O País – A verdade como notícia

Selma Uamusse apresenta o seu segundo álbum, próximo sábado, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, capital portuguesa. Liwoningo é composto por oito temas e pretende ser apenas isso: esperança.

 

E fez-se luz. Ao fim de alguns anos de gravação e produção, Selma Uamusse volta a lançar um álbum, o segundo na conta pessoal. Depois de Mati (água), disco de estreia, a cantora moçambicana, desta vez, traz um trabalho para alumiar os corações e os caminhos dos homens. Esse é Liwoningo (do cicopi, luz), um álbum que vem do acumular de várias experiências.

Constituído por oito músicas, entre as quais “Khanimambo”, “Maputo”, “No guns” e “Hoyo-Hoyo, Liwoningo foi produzido para trazer esperança, e com muitas novidades. Por exemplo, a utilização de novos instrumentos na sonoridade das músicas: a guitarra eléctrica, essencialmente, mas também algumas guitarras acústicas, tocadas por Milton Gulli. No seu segundo álbum, Selma canta em xirhonga/ xichangana, cicopiemakhuwa e português, algo que há já algum tempo as pessoas pediam que acontecesse.

O novo trabalho discográfico da artista moçambicana começou a ser produzido cedo. Antes mesmo de lançar Mati, Selma Uamusse inicia a concepção de Liwoningo. Já em Julho de 2018, a cantora fez uma residência, com a sua banda, para o preparar com o que a artista considera muita intencionalidade. Além das suas próprias composições e de Milton Gulli, o disco conta também com temas compostos por Isabel Novella, Chenw Wa Gune e Deltino Guerreiro. “Este é um álbum cheio de surpresas”, afirma Selma Uamusse, “com algumas músicas introspectivas e outras mais animadas, que acho que transpiram um pouco de alguma maturidade que eu possa ter”.

Liwoningo, que passou por muitas mãos, foi produzido por Guilherme Kastrup. Selma Uamusse apostou no produtor brasileiro porque trabalha bem as camadas de música tradicional, moderna e contemporânea. “Ele vem da escola do jazz de intervenção, mas está muito ligado à música de raiz. Foi muito bom trabalhar com Guilherme Kastrup, até porque ele me fez o desafio de sair das minhas vozes, porque eu vou tendo facilidade de cantar naquilo que são alguns registos”.

Numa apreciação ao seu disco, a artista adianta que Liwoningo é um álbum menos electrónico, mais orgânico e, ao mesmo tempo, com alguns elementos um pouco estranhos. “E a minha voz está de uma forma diferente”.

 

O privilégio de actuar na Calouste Gulbenkian e a inspiração chope

Quando em 1988 Selma Uamusse chegou a Portugal, a sua primeira residência foi na mesma avenida da Calouste Gulbenkian. Três décadas depois, nem mais, a artista mora num apartamento bem próximo daquela importante instituição do mundo. “Estou muito contente por receber o convite para fazer parte da programação de verão da Gulbenkian, num anfiteatro ao ar livre – que vai estar cheio de muitas condicionantes – as pessoas terão de usar máscara e não poderão estar sentadas ao lado umas ao lado das outras –, mas será muito bom poder fazer a apresentação num lugar tão icónico e tao especial”.

Portanto, a Gulbenkian vai receber a primeira das várias apresentações de Liwoningo, uma espécie de homenagem a uma cultura particular: “a cultura chope tem sido uma grande inspiração na minha maneira de fazer música. Então, ao invés de dar o nome do CD em changana ou em português, preferi Liwoningo, que também é o nome da filha do Cheny e da Xixel. Achei que não seria muito fácil as pessoas dizerem na Europa, mas tem sido muito bem aceite”.

Para Selma Uamusse, luz é tudo o que o mundo está a precisar neste tempo de incertezas, e o disco traduz a sua fé em Deus.

Liwoningo deve chegar às lojas já dia 24. No mesmo dia, será disponibilizado pelas plataformas digitais, através das quais já se podem ouvir “No guns” e “Hoyo-Hoyo”.

O escritor apresenta o seu segundo livro de contos às 18 horas de quarta-feira, numa cerimónia a acompanhar pela Internet.

 

Em Ferramentas para desmontar a noite, livro de Japone Arijuane, uma voz diz o seguinte: “por vezes penso que sou toda a gente/ em toda a gente me sinto outro e outros” (p. 19). Coincidentemente, saber ser toda gente (amigos, colegas, familiares, e etc.) e aí encarnar as dores dos outros foi o que permitiu Mélio Tinga escrever o seu segundo livro: a engenharia da morte, que será apresentado às 18h de quarta-feira, a partir da página Facebook do Camões – Centro Cultural Português e do canal YouTube da Revista Literatas.

Na voz do autor, a engenharia da morte é uma espécie de questionamento e frustração, relacionados com a incapacidade de o Homem assegurar que os seus ente queridos continuem vivendo, quando o além bate à porta. Assim, de algum modo, Mélio Tinga quis exprimir o poder que a morte tem em desafazer relacionamentos quando bem entende.

Os 19 contos do segundo livro de Tinga, em geral, partem de experiências em que o escritor se situa num lugar secundário em relação aos factos que o fizeram escrever, porque, “às vezes, sentimos mais dor na dor dos amigos que perdem os seus. Tenho a mania de sentir a dor dos outros. Não gostaria que fosse assim, mas tem sido. As dores dos outros me fazem sofrer também”.

O livro a engenharia da morte começa a ser escrito no início do ano passado e continua em construção. Como assim, se já está impresso? “Há ali coisas sobre as quais continuo a reflectir”. Entre os 19 contos, estão “O cão que falava irlandês”, “A máquina do chinês”, “A madrugada do cavalo branco”, “Os vagões da morte” e “Enterrado vivo”. A versão imprensa tem 100 páginas, e Mélio Tinga gostaria que o livro fosse uma cura para os leitores, como continua sendo para si. “Escrever este livro acabou sendo um antídoto para qualquer coisa que me dói. Sinto que me fui purificando, enquanto escrevia; foi uma forma de lavar o corpo e espírito; uma purificação contínua”.

A apresentação do livro

O segundo livro de contos de Mélio Tinga, edição de autor, será apresentado por Ubiratá Souza. O académico brasileiro considera que “A literatura para Mélio Tinga é uma síntese de contemplação, inspiração, trabalho e transpiração”. Num texto sobre a engenharia da morte, o mestre e doutor em Literaturas Africanas pela Universidade de São Paulo destaca o diálogo que as narrativas de Mélio Tinga estabelecem com autores moçambicanos e com os de outros espaços de língua portuguesa. Por exemplo, Brasil e Portugal.

A cerimónia de apresentação do livro terá comentários e leituras do poeta Léo Cote e moderação do jornalista Eduardo Quive.

 

Perfil

Mélio Tinga nasceu em Maputo. Publicou O voo dos fantasmas (Ethale Publishing, 2018), fez parte de O hambúrguer que matou Jorge – antologia de contos criminais moçambicanos (Ethale Publishing, 2017), co-organizou e participou no livro Contos e crónicas para ler em casa Vol. I e II (Literatas, 2020) e coordenou e participou da antologia Idai – marcas em verso e prosa (Gala-Gala Edições, 2020). Tinga foi ainda finalista do Prémio 10 de Novembro 2019, com o livro inédito Outro dia a nuvem evapora. É formado em Educação Visual pela Universidade Pedagógica, e, actualmente, exerce a profissão de designer de comunicação. Tinga também é co-fundador da DESIGN Talk e editor da Revista DEZAINE.

Ivan Laranjeira é um dos grandes promotores das artes e do património cultural na cidade de Maputo. Através da Associação IVERCA ou do Museu Mafalala, está comprometido em apostar numa economia baseada na cultura e na comunidade. Por isso, muito do que fez/ faz gira à volta da divulgação, investigação e documentação do potencial artístico-cultural e turístico a partir de um dos mais antigos subúrbios da capital do país: Mafalala. Se seguir esta entrevista, vai “ouvir” em “surdina” o actor e curador dizer muito do que pensa sobre a missão do artista. De igual modo, Laranjeira explica o que deve acontecer para que a arte nacional esteja no bom nível de desenvolvimento, mencionando aspectos positivos e negativos.

 

Ivan Laranjeira é actor, produtor cultural, guia de turismo e curador. Quais são as narrativas por detrás desta entrega à arte e à cultura?

É um processo que começa em casa, com a família. Venho de um contexto em que os meus pais sempre desenvolveram em nós o gosto pelas artes e pela cultura. Isso, ao longo do tempo, foi-se desenvolvendo – e o resultado agora é este. E, depois, é a exposição que a gente tem: os nossos amigos, o nosso dia-a-dia e os espaços que frequentamos. Isso contribui para moldar o nosso ser e os nossos gostos também.

 

A propósito dessa exposição às artes, que horizontes O jardim do outro homem (2005), filme de Sol de Carvalho, abriu para si como actor e como homem?

O filme O jardim do outro homem foi uma das maiores experiências da minha vida e foi a porta de entrada para as artes. A partir da produção, entrei no mundo que me era desconhecido, na altura – estava no fim da adolescência, e fui exposto a uma realidade totalmente diferente. Lembro-me que antes estava a estudar na África do Sul, e foi precisamente no ano do meu regresso que participo de um casting e entro para o filme. Daí comecei a conhecer outros actores e a contracenar com actores como Evaristo Abreu e Ana Magaia, decanos do nosso teatro. Foi um aprendizado muito grande. Ao mesmo tempo que interagia com os actores, fui entrando em contacto com toda a componente técnica que tem a ver com a realização e produção. A sétima arte é mesmo a sétima arte, um conjunto de artes que se associa para produzir um filme. Isso contribuiu imenso para que me pudesse inserir neste espaço [artístico]. Dali para frente, pronto, espevitou-se o gosto pela arte e, acima de tudo, por incorporar essas personagens todas.

 

A vida real, para si, é também uma representação de personagens?

Não. Penso que na vida real é importante termos um foco num percurso, com uma personalidade bem definida, e estarmos claros do que são os nossos sonhos. No meu caso, o meu sonho sempre foi fazer Mafalala ou, de alguma forma, contribuir para o cenário cultural da cidade de Maputo. Nisto, há circunstâncias em que a gente não está claro do que quer exactamente, mas há aquele momento em que muda tudo. Vem uma luz que nos desperta para as coisas que realmente queremos fazer. Acho que a partir do momento que comecei a expor-me mais na arte, fiquei mais claro do percurso que queria seguir.

 

Quer continuar a investir na carreira de actor?

Absolutamente. Ultimamente não o faço, porque estou mais por trás das câmaras, a fazer a produção de um festival e a trabalhar para o Museu [Mafalala]. Mas, de alguma forma, estou sempre ligado ao cinema. Há muitas situações em que a IVERCA contribui para que certos filmes aconteçam. Portanto, nunca pus de lado a carreira de actor, é uma questão de oportunidade do momento.

 

O que significa ser artista em Moçambique?

O artista, em qualquer parte, é aquela pessoa que se expressa e com responsabilidade de traduzir um sentimento abrangente de uma sociedade. Há quem diga que os artistas são antenas da sociedade, e, de facto, são. Acho que o artista tem de ser capaz de traduzir aquilo que são os anseios de uma sociedade e ser capaz de produzir um futuro, um sonho e espevitar as pessoas a seguirem determinados sonhos ou ideias.

 

Se, por um lado, o consumo da arte pelo cidadão comum, a nível nacional, não está no nível desejado, o que dizer do consumo da arte pelos próprios artistas?

É uma pergunta um pouco traiçoeira. Eu poderia dizer que temos um percurso artístico bastante rico, como Nação. De certa forma, a arte e a cultura estão presentes no quotidiano do próprio moçambicano. Agora, o entendimento que o moçambicano comum tem sobre o valor que está associado à arte e à cultura, esse é que é o grande ponto. Indo de encontro à pergunta, acho que há um trabalho que deve ser feito no sentido de garantir o maior consumo… acho que a partir do momento em que nós somos os fazedores, assumimos uma posição de consumo da nossa arte. Estamos já a trabalhar na transformação da sociedade para que acha um melhor posicionamento social, económico e até cultural do artista na sociedade. Eu vejo que, nos últimos 10 anos, muita coisa mudou. Muitos dos artistas e fazedores culturais começam a trabalhar em conjunto, com ideia de colectivo.

 

Tenho a percepção que, por exemplo, os escritores/ poetas frequentam muito pouco teatro. Vejo muito pouco os músicos nas exposições de artes plásticas ou os artistas plásticos nos lançamentos de livro. Se concorda comigo, o que explica esta situação?

Já houve momentos em que tinha essa percepção. Quando fazia mais trabalho de actor, sentia mais um vazio no público, quando não via os colegas. O que eu vejo, também, é que há muita solidariedade. Acho que a coisa está equilibrada. Muitas capas dos livros são artistas plásticos que produzem; muitas peças de teatro são inspiradas em livros de escritores; muitos filmes estão a sair de livros e os guiões produzidos por escritores, e vejo muita colaboração na dança. Entretanto, a questão, aqui, é mesmo em termos de público. Nós, os artistas, não temos um público que nos permite viver da nossa arte.

 

Não somos um público suficiente…

Acho que o problema começa exactamente aí. Não somos um público suficiente e, muitas vezes, vamos aos espectáculos e, nós próprios, os artistas, não queremos pagar pela entrada porque o artista que está no palco é nosso amigo ou colaborador. É esta mentalidade que é preciso mudar. Temos de ser nós os primeiros a dar exemplo, pagando bilhete, enchendo a sala, e a dar o apoio necessário ao colega de palco. A partir do momento que isso começar a acontecer, teremos um cenário cultural mais forte e mais sólido, que vai mudar, gradualmente, o paradigma actual. Outro problema, eu, particularmente, conheço mais os artistas de Maputo. Aí há um fosso muito grande, sem saber o que se está a passar na Beira, em Nampula ou aqui próximo: Xai-Xai e Inhambane. Isso também cria um certo distanciamento. Há uma necessidade de fazer pontes com cada uma destas cidades, para que o moçambicano artista saiba como é o público um pouco de todo o país. Estamos muito presos a esta bolha de Maputo.

 

Ou seja, como disse numa entrevista à VOA, é preciso democratizar a arte.

Exactamente. É preciso democratizar a arte, os espaços para a produção artística e garantirmos que haja maior acesso à arte por parte do público de uma maneira geral.

 

E o que dizer das casas culturais, em termos de coordenação?

Temos mais espaços culturais nos últimos 10 anos, sobretudo em Maputo. Nós, como Museu Mafalala, não estamos isolados e interagimos com a produção de eventos. Sinto que é uma prática comum, agora, e acho que tem a ver com a questão geracional. É uma leva nova de agitadores culturais, com uma outra abordagem, uma nova maneira de fazer e de estar. E esses espaços são completamente independentes e aparecem como fruto de um certo empreendedorismo.

 

Além de arte, interessa-se pela reconstrução da história e pela preservação da memória colectiva. Porquê?

Eu tenho formação em Gestão Turística, e isto, de certa forma, acaba criando este casamento entre o actor e a perspectiva do turismo e do negócio, a partir da arte. Quando nós pensamos no desenvolvimento de um destino, nós pensamos essencialmente nas histórias que esse destino conta naquilo que é a representação do espaço. E a Mafalala é um lugar com muitas histórias que hoje são atractivos turísticos. Por isso decidimos trabalhar em narrativas novas, fora do comum, assumindo a cultura e o património como grandes diferenciais. Associado a isso, investindo na memória. Penso que este processo não é exclusivo ao Estado. A memória é o que nos identifica, é o que nos permite saber de onde viemos.

 

A pensar nessa questão da memória, associa-se, em 2006, na publicação do livro Mafalala: memórias e espaços de um lugar

A missão que desenvolvemos na IVERCA é precisamente promover, documentar, pesquisar e dar a conhecer… uma das coisas que nós sentimos, quando começamos com o nosso trabalho, foi que a história está viva e os seus principais actores estão também vivos. Então procuramos perpetuar essas histórias, de modo que os nossos filhos e netos possam as conhecer. Achamos que era importante fazermos um trabalho de documentação dessas narrativas, e essa foi uma oportunidade única, na medida em que olhou para Mafalala como um lugar de memória que se traduz através de várias formas, por exemplo, através da literatura. Esse livro aborda a relação do espaço com a poesia de Craveirinha e Noémia de Sousa, ao mesmo tempo que discute o espaço como um todo, inclusive sobre como Maputo se faz e desenvolve-se. O livro questiona quem são os habitantes de Maputo, o papel que o urbanismo tem naquilo que é o imaginário artístico e como esse imaginário depois se transforma como referência de determinadas épocas e numa utopia que se vai criando sobre as independências e nacionalismos. É um contributo voluntário que a IVERCA faz para o preenchimento desses vazios e fazer com que cada pedaço do puzzle esteja na fotografia.

 

A pensar na história e na memória, a Associação IVERCA, que preside, constrói o Museu Mafalala e organiza o Festival Mafalala. Uma das vossas pretensões é que os moradores do bairro se revejam na instituição. Como isso pode ou está a acontecer?

Temos um amor especial por esse festival e penso que é um exemplo claro de democratização. Quando começamos, em 2010, fizemos três edições do festival. Nessa altura, quando falássemos de turismo na Mafalala, muitos pensavam no projecto com um cepticismo e tinham uma ideia errada da Mafalala, por causa da questão segurança e da pobreza. Pensava-se que não havia atractivos que pudessem levar para lá turistas. O bairro estava dentro de um estereótipo de um lugar perigoso e de degradação social. Nós decidimos responder a esse posicionamento a partir da criação de um evento que mostrasse o lado positivo do bairro. Produzimos um evento que combinasse a música, a gastronomia, a poesia e que, acima de tudo, discutisse com a comunidade a história do bairro, para que os moradores se apropriassem do seu espaço e pudessem contar a sua própria história. Por isso fizemos três edições no primeiro ano. Nos anos subsequentes, fizemos anualmente e decidimos fazer em Novembro por ser o mês da cidade de Maputo – nesse período se realiza também a Copa Mafalala. Hoje o festival é dos eventos importantes da cidade de Maputo, que descongestionou o centro e também leva público de fora do bairro ao evento. Com o festival começamos a ter cada vez mais artistas estrangeiros a actuarem e que vêm com pacotes de colaboração em residências artísticas. O tecido social existente na Mafalala é o bem mais precioso que se tem naquele espaço e se se quebra esse tecido quebra-se muita coisa à volta. Queremos manter uma economia com base na cultura e com base na comunidade. É importante olharmos para estas nuances todas. Vejo Soweto, que se destacou principalmente com a história do ANC e de luta contra Apartheid. Vimos lá um fluxo turístico grande e uma economia que beneficia a comunidade. Com a Mafalala não é diferente. E além de o nosso bairro ter este cunho nacionalista, tem também o desporto, as artes e toda diversidade. São muitos os elementos por explorar.

 

Num artigo intitulado “Devaneio sobre as minhas origens, o Hip-Hop e a ‘nova normal’”, publicado na Mbenga, defende uma maior presença online dos rappers e dos artistas moçambicanos. Estamos fracos nesse sentido?

Sim, estamos muito fracos. É importante termos uma presença online. Hoje em dia, se as pessoas não estão nas redes sociais e não têm uma presença no YouTube, quando colocamos o seu nome  no Google e não aparece, essa pessoa praticamente não existe. Se estamos a discutir um posicionamento na região e no mundo, precisamos de ter isso. Como programador de um festival,  a primeira coisa que me ocorre, quando quero ver o trabalho de um artista, é a Internet. Se eu não vejo qualquer coisa relacionada com esse artista, começo a ter uma certa dúvida na programação desse artista no meu evento. Isso digo eu, do Festival da Mafalala. Imagina se a pessoa quer fazer uma aplicação para África do Sul ou para América e não tem esta presença online? Casos há em que estou a fazer uma programação e peço uma fotografia a um artista, que não me consegue enviar uma foto em condições. Por outro lado, as plataformas digitais, hoje, é negócio. Os artistas que não estão preparados, perdem dinheiro.

 

O Hip-Hop influenciou-lhe culturalmente. Acha que os rappers moçambicanos em actividade, hoje, continuam a honrar o compromisso deste movimento?

Penso que sim. Sem querer ser pretensioso, penso que o RAP moçambicano é o melhor dos PALOP, na sua diversidade e na qualidade dos rappers. O que eu sinto é que há necessidade de o Hip-Hop sair do esquema underground e reclamar o seu espaço.

 

Outra actividade em que está envolvido é o Seminário de Jornalismo Cultural. Sempre com o mesmo propósito?

O Seminário de Jornalismo Cultural veio para trazer a tona que nós, como fazedores da cultura, sentimos em relação ao fraco destaque que temos na imprensa sobre cultura. Por exemplo, na televisão raramente se vê uma grande entrevista a um fazedor da cultura; raramente a cultura é notícia de abertura de um telejornal. Veja os horários em que os programas culturais acontecem, não é num horário nobre. A mesma coisa acontece no jornal. A cultura vai para última página e muitas vezes nem é uma página inteira. Na rádio é o mesmo. Então, achamos importante trazermos o protagonista da cultura para que as pessoas possam discutir o tema e pensar no que significa. Por outro lado, notamos que a cultura era vista como apenas eventos, sem crítica, por exemplo, às exposições. Mais ainda, notamos que a cultura era reduzida às artes. O tema do património cultural, no seu todo, não era abordado e continua não sendo. Nós pretendemos quebrar esse paradigma e trazer uma nova abordagem com tecnologias para difundir mensagens.

 

No mês passado, o Ministério da Cultura e Turismo anunciou que vai apoiar a promoção do roteiro turístico de Mafalala. Além do reconhecimento do vosso trabalho, o que isto significa?Mafalala, já em 2016, tinha sido elevado como destino prioritário da cidade de Maputo, pelo Ministério da Cultura. Entretanto, é sempre motivador receber a visita de uma importante figura como é a Ministra da Cultura e Turismo. Isso simboliza essa aproximação e essa parceria existente entre o nosso trabalho e a importância que o nosso trabalho tem para o país e para o tema da cultura e turismo do país. O que esperamos é que nos próximos anos tenhamos resultados práticos desta aproximação e que o património da Mafalala seja preservado. Essa é das nossas grandes lutas.

 

Nos últimos anos, há um boom de escritores, cantores, actores e etc. Que país prevê artisticamente daqui a 20 anos?

20 anos são poucos, mas as coisas agora acontecem muito rápido. Estamos num bom caminho e temos cada vez mais jovens a assumirem liderança no capítulo da cultura. Isto muda a forma como abordamos a arte, o turismo e a cultura em geral.

 

É aí onde se insere a Othama?

É precisamente dentro desse espírito que a Othama é criada, uma plataforma que junta três festivais (KINANI, AZGO e Mafalala) e que procura criar sinergias entre cada um desses festivais, com as mesmas dificuldades e desafios. A Othama vem para responder a isso, porque juntos somos mais fortes.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Resgate, da Mahla Filmes, e Ninguém matou Suhura, de Lília Momplé.

 

Perfil

Ivan Laranjeira é actor, produtor cultural, guia de turismo e curador. Membro fundador da Associação IVERCA | Turismo, Cultura e Meio Ambiente. É co-autor da obra literária que documenta a história e o surgimento do bairro da Mafalala Mafalala: memórias e espaços de um lugar (Coimbra, 2016). Foi bolseiro da iniciativa presidencial americana para jovens líderes africanos – Mandela Washington Fellowship YALI 2016 – e assistente de locação na produção alemã do filme “Kennedy’s Brain” (2009), baseado num romance de Henning Mankell. Actualmente, é presidente da Associação IVERCA e gere o Museu Mafalala

A segunda edição do Festival de Música Electrónica do Centro Cultural Franco-Moçambicano pretende mostrar e promover o género musical a nível nacional, nas suas mais diversas vertentes. Devido ao contexto actual, desta vez, a edição não será presencial. Assim, as performances serão online, com os ritmos da música de dança de Khataza, percussão eléctrica da dupla Mukhosse, viagem psicadélica do “Likumbi”, com Nandele e Texito Langa, e “Exorcismo” hipnótico de A Million Things.

As actuações irão arrancar às 18h de sábado, com Khataza. Durante 30 minutos, adivinha-se, segundo o Franco-Moçambicano, a demonstração da versatilidade da autora, que poderá exprimir-se de forma hilariante e subtil na maneira de sequenciar a selecção de música que toca.

A seguir a Khataza, entra em cena Mukhose, uma dupla composta por dois jovens moçambicanos, Amilton Nhamgumbe (DJ) e Ivan Massangaie (percussionista), “que interpretam e percutem sobre músicas e canções tradicionais e modernas. Da mesa de DJ se libertam misturas que se fundem com a percussão da mbila e batuques”.

Nandele e Texito Langa apresentam-se a partir das 19h15, durante meia hora, em “Likumbe”, que significa ritual de iniciação da tribo makonde da província de Cabo Delgado, no planalto de Mueda, direccionado a jovens e adolescentes que têm como propósito ensinar o modus vivendi daquela etnia e a compreensão profunda do que são os seus deveres do ponto de vista tribal. “Neste Likumbi musical, Nandele e Texito ingressam numa viagem sonora em busca de um conhecimento mais profundo da sua natureza e origens”, adianta o CCFM.

Às 19h45, será a vez de A Million Things, uma das várias encarnações musicais do compositor, instrumentista e produtor Tiago Correia-Paulo. Assim, o autor regressa ao mundo das apresentações electrónicas, com uma collage de sons e imagens, estilo mixtape ao vivo, durante uma hora de “Exorcismo”.

Segundo a nota de imprensa do CCFM, a ideia do “Exorcismo” surgiu há uns meses, da vontade de expressar algo ligado à frustração associada ao estado do mundo.

As sessões de música electrónica podem ser acompanhadas pelo Facebook e/ou pelo YouTube do Centro Cultura Franco-Moçambicano.

A Linha de Apoio em causa visa promover a tradução e edição de obras escritas em língua portuguesa, por autores portugueses e por autores dos países africanos de língua portuguesa, como são os casos de Moçambique, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Guiné-Bissau e de Timor-Leste, através de apoios financeiros e de bolsas para tradutores.

De acordo com uma nota de imprensa do Camões, “a Linha de Apoio destina-se a editoras estrangeiras e nacionais que apresentem candidaturas para a publicação de obras destinadas aos mercados e públicos no estrangeiro, podendo cada editor submeter mais do que uma candidatura”.

Além de propostas editoriais de iniciativa das editoras, acrescenta a nota do Camões, a Linha de Apoio contempla ainda uma modalidade de ajuda à tradução e edição de obras referenciais da literatura portuguesa, elaborada por uma Comissão Técnica que integra representantes da Direção-Geral do Livro, Arquivos  e das Bibliotecas de Portugal, do Camões, I.P., da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação Internacional de Lusitanistas. Nestes casos, além dos custos de tradução e edição, está prevista a aquisição de exemplares aos editores. Entre as obras referenciais da literatura portuguesa estão Os memoráveis (2014), de Lídia Jorge; Poesia reunida (2009), de Maria Teresa Horta; Ilha de nome santo (1942), de Francisco José Tenreiro; Os flagelados do vento leste (1960), de Manuel Lopes; e Partes de África (1991), de Helder Macedo.

O projecto literário insere-se no protocolo de colaboração celebrado entre o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I. P. e a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) que estabelece os princípios da parceria para a promoção de objectivos comuns de internacionalização da literatura em língua portuguesa.

As informações pormenorizadas para as editoras e editores interessados podem ser encontradas no site do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua.

Maria Atália apresenta, às 18 horas desta terça-feira, uma leitura dramática de Pois é, vizinha, uma história reflecte as relações humanas neste contexto de confinamento.   

 

Um dia desses, vendo televisão, Maria Atália ficou a saber, como muitos telespectadores, que duas mulheres moçambicanas tiveram morte cruel no país. Nesse instante de choque, de repente, a actriz e encenadora começou a pensar no impacto mais profundo do isolamento social no quotidiano das pessoas. Claramente, a artista percebeu que este Estado de Emerência tem activado o lado agressivo de algumas pessoas. Assim, ocorreu a Maria Atália partilhar com o mundo inteiro o seu Pois é, vizinha, cujo texto original é da autoria de Dário Fo e France Rame.

Na verdade, Pois é, vizinha é uma leitura dramática que Maria Atália fará logo às 18 horas desta terça-feira, a partir do Facebook e do YouTube da Fundação Fernando Leite Couto. O que a actriz irá levar ao público, com efeito, é uma história sobre uma mulher chamada (curiosamente) Maria, uma dona trancada à força em casa pelo seu próprio marido, um tipo ordinário quanto possessivo. Violento. Confinada ao espaço exíguo domiciliar, Maria (que não é Atália) é obrigada a suportar o cunhado semi-paralítico e insensato. Por isso, diante de uma situação deprimente, a personagem sente necessidade de partilhar com alguém as suas angústias. Então, aí surge uma vizinha do prédio da frente com quem desabafa.

Ora, a partir do contacto entre quem conta e quem escuta, instaura-se na história uma comédia que introduz as pessoas na reflexão sobre as relações humanas.

Através da leitura dramática, que vai durar entre 35 e 40 minutos, Maria Atália almeja que os que forem a acompanhar a sessão consigam “reflectir sobre as coisas que nos podem livrar da loucura, da agressão e da violência, porque estes são momentos difíceis para todos nós. Devemos pensar mais em nós, e encontrar uma forma, nas nossas casas, de viajar para dentro de nós e daí conquistar a paz necessária para as nossas vidas”.

Assim deve ser porque, na percepção da encenadora, os confinados precisam de uma espécie de tubo de escape, seja na leitura, na música ou na criatividade. Essa é uma das formas de garantir a sobrevivência, “porque tudo o que nós precisamos é de continuar a viver”.

Segundo acredita Maria Atália, Pois é, vizinha é uma história trágica e cómica, simultaneamente, com a qual as pessoas vão identificar-se com alguma coisa. “Ali está a nossa vida, mas recomendo que a leitura dramática seja acompanhada por maiores de 15 anos, pois o texto possui uma linguagem não recomendável às crianças”.

Na adaptação e encenação de Maria Atália, a vizinha retratada pode estar dentro de cada um que vive a história ou pode ser uma entidade realmente existencial. Seja como for, o que a actriz interessa é: “não devemos deixar nada dentro de nós, sobretudo as coisas que nos magoam e podem destruir-nos”. Conselho dado. O resto, só amanhã às 18.

Ontogénesis de Jared Nota venceu o quarto concurso de curta-metragens organizado pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão.

 

Cinco minutos e vinte e um segundos (5:21s) bastaram para que Jared Nota conquistasse o prémio Melhor Curta-Metragem do concurso organizado pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA). O anúncio do vencedor foi feito ontem, à noite, numa sessão online disponível no Facebook do CCMA.

O filme premiado de Jared Nota é intitulado Ontogéneses, uma curta-metragem que se encaixa no que o realizador considera género “Psychological Thriller”, sobre uma fotojornalista que investiga uma empresa acusada de despejar resíduos tóxicos no mar. Para os mais curiosos, o título do filme significa “ciclo da vida” e tenta alertar às pessoas sobre a ideia de que quanto mais se destrói e polui-se o planeta, mais hostil o mesmo se torna, o que, na verdade, é um perigo para a Humanidade.

“A ideia do ciclo da vida, a característica resiliente da natureza, foi base para a história do filme, pois a Khensa, a personagem principal, é uma fotojornalista que jamais desiste. Por isso o filme é um círculo (loop) onde ela investiga, o perigo aparece, o alter-ego dela grita para que ela fuja e salve-se, ela foge, mas a sua consciência sempre atrás para a posição da procura da verdade”, explica Jared Nota.

Logo no princípio do filme, cuja rodagem foi feita à noite, na marginal da cidade de Maputo, pode-se ver Khensa a pedalar uma bicicleta rumo ao local do crime. Receosa, mas igualmente audaz: “Preferi que ela usasse uma bicicleta para mostrar a sua natureza ambientalista, mas também porque as rodas das bicicletas representam a Ontogéneses”.

Nota diz que fez o filme com muito amor e, por isso, espera que as pessoas sintam o que ele sentiu quando o estava a conceber, na sua plenitude, intrinsecamente.

Ora, porque nestas coisas de cinema nada é fácil, Jared Nota assume que fazer o filme
foi relativamente difícil porque, quando o CCMA fez a selecção dos cineastas apurados, “disseram que tínhamos duas semanas, desde a concepção da ideia até à edição. Eu fiz isso nessas duas semanas, mas depois adiaram por mais dois meses. Pedimos emprestado todo o equipamento para filmar porque não temos nenhum”.

Na rodagem, a equipa de Jared Nota teve de investir algumas notas: 5400Mt, para despesas de alimentação e transporte. Até aí, tudo bem, não fosse ter voltado a levar a mão ao bolso para de lá extrair uns 400Mt para subornar dois polícias que os barravam as filmagens, mesmo tendo todos os documentos legais para o efeito, antes do Estado de Emergência. “Mas eu entendi, não se entende cinema, então o que eles viram foi um bando de marginais”.

Para Nota, a confiança do júri significa responsabilidade e que a sua equipa pode fazer um bom filme. “Com esses 30 mil, pelo menos vou parar de tirar do bolso o dinheiro de transporte e de alimentação nos próximos dois ou três filmes. Espero não desapontar e espero que os que não gostaram que o nosso filme ganhasse, esqueçam o ego por um segundo e juntem-se a nós nos próximos filmes”.

A história original de Ontogénesis foi escrita por Jared Nota e por Ivo Mabjaia. O filme teve Omar Faquirá como Produtor-Executivo e Agostinho Guila como produtor. O elenco principal conta com Sara M. Bombi, Peson J. Chaincomo, Paulo Maluleque e Joaquim Fernando.

A melhor curta-metragem do concurso do CCMA foi premiada com 30 mil meticais. O filme segundo classificado, Nkwama (de Gigliola Zacara) fica com 15 mil e o terceiro, Xidzedze (de Wilford Machili) com 10 mil meticais. Nesta edição, a menção honrosa foi para Ivando Maocha, com o filme O quintal.

 

A confusão

Até ao princípio da noite desta quarta-feira, para Gigliola Zacara, o seu filme, Nkwama, o mais votado pelo público, era o vencedor do concurso de curta-metragens do CCMA. Na percepção da actriz, encenadora e realizadora, o vencedor do concurso do CCMA é decidido pelo voto popular e não pelo júri. Segundo entende a artista, Ontogénesis é a melhor direcção do concurso, e não a Melhor Curta-Metragem. Para acabar com a confusão, depois de consultar a nota sobre os distinguidos no Facebook do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, contactamos o júri, Gabriel Mondlane e Tina Kruger, e o Gestor Cultural da instituição organizadora, Féling Capela. Todos eles clarificaram que o filme vencedor desta edição do concurso é Ontogénesis, de Jared Nota. “Não podemos contrariar a decisão do árbitro (o júri). O filme vencedor é Ontogénesis. Agora, se houver qualquer contestação, pode ser exposta por escrito”, disse Féling Capela

Daqui a alguns minutos, precisamente às 18 horas, nas páginas Facebook e Instagram da Fundação Fernando Leite Couto, o actor, bailarino e coreografo, Samuel Nhamatate, apresenta a segunda sessão dos Ateliers de Teatro, performance didático-criativa com o tema “As personagens da minha casa”.

A iniciativa teatral, avança a nota de imprensa sobre o evento, surge como resposta ao contexto da pandemia do coronavírus e pretende contribuir na ampliação de possibilidades artístico/criativas através da valorização e ressignificação do conceito de confinamento ou isolamento social. “Pensamos a casa como um palco simbólico, por isso, sugerimos que o confinamento imposto pelo Covid-19 seja encarado como uma oportunidade criativa, de autoconhecimento, reinvenção do ser, fortalecimento e consolidação do espírito de comunidade”.

Assim, a partir de jogos e exercícios teatrais pretende-se oferecer ao público indutores criativos que contribuam para a transformação deste momento de crise pandémica num momento de criatividade artística, inspiração, fruição, revisitação da memória, exploração da imaginação e das infinitas possibilidades criativas do corpo e da voz.

Hoje a proposta é conhecer as técnicas do trabalho do actor: como se construi uma personagem a partir da técnica da observação e da exploração da memória afectiva? “Na sua performance didático-criativa, o actor Samuel Nhamatate nos propõe um processo imersivo, em que o público acompanha passo a passo a criação de uma cena teatral, tendo como ponto de partida o quotidiano, neste caso a partir da interpretação das personagens da sua casa”.

O Projecto Pandemia Criativa, de acordo a nota de imprensa, donde fazem parte as sessões de Ateliers de teatro e dramaturgias no contexto do coronavírus, resulta do trabalho de pesquisa e reflexões académicas de Venâncio Calisto, no âmbito do seu mestrado em Teatro – especialização em Teatro e Comunidade, na Escola Superior de Teatro e Cinema, Instituto Politécnico de Lisboa e tem a intencionalidade de através do sensível contribuir para o fortalecimento interior das comunidades moçambicanas nestes tempos de prevenção e cuidado.

Em breve, irá estrear a série radiofónica “Você pode salvar uma vida”, uma parceria de um grupo de artistas moçambicanos que pretende contribuir  na disseminação de informação útil para a prevenção contra a COVID-19.

A série radiofónica,  de autoria do escritor Aurélio Furdela, sob direcção de actores do encenador  Abdil Juma,  será radiodifundida na antena nacional rádio pública, “trazendo a público personagens inspiradas no quotidiano moçambicano, no qual o autor do script explora  conflitos comportamentais, com alguns cidadãos marcados pela resistência à adopção de medidas de prevenção, em contraposição  a atitude  dos que são exemplares no acautelamento das regras de convivência em tempos da  pandemia do Coronavírus”, lê-se no comunicado.

O elenco da série conta com oito actores: Ana Magaia, Pedrito Sitoi, Horácio Mazuze, Eduardo Quive,  Arlete Guilhermina, Esperança Naiene, Nasma Bin e Abdil Juma. De acordo com Aurélio Furdela, citado no comunicado, “em cada episódio, num total de oito, narra uma nova história em torno da Covid-19. Nosso foco foi explorar situações como a necessidade do uso da máscara, do isolamento social, em volta algumas paixões amorosas que  conduzem a tentações de interacção física entre indivíduos em situação de risco. Acredito que a série vai chamar a atenção do público, pois para além de educar, oferece o entretenimento, ressaltando aqui situações de humor que muito bem faz sentido nesses dias de grande apreensão, mas que requerem sempre a alguma diversão e esperança, para quem deve ficar de casa”.

A trilha sonora vem da colaboração de Roberto Chitsondzo, com uma música que empresta o título a série, “Você pode salvar uma vida”.

Para a veterana do teatro moçambicano, a actriz Ana Magaia, avança a nota, “com esta série esperamos captar a atenção do cidadão, através da arte, divulgando massivamente mensagens úteis, numa linguagem simples, com a qual a população se identifica. Entendo que a luta contra este mal, assim também chegará com necessária eficácia”.

De acordo com Abdil Juma, director de actores da série, “o maior desafio para a concretização da série em rádio foi a necessidade de obedecer as medidas de distanciamento social. “Por isso tivemos que recorrer a actores com notável experiência em produções de rádio, pois assim podemos contornar os ensaios. Quanto às gravações, evitamos a partilha de microfones, com dois actores de vez a gravarem a uma distância de quase três metros”.

 

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