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O País – A verdade como notícia

2017 é um ano de grande satisfação para os cineastas moçambicanos. Foram apenas suficientes seis dias para que se divulgasse a primeira Lei do Audiovisual e Cinema e, mês passado, divulgado o respectivo regulamento.

Há quarenta anos que os cineastas debatiam-se com a falta de legislação que regulasse o sector. E a última década foi de discussões acesas com diferentes instituições para que o sonho dos criadores de filmes se tornasse realidade. Entretanto, alguns homens do cinema não se revêem com alguns aspectos preconizados na lei, por isso, concluem que existe muita ideia de punir do que de apoiar, fazendo com que este dispositivo não esteja ao serviço do propósito pelo qual foi criado.

João Ribeiro e Sol de Carvalho, cineastas sobejamente conhecidos e com obras premiadas no solo pátrio e pelo mundo, são os que escancaram suas ideias em torno deste dispositivo. Ambos são unânimes em admitir que a lei vai ajudar grandemente no funcionamento desta arte no país, que muito se reclamava ser negligenciada. Entretanto, os cineastas detectam neste instrumento regulador várias incongruências.

Para João Ribeiro, o grande problema desta lei está na necessidade de se usar o roteiro da obra a produzir como um dos requisitos para se adquirir o visto de rodagem. “Não só condicionam a apresentação de um guião, o que quer dizer que o guião é importante para a decisão, porque senão não estava lá, como também põe em força que cada alteração do guião deve ser apresentada ao Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC). Que critério é este? Terei um vigia ao pé de mim para saber se alterei ou não o guião? É um absurdo! A lei não pode cair neste ridículo, porque tem a ver com a liberdade de expressão e artística. E, na minha óptica, há uma intenção clara do legislador fazer uma censura, porque senão não fazia tantas restrições nem reforçava a ideia de que, se não comunicar as alterações, terei uma multa”, condena o cineasta, justificando que um guião se altera várias vezes.

Ribeiro apenas admite existência de um arquivo do guião como se entrega um filme, mas isso, como defende o autor, é a posterior e não como condição para emissão de um visto de rodagem.

O realizador identifica uma contradição na lei, porque mais adiante, no capítulo referente aos fundos do apoio, o regulamento prevê a entrega de guião. Aqui Ribeiro acha justo, uma vez que se trata de um concurso e todos os meios do projecto são necessários para julgar a melhor proposta. Já para um visto de rodagem, acha um absurdo, pois a produtora já está licenciada para produzir filmes.

Sol de Carvalho também identifica a questão da entrega do roteiro (guião) como uma das lacunas da lei e diz que, na negociação feita com o legislador, os cineastas já tinham distanciado quanto a este aspecto. “Se nós temos uma Constituição da República que dá direito à expressão, por que eu preciso de enviar um guião, onde há uma interpretação ambígua que pode significar aprovação de guião?”, questiona. Para o realizador, corre-se o risco dos guiões não serem aprovados, caso firam, por exemplo, uma entidade governamental. “Nunca vão dizer que este filme não pode ser feito, porque o guião não foi aprovado. Nós sabemos que vão ser criadas dificuldades”, desconfia.

Sol de Carvalho diz que se a lei clarificasse que a entrega do guião é um mero detalhe administrativo, só para saber onde se vai filmar e outros aspectos não se opunha. “Mas tem que me dizer claramente que ninguém pode proibir um filme por causa do seu conteúdo, a não ser que agrida a Constituição da República”, acrescenta.

A Lei do Audiovisual e Cinema, na visão do realizador, é boa se for interpretada de uma forma artística e estar de encontro aos seus objectivos, mas se se for interpretada de forma muito restrictiva vai tornar-se o contrário do seu objectivo principal, ou seja, vai prejudicar em vez de ajudar.

Não é só roteiro

A questão do roteiro, ainda que identificada como a maior gralha, não é a única questão que os cineastas apontam. Para João Ribeiro, é inadmissível que se coloque o orçamento para se ter a autorização de rodagem e que se deve pagar 0,5% para se ter a respectiva a autorização. Outra questão é sobre os fundos de apoio que carecem de normas de gestão. Ademais, o fundo não paga uma série de necessidades indispensáveis para uma produção cinematográfica.

Para os cineastas, o fundo não basta. O regulamento, na opinião deles, devia prever incentivos aos cineastas. “Uma pessoa que vem fazer um filme aqui, não devia pagar mais taxas por isso. Devia, antes, ter benefícios das taxas que paga”, defende Ribeiro.

A quota de exibição de conteúdos em canais nacionais de televisão é outro aspecto que não é bem visto. Os cineastas acarinham a ideia, mas questionam as condições das televisões nacionais para esse feito e o tempo dessa preparação.

Quanto à classificação dos filmes, outra nódoa nesta lei, inquieta Sol de Carvalho. O realizador não percebe como essa classificação pode ser feita em função do horário de exibição do filme.

Cineastas traídos?

Os cineastas concordam que houve encontros de auscultação com o legislador, mas várias propostas foram ignoradas. “Qualquer pessoa sabe que uma consulta pública no fim deve ser refinada. Eu acho que o Conselho de Ministros tem todo o direito e toda a autoridade de pegar num projecto de lei e anular os aspectos que acredita não convir”, concorda Sol de Carvalho. Mas a questão que o realizador coloca é que ao longo das conversações houve aspectos aprovados, mas depois foram anulados. “O que está a acontecer é que as pessoas que estão a interpretar concretamente a lei não parecem estar sintonizadas connosco”, acusa. Para o cineasta com mais de 30 anos de carreira, entende que muitos que escreveram a lei não conhecem os mecanismos concretos de como é que se faz um filme e os problemas que existem para fazer o mesmo filme.

A Associação Moçambicana de Cineastas (AMOCINE) não referenciou nenhum aspecto especificamente, mas concorda que a lei traz à tona várias lacunas. Para Gabriel Mondlane, o problema prende-se pelo facto do legislador, aquando da arrumação dos artigos, não ter tido o cuidado de voltar a mostrar aos cineastas como estavam acomodadas as suas contribuições, para ver as partes que eventualmente foram omissas por desconhecimento da área ou por lapso.

INAC distancia-se da crítica dos cineastas

Para Osória Grachane, a reacção dos cineastas, antes de mais, significa que a lei foi bem acolhida e que estão numa fase de leitura e tentar compreender o espírito do legislador. No que tange ao roteiro, a directora-adjunta do INAC diz que é normal que alguns homens do cinema não se sintam confortáveis, mas, garante, foi sob proposta dos cineastas que este constitui um dos requisitos para a obtenção de visto de rodagem. “A nossa intenção é termos a oportunidade de constituirmos a nossa base de dados, porque é a através do roteiro que teremos a informação, por exemplo, dos técnicos envolvidos na filmagem, o local, o investimento e o resumo daquilo que vai constituir o filme”, explica. Para o INAC, esta informação é relevante, porque, caso um filme use material bélico, por exemplo, a instituição vai preparar-se para trabalhar com a produção do filme nesse sentido.

Mais adiante, Grachane diz que admira o facto dos artistas, hoje, contestarem uma prática de há mais de 40 anos. “Nós não solicitamos o roteiro para os fins de censura, mas sim para podermos ter dados. Não temos nenhum caso de um filme que tenha sido objecto de censura”, secunda.

Em relação aos fundos do apoio, a directora-adjunta disse que será regido pelo FUNDAC e quanto aos critérios de gestão, o que para os cineastas não está explicado, a entrevistada diz que a lei está clara. “Desde o artigo 66 ao artigo 106 deste regulamento, fala-se sobre as formas de acesso ao fundo. Por exemplo, posso frisar que haverá um júri e a cada mês de Outubro, haverá uma divulgação prévia do fundo existente para apoio referente ao ano seguinte. A informação será divulgada nas páginas web do INAC e FUNDAC, como também nos jornais.

Entretanto, Grachane entende que é natural que alguns aspectos não estejam de acordo com o desejo de parte de nós, afinal, trata-se da primeira lei.

Apesar das divergências, a Lei de Audiovisual e Cinema foi divulgada e é de cumprimento obrigatório.

O filme moçambicano "Comboio de Sal e Açúcar" venceu dois prémios no Festival de Cinema Africano de Khourigba, que se realizou em Marrocos, desde o passado dia 9 de Setembro, e acabou de encerrar esta noite.

O filme, de Licínio de Azevedo, ganhou o prémio de Melhor Realizador e o prémio Melhor Guião.  

Dos 14 filmes que estiveram em competição no Festival, "Comboio de Sal e Açúcar foi o único  que obteve dois prémios.

O filme vai agora à Europa, onde será exibido na Alemanha de 22 a 27 de Setembro.

De seguida, será lançado em Lisboa, na Cinemateca Portuguesa.

No "Comboio de Sal e Açúcar ", Licínio de Azevedo leva às telas  as consequências da guerra entre o Governo e a Renamo.

O concurso Miss CPLP é uma iniciativa do Comité MISS CPLP em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e a UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), com carácter intercultural e visa a difusão e promoção de valores socioculturais de inclusão, no âmbito da lusofonia e a partilha do conhecimento sobre a diversidade lusófona. O concurso iniciou em 2013, estando agora na sua quarta edição e a gala irá decorrer amanhã, em Lisboa.

Entretanto, o concurso é pouco divulgado em Moçambique. “O País” chegou a esta constatação após procurar por várias modelos que possivelmente representariam o país, mas nenhuma contactada tinha conhecimento do concurso.

Em conversa, via email, com a comissão do concurso representado por Celso Soares, mentor e presidente do MISS CPLP, percebeu-se que desde o início do concurso Moçambique é dos países que sempre teve dificuldades em participar e a comissão aponta como causas a falta da cultura de “misses” e a dificuldade em identificar parcerias para a realização de castings que permitam a selecção oficial das candidatas e o posterior acompanhamento ou apoio das jovens, a fim de representar o país.

Celso Soares avançou ainda que existem jovens que se inscrevem através da plataforma digital e são seleccionadas através do perfil apresentado, mas depois vêem-se limitadas por não conseguir o devido apoio ou acompanhamento, como por exemplo bilhetes de viagens do seu país de origem até Portugal, acrescentado que algumas candidatas se inscrevem, mas depois não reagem em sequência, revelando alguma dificuldade de comunicação e de apoios.

“O País” contactou também com a Moz Celeb, uma das agências conceituadas no que concerne a modelos em Moçambique. A Moz Celeb confirmou o contacto com a comissão do Miss CPLP, mas para eles existe sim a cultura de Miss no país, citando alguns nomes das modelos que têm participado em vários concursos, como é o caso da Madina Chume que participou do “Miss of África”, porém reconhecem que houve um período morto, onde estes concursos passavam despercebidos, mas actualmente as modelos correm atrás.

A nossa investigação despertou o interesse da modelo Madina Chume, que ganhou recentemente o prémio “Face of Africa” do concurso “Mrs. Africa 2017”. Ela é a única moçambicana que conseguiu se inscrever-se e passou automaticamente do casting.

“Talvez por se tratar de uma dissertação de mestrado, este livro apresenta-nos um Jeremias pouco conhecido, um Jeremias pouco comum, um Jeremias académico, com todos os adjectivos – bons ou maus – que costumam rotular a esse tipo de pessoas (os académicos) ”, disse Nataniel Ngomane nos primeiros instantes de apresentação da obra “Tendências da Crítica Literária em Moçambique”.

Embora não assumisse a apresentação como tal, Ngomane, através da sua leitura interpretativa, referenciou os aspectos que tornam o livro pertinente. O primeiro aspecto que o professor de literatura destacou é a “densidade discursiva, incomum, fortemente apoiada no repertório de livros e autores canônicos, muitíssimo pouco conhecidos do seu público habitual ou mesmo bastante desconhecidos” e o segundo aspecto que o acadêmico citou é o “rigor analítico, próprio da academia, e uma boa dose de erudição”.

Ngomane recordou ao auditório que esse não é o Jeremias Langa que conhecemos, pelo qual nos habituamos através da tela da televisão.

Por isso, prossegue o apresentador, este livro é de leitura árdua, porque está prenhe de preceitos teóricos muitas vezes aos não iniciados na crítica académica.

“Este é um livro de facto de crítica académica, embora o seja também de crítica jornalística, porquanto aborda essa vertente da critica literária (a jornalística) ”, sustentou Ngomane.

Este livro tem como objecto de estudo os textos críticos, ou seja, a metacrítica: a crítica que analisa a crítica. Ngomane não tem dúvida de que se trata de um livro recomendável aos estudantes de letras, muito em particular aos de literatura; mas não exclui os estudantes de jornalismo, sobretudo aqueles que se interessam pelo jornalismo cultural com ênfase à crítica literária ou a crítica da arte.

Para Ngomane, um dos maiores méritos do livro é levantar diferentes aspectos que para si suscitam comentários. O primeiro aspecto por ele comentado é a presença da literatura na imprensa e o facto da literatura ser vista muitas vezes de fora para dentro. O aparecimento deste livro vem preencher um vazio no que concerne a obras que abordam sobre a nossa literatura, sugerindo, deste modo, a contribuição para a formulação de uma teoria poética africana, cuja modesta do professor preferiu reduzir para a poética moçambicana.

Jeremias Langa, na sua explanação, também referenciou um dos últimos aspectos que Ngomane levantou na sua apresentação, a questão da teoria poética africana ou moçambicana; deixando que a análise sobre a nossa literatura não venha apenas de fora. Para o autor essa foi uma das questões que lhe fez abordar esta temática. Não só, desta forma, Langa mostra que a imprensa “desempenha um papel fundamental como um espaço de legitimação do discurso crítico, porque a crítica enquanto um processo construtivo e analítico, ela se assume como um instrumento de regulação e de orientação do leitor, ao fazer esta mediação entre quem escreve e quem lê, evitando que se torne literário o que não é”.

A cerimónia de lançamento do livro decorreu ontem, em Maputo e foi testemunhada por diferentes personalidades, com destaque para o ministro da Juventude e Desportos, Alberto Nkutumula; magnífico reitor da Universidade Pedagógica, Jorge Ferrão; PCA do grupo SOICO, Daniel David, entre amigos e familiares do autor.

A música de Valdemiro José ajudou para que a viagem literária do jornalista fosse amena. Menos mal!

 

Fotografias e textos diversos ilustram a história dos 10 anos do projecto musical TP50 na sala de exposições do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), em Maputo, até ao dia 16 deste mês.

Essencialmente estão ilustrados diferentes concertos em que a banda dirigida por António Prista apropriou-se de obras de músicos e escritores brasileiros, portugueses e moçambicanos para contar diferentes histórias por meio da música, teatro, cinema e, porque não, da fotografia.

Este fim-de-semana (15 e 16), os TP50 vão resgatar todos os espectáculos já realizados e, por via disso, contar a história do grupo e exaltar os valores da música e de outras artes num palco com mais de 50 artistas. Segundo Prista, os que acorrerem ao CCFM encontrarão uma orgia de emoções: “vamos exaltar a tristeza, a alegria, o humor, a frustração, a raiva; que é o que nós tentamos… ser um palco de emoções, usando a arte. Vão sair muito felizes e vão despender uma noite agradável e útil”, sublinhou Prista.

TP50 é um agrupamento em que fazem parte mais de 200 artistas. A razão de um grupo com vários membros é simples, é que os artistas apenas entram e nunca despegam, são os casos dos artistas internacionais que vão participar do concerto: Maria João e João Farinha (Portugal), Guilherme Sparapan, Sérgio Castanheira, Manoela Pamploma, Santiado Galdino e Julian Malhães (Brasil).

A grande lição que Prista diz ter assimilado nesses 10 anos dos TP50 é de que é possível, apesar da auto-estima baixa de muita gente, fazer coisas bonitas e com muito valor e que há gente que quer.

Os TP50, ainda que formalizem apenas os 10 anos, são fruto da convivência de mais de 40 anos de amizade de alguns membros. Prista revela que nunca foi planificado que assim fosse, mas é com muita alegria que agora a banda celebra esta efeméride com um álbum de temas inéditos e fotografias.

O auditório da nova sede do BCI, em Maputo, será o palco de apresentação de mais um livro científico, que tem como principal objecto a literatura, ou melhor, a crítica literária.

O diferencial desta obra pertencente ao renomado jornalista Jeremias Langa, e que sai pela Alcance Editores é o facto de surgir da preocupação de os jornais moçambicanos carecerem de textos literários ou de estudos sobre a literatura.

Outro aspecto a destacar, é o facto de ser uma obra que sai sem necessariamente um objectivo académico, ainda que tenha sido resultado de uma dissertação de mestrado na área de literatura.

“As Tendências da Crítica Literária de Moçambique” é um livro preocupado com a forma como é feita a crítica das obras literárias nos jornais moçambicanos e, ao mesmo tempo, coloca a preocupação de a imprensa voltar a assumir o seu papel na promoção da literatura.

O livro será apresentado pelo académico Nataniel Ngomane e contará com um momento cultural protagonizado por Valdemiro José.

O jornalista Jeremias Langa a partir de amanhã passa a figurar nas lides literárias do país. “Tendências da Crítica Literária em Moçambique” é o passaporte de entrada para o universo literário moçambicano e, quiçá, mundial. A obra que será lançada no Centro Cultural Camões, pelas 17h30, é fruto da sua dissertação de mestrado e, essencialmente, aborda a questão da crítica literária no país, que no entender do autor, actualmente, é inexistente na imprensa: “os espaços literários minguaram”.

Langa disse ter optado por este tema pela sua fraca exploração, em termos de obras, em Moçambique. Ao autor interessa-lhe, sobretudo, a forma como a crítica literária é produzida no contexto local, tendo em conta  o seu papel de regulador da indústria literária.

Desengane-se quem julgar que, como jornalista, Langa está distante da literatura. Muito pelo contrário, afinal, as primeiras manifestações literárias socorreram-se da imprensa para chegarem ao público. É desde sempre que a literatura e o jornalismo andam de mãos dadas. Aliás, a ideia de publicar esta obra é também uma função jornalística que o autor cumpre, como forma também de incentivar que a nova vaga de jornalistas volte a colocar conteúdos literários nas páginas dos jornais.

Para o autor, a imprensa moçambicana devia voltar a publicar crítica literária, justificando que embora sejam trabalhos produzidos nas universidades, é necessário que se alargue o seu espaço e só a media é capaz de a difundir com mais profundidade.

A grande lição da obra que conta com o prefácio do académico Francisco Noa é de que a vitalidade de uma literatura está ligada com a forma como a imprensa pública a crítica, pois no entender do, agora, escritor não é possível desenvolver uma indústria literária sem a crítica.  
A obra “Tendências da Crítica Literária em Moçambique” sai sob chancela da Alcance Editores e concentra-se no estudo das tendências da crítica literária no país, analisando os escritos publicados em jornais desde o período colonial.
 

 

Li, de forma desinteressada, o artigo Reflexões em torno da literatura moçambicana, da Professora Fátima Mendonça,  publicado no Jornal O País,  dia 05 Setembro. Apesar da aparente clareza de ideias  que costuram o corpo do texto, a um leitor atento ao processo de crescimento  da literatura moçambicana, sobressai de imediato que o mesmo foi escrito  sob a nublada da  pressa que sempre rouba espaço a uma boa pesquisa ou intenção de ludibriar a memória da mais recente história literária. Uma terceira hipótese indica que a autora  desconhece uma série de aspectos ligados à matéria que se propôs tratar, na medida em que o texto em apreço está ferido de imprecisões e distorções que acabam por prestar um falso testemunho à verdade histórica.

Ignorando as hipoteses já avançadas, provavelmente a reflexão tenha sido nublada  por acontecer na óptica  de um Caleidoscópio assente na Península Ibérica, causando um gravíssimo erro de paralaxe. Pois, apesar de colorido, o efeito da visão que produz é notoriamente assimétrico aos factos do processo que, de forma sumária, procura descrever. Misturando no mesmo saco o fenómino literário emergente nos anos 90, onde já dominava a impressão offset para divulgação de textos, e o embrionário  nestes últimos sete anos, marcado pelo suporte electrónico, à partida, a Professora comete um erro metodológico de que a conduz inevitavelente a um logro.

Iniciemos a contra-argumentação, que espero seja entendida como mero exercício de “cidadania literária”, atentos à afirmação  “no início desta década a situação evoluiu para outro patamar mercê de um fenómeno que se vinha manifestando desde os anos 90  com surgimento de grupos de jovens escritores que de alguma forma se afirmavam fora do quadro da protecção institucional de que tinham beneficiado os seus antecessores através da AEMO.” Não há dúvidas de que esta colocação insere uma meia verdade, se atendermos o facto de, em 1997, durante a vigência do Secretariado de Suleimane Cassamo, a Associação dos Escritores Moçambicanos ter convidado jovens, através de um anúncio, publicado numa edição do Jornal Notícias da época, com objectivo de criar uma nova revista. Num encontro bastante concorrido, a futura revista seria denominada Oásis, sob proposta do poeta Sangare Okapi. Nessa reunião, havida na AEMO,  surgiram outras propostas, como “Arena”, ou “Makalelo”. Entre dezenas de jovens desta nova etapa da literatura moçambicana, destacamos o envolvimento de Osvaldo Jaime , Chagas Levenne, Celso Manguana, Domi Chirongo, Hélder Faife, Jorge Matine, Rui Ligeiro, Sangare Okapi e, por extensão, Amin Nordine, Leo Cote, Lucílio Manjate, Jorge de Oliveira, pois embora estes não tenham publicado algum texto na revista, associaram-se intelectualmente ao núcleo oásis, mais tarde chamada “Geração Oásis”. Mas, também surgiram outras revistas, fora do espaço físico da AEMO, das quais destacamos, de Xai-Xai, a revista Xitende (1998). A Revista Xitende foi a antecâmara da aparição, em 2005, Edições Fundac, do  livro “A Febre dos Deuses”, de Andes Chivangue.  Dom Midó das Dores lança “A Bíblia dos Pretos”, edição da Índico ( 2008). Mas,  daí a afirmação de que “a  intensa actividade cultural e nalguns casos editorial de outro tipo de instituições nomeadamente  a Fundação Fernando Leite Couto e a Escola Portuguesa em Maputo,  a Casa do Artista na Beira e os vários  Centros Culturais ligados a diferentes embaixadas principalmente em Maputo e Beira abrem espaço para que estes grupos encontrem reconhecimento próprio  quer através de edições quer através de iniciativas culturais de índole diversa, tomando a seu cargo diversas formas de estimular a recepção das obras que editam,” a Professora Fátima começa a confundir perigosamente os factos, assarapantando as circunstâncias e o momento de  reconhecimento de duas gerações  completamente distintas.

O  surgimento de grupos de escritores,   com caminhos abertos pela Internet corresponde, de facto, a esta década e não deve, de modo algum, ser metido no mesmo saco com o dos grupos acima descritos. Como que a seguir uma verdadeira marcha pelo eixo do tempo , depois do primeiro número da revista Charrua, (1984),  passaram 13 anos para a publicação da  Oásis (1997), e daqui transcorreram outros 14 (2011), até surgir a primeira revista electrónica, Literatas, feita por um grupo de jovens,  o Movimento Kuphaluxa. Surpreendentemente,  sobre a matéria, a Professora Fátima sugere:

São uma geração das novas tecnologias, aberta a um mundo em que as fronteiras se tornam porosas, que conscientemente aproveita as vantagens dos caminhos abertos pela Internet, no Facebook, nos blogs em todo esse aparato tecnológico que integra soluções culturais para o nosso presente e que no caso de países como Moçambique em que existe uma hipertrofia dos  grandes centros urbanos, permite colmatar as assimetrias existentes.

O surgimento paralelo neste ambiente, dos  romances de João Paulo Borges Coelho, ele que do ponto de vista etário e social provém de um Tempo onde se sucederam regime colonial, guerra de libertação e toda a Utopia trazida por um discurso que se pretendia libertador, não deixa de ser um fenómeno que rompe com a uniformidade criada por esta nova geração em ascensão.

Qualquer paralelismo a estabelecer entre a “Geração Internet” e o surgimento dos romances de João Paulo Borges Coelho conduz a um anacronismo que deturpa a imagem do processo. Como é que este escritor, que publicou o seu primeiro livro em 2003, “As duas sombras do rio”, pode ser arrogado força que  rompe com a uniformidade criada por esta nova geração em ascensão, que surge em 2011, oito anos depois da sua estreia em livro? A “Geração Internet”, a das novas tecnologias, tem erupção nesse ano, com a publicação da revista Literatas. Anote-se, em 2011, Borges Coelho estava o nono livro, “Cidade dos Espelhos”.  Da geração dos anos 90, difícil apontar um sequer que, pelo menos, tivesse um aparelho celular. Grosso modo,  computadores eram pertença de instituições aos olhos dos jovens literatos de então, hoje na faixa etária dos quarenta e três anos, em média. Tentando fazer a reposição histórica dos factos, este autor, embora distante da interacção dos jovens que publicaram as principais revistas nos anos 90 até os primeiros dois ou três anos do Século XXI, em suporte de papel , surge em livro a coincidir com a publicação dos primeiros livros de autores da efervescência do último decénio do século XX; “Amor Silvestre” (2001), de Rogério Manjate, Inventário de Angústias ou Apoteose do Nada (2005), de Sangare Okapi, excluindo um de 2003, para evitar o risco da parecença com pretensiosismo. Tendo-nos referido ao Rogério Manjate, é lícito questionar: Como é que um escritor atribuído o Prémio Guimarães Rosa/RFI, em 2002, pode ser associado, como se, pretende à esta recentíssima “Geração Internet”?  

Apenas para demonstrar o nível de deturpação derivada deste anacronismo, a  Professora Fátima adianta; “São jovens com formação superior e ocupação profissional estável o que lhes retira alguma da aura boémia os seus antecessores mas lhes confere em contrapartida capacidade para as engenhosas soluções editoriais e de marketing que praticam.”, no ano de surgimento do primeiro romance de João Paulo Borges Coelho, 2003, o coordenador da revista Literatas,  Eduardo Quive,  tinha 12 anos,  frequentando a Escola Primária Patrice Lumumba.  Dany Wambire, da revista Soletras, contava 14 anos.

Uma ressalva chama aqui alguma razão ao  papel de alguns Centros Culturais ligados a diferentes embaixadas, pois dois autores do fenómeno literário dos anos 90, publicaram os seus primeiros livros mercê prémios instituídos pelo Centro Cultural Português, na altura Instituto Camões, em parceria com a AEMO e AMOLP. Todavia seria esticar demasiadamente a corda, para os situar nesta década em que a “Geração Internet” se  mostra  em ascensão, atendendo que foram laureados com o Prémio Revelação AEMO/ICA  e Prémio Revelação de Texto Dramático AMOLP/ICA, em 2003 e 2005.  

Outrossim, apontar uma “intensa actividade cultural e nalguns casos editorial de outro tipo de instituições nomeadamente  a Fundação Fernando Leite Couto e a Escola Portuguesa em Maputo, a Casa do Artista na Beira”, é no mínimo estranho, sobretudo quando nos fixamos a actividade editorial desta década, na qual as edições da Editora Alcance foram muito acentuadas . Admito a possibilidade de, por hipótese mesmo, ter andado algo distraído, não tendo assim me apercebido do impacto da nova dinâmica editorial nos anos mais recentes. Tendo a Professora se referido a uma intensa actividade editorial, alguém pode actualizar-me dos títulos publicados pela Fundação Fernando Leite Couto, ou a Escola Portuguesa em Maputo ou a Casa do Artista na Beira?  

A concluir, procurando entender as razões deste desastre de ideias, desastre porque reconheço grande mérito aos estudos anteriores da Professora Fátima Mendonça, primeiro chamamos à análise o facto de a professora Fátima ter escrito o texto Reflexões em torno da literatura moçambicana para apresentação num determinado fórum, circunstância que, provavelmente, poderá ter exigido alguma pressa, roubando assim o tempo necessário ao trabalho de pesquisa, mesmo a altura dos créditos que detém. Por outro lado, este despiste prende-se ao facto de os estudiosos de literatura em Moçambique terem ficado distantes do processo criativo dos movimentos literários iniciados nos anos 90, reconhecida hoje por muitos como “Geração Oásis”, sendo esse o preço que muitos académicos irão pagar nos próximos tempos, fazendo leituras apressadas para responder a aspectos circunstanciais, sobretudo quando os seus próprios estudantes já apresentam sugestões de temas para monografias de fim de curso, buscando obras de autores desta geração, que permaneceu quase que esquecida, ignorada por um período de quase vinte anos. Para simplificar o trabalho, na sua reflexão, a Professora Fátima juntou duas gerações distintas, a fim de construir a sua tese de ruptura de um paradigma, por parte de João Paulo Borges Coelho. Nesse corta-mato, ficamos diante da chefe de cozinha que, na mesma panela, confecciona  carne de lebre e gato, agora, apenas quem conhece a anatomia de cada bicho saberá que pedaço levar à boca na madrugada deste convívio literário. Raras excepções,  os primeiros estudos sobre alguns autores da “Geração Oásis” advêm do Brasil. De Portugal, e cá entre nós, depois de negligenciada, não havendo tempo para pesquisa, melhor o silêncio de sempre que a deturpação.

Aurélio Furdela

Obras literárias de novos autores não param de chegar às prateleiras nacionais. Há poucos dias, foi a vez de “Na terra dos sonhos”, de Agnaldo Bata, um convite, de acordo com escritor, para uma viagem rumo a um plano ideal para a sociedade moçambicana. O principal interesse nisso, recorrendo à ficção, é fazer entender que, mais do que nunca, é preciso que os homens e as mulheres partilhem direitos iguais. “Então, ‘Na terra dos sonhos foi a saída que encontrei para poder materializar o anseio de chegar a um universo onde podemos gozar esses direitos, lembrando que continua a ser preciso caminharmos em direcção a uma terra ideal”, confessou o escritor.

Para que o livro que tem como protagonista Ângela, Agnaldo Bata teve que recorrer a experiências particulares, apoiadas em pesquisas concretizadas entre 2011 e 2013. Mas, mais do que isso, o maior desafio, na escrita do livro, foi distanciar-se das realidades para que a obra não se tornasse apenas num mero testemunho de mulheres que ouviu ao longo do tempo.

Ainda sobre as mulheres, bem representadas no seu livro de estreia por via de uma personagem lutadora, Bata defende que elas têm particularidades que nenhum homem será capaz de compreender. “E eu entendo que, no mínimo, deveria haver um esforço nesse sentido, aceitando-se como elas são sem as impor o que a sociedade gostaria que elas fossem”.

“Na terra dos sonhos”, prémio ex-aequo pelo Banco de Moçambique, em 2015, por ter sido distinguido, permitiu a Agnaldo Bata chegar com mais à vontade aos editores. De acordo com o escritor, vencer concursos literários é importante porque o autor, por exemplo iniciático, adquiri a possibilidade de ser levado a sério pelas editoras. “É difícil ter a legitimidade de escritor para quem ainda pretende estrear-se em livro”.

Em relação à arte literária em geral, Agnaldo Bata vê nas letras a possibilidade de falar sem ser interrompido, do início até ao fim, sempre com tempo suficiente de pensar naquilo que vai “falar”, de modo que o que se diz não seja algo dito de forma banal. “E outra maior vantagem da escrita é essa de podermos idealizar um mundo melhor. Para o efeito, temos de investir muito do diálogo interior, de modo que, ao partirmos para o dialogo exterior, consigamos nos impor ao mundo cruel, que quase nunca nos sede nada”.

O que mais atraiu Agnaldo Bata na escrita de “Na terra dos sonhos”, que teve como primeiro título “Ângela”, tem que ver com o desejo de fazer com que os seus leitores possam apaixonar-se pela estória, e, com isso, deixarem-se levar por uma revolta que lhes permita mudar alguma coisa em si, na forma como olham para a sociedade.

O livro levou quatro anos para estar pronto, algo que custou páginas rasuradas e deitadas fora. Nesta edição pela Alcance Editores, sobreviveram 87 páginas

 

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