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O País – A verdade como notícia

O Ministério da Cultura e Turismo está a identificar espaços artísticos e culturais para os promover através de um roteiro turístico nacional e internacional. Um desses espaços identificados pelo Governo é o centro cultural de Noel Langa, no bairro Munhuana, subúrbio de Maputo

 

O bairro Munhuana e Noel Langa estão muito implicados. O sujeito e o espaço, neste contexto, misturam-se de tal ordem que é “impossível” separar um do outro. Talvez, por isso, quando a Ministra da Cultura e Turismo foi visitar Noel Langa no Hospital Central de Maputo, há quatro meses, onde se encontrava de baixa, resolveu marcar com antecedência uma cavaqueira para o centro cultural do artista plástico. Passaram-se vários meses, afinal, primeiro, o autor da Munhuana tinha de se recuperar, o que até aconteceu rapidamente. Assim, na tarde desta sexta-feira, Eldevina Materula entrou na sua viatura protocolar e desceu até ao antigo Bairro Indígena.

Foi naquele subúrbio próximo ao emblemático mercado do Xipamanine que, sem hesitações, Eldevina Materula afirmou que o Ministério da Cultura e Turismo tem um projecto concebido para promover espaços artísticos e culturais através de um roteiro turístico nacional. Entre tais espaços, garantiu a Ministra, encontra-se o centro cultural de Noel Langa. “Se, em algum momento, havia dúvida, é agora que fica dissipada. Este centro cultural faz e tem de fazer parte do nosso roteiro. Nós, agora, vamos criar placas com inscrições organizadas de modo a atrairmos o turista nacional e estrangeiro. Vamos identificar os mais variados espaços culturais e inclui-los no nosso roteiro”.

Sem se restringir ao plano ministerial, Eldevina Materula lembrou que o Governo, em geral, está comprometido em projectar as artes e os artistas ainda neste quinquénio. “Sabemos o valor da cultura, da arte e daqueles que a fazem diariamente. Temos aqui um exemplo de quem não faz apenas pintura, mas a promove e tira crianças da rua para as entreter com actividades que as conduzem à profissionalização artística. Este é um bom exemplo nacional sobre a importância da arte e da cultura nos jovens. Quem nos dera ter tantos Noel Langa em todo o território nacional. O Noel é uma inspiração do Governo, e nós não estamos aqui para fazer uma promoção, mas para o homenagear e relembrar a importância da nossa cultura a partir daqueles que a fazem”.

Com efeito, e porque o turismo faz-se igualmente com respeito ao antigo, Materula lembrou que o Ministério da Cultura e Turismo está a esmerar-se na preservação da arquitectura da cidade de Maputo, especialmente no que concerne às casas de madeira e zinco, afinal sempre narram outras várias histórias de Moçambique e dos moçambicanos. “Nós pretendemos manter a nossa herança. Quando, recentemente, estivemos na Mafalala, apercebemo-nos que muitas casas típicas estão a desaparecer. Faremos uma intervenção para que não percamos essas casas”.

Ainda sobre casas, com a inserção da sua casa-galeria ou centro cultural (assim está registado) no roteiro turístico nacional e internacional, Noel Langa espera que, assim, se impulsione as artes e os artistas que dali saem e saíram no passado. Na percepção de Noel Langa, a combinação de Cultura e Turismo é feliz e oportuna para fazer com que os turistas absorvam ainda mais o que é promovido no país em termos de arte. “Quando o Governo visita onde dorme a cultura, para mim, é gratificante. O Ministério deve conhecer onde a cultura dorme e vive”.

A visitar o centro cultural de Noel Langa também esteve Marcelo Panguana. Para o escritor, a visita de Eldevina Materula representa o reconhecimento governamental em relação ao artista. “Acho que é uma mudança de estratégia que a actual ministra vem introduzir nesta relação que se pretende ter entre os artistas e o Governo. É isso que é importante, porque os artistas se sentem muito órfãos – falta-lhes um apoio e uma presença constante do Governo em relação ao que executam. Penso que a Ministra está a dar passos para estreitar a relação entre os artistas e o Governo, o que é bom porque um país não se faz apenas de políticos e homens de negócio, faz-se sobretudo de cultura e dos seus fazedores. Isto vai fazer com que o país cresça”.

Noel Langa nasceu no distrito de Manjacaze, Gaza, em 1938. No entanto, foi a partir do bairro Munhuana que se tornou numa das grandes referências das artes moçambicanas.

Henriqueta Macuácua é convidada à sessão de conversa sobre o tema “Arte, capulana, redesign”, às 16 horas, numa sessão programada pelo Centro Cultural Brasil-Moçambique

 

Em 2017, Henriqueta Macuácua terminou um mestrado em Design de Moda pela Universidade da Beira Interior, em Portugal. O tema do seu trabalho, na altura, foi “Análise simbólica e redesign da capulana em Moçambique”, que, hoje, servirá de “inspiração” numa conversa programada pelo Centro Cultural Brasil-Moçambique.

Recorrendo à sua tese, numa sessão que será moderada pelo director daquele Centro, Jorge Dias, Henriqueta Macuácua irá referir-se à simbologia da capulana, à origem do nome, ao processo histórico e à trajectória até o tecido chegar a Moçambique.

Segundo Henriqueta Macuácua constatou durante a pesquisa, existem diferentes tipos de capulana, igualmente, usados em contextos diversificados. Por exemplo, existem as que são escolhidas para o quotidiano, as preferidas pelos curandeiros, pelos políticos, que as distribuem em campanhas eleitorais, ou as que são usadas para publicidade.

“As capulanas preservam memórias para as mulheres, que são as que mais as usam”. Por isso, adianta Henriqueta Macuácua, embora a maior parte das capulanas seja produzida no estrangeiro, é relevante uma sessão sobre o tema porque falar de capulana é reflectir sobre aspectos atinentes à realidade cultural moçambicana. “As pessoas lidam com capulana todos os dias, a transmitem de geração em geração sem saber de onde vem e nem da sua diversidade”.

A conversa sobre “Arte, capulana, redesign” está marcada para as 16 horas e pode ser acompanhada através do Facebook do Centro Cultural Brasil-Moçambique, durante 60 minutos.

 

Perfil

Henriqueta Macuácua é licenciada em Design, pelo Instituto Superior de Artes e Cultura, e mestre em Design de Moda, pela Universidade da Beira Interior, em Portugal. Actualmente, lecciona a disciplina de Design de Moda e é coordenadora de exposições semestrais e anuais de estudantes do curso de Design, no Instituto Superior de Artes e Cultura. Tem trabalhado como Directora criativa da Semana Africana Moçambique, desde 2019, um evento de intercâmbio cultural entre países africanos nas mais diversas áreas das Artes e Cultura, como design, desfile de moda, cinema e literatura. É designer de moda com uma marca estabelecida, QuaQua, desenvolvida em 2015.

A capital de Sofala, Beira, celebra, hoje, 113 anos de elevação à categoria de cidade. A fim de se comemorar o dia de mais um aniversário, está programado para logo à noite um concerto no qual as figuras de cartaz serão Júlia Duarte, Twenty Finger, Stewart Sukuma e Banda Nkuvo e Esaú Menezes.

O concerto que é produzido pela Marrabenta-vibes na Town tem como patrocinador principal a empresa Cervejas de Moçambique. Realizado no contexto da pandemia, o mesmo será transmitido entre às 18h0 e 20h, em directo na STV.

A propósito da ocasião, Paulo Lito Sithole, produtor, afirma numa nota de imprensa: “Uma vez mais não deixamos passar em branco a celebração dos 113 anos daquela que é considerada a segunda maior cidade do país, a cidade da Beira. Uma cidade que ferve culturalmente e que já contribuiu através da arte, concretamente a música, para elevar o nome de Moçambique”.

Sobre a efeméride, o Edil da Beira, Daviz Simango, aproveitou a ocasião para agradecer a solidariedade dos beirenses e de todos os moçambicanos, particularmente depois da passagem do ciclone Idai e pediu aos mais jovens para saberem preservar o que já foi reconstruído.
Alguns munícipes entrevistados pelo O País, a propósito dos 113 anos da urbe, apontam que há avanços significativos, enquanto outros manifestam o seu desagrado pela forma como a cidade está a ser gerida.

Foto: Sérgio Manjate

Comemora-se, hoje, o Dia Mundial da Fotografia. A propósito desta efeméride, Sérgio Manjate e Basílio Muchate consideram que a era digital trouxe mais qualidade à fotografia, entretanto, em Moçambique, há muitos problemas de composição que se verificam nas fotos publicadas nos jornais

Sérgio Manjate é fotojornalista há 17 anos. Desde essa altura, trabalha para o jornal O País. Acompanhou um pouco de tudo: os gloriosos momentos do analógico e a recente transição para o digital. Seja em que formato for, garante, a paixão de fotografar é a mesma, pois, está consciente disso, no click da sua câmara surgem instantes para a memória colectiva.

Desde 2003, Manjate cobre matérias de todas as editorias do jornal O País, da Cultura à Política ou do Desporto à Economia. Para si, exercer a fotografia é uma espécie de narrar a história sem deturpar a informação, leal à realidade. “Quando pretendo fazer uma fotografia, no princípio, vejo um momento que deve ser travado. Quando se trata de pessoas, interesso-me pela expressão da pessoa que vou fotografar, o que é movido pelas minhas emoções”.

Atento às transformações inerentes ao seu campo de trabalho, Sérgio Manjate confessa que a era digital trouxe muitas vantagens e facilidades ao fotógrafo. Por exemplo, o digital diminuiu o tempo de trabalho e o custo no processo. Associado a isso, Manjate observa que, nos últimos tempos, a publicação fotográfica em tempo recorde deixou de ser novidade. E o mais importante nisto tudo? Como que num click, remata: “a era digital trouxe mais qualidade à fotografia, com câmaras que possuem altas resoluções”.

Ainda assim, Manjate sente saudade do passado, pois, na sua opinião, o processo fotográfico analógico era de longe mais excitante.

Não obstante, nestes novos tempos, Sérgio Manjate identifica um mau hábito generalizado: “tornou-se comum o uso de fotografias sem autorização e sem respeito aos direitos do autor. Segundo, o plágio está em todo lado na Internet”.

Neste Dia Mundial da Fotografia, Sérgio Manjate aproveitou abrir o livro das suas memórias durante o exercício do seu trabalho. Para o fotojornalista, o dia mais difícil aconteceu na cobertura da explosão do Paiol de Malhazine, em 2007. “Aquilo foi pior do que uma guerra. Não se sabia a direcção dos obuses. Nenhuma ciência poderia travar aquilo e foi muito difícil. Vi pessoas cortadas ao meio, autocarros atingidos, casas reduzidas a escombros. Lembro-me de uma explosão, a última, parecia uma bomba atómica”.

Falando igualmente a propósito desta efeméride, sempre para o programa Manhã Informativa da Stv Notícias, o professor de fotografia e fotógrafo, Basílio Muchate, no ramo desde os anos 80, sublinhou a relevância de, antes mesmo do click mágico, o fotógrafo sentir o que está a fazer. Caso contrário, “a foto que tirarmos não vai estimular e tão-pouco conseguirá mexer com a emoção das pessoas”.

De acordo com Basílio Muchate, muitos dos que fotografam pensam que, só por isso, são fotógrafos. A grande consequência que daí advém nota sempre que vê as notícias nos jornais. “Diariamente, quando pego nos jornais, a primeira coisa que faço é reparar as imagens antes mesmo de ler o texto. Vejo muitos erros de composição e desrespeito a elementos básicos de fotografia. A fotografia tem de nos tocar visualmente e emocionalmente”, e o segredo disso não está no equipamento, esclarece, mas na composição, na atenção à luz e ao enquadramento. “Com a composição, o fotógrafo exprimi o seu sentido poético e estético”.

O Dia Mundial da Fotografia foi instituído pela Academia Francesa de Ciências, a 19 de Agosto de 1839, em homenagem à invenção do daguerreótipo, que antecedeu as câmaras fotográficas.

Quando Hugo Mendes está a desenhar, sente-se como se estivesse numa terapia. Para o artista visual, igualmente, desenhar é uma forma de representar o mundo a partir da sua perspectiva. Nesta entrevista, o autor de Sunday nood conduz-nos ao seu processo criativo; refere-se à importância da xilogravura e ao que gera sensualidade feminina na sua obra; explica como os provérbios africanos abriram-lhe portas ao nível internacional e ainda menciona os movimentos artísticos essências para a sua formação artística. Lá mais para o fim, Mendes ainda lamenta o facto dos artistas moçambicanos trabalharem separados sem necessidade.

 

A sua primeira exposição individual foi o Sunday nood. Alguns autores não se reconhecem na primeira obra, passados muitos anos. É ou não o seu caso?

A minha primeira exposição foi uma experiência muito boa. Entretanto, na altura, tive alguns receios que, agora, passado algum tempo, já estão ultrapassados. Normalmente, quando fazemos uma exposição colectiva, há vários suportes que podemos ter e pessoas que nos podem apoiar ou conduzir. Quando estamos numa individual, as coisas ficam todas na nossa conta. Às vezes, isso é um grande desafio.

 

O que é mais apaixonante para si, entre a exposição colectiva e a individual?

Sei lá. Eu acredito que quando há muitos cozinheiros na cozinha acaba havendo um bocadinho de confusão. Quando se tem a oportunidade de se expressar num tema particular, podemos nos abrir de uma outra forma. Na individual há mais liberdade para o autor criar, porque é mais pessoal. Agora, em alguns casos, a exposição colectiva pode dar mais visibilidade, quando ainda não se é um artista estabelecido. Eu acho que a colectiva acaba sendo uma boa escola, que nos introduz no meio, com pessoas que nos moldam e dão-nos direcção. Isso nos garante uma certa autoconfiança.

 

Que técnicas inaugurou em Sunday nood que ainda fazem parte do seu interesse criativo?

Eu sou muito interessado na cultura de entalhe de madeira moçambicana. Se formos a ver, cá no Sul temos os psikhelekedana e no Norte temos a arte makonde, desde as máscaras às esculturas. Eu quis trabalhar numa técnica que remetesse a esse processo, daí que pensei em utilizar a xilogravura. À primeira exposição não levei essa técnica, mas preocupei-me em usar o preto e o branco para nos lembrar da xilogravura. Nessa exposição usei a serigrafia, e é como se eu quisesse tornar algo artesanal num processo mais artístico.

 

Além da xilogravura e da serigrafia, faz parte do seu interesse criativo a manipulação digital. Como é mesclar todas essas técnicas numa única obra?

Tenho formação em designer e tenho alguns interesses pessoais na arte japonesa, por exemplo – os asiáticos  usam a técnica de xilogravura há muito tempo. Então, a mim interessou perceber como é que poderia trabalhar com o computador, tendo domínio numa técnica manual, podendo manipular as imagens como se isso fosse algo novo, diferente e com expressão que teria sendo feito com madeira.

 

O ambiente, a mulher e o mar são tópicos recorrentes na sua obra. O que cada um destes elementos significa para si?

Gosto de reaproveitar os materiais, como ferro velho, zinco e papelão. Penso que todos nós devemos ter essa preocupação de reaproveitar e recriar o ambiente, ao invés de apenas fazer lixo e destruir.

 

Na inauguração da exposição colectiva Ligados pelo Índico, com artistas das Ilhas Reunião, no Franco, disse que se preocupava em estabelecer uma conexão através do oceano. Como é que acha que isso se pode concretizar num contexto em que estamos próximos, mas estranhamente distantes?

Acredito que o que nos une é a cultura. Historicamente, foram levados escravos daqui para as Ilhas Reunião. Até hoje, a cultura moçambicana mantém-se presente lá. Claro, a cultura não é estática. Por isso, há mutações daquele lado e deste. Penso que esse pode ser a nossa partida rumo à conexão pelo Índico. A partir das nossas diferenças, podemos tentar encontrar o nosso ponto comum.

 

Pensar o Índico é também pensar nesse ponto comum?

Sim. E o que é curioso é que para nós, moçambicanos, o mar é um lugar de cura, com vários mitos. Por exemplo, dos nyamussoros. Nas Ilhas Reunião, por causa do tráfico de escravos, o mar é um lugar perigoso, para onde não se deve ir. Penso que a partir daí já se pode estabelecer um diálogo. Nós temos pescadores que trazem peixes do mar ou os ziones que se baptizam lá. Do outro lado, o mar é uma espécie de tabu.

 

O que mais lhe entusiasma nesta ligação com o mar?

É esta ligação mitológica, essa memória cultural do mar como um sítio fantástico, essa história de pescadores que partem e, depois, não voltam; a história dos espíritos que nos dão dádivas, com curandeiros que, ao fazerem diagnósticos, recorrem às conchas…

 

Como é que, no seu caso, sendo o mar um espaço de partidas e de regresso, se processa em termos de representação artística?

Para mim, o mar representa-se como ponte.

 

E a sensualidade da mulher?

Acho que não tenho como separar esse lado animalesco do meu lado intelectual ou criativo. Eu sou isso tudo e mais algumas coisas. Uma das coisas que eu gosto de fazer na minha arte é trabalhar com temas de representatividade. E se é sobre representatividade que quero falar, falo sobre as coisas que gostaria de ver, mas que não estão disponíveis para mim. Então, que seja eu a criar as coisas que gostaria de ver.

 

Há uma “influência” poética na representação sensual da mulher, no seu caso?

Sim, há. E, a certo momento, tive de me questionar sobre por que fazia aquele tipo de desenhos. Percebi que sentia falta de algo, que não estava presente. Isso levantou-me questões sobre musas, como se a minha vida fosse uma telenovela.

 

Significado e Mensagem. Estes dois termos são essenciais para si?

De certa forma, sim. Mas, às vezes, posso começar do fim para o início. Às vezes temos um conceito que nos leva a resultado final com um leque de obras.

 

Ao representar a realidade procura ser leal ou, pelo contrário, o interesse é fugir disso?

Qualquer tipo de representação da realidade, por um artista, é sempre subjectiva. É como se representasse a realidade a partir dos meus olhos. Quando estou a observar algo, já estou a influenciar essa acção que estou a observar. Eu gosto de fazer algo que é fiel à minha realidade, mas também gosto de explorar o subconsciente, esse lado obscuro da própria natureza.

 

Mesmo a propósito do obscuro, na sua exposição (Des)construções procurou desvendar realidades ocultas da cidade de Maputo. Quais são?

Sou uma pessoa que gosta de andar pela cidade, ler sobre as cidades e saber quais são os edifícios da cidade. Interesso-me por essas questões que muitos dão por garantidas. Por exemplo, quando olhamos para a cidade de Maputo, conseguimos ver várias grades nos prédios. Se prestarmos atenção, vamos notar que todas as grades são diferentes e, além de segurança, desempenham uma função estética da própria casa. Falando particularmente de(Des)construções,que teve curadoria de João Roxo, quis explorar mais o lado boémio da cidade, a parte do porto, conhecida como a zona quente da cidade. Isso exigiu de mim mergulhar nesse universo. Esse é o lado escondido da cidade.

 

O que a representação da realidade lhe dá a preto e branco que não seria possível se usasse outras cores?

Uma das vantagens de fazer algo a preto e branco é o minimalismo – acredito que sou uma pessoa minimalista. Há vezes em que só precisamos ter duas cores, que o cérebro preenche tudo o resto. É esse lado meio psicodélico e, ao mesmo tempo, meio minimalista que gosto de explorar.

 

Além de Maputo, já expôs em Inglaterra…

No início da minha carreira, um dos projectos que me deu visibilidade internacional foi a representação dos provérbios africanos. A partir daí, pude estar em certos radares de plataformas internacionais. Foi assim que surgiu a oportunidade de expor em Londres, numa iniciativa virada para talentos africanos que vivem na diáspora, embora eu não viva na diáspora. Além de Inglaterra, já expus na África do Sul e em Angola. Agora, gostaria de ir a Nigéria e explorar a parte islâmica em países como Marrocos, Egipto e Argélia.

 

Essa será uma maneira de reivindicar a “influência” islâmica em Moçambique?

De certa forma, sim. Quando as pessoas por vezes me pedem para descrever o que é viver em Maputo, eu tenho dito que esta é como se fosse uma panela de várias culturas. Quando olhamos para a arquitectura, por exemplo, sentimos a presença portuguesa, oriental e do nosso local.

 

Que autores e movimentos artísticos foram determinantes na sua formação?

Gosto muito do cubismo e do surrealismo. Quanto aos autores, Picasso, Salvador Dali, Katsuya Terada (Japão), Mike Giant (EUA) e Lady Skollie (África do Sul) me dizem muito. Eu acho-lhes super interessantes e originais na sua representação.

 

Ousadia é uma das coisas que lhe caracteriza?

Sim. Como fazer isto sem ser? Acho que é por aí.

 

Como é que a crença no que vai criar apresenta-se fundamental para si?

Tudo o que eu faço, é a pensar em mim. Quando estou a desenhar, é como se estivesse numa terapia ou numa meditação. No momento em que desenho apenas me concentro nas linhas e não no gás que não existe em casa.

 

O erro é algo que o preocupa?

Ultimamente, talvez mais do que antes. Há dias estava a ver um documentário que dizia que a vida do artista é como se fosse algo exponencial, em que vai crescendo até atingir a crista da onda. Depois, começa a decrescer. Com a experiência, vamos tendo uma espécie de sensibilidade e vamos pensando que só devemos fazer coisas boas, mas não é assim. Uma vez li na biografia de Van Gogh que quando esses sentimentos de dúvida aparecem, o que temos de fazer é continuar a desenhar, que eventualmente vão se calar.

 

É mais fácil fazer um primeiro trabalho do que um quinto, por exemplo?

É mais difícil fazer um segundo trabalho do que o primeiro. O primeiro é como se tivéssemos tido a vida inteira para preparar. Mas o segundo, numa cultura em que queremos tudo para ontem, fica mais difícil. Isso vale para todas as artes.

 

Trabalha ou trabalharia à vontade com encomendas?

Essa é uma outra questão que ando a explorar. Às vezes, é difícil dizer não. Somos um país do terceiro mundo, não temos muitos meios e nem muitas posses. Quando aparece alguma oportunidade, o que queremos é segurá-la com as duas mãos. O problema é que quando chega a altura de apresentar o trabalho vem aquela dúvida… ficamos sem saber se queremos nos deixar associar à encomenda porque não é algo em que acreditamos. Trabalhos por encomenda é algo que ainda estou a explorar. Houve uma fase em que eu dizia sim a toda gente, mas agora estou bastante selectivo.

 

O que dizer das artes visuais em Moçambique?

Nós ainda estamos num patamar um bocadinho embrionário, posso dizer assim. No estrangeiro, talvez, as pessoas sabem mais sobre literatura moçambicana do que sobre artes visuais moçambicanas. Acho que Malangatana, Naguib, Gonçalo Mabunda e Mário Macilau são alguns artistas que já conseguiram deixar um marco no estrangeiro. Outra coisa, acho que nós, os artistas, estamos um bocadinho separados sem necessidade.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Resgate, da Mahla Filmes; O tempo dos leopardos, de Zdravko Velimirovi?; Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa; e a obra de Ondjaki.

 

 

Perfil

Hugo Mendes nasceu e cresceu em Maputo. O artista visual inspira-se no artesanato e na escultura em madeira. Através do seu trabalho, tenta representar os aspectos do quotidiano, referindo-se à história colectiva dos moçambicanos, aos seus sonhos, e procurando explorar elementos mais íntimos, relacionados com o lado mais obscuro do seu próprio imaginário. É licenciado em Design, pelo Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

Quando Hugo Mendes está a desenhar, sente-se como se estivesse numa terapia. Para o artista visual, igualmente, desenhar é uma forma de representar o mundo a partir da sua perspectiva. Nesta entrevista, o autor de Sunday nood conduz-nos ao seu processo criativo; refere-se à importância da xilogravura e ao que gera sensualidade feminina na sua obra; explica como os provérbios africanos abriram-lhe portas ao nível internacional e ainda menciona os movimentos artísticos essências para a sua formação artística. Lá mais para o fim, Mendes ainda lamenta o facto dos artistas moçambicanos trabalharem separados sem necessidade.

 

A sua primeira exposição individual foi o Sunday nood. Alguns autores não se reconhecem na primeira obra, passados muitos anos. É ou não o seu caso?

A minha primeira exposição foi uma experiência muito boa. Entretanto, na altura, tive alguns receios que, agora, passado algum tempo, já estão ultrapassados. Normalmente, quando fazemos uma exposição colectiva, há vários suportes que podemos ter e pessoas que nos podem apoiar ou conduzir. Quando estamos numa individual, as coisas ficam todas na nossa conta. Às vezes, isso é um grande desafio.

 

O que é mais apaixonante para si, entre a exposição colectiva e a individual?

Sei lá. Eu acredito que quando há muitos cozinheiros na cozinha acaba havendo um bocadinho de confusão. Quando se tem a oportunidade de se expressar num tema particular, podemos nos abrir de uma outra forma. Na individual há mais liberdade para o autor criar, porque é mais pessoal. Agora, em alguns casos, a exposição colectiva pode dar mais visibilidade, quando ainda não se é um artista estabelecido. Eu acho que a colectiva acaba sendo uma boa escola, que nos introduz no meio, com pessoas que nos moldam e dão-nos direcção. Isso nos garante uma certa autoconfiança.

 

Que técnicas inaugurou em Sunday nood que ainda fazem parte do seu interesse criativo?

Eu sou muito interessado na cultura de entalhe de madeira moçambicana. Se formos a ver, cá no Sul temos os psikhelekedana e no Norte temos a arte makonde, desde as máscaras às esculturas. Eu quis trabalhar numa técnica que remetesse a esse processo, daí que pensei em utilizar a xilogravura. À primeira exposição não levei essa técnica, mas preocupei-me em usar o preto e o branco para nos lembrar da xilogravura. Nessa exposição usei a serigrafia, e é como se eu quisesse tornar algo artesanal num processo mais artístico.

 

Além da xilogravura e da serigrafia, faz parte do seu interesse criativo a manipulação digital. Como é mesclar todas essas técnicas numa única obra?

Tenho formação em designer e tenho alguns interesses pessoais na arte japonesa, por exemplo – os asiáticos  usam a técnica de xilogravura há muito tempo. Então, a mim interessou perceber como é que poderia trabalhar com o computador, tendo domínio numa técnica manual, podendo manipular as imagens como se isso fosse algo novo, diferente e com expressão que teria sendo feito com madeira.

 

O ambiente, a mulher e o mar são tópicos recorrentes na sua obra. O que cada um destes elementos significa para si?

Gosto de reaproveitar os materiais, como ferro velho, zinco e papelão. Penso que todos nós devemos ter essa preocupação de reaproveitar e recriar o ambiente, ao invés de apenas fazer lixo e destruir.

 

Na inauguração da exposição colectiva Ligados pelo Índico, com artistas das Ilhas Reunião, no Franco, disse que se preocupava em estabelecer uma conexão através do oceano. Como é que acha que isso se pode concretizar num contexto em que estamos próximos, mas estranhamente distantes?

Acredito que o que nos une é a cultura. Historicamente, foram levados escravos daqui para as Ilhas Reunião. Até hoje, a cultura moçambicana mantém-se presente lá. Claro, a cultura não é estática. Por isso, há mutações daquele lado e deste. Penso que esse pode ser a nossa partida rumo à conexão pelo Índico. A partir das nossas diferenças, podemos tentar encontrar o nosso ponto comum.

 

Pensar o Índico é também pensar nesse ponto comum?

Sim. E o que é curioso é que para nós, moçambicanos, o mar é um lugar de cura, com vários mitos. Por exemplo, dos nyamussoros. Nas Ilhas Reunião, por causa do tráfico de escravos, o mar é um lugar perigoso, para onde não se deve ir. Penso que a partir daí já se pode estabelecer um diálogo. Nós temos pescadores que trazem peixes do mar ou os ziones que se baptizam lá. Do outro lado, o mar é uma espécie de tabu.

 

O que mais lhe entusiasma nesta ligação com o mar?

É esta ligação mitológica, essa memória cultural do mar como um sítio fantástico, essa história de pescadores que partem e, depois, não voltam; a história dos espíritos que nos dão dádivas, com curandeiros que, ao fazerem diagnósticos, recorrem às conchas…

 

Como é que, no seu caso, sendo o mar um espaço de partidas e de regresso, se processa em termos de representação artística?

Para mim, o mar representa-se como ponte.

 

E a sensualidade da mulher?

Acho que não tenho como separar esse lado animalesco do meu lado intelectual ou criativo. Eu sou isso tudo e mais algumas coisas. Uma das coisas que eu gosto de fazer na minha arte é trabalhar com temas de representatividade. E se é sobre representatividade que quero falar, falo sobre as coisas que gostaria de ver, mas que não estão disponíveis para mim. Então, que seja eu a criar as coisas que gostaria de ver.

 

Há uma “influência” poética na representação sensual da mulher, no seu caso?

Sim, há. E, a certo momento, tive de me questionar sobre por que fazia aquele tipo de desenhos. Percebi que sentia falta de algo, que não estava presente. Isso levantou-me questões sobre musas, como se a minha vida fosse uma telenovela.

 

Significado e Mensagem. Estes dois termos são essenciais para si?

De certa forma, sim. Mas, às vezes, posso começar do fim para o início. Às vezes temos um conceito que nos leva a resultado final com um leque de obras.

 

Ao representar a realidade procura ser leal ou, pelo contrário, o interesse é fugir disso?

Qualquer tipo de representação da realidade, por um artista, é sempre subjectiva. É como se representasse a realidade a partir dos meus olhos. Quando estou a observar algo, já estou a influenciar essa acção que estou a observar. Eu gosto de fazer algo que é fiel à minha realidade, mas também gosto de explorar o subconsciente, esse lado obscuro da própria natureza.

 

Mesmo a propósito do obscuro, na sua exposição (Des)construções procurou desvendar realidades ocultas da cidade de Maputo. Quais são?

Sou uma pessoa que gosta de andar pela cidade, ler sobre as cidades e saber quais são os edifícios da cidade. Interesso-me por essas questões que muitos dão por garantidas. Por exemplo, quando olhamos para a cidade de Maputo, conseguimos ver várias grades nos prédios. Se prestarmos atenção, vamos notar que todas as grades são diferentes e, além de segurança, desempenham uma função estética da própria casa. Falando particularmente de(Des)construções,que teve curadoria de João Roxo, quis explorar mais o lado boémio da cidade, a parte do porto, conhecida como a zona quente da cidade. Isso exigiu de mim mergulhar nesse universo. Esse é o lado escondido da cidade.

 

O que a representação da realidade lhe dá a preto e branco que não seria possível se usasse outras cores?

Uma das vantagens de fazer algo a preto e branco é o minimalismo – acredito que sou uma pessoa minimalista. Há vezes em que só precisamos ter duas cores, que o cérebro preenche tudo o resto. É esse lado meio psicodélico e, ao mesmo tempo, meio minimalista que gosto de explorar.

 

Além de Maputo, já expôs em Inglaterra…

No início da minha carreira, um dos projectos que me deu visibilidade internacional foi a representação dos provérbios africanos. A partir daí, pude estar em certos radares de plataformas internacionais. Foi assim que surgiu a oportunidade de expor em Londres, numa iniciativa virada para talentos africanos que vivem na diáspora, embora eu não viva na diáspora. Além de Inglaterra, já expus na África do Sul e em Angola. Agora, gostaria de ir a Nigéria e explorar a parte islâmica em países como Marrocos, Egipto e Argélia.

 

Essa será uma maneira de reivindicar a “influência” islâmica em Moçambique?

De certa forma, sim. Quando as pessoas por vezes me pedem para descrever o que é viver em Maputo, eu tenho dito que esta é como se fosse uma panela de várias culturas. Quando olhamos para a arquitectura, por exemplo, sentimos a presença portuguesa, oriental e do nosso local.

 

Que autores e movimentos artísticos foram determinantes na sua formação?

Gosto muito do cubismo e do surrealismo. Quanto aos autores, Picasso, Salvador Dali, Katsuya Terada (Japão), Mike Giant (EUA) e Lady Skollie (África do Sul) me dizem muito. Eu acho-lhes super interessantes e originais na sua representação.

 

Ousadia é uma das coisas que lhe caracteriza?

Sim. Como fazer isto sem ser? Acho que é por aí.

 

Como é que a crença no que vai criar apresenta-se fundamental para si?

Tudo o que eu faço, é a pensar em mim. Quando estou a desenhar, é como se estivesse numa terapia ou numa meditação. No momento em que desenho apenas me concentro nas linhas e não no gás que não existe em casa.

 

O erro é algo que o preocupa?

Ultimamente, talvez mais do que antes. Há dias estava a ver um documentário que dizia que a vida do artista é como se fosse algo exponencial, em que vai crescendo até atingir a crista da onda. Depois, começa a decrescer. Com a experiência, vamos tendo uma espécie de sensibilidade e vamos pensando que só devemos fazer coisas boas, mas não é assim. Uma vez li na biografia de Van Gogh que quando esses sentimentos de dúvida aparecem, o que temos de fazer é continuar a desenhar, que eventualmente vão se calar.

 

É mais fácil fazer um primeiro trabalho do que um quinto, por exemplo?

É mais difícil fazer um segundo trabalho do que o primeiro. O primeiro é como se tivéssemos tido a vida inteira para preparar. Mas o segundo, numa cultura em que queremos tudo para ontem, fica mais difícil. Isso vale para todas as artes.

 

Trabalha ou trabalharia à vontade com encomendas?

Essa é uma outra questão que ando a explorar. Às vezes, é difícil dizer não. Somos um país do terceiro mundo, não temos muitos meios e nem muitas posses. Quando aparece alguma oportunidade, o que queremos é segurá-la com as duas mãos. O problema é que quando chega a altura de apresentar o trabalho vem aquela dúvida… ficamos sem saber se queremos nos deixar associar à encomenda porque não é algo em que acreditamos. Trabalhos por encomenda é algo que ainda estou a explorar. Houve uma fase em que eu dizia sim a toda gente, mas agora estou bastante selectivo.

 

O que dizer das artes visuais em Moçambique?

Nós ainda estamos num patamar um bocadinho embrionário, posso dizer assim. No estrangeiro, talvez, as pessoas sabem mais sobre literatura moçambicana do que sobre artes visuais moçambicanas. Acho que Malangatana, Naguib, Gonçalo Mabunda e Mário Macilau são alguns artistas que já conseguiram deixar um marco no estrangeiro. Outra coisa, acho que nós, os artistas, estamos um bocadinho separados sem necessidade.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Resgate, da Mahla Filmes; O tempo dos leopardos, de Zdravko Velimirovi?; Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa; e a obra de Ondjaki.

 

 

Perfil

Hugo Mendes nasceu e cresceu em Maputo. O artista visual inspira-se no artesanato e na escultura em madeira. Através do seu trabalho, tenta representar os aspectos do quotidiano, referindo-se à história colectiva dos moçambicanos, aos seus sonhos, e procurando explorar elementos mais íntimos, relacionados com o lado mais obscuro do seu próprio imaginário. É licenciado em Design, pelo Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

A Trinta Zero Nove, de Sandra Tamele, participa na presente edição da Feira do Livro de Frankfurt. Este ano, a participação é online e, em 2021, será presencialmente, igualmente, com presença confirmada da editora moçambicana

 

Em dois anos de existência, a Trinta Zero Nove tem conseguido excelentes resultados no que à promoção internacional do seu trabalho diz respeito. Um mês depois de a editora ter selado um compromisso com o African Books Colective, o que a permite distribuir seus livros em qualquer país do mundo, chegou a vez da instituição literária conquistar Alemanha. Para o efeito, Sandra Tamele vai participar nesta edição da Feira do Livro de Frankfurt.

O programa que vai terminar com a realização da Feira entre 14 e 18 de Outubro arrancou mês passado, e, como a nova ordem mundial não permite que editores estrangeiros viagem para Alemanha, a participação, nesta fase, está a decorrer à distância, com gravações de uma série de vídeos e apresentações de trabalhos editoriais através da Internet. Quer isto dizer que a Feira do Livro de Frankfurt foi adaptada por causa dos impactos da COVID-19. Assim, os que se encontram no território alemão participam presencialmente e os que se encontram no estrangeiro recorrem a plataformas digitais.

As sessões desta edição da Feira do Livro de Frankfurt incluem formações sobre a aquisição de direitos do autor e gestão do catálogo editorial. O grande propósito, esclareceu Sandra Tamele, é promover a produção do livro para a criança. “Este ano a participação acontece a partir dos nossos escritórios, mas em Outubro de 2021, prevê-se que as sessões sejam presenciais, em 10 dias de feira. Nessa altura, teremos direito a um stand. Isso é muito importante, principalmente para uma editora pequenina como a nossa, porque os stands, geralmente, são adquiridos a um custo e, neste caso, a Feira vai-nos ceder gratuitamente”.

Durante a participação na Feira do Livro de Frankfurt, a Trinta Zero Nove espera adquirir direitos de obras para um mercado maior, uma vez que no evento participarão representantes de grandes editoras do mundo. E, em termos de impacto… “se estar no African Books Colective abriu-nos portas, ir para Frankfurt vai nos dar mais maturidade, porque poderemos estar ombro a ombro com os maiores players do mundo editorial. Iremos dar mais visibilidade ao que estamos a fazer e adquirir títulos inéditos. Nós estamos a editar obras até cinco anos desde a publicação. Estando em Frankfurt, será possível conseguirmos direitos de obras mesmo antes de serem publicadas em qualquer país do mundo”.

A participação da Trinta Zero Nove insere-se numa espécie de bolsa, que cobre viagem, alojamento e outros aspectos logísticos. Aliado a isso, a possibilidade de aprender de pessoas que trabalham com o negócio do livro há mais tempo, que possam explicar rapidamente como atingir a sustentabilidade e a migração digital também entusiasmam a editora, que, numa edição focada ao infanto-juvenil, vai apresentar os seus livros dirigidos a crianças, a partir dos três anos de idade, a uma audiência mais global, ao invés de se limitar a Moçambique ou aos PALOP.

O programa da Feira do Livro de Frankfurt pretende garantir a presença de pelo menos 20 editores de mercados emergentes de África, Ásia e América do Sul. Os editores bolseiros, juntos, receberão uma introdução ao mercado literário alemão e global, além de terem a oportunidade de estabelecer uma rede de contactos na indústria. À semelhança da Trinta Zero Nove, também participam nesta edição editoras provenientes dos seguintes países: África do Sul, Camarões, Cazaquistão, Rússia, Líbano, Indonésia, Lituânia, Brasil, México, Colômbia e Equador.

Com a Feira do Livro de Frankfurt sobe para três o número de eventos que a Trinta Zero Nove participará em pouco tempo de existência. Depois da Feira Internacional do Livro de Sharjah (Emirados Árabes Unidos-2019), a editora também participou na Feira do Livro de Londres (2020-2021).

Boss AC, Big Nelo, G2 e Netinho de Paula estiveram entre os artistas que esta sexta-feira defenderam a importância da disciplina, do foco e da persistência na consolidação da carreira musical. Os artistas debateram no encerramento da terceira edição do MOZEFO Young Leaders da FUNDASO.

 

Há uma fórmula para o sucesso? A pergunta foi feita pelo apresentador de televisão Emerson Miranda de várias maneiras, na última sessão da terceira edição do MOZEFO Young Leaders. A resposta, igualmente, foi dada de várias formas ao longo de 110 minutos de debate sobre o tema “O futuro da indústria criativa”. Para Boss AC, não existe nem fórmulas e tão-pouco segredos para o sucesso. O trabalho, a disciplina, a persistência e o foco estão entre os requisitos essenciais no percurso de um artista. Por isso, o rapper cabo-verdiano enalteceu imenso que o talento é importante, mas apenas reflecte 10% da questão. 90% é trabalho. Luta. “Eu nunca tive um discurso de vítima, sei que tenho de correr o dobro ou o triplo para chegar ao mesmo lugar. Quando nos fecham as portas, entramos pelas janelas, sempre contornado as dificuldades”.

Intervindo através da Internet, Boss AC, numa sessão de partilha de experiências, o rapper lembrou que a actividade do artista é muito volátil, com momentos altos e baixos. Assim, aconselhou aos mais novos, quem quiser iniciar-se nas artes deve definir muitas alternativas de subsistência. “O meu plano A sempre foi a música, mas sempre tive plano B, C, D e por aí em diante”, de tal forma que a crise gerada pela pandemia não lhe está a afectar como o afectaria se apenas dependesse da música. “Temos de arranjar alternativas”, e, claro, respeitar algumas regras… Regras, não fórmulas de sucesso. Por exemplo, disse o Boss, “não revelar tudo. Tenho por hábito não mandar foguetes antes das festas. Quando falo das coisas, já as fiz. Pois de contrário ainda podemos perder o foco daquilo que queremos”.

Citando o Nobel da Literatura de 1953, Boss AC aconselhou à juventude moçambicana a não ter receio ao correr atrás das coisas. “A juventude é a altura certa para errar. Como dizia Winston Churchill, o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo”. Depois, o rapper sublinhou que é igualmente importante o carácter, até porque “os filhos não fazem o que os pais dizem, mas fazem o que lhe vêem a fazer”.

Na mesma linha de pensamento de Boss AC, Big Nelo realçou algumas questões. Na percepção do cantor angolano, o problema da juventude é querer ganhar dinheiro hoje, e não a vida toda. Com efeito, antes de querer colher o que nem sequer foi plantado, Nelo aproveitou o tempo de antena no MOZEFO Young Leaders para convidar os jovens artistas, sobretudo cantores, a entregarem-se aos desafios, com a consciência de que não existe sucesso que dura para sempre. “O mais fácil na carreira musical é subir, manter a carreira é que é mais difícil, até porque o sucesso traz inimigos. Para mim, os jovens músicos devem aprender a caminhar devagar e a ouvir pessoas mais experientes”.

Embora considere a carreira musical muito complexa, Big Nelo entende que as pessoas devem ter carácter e respeitar o auge dos outros com os pés bem assentes no chau. “Nada dura para sempre”, disse várias Nelo. “No princípio, as pessoas gostam da tua música e até te endeusa. Depois de algum tempo, surgem outros bons autores e a tua música passa a ser mais uma música. Temos de controlar o ego, respeitar o sucesso dos outros e ter a disciplina sempre. A humildade, saber cair e dizer não, muitas vezes, é importante. E acreditar sempre. Não existe sucesso sem sacrifícios”. E tocando na questão referência… “Só com grandes referências é que haverá continuidade nos nossos países. Temos de ser referência para os mais novos, para que sejamos mais-valia para as nossas comunidades”.

No mesmo debate, esteve G2, que considerou que o sucesso artístico dos jovens depende muito do interesse deles na formação e informação, de modo que, quando as oportunidades chegarem, consigam aproveita-las. “Não acredito em coisas fáceis. Para mim, as coisas dependem de muito trabalho, conhecimento e definição de estratégias. Devemos procurar ter referências e procurar ouvir pessoas mais experientes. Por exemplo, eu já liguei para o Dr. Daniel David, numa altura em que a minha vida poderia ir para esquerda ou para a direita. Na altura, precisava de aconselhamento, e ele recebeu-me e foi importante para o que eu estava a passar naquele momento”. Além disso? “Temos de potenciar a educação no país, de modo que os jovens sejam capazes de pensar em soluções empreendedoras a médio ou longo prazo”.

Como que acrescentando mais elementos à abordagem de G2, o empresário cultural, Dinho Puro, aconselhou aos jovens a saírem sempre da sua zona de conforto, experimentar novas realidades e deixarem-se rodear por boas influências. “Devemos nos aproximar às pessoas que nos possam potenciar, porque os jovens, hoje, têm muito mais facilidades do que os jovens do passado”.

Do Brasil, intervieram o Staff (DJ) e Netinho de Paula. Para o cantor e apresentador de televisão, quer os velhos, quer os novos autores devem ter a capacidade de apostar nas ofertas tecnológicas, “porque a  tecnologia veio para definir uma nova forma de trabalho, de criatividade e realidade para todos. Eu acredito muito que a juventude actual vai fazer muita revolução”.

A partir de Portugal, Micas Cabral, dos Tabanka Djaz, acrescentou ao debate (que também contou com Valdemiro José) a relevância dos jovens artistas cultivarem bons hábitos. “Acreditar no que se está a fazer e a aproximação às pessoas mais experientes também tem garantido muito sucesso”.

“O futuro da indústria criativa” foi o tema do último debate desta terceira edição do MOZEFO Young Leaders, iniciativa organizada pela Fundação SOICO (FUNDASO).

Boss AC, Big Nelo, G2 e Netinho de Paula estiveram entre os artistas que esta sexta-feira defenderam a importância da disciplina, do foco e da persistência na consolidação da carreira musical. Os artistas debateram no encerramento da terceira edição do MOZEFO Young Leaders da FUNDASO.

 

Há uma fórmula para o sucesso? A pergunta foi feita pelo apresentador de televisão Emerson Miranda de várias maneiras, na última sessão da terceira edição do MOZEFO Young Leaders. A resposta, igualmente, foi dada de várias formas ao longo de 110 minutos de debate sobre o tema “O futuro da indústria criativa”. Para Boss AC, não existe nem fórmulas e tão-pouco segredos para o sucesso. O trabalho, a disciplina, a persistência e o foco estão entre os requisitos essenciais no percurso de um artista. Por isso, o rapper cabo-verdiano enalteceu imenso que o talento é importante, mas apenas reflecte 10% da questão. 90% é trabalho. Luta. “Eu nunca tive um discurso de vítima, sei que tenho de correr o dobro ou o triplo para chegar ao mesmo lugar. Quando nos fecham as portas, entramos pelas janelas, sempre contornado as dificuldades”.

Intervindo através da Internet, Boss AC, numa sessão de partilha de experiências, o rapper lembrou que a actividade do artista é muito volátil, com momentos altos e baixos. Assim, aconselhou aos mais novos, quem quiser iniciar-se nas artes deve definir muitas alternativas de subsistência. “O meu plano A sempre foi a música, mas sempre tive plano B, C, D e por aí em diante”, de tal forma que a crise gerada pela pandemia não lhe está a afectar como o afectaria se apenas dependesse da música. “Temos de arranjar alternativas”, e, claro, respeitar algumas regras… Regras, não fórmulas de sucesso. Por exemplo, disse o Boss, “não revelar tudo. Tenho por hábito não mandar foguetes antes das festas. Quando falo das coisas, já as fiz. Pois de contrário ainda podemos perder o foco daquilo que queremos”.

Citando o Nobel da Literatura de 1953, Boss AC aconselhou à juventude moçambicana a não ter receio ao correr atrás das coisas. “A juventude é a altura certa para errar. Como dizia Winston Churchill, o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo”. Depois, o rapper sublinhou que é igualmente importante o carácter, até porque “os filhos não fazem o que os pais dizem, mas fazem o que lhe vêem a fazer”.

Na mesma linha de pensamento de Boss AC, Big Nelo realçou algumas questões. Na percepção do cantor angolano, o problema da juventude é querer ganhar dinheiro hoje, e não a vida toda. Com efeito, antes de querer colher o que nem sequer foi plantado, Nelo aproveitou o tempo de antena no MOZEFO Young Leaders para convidar os jovens artistas, sobretudo cantores, a entregarem-se aos desafios, com a consciência de que não existe sucesso que dura para sempre. “O mais fácil na carreira musical é subir, manter a carreira é que é mais difícil, até porque o sucesso traz inimigos. Para mim, os jovens músicos devem aprender a caminhar devagar e a ouvir pessoas mais experientes”.

Embora considere a carreira musical muito complexa, Big Nelo entende que as pessoas devem ter carácter e respeitar o auge dos outros com os pés bem assentes no chau. “Nada dura para sempre”, disse várias Nelo. “No princípio, as pessoas gostam da tua música e até te endeusa. Depois de algum tempo, surgem outros bons autores e a tua música passa a ser mais uma música. Temos de controlar o ego, respeitar o sucesso dos outros e ter a disciplina sempre. A humildade, saber cair e dizer não, muitas vezes, é importante. E acreditar sempre. Não existe sucesso sem sacrifícios”. E tocando na questão referência… “Só com grandes referências é que haverá continuidade nos nossos países. Temos de ser referência para os mais novos, para que sejamos mais-valia para as nossas comunidades”.

No mesmo debate, esteve G2, que considerou que o sucesso artístico dos jovens depende muito do interesse deles na formação e informação, de modo que, quando as oportunidades chegarem, consigam aproveita-las. “Não acredito em coisas fáceis. Para mim, as coisas dependem de muito trabalho, conhecimento e definição de estratégias. Devemos procurar ter referências e procurar ouvir pessoas mais experientes. Por exemplo, eu já liguei para o Dr. Daniel David, numa altura em que a minha vida poderia ir para esquerda ou para a direita. Na altura, precisava de aconselhamento, e ele recebeu-me e foi importante para o que eu estava a passar naquele momento”. Além disso? “Temos de potenciar a educação no país, de modo que os jovens sejam capazes de pensar em soluções empreendedoras a médio ou longo prazo”.

Como que acrescentando mais elementos à abordagem de G2, o empresário cultural, Dinho Puro, aconselhou aos jovens a saírem sempre da sua zona de conforto, experimentar novas realidades e deixarem-se rodear por boas influências. “Devemos nos aproximar às pessoas que nos possam potenciar, porque os jovens, hoje, têm muito mais facilidades do que os jovens do passado”.

Do Brasil, intervieram o Staff (DJ) e Netinho de Paula. Para o cantor e apresentador de televisão, quer os velhos, quer os novos autores devem ter a capacidade de apostar nas ofertas tecnológicas, “porque a  tecnologia veio para definir uma nova forma de trabalho, de criatividade e realidade para todos. Eu acredito muito que a juventude actual vai fazer muita revolução”.

A partir de Portugal, Micas Cabral, dos Tabanka Djaz, acrescentou ao debate (que também contou com Valdemiro José) a relevância dos jovens artistas cultivarem bons hábitos. “Acreditar no que se está a fazer e a aproximação às pessoas mais experientes também tem garantido muito sucesso”.

“O futuro da indústria criativa” foi o tema do último debate desta terceira edição do MOZEFO Young Leaders, iniciativa organizada pela Fundação SOICO (FUNDASO).

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