O País – A verdade como notícia

Cá estamos novamente. Testemunhamos a dura de ser músico num país onde parece que a arte só serve para divertir e não fazer viver. Com quantas interrogações pode-se escrever o manual de dúvidas sobre o ser músico em nosso país. Parece que os da “velha guarda” são esquecidos e guardados numa velha mala de memórias amargas. A lista é enorme dos músicos que morreram sem nenhum amparo ou intensidade da alegria que nos proporcionaram com as suas músicas.

Chorou-se muito, na última sexta-feira, quando o caixão descia. Era um caixão que carregava o corpo de Zeca Murrasse. Era pesado porque tinha um duplo peso: corpo desfeito de morte e pobreza alimentada de esquecimento. Chorou-se muito no Cemitério de Michafutene, distrito de Marracuene, província de Maputo. Parecia que as lágrimas queriam inundar as ruas onde Zeca Murrasse navegava como uma folha arrastada pelo vento.

Era manhã de final de Agosto quando Zeca descia para o subsolo da terra; era final de Agosto e fim de Zeca Murrasse. Teve caixão porque houve quem deu o que tinha. Nas redes sociais grupos de admiradores partilhavam o contacto da Tia Joana, irmã do Zeca, e transferiam em diversas vias moedas para ajudar na partida final do músico.

Nos anos 90, aquando da criação da Banda Halakhavuma, Zeca Murrasse, foi escolhido como vocalista principal. Que vocalista principal? Nos últimos dias, Zeca, era vocalista das ruas da cidade de Maputo. Algemado de sujidade, com o cabelo alisado por falta de pente, carregando sacos cheios de “loucura” era assim que podia ser encontrado. A música “Mamana wa Murrasse” encenou-se na sua vida. Triste realidade. Cantou uma música triste e a música por sua vez cantou a sua vida triste.

E a estupidez pode falar mais alto e perguntar a nossa insensatez: “quem morreu? Um louco qualquer ou um músico?”. É verdade que morreu um músico, mas um lugar vazio vai ficar nas ruas da cidade. Zeca Murrasse cantou com outros monstros como Filipe Nhassavele, João Bata e Diniz Magaia. E o caixão desceu no Cemitério de Michafutene. E os choros trovejavam no meio de tudo isso. Desceu o caixão carregado pelo corpo de Zeca. Os pés de Zeca, aqueles que tatuavam passos em todos cantos da cidade, estavam ali parados, congelados pela morte e sem nenhum movimento mínimo. E desceu o caixão. Miguel Torga já dizia “a maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida” e aconteceu uma desgraça inversa a Zeca Murrasse: começou pela música e não pela vida. Zeca Murrasse. Zeca.

 

Depois de ser apresentada no Centro Cultural Português, Camões, Maputo de 11 de Abril a 1 de Junho, a Exposição Moçambique-José Cabral chega à província de Sofala, concretamente na Beira.

A exposição estará patente no Camões – Centro Cultural Português, Pólo da Beira, onde ficará patente até dia 5 de Outubro, de segunda a sexta-feira, das 08h00 às 18h00, conforme um comunicado da instituição, enviado à nossa redacção.

A Exposição é uma apresentação antológica inédita do trabalho do fotógrafo moçambicano José Cabral que resulta de uma parceria entre o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e a Associação Kulungwana.

 Com curadoria de Filipe Branquinho e Alexandre Pomar, a exposição Moçambique-José Cabral reúne um conjunto alargado de fotografias, entre provas de autor e novas impressões, que foram apresentadas em dois espaços da cidade de Maputo, nomeadamente o Camões e a Galeria da Associação Kulungwana.

A exposição é acompanhada do livro Moçambique-José Cabral, uma edição bilingue (português/inglês), que reúne mais de 100 fotografias de José Cabral e inclui textos do coordenador e de Drew Thompson (Estados Unidos da América).

 

“Mulheres com câmaras” é um workshop organizado pela cineasta e produtora audiovisual Samira Vera-Cruz, de Cabo Verde e Ariadine Zampaulo, cineasta e argumentista, brasileira, com duração de dois dias, em Maputo. O encontro cingiu-se em apresentar e debater sobre o que é ser mulher audiovisual e os desafios de ser uma profissional inserida numa área que é dominada pelos indivíduos do sexo masculino.

A conversa fixou-se em muitos momentos como exemplos de iniciativas positivas de mulheres ao redor do mundo, que estão a buscar melhorias na forma como a Mulher é representada nos produtos audiovisuais.

“Em alguns momentos fui colocada para fazer trabalhos considerados subalternos, enquanto sabia operar uma câmara, mas por ser mulher havia um cepticismo por parte das outras pessoas que trabalhavam comigo” disse Aridiane.

A iniciativa visa reflectir e articular a questão das mulheres no audiovisual na realidade moçambicana, valorizando a presença feminina neste seguimento e na sociedade. De acordo com Aleixo, cineasta e participante do workshop, é importante que as pessoas tenham uma “educação cultural, porque esta parte de casa, não é como a formal que só se tem depois de alguns anos de vida”, é nessa educação cultural que as mulheres aprendem que podem fazer o que quiserem, na área que for interessante para elas.

Para Samira Vera-Cruz, é importante unir mulheres que estão a trabalhar no mundo audiovisual, “talvez juntas possam se posicionar” e não se deixar intimidar pelo preconceito e demonstrar abordagens próprias nas artes visuais.

Em paralelo à programação do encontro, houve uma componente prática de análise de vídeos em curta-metragem e debate em torno dos mesmos. O que permitiu a oportunidade para levantar o debate sobre a posição da mulher no mundo.

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) lança a Iniciativa Ovedekula-Fundo de Literatura e Leitura, uma iniciativa que visa impulsionar o desenvolvimento de hábitos de leitura.

O objectivo da iniciativa é de implementar estratégias viradas à elevação dos níveis de leitura junto das camadas estudantis, materializando um conjunto de medidas destinadas a promover o alargamento e aprofundamento dos hábitos de leitura.

O secretário-geral da AEMO, Ungulani Ba Ka Khosa, disse que a iniciativa Ovedekula é uma ferramenta importante de transformação social, pois despertará em muitas crianças e jovens o interesse pela leitura.

Ungulani acrescenta, ainda, que com a iniciativa estão previstas criações de núcleos escolares de leitura, reedição e promoção de clássicos da literatura moçambicana

Segundo Ungulani, ao propiciar o contacto com diferentes géneros literários, no seio das camadas infanto-juvenis, com particular incidência nas escolas públicas, a Iniciativa Ovedekula pretende ainda “influenciar a sociedade para adopção de hábitos de leitura, contribuindo deste modo para a melhoria do rendimento escolar e elevação do nível de cultura e de cidadania da juventude moçambicana”, frisou.
 Literatura, Ovedekula, AEMO

Uma colectânea de livros do Prémio Camões 2013 será lançada, em breve, na língua de Xi Jinping.

O livro clássico da literatura moçambicana, “Terra Sonâmbula”, estará brevemente disponível em mandarim, língua falada por 1,4 biliões de pessoas na China, após os entendimentos nesse sentido entre o autor, Mia Couto e as várias entidades responsáveis pelo trabalho de publicação. No mesmo bornal, estão também contempladas as obras do prolífero escritor moçambicano “A Confissão da Leoa” e “Jerusalém” que vão trazer, aos chineses amantes da literatura, uma amostra da realidade sociocultural de Moçambique, através da ficção literária.

Na sua recente visita à China, que foi também a primeira ao país asiático, para discutir os vários aspectos relativos ao processo de publicação de livros, Mia Couto manteve um breve contacto deixou ficar as impressões sobre a ligação entre Moçambique e a China mas, desta feita, através do universo literário.

“Acho que a literatura é um bom princípio para mostrar que Moçambique é mais do que esse estereótipo, essa construção que a gente faz sobre o outro. A literatura fala de pessoas concretas, da diversidade que há em Moçambique, porque nós somos um país. Claro que não se compara com o tamanho da China, mas sendo um país que é muito longo, alberga várias etnias, várias culturas, várias línguas e Moçambique é tudo isso”, disse Mia Couto.

A escolha das obras, segundo o autor, foi da editora em parceria com o agente literário, que quiseram estabelecer uma simbiose entre os romances mais actuais, neste caso “Jerusalém” e “A Confissão da Leoa”, mas sem deixar de fora o clássico “Terra Sonambula”, com 224 páginas, publicado em 1992 e reeditado em 2006.

O livro “Terra Sonambula” está nesta colectânea porque, segundo afirmou o autor, constitui um marco no seu percurso literário, porquanto é o mais traduzido e mais premiado, daí o interesse da parte chinesa que o romance sirva de pilar neste intercâmbio.

O autor de “Terra Sonambula” disse ainda que já estão em processo de tradução para a subsequente publicação a trilogia sobre Ngungunhana, imperador que governou a região sul do país até ao fim do século XIX, e será também publicada uma história para crianças, em livro ainda por editar.

 

O escritor moçambicano, Ungulani Ba Ka Khosa, será condecorado com a comenda da Ordem de Rio Branco, pelo governo brasileiro. Essa, é a maior  honraria do governo brasileiro, que distingue diplomatas e reconhece a actuação de personalidades, instituições civis e corporações militares nacionais e estrangeiras.

Ba Ka Khosa diz que essa honraria é o significado de 30 anos de carreira literária, facto que data da publicação do livro que é considerado o primeiro romance histórico moçambicano “Ualalapi”, publicado em 1987.

A Ordem do Rio Branco foi instituída em Fevereiro de 1963, com o objectivo de estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção.

O Conselho da Ordem é constituído pelo Presidente da República, Grão-Mestre da Ordem, pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores, na qualidade de Chanceler da Ordem, pelos Chefes das Casas Civil e Militar da Presidência da República e pelo Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores.

A cerimónia de condecoração terá lugar no dia 30 de Agosto, no Centro Cultural Brasil-Moçambique.
 

O agrupamento moçambicano TP50 vai realizar um concerto em homenagem a música moçambicana, denominado “No  Tempo  dos Tocadores: Um Tributo à Música Moçambicana”. Com o concerto o TP50 pretende  encontrar as novas estéticas que a música moçambicana possibilita.

TP50 acredita que a música feita pelos maiores tocadores nacionais transporta-nos a todas dimensões da essência humana e serve de alicerce para se compreender o momento que o país vive, lê-se no comunicado enviado à nossa redacção.

Os músicos  vão  recriar  as  canções,  os  bailarinos  recriam  os  passos  de  dança,  a fotografia e o cinema contarão a história e montar um fio condutor que o teatro trará ao palco.

Durante o concerto o agrupamento vai exaltar o papel que as artes sempre assumiram em momentos profundos do país e eternizar as vozes que fazem parte da trilha sonora de um filme cujos protagonistas são todos os moçambicanos.

O espectáculo pretende apenas ser uma modesta contribuição à valorização da música nacional e dos homens que a fizeram e promoveram.

 

A companhia de teatro Mahamba, através do seu representante – coordenador, Dadivo José, encontra-se desde semana passada, na cidade de Zurique, fortalecendo a rede de produtores de festivais em África, através da parceria com os principais festivais Suíços.

Na companhia de parceiros da África de Sul (Emma Durden- Twist project) e Daniel Maposa de Zimbabwe (Savana Trust), serão exploradas as cidades de Zurique, Basileia e Genebra, num período de duas semanas.

Acompanhar os festivais, produções artísticas, estabelecer contactos e trocas de experiências através de residências artísticas e encontros com as universidades que tenham departamentos de drama, constituem a principal agenda da estadia deste trio da África Austral nas terras Helvéticas.

A iniciativa surge como resultado de uma relação que já dura cinco anos, quando os três grupos se encontraram pela primeira vez em Grahamstown.

Em 2014, moçambicanos participaram no festival através do projecto workshop para escritores. Rogério Manjate e Maria Atália fizeram parte do projecto.

Em 2016 a TWIST project convidou Mahamba para o festival MUSHU em Durban. A actuação do grupo com a peça “Culpado”? “Combati um bom cobate” abriu portas para mais convites. No mesmo ano, foi adaptado o romance do escritor moçambicano Mia Couto “Terra Sonâmbula” numa das maiores produções em Grahmstown. Dadivo José foi actor convidado, representando Moçambique.

Em 2017, Mahamba juntou-se ao Wushini Cultural Centre e ao Savana Trust para uma coprodução intitulada “pétalas de sangue”. Estas iniciativas tiveram sempre o apoio da Pro Helvétia que, decidiu agora, alargar o intercâmbio e a rede para o contexto intercontinental.

Esta residência artística marca o início das relações que culminarão com grandes produções teatrais, workshops, troca de estudantes e professores (para o caso das universidades) e apoios na realização de festivais internacionais.

Depois de escalar a Europa, o trio vai integrar o diálogo internacional sobre as artes, que vai decorrer na cidade sul-africana de Johannesburg. A iniciativa enquadra-se nas comemorações dos 20 anos intervenção da Pro Helvetia nas culturas africanas. Dadivo José vai falar da industrialização do teatro em Moçambique (sonhos, condições actuais e o papel da recém-criada associação nacional AMOTE da qual é signatário, bem como a contribuição dos cursos superiores das artes). Este seminário terá duração de três dias e vai reunir delegados de África, Ásia, Europa e América.

 

É lançada, na quinta-feira, 30 de Agosto, pelas 18 horas, no Auditório do BCI, em Maputo, “Outras Coisas”, obra literária do escritor moçambicano Clemente Bata.

“Outras Coisas” faz parte da colecção Pelagem Negra, chancelada pela Cavalo do Mar, e conta com o patrocínio do BCI. A apresentação será conduzida pelo escritor e académico moçambicano Lucílio Manjate, e uma rapsódia será oferecida pelo coral Congregacional Choir.

A obra resulta de uma colectânea de contos que aborda diversas situações do quotidiano, criando imagens e procurando fazer uma ponte entre a ficção e a realidade. Através do conflito que vivem as suas personagens, o autor sugere ao leitor uma forma de olhar para o que o rodeia, não mais como um simples observador, mas como parte do seu meio, aliando concomitantemente o prazer de ler, meditar e vislumbrar horizontes.

Após ter conquistado o Prémio Literário 10 de Novembro (instituído pelo Conselho Municipal de Maputo), com a sua obra de estreia intitulada Retratos do Instante, em 2009, Clemente Bata aparece com esta nova proposta literária que desde logo suscitou o interesse de uma editora brasileira, que se prontificou a editá-la e publicá-la no Brasil, abrindo uma janela para o mundo.

Bata nasceu em 10 de outubro de 1967, na cidade de Maputo. Formou-se em Letras Modernas, pela Universidade Paul Valéry, Montpellier, França, e obteve o Mestrado em Ciências da Linguagem, na Universidade de Besançon, Franche-Comté, França.

Durante vários anos, ensinou Francês no Instituto de Línguas de Maputo e foi docente na Universidade Eduardo Mondlane e na Universidade Pedagógica. Sua actividade literária inicia-se nos finais dos anos de 1980, quando publicou alguns poemas na imprensa.

Teve seus textos publicados em periódicos como o Jornal Notícias e as revistas Lua Nova, Proler, entre outras, assim como nas revistas literárias electrónicas Maderazinco (Moçambique) e Nova cultura (Alemanha). Foi também colunista do Jornal Meianoite.

 

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