Paradona vai lançar, no dia 14 deste mês, no Centro Cultural Português em Bissau.

A oportunidade de apresentar os seus três livros na Guiné surge a convite da União Nacional dos Artistas e Escritores da Guiné-Bissau e, com a cerimónia, pretende-se “contribuir para a internacionalização da literatura moçambicana e sua divulgação” naquele país de língua oficial portuguesa.

Para Carlos Paradona, proceder ao lançamento dos seus três livros na Guiné-Bissau significa que há um reconhecimento de grande amplitude da literatura moçambicana no contexto das nações africanas e, em particular, nos países onde o português é língua oficial. Realça o escritor: “Significa que há um reconhecimento do valor da literatura moçambicana e dos escritores moçambicanos”.

Além disso, a possibilidade de lançamento de Carota N’tchakatcha – feitiços e mitos; N’tsai Tchassassa – a virgem de missangas e Mueda – nos labirintos dos ritos de iniciação, obras inspiradas no Índico e no Zambeze, relança os intercâmbios literários entre os escritores de Moçambique e da Guiné-Bissau. Assim, acredita Carlos Paradona, “Outros autores poderão deslocar-se a Bissau para os mesmos efeitos e a AEMO poderá receber autores da Guiné-Bissau para a apresentação de suas obras”.

Na cerimónia a realizar-se próxima segunda-feira, espera-se pela presença de escritores guineenses, membros da comunidade moçambicana residente em Bissau e o público em geral, incluindo estudantes do ensino médio e superior.

O Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM) acolhe, no próximo dia 12 de Agosto, a partir das 15h, a 8ª edição do Festival Nacional de Hip-Hop “Punhos no Ar” (FNHPA).

Criado em 2016, através de uma parceria entre a Nexta Vida Entertainment, o Café Bar Gil Vicente e o Centro Cultural Franco-Moçambicano, o Festival Nacional de Hip-Hop “Punhos no Ar” é um evento anual centrado na valorização do Hip-Hop Moçambicano, além de promover um encontro de várias províncias, permitindo assim um importante intercâmbio entre os amantes e praticantes da área e o aprofundamento dos laços que unem os fazedores da cultura Hip-Hop no nosso país.

“Nesta 8ª edição teremos os cinco elementos da Cultura Hip-Hop, nomeadamente: MC, DJ, Graffiti, Break-Dance e o ‘Conhecimento’, para além de que, vamos mais uma vez exaltar a Unidade Nacional, reunindo no mesmo palco artistas do Sul (Maputo, Matola e Xai-Xai), Centro (Beira, Chimoio, Tete e Quelimane) e Norte do País (Nampula e Lichinga), com um programa ecléctico incluindo: Música, Dança, Debate, Freestyle Battle, Feira de Hip-Hop e Graffiti, fazendo deste evento um momento de convívio único e fazendo juz ao principal objectivo do festival: exaltação do Hip-Hop Nacional”, lê-se na nota de imprensa do Franco.

A Conferência de Imprensa da 8ª edição está agendada para o próximo dia 10 de Agosto (5ª feira) pelas 15h, no Franco, onde estarão artistas locais e de fora de Maputo, parceiros e convidados.

O ponto mais alto será no próprio dia do Festival, 12 de Agosto (sábado), no Franco, onde estarão, entre vários, Duas Caras, Kloro, Trez Agah, Allan, Iveth, Legacy, Kay Real, Gina Pepa, Bokly, La Vida Louca, Rei Bravo e Pier Dogg.

 

 

Por: Elcídio Bila

Celebra-se, próximo sábado (12), o Dia Internacional da Juventude. E, mais uma vez, um dos assuntos que mais agita esta efeméride, em quase todo mundo, e incluindo Moçambique, é a crise de emprego. Este ano, como se não bastasse, associa-se a este fenómeno o facto dos trabalhadores púbicos auferirem os seus salários de forma desordenada.

De acordo com o Boletim Informativo do Mercado do Trabalho, referente ao primeiro trimestre de 2023, o emprego registou uma redução de 46,5% em relação ao período anterior. Trata-se de uma situação que acometeu todas as províncias, com excepção da Zambézia e Manica.

No trimestre em análise, o desemprego registado nos Centros de Emprego aumentou 0,2% em relação ao período anterior e continuam a afluir a procura de emprego.

Uma das alternativas para contornar a crise de emprego, na cidade e província de Maputo, por exemplo, tem sido o auto-emprego, que cresce exponencialmente.

Sérgio Tamele despertou mais cedo e há mais de 10 anos que se dedica ao empreendedorismo, ajudando mais de 25 jovens, da cidade e província de Maputo, a ter emprego, através da sua rede de lojas espalhadas nos distritos de Marracuene e Manhiça. São seis no total, na vila-sede da Manhiça, em Xinavane, Palmeira, Maragra e vila de Marracuene.

Tudo começou por uma papelaria, em 2010, onde o foco eram fotocópias e trabalhos de impressão. Mas o seu trabalho, baptizado Inforword, cresceu substancialmente dois anos depois, quando se tornou agente e distribuidor de equipamento de transmissão de TV por satélite, para além de realizar recarregamentos, instalações e assistência técnica.

“Quando começamos a parceria com a DStv e GOtv, começamos a ter uma avalanche de clientes e com problemas variados, o que nos permitiu adquirirmos experiência, de várias maneiras, para saber atender ao cliente final”, partilha Tamele, assumindo que “foi desafiante, mas nos permitiu ganhar outra visão no atendimento ao cliente, contrariamente à papelaria que era uma rotina normal.”

A Inforword atende uma média de 200 clientes por mês, onde consegue vender mais de 700 kits de diversos equipamentos de transmissão de TV, mais de 150 subscrições e 30 mil instalações e assistências.

Um dos resultados a ter em conta neste negócio é que, quatro anos depois do arranque, Tamele conseguiu erguer de raiz a sede da empresa na vila da Manhiça, “uma das grandes conquistas que tivemos através deste trabalho”, passando a ser o local preferencial para aquisição de material de papelaria e equipamentos da DStv e GOtv em toda a vila.

Tamele concorda com as estatísticas actuais de falta de emprego, mas, não se prende nisso, convida aos jovens a ter uma visão mais ampla de forma a perceber o que pode ser de mais-valia para garantir a sua sustentabilidade. “Seria bom que aquele que não tem um emprego fixo pudesse aproveitar todas as oportunidades possíveis”, referiu o nosso entrevistado, dando exemplo de um amigo que iniciou um negócio de aluguer de material de decoração para eventos num salão de festas que não provia esse material.

Portanto, acrescenta, “é este tipo de mentalidade que devemos ter quando estamos a atravessar um mau momento, em vez de esperar por um emprego, pois a vida não se resume apenas nisso.”

Sérgio Tamele tem 43 anos e é residente na Manhiça, onde o seu negócio despontou, mas hoje alastra-se por vários quadrantes da província de Maputo. Licenciado em Informática e concluindo um mestrado em Administração e Gestão de Empresas, é um de muitos empreendedores que luta conta a maré da falta de emprego no país e, mais do que isso, cria postos de trabalhos para muitos jovens, sobretudo os que se aventuram pelo primeiro emprego.

 

 

 

 

 

De 23 a 27 de Agosto de 2023, a Província de Maputo será palco da XI edição do Festival Nacional da Cultura – FNC, sob o lema “Cultura, a Força que Une a Nação Rumo ao Desenvolvimento”.

O evento é realizado pelo Governo de Moçambique e está sob responsabilidade do Ministério da Cultura e Turismo. Dentre vários, o maior objectivo do festival é preservar, desenvolver as artes, a cultura, as tradições das diferentes comunidades moçambicanas, criar uma plataforma de interacção e intercâmbio e de divulgação do rico e diversificado património cultural do país, colocando-o ao serviço da sociedade e do progresso.

A abertura oficial do FNC será no campo de Black Bulls, no bairro de Tchumene, às 10h00 do dia 23 de Agosto. O mega evento que valoriza as tradições e práticas culturais do povo moçambicano irá contar com mais de 1000 artistas de todo país, que vão exibir várias expressões artísticas, designadamente: artes plásticas, artesanato, música, cinema, dança, gastronomia, fotografia, moda, literatura, teatro e outras manifestações imbuídas de um inestimável valor simbólico e, impregnadas de conhecimentos seculares que, mais do que proporcionar diversão e lazer, participam do processo de socialização.

Para além das delegações nacionais oriundas de todas as províncias de Moçambique, o festival contará com a participação de delegações estrangeiras, um indicador de que a cultura é um elemento indispensável no estabelecimento de pontes virtuais entre povos e nações.

“O XI Festival Nacional da Cultura é um mecanismo de operacionalização de políticas e estratégias contidas em várias reflexões voltadas para a cultura como uma dimensão importante do desenvolvimento, por outro, constituiu-se como uma verdadeira “festa popular”, um espaço de convívio inter-geracional e inter-étnico que, de forma inequívoca, fortalece a unidade nacional e a moçambicanidade, alicerces para a preservação do espírito de Paz, concórdia e estabilidade, assim como a solidariedade e amizade entre os povos”, lê-se na nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo.

Nas suas variadas expressões, o Festival Nacional da Cultura reflecte o mosaico sócio-cultural moçambicano, uma das maiores riquezas dos moçambicanos e que orgulhosamente distingue Moçambique no concerto das nações.  “É o momento mais alto de celebração e exaltação da cultura moçambicana, em que as ricas e diversificadas tradições culturais milenárias reflectem a grandeza e a força de Moçambique, ao mesmo tempo que constituem uma prodigiosa contribuição para a história e civilizações da Humanidade”.

Em termos gerais, o XI FNC é de carácter demonstrativo, sendo de natureza competitiva nas fases distrital e provincial para o apuramento de artistas e grupos culturais com melhor repertório para se apresentarem na fase final em Maputo.

Importa referir que as fases competitivas tiveram o seu início a 1 de Maio e término a 5 de Agosto do corrente ano. Neste período decorrem os preparativos para a fase final que terá a duração de 5 dias. As actividades da XI edição do FNC vão decorrer nos seguintes lugares: Campo do Black Bulls; Cidadela; Conselho Municipal da Cidade da Matola; Parque dos Poetas;

Palcos Comunitários de Boane; Palco Comunitário de Marracuene; Palco Comunitário da Ponta D´Ouro e Palco Comunitário da Namaacha.

 

 

 

A editora Ethale Publishing manifestou, esta segunda-feira, sentir-se defraudada pela organização da nona edição da Feira do Livro de Maputo, pois, segundo revela em comunicado de imprensa, “notamos pouco ou nenhum interesse de entidades e do público em geral em aderir ao evento, o que acabou afectando a uma das finalidades da realização de uma feira, as vendas”. A seguir, a nota de imprensa na íntegra.

 

“Nos dias 27, 28 e 29 de Julho decorreu no Paços e átrio do Conselho Municipal de Maputo, a edição 2023 da Feira do Livro de Maputo. O evento começou a ser divulgado em meados do mês de Junho de 2023, um mês antes do início da mesma. A comunicação era feita sobretudo através das redes sociais da feira, particularmente o Facebook e Instagram.

A Ethale Publishing, uma editora que actua no mercado livreiro nacional desde 2016 com enfoque na promoção de narrativas africanas, foi uma das feirantes. Como editora nos sentimos defraudados pela organização, pois a feira teve, por um lado, um enorme déficit organizacional, e por outro, notamos pouco ou nenhum interesse de entidades e do público em geral em aderir ao evento, o que acabou afectando a uma das finalidades da realização de uma feira, as vendas. Como editora esperávamos que tivéssemos tido um maior engajamento com o público e com os demais actores do circuito livreiro e cultural nacional, pois uma feira é essencialmente uma oportunidade de negócio, o que não aconteceu.

 

Sendo assim, e porque temos interesse em ver a Feira do Livro de Maputo a ser feita com o devido profissionalismo e a dignificar a cidade e aos seus munícipes, gostaríamos de apresentar as nossas sugestões para que as futuras edições sejam melhores.

 

  • Desafiamos o Município de Maputo a passar a gestão da feira para uma equipa de profissionais da indústria cultural, que possa assegurar que a feira seja uma verdadeira oportunidade de venda, exposição de livros e divulgação da criatividade nacional;
  • Desafiamos o Município de Maputo a preparar com pelo menos doze meses de antecedência e a envolver diversas entidades, sejam públicas e privadas que olhem para o livro e a leitura como motores de desenvolvimento social e económico do país;
  • Que a feira seja realizada num local mais espaçoso e onde outras actividades complementares de promoção da cultura e animação turística possam decorrer – exemplo do Jardim Tunduru;
  • Que a comunicação sobre a Feira seja abrangente, envolvendo escolas, universidades, meios de comunicação, mídia, actores públicos, sector privado, companhias aéreas, aeroportos, e etc;
  • Que o pagamento da taxa de inscrição para a participação dos feirantes se reflicta em contrapartidas mais concretas, e não apenas ao uso de mesa, sombra e corrente eléctrica, pois o investimento dos participantes durante os três dias não são cobertos pelas fracas vendas;
  • Que o Município de Maputo faça valer a sua responsabilidade na divulgação e promoção do livro, subvencione os livreiros, de modo a garantir maior acesso ao livro por parte dos munícipes de Maputo, através de descontos acordados entre a comissão organizadora e os livreiros;
  • Que no fim da feira sejam produzidos relatórios contendo reflexões e propondo novos caminhos e soluções, com base nos temas apresentados. Que o conteúdo daí resultante seja colocado à disposição de quem queira consultar, podendo ser em formato impresso ou digital, em modelo de revista ou jornal. Não julgamos ser salutar a feira não produzir nenhum pensamento.

Como editora, gostaríamos de reiterar o nosso compromisso de continuar a colaborar com o Município de Maputo e outras autoridades de promoção da leitura, do livro, da cultura e do turismo em geral, desde que estejam asseguradas as condições mínimas.

A nossa expectativa é que a Feira do Livro de Maputo seja verdadeiramente uma feira, funcionando como uma oportunidade para a promoção da indústria cultural e do turismo na cidade, tendo o livro no centro”.

O escritor foi homenageado este sábado à tarde, na Feira do Livro de Maputo. Na sua intervenção, Mia Couto manifestou o desejo de que o evento organizado pelo Conselho Municipal beneficie jovens artistas, que muitas vezes não têm qualquer apoio para criar.

 

A literatura é um lugar de encontros. Segundo entende Mia Couto, é na arte da palavra que se estabelece essa linha de costura de tempos e de diferenças entre pessoas. Logo, um escritor nunca se apresenta sozinho. Pelo contrário, “O escritor é feito a partir de outros, é feito a partir dessa costura, desse ponto de encontro que o faz ser, ao mesmo tempo, ele próprio e tanta outra gente, tantas outras histórias, tantas outras vozes e tantos outros silêncios”.

Numa intervenção a oscilar entre o poético e o filosófico, bem a condizer com as características das suas obras, Mia afirmou que não vê a homenagem do Conselho Municipal de Maputo como um gesto que se destina a si, “mas a todos os que me fizeram ser quem sou. Alguns deles estão aqui. Portanto, eu tenho de partilhar esse mérito com a família, em primeiro lugar, com os amigos, com os colegas escritores e colegas biólogos, que me ajudam a ser quem eu sou”. E ainda reforçou: “Nós só somos quem somos se estivermos disponíveis para escutar os outros”.

Na sua intervenção, o escritor não se esqueceu do seu berço. “Eu não sou desta cidade, sou da Cidade da Beira. Como sabem, esse é o meu território fundador. A Cidade de Maputo recebeu-me quando eu tinha 17 anos e é como se esta cidade me tivesse adoptado”.

Adoptado ou não, Mia Couto vive na capital do país há 51 anos, o que lhe permite analisar as tendências redutoras dos munícipes locais. “Pensamos que a cidade termina ali, onde começa a periferia, mas esta cidade tem duas cidades, quase como todas as cidades do mundo, e há um grande risco de a outra cidade, que começa do outro lado, nessa outra fronteira, se tornar invisível. Mas nós temos de saber que há milhares de pessoas que cruzam essa fronteira, da periferia para o centro da cidade, como se fossem emigrantes, porque não encontram nesse outro lugar onde vivem uma maneira de sobreviver com emprego ou um lugar para se fazerem existir”. Disse, Mia, sem deixar de se incluir entre os munícipes que pensam dessa maneira: “Eu próprio avaliou o trabalho do senhor Presidente do Conselho Municipal por este território pequeno, e esqueço-me que Maputo é bem maior, que este Conselho Municipal tem de tratar também desse outro território que, para muitos maputenses, é um lugar não visível”.

Na opinião do escritor, Maputo tem vivacidade cultural que poucas cidades possuem. Também por essa razão, “Uma festa como esta, uma feira do livro como esta, deve ajudar que se tornem visíveis esses que vivem na sombra, que fazem cultura, que fazem arte. São centenas de jovens e que não têm apoio de ninguém, mas que não desistem de lutar, de fazer. Porque não podem cruzar os braços. As pessoas da cultura, infelizmente, não podem entrar em greves, porque isso seria como desistir da nossa própria existência”.

Sem deixar de se referir ao precursor da poesia moçambicana, Mia Couto sublinhou que “A obra de Rui de Noronha nos diz que a literatura é produtora de eternidade. É por isso que o Rui, por causa das palavras que ele fez, está aqui e venceu a barreira do tempo”.

Na sessão de homenagem, o escritor foi acompanhado pela esposa Patrícia, pelo irmão Fernando, pelos filhos Madyo, Luciana e Rita, e pelos netos. Tendo-lhes agradecido por contribuírem para pessoa que é, advertiu: “Estes meus familiares que estão aqui são poucos. Disseram-me que tinha de trazer alguns. Mas os Coutos são muitos. Estou a dizer isto quase como um alerta, porque o meu amigo Ungulani ba ka Khosa disse-me que tinha criado este nome literário porque, Ungulani ba ka Khosa quer dizer diminuam os Khosas. Eu acho que é preciso tomar atenção e, talvez, adoptar a expressão Ungulani ba ka Couto, porque os Coutos já são muitos demais”.

 

Magda de Noronha agradeceu, esta sexta-feira, ao Conselho Municipal de Maputo, por distinguir, a título próstomo, o poeta Rui de Noronha. O precursor da poesia moçambicana morreu há 80 anos, vítima doença.

 

No segundo dia da Feira do Livro de Maputo, a neta de Rui de Noronha, Magda de Noronha, revelou aos participantes do evento que, durante muitos anos, a pessoa e a obra do precursor da poesia moçambicana foram realidades distantes de si e dos seus irmãos. Por um lado, o facto de o pai de Magda de Noronha ter falado do poeta com muita admiração e carinho, não aproximou os seus filhos à figura do avô. Por outro, “a avó, que connosco passou a viver em 1976, não falava muito sobre Rui de Noronha, falecido, recorde-se, em 1943”.

Ora, apesar de viver em Portugal, segundo esclareceu a neta de Rui de Noronha, a dimensão africana, por assim dizer, nunca foi esquecida, mas estava, de certa forma, adormecida. Aliás, foi nos últimos 25 anos, já depois do falecimento dos seus pais, em 1993, que, através da tia, Elsa de Noronha, vivamente apaixonada pela obra do pai e pessoa incontornável na análise e divulgação passaram a conhecer a obra do poeta. “E foi com essa paixão da nossa tia Elsa que a africanidade nos chegou, e chegou-nos fortemente, precisamente, com o reconhecimento que fomos tendo da obra do nosso avó tão impregnada, que é de África, pelos seus sentimentos, pelos seus anseios e da sua mundividência”, disse Mgada de Noronha, no momento em que, no pódio, interveio em nome da sua família em relação à Distinção Autárquica com a Medalha Acácia Rubra de Excelência. E ainda acrescentou: “Mas só hoje, aqui, realizamos toda a admiração da sua obra e estatura de poeta, as quais a comunidade moçambicana, hoje, presta tributo e nós, os netos, nos vergamos. Hoje somos nós que despertamos para África e perante nós a África surge e é boa”.

Para a neta de Rui de Noronha, falando em nome da família, “É, pois, com muito orgulho e com imensa alegria, que aqui estou, em representação do meu pai, da minha tia e dos meus irmãos. Agradecemos a esta homenagem póstuma a Rui de Noronha”.

Como que a responder ao gesto municipal, a família Noronha ofereceu ao Conselho Municipal de Maputo o espólio do precursor da poesia moçambicana.

Intervindo na cerimónia, o professor de Literatura e ensaísta, Francisco Noa, sublinhou que Rui de Noronha deixou um registo indelével na literatura moçambicana, por ter feito da sua escrita um equilíbrio entre a expressão poética e social. “Não deixou de olhar para questões sociais, ligadas, normalmente, às pessoas e às camadas mais marginalizadas da sociedade. Preocupou-se com os magaizas, com os velhos que não tinham condições. Mas também preocupou-se com uma ideia de África”.

No mesmo registo que Noa, Eneas Comiche acrescentou que “Rui de Noronha soube usar da arte da palavra para manifestar a sua posição contra as atrocidades coloniais”

 

Na principal mesa redonda da Feira do Livro de Maputo, Mia Couto, Lourenço do Rosário e Ademar Seabra da Cruz Júnior, Embaixador do Brasil em Moçambique, defenderam que os países de língua oficial portuguesa precisam de fazer da diplomacia cultural um veículo de aproximação permanente entre os povos.

No dia de abertura da nona edição da Feira do Livro de Maputo, Mia Couto, Lourenço de Rosário e Ademar Seabra da Cruz Júnior juntaram-se numa mesa redonda para reflectir sobre os desafios actuais da diplomacia cultural na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Durante o debate, o professor de literatura e ensaísta, Lourenço do Rosário, lembrou que, no passado, os países da CPLP se comprometeram em investir no conhecimento mútuo através dos conteúdos preparados para o ensino. No entanto, o compromisso quase que não se concretizou.

“O compromisso previa que todos os países da CPLP deviam introduzir no ensino primário e secundário elementos de cultura e história dos outros países de língua portuguesa. O único país que cumpriu foi o Brasil. Inclusive, o presidente Lula introduziu, através de um decreto, a obrigatoriedade do ensino de cultura e história dos outros países africanos nos manuais de ensino. Não me parece que o nosso sistema de educação tenha seguido o mesmo exemplo, o que significa um desconhecimento total”.

O desconhecimento total a que Lourenço do Rosário se refere, entretanto, não é apenas em relação aos países da CPLP. Segundo Mia Couto, há também um desconhecimento interno que se deve superar através de uma diplomacia cultural voltada para o território nacional moçambicano. “Começando pelo nosso próprio país, precisamos de fazer uma espécie de trabalho diplomático interno, porque nós também nos desconhecemos na nossa própria diversidade. Num país como Moçambique, é quase como se houvesse muitas nações. Não devemos ignorar essa grande e profunda diversidade e como é que, nas nossas próprias escolhas, se ignora essa riqueza. Muitas vezes, olhamos para a diversidade como um problema”, afirmou Mia Couto, escritor homenageado nesta nona edição da Feira do Livro de Maputo.

Numa mesa redonda moderada pelo professor de Literatura e ensaísta, Francisco Noa, o Embaixador do Brasil em Moçambique explicou por que é importante investir nas artes e na cultura como elementos de aproximação entre os países da CPLP. “A questão da cultura exige uma reflexão sobre qual é o seu papel de antecipar transformações sociais e de movimentos que se traduzem em identidade possível de transmitir ao outro”.

O tema de conversa que juntou Mia Couto, Lourenço do Rosário, Ademar Seabra da Cruz Júnior e Francisco Noa foi “Diplomacia cultural em questão: desafios e perspectivas de uma integração comunitária por meio da cultura”.

Este sábado, terceiro e último dia da Feira do Livro de Maputo, Mia Couto será homenageado no Conselho Municipal de Maputo.

Neste domingo, a partir das 15h, no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, na Cidade de Maputo, a Orquestra e Coro Xiquitsi vai apresentar o segundo concerto da segunda Temporada de Música Clássica Xiquitsi-2023.

Desta vez, está em cartaz a “Tarde para pais e filhos”, a ser dirigido pelo coordenador pedagógico do Xiquitsi e Maestro Estêvão Chissano, com os solistas Cecília Mapanga (aluna do Xiquitsi) e Deuscio Vembane.

Segundo a organização, será uma tarde em que os xiquitsianos vão mostrar o resultado do que têm fazendo nestes 10 anos de existência do projecto.

O repertório é bastante convidativo, garante a organização.

 

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