O País – A verdade como notícia

O realizador do filme Avó Dezanove e o segredo do soviético acredita que se a sociedade souber lidar com a prevenção da COVID-19, o actual cenário de crise será ultrapassado com sucesso. Entretanto, ainda assim, filmar para a sétima arte será mais difícil, devido a aspectos relacionados com a segurança e com a logística em geral.

 

O cinema foi sempre uma arte exigente em termos de investimento. Com a nova conjuntura internacional, entretanto, filmar na rua será uma actividade acompanhada de muitos desafios. Inevitavelmente, segundo entende João Ribeiro, será ainda mais caro produzir filmes, “porque nós, os cineastas, temos um custo adicional com transportes que agora têm de ser limpos de maneira diferente”. Quer isto dizer que as produtoras cinematográficas terão de apostar mais na higiene, o que, sublinha o realizador, poderá impactar negativamente na pontualidade durante as filmagens. “Precisaremos de mais tempo para desinfectar as equipas e os materiais antes de entrarem no estúdio. Levaremos mais tempo nesta organização e, se tempo é dinheiro, claro que tudo isto terá as suas implicações”.

Num contexto em que a normalidade está além do horizonte, tal como a sociedade inteira, o cineasta tem de se adaptar. “Teremos de passar por cima de tudo isto, para que as produções e os filmes continuem. Claro, a forma de produzir terá de ser mais segura e com mais controlo. E é isso que vai implicar um custo adicional para o cinema. Mas creio que mais tarde ou mais cedo isto vai se recompor. Obviamente que há este momento de travagem e do impacto. Depois, temos de absorver, analisar e arranjar as saídas, que, algumas, já estão a ser aplicadas”.

Em termos financeiros, João Ribeiro afirma que os cineastas já se ressentem da crise sanitária desde que dura o Estado de Emergência no país, porque muitas empresas viraram a sua comunicação para materiais editados em pós-produção. Aliado a isso, o impacto da COVID-19 nestes quatro meses se faz sentir porque os cinemas e outros locais de entretenimento foram encerrados. Ainda assim, Ribeiro enxerga algo bom no meio do caos: “a COVID-19 trouxe-nos uma mudança em termos de modus operandi e na percepção. Com a pandemia ficaram expostas as nossas fraquezas e as nossas incapacidades de lidar com o problema. Isto veio expor a fragilidade do sistema, inclusive na área do audiovisual. Por outro lado, isto quebrou alguns dogmas. Hoje vimos as televisões a aceitarem materiais em outros formatos, coisa que não víamos antigamente. Agora vimos pessoas a falarem pelo Skype, a enviarem vídeos, a utilizarem as plataformas digitais para comunicar com o grande público. Antes, isto não era muito bem aceite, porque as pessoas viam como forma de comunicação de menor qualidade”.

A abertura das televisões em relação a materiais externos, considera o realizador, proporciona novas oportunidades que devem ser exploradas para o futuro, porque as plataformas digitais aproximaram países e pessoas que, de outra maneira, não teriam como se contactar, o que ajuda a melhorar e a transformar a comunicação.

 

Avó Dezanove e o segredo do soviético

Há cinco meses, Avó Dezanove e o segredo do soviético teve a sua estreia internacional no Pan African Film Festival, em Los Angeles, Califórnia, nos Estados Unidos de América. Semanas depois, o Cine Scala, em Maputo, foi o espaço que acolheu a estreia nacional da segunda longa-metragem de João Ribeiro. Até aí, tudo corria de feição, segundo os planos programados para a exibição do filme. Porém, num ápice, o mundo mudou e as salas de cinema foram encerradas ao público. De lá a esta parte, todo um plano de levar o filme rodado em Maputo, em 2018, foi suspenso. A suspensão é deveras constrangedora porque, quando o filme saiu, houve uma comunicação que foi feita e que agora não pode prosseguir. “Assim, temos de voltar atrás e repensar a comunicação, o que tem os seus custos e traz os seus problemas na própria vida do filme”.

Não fosse a nova ordem, a longa-metragem de João Ribeiro seria exibida em alguns festivais que foram cancelados. Isso causa perda de dinheiro para o filme? O realizador explica: “Avó Dezanove não é um filme para ganhar dinheiro. Eu faço cinema do autor, aquele cujo objectivo é que a maior parte das pessoas veja. Avó Dezanove é um filme para um determinado ciclo de funcionamento. Vai para sala do cinema, mas depois faz a sua vida em outra área. E nem sempre traz uma receita ligada à exploração, daí que nós fazemos este tipo de filmes com fundos que nos são cedidos a título perdido. O objectivo é fazer uma obra que atinja o público”. Então, neste caso, o problema não é a receita, mas a impossibilidade de poder ser exibido: “Por exemplo, a esta altura, eu gostaria de estar a exibir o filme nas escolas onde estudam as crianças que fizeram parte do elenco de actores. Queria devolver este trabalho a eles e sentar-me com as crianças do país inteiro. Tudo isso, infelizmente, está parado”.

O Camões – Centro Cultural Português em Maputo irá reabrir a sua biblioteca no dia 3 de Agosto, respeitando todas as medidas adequadas de higiene e segurança.

A reabertura de uma das bibliotecas mais procuradas na cidade de Maputo acontece depois da suspensão temporária do serviço de atendimento ao público devido às medidas de prevenção da COVID-19.

A biblioteca do Camões foi criada em 1989 e possui, actualmente, um acervo com cerca de 20 mil títulos de todas as áreas do conhecimento, com especial destaque para as literaturas em língua portuguesa, Direito e Gestão. “Neste espaço está ainda disponível para consulta o ‘Núcleo de Artes’, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, especialmente vocacionado para as artes visuais, arquitectura e design, dispondo de um acervo específico para o estudo e investigação nos domínios da produção artística e da história da arte africana. A sala dispõe de um serviço de internet gratuito e computadores para consulta de ficheiros online. Recentemente foram realizadas obras de requalificação que permitiram melhorar as condições físicas da sala de leitura, tornar o acervo visível aos leitores e implementar o acesso às obras através de um catálogo dos títulos disponíveis que pode ser consultado online”, lê-se na nota de imprensa do Camões .

A biblioteca estará aberta entre 9h e 17h, mediante o número de lugares disponíveis na sala de leitura. O acesso e o serviço de empréstimo domiciliário são gratuitos (1 obra de cada vez).

“As medidas referidas no presente comunicado serão avaliadas em permanência e mantidas enquanto se considerar ser prudente ao nível de saúde pública. Informaremos devidamente o nosso público se existirem alterações às referidas neste comunicado”, avança ainda a nota do Camões sobre a reabertura da biblioteca.

Uma das frases sugestivas de Yuck Miranda, nesta entrevista, é a seguinte: “Cada ser humano é uma história”. De facto, há aí (muita) verdade. E, por isso mesmo, o artista faz das suas histórias e das pessoas ao seu redor algo importante para ser partilhado no palco. Num contexto em que, no país, segundo entende o actor, ainda é um bocado complexa a interdisciplinaridade artística, Por detrás das câmaras, programa de trocas de experiências com artistas (e não artistas) que vai estrear sexta-feira nas plataformas online do 16Neto, é a sua nova aposta. Mais adiante, Yuck Miranda fala também de outros trabalhos seus, sempre ligados a essa infinita necessidade de contar histórias, porque aí se perpetua uma certa eternidade.

 

Comecemos com Transform. Esta é uma peça que inclui no seu interesse criativo os mais novos, certo?

Sim. Transform é uma peça que surge em Cape Town, numa residência artística, em 2018, e foi dirigida por duas directoras: uma sul-africana e outra alemã. Foi um processo super interessante porque é teatro físico feito para crianças das primeiras idades. Uma das coisas que Transform traz é o ensinamento para as crianças de que a vida é uma constante transformação. Tudo está a transformar-se, tudo é vivido numa lei da impermanência. Então, é uma peça com conteúdo muito belo, porque traz um sentido da vida.

 

E de colectividade também…

Claro. E é interessante porque a peça conta com Jessica Lejowa, do Botswana, e aí tivemos de criar uma musicalidade tswana e, talvez, makhuwa de Buanamada Amade, e chopechangana das minhas tradições.

 

É muito África Austral essa peça: Moçambique, África do Sul e Botswana. Foi tudo propositado?

É. E tivemos, nessa residência, contacto com duas actrizes do Uganda, e elas trouxeram uma outra musicalidade e outro ritmo. Foi interessante conversar e ter algumas discussões sobre a nossa cultura e sobre as nossas tradições.

 

Como é isto de criar dois textos: um, que pode ser dito, com ritmo e musicalidade; e outro simplesmente mudo?

Neste processo em específico, uma das coisas que aprendemos ao criarmos a performance foi que as crianças não comunicam com a fala ou com o texto falado muito bem articulado. Comunicam com o corpo, com as expressões e com a música.

 

E as emoções?

Passavam por ser, naquele momento da peça, uma criança. Voltarmos às nossas crianças interiores para conectarmos com outras crianças.

 

Quando está em palco, e nele inclui materiais vegetais, pretende introduzir as crianças para um cuidado ecológico?

Sim. Porque, parecendo que não, as crianças são muito conscientes, já vêm ao mundo empoderadas das questões da natureza, porque estão em contacto com a natureza. É interessante a partir de materiais que a gente habitualmente não usa em palco criar uma performance. Isso originou um outro projecto, que foi feito em Nampula, o Lixo Arte. A partir do lixo à volta da Ilha de Moçambique, criamos uma peça.

 

Porquê na Ilha de Moçambique?

Porque há muitas coisas a acontecerem em Maputo. Quando se pensa nas artes, é Maputo. Eu quis descobrir outros sons, outras musicalidades, outros ritmos e outros Moçambique. Foi interessante por ter sido a minha primeira vez lá.

 

Portanto, o Lixo Arte é uma espécie de chamada de atenção para um cuidado com o corpo da natureza?

A ideia que quis trazer é a de que a relação com o lixo já não é de repugnância. Se eu criei este lixo, eu posso cuidar e transforma-lo em outra coisa. Só para dar um exemplo, na Ilha [de Moçambique] há galerias, há obras que são feitas com panelas velhas. As crianças não se davam conta disso. Depois de verem a peça, houve uma consciência e uma formação de um público na maneira de olhar para as artes.

 

E o Karingana wa Karingana também encaixa-se nesse interesse de despertar consciências, através de histórias?

Este é um projecto que me interessa muito, porque nós viemos de uma cultura da oralidade, que se vai transformando com o tempo. Acho que há um sentido de se preservar essa oralidade. E o Karingana wa Karingana traz essa ideia da consciencialização da oralidade moçambicana e, talvez, africana. Quando o projecto começou, eu peguei nas histórias que a minha avó e bisavó me contavam, aos cinco ou seis anos. Não me esqueço que neste processo de criação, depois de me contarem histórias às metades, eu pedia mais. Uma delas dizia-me que eu as continuasse da minha maneira. Estas histórias folclóricas transcendem fronteiras, porque nós já nem sabemos de onde vêm. Será que são nossas? Será que não são dos indianos ou dos portugueses que andaram aqui?  Será que não são histórias do Botswana ou da África do Sul?

 

Os seus projectos de palco são formas de continuar com as histórias que lhe foram contadas pelas suas avós?

Não sei se é dar continuidade… Acho que ao vivermos escrevemos histórias. Certas, erradas, incompletas, escrevemos histórias. Cada ser humano é uma história. Não interessa se deixou um legado ou não, se terminou ou não, se foi poético, terror ou horror ou não, não importa. O que importa é que há pessoas e há histórias.

 

E importa que as histórias influenciem atitudes?

Importa que provoquem. Podem influenciar ou não. A influência é uma questão orgânica. Acho que qualquer história provoca alguma coisa.

 

E uma das suas novas histórias é Por detrás das máscaras, que terá espaço no 16Neto.

Sim. O 16Neto fez-me o convite de apresentar o programa Por detrás das máscaras, que vai trazer sempre três convidados do meio artístico, artistas ou não artistas, para esmiuçar um monte de conteúdos que vêm a tona: as sensações, os pensamentos e as problemáticas dos artistas. Será uma conversa de artista para artista que vai desmistificar coisas que muita gente não sabe, não tem noção, e sobre esta coisa de arte dar ou não dinheiro. Lembro-me que ano passado estive em Paris, e um amigo meu, moçambicano que vive na Itália, perguntou-me: “levas a Paris aquelas tuas coisas de teatro”…

 

Aquelas tuas coisas…

É, e a ideia com Por detrás das máscaras é desmistificar se são “aquelas minhas coisas de teatro” ou se é um trabalho como qualquer outro. O projecto vai estrear próxima sexta-feira, com três convidados de gerações diferentes, com disciplinas artísticas completamente diferentes e com histórias completamente diferentes. Em cada programa há um tema a ser discutido por três convidados, que também vão conversar sobre se os artistas conhecem ou não trabalhos uns dos outros.

 

E conhecem?

Acredito que sim. Ainda há uma tendência de os músicos ficarem na música, de os actores ficarem no teatro e de os cineastas ficarem no cinema. Ainda é um bocado complexa esta interdisciplinaridade artística. Mas acredito que já começa a acontecer. As artes nunca estiveram separadas e hoje reparo que há muita gente consciente da necessidade de voltarmos a esse lar artístico, a esse encontro ou reencontro. Portanto, Por detrás das máscaras será uma série de programas gravados e disponibilizados pela internet, no canal do 16Neto, e foi financiado pela Embaixada da Suíça, que financia toda a estrutura do 16Neto. O programa terá em média entre 20 e 30 minutos. É um programa com um conceito completamente diferente.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro que escutem Lenna Bahule, Mingas, Elvira Viegas, Zaida Lhongo e Fany Mpfumo.

 

PERFIL

Yuck Miranda é um actor e performer com 10 anos de experiência em teatro, actuando também na música e na dança. O artista tem realizado performances com recurso à sua expressão corporal para criar trabalhos focados na defesa de crianças, LGBTQ + e igualdade de gênero. Desde 2010, trabalha com companhias de teatro do país e participou em algumas experiências internacionais. Por exemplo, participou no Transform Tour 2019 (Kigali, Ruanda; Cidade do Cabo e Joanesburgo, África do Sul; e Harare, Zimbabwe) e no ASSITEJ 2019 Norway, Gathering Festival. Em Paris (França), Yuck Miranda desenvolveu a fase de pesquisa do seu projecto vitalício: “Identidades não identificáveis”, focado em narrativas de membros LGBTQ + em diferentes países.

 

Curta-metragem de Ivo Mabjaia tem 13 minutos e 30 segundos de duração e conta a história de mulheres violadas.

 

Dentro de duas semanas, o grupo de cineastas Afrocinemakers vai estrear o filme A mensagem, dirigido por Ivo Mabjaia. A curta-metragem rodada em dois dias é a história de um grupo de mulheres, vítimas de violações, que se junta para encontrar soluções de como lidar com o trauma. Entre as personagens, estão as que se preocupam em sarar as feridas criadas pelos homens e as que almejam apenas vingança.

Baseado em factos reais, A mensagem é um filme em que as personagens femininas dizem às masculinas que, se continuarem com violações, vão matar a todos homens. A curta-metragem traz, para Ivo Mabjaia, uma mensagem clara: “a nossa ideia é consciencializar as pessoas, para que reflictam sobre o problema do estupro, de modo que se saiba o que se deve fazer sempre que isto acontecer com alguém. Temos de encontrar as melhores medidas para lidar com isto porque é um problema muito sério”.

Segundo entende o realizador, os homens em geral devem estar mais conscientes sobre o problema que a violência e a violação está a criar nas mulheres e na sociedade. “As mulheres têm um papel grande nesta luta, mas acho que quem deveria ter maior papel são os homens”.

A produção do filme exigiu de Mabjaia muita pesquisa. O realizador teve, igualmente, de conversar com muitas mulheres violadas, as quais, algumas, entraram para o filme. Nesse sentido, o artista teve de ser paciente ao ouvir e ao conquistar a simpatia das actrizes seleccionadas.

O filme contou com 18 actores, entre eles Fleur du Desert, Alima Haggy, Paulo Timbrine, Joaquim Fernando, Shanaya Percella e Camila Lemos. Para as duas últimas, A mensagem é uma curta inspiradora. “Acho que, na vida real, as pessoas deveriam lutar contra o estupro, de modo que isto pare. O problema é que as pessoas calam, porque temem represálias. Penso que as mulheres devem denunciar sempre esses actos”, acrescentou a actriz, explicando por que se identificou com a curta: “Identifiquei-me com o filme porque já fui muito tentada, sofri assédios até de mulheres. Senti na pele a personagem que encarnei, e até chorei, quando li o guião. Sinto que também fui vítima do que representei”.

Como acontece com Shanaya Percella, Camila Lopes acredita que o filme pode contribuir para a mudança de mentalidades. “O filme retrata mágoas, raivas e traumas por que as mulheres estupradas por pais, tios e etc. passam. Na minha opinião, a transmissão de valores morais e éticos de mães para filhos (homens) é determinante. Claro, mas tudo isto depende da mentalidade de cada um. Para mim, este é um filme para humanidade”.

A mensagem é um filme produzido por Omar Faquirá, pela produtora Afrocinemakers, um grupo jovem no domínio cinematográfico (fotografia, filmagem, consultoria audiovisual), cujo portfólio é constituído por 10 curta-metragens, cinco vídeo-clipes e duas mini-séries.

A produtora só não tem data certa para estrear o filme porque ainda está a negociar os direitos com algumas instituições, incluindo televisões.

 

O realizador

Ivo Alfredo Combane Mabjaia nasceu a 12 de Junho de 1995, em Maputo. Trabalha como facilitador, técnico impressor e designer gráfico. Cresceu no bairro da Mafalala, e leciona aulas particulares de Inglês para estrangeiros. Em 2017, aventura-se no cinema, tornando-se co-fundador da empresa Afrocinemakers, na qual dirigiu duas curta-metragens: Jéssica e A Mensagem. Colaborou com Jared Nota na produção do filme Ontogénesis, vencedor do concurso de curta-metragens do CCMA, na edição deste ano.

Do distrito de Lugela para o país inteiro, o músico Irmão Mbalua tem mais de 30 músicas gravadas e com três álbuns. Hoje, através da sua música intitulada “Culpado”, é sucesso nacional.

O famoso Músico Mbalua, detentor do hit culpado que está a fazer muito sucesso nas redes sociais, ao nível nacional e na diáspora poderá ganhar a regravação e um novo vídeo-clip com qualidade necessária da música intitulada “Culpado”. A garantia neste sentido é do Director Provincial da Cultura e Turismo da província da Zambézia, Ali Aboobacar.

O dirigente explicou que Mbalua é orgulho nacional, por isso que “a música intitulada ‘Culpado’, deve ter a qualidade necessária para que chegue em muito mais lugares do país e do mundo”.

Natural e residente no distrito de Lugela, o músico Mbalua é sinônimo de luta e perseverança. Casado e pai de três filhos, professor, disse ao nosso jornal que a música foi gravada em 2006. Mas viria a regravar a mesma em 2016. Catorze anos depois a música tornou sucesso. “Pessoalmente não contava com tudo que está a acontecer, mas Deus é bom, e por causa disso hoje a minha música é conhecida. Estou muito feliz”, disse o músico visivelmente emocionado.

Mbalua contou que o seu género musical é gospel, mas devido à situação de mau trato da mulher nas comunidades de Lugela, decidiu abraçar o género pouco mais comercial, para fazer valer e ouvir a sua voz. “Retratei a mulher porque nas comunidades do meu distrito, a mulher que devia ser muito bem valorizada, algumas vezes é desprezada. Por isso faço esta intervenção social, justamente para investirmos nas nossas mulheres, porque elas merecem”.

Eu sou humilde e gostaria que a minha carreira fosse igual a dos outros músicos que fazem bastante sucesso ao nível nacional e internacional.

Este Domingo, Mbalua esteve ao vivo em Quelimane, onde através das redes sociais cantou e encantou.

 

O Vice-Ministro da Cultura e Turismo, Fredson Bacar, visitou, ontem, a Galeria Kulungwana, a Galeria 1834, o Museu Nacional da Moeda e a Fortaleza de Maputo.
A visita faz parte de uma agenda laboral, no âmbito da reabertura dos museus e galerias, face ao relaxamento de algumas medidas de Estado de Emergência, anunciadas pelo Chefe de Estado, Filipe Nyusi.

No contacto com os museus e galerias, Fredson Bacar percebeu de perto os desafios da realidade actual e como está a ser encarado a convivência com o “novo normal”, ou seja, continuar a realizar as actividades que já vinham acontecendo, observando contudo as medidas de protecção face à pandemia da COVID-19.

Na Galeria Kulungwana, o Vice-Ministro, acompanhado pelo Director Nacional Adjunto das Indústrias Culturais e Criativas, Fernando Fanheiro, visitou a exposição Colecção Crescente 2020, “Forças da natureza”, que junta obras de 101 artistas e que também está disponível nas plataformas online.

Na sua interacção com a colaboradora da Kulungwana, Maria Elisa, Fredson Bacar referiu que a COVID-19 obriga a repensar na forma de estar e de fazer as coisas, e nisto fica claro que não há sociedade que se desenvolve sem cultura e que há uma ligação intrínseca entre a cultura e o desenvolvimento. “No novo normal, as tecnologias de informação e comunicação emergem como principais ferramentas para o trabalho a ser feito, na divulgação, exposição e venda. O novo normal será a nova forma de estar”.

Já na Galeria 1834, o Vice-Ministro visitou, além das instalações, a exposição patente, e maravilhou-se com o que viu, sobretudo com a diversidade de obras de escultura (à base de material bélico desactivado), desenho e pintura.

O Vice-Ministro incentivou a Galeria 1834 a criar projectos que envolvam jovens artistas de todas as províncias. Na ocasião, Gonçalo Mabunda e o seu principal parceiro, Mauro Pinto, foram unânimes ao afirmar que a Galeria está focada no envolvimento de jovens, sendo um espaço dedicado principalmente a artistas emergentes.

O governante elucidou os artistas presentes na Galeria sobre a necessidade de fazerem o registo das suas obras para legitimidade e segurança, devendo, para o efeito, recorrerem ao Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas – INICC.

De uma forma geral, Bacar vincou a ideia das galerias conceberem exposições e criarem projectos direccionados a crianças para cultivar o gosto pelas artes na tenra idade. Por outro lado, salientou a necessidade de se expor obras nas diferentes províncias do país, através da realização de workshops para partilha ou troca de experiências.

Já no Museu da Moeda, o Vice-Ministro foi recebido pela Directora dos Serviços Culturais da UEM, Alda Costa, e o pelo Director do Museu, Jorge Anselmo.

Alda Costa falou das dificuldades que o Museu enfrenta, que se prendem com restauração do mesmo e também com a falta de visitantes. Nesta linha de pensamento, Fredson Bacar explicou a necessidade de se unir esforços e encontrar-se soluções conjuntas a nível das instituições responsáveis (MICULTUR, UEM, Município de Maputo e outros intervenientes). Também incentivou o Museu a aderir às plataformas digitais (Facebook, Instagram, Website) para atrair atenção de visitantes.

A visita estendeu-se à Fortaleza de Maputo, local que tem estado a registar um número considerável de visitantes, nesta fase de reabertura ao público.

Fonte: Ministério da Cultura e Turismo

 

A editora moçambicana selou um acordo que vai permitir a distribuição de livros através das plataformas digitais do African Books Collective (ABC). Para Sandra Tamele, da Trinta Zero Nove, a parceria em causa permite fazer chegar os livros aos leitores de forma rápida e eficaz.

 

A 27 de Julho do ano passado, a poetisa (ou poeta) sul-africana, Danai Mupotsa, acompanhada pela sua editora, Vangile Gantsho, estiveram em Maputo para participar no Festival Poetas d’Alma. Naquela data, mal suponham que poderiam ser tão valiosas para a recém-fundada Trinta Zero Nove. Então, na capital do país, a autora de Feeling and ugly negociou com Sandra Tamele os direitos de tradução da sua obra de poesia para a língua portuguesa. Assim, a editora moçambicana ganhou um novo título: Feeling e feio. Mas não foi só isso.

Durante a conversa entre Danai Mupotsa, Vangile Gantsho e Sandra Tamele, as sul-africanas apresentaram, à distância, a Tradutora e Intérprete moçambicana a Justin Cox, que se encontrava na Nova Zelândia. Não tardou. O director do African Books Collective (ABC) manifestou o interesse em colaborar com a Trinta Zero Nove. Assim, ambas as instituições assinaram um contrato, que permite à editora nacional, desde segunda-feira, vender os seus títulos através do website do ABC, além de outras plataformas digitais, desde a Oceânia ao Brasil, passando pelo Reino Unido e Estados Unidos. Por isso, a satisfação tem mesmo de ser enorme: “Foi com imenso prazer que ouvimos de Justin Cox, o Director do colectivo, que somos a primeira editora dos PALOP a aderir ao colectivo e os nossos audiolivros são os primeiros na plataforma”.

O contrato com ABC torna possível à Trinta Zero Nove disponibilizar livros electrónicos e impressos aos leitores de forma rápida e eficaz. “Estamos a conseguir levar as nossas traduções para todo mundo que fala português, fugindo das fronteiras moçambicanas e dos PALOP. O nosso lema, ‘damos voz às estórias’, ganha força com a parceria com ABC”, afirmou Sandra Tamele, lembrando que a sua editora publica traduções de fora e de dentro do país. Por exemplo, em breve, um título de Hélder Faife, traduzido do português para o inglês, será disponibilizado aos leitores através do African Books Collective.

A Trinta Zero Nove existe há dois anos. De lá a esta parte, já traduziu para português cinco autores cujos livros não estavam disponíveis numa outra língua que não fosse inglês ou francês. “Pela primeira vez, Moçambique está a mostrar que uma pequena editora, como a nossa, pode trazer livros traduzidos de outras partes do mundo para os leitores nacionais a um preço reduzido, inferior a 400 meticais, o que é melhor do que importar de Portugal ou do Brasil”.

No que diz respeito à linha editorial, interessa à Trinta Zero Nove traduzir autores cujos livros abordam questões sobre as minorias, que levantam questões relevantes.

O African Books Collective (ABC) é uma instituição sem fins lucrativos, fundado por editores africanos para distribuição de literaturas africanas pelo mundo. A instituição trabalha em POD (print-on-demand) e entrega imediatamente os livros do seu catálogo em formato impresso para qualquer país.

 

Concurso de tradução literária

Desde a semana passada, estão disponíveis inscrições para a sexta edição do Concurso de Tradução Literária, agora com o selo Menção Honrosa da Feira do Livro de Londres. Este ano, a novidade é que os contos a traduzir, para as línguas portuguesa e/ou bantu (cisenaxichangana e emakhuwa) faladas no país, são de autoras africanas dos vizinhos de Moçambique. As obras elegíveis para traduzir nesta sexta edição são: Involution, de Stacy Hardy (África do Sul); Le détonateur, de Mampianina Randria (Madagáscar); Maintenance check, de Alinafe Malonje (Malawi); My mother’s project, de Lydia Kasese (Tanzânia); Door of no return, de Natasha Omokhodion (Zâmbia) e The tale of two sisters, de Tariro Ndoro (Zimbabwe). “Vamos traduzir as nossas vizinhas para as nossas línguas”, gracejou Sandra Tamele.

No concurso podem inscrever-se qualquer pessoa que não tenha nenhuma tradução publicada, sem critérios em termos de idade ou escolaridade. A candidatura é gratuita e pode ser submetida até 22 do próximo mês, através do correio electrónico (concursoitd@smtraducoes-moz.com). Já o prazo para submissão das propostas de tradução é 31 de Agosto. Um mês depois, concretamente no dia da Tradução, 30 de Setembro, os vencedores serão anunciados. Nessa altura, deverá ser publicada a segunda colectânea com os textos traduzidos pelos vencedores da edição 2019, intitulada Redentor do mundo.

De igual modo, os vencedores da sexta edição do concurso de tradução serão publicados em livro e audiolivro pela Trinta Zero Nove  na 3ª colectânea do concurso a 30 de Setembro do próximo ano

A partir do dia 31, a galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA) irá expor RICARDO RANGEL: Homenagem a mulher moçambicana.

A mostra que estará patente naquele Centro, na cidade de Maputo, até 31 de Agosto é composta por 22 fotografias a preto & branco, sobre a mulher moçambicana vista por Ricardo Rangel.

De acordo com uma nota sobre  o evento, as imagens fazem parte de um espólio estimado em mais de 31 mil fotografias, entre as quais, 12 mil captadas no tempo colonial e 19 mil do pós-independência. O acervo do fotojornalista está depositado no CDFF, considerado um dos maiores arquivos de fotografia em Africa.

A mostra RICARDO RANGEL: Homenagem a mulher moçambicana pretende revisitar, segundo a mesma nota de imprensa, a câmara escura com a qual Ricardo Rangel trabalhou durante vários anos, bem como contribuir para a preservação da sua obra.

Sobre a exposição, Paulina Chiziane, citada no comunicado de imprensa, escreveu: “A robustez de um país reside na força das suas mulheres. As fotografias que agora se expõem, são prova disso: aos olhos de Rangel, a mulher é a pedra basilar na edificação da vida. Ele soube trazer à memória colectiva, a imagem das mulheres moçambicanas nas linhas do tempo: as batalhas ganhas e perdidas, a repressão sofrida, a resistência e a vitória”.

A exposição é organizada pela Embaixada da Alemanha em Moçambique, em parceria com o Centro Cultural Moçambicano-Alemão e o Centro de Documentação e Formação Fotográfica.

A inauguração da exposição será transmitida na página oficial Facebook do CCMA e da Embaixada da Alemanha em Moçambique, às 15:30 do dia 31, e as visitas presenciais podem ser agendadas, obedecendo todas as normas de prevenção definidas pela Organização Mundial da Saúde e pelo Governo da República de Moçambique, avança a nota de imprensa sobre o evento.

Ana Magaia e Cheny Wa Gune apresentam leitura dramatizada com música às 18h30 de sexta-feia, no Facebook e YouTube do Centro Cultural Franco-Moçambicano.

 

Quando em Junho de 2015 o Grupo SOICO homenageou Paulina Chiziane, pelos 25 anos de carreira literária e 60 de vida, Ana Magaia e Cheny Wa Gune não imaginaram que o texto Quando o mundo virar pudesse ser tão actual cinco anos depois. Na cerimónia concorrida, realizada no Centro Cultural Universitário da UEM, a actriz e o músico estiveram com os Timbila Muzimba e a apresentação não poderia ter sido tão… arrepiante.

Agora, eis que um bichinho invisível a olho nu chega para pôr em causa a existência humana, quase como repto ao texto Quando o mundo virar, original de Paulina Chiziane com adaptação, dramaturgia e interpretação de Ana Magaia e com música de Cheny Wa Gune. Diante da actual situação, os dois artistas resolveram recuperar aquela narrativa tão cheia de histórias, para a apresentar através do Facebook e do YouTube do Centro Cultural Franco-Moçambicano. A “estreia” dessa nova leitura dramatizada vai acontecer esta sexta-feira, às 18h30, e, durante meia hora, vai levar ao público uma proposta de reflexão sobre vários aspectos atinentes à maneira como o Homem maltrata o planeta terra.

Ao contrário da apresentação feita há cinco anos, a versão de Quando o mundo virar a ser exibida pelo Franco-Moçambicano foi filmada em estúdio, e, quer a musicalidade, quer a dramaturgia, obviamente, foram melhoradas. A peça, garante Cheny Wa Gune, vai despertar emoções, sensações e reações simultâneas nos que forem a ver, com momentos de pausa e de avanço. “Este texto que se enquadra bem neste período de pandemia, ao remeter-nos a uma reflexão profunda sobre como devemos nos reinventar, demonstra-nos como podemos levar o mundo a bom porto”.

Também por isso, Cheny Wa Gune acredita que o público vai conseguir embarcar numa viagem proposta por Paulina Chiziane, e, agora, tendo ele e Ana Magaia como cicerones. “Esta peça servirá de ingrediente para aquecer os corações das pessoas e dar-lhes uma luz de esperança, ou seja, Liwoningo.

De acordo com o músico, a interdisciplinaridade da peça que envolve literatura, teatro e música quer dizer alguma coisa: que as artes nunca se separaram, andam sempre em paralelo. Com um trabalho tão plural, afirma Cheny, “não há mais nada que procurar”.

A nova versão de Quando o mundo virar é resultado de 10 ensaios, e o Centro Cultural Franco-Moçambicano decidiu inserir a peça na sua programação por entender que o tema abordado é pertinente e atemporal. De igual modo, para o Franco, esta é uma das maneiras de, num contexto tão estranho quanto este, encurtar a distância com o público. É difícil, certamente, mas sempre é uma forma de “nos aproximarmos até de um público mais alargado”.

 

Excerto de Quando o mundo virar, de 2015

“Quando o mundo virar e o outro começar, os animais serão mais poderosos. Quem mata os animais por desporto, quem destrói a natureza, irá pagar pelos seus actos. Quando o mundo virar, os animais também farão churrascos aos fins-de-semana; os cabritos levarão as pessoas aos pastos; os cavalos irão atrelar carruagens e carroças nos dorsos dos homens”.

+ LIDAS

Siga nos