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O País – A verdade como notícia

Chama-se Sílvia Wachane e passa a vida a cortar tecidos, por sinal, alguns muito bonitos para fazer uma obra de arte ainda mais linda e preciosa.

Ela conta que começou com apenas 13 anos de idade, ainda na escola secundária e aos 16 a coisa ficou mais séria, quando fez o curso de corte e costura. Foi então que passou a produzir roupas para os seus colegas na escola.

Em 2014, já com 19 anos de idade, Sílvia mudou-se para a Cidade de Inhambane, com o objectivo de cursar gestão hoteleira na Escola Superior de Hotelaria e Turismo da Universidade Eduardo Mondlane. Foi nessa ocasião que ainda em tenra idade, começou com o seu negócio num pequeno cantinho: “eu comecei a coser roupas no quarto em que eu vivia. Era tudo no mesmo espaço, quarto e sala, cozinha e atelier. Mais tarde, aluguei um espaço que também era muito pequeno, mas pelo menos eu tinha um pouco mais de privacidade, depois passei para outro ainda maior, até que decidi abrir aqui onde estamos agora”, acrescentou Sílvia, enquanto explicava o percurso que levou até conseguir abrir um dos maiores atelieres da Cidade de Inhambane.

Enquanto estudava, Sílvia sempre foi instrutora de corte e costura no Instituto Nacional de Emprego em Inhambane e no meio do caminho, foi gestora de uma estância turística na terra da boa gente.

E foi com o dinheiro desse negócio que a jovem pagou a própria escola e conta que teve de abrir mão de muita coisa. Ela conta que no início quem pagava as contas da escola era o pai, até que com o dinheiro das roupas, ela passou a pagar a sua própria escola, uma decisão que tomou para aliviar o pai que tal como outros, também têm muitas contas para pagar. Aliás, para conseguir pagar a escola, Sílvia diz que teve de abdicar de muitas coisas, típicas da juventude, pois segundo ela é tudo uma questão de foco e prioridade.

Mas o que ela não abre mão, são os conhecimentos que adquiriu no curso de licenciatura em gestão hoteleira, uma vez que as habilidades de gestão que aprendeu na faculdade, ajudam-na a dar um rumo seguro ao negócio de confecção de roupas.

Além disso, Sílvia diz que sonha abrir uma empresa de consultoria em áreas ligadas a hoteleira e turismo.

A estilista já participou em 2 edições do Mozambique Fashion Week, tendo ganho o prémio Amarula Challange 2018.

O actor e escritor brasileiro, Lázaro Ramos, debateu, hoje, com o escritor moçambicano Sérgio Raimundo. Numa das sessões da terceira edição do MOZEFO Young Leaders da FUNDASO, os artistas defenderam que a literatura, além de arte, é essencial e permite que os leitores se posicionem em relação aos eventos do mundo

 

Lázaro Ramos é um dos actores brasileiros consagrados mais conhecidos em Moçambique. Além da arte de representar em telenovelas da Globo ou em diversos filmes, Ramos é escritor de livros infanto-juvenis. Essa paixão, o artista descobriu na infância. Ele sempre escreveu, entretanto, como era um menino tímido, o receio de partilhar os seus manuscritos o impediram (por algum) de partilhar os textos com os mais entendidos nas letras. “Não tinha coragem de mostrar às pessoas. Achava que não iriam gostar. Eu via uma coisa que me fazia sonhar, anotava”. E de anotação em anotação, já na juventude, o escritor revelou-se e hoje tem, no seu repertório literário, o livro Na minha pele, que promete um dia apresenta-lo em Moçambique.

Na qualidade de escritor, principalmente, Lázaro Ramos participou, esta terça-feira, numa conversa sobre o tema “Juventude, literatura e vida”, com o poeta e escritor moçambicano Sérgio Raimundo. A contar para a terceira edição do MOZEFO Young Leaders, iniciativa da Fundação SOICO (FUNDASO), a cavaqueira com 50 minutos de duração permitiu ao brasileiro contar e explicar por que acredita na literatura.

Segundo afirmou Lázaro Ramos, a arte literária é um pretexto para narrar as suas e as histórias do mundo ao seu redor. Isto é, para o escritor, a escrita é uma maneira de captar e de partilhar com o seu semelhante aquilo que tem de mais forte: o conhecimento e a humanidade que isso encerra. Por isso mesmo, em sua casa, ele a esposa, a actriz Taís Araújo, igualmente muito querida em Moçambique, contribuem para que os seus dois filhos, hoje, gostem de livros. O mais velho, inclusive, já lê os seus. “Pelo menos uma vez por mês, nós sempre dizemos: filhos, podem tirar tudo da gente, mas o conhecimento é uma coisa que nunca vão tirar. Nós somos famosos, temos uma casa, mas aquilo que a gente conhece é o que vai ficar com a gente para sempre. Então eles valorizam muito o conhecimento e são essas ideias que vamos plantando nos nossos filhos. Aqui em casa, graças a Deus, e não estou querendo me exibir, a leitura é como se fosse refeição para os nossos filhos também. Ler um livro é como tomar o café da manhã”. Matabicho, entenda-se.

Duas das grandes motivações para Lázaro Ramos escrever são os seus dois filhos. Advém daí a sua inspiração, e, como escritor, o brasileiro interessa-se no valor das pessoas e da vida, o que passa por contar histórias de superação.

Ainda no debate desta terça, Lázaro Ramos comentou sobre o estereótipo de que os jovens não lêem. “Às vezes, não damos os livros certos às pessoas. Antes de recomendar um livro, temos de saber que assuntos interessam às pessoas, para que se sintam donas dos livros”.

Na conversa, Sérgio Raimundo, que chega à literatura por influência do pai, também realçou que a sua escrita parte de uma necessidade de partilha com o outro. “A literatura, além de arte, nos permite posicionamento”. Para Raimundo, um dos problemas dos jovens é almejarem transformar o mundo sem sequer o conhecerem. “A nossa juventude é muito apegada ao materialismo. Antes da transformação social, temos de conhecer o meio, o que passa pela leitura”.

Sérgio Raimundo toma a literatura como ofício de engajamento, de revolta social. “Para mim, a palavra é acção e a escrita é um conjunto de acções, de mostrar o que somos. A escrita tem este papel”.

 

O cinema e o orgulho de Lázaro Ramos

Na conversa com Sérgio Raimundo, moderada por Anabela Adrianopoulos, o actor e escritor brasileiro partilhou sonhos e uma das coisas que o tornam homem privilegiado. “Um dos grandes orgulhos que tenho na vida é fazer parte da família do cinema brasileiro. Eu já fiz mais de 30 filmes, todos eles sobre estilos e classes sociais diferentes, de conteúdo nacional, mas que falam para todo o mundo, porque falam com paixão sobre o seu lugar. Um dos meus sonhos é que nós consigamos fazer com que esses filmes e os que são produzidos nos países de língua portuguesa circulem. Eu vivi uma experiência que foi muito bonita no filme O grande kilapy, com actores moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos e brasileiros, com diferentes sotaques. Foi uma iniciativa linda, um caminho de aproximação. Acho que seria importantíssimo pensarmos nisso, inclusive. Fazer com que os filmes circulem para a gente se conhecer mais e encontrar novos formatos da nossa relação através da cultura e, ao mesmo tempo, criar projectos que englobem esses talentos todos que temos nos países de língua portuguesa”.

Outra experiência cinematográfica que deixou muito feliz a Lázaro Ramos, nessa vertente aproximação cultural, foi com o filme O vendedor de passados, adaptado do romance do angolano José Eduardo Agualusa.

Já mais para o fim do debate, o brasileiro deixou uma recomendação: “O grande desafio que a gente tem no mundo é o de convivermos com as nossas vozes, termos a capacidade de nos escutarmos”.

A escritora, poeta e coach internacional foi uma das autoras convidadas à 3ª edição do CONALER – Congresso Nacional de Leitura Online do Brasil. A participação de Tânia Tomé aconteceu logo no dia inaugural, 3 deste mês, através de um sarau literário com o escritor Daniel Munduruku, a educadora Claudia Costin e o actor Paulo Betti (todos brasileiros), que participa em várias telenovelas da Globo exibidas em Moçambique.

Sob o lema “Livros e leitura em tempos de pandemia”, a 3ª edição do CONALER, que termina domingo, conta com a participação de 40 intervenientes de diferentes áreas sociais, entre brasileiros e cidadãos de outros cantos do mundo, sendo que, nesta edição, Tânia Tomé é a única participante africana. “Para mim é uma grande honra ser uma das autoras convidadas, mas ser também a primeira e única africana neste evento brasileiro que já vai na sua terceira edição. Para além de ser a única africana, sou, de facto, uma das mais jovens do evento e das poucas negras”.

Na opinião de Tânia Tomé, o reconhecimento que tem no Brasil é realmente extraordinário. “Brasil fez um tributo ao meu trabalho como escritora, em 2011, com a Biblioteca Nacional do Brasil, e, depois, o meu livro [Agarra-me o sol por trás] tornou-se referência bibliográfica da pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo que o meu livro Succenergy está na lista dos 15 Livros para Ler em 2020”.

Com a inclusão de Tânia Tomé nesta edição, a organização pretendeu acrescentar à iniciativa uma voz na motivação e no incentivo à leitura. E, segundo acredita a autora de Succenergy, o evento que conta com a participação de poetas, escritores, jornalistas, filósofos e actores é importante porque ajuda na desconstrução de uma série de paradigmas e crenças, para que o Homem possa evoluir. “Só o conhecimento ligado à qualidade das nossas reflexões e nossas atitudes e acções poderão fazer a diferença”.

Entre outros convidados à 3ª edição do CONALER – Congresso Nacional de Leitura Online estão Monja Coen (Monja Zen Budista), Cristiane Sobral (escritora), Roger Chartier (Historiador e escritor), Luiz Ruffato (escritor e jornalista, que ano passado participou no Resiliência, em Maputo) e Vitor Tavares (Presidente da Câmara Brasileira do Livro).

O CONALER – Congresso Nacional de Leitura Online, a cada edição, reúne conferências, palestras, depoimentos, saraus e sessões de cinema, com transmissão gratuita pela Internet. As lives com apresentadores e convidados são transmitidas ao vivo. O CONALER é uma iniciativa do Observatório do Livro e da Leitura, uma fundação sem fins lucrativos que tem por missão fomentar projectos de leitura junto a populações vulneráveis e formar mediadores e multiplicadores de leitura a fim de contribuir para a transformação das pessoas e da sociedade. Seus dirigentes são personalidades com um histórico de actuação em temas relacionados aos livros, leitura, literatura e bibliotecas, no Brasil e no exterior.

 

PERFIL TÂNIA TOMÉ

Tânia Tomé é escritora, poetisa, economista, empreendedora, palestrante e personalidade televisiva. Seu livro Succenergy – active sua energia e descubra o sucesso que há em você, está entre os 15 livros de desenvolvimento pessoal para ler em 2020, pela lista brasileira “Do Quântico ao cósmico”. O seu livro de poesia Agarra-me o sol por trás é referência bibliográfica da pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tomé é também autora do híbrido romance filosófico e poético Conversas com a sombra. É publicada em muitos países e participa de diversas antologias. Foi consagrada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo afro descendente e com menos de 40 anos, pelo Mipad New York, juntamente com outras celebridades internacionais, como Taís Araújo, Paul

Hamilton, Usain Bolt, Lupita Nyongo. Tomé é prémio Académico Portugal-África, pelo Antigo Presidente de Portugal Mário Soares, e Jovem Africana Líder, pela Iniciativa do Presidente Barack Obama, Programa Yali – MWF.

Succenergy – active sua energia e descubra o sucesso que há em você foi lançado nos EUA numa tour da autora entre Atlanta, New York e Califórnia. Este livro foi também lançado no Brasil para mais de 15.000 pessoas no Festival das Esmeraldas, onde Tânia Tomé foi keynote speaker e coach a convite da Prefeitura de Campos Verdes.

Após a suspensão temporária da Galeria devido às medidas de prevenção à pandemia do COVID-19, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo reabre no dia 12 de agosto, às 18h00, com a inauguração da exposição “Água”, de Mário Macilau, renomado fotógrafo moçambicano, vencedor de vários prémios e com uma vasta carreira internacional. A cerimónia será realizada institucionalmente, com transmissão em direto pelas redes sociais.

Mário Macilau descobriu a paixão pela fotografia aos 15 anos, tendo já apresentado o seu trabalho em países como a Malásia, China, Bangladesh, Portugal, Espanha, Bélgica, Bulgária, Itália, Zimbabwe, África de Sul, Austrália, Alemanha, Suíça e Suécia.

O projeto desta exposição enfatiza a importância da água e o acesso à mesma. Num período como o que atravessamos, mais do que nunca a água é essencial ao saneamento e higiene comunitários. Mário Macilau apresenta uma série de fotografias dedicada a alterações climáticas e a questões relacionadas com a temática da água como bem fundamental de vida para a Humanidade. A série apresentada nesta exposição foi registada durante os últimos 3 anos, em Moçambique, maioritariamente na província do Niassa, distrito de Cuamba, no âmbito de um projecto desenvolvido com comunidades locais apoiadas pela WaterAid Moçambique, uma organização não governamental baseada no Reino Unido, que dedica a sua actuação a nível mundial na área da Água, Saneamento e Higiene.

A convite do Camões – Centro Cultural Português, o projecto da exposição “Água” conta com a especial participação do renomado historiador e escritor João Paulo Borges Coelho, que publicou anteriormente um livro com o mesmo título e apresenta de forma inédita nesta mostra uma reflexão poética sobre a série de fotografias cujo tema admite despertar um peculiar interesse.

“Água”, um projeto do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, conta com o patrocínio da WaterAid Moçambique e com o apoio da Art Dispersion (Portugal) e estará patente em Maputo desde dia 13 de agosto até dia 2 de outubro, de segunda a sexta feira, entre as 11h00 e as 17h00, respeitando todas as medidas adequadas de higiene e segurança em vigor.

Fonte: Camões – Centro Cultural Português em Maputo

No próximo sábado, entre 17h e 20h30, o Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM) irá apresentar a quinta edição do Festival Nacional de Hip-Hop, “Punhos no Ar” (FNH2PA), no Facebook e YouTube.

Resultante de parceria entre o Centro Cultural Franco Moçambicano, o Café Bar Gil Vicente e a Nexta Vida Entertainment, já em 2016, “Punhos no Ar” é um evento centrado na valorização do Hip-Hop Moçambicano, além de promover um encontro de várias províncias, permitindo assim um importante intercâmbio entre os amantes e praticantes da área e o aprofundamento dos laços que unem os fazedores da cultura Hip-Hop no nosso país, segundo o CCFM.

“Na impossibilidade de, este ano, realizarmos mais uma edição com a presença física dos artistas e do público, devido à crise de saúde pública actual, com o perigo da propagação da pandemia de Covid-19 e da tomada de medidas restritivas na realização de actividades públicas, o Festival de Hip Hop “Punhos no Ar” deste ano acontecerá online, continuando a promover o seu principal objectivo: Exaltação do Hip-Hop Nacional, para tal vai reunir no mesmo palco artistas do Sul (Maputo e Matola), Centro (Beira e Chimoio) e Norte do País (Nampula)”, lê-se no comunicado do Franco.

A 5ª edição do festival acontece com apoio da Pernord Ricard Mocambique, Mac Creative Lines, TV Cabo, Água da Namaacha, Markas de Hip-Hop, MX Records, Geração Hip-Hop, Radiação Hip-Hop e Bomba Music.

“Da música passando pelo expo-beatz de produtores também do Sul (Maputo, Xai-Xai), Centro (Beira, Chimoio, Tete) e Norte (Nampula e Pemba) do país, este evento vai entrar nas nossas casas com o maior e único propósito: celebração do Hip-hop Nacional”, realça o CCFM.

Os setes concertos consecutivos com a duração de cerca de 30 minutos, no sábado, irão contar com  Kay Real, Jazz P, Flash Enccy (Matola), Stinky & Skhokho (Maputo), Igrego (Chimoio), Duplo V (Beira) e Colt Blame (Nampula).

“Não me vejo a cantar algo em que não acredite”. A questão é: em que Tchakaze acredita? A resposta é simples, a cantora e compositora acredita no amor e na família. Por isso, as suas músicas procuraram retratar um cenário que concorra para que as pessoas possam se entregar a sentimentos nobres. Ao longo desta entrevista, Tchakaze fala do que a move e da missão que a norteia, afinal o mundo sempre pode ser melhorado com boas acções.

 

Toda a narrativa tem um princípio. Qual é o início da sua?

Primeiro, a minha vida artística baseia-se no princípio de eu ser mulher, antes de cantora. Então, interessa-me a moral que uma mulher deve ter perante a sociedade, o que retrato nas minhas músicas. Segundo, o ambiente em que eu cresci, de uma família religiosa, da Igreja Metodista, foi determinante para mim, de tal modo que levo comigo os ensinamentos daí resultantes.

 

Quem escuta o seu álbum de estreia, Tchukela, logo percebe que se interessa muito em cantar o amor. Porquê lembrar as pessoas a importância deste sentimento?

Eu aprecio o cotexto familiar. Gosto muito de ver mãe, pai e filhos juntos ou casais que se juntam e constroem uma vida feliz. Cresci numa família em que era eu e minha mãe – o meu pai faleceu muito cedo e eu sou filha única. Cresci apreciando famílias que viviam aquilo que eu não poderia viver, em que os pais levavam as crianças a passear e a conhecer lugares. De tanto achar essa fotografia bonita, desde nova, decidi investir no amor porque com este sentimento se torna possível enfrentar as dificuldades de um lar.

 

Ainda assim, o amor não é uma coisa sempre harmoniosa no seu Tchukela. Em alguns momentos, é auspicioso e noutros destrutivo. Estou a pensar nas músicas “Vou te amar” e “Nkata”. Na primeira, há uma entidade que quer pertencer, na segunda há outra que quer partir. O que potencia os contrastes à volta do amor nas suas músicas?

Tem uma frase que diz o seguinte: se um dia eu desistir de si, não será por falta de amor, mas por falta de condições de continuar a sofrer. Às vezes, quando as pessoas desistem umas das outras nem é por falta de amor. Eu canto acontecimentos verídicos e a violência doméstica é uma das coisas que me interessam muito por ser algo constante no país. Com isso espero que haja uma mudança de comportamentos na sociedade.

Em “Nkata”, a voz feminina que nos canta resisti até às últimas consequências, antes pôr um basta à relação amorosa, sem denunciar a violência que sofre. Mesmo quando decide partir, não denuncia. Quis assim representar a atitude das mulheres agredidas?

Denunciar o parceiro em casos de violência doméstica é a atitude certa. No entanto, mesmo por causa da música “Nkata”, eu passei a acompanhar muitos casos de violência doméstica, pois passei a receber chamadas de pessoas que se sentem à vontade para desabafar comigo. Aí, notei que, quando a situação é denunciada, parece que as coisas ficam mais agravadas. Por exemplo, o parceiro, quando volta da esquadra, não volta com percepção de que cometeu um erro ou um crime, ele volta revoltado porque a esposa colocou-lhe na cadeia.

 

Está a querer dizer que a solução para este problema está além de denunciar?

Eu acho que isso e as reuniões de família para resolver o problema do casal é tapar o sol com a peneira. Enquanto a pessoa que agride não tiver consciência do erro que está a cometer, não há reunião familiar possível de resolver o problema. O agressor tem de ter consciência e acho que a separação física entre quem agride e é agredido é necessária, para que ambos possam pensar na relação, pois logo que há violência entre casais, há um problema que deve ser resolvido.

 

À imagem de “Nkata”, uma das suas músicas mais afamadas é “Donguissa”, que se insere nesta linhagem moral. Qual é a história por detrás desta música?

Donguissa é a história de uma mulher que foge com um homem, deixando para trás o seu parceiro e os seus filhos. Passado algum tempo, a personagem descobre que era feliz com o marido pobre, que tinha amor para lhe dar. Eu nem sei como esta música iniciou. Do nada comecei a cantar e surgiram-me as palavras. Quando estava já a terminar a música, avaliei-a para ver se se enquadrava na nossa sociedade, e enquadra-se.

 

Assume que a sua música pode, sendo um objecto estético, contribuir para a mudança de comportamentos…

Certamente, porque a música, logo a prior, é um instrumento pedagógico, terapêutico e cura. A música está presente em várias situações das nossas vidas. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que a minha vida mudou desde o dia que ouvi a música do fulano? A música, e a minha em particular, tem tido esse poder. Eu recebo várias chamadas de mulheres que dizem que os maridos deixaram de lhes agredir quando ouviram a música “Nkata”. Há ainda situações que o casal se torna apreciador das minhas músicas e isso alegra-me bastante.

 

“Lirandzu la phoisene”, com Deltino Guerreiro, é uma espécie de presente envenenado…

É uma espécie de presente envenenado, porque, às vezes, a cura é o próprio veneno. Eu não poderia ter encontrado uma pessoa melhor para cantar comigo essa música.

 

As suas músicas têm um tom melancólico constante. Porquê?

Eu considero-me romântica e um romântico é sempre um sofredor. Sou muito sentimentalista e, por isso, mesmo que cante coisas sobre outras pessoas, eu sinto o que canto. Só assim as pessoas podem se sentir tocadas.

 

Só canta o que acredita?

Sim. Não me vejo a cantar algo que não acredite. Existem leis gerais, mas nós também criamos as nossas, do que acreditamos ser correcto. Por exemplo, não me vejo a cantar uma música em que eu digo que tenho dinheiro ou algo assim. Eu tenho uma missão: fazer com que as pessoas mudem de atitude e possam amar-se.

 

“Vinte vinte” é o título da sua nova música. Como é esta coisa de levar à composição um retrato social que mexe com as expectativas das pessoas, os dramas das vendedeiras, a vaidade das mulheres e até o terror em Cabo Delgado?

Há coisas que nós não conseguimos explicar, mas a ideia era retratar isso tudo. É muita gente lesada com o que está a acontecer e eu gostaria que as pessoas se sentissem identificadas com o que canto. Essa música está à venda. Quem a compra, fica também com a instrumental e com a letra. A ideia foi criar um ambiente familiar, para que as pessoas pudessem brincar de karaoke em casa.

 

Quais são as suas lutas? Coloco esta pergunta mesmo pensando na música “A luta continua”, do Tchukela.

Nos meus espectáculos tenho o hábito de dedicar essa música a todos, mesmo acreditando que cada um tem suas lutas. As minhas lutas são várias: conseguir vencer na vida. Sou formada em Psiquiatria e Saúde Mental e gostaria de me afirmar nessa profissão que aprecio muito. Gostaria de contribuir para proporcionar o bem-estar para as outras pessoas e usar a música para isso. Outra luta é poder passar valores morais aos meus filhos, para que cresçam equilibrados, afinal tudo começa de casa.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o álbum Eparaka, de Deltino Guerreiro, e o livro Se Obama fosse africano, de Mia Couto.

 

Perfil

Teresa da Graça Rangel Semende, Tchakaze, nasceu em Maputo há 30 anos. É compositora, cantora, instrumentalista. Subiu ao palco pela primeira vez aos 17 anos de idade, como corista do músico Penny Penny, na companhia das irmãs Belita e Domingas, juntamente com a banda Omba Mô. Com as músicas “Nkata” e “Donguissa” recebeu três prémios: Revelação no Ngoma, Melhor Voz no Ngoma e Melhor Canção pela 99FM. Tchakaze é também activista social para saúde e bem-estar emocional. Ano passado, esteve em Macau com a Banda Timbila Muzimba. É autora do álbum Tchukela e o seu talento revelou-se no Programa Super Tardes da STV.

Dany Wambire (escritor e editor da Fundza), Sandra Tamele (tradutora e editora da Trinta Zero Nove) e Jessemusse Cacinda (jornalista e editor da Ethale Publishing) vão debater, a partir das 18h30 desta quarta-feira, o tema “Os e-books e as novas tendências literárias”, numa sessão que será exibida através do Facebook e do YouTube do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

De acordo com o comunicado de imprensa do CCMA, na sessão que se insere na programação de Agosto, os editores irão partilhar as suas percepções referentes à arte literária num período conturbado para o negócio do livro no país.

“A partir das suas residências, Dany Wambire, Sandra Tamele e Jessemusse Cacinda irão usar as ferramentas online do CCMA para explicar como as suas respectivas editoras têm resistido neste período em que os grandes financiamentos estão aloucados à saúde”, avança a nota do CCMA, acrescentando que apesar dos efeitos catastróficos causados pelo Coronavírus no sector cultural e criativo, que incluem suspensão de financiamento ao livro, a Fundza, a Trinta Zero Nove e Ethale Publishing não cessaram as suas actividades. “Pelo contrário, em geral, encontraram na Internet uma plataforma eficaz na promoção das suas obras”.

No debate de amanhã, os editores vão se referir aos impactos que advém da possibilidade dos livros electrónicos poderem chegar a qualquer canto do mundo em pouco tempo.

 

Perfil dos editores/ oradores

Dany Wambirenasceu em 1989. É mestrado em Comunicação e licenciado em Ensino de História. É autor de: “A adubada fecundidade e outros contos” (distinguido com menção honrosa no Prémio Internacional José Luís Peixoto, 2013); “O curandeiro contratado pelo meu edil” (colectânea de crónicas); ”Quem manda na selva” (infanto-juvenil) e “A mulher sobressalente”.

 

Sandra Tamelenasceu em Pemba. Dedica-se à tradução desde 2002 e em 2007 estreou-se na tradução literária com a publicação da tradução do romance “Eu não tenho medo”, de Niccolò Ammaniti. É licenciada em Arquitectura pela UEM e é linguista acreditada junto do Instituto de Linguistas do Reino Unido. É promotora do concurso anual de tradução literária.

 

Jessemusse Cacindaformou-se em Filosofia, tendo um mestrado em Sociologia do Desenvolvimento. É co-fundador da Ethale Publsihing, editora vocacionada na promoção do pensamento africano. No seu catálogo, editou livros de autores como Wole Soyinka (Nobel da Literatura), Ngugi Wa Thiong’o e Licínio Azevedo. É pesquisador vinculado ao Centro de Estudos de Comunicação – SEKELEKANI. É autor do livro de entrevistas: “Pensar Africa” (Ethale, 2020) e co-autor dos livros, “Moçambique Neoliberal: perspectivas teóricas e da práxis” (Educare & Ethale, 2019) e “Desafios da Comunicação no séc XXI” (UCM & Fonte da Palavra, 2018). Os seus trabalhos literários foram publicado em antologias, jornais e revistas em Moçambique, África do Sul, Namíbia e Quénia. Investiga as temáticas de cidadania e governação, comunicação política, análise do discurso, rádio e culturas urbanas.

O músico passará a representar a marca ao nível nacional e internacional para a divulgação e venda da cultura nacional 

 

O músico Valdemiro José passa desde hoje a assumir a posição de chanceler do Mussika, nome que em echuabo significa mercados. Trata-se de uma plataforma digital criada na província da Zambézia pelo centro de estudos para o desenvolvimento da Zambézia. A mesma vai vender e divulgar produtos e marcas. Assim, Valdemiro passa a representar Mussika ao nível nacional e internacional na divulgação da marca enquanto mercado da indústria cultural na província.

“Com o Mussika, os fazedores  da cultura no país passam a ter uma plataforma na qual podem integrar as suas obras, e cada um através de um smartphone ou computador comprar obras dos artistas. No final uma percentagem vai para o Mussika e outra para o músico ou fazedor da cultura”, disse Paulo Bonde, Director do centro de estudos para o desenvolvimento da Zambézia.

Referiu ainda que  na plataforma Mussika está disponível uma categoria designada arte e cultura. Nela os artistas nacionais e internacionais terão uma galeria digital onde “cada um de nós dentro ou fora do país poderá aceder as obras quer de artistas plásticos, músicas, livros e por vias disso pagar e ter acesso na sua casa através de um sistema de entrega já criado”.

Já Valdemiro José, músico e chanceler da plataforma, referiu que assumiu a proposta na visão de que “juntos podemos sair do convencional para o digital, para a tecnologia, para o mundo. Eu vejo Mussika como um mercado que surge na Zambézia para o mundo.

Já o Governador da Zambézia, Pio Matos, destacou o papel que a plataforma pode desempenhar na vida dos músicos e outros artistas da província. “Nós queremos, através da imagem do Valdemiro José, promover, alavancar, queremos que ele sirva daquele ponto onde se nós colocarmos uma alavanca vamos levantar a província da Zambézia, “disse.

Artistas presentes nas cerimónias dizem que Mussika pode ser um mercado de vendas de obras

a ter em conta na vida do artista.

Sabe-se que o Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, disponibilizou dois milhões de meticais para apoiar a abertura daquela plataforma com intuito de promover e colocar na plataforma locais turísticos da província, mas fundamentalmente apoiar os fazedores das artes através da disponibilização de conteúdos no mercado digital, onde os artistas podem tirar vantagens comparativas.

Cantora lírica moçambicana regressou aos palcos, depois de enfrentar dias difíceis durante o confinamento, em Espanha, onde vive.

 

Mariana Carrilho vive há 11 anos no estrangeiro. Ao fim de uma década, a cantora lírica passou, nos últimos meses, por grandes provações em relação à sua carreira musical, pois, com o confinamento imposto pela COVID-19, em Espanha, não só esteve desempregada como teve de suportar ficar longe do palco e do público.

Depois de dois concertos suspensos, a artista moçambicana voltou a sentir a emoção de estar no palco no dia 27 de Junho. O musical com Gerard Mejías (Guitarra) e Laura Elena López (Soprano convidada) foi no  Casino de Sant Andreu de la Barca, em Barcelona. Para a mezzo-soprano, o espectáculo que aconteceu num terraço, em condições não ideais para um reportório clássico com guitarra, foi… “uma sensação muito boa voltar ao palco, com público a desfrutar do momento. Foi uma volta de uma maneira muito curiosa. Regressamos à expressão… O que são as artes sem esse contacto com o público? O que significa dar um concerto se este concerto não tem público? A energia do público é importante e foi muito positiva no meu regresso ao palco”.

O concerto no Casino de Sant Andreu de la Barca, até aqui, é o único de Mariana Carrilho neste contexto de COVID-19. Também por isso especial numa carreira no estrangeiro que, afinal, é exigente: “Muitas vezes parece um investimento sem retorno esta carreira fora do meu país. É complicado. Não é um mar de rosas, não vou estar aqui a mentir. Não é fácil, mas as experiências que vou acumulando com isso vão compensado, de certa forma, esse investimento. Eu sei que vai haver esse retorno do investimento que estou a fazer, porque confio no meu trabalho e nas circunstancias que me vão ajudar, de alguma maneira. Além disso, eu tenho o grande privilégio de contar com o apoio da minha família. Isso é que me dá forças para continuar”.

Durante o confinamento, a cantora lírica se perguntou se deveria seguir com a sua carreira. Nessa altura, já não se tratava de querer lutar por uma carreira artística. A questão era: “será que eu posso? A pessoa já tem uma certa responsabilidade, os anos vão passando e começas a questionar-te: Será que eu posso continuar a fazer isto? Começas a duvidar muito quando acontecem estas coisas. Mas eu confio e tenho apoio dos meus pais e da minha família. Eu não tenho medo de trabalhar, eu não tenho medo dos desafios e nem de lutar. Se tivesse medo, não estaria a viver há 11 anos fora do país”.

Com a chegada da COVID-19 a Espanha, Mariana Carrilho teve momentos difíceis a nível profissional e financeiro. Dar aulas online foi o que a suportou. Entretanto, a mezzo-soprano vê algumas vantagens na pandemia: “A coisa positiva da pandemia foi a mudança de olhar sobre a comunidade, sobre a união humana e sobre o abuso ao planeta”.

Antes da pandemia, Mariana Carilho estava a trabalhar em três espectáculos, dos quais dois foram suspensos. O primeiro era especial porque a cantora lírica passou por audições, tendo sido seleccionada. O segundo era especial porque seria a primeira vez que cantaria no Palau de la Música Catalana de Barcelona. “Para quem não conhece, é uma das salas mais importantes para concertos de música clássica em Barcelona e na Europa”. O concerto cancelado seria com a orquestra de guitarra de Barcelona e a artista seria solista convidada.

Ultrapassadas as dúvidas durante o confinamento, para a mezzo-soprano, hoje em dia, “seguir as artes e cantar é um acto de fé e de verdade para comigo mesma”.

 

PERFIL

Mariana Carrilho é uma Mezzo-soprano e artista visual moçambicana.

Actualmente, forma parte do estúdio de ópera da Ópera de Sarrià, Barcelona.

Na próxima temporada, Mariana debutará como Mezzo-soprano convidada no Palau de la Música Catalana, cantando El Amor Brujo e Sete Canções Populares Espanholas de Manuel de Falla com a Orquestra de Guitarras de Barcelona. Esta temporada também lhe reserva o debut no Teatro de Sarrià como parte do elenco da Ópera de Câmara de Barcelona 2020/2021.

Na temporada passada, depois de terminar o seu mestrado com distinção, Mariana estreou profissionalmente como Venus na opereta Orphée aux Enfers de Offenbach no Teatro Avenida em Maputo, Moçambique, substituindo uma cantora que teve de abandonar a produção. Nesse mesmo verão, estreou como Dorabella em Così Fan Tutte, de Mozart, no Festival de Ópera de Villarreal, em Valência, Espanha como parte do estúdio de ópera organizado pelo festival.

Mariana Carrilho tem sido presença regular na Temporada de Música Clássica de Maputo, organizada pelo grupo Xiquitsi e Associação Kulungwana, por quem ela foi acarinhada desde seus primeiros passos na música. Através dessas oportunidades, ela conseguiu alcançar um público moçambicano que nunca tinha tido contacto com a música clássica. Mariana foi também convidada a ensinar bases de técnica vocal e consciência corporal aos estudantes do Xiquitsi.

Mariana Carrilho foi cantora activa em masterclasses de cantores e vocal coaches de renome como Cheryl Studer, Dolora Zajick, David Gowland, Sara Braga Simões, Eric Halfvarson, entre outros. Foi dirigida por maestros como Jose Olivetti, Josep Gil, Manel Valdivieso, Dinis Sousa e Sergi Vicente. Colaborou com aclamados directores de cena, tais como Paco Azorín, Paco Mir, Andre Heller-Lopes e Paulo Lapa.

Trabalha actualmente com Carmen Bustamante.

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