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O País – A verdade como notícia

A cantora moçambicana, Xixel Langa, apresentou ontem o seu primeiro CD. O espectáculo que teve lugar no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, faz a trajectória dos dezanove anos de carreira num álbum que cruza jazz e ritmos moçambicanos, onde o amor é a mensagem principal.

Embora a sua carreira tenha iniciado muito antes, o surgimento do álbum “Inside me” marca o seu nascimento como artista. A história que se contou, na noite de ontem, tem quase vinte anos, por isso muitas peripécias.

Nos primeiros minutos do concerto, Xixel Langa priorizou músicas que exploram ritmos tradicionais, por isso o traje devia condizer. E ela, sempre eléctrica, não poupou nos movimentos.
Mas também houve espaço para criações mais serenas, em nome do amor. O seu jeito ousado não foi dispensado nesta história contada em forma de concerto, ainda que a mensagem fosse pertinente e muito séria. 

Mas não só, a falta de dinheiro nos lares também a inquieta.

O espectáculo não podia terminar sem uma homenagem. E o escolhido foi Xidiminguana. 

A galeria de exposição da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), em Lisboa, acolheu, na noite desta terça-feira, a inauguração da exposição “Artistas Unidos Contra a Fome”. 

As obras estarão expostas até 28 de Setembro, data prevista para o leilão das mesmas. A exposição reúne peças doadas por vários artistas dos estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E Moçambique contribui com obras de arte de Frank Ntaluma e Malenga, quadros pertencentes a José Pádua (artista plástico já falecido), Lívio de Morais, Roberto Chichorro e uma fotografia de Sérgio Santimano – todas obras doadas em prol dos necessitados. 

Segundo Frank Ntaluma, escultor maconde, o evento teve muita afluência e contou com a participação da Secretária Executiva da (CPLP), Maria do Carmo Silveira, e do Secretário-geral da UCCLA, Vitor Ramalho, e de todos artistas envolvidos com a causa.

“Amor ao próximo” é o nome que Ntaluma apelidou à escultura que doou, esculpida em pedra Onix. “Antes de jogar a comida fora, fica a saber que a escassos quilómetros existe alguém que necessita”, essa é a mensagem que o escultor makonde pretende transmitir com a sua obra. 

A Exposição é uma iniciativa da Campanha “Juntos Contra a Fome” da CPLP, que tem por objectivo a angariação de fundos para viabilização de projectos que contribuam para a erradicação da fome nos países membros. 

O Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, disse, durante a cerimónia destinada à divulgação da Lei do Audiovisual e Cinema, que o país conta, neste momento, com um instrumento legal de luta contra a contrafação ou pirataria.

Para o Ministro, a campanha contra a pirataria iniciada em Julho, reduziu os níveis de pirataria, estando a trabalhar para a criação de um Instituto de promoção das indústrias culturais e criativas, que vai se dedicar à promoção de artes e cultura com uma visão direccionada à produção de riqueza. “Todas as outras formas de expressão artística caberão no Instituto e daqui a alguns anos Moçambique poderá responder de forma mais eficaz para o desenvolvimento socio-cultural”.

A Lei 1/2017 de 6 de Janeiro, primeira lei do Audiovisual e Cinema do país, foi aprovada ano passado e aplica-se à actividade audiovisual cinematográfica com fins comerciais ou de interesse público, em todo o território nacional, e abrange a todos os profissionais da área, organizados de uma forma individual ou colectiva, nacionais ou estrangeiros que queiram operar no país, bem como aos órgãos e Serviços da Administração Pública e demais entidades públicas e privadas.

“A lei abrirá certamente um espaço para investimentos público-privado, para a melhoria da imagem do nosso país e contribuirá para o rendimento dos cofres do Estado”, assegurou o governante, acrescentando que, nos próximos momentos, o Gabinete de Informação (GABINFO) vai introduzir a lei para proteger os músicos de tal forma que cada música possa atrair receitas aos autores e aos cofres do Estado.

Com a aprovação, este ano, do decreto 41/2017 de 4 de Agosto, o Ministro espera que o instrumento legal seja um elemento fundamental para o desenvolvimento do cinema, para potenciar investimentos e poder tornar o país referência ao nível da sétima arte. Nesse sentido, “a nossa meta é estarmos próximos da Índia e Nigéria”.

Com esta lei, Silva Dunduro quer que o país consiga ocupar um lugar cimeiro no contexto das receitas e mobilização de apoio, para que se crie produções com conteúdos baseados em saberes e práticas da comunidade moçambicana como fazem muitos países africanos. “Queremos um cinema que reflecte a realidade e a cultura moçambicana, sem nos fecharmos ao mundo”.

A cerimónia de divulgação da Lei do Audiovisual e Cinema decorreu no Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC), na manhã desta quarta-feira, em Maputo.

 

 

 

 

 

 

 

Como se conquistam duas categorias do Prémio Literário TDM? Esta é daquelas perguntas que nem Armindo Mathe sabe responder, embora tenha alcançado tal proeza. Seja como for, para o autor que lançou as suas duas primeiras obras literárias ontem, no Centro Cultural Brasil-Moçambique: “Romaria: três dimensões do vento” e “(Des)Contos do tempo”, a finalidade da escrita não é vencer o que quer que seja, antes pelo contrário, o foco do escritor ou do poeta deve ser um conjunto de actividade que garante qualidade, “e isso foi o que eu fiz desde o princípio”, garantiu Mathe, sublinhando que boa escrita advém de uma boa leitura.  Mas só isso não basta, também é preciso muita convivência, o que ficou garantido com a amizade resultante do Movimento Literário Kuphaluxa, impulsionada por poetas como Álvaro Taruma e Nelson Lineu.

No acto da escrita, o que mais atrai Armindo Mathe é a possibilidade de contribuir para a sociedade de algum modo, em harmonia com o que sente e o que vê, sempre apoiado na possibilidade de os seus sentimentos poderem alcançar vários públicos e de maneira diferente. “Na verdade, o que eu pretendo com todo o jogo de palavra que construo é fazer com que as pessoas entendam que há uma dimensão além desta em que nos encontramos. A maior a parte da população moçambicana está a viver aquilo que não deseja. Há um outro patamar que as pessoas esperam alcançar. Com a minha poesia, por exemplo, quero contribuir para que as pessoas possam voar até atingir o horizonte dos seus sonhos”. Para o efeito, assim entende Mathe, as pessoas devem aprender a enfrentar o futuro de forma nua, só nesse estado é possível atingir a outra dimensão.

 

 

Lançar um livro no país não é fácil. Que o diga Cremilde Fernandes, autora da obra “Saltos e Punhos de Aço” (poesia – não publicada ainda), que, a vários meses, tenta publicar o seu primeiro livro. E nada. As dificuldades financeiras para costear a produção de uma obra literária aliadas ao desinteresse das editoras vão adiado o sonho de ver os seus saltos pulando no papel.

Para a publicação dos poemas, Cremilde Fernandes precisa de 200 mil meticais, o necessário para produzir quinhentas cópias. Algo complicado, apesar de fazer apresentações em cerimónias que divulgam as suas criações: “Tenho feito algumas apresentações em casamentos, em eventos culturais como forma de chamar atenção para ver se aparece alguém que me ajude”.

“Saltos e Punhos de Aço” é um exemplo de determinação, que representa a luta por via dos punhos e do poder interior, explorando a elevação da auto-estima, as potencialidades da mente, da força e do desejo.

 

 

O Café-Debate, que habitualmente acontece em Marracuene, pela primeira vez, vai realizar-se na cidade de Maputo. O encontro de estreia, subordinado ao tema “Pensar o ser cidadão”, vai concentrar-se em lançar uma oficina, que, numa primeira fase, será um ciclo de debate à volta da cidadania, considerando a evolução do conceito desde a Antiguidade até aos dias actuais.

O evento artístico-cultural irá escalar o Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), próximo sábado, e terá início às 14h30. Para o efeito, dois oradores são convidados a fazer parte da conversa sobre: Pedro Pereira Lopes e Guilherme Sande, ambos ligados às artes e à academia. O objectivo, de acordo com Guilherme Roda, organizador do Café, é discutir a forma como é exercida a cidadania “porque achamos ser importante a participação das pessoas na vida do país. Só assim podemos contribuir para que a sociedade evolua, rompendo com a ideia de que quem deve pensar e decidir sobre o país é apenas o dirigente. O que se pretende é problematizar a questão da cidadania porque estamos a ter pessoas que só sabem obedecer”.

A oficina sobre cidadania que o Café inaugura resulta de uma parceria com o CCBM, o que não impede que Marracuene continue sendo a sede da iniciativa. Mas há uma alteração. Nos próximos tempos, segundo Roda, o Café vai realizar-se de forma alternada em dois espaços: Mady’s Events e CCBM. “Esta é uma forma de fazer com que o nosso evento chegue a mais pessoas”.

A moderação da conversa será feita pelo jornalista Belmiro Adamugy.

 

O conceito de literaturas emergentes surgiu nas últimas décadas como consequência das chamadas teorias pós-coloniais e alargou-se, por influência da poderosa academia norte-americana, tanto às denominadas literaturas de minorias (étnicas, de género, de orientação sexual), como às literaturas formadas no interior dos processos de colonização e descolonização, independentemente das características destes. Embora não recuse o interesse de um corpus teórico subjacente às reflexões sobre questões comuns às literaturas produzidas no quadro das diferentes colonizações, não posso deixar de concordar com algumas das reservas na sua aplicação, nomeadamente o facto de estas teorias terem os seus próprios limites e de correrem o risco de virem a ser cúmplices da "imaginação colonial",  ao representar de forma totalizante as literaturas que emergiram de situações coloniais, independentemente da conjuntura histórica em que se desenvolveram.  Prefiro pois entender  este conceito a partir de uma das suas componentes estruturantes i.é,  dos processos de ruptura (na maioria engendrados por rupturas políticas) que acabaram por abranger o campo artístico. Há ou houve literaturas emergentes num dado momento histórico, em que contradições estéticas/ ideológicas criaram condições para a ascensão de novos modelos culturais. De qualquer modo, o conceito não é pacífico e presta-se a aplicações variadas,  muitas vezes marcadas pelos pressupostos do politicamente correcto.

As independências africanas, iniciadas em 1957 com a independência do Ghana,  não só foram tributárias de um passado histórico,  orientado para a ideia de revolução social e afirmação identitária, como implicaram esta herança nos respectivos movimentos culturais e literários, concretizada em rupturas relativamente às literaturas da ex-potência colonial. Estas rupturas instituíram a tendência de autonomia por intermédio de algumas dominantes temáticas, tendentes a recuperar elementos históricos forjadores das novas identidades. Pode considerar-se como um dos paradigmas dessa postura,  a obra ficcional do escritor nigeriano Chinua Achebe, iniciada em 1958 com Things fall apart, o qual  considera ser um dos desígnios do romance africano o tornar-se o instrumento formal da reinvenção de uma cultura africana, de uma nova comunidade nacional, face à perda que a colonização representou.

Mas, como salienta Arjun Appadurai, a propósito da forma como o cricket se 'indianizou', "la décolonisation, pour une ancienne colonie, ne consiste pas simplement à démanteler les habitudes et les modes de vie coloniaux, mais aussi a dialoguer avec le passé colonial."   Ora esse diálogo com o passado colonial tem produzido no campo literário, situações discursivas hoje geralmente aceites como híbridas, sob influência do posicionamento teórico de  Homi Bhabha, que as caracteriza  como “(…) complex strategies of cultural identification and discursive adress that function in the name of the ‘people’ or the ‘nation’(…)”.

Este conceito adquire um significado mais amplo, quando associado aos de transculturação e de transtextualidade, porque possibilita a leitura do corpus literário produzido por/contra os sistemas literários trazidos pela colonização, como transformações e apropriações das suas formas, com utilização  de estratégias específicas que assim respondem à necessidade de forjar novos sistemas. São essas estratégias que, deixando entrever culturas diversas (orais e escritas), textualizam a nação, na perspectiva em que Benedict Anderson   encara a construção dos elementos de pertença a um espaço nacional.  
Esse foi um processo evolutivo que possibilitou que ao longo de cerca de 100 anos a "imaginação colonial" fosse cedendo o lugar à " imaginação nacional" e seja por isso possível perceber hoje a coerência e coesão dos paradigmas que em geral orientaram, desde o princípio do século XX, a produção escrita nos países africanos submetidos à colonização europeia, no caso presente à  portuguesa, e que em Moçambique me parecem  estruturados grosso modo, em torno dos seguintes conteúdos:
a) Ser Africano e Ser Europeu (Proto-nacionalismo) – Este primeiro paradigma está representado em Moçambique pela actividade jornalística e literária desenvolvida a partir dos jornais O Africano (1908-1918) e O Brado Africano (1918-1974) nas décadas de 20 e 30 e pela poesia de Rui de Noronha.

b)  Ser Africano vs Ser Europeu (Negrismo/ Negritude) – Na problematização do Ser Europeu, visíveis nas primeiras manifestações poéticas de Orlando Mendes,  podem-se reconhecer alguns dos tópicos da poesia negrista de outras latitudes, embora um trabalho de desconstrução as possa identificar como formas de pré-negritude. Horizontalmente este tipo de Negrismo vai cruzar-se com as utopias pan-raciais de grande parte da poesia inicial dos poetas da geração dos anos 50 (Fonseca Amaral, Noémia de Sousa, Rui Knopfli) extensivas a Godido, de João Dias.  Esta tendência utópica transforma-se progressivamente num conjunto de valores de grupo exibidos como contra-discurso, criador de uma nova ordem, instituindo-se por isso em ideologia. Este movimento é coroado pela poesia negritudinista de José Craveirinha representada em Chigubo (1964) .  e Nós matámos o cão tinhoso de Luis Bernardo Honwana

Ser Nacional vs Ser Universal (tendências variadas pós-independência) – A filiação numa estética dita universal, por parte das recentes gerações de escritores, embora se possa também ler nacional/regional, mas não necessariamente étnica. Isto é,  parece que o percurso temático – e,  a um outro nível,  o discursivo – desta literatura se orienta no sentido da transformação da natureza do diálogo com o passado colonial,  de tal modo que os seus elementos estruturantes se vão naturalizando ou "indigenizando", para usar a terminologia de Appadurai a propósito da indianização do cricket, desporto arqui-britânico à partida.

Esta consequência pareceria conferir ao corpus literário uma consistência ontológica que lhe garantiria  por si só a existência, se não considerássemos o facto de, na definição de sistema literário nacional,  não intervirem  apenas o conjunto de obras produzido. Na verdade, o desejo (consciente ou não) de nação vai sedimentando temas e formas iscursivas, como parte de um novo sistema literário,  mas a sua  existência  só é  assegurada por um  reconhecimento posterior  pelos diversos elementos de recepção – crítica, reconhecimento nacional e internacional, prémios, edições nacionais e traduções – e que, integrados no sistema de ensino – (curricula, programas, manuais) reproduzem conceitos e valores que, actuando em cadeia, convergem para a instituição do novo cânone, a literatura nacional.

Há alguns anos reflectindo sobre esta questão produzi algumas considerações que verifico manterem-se actuais no que se refere à caracterização do cenário empírico que tornava explícita a posição a partir da qual se processava a minha reflexão: Cenário paradoxalmente desarticulado, com pontos de referência contraditórios, aberto neo-liberalmente a qualquer investimento ideológico, sem capacidade ou vontade de produzir resposta à sua amplificação pelas auto-estradas da informação, composto de uma diversidade de atitudes, que vão das nacionalistas e partidárias obliteradas até recentemente – e subitamente ressurgidas – às pragmáticas que se entrecruzam e colocam na concorrência o futuro da vida cultural do país, incluindo a literária. Atitudes cuja origem não é sempre localizada, mas que se encontram disseminadas nas complexas redes sociais económicas e políticas moçambicanas, desde as políticas de ajustamento estrutural impostas pelos organismos internacionais, fragilização do Estado,  gravosa para políticas de educação e de cultura consistentes,  múltiplas, diversas e por vezes contraditórias políticas de ajuda até ao papel da comunicação social, preocupada em perseguir a vida política e económica da nação, deixando de lado a esfera cultural e educativa, ou reservando-lhe o papel de derivativo;
Sintomaticamente Francisco Noa fazia  eco desta situação nessa altura com um texto  com características de manifesto, intitulado “A riqueza das nações”, que me  parece  reflectia nesse momento o incómodo das novas gerações de intelectuais moçambicanos que, não tendo – felizmente – vivido em pleno a situação colonial, i. é., sendo de alguma forma ‘filhos da independência’ e da sua dinâmica de orientação socialista  inicial,  não se revia na nova conjuntura política e económica,  trazida pela economia de mercado, ainda que dela pudessem e possam parcialmente beneficiar, o que dava a medida dos efeitos  gerados pelos factores que tentei caracterizar como conducentes à desvalorização do campo cultural.
    
(…) meter no mesmo saco, ciências sociais, livro, cultura (refiro-me a cultura como edificação), como alvos a abater, implícita e explicitamente, é bem um dos grandes sintomas de ligeireza do nosso tempo e da tirania do materialismo pós-industrial e rasca. E é também revelação do temor que se tem em relação à palavra enquanto expressão de ideias livres, plurais, dinâmicas, construtivas, inconformadas, diversificadas, questionadoras. Sobretudo, enquanto afirmação de sabedoria e de um apurado sentido crítico.

Ainda que  muitos destes factores se mantenham actuais,  no inicio desta década a situação evoluiu para outro patamar mercê de um fenómeno que se vinha manifestando desde os anos 90 (não me parece indiferente o estabelecimento do multi-partidarismo)  com surgimento de grupos de jovens escritores que de alguma forma se afirmavam fora do quadro da protecção institucional de que tinham beneficiado os seus antecessores através da AEMO. Deu-se assim origem à consolidação de uma nova geração composta por escritores nascidos depois da Independência e que da anterior dinâmica de orientação socialista e partido único têm apenas conhecimento diferido. Destacam-se alguns poetas e ficcionistas talentosos que de forma recorrente forçam a sua entrada no campo literário.

Embora a AEMO  tenha recuperado algum do seu dinamismo inicial, agora com Ungulani ba ka Khosa a dirigi-la esta geração parece não ter interesse numa dependência que lhe possa cortar ou controlar  iniciativas. A intensa actividade cultural e nalguns casos editorial de outro tipo de instituições nomeadamente  a Fundação Fernando Leite Couto e a Escola Portuguesa em Maputo,  a Casa do Artista na Beira e os vários  Centros Culturais ligados a diferentes embaixadas principalmente em Maputo e Beira abrem espaço para que estes grupos encontrem reconhecimento próprio  quer através de edições quer através de iniciativas culturais de índole diversa, tomando a seu cargo diversas formas de estimular a recepção das obras que editam, o que está reflectido no contacto com escolas dos vários graus de ensino, em edições internacionais ou prémios. São jovens com formação superior e ocupação profissional estável o que lhes retira alguma da aura boémia os seus antecessores mas lhes confere em contrapartida capacidade para as engenhosas soluções editoriais e de marketing que praticam. São uma geração das novas tecnologias, aberta a um mundo em que as fronteiras se tornam porosas, que conscientemente aproveita as vantagens dos caminhos abertos pela Internet, no Facebook, nos blogs em todo esse aparato tecnológico que integra soluções culturais para o nosso presente e que nos caso de países como Moçambique em que existe uma hipertrofia dos  grandes centros urbanos, permite colmatar as assimetrias existentes.

O surgimento paralelo neste ambiente, dos  romances de João Paulo Borges Coelho, ele que do ponto de vista etário e social provém de um Tempo onde se sucederam regime colonial, guerra de libertação e toda a Utopia trazida por um discurso que se pretendia libertador, não deixa de ser um fenómeno que rompe com a uniformidade criada por esta nova geração em ascensão.

A vivência comum destes outros tempos num país, num continente e num mundo ameaçados por novas barbáries e outras tantas 'guerras santas', no âmago de outros paradigmas civilizacionais de que perplexos não descortinamos ainda os efeitos, será certamente um elemento a ter em consideração quando colocamos em contraponto a escrita de JPBC e a dos seus congéneres.

Os inúmeros estudos que lhe têm sido dedicados bem demonstrados neste Congresso dão conta de um percurso surpreendente e singular fora das expectativas que nos finais da década de 80 estavam criadas em relação ao desenvolvimento da literatura moçambicana.
Como nota final gostaria de assinalar que existe na recepção a JPBC uma tendência para privilegiar alguns dos romances, deixando na sombra outros por razões que me parece estarem relacionadas com alguma complexidade de discurso.

Por esse facto gostaria de os referir: trata-se de Campo de Trânsito e Cidade dos Espelhos a que ainda acrescento As duas sombras do Rio romance de estreia com que nos surpreendeu.

Se foco esta questão é porque me parece que nestes três romances reside a grande novidade trazida para a literatura moçambicana: uma consistência ontológica e  perspectiva filosófica subjacente às narrativas com a construção de arquétipos  que deixam perceber a concepção filosófica que lhes está subjacente, bastante próxima do pensamento  de Emmanuel Levinas sobre a guerra, a violência, a tirania e os seus efeitos, destruidores da capacidade agir livremente.

O questionamento do conceito de totalidade que, segundo Levinas domina a filosofia ocidental, parece ser o fio condutor destes romances, cujas personagens podem ser percebidas como´´portadores de formas que os comandam sem eles saberem´´(Levinas) : Ao interpelarem de forma reiterada,  visões do mundo consolidadas, opondo-lhes outras leituras do real, fornecem matéria abundante de reflexão, que ultrapassa a mera realidade de Moçambique.

A sua leitura  reorienta-nos para o campo necessariamente vasto do presente cuja unicidade, para Levinas em Totalidade e Infinito (p.10) ´´ se sacrifica incessantemente a um futuro chamado a desvendar o seu sentido objectivo´´. Se seguirmos o ponto de vista deste filósofo para quem ´´só o sentido último é que conta, só o último acto transforma os seres neles próprios´´ (…) ´´eles serão o que aparecerem nas formas já plásticas da epopeia´´, não será difícil encontrar este subtexto nestas três inquietantes narrativas que marcam e distinguem de forma acentuada  a ficção de João Paulo Borges Coelho de quem se esperam sempre surpresas.

Fátima Mendonça

 

A cidade de Quelimane parou este sábado para acolher o segundo concerto que marca o reencontro da Bang Entretenimento, alusivo aos 15 anos da Stv. Cor, luz e muita música ao vivo animaram a Marginal do “Pequeno Brasil”. Como retribuição, o público vibrou e cantou com os músicos no concerto a muito aguardado.

Tal como se previa, o espectáculo iniciou com a actuação de músicos locais, muitos dos quais foram influenciados por este grupo que desapareceu dos radares há 10 anos.

O momento mais aguardado pelos machuabos foi inaugurado pela antiga dupla Ziqo e Denny OG. Os dois, como é a tónica do concerto, resgataram os antigos êxitos. Músicas como “Teresinha” e “Casa dois” foram bastante aplaudidas pela assistência que lotou o espaço. Não era para menos, foram necessários 10 anos para este reencontro.

A seguir, com o seu estilo característico, subiu ao palco a Marllen. A Preta Negra não deixou seus créditos em mãos alheias. A sua roupa combinava com a actuação: um cruzamento entre a tradição e a modernidade. Foi por isso que para uma das espectadoras ela foi a artista que mais convenceu, sem com isso reduzir o potencial dos outros músicos.

Cantou-se também o amor. E porque a festa era do pandza a chuva repudiou a música romântica de Doppaz. Mesmo assim o público não se encolheu, cantou com o “king” como são os “Olhos sonhadores”

Para Valdemiro José esta festa tem dois perfeitos sentidos. O primeiro é o facto de a Bang alastrar o seu “reencontro” para outros cantos do país. O segundo, talvez o mais importante, é o facto de estar a cantar em casa. A performance de VJ foi ovacionada pelos seus conterrâneos. Claro, de forma alguma devia decepcionar naquele reduto. 
Lá para o fim, Lizha James e Dama do Bling deram o ar do seu “swaag”. As músicas que mostraram o lado irreverente das mulheres foram recordadas. Para os espectadores foi fantástico, tanto é que pedem outro concerto na celebração dos 16 anos da Stv. A festa que teve a parceria da Sétimo Nível terminou às… foi até quase raiar do sol.
Para o edil de Quelimane, Manuel de Araújo, apesar da chuva todos estiveram na Marginal a cantar e vibrar pela música moçambicana.

“Quelimane é mesmo assim, é festa, é carnaval, são festivais, é cultura. Por isso estou muito feliz, estão de parabéns os organizadores”, congratulou o edil.

A próxima festa do “Reencontro será na cidade de Nacala. A promessa foi feita por Jeremias Langa, em representação à Stv, televisão que completa em Outubro 15 anos, por isso estes espectáculos.

Delmar Gonçalves, escritor, fundador e Presidente da Direcção do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD), foi homenageado este sábado (2), na primeira gala de homenagem e entrega de prémios da lusofonia, no auditório Rui de Carvalho, em Carnaxide, Lisboa.

Para além da homenagem, Delmar Gonçalves recebeu o Prémio da Lusofonia em Literatura 2017, pelos altos serviços que presta pela cultura de Moçambique em Portugal. “Para mim a homenagem é o reconhecimento do meu trabalho na literatura e pelo que tenho feito em Portugal e pela cultura moçambicana”, disse Gonçalves.

O evento foi promovido pela Associação Solidária Meninos Graúdos, em parceria com a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – UCCLA e a Confederação Empresarial da CPLP, com o propósito de homenagear e premiar carreiras artísticas de figuras da comunidade lusófona que se têm destacado nos domínios da música, do jornalismo, do teatro, da literatura, da moda e das artes em geral, levando e elevando a língua portuguesa nos cantos mais recônditos do mundo". 
Segundo a organização, “o evento pretende realçar o papel de algumas das mulheres e dos homens que melhor representam essa vontade incontrolada de tornar mais competitiva e mais atractiva a imagem da lusofonia em todo o mundo”.

Foram também premiadas e homenageadas figuras, tais como a cantora Celina Pereira, de Cabo Verde, o actor Rui de Carvalho, de Portugal, o embaixador Lauro Moreira, do Brasil, de Angola, o jornalista Gabriel Baget e o poeta Lopito Feijó, o escritor Mário Máximo, de Portugal, o investigador e o escritor Luís Costa, de Timor, entre outras personalidades das artes e do universo de língua portuguesa.

Histórico
Delmar Francisco Maia Barrigas Gonçalves nasceu em Quelimane, província da Zambézia. Nas suas obras usa pseudónimos como Sultan El-Ahmed, Ibn Khan, Zacarias Faztudo e Malfez. 
Publicou obras como “Moçambique Novo, o Enigma”, “Moçambiquizando”, “Afrozambeziando Ninfas e Deusas”, “Mestiço de Corpo Inteiro” e “Entre dois rios com margens”. 

O escritor destacou-se como divulgador da literatura moçambicana no estrageiro, organizando recitais de poesia moçambicana, publicando obras de autores moçambicanos que vivem em Moçambique e no estrageiro, promove distinções de moçambicanos nos prémios que vão surgindo em Portugal e Brasil, convida moçambicanos a publicarem nas edições CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora) e na Editorial Minerva. “Faço sempre questão de indicar autores moçambicanos”, afirmou Gonçalves.

Venceu vários prémios em nome de Moçambique como o Ferreira de Castro, Karingana wa Karingana, La Atrevida, CEMD e FEMINA. Em 2006, ganhou o galardão de Literatura África Today, e, em 2008, o prémio Kanimambo da Casa de Moçambique.

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