O País – A verdade como notícia

Terminou, esta segunda-feira, o 10º Festival Nacional da Cultura que vinha decorrendo desde a passada quinta-feira em Niassa. O festival, que levou mais de três mil artistas de todas as províncias do país, decorreu na cidade de Lichinga, na Vila Municipal de Metangula e na vila de Chimbonila. A cerimónia de encerramento foi dirigida pelo primeiro-ministro, Carlos Agostinho de Rosário, que destacou a importância do evento para a reafirmação da identidade cultural nacional e a promoção da unidade nacional.

“Durante cinco dias, o rufar dos tambores, o bailar dos artistas, o sabor da gastronomia, o requinte das obras de arte, da poesia, do canto, da dança, da moda e da exibição do Nyau e da Timbila, aqueceram os dias de inverno tropical destas terras altas dos Matakas. Foi neste ambiente festivo que Moçambique demonstrou, mais uma vez, a unidade do seu povo através da exibição do seu rico e diversificado Património Cultural. É nossa convicção que a realização deste tipo de eventos cristaliza a visão de consolidação da Unidade Nacional e promoção do espírito patriótico do povo moçambicano, disse o governante que saudou a província de Niassa pela forma como organizou o evento, apesar das dificuldades que enfrenta e que o país no seu todo com a crise económica. “Tendo em conta o que se podia esperar para uma província que tem as dificuldades que tem, teve logo três mega-eventos, em Matchedje os 50 anos do segundo Congresso da Frelimo, a Visita Presidencial e este evento, os três juntos, eles foram capazes de organizar estes eventos com muita classe, por isso, a população de Niassa está de parabéns e tem esperança de crescer mais”, disse.

Para Carlos Agostinho do Rosário, Niassa mostrou ainda que está em condições de receber grandes eventos até porque não precisou de receber grandes reforços de outras províncias para organizar o festival, que para o primeiro-ministro a província provou que, em termos organizacionais, está mesmo ao nível de outras províncias como Maputo, Nampula entre outras.

A partir do festival de Niassa, o Primeiro-Ministro quer que o sector privado possa investir cada vez mais na indústria criativa de modo a que a cultura seja igualmente geradora de renda para os artistas e faça com que estes contribuam para o desenvolvimento económico do país.

O governante destacou ainda que o Governo precisa trabalhar um pouco mais na componente de infra-estruturas para colocar a Niassa na rota de desenvolvimento tal como as outras, principalmente em relação às estradas que possam a ligar às restantes províncias bem como aos países com que faz fronteira, nomeadamente Malawi e Tanzânia, bem como a melhoria da qualidade de energia eléctrica para que o seu potencial possa se transformar num real desenvolvimento. Aproveitou a ocasião para anunciar uma boa nova para os residentes de Lichinga que é a reabilitação de 14 quilómetros de estradas da cidade até ao final do presente ano, pois quase todas encontram-se em estado de degradação acentuada.

Maputo organiza próximo festival

A Província de Maputo recebeu durante o encerramento do 10º festival a missão de organizar em 2020, dentro de dois anos, o 11º festival. A notícia foi recebida com muita alegria por parte dos delegados maputenses. O Governador Raimundo Diomba disse aos jornalistas que a sua província vai fazer de tudo para que o próximo festival seja o melhor. E que a partir de agora vai se empenhar em criar todas as condições logísticas e técnicas para que em 2020 esteja tudo a contento para que o 11º decorra sem sobressaltos.

O Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, disse que o festival de Niassa serviu para transmitir o legado da cultura moçambicana às gerações mais novas e foi provado que a cultura não pode ser parada por qualquer tipo de crise, muito menos a financeira.

O Ministro da Cultura e Turismo da Guiné Equatorial, Rufino Don Sumotsama, diz ter ficado bastante orgulhoso com o que viu em Niassa daí que não tem dúvidas de que o Festival Nacional de Cultura é o melhor do continente africano, porque nunca antes em mais de 25 anos que é dirigente da área de cultura viu um movimento cultural igual ao que viu naquela província. Já a Secretária do Estado para a Cultura de Angola, Maria Piedade de Jesus, também diz ter ficado encantada, principalmente pelos vários temas abordados em debates que decorreram de forma paralela e que versaram sobre diversos assuntos de interesse da cultura.

As delegações regressam às suas províncias de proveniência a partir desta terça-feira.

 

Todos os 23 concorrentes que se apresentaram na 6ª gala do MOZKIDS Talents foram apurados para final, que terá lugar no próximo fim-de-semana. A grande surpresa foi anunciada no fim daquela que foi uma semi-final de tirar o fôlego

Os concorrentes do MOZKIDS Talents esmeraram-se na sexta gala para mostrar o talento que possuem, com vista a arrancar pontuação máxima do júri e “carimbar o seu passaporte” para grande final. O que eles só ficaram a saber no final da gala, é que todos já tinham sido apurados para  7ª e última gala do concurso infantil, organizado pelo Grupo Soico em parceria com o BancABC.

Porque se tratava de uma gala decisiva, os pequenos grandes artistas não pouparam esforços para dar o melhor de si. Com apresentações de tirar o fôlego de todos os presentes no cinema Scala, na tarde do último sábado, quase todos os concorrentes das categorias de Dança, Poesia, Teatro, Instrumentos Musicais e Canto conseguiram arrancar aplausos da plateia e notas máximas do júri. Nesta sexta gala, uma das estrelas que mais brilhou foi a única menina que continua no concurso na categoria de Instrumentos Musicais, Tanaya Cumbana.

Na companhia do seu piano, Tanaya fez uma viagem para interpretar “All of me” de John Legend. Não só viajou, como fez o público consigo viajar. O público não se contentou, somente, em embarcar na viagem como meros acompanhantes, mas também mostrou que a música que a “mozkid” interpretava era bem conhecida e tratou de colocar a voz no mesmo ritmo da melodia que saia do piano de Tanaya. E no fim, escutaram-se aplausos. Muitos aplausos. Quem também gostou da  apresentação foi o júri, que tratou de atribuir a pontuação máxima de 30 pontos. Na categoria de Instrumentos Musicais, seguem para a final mais dois: Fernando Tinosse, que também toca piano, e o baterista Igor Sobral. Já no Canto, uma das que mais se destacou foi Melony Macaringue ao interpretar “Love on top” da conceituada artista norte-americana Beyoncé. No palco do Scala, Melony mostrou que não só o amor estava em alto, como também a sua voz que levou o público ao delírio, quando cantou sem desafinar nas notas mais altas. O júri gostou do que ouviu e sem hesitar atribuiu a pontuação máxima, 30 pontos. Uma vez mais, Beyoncé. Depois de ter sido lindamente interpretada por Melony, a façanha repetiu-se. Mas desta vez na voz da concorrente Juelma Moiana. Escolheu o tema “Listen” e fez com que os presentes escutassem, em alto e bom som, o seu potencial vocálico. Juelma subiu ao palco, cantou, cativou e arrancou também  pontuação máxima do júri.

Quem não esteve nos seus melhores dias foi Tamires Moiana, que interpretou “I look to you”, de Whitney Houston. Arrancou aplausos do público que a muito se rendeu ao seu talento, mas não convenceu o júri. A única nota sete da sexta gala foi-lhe atribuída pelo professor de música, Ivan Manhique, justificando que a menina cantou fora do tom. Entretanto, Manhique não deixou de realçar que Tamires é um estrondo. Talvez seja por isso que recebeu notas nove dos outros membros do júri.

Também seguem para final, na categoria de Canto, Inalda Sumburane, Érica Tembe e Dárcia Mondlane.

Quanto à categoria de Dança, a dupla Elaine Chavo e Stivenson foi a mais feliz da tarde, ao levar o público do Scala a fazer uma viagem a terra do samba, ao som de Daniela Mercury, que recentemente este em Moçambique. Uma actuação que lhes valeu 29 pontos, nota máxima nesta categoria. Seguem para final, Ámbrosi Langa, Kayani Machavane, Yuran Manhiça, Anaís Macaringue e a dupla Shanaya Cumaio e Kyara Lopes.

Teatro apela ao fim dos Ataques em cabo delgado

Os pequenos actores da categoria de Teatro mostraram ter bem a noção de que, enquanto artistas, tem um papel social muito forte. Um dos concorrentes que traduziu bem isso foi a dupla composta pelas irmãs Ramla e Gleese Semkiwa. As manas representaram o drama das dezenas de pessoas que foram obrigadas a deslocar-se das suas casas em Cabo Delgado, na sequência dos recentes ataques, alegadamente protagonizados por um grupo terrorista.

Com sotaque e tudo, não só apelaram ao fim dos ataques, como também falaram dos malefícios da guerra e ainda deram uma aula sobre a diferença entre deslocado e refugiado de guerra. Todavia, foram traídas por problemas técnicos, o que lhes valeu 28 pontos do júri. Seguiu-se a outra dupla: Aliane Fernandes e Denilson Manhique. A dupla, que tem apostado em temas ligados aos direitos das crianças, abordou uma questão não menos importante: a violência contra menores protagonizada por familiares. Com uma boa dose de humor e drama, a dupla levou o público a reflectir, o que lhes valeu 30 pontos do júri. Segue igualmente para a final nesta categoria “a contadora de histórias”, Fernanda Raimundo.
 

Poetização do drama de transporte

Na categoria de Poesia, duas crianças tiveram a classificação máxima, mas foi Elísio Massango quem comoveu o público e o júri. O pequeno declamador falou de um drama que tal como referia na sua poesia é um “velho conhecido de todos”. Com ajuda de um pedaço de chapa de zinco, Elísio falou da crise de transporte na capital do país. Desde os tempos em que os semi-colectivos eram chamados “chapa 100” até agora, conhecidos como “my love” e “smartkikas”.

Uma vez mais uniu teatro à declamação, com crítica social profunda de forma impecável. Por isso, mereceu 30 pontos, tal como Alayna Dava, quem declamou o poema “negra”. Esta categoria contou com actuações de Ana Milena, que combinou canto, dança e instrumento musical na sua performance; Natolys Manjate e  Edmilton Chau, que também seguem à final.

 

 

O Primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, visitou nesta sexta-feira o X Festival Nacional da Cultura, interagiu com expositores da feira do livro e do disco bem como da feira do artesanato.

Na ocasião, disse aos artistas que devem rentabilizar as suas criações para gerar renda e criar emprego, de forma a contribuírem para o desenvolvimento do país, e garantiu que governo vai continuar a reunir esforços para proteger os direitos dos artistas.

Os expositores mostraram-se felizes com a visita, e explicaram os objectivos. “Nos queremos encorajar aos moçambicanos a comprar o que é nosso, afinal é tudo feito pelas nossas próprias mãos e com material local”, afirmou uns dos expositores.

O Grupo Pfhuka realiza, no Museu Nacional das Artes, a terceira edição do Festival de Cultura Moçambicana, conhecido como festival Maningue.

O festival tem como objectivo divulgar a cultura, as pessoas que desenvolvem e dar espaço aos novos criativos para expôr os seus produtos além fronteira. No âmbito da terceira edição do festival Maningue estão a ser desenvolvidas actividades de carácter cultural com o objectivo de entreter o público que irá participar desta edição.

O festival será realizado no dia 04 de Agosto, a partir das 12 horas.

 

 

A Fundação Fernando Leite Couto promoveu um tributo a Mia Couto e a João Pedro Grabato Dias, numa noite que não faltou declamação de poesia e música. Tratou-se de um momento único onde textos de ambos escritores estiveram e suas vidas “cruzaram-se” no mesmo palco e nos mesmos microfones.

“Vozes Anoitecidas: ecos de uma casa chamada tempo” foi como se denominou o tributo prestado a Mia Couto e João Pedro Grabato Dias na Fundação Leite Couto. A noite começou com uma poesia cantada de Mia Couto pela voz de Cídia Isabel e Armindo Cossa. O jardim estava pequeno demais para acolher a todos que queriam participar do tributo aos autores de “Terra Sonâmbula” e “Eu, o Povo”. Mia Couto é um escritor conhecidos por todos e que ocupa um espaço muito prestigiado nas letras nacionais. E João Pedro Grabato Dias é pouco conhecido e inserido na lista de poetas onde se encontram Rui Knopfli, Reinaldo Ferreira, Eugénio Lisboa e Sebastião Alba.

Perante o tributo, Mia Couto mostrou-se indiferente, como bem disse: “eu sinto-me um pouco atrapalhado porque não sou um grande adepto de homenagens e ainda por cima homenagens feitas nessa casa, a uma pessoa que é de casa. Acho que o importante na literatura são os livros; os autores não são tão importantes”. Modesto, como sempre, colocou os seus livros em frente da sua imagem. São os livros que merecem tributos e honras porque “os escritores vão e o que fica são as suas obras”. Se João Pedro Grabato Dias fosse vivo e estivesse na homenagem, talvez repetiria a sua célebre frase: “sou o único espectador deste teatro espantoso”.

Para o “Prémio Camões 2013”, a vida dos escritores só tem sentido quando interligada aos livros, “por que vale a pena conhecer a história de como alguém se transformou em escritor para se poder encorajar outros jovens que pensam que não são capazes. A Fundação assumiu essa função; é uma casa que se tornou uma fábrica de histórias; e cada um que vem aqui deve contar a sua história artística para estimular os mais jovens”. O mesmo autor destacou ser importante que os jovens cumpram por inteiro a vocação de ser jovem; pois ser jovem é uma vocação porque depende da idade, mas é uma atitude.

Quando convidado a falar sobre a poesia que os jovens produzem, Mia defendeu a ideia de que a poesia dentro da literatura é aquilo que tem mais força. “Considero a poesia um género natural em Moçambique. Somos, afinal, um país de poetas. E Craveirinha foi quem iniciou isso. Ele não era só poeta, era o pai da poesia em Moçambique. Somos um país ligado a poesia”.

O antropólogo Guilherme Mussane, que participou do tributo como declamador, preferiu sublinhar os traços similares fundamentais entre os dois autores. Mussane reafirmou o facto de ambos serem intelectuais da esquerda, terem dedicando-se a um estilo comum: ode, e por terem tido um contacto muito directo com o teatro. “São dois artistas, dois intelectuais. Mia é biólogo e sabemos que um dos livros famosos de Grabato versa sobre a biotecnologia e ambos assinaram textos com diversos heterónimos”.

“O tributo a esses dois escritores enquadra-se na programação mensal da Fundação Leite Couto que tem homenageado diversos autores. Esse tipo de tributo constitui uma forma de valorizar a produção literária nacional. A escolha de João Pedro Grabato Dias como um dos homenageados é uma forma de mostrar que a fundação não só dá valor a figuras reconhecíveis, mas também figuras que tiveram pouco divulgação e devido reconhecimento em vida” – justificou o editor Celso Muianga.

Mia Couto completou, no dia 5 de Julho, 63 anos de idade. E é um dos mais destacados escritores moçambicanos. António Augusto de Melo Lucena e Quadros nasceu a 9 de Julho de 1933 em Viseu. Assinou vários textos com os heterónimos de João Pedro Grabato Dias, António Quadros, Frey Loannes Garabatus e Mutimati Barnabé João. Faleceu a 2 de Julho de 1994; viveu em Moçambique durante 20 anos. Rui Knopfli chamou-o de “engenheiro de almas” pelas suas diversas ocupações: pintor, cenógrafo, professor de artes plásticas e de arquitetura, letrista musical, rigoroso arquitecto, apicultor, urbanista, jardineiro e pecuário.

 

A cidade de Lichinga, capital do Niassa, recebe, desde esta quinta-feira, artistas provenientes de todas as províncias do país para participar no X Festival Nacional de Cultura. A cerimónia de abertura foi dirigida pelo Presidente da República, Filipe Nyusi e contou com a participação de vários membros do Governo, a população da cidade de Lichinga e representantes de Angola, Guiné-Bissau, Portugal e Suécia.

Na cerimónia de abertura, cada uma das delegações desfilou devidamente trajada com vestes feitos à base da capulana, com excepção da província anfitriã que apostou em vestes tradicionais feitos à base de saco de sisal. Para abrilhantar cada vez mais, cada província escolheu uma dança para ser a bandeira da sua apresentação que era executada no momento em que os mesmos cumprimentavam a tribuna principal. A delegação da província de Maputo foi a única que se apresentou apenas com um número muito reduzido de pessoas porque por uma questão logística; apenas conseguiu chegar à Lichinga no fim do dia de hoje, por isso, não pôde estar na cerimónia de abertura.

Um dos momentos mais altos da abertura foi a apresentação de um bailado escrito e encenado pela dançarina Pérola Jaime e envolveu quase mil e quinhentas pessoas, entre crianças e adultos. A coreografia baseou-se na história dos Matacas e da Rainha Habibi Achivangila e da sua luta contra a dominação colonial. O nganda, dança tradicional típica de Niassa, acompanhou grande parte da encenação que teve a duração de quase 45 minutos.

O governador de Niassa e o Presidente do Conselho Municipal de Lichinga deram boas vindas aos participantes do festival tendo ao mesmo tempo solicitado que não fiquem apenas em Lichinga mas que arranjem tempo para ir ver o Lago Niassa, a Reserva do Niassa considerada a maior da África Subsahariana, o monumento de Matchedje, mas que também comam o tchambo do lago e os feijões produzidos naquela terra.

O governador Arlindo Chilundo ressaltou que apesar das dificuldades que o país atravessa “o governo provincial e os parceiros foram se mobilizando desde Fevereiro deste ano, para tornarmos este evento não só um êxito, mas sobretudo um momento do reencontro dos moçambicanos e da partilha de experiências e talentos entre os fazedores das artes e da cultura”, disse.

Já o Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, disse que no evento mais uma vez os moçambicanos vão expor ao mundo o Nyau e a Timbila que foram declarados pela UNESCO como sendo Patrimónios Imateriais e Oral da Humanidade para além de várias outras riquezas que o país dispõe em termos culturais. “Esta fase é o culminar de uma grande caminhada, iniciada em Fevereiro deste ano quando fizemos o lançamento oficial do X Festival Nacional da Cultura e declaramos Lichinga capital nacional da Cultura”.

Antes de discursar, o Presidente da República foi ao pódio com os régulos que são descendentes da rainha Habibi Achivangila e pediu que dissessem algumas palavras aos presentes. Os mesmos apenas mostraram sua satisfação pelo reconhecimento e homenagem que o Festival Nacional da Cultura decidiu fazer à Rainha dos Matacas. Já no discurso, Filipe Nyusi recordou os vários momentos da nossa história que marcaram a resistência à ocupação colonial e usou a rainha Habibi para demonstrar que o lema do festival “A cultura promovendo a mulher, a identidade e o desenvolvimento sustentável” é algo que na cultura dos povos moçambicanos já é praticado há muito tempo, por isso as mulheres sempre assumiram um papel importante nas comunidades. Mas mesmo, assim o governo tem hoje a missão de promover cada vez mais as mulheres através do combate de certas práticas que relegam e marginalizam o potencial que as mulheres têm para o desenvolvimento do país.

Por outro lado, Filipe Nyusi encorajou os artistas nacionais a nunca baixarem os braços. “Apreciamos as vossas iniciativas de uso dos recursos artísticos e criativos para o fortalecimento da unidade na diversidade, um dos requisitos para a construção de um Moçambique cada vez mais próspero, em paz e que valoriza a equidade do género rumo ao desenvolvimento sustentável”, disse o Chefe de Estado para a seguir acrescentar que “esta é uma oportunidade de troca de saberes e de inspiração partilhada visando o desenvolvimento de novas competências e promoção de novos talentos assim como uma plataforma de aprendizagem e pesquisa científica da reinterpretação da história sobre as artes, cultura e do desenvolvimento económico e social no nosso país”, concluiu.

 

Faltam três dias para a sexta gala do MOZKIDS Talents. Por isso, como é de costume, os 23 concorrentes apurados encontraram-se, esta quarta-feira, em Maputo, com a professora Maria Helena Pinto para juntos acertarem pormenores e, consequentemente, garantirem uma excelente actuação.

As primeiras crianças a ensaiarem foram as irmãs Gleese e Ramla Semkiwa, concorrentes da categoria de Teatro. Para a gala do próximo sábado, a realizar-se no Cine Scala, a partir das 13h, as pequenas actrizes prepararam a peça “Deslocados de Cabo Delgado”, na qual retratam os dramas das populações afectadas pelos ataques perpetrados naquela província do Norte do país. Em causa está um enredo que projecta uma peça burlesca, no entanto, igualmente didática. Aliás, mesmo a propósito disso, a mais velha das irmãs, Ramla, tratou logo de esclarecer durante o ensaio: “Com esta peça, o nosso desejo é fazer as pessoas rirem e aprenderem”. E para que o riso não falte, as crianças investiram muito na verosimilhança, há mais de dois mil anos apontada por Aristóteles como um dos elementos fundamentais na arte de representação da realidade pelos artistas. Inclusive, o sotaque apresentado por Gleese é makhuwa, o que confere à peça esse carácter cómico e espontâneo que as duas têm preservado.

Como calha com as outras peças apresentadas por Gleese e Ramla Semkiwa, “Deslocados de Cabo Delgado” foi escrita por Sara Cossa, a mãe das concorrentes, quem, habitualmente, prepara o texto num dia, sempre considerando a personalidade de ambas. Além de escrever o texto, Sara Cossa também é responsável pelo primeiro ensaio da dupla.

Ainda hoje, participaram, no ensaio com Maria Helena Pinto, Alayna Dava, quem deixou uma promessa clara e inequívoca: “Vou fazer as pessoas ficarem muito contentes e orgulhosas de mim porque vou dar o meu melhor”, disse a menina que, na sexta gala, vai declamar um poema bem ao estilo de “Se me quiseres conhecer”, de Noémia de Sousa, declamado na quarta gala. Como a pequena Dava, outra concorrente da categoria de Poesia que está muito confiante é a Natolys Manjate. Para sábado, a declamadora mais votada na última semana preparou excertos de um poema de Mia Couto, com muitas surpresas, garante. 

Com efeito, todos os concorrentes que ensaiaram esta quarta-feira mostraram-se muito confiantes, não em ganhar o concurso, que isso não depende apenas deles, mas em dar um grande espectáculo no Scala. É o caso de Dárcia Mondlane: “Quem for a ver-me no Cine Scala não vai perder muita emoção e muita alegria”.

A dupla de dança Stivenson e Elaina, na sexta gala desta iniciativa da SOICO, em parceria com o BancABC, vai apresentar-se ao ritmo do samba, porque, segundo eles, é o género que melhor dominam.

De acordo com Maria Helena Pinto, os ensaios de hoje revelam que os concorrentes estão extremamente bem preparados para brilhar em mais uma gala do MOZKIDS Talents, que, voltou a sublinhar, já não é um concurso, é um espectáculo. 

Projecto “Xigumandzene” é o primeiro trabalho discográfico do rapper moçambicano Kloro. Depois de quatro concertos, está a caminho o espectáculo, “Zuera de Inverno”, que encerra esta saga que durou dois anos na cidade de Maputo.

Durante os dois anos vivendo o CD, Kloro aprendeu a importância do trabalho em equipa, da pré-produção, da dedicação e do foco no trabalho para o desenvolvimento cultural nas suas múltiplas vertentes.

“Foi das melhores experiências porque tivemos oportunidade de trabalhar com muitas das melhores bandas e instrumentistas do país. Aprendemos muito, para não dizer tudo, pela diversidade de estilos e formas de tocar”, realça Kloro.

“Zuera de Inverno” é um conceito propositado, pois o artista pretende desmistificar o mito de que o “showbiz” só funciona no verão. Além disso, trata-se de uma das faixas desse trabalho, que de acordo com as vendas, foi adquirido por perto de 1500 pessoas.

Marcado para o dia 25 do próximo mês, no Restaurante A3, em Maputo, Kloro vai confluir os quatro concertos num só. Vão com Kloro partilhar o palco o seu eterno grupo Trio Fam e grupo de hip-hop DRP, como também o rapper Teknik.

A arte, em particular o festival Stellenbosch, deve estar associada às necessidades das pessoas. Esta é a percepção de Luís Magalhães, pianista português interessado em formar homens íntegros por via da música. Nesta entrevista, o artista a viver na África do Sul explica como a arte pode ser importante para um país.  

O que é feito do vosso festival?

No Stellenbosch fazemos mais ou menos o que o Xiquitsi faz em Maputo. A diferença é que nós temos mais anos de existência. Actualmente, atraímos cerca de 300 participantes alunos: sul-africanos, nigerianos, quenianos e marroquinos. Temos essa ideia de integração continental, que é importante para obtermos uma estrutura que abranja outros países e mais pessoas de outras culturas, o que só enriquece os nossos jovens a viverem na África do Sul.

Os jovens são a razão pelo qual existe o Festival Stellenbosch. Porquê?

A nossa ideia não é fazer concertos, mas educar por via dos concertos e orquestras. Penso que no contexto do hemisfério Sul, em África e na América Latina, temos que integrar a expressão musical e artística dentro das necessidades contemporâneas da nossa população, dos nossos alunos, dos nossos filhos. Dissociar a expressão artística da realidade do nosso país? Mais vale não estar a fazer nada, porque vamos continuar a ser vistos como projecto elitista ou do hemisfério Norte, quase que como os projectos coloniais.

Embaraços por detrás da realização deste tipo festivais?

A cultura é um bem essencial para qualquer sociedade. O que me deixa um bocado assustado, neste trabalho altruísta que temos desenvolvido com muita dedicação dos alunos, é ver que o investimento público privado nesta iniciativa não existe. Até o momento em que os nossos governantes perceberem que o capital cultural é muito mais importante que o capital monetário, vão encontrar um êxodo de população talentosa. O país vai sair a perder com isso, porque os músicos poderão encontrar oportunidades noutros países. Esse é o meu maior medo, os miúdos terem consciência dessa realidade ainda muito jovens. É difícil para uma criança ou adolescente compreender por que não há piano, um grão de areia no Orçamento do Estado, mas que faz toda a diferença para os alunos.

O que podemos ganhar, como país, se criamos condições para não faltarem pianos e outros instrumentos para os alunos de música?

O coeficiente emocional contribui para fazer de uma pessoa um profissional de excelência. Com este coeficiente, os alunos podem ser matemáticos exímios ou contabilistas fantásticos. Mas, sem este coeficiente emocional a economia não cresce. Nós temos de viver em conjunto, fazendo parte de uma comunidade, e o que une a comunidade em qualquer país é a cultura: a música, a gastronomia, a expressão plástica e a dança. A cultura e a expressão artística é a base de qualquer sociedade.

No caso de Moçambique, o Xiquitsi teve dificuldade de formação de público de música clássica. E na África do Sul?

Também foi difícil, mas em parte por nossa culpa. Por exemplo, na primeira edição do festival em Stellenbosch, digamos, tentamos ser iguais a nós próprios, como descendentes de europeus, com programação daquelas chatas: germânica, Áustria-húngara, com noite clássica, noite barroca e contemporânea. Toda a gente ia para noite clássica e a contemporânea ficava sem ninguém. Isso foi uma lição para nós. Disso, tomamos a decisão, no final da primeira edição, de não repetirmos repertório. Ao longo das 15 edições, nunca repetimos obras. São sempre diferentes, e assim vamos continuar até acabarem – espero que não acabem. Outra coisa, a inserção de músicas de diferentes épocas é feita de acordo com a ideia estética das obras, para também haver um conteúdo com textura. Isso contribuiu para atrairmos mais público e, felizmente, temos crescido muito. Durante os 10 dias de festival temos uma circulação de 12 mil pessoas, o que, para festival de música clássica, em qualquer parte do mundo, é muito bom.

O que lhe dá mais gozo, entre tocar e organizar festival de música clássica?

Em primeiro lugar, jogar futebol. Quando era mais jovem e tivesse que escolher, teria deixado o piano. Mas como não tenho muito jeito…

O que achas do projecto Xiquitsi?

Penso que a programação que a Kika faz é excelente. Logo, mais dia ou menos dia o Xiquitsi vai alcançar uma circulação enorme de pessoas. Inclusive, estamos cada vez mais interessados em estabelecer intercâmbios artísticos entre os nossos alunos na África do Sul e os do Xiquitsi, em Moçambique.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro os mosaicos de Naguib, na Marginal de Maputo.

PERFIL

Luís Magalhães é pianista português. Vive na África do Sul e tem actuado com frequência por toda a Europa, bem como em Moçambique, Zimbabwe, Brasil, China, Japão e Estados Unidos. É autor de quatro discos e é co-fundador do Stellenbosch International Chamber Music Festival, o qual se tornou desde 2004 o principal festival de música clássica em África. Magalhães tem recebido elogios da crítica internacional quer como solista quer como músico de câmara.

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