O País – A verdade como notícia

Após a suspensão temporária da Galeria devido às medidas de prevenção à pandemia do COVID-19, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo reabre no dia 12 de agosto, às 18h00, com a inauguração da exposição “Água”, de Mário Macilau, renomado fotógrafo moçambicano, vencedor de vários prémios e com uma vasta carreira internacional. A cerimónia será realizada institucionalmente, com transmissão em direto pelas redes sociais.

Mário Macilau descobriu a paixão pela fotografia aos 15 anos, tendo já apresentado o seu trabalho em países como a Malásia, China, Bangladesh, Portugal, Espanha, Bélgica, Bulgária, Itália, Zimbabwe, África de Sul, Austrália, Alemanha, Suíça e Suécia.

O projeto desta exposição enfatiza a importância da água e o acesso à mesma. Num período como o que atravessamos, mais do que nunca a água é essencial ao saneamento e higiene comunitários. Mário Macilau apresenta uma série de fotografias dedicada a alterações climáticas e a questões relacionadas com a temática da água como bem fundamental de vida para a Humanidade. A série apresentada nesta exposição foi registada durante os últimos 3 anos, em Moçambique, maioritariamente na província do Niassa, distrito de Cuamba, no âmbito de um projecto desenvolvido com comunidades locais apoiadas pela WaterAid Moçambique, uma organização não governamental baseada no Reino Unido, que dedica a sua actuação a nível mundial na área da Água, Saneamento e Higiene.

A convite do Camões – Centro Cultural Português, o projecto da exposição “Água” conta com a especial participação do renomado historiador e escritor João Paulo Borges Coelho, que publicou anteriormente um livro com o mesmo título e apresenta de forma inédita nesta mostra uma reflexão poética sobre a série de fotografias cujo tema admite despertar um peculiar interesse.

“Água”, um projeto do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, conta com o patrocínio da WaterAid Moçambique e com o apoio da Art Dispersion (Portugal) e estará patente em Maputo desde dia 13 de agosto até dia 2 de outubro, de segunda a sexta feira, entre as 11h00 e as 17h00, respeitando todas as medidas adequadas de higiene e segurança em vigor.

Fonte: Camões – Centro Cultural Português em Maputo

No próximo sábado, entre 17h e 20h30, o Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM) irá apresentar a quinta edição do Festival Nacional de Hip-Hop, “Punhos no Ar” (FNH2PA), no Facebook e YouTube.

Resultante de parceria entre o Centro Cultural Franco Moçambicano, o Café Bar Gil Vicente e a Nexta Vida Entertainment, já em 2016, “Punhos no Ar” é um evento centrado na valorização do Hip-Hop Moçambicano, além de promover um encontro de várias províncias, permitindo assim um importante intercâmbio entre os amantes e praticantes da área e o aprofundamento dos laços que unem os fazedores da cultura Hip-Hop no nosso país, segundo o CCFM.

“Na impossibilidade de, este ano, realizarmos mais uma edição com a presença física dos artistas e do público, devido à crise de saúde pública actual, com o perigo da propagação da pandemia de Covid-19 e da tomada de medidas restritivas na realização de actividades públicas, o Festival de Hip Hop “Punhos no Ar” deste ano acontecerá online, continuando a promover o seu principal objectivo: Exaltação do Hip-Hop Nacional, para tal vai reunir no mesmo palco artistas do Sul (Maputo e Matola), Centro (Beira e Chimoio) e Norte do País (Nampula)”, lê-se no comunicado do Franco.

A 5ª edição do festival acontece com apoio da Pernord Ricard Mocambique, Mac Creative Lines, TV Cabo, Água da Namaacha, Markas de Hip-Hop, MX Records, Geração Hip-Hop, Radiação Hip-Hop e Bomba Music.

“Da música passando pelo expo-beatz de produtores também do Sul (Maputo, Xai-Xai), Centro (Beira, Chimoio, Tete) e Norte (Nampula e Pemba) do país, este evento vai entrar nas nossas casas com o maior e único propósito: celebração do Hip-hop Nacional”, realça o CCFM.

Os setes concertos consecutivos com a duração de cerca de 30 minutos, no sábado, irão contar com  Kay Real, Jazz P, Flash Enccy (Matola), Stinky & Skhokho (Maputo), Igrego (Chimoio), Duplo V (Beira) e Colt Blame (Nampula).

“Não me vejo a cantar algo em que não acredite”. A questão é: em que Tchakaze acredita? A resposta é simples, a cantora e compositora acredita no amor e na família. Por isso, as suas músicas procuraram retratar um cenário que concorra para que as pessoas possam se entregar a sentimentos nobres. Ao longo desta entrevista, Tchakaze fala do que a move e da missão que a norteia, afinal o mundo sempre pode ser melhorado com boas acções.

 

Toda a narrativa tem um princípio. Qual é o início da sua?

Primeiro, a minha vida artística baseia-se no princípio de eu ser mulher, antes de cantora. Então, interessa-me a moral que uma mulher deve ter perante a sociedade, o que retrato nas minhas músicas. Segundo, o ambiente em que eu cresci, de uma família religiosa, da Igreja Metodista, foi determinante para mim, de tal modo que levo comigo os ensinamentos daí resultantes.

 

Quem escuta o seu álbum de estreia, Tchukela, logo percebe que se interessa muito em cantar o amor. Porquê lembrar as pessoas a importância deste sentimento?

Eu aprecio o cotexto familiar. Gosto muito de ver mãe, pai e filhos juntos ou casais que se juntam e constroem uma vida feliz. Cresci numa família em que era eu e minha mãe – o meu pai faleceu muito cedo e eu sou filha única. Cresci apreciando famílias que viviam aquilo que eu não poderia viver, em que os pais levavam as crianças a passear e a conhecer lugares. De tanto achar essa fotografia bonita, desde nova, decidi investir no amor porque com este sentimento se torna possível enfrentar as dificuldades de um lar.

 

Ainda assim, o amor não é uma coisa sempre harmoniosa no seu Tchukela. Em alguns momentos, é auspicioso e noutros destrutivo. Estou a pensar nas músicas “Vou te amar” e “Nkata”. Na primeira, há uma entidade que quer pertencer, na segunda há outra que quer partir. O que potencia os contrastes à volta do amor nas suas músicas?

Tem uma frase que diz o seguinte: se um dia eu desistir de si, não será por falta de amor, mas por falta de condições de continuar a sofrer. Às vezes, quando as pessoas desistem umas das outras nem é por falta de amor. Eu canto acontecimentos verídicos e a violência doméstica é uma das coisas que me interessam muito por ser algo constante no país. Com isso espero que haja uma mudança de comportamentos na sociedade.

Em “Nkata”, a voz feminina que nos canta resisti até às últimas consequências, antes pôr um basta à relação amorosa, sem denunciar a violência que sofre. Mesmo quando decide partir, não denuncia. Quis assim representar a atitude das mulheres agredidas?

Denunciar o parceiro em casos de violência doméstica é a atitude certa. No entanto, mesmo por causa da música “Nkata”, eu passei a acompanhar muitos casos de violência doméstica, pois passei a receber chamadas de pessoas que se sentem à vontade para desabafar comigo. Aí, notei que, quando a situação é denunciada, parece que as coisas ficam mais agravadas. Por exemplo, o parceiro, quando volta da esquadra, não volta com percepção de que cometeu um erro ou um crime, ele volta revoltado porque a esposa colocou-lhe na cadeia.

 

Está a querer dizer que a solução para este problema está além de denunciar?

Eu acho que isso e as reuniões de família para resolver o problema do casal é tapar o sol com a peneira. Enquanto a pessoa que agride não tiver consciência do erro que está a cometer, não há reunião familiar possível de resolver o problema. O agressor tem de ter consciência e acho que a separação física entre quem agride e é agredido é necessária, para que ambos possam pensar na relação, pois logo que há violência entre casais, há um problema que deve ser resolvido.

 

À imagem de “Nkata”, uma das suas músicas mais afamadas é “Donguissa”, que se insere nesta linhagem moral. Qual é a história por detrás desta música?

Donguissa é a história de uma mulher que foge com um homem, deixando para trás o seu parceiro e os seus filhos. Passado algum tempo, a personagem descobre que era feliz com o marido pobre, que tinha amor para lhe dar. Eu nem sei como esta música iniciou. Do nada comecei a cantar e surgiram-me as palavras. Quando estava já a terminar a música, avaliei-a para ver se se enquadrava na nossa sociedade, e enquadra-se.

 

Assume que a sua música pode, sendo um objecto estético, contribuir para a mudança de comportamentos…

Certamente, porque a música, logo a prior, é um instrumento pedagógico, terapêutico e cura. A música está presente em várias situações das nossas vidas. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que a minha vida mudou desde o dia que ouvi a música do fulano? A música, e a minha em particular, tem tido esse poder. Eu recebo várias chamadas de mulheres que dizem que os maridos deixaram de lhes agredir quando ouviram a música “Nkata”. Há ainda situações que o casal se torna apreciador das minhas músicas e isso alegra-me bastante.

 

“Lirandzu la phoisene”, com Deltino Guerreiro, é uma espécie de presente envenenado…

É uma espécie de presente envenenado, porque, às vezes, a cura é o próprio veneno. Eu não poderia ter encontrado uma pessoa melhor para cantar comigo essa música.

 

As suas músicas têm um tom melancólico constante. Porquê?

Eu considero-me romântica e um romântico é sempre um sofredor. Sou muito sentimentalista e, por isso, mesmo que cante coisas sobre outras pessoas, eu sinto o que canto. Só assim as pessoas podem se sentir tocadas.

 

Só canta o que acredita?

Sim. Não me vejo a cantar algo que não acredite. Existem leis gerais, mas nós também criamos as nossas, do que acreditamos ser correcto. Por exemplo, não me vejo a cantar uma música em que eu digo que tenho dinheiro ou algo assim. Eu tenho uma missão: fazer com que as pessoas mudem de atitude e possam amar-se.

 

“Vinte vinte” é o título da sua nova música. Como é esta coisa de levar à composição um retrato social que mexe com as expectativas das pessoas, os dramas das vendedeiras, a vaidade das mulheres e até o terror em Cabo Delgado?

Há coisas que nós não conseguimos explicar, mas a ideia era retratar isso tudo. É muita gente lesada com o que está a acontecer e eu gostaria que as pessoas se sentissem identificadas com o que canto. Essa música está à venda. Quem a compra, fica também com a instrumental e com a letra. A ideia foi criar um ambiente familiar, para que as pessoas pudessem brincar de karaoke em casa.

 

Quais são as suas lutas? Coloco esta pergunta mesmo pensando na música “A luta continua”, do Tchukela.

Nos meus espectáculos tenho o hábito de dedicar essa música a todos, mesmo acreditando que cada um tem suas lutas. As minhas lutas são várias: conseguir vencer na vida. Sou formada em Psiquiatria e Saúde Mental e gostaria de me afirmar nessa profissão que aprecio muito. Gostaria de contribuir para proporcionar o bem-estar para as outras pessoas e usar a música para isso. Outra luta é poder passar valores morais aos meus filhos, para que cresçam equilibrados, afinal tudo começa de casa.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o álbum Eparaka, de Deltino Guerreiro, e o livro Se Obama fosse africano, de Mia Couto.

 

Perfil

Teresa da Graça Rangel Semende, Tchakaze, nasceu em Maputo há 30 anos. É compositora, cantora, instrumentalista. Subiu ao palco pela primeira vez aos 17 anos de idade, como corista do músico Penny Penny, na companhia das irmãs Belita e Domingas, juntamente com a banda Omba Mô. Com as músicas “Nkata” e “Donguissa” recebeu três prémios: Revelação no Ngoma, Melhor Voz no Ngoma e Melhor Canção pela 99FM. Tchakaze é também activista social para saúde e bem-estar emocional. Ano passado, esteve em Macau com a Banda Timbila Muzimba. É autora do álbum Tchukela e o seu talento revelou-se no Programa Super Tardes da STV.

Dany Wambire (escritor e editor da Fundza), Sandra Tamele (tradutora e editora da Trinta Zero Nove) e Jessemusse Cacinda (jornalista e editor da Ethale Publishing) vão debater, a partir das 18h30 desta quarta-feira, o tema “Os e-books e as novas tendências literárias”, numa sessão que será exibida através do Facebook e do YouTube do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

De acordo com o comunicado de imprensa do CCMA, na sessão que se insere na programação de Agosto, os editores irão partilhar as suas percepções referentes à arte literária num período conturbado para o negócio do livro no país.

“A partir das suas residências, Dany Wambire, Sandra Tamele e Jessemusse Cacinda irão usar as ferramentas online do CCMA para explicar como as suas respectivas editoras têm resistido neste período em que os grandes financiamentos estão aloucados à saúde”, avança a nota do CCMA, acrescentando que apesar dos efeitos catastróficos causados pelo Coronavírus no sector cultural e criativo, que incluem suspensão de financiamento ao livro, a Fundza, a Trinta Zero Nove e Ethale Publishing não cessaram as suas actividades. “Pelo contrário, em geral, encontraram na Internet uma plataforma eficaz na promoção das suas obras”.

No debate de amanhã, os editores vão se referir aos impactos que advém da possibilidade dos livros electrónicos poderem chegar a qualquer canto do mundo em pouco tempo.

 

Perfil dos editores/ oradores

Dany Wambirenasceu em 1989. É mestrado em Comunicação e licenciado em Ensino de História. É autor de: “A adubada fecundidade e outros contos” (distinguido com menção honrosa no Prémio Internacional José Luís Peixoto, 2013); “O curandeiro contratado pelo meu edil” (colectânea de crónicas); ”Quem manda na selva” (infanto-juvenil) e “A mulher sobressalente”.

 

Sandra Tamelenasceu em Pemba. Dedica-se à tradução desde 2002 e em 2007 estreou-se na tradução literária com a publicação da tradução do romance “Eu não tenho medo”, de Niccolò Ammaniti. É licenciada em Arquitectura pela UEM e é linguista acreditada junto do Instituto de Linguistas do Reino Unido. É promotora do concurso anual de tradução literária.

 

Jessemusse Cacindaformou-se em Filosofia, tendo um mestrado em Sociologia do Desenvolvimento. É co-fundador da Ethale Publsihing, editora vocacionada na promoção do pensamento africano. No seu catálogo, editou livros de autores como Wole Soyinka (Nobel da Literatura), Ngugi Wa Thiong’o e Licínio Azevedo. É pesquisador vinculado ao Centro de Estudos de Comunicação – SEKELEKANI. É autor do livro de entrevistas: “Pensar Africa” (Ethale, 2020) e co-autor dos livros, “Moçambique Neoliberal: perspectivas teóricas e da práxis” (Educare & Ethale, 2019) e “Desafios da Comunicação no séc XXI” (UCM & Fonte da Palavra, 2018). Os seus trabalhos literários foram publicado em antologias, jornais e revistas em Moçambique, África do Sul, Namíbia e Quénia. Investiga as temáticas de cidadania e governação, comunicação política, análise do discurso, rádio e culturas urbanas.

O músico passará a representar a marca ao nível nacional e internacional para a divulgação e venda da cultura nacional 

 

O músico Valdemiro José passa desde hoje a assumir a posição de chanceler do Mussika, nome que em echuabo significa mercados. Trata-se de uma plataforma digital criada na província da Zambézia pelo centro de estudos para o desenvolvimento da Zambézia. A mesma vai vender e divulgar produtos e marcas. Assim, Valdemiro passa a representar Mussika ao nível nacional e internacional na divulgação da marca enquanto mercado da indústria cultural na província.

“Com o Mussika, os fazedores  da cultura no país passam a ter uma plataforma na qual podem integrar as suas obras, e cada um através de um smartphone ou computador comprar obras dos artistas. No final uma percentagem vai para o Mussika e outra para o músico ou fazedor da cultura”, disse Paulo Bonde, Director do centro de estudos para o desenvolvimento da Zambézia.

Referiu ainda que  na plataforma Mussika está disponível uma categoria designada arte e cultura. Nela os artistas nacionais e internacionais terão uma galeria digital onde “cada um de nós dentro ou fora do país poderá aceder as obras quer de artistas plásticos, músicas, livros e por vias disso pagar e ter acesso na sua casa através de um sistema de entrega já criado”.

Já Valdemiro José, músico e chanceler da plataforma, referiu que assumiu a proposta na visão de que “juntos podemos sair do convencional para o digital, para a tecnologia, para o mundo. Eu vejo Mussika como um mercado que surge na Zambézia para o mundo.

Já o Governador da Zambézia, Pio Matos, destacou o papel que a plataforma pode desempenhar na vida dos músicos e outros artistas da província. “Nós queremos, através da imagem do Valdemiro José, promover, alavancar, queremos que ele sirva daquele ponto onde se nós colocarmos uma alavanca vamos levantar a província da Zambézia, “disse.

Artistas presentes nas cerimónias dizem que Mussika pode ser um mercado de vendas de obras

a ter em conta na vida do artista.

Sabe-se que o Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, disponibilizou dois milhões de meticais para apoiar a abertura daquela plataforma com intuito de promover e colocar na plataforma locais turísticos da província, mas fundamentalmente apoiar os fazedores das artes através da disponibilização de conteúdos no mercado digital, onde os artistas podem tirar vantagens comparativas.

Cantora lírica moçambicana regressou aos palcos, depois de enfrentar dias difíceis durante o confinamento, em Espanha, onde vive.

 

Mariana Carrilho vive há 11 anos no estrangeiro. Ao fim de uma década, a cantora lírica passou, nos últimos meses, por grandes provações em relação à sua carreira musical, pois, com o confinamento imposto pela COVID-19, em Espanha, não só esteve desempregada como teve de suportar ficar longe do palco e do público.

Depois de dois concertos suspensos, a artista moçambicana voltou a sentir a emoção de estar no palco no dia 27 de Junho. O musical com Gerard Mejías (Guitarra) e Laura Elena López (Soprano convidada) foi no  Casino de Sant Andreu de la Barca, em Barcelona. Para a mezzo-soprano, o espectáculo que aconteceu num terraço, em condições não ideais para um reportório clássico com guitarra, foi… “uma sensação muito boa voltar ao palco, com público a desfrutar do momento. Foi uma volta de uma maneira muito curiosa. Regressamos à expressão… O que são as artes sem esse contacto com o público? O que significa dar um concerto se este concerto não tem público? A energia do público é importante e foi muito positiva no meu regresso ao palco”.

O concerto no Casino de Sant Andreu de la Barca, até aqui, é o único de Mariana Carrilho neste contexto de COVID-19. Também por isso especial numa carreira no estrangeiro que, afinal, é exigente: “Muitas vezes parece um investimento sem retorno esta carreira fora do meu país. É complicado. Não é um mar de rosas, não vou estar aqui a mentir. Não é fácil, mas as experiências que vou acumulando com isso vão compensado, de certa forma, esse investimento. Eu sei que vai haver esse retorno do investimento que estou a fazer, porque confio no meu trabalho e nas circunstancias que me vão ajudar, de alguma maneira. Além disso, eu tenho o grande privilégio de contar com o apoio da minha família. Isso é que me dá forças para continuar”.

Durante o confinamento, a cantora lírica se perguntou se deveria seguir com a sua carreira. Nessa altura, já não se tratava de querer lutar por uma carreira artística. A questão era: “será que eu posso? A pessoa já tem uma certa responsabilidade, os anos vão passando e começas a questionar-te: Será que eu posso continuar a fazer isto? Começas a duvidar muito quando acontecem estas coisas. Mas eu confio e tenho apoio dos meus pais e da minha família. Eu não tenho medo de trabalhar, eu não tenho medo dos desafios e nem de lutar. Se tivesse medo, não estaria a viver há 11 anos fora do país”.

Com a chegada da COVID-19 a Espanha, Mariana Carrilho teve momentos difíceis a nível profissional e financeiro. Dar aulas online foi o que a suportou. Entretanto, a mezzo-soprano vê algumas vantagens na pandemia: “A coisa positiva da pandemia foi a mudança de olhar sobre a comunidade, sobre a união humana e sobre o abuso ao planeta”.

Antes da pandemia, Mariana Carilho estava a trabalhar em três espectáculos, dos quais dois foram suspensos. O primeiro era especial porque a cantora lírica passou por audições, tendo sido seleccionada. O segundo era especial porque seria a primeira vez que cantaria no Palau de la Música Catalana de Barcelona. “Para quem não conhece, é uma das salas mais importantes para concertos de música clássica em Barcelona e na Europa”. O concerto cancelado seria com a orquestra de guitarra de Barcelona e a artista seria solista convidada.

Ultrapassadas as dúvidas durante o confinamento, para a mezzo-soprano, hoje em dia, “seguir as artes e cantar é um acto de fé e de verdade para comigo mesma”.

 

PERFIL

Mariana Carrilho é uma Mezzo-soprano e artista visual moçambicana.

Actualmente, forma parte do estúdio de ópera da Ópera de Sarrià, Barcelona.

Na próxima temporada, Mariana debutará como Mezzo-soprano convidada no Palau de la Música Catalana, cantando El Amor Brujo e Sete Canções Populares Espanholas de Manuel de Falla com a Orquestra de Guitarras de Barcelona. Esta temporada também lhe reserva o debut no Teatro de Sarrià como parte do elenco da Ópera de Câmara de Barcelona 2020/2021.

Na temporada passada, depois de terminar o seu mestrado com distinção, Mariana estreou profissionalmente como Venus na opereta Orphée aux Enfers de Offenbach no Teatro Avenida em Maputo, Moçambique, substituindo uma cantora que teve de abandonar a produção. Nesse mesmo verão, estreou como Dorabella em Così Fan Tutte, de Mozart, no Festival de Ópera de Villarreal, em Valência, Espanha como parte do estúdio de ópera organizado pelo festival.

Mariana Carrilho tem sido presença regular na Temporada de Música Clássica de Maputo, organizada pelo grupo Xiquitsi e Associação Kulungwana, por quem ela foi acarinhada desde seus primeiros passos na música. Através dessas oportunidades, ela conseguiu alcançar um público moçambicano que nunca tinha tido contacto com a música clássica. Mariana foi também convidada a ensinar bases de técnica vocal e consciência corporal aos estudantes do Xiquitsi.

Mariana Carrilho foi cantora activa em masterclasses de cantores e vocal coaches de renome como Cheryl Studer, Dolora Zajick, David Gowland, Sara Braga Simões, Eric Halfvarson, entre outros. Foi dirigida por maestros como Jose Olivetti, Josep Gil, Manel Valdivieso, Dinis Sousa e Sergi Vicente. Colaborou com aclamados directores de cena, tais como Paco Azorín, Paco Mir, Andre Heller-Lopes e Paulo Lapa.

Trabalha actualmente com Carmen Bustamante.

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, visitou, ontem, as obras do Centro Cultural Moçambique-China, empreendimento que está a ser erguido em estreita cooperação entre o Governo de Moçambique e o Governo China. A visita de trabalho teve em vista a percepção do nível de execução das obras em referência.

Materula visitou os principais espaços do centro cultural, que, para além de salas de exposições e multi-uso, a infra-estrutura terá quatro auditórios preparados para acolher todas as manifestações artísticas e eventos sociais.

Na ocasião, Eldevina Materula mostrou-se satisfeita com o nível de execução das obras, mas, chamou atenção para a necessidade de se construir salas adequadas que respondam à especificidade das diferentes manifestações culturais (música, dança, teatro, cinema, etc,…), devendo-se, para o efeito, acautelar toda a engenharia acústica.

Devido à COVID-19, 400 trabalhadores moçambicanos foram despedidos, o que levou ao abrandamento do ritmo normal das obras. Este facto poderá comprometer os prazos de conclusão, inicialmente estabelecido para 2021.

Eldevina Materula também mostrou-se preocupada com este cenário e assegurou que o Ministério da Cultura e Turismo está aberto para apoiar em todas situações difíceis decorrentes da pandemia neste processo de construção do empreendimento.

O Director do Projecto, Cao Jinming, garantiu que foram assegurados todos os direitos dos trabalhadores e que logo que se retomar as obras, no “novo normal”, os mesmos poderão ser reintegrados.

Face a esta realidade, Materula afirmou que “o Governo vai honrar com os seus compromissos. Construir um espaço desta dimensão não é fácil, seja em Moçambique ou em qualquer parte do mundo. Queremos também contar com o Governo chinês, para a formação de Recursos Humanos para gestão deste centro, porque temos certeza de que este projecto vai dignificar o nosso País, a nível de infra-estruturas culturais”.

Importa referenciar que o Centro Cultural Moçambique-China é o primeiro e único do género em África, pela sua grandeza e complexidade tecnológica.

O mesmo vai incorporar Salas de Informática e Multimídia; Uma Biblioteca; Um anfiteatro para palestras; Galeria para exposição de obras de Arte e Artesanato; Um estúdio de gravação de música; Uma editora discográfica; Um espaço para desfile de moda; Dois parques de estacionamento.

A infra-estrutura está localizada no Campus principal da Universidade Eduardo Mondlane, na cidade de Maputo e prevê-se que a conclusão das obras seja no 2º semestre de 2021.

 

Fonte: Ministério da Cultura e Turismo

O espectáculo de dança “Derivações”, com Adriana Jamisse e Matchume Zango, é a nova proposta artística do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM). Integrado na programação #FrancoEmCasa, o mesmo irá realizar-se sexta-feira, às 18h30, nas plataformas online Facebook e YouTube do CCFM.

De acordo com a nota do CCFM, Adriana Jamisse, acompanhada por Matchume Zango, embarca numa jornada de pesquisa corporal sobre moçambicanidade e o que isto poderá significar na sua trajectória individual de ancestralidades mistas que reflectem a história do país que a viu crescer.

Jamisse e Zango, lê-se na nota do CCFM, “através das suas linhas artísticas, entram numa conversa onde acontece uma troca das suas noções e experiências desta identidade tão ampla. O que significa para alguém como Adriana Jamisse – mulher, mestiça, artista, moçambicana – este conceito muitas vezes ambíguo da “moçambicanidade”? Recorrendo a alguns símbolos, imagens, assim como a um mergulho interno na sua memória sensorial, a intenção nesta obra é de levar o público numa pequena exploração destas perguntas de maneira aberta e ampla, através do acasalamento do movimento de Adriana Jamisse e paisagens sonoras de Matchume Zango”.

A coreografia e interpretação do espectáculo é Adriana Jamisse e a composição e música é com Matchume Zango

 

O cachê de artistas, na Fundação Fernando Leite Couto, baixou de 20.000 para 4.500 meticais. A causa disso deve-se ao impacto negativo no funcionamento normal da instituição, que viu um terço do seu orçamento anual reduzido.

 

Ao longo dos últimos quatro meses, o Estado de Emergência prorrogado três vezes, pelo Presidente da República, trouxe implicações negativas ao sector artístico no país. Quer os artistas, quer todos aqueles que vivem ou trabalham com arte ressentem-se dos efeitos da COVID-19. Com a Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), na cidade de Maputo, não foi excepção. Neste novo contexto, a instituição teve de se reinventar, inventando um novo espaço de expressão do artista. Assim, os eventos que antes contavam com a presença do público, no espaço daquela instituição cultural, passaram a ser produzidos para serem exibidos pelas redes sociais. A acção, naturalmente, surgiu com consequências financeiras.

Como lembra Pablo Ribeiro, as artes precisam que a economia funcione para que possam existir. Na percepção do Director da FFLC, através das artes, os investidores vão se expressando. Estando a economia mal, devido à COVID-19, houve impacto negativo no funcionamento normal da FFLC, que viu um terço do seu orçamento anual reduzido. Esta redução fez-se sentir no cachê dos artistas, que, naquela instituição, antes da pandemia, variava entre 15.000 e 20.000 meticais, dependendo das actividades. Actualmente, a FFLC disponibiliza um orçamento de 4.000 meticais por artista, mais 500 meticais de ajuda de transporte. Portanto, 4.500 meticais, no total, por actividade. O máximo que se consegue para três artistas é de 13.500 meticais. Por causa na nova condição, inclusive, a equipa da FFLC, que ficou reduzida, sofreu cortes salariais.  “Eu diria que o primeiro impacto foi o rendimento para os artistas. Se um electricista, um médico ou um canalizador tem um emprego, que pode ser fixo ou informal, o artista precisa de um festival ou de uma casa de cultura ou de uma sala para poder representar o seu trabalho”. Não havendo no modelo tradicional, eis uma das consequências.

Só para se ter uma ideia, a FFLC tem uma média de 150 eventos por ano. Desta média, quatro a seis artistas trabalham por evento. Quer isto dizer que, num mês, a instituição permitia que entre 50 e 60 artistas tivessem parte do seu rendimento mensal através do cachê pago por uma actividade feita ali no número 961 da Avenida Kim Il Sung. Entretanto, com o Estado de Emergência sem grandes relaxamentos para as casas culturais, como aconteceu com outros espaços, a FFLC teve de suspender actividades programadas.

A nova condição, segundo Pablo Ribeiro, implicou duas coisas. Primeiro, uma redução na quantidade dos artistas que poderiam produzir, ou seja, a média de 50 a 60 artistas que poderiam produzir, agora, baixou para 20 ou 25 artistas. Mais ou menos metade. E o director da FFLC explica porquê: “a produção de um evento em espaços de confinamento tem limitações de distanciamento, de higiene e de produção. Não podemos fazer um evento numa sala de espectáculos, com todas as condições que teríamos nessa sala. Temos de passar a fazer o evento num espaço fechado, com condições de filmagens que têm condicionamentos em termos de capacidade”.

Em segundo lugar, Pablo Ribeiro explica que o artista teve de repensar o seu conteúdo de espectáculo, de modo que pudesse apresentar-se ao público virtualmente. Assim, ao invés de uma hora ou duas, os eventos da FFLC passaram para lives de 30 minutos em média. E as mudanças não ficam por aí: “Em termos de produção, antes tínhamos um palco, com equipamento de som e luz. Agora, temos de ter uma câmara, um sistema de captação de som, uma iluminação própria e passamos a fazer produção audiovisual. Para alguns de nós, que têm essa capacidade financeira, ainda conseguem contratar serviços que fazem esse trabalho, especializado em filmagem e edição. Outros, como a FFLC, a 16Neto e outras instituições, que trabalham com meios próprios, o que fizeram foi utilizar os telemóveis ou as câmaras fotográficas que já tinham disponíveis para continuar com o trabalho”.

O derradeiro desafio, nestes quatro meses, de acordo com Pablo Ribeiro, foi a relação com o público. Os eventos, na FFLC, podem receber entre 50 e 120 pessoas. Porém, no online, a instituição passou a ter um espaço ilimitado em termos de quantidade e alcance do público, a nível nacional e no estrangeiro. “De eventos que poderíamos ter até 120 pessoas, em alguns chegamos a ter mais de 4 mil a acompanharem as nossas actividades, dentro do solo moçambicano, africano e na América Latina. São pessoas que conseguem ver, através das redes, um pouco da cultura moçambicana”.

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