O País – A verdade como notícia

Os concertos ao vivo e com presença do público voltaram a realizar-se no país. Depois do Centro Cultural Franco-Moçambicano, há aproximadamente uma semana, chegou a vez da Fundação Fernando Leite Couto (FFLC) realizar, esta quinta-feira, 19h, o primeiro concerto ao vivo, que coincide com o lançamento do álbum Plafonddienst, de Nandele Maguni, em colaboração com Roberto Chitsondso Jr., na guitarra eléctrica e teclados.

Plafonddienst é um termo holandês cuja tradução para português pode significar a rotina de olhar para o tecto em noites de insónias e abarca a reflexão profunda que marca essa conversa interna envolvida nas inquietações por detrás da falta de sono”, avança a nota da FFLC.

Citado na mesma nota, “Nandele acredita que, de modo figurado, estamos todos a viver um Plafonddienst. O álbum tem influências sonoras da Cidade de Maputo, Macaneta, Lisboa, Abidjan, Johannesburg e Adis Abeba, colhidas nos últimos três anos. A proposta é uma imersão numa aventura em que se explora vários sub gêneros de música electrónica como noise, glitches, ambient music, synth wave, techno, math rock, hip-hop, lofi, e música tribal”.

 

Produtor inovador

Na percepção da Fundação Fernando Leite Couto, Nandele é um dos mais inovadores produtores e músicos moçambicanos, na vanguarda da cena musical alternativa com a sua mistura de instrumentais boom bap, dubstep, trap, hip-hop psicadélico e os ritmos makonde do Norte do país. A nota da FFLC adianta que Nandele escreveu músicas para apresentações de dança contemporânea, filmes como Resgate, da Mahla Filmes, e integra vários projectos como Cantinho das Cores, The Mute Band (Banda Revelação no Mozambique Music Awards em 2016) e Azagaia & Os Cortadores da Lenha. “Recentemente, esgotou uma fita cassete no selo Inserttapes, na Suécia”, lê-se na nota da FFLC.

O concerto de lançamento do álbum de Nandele vai acontecer com respeito às medidas preventivas da COVID-19.

 

Venâncio Calisto realiza, esta sexta-feira, um ensaio aberto da performance O alguidar que chora ou as pedras que falam (com público restrito), que vai estrear em Dezembro

 

Nas ruas de Lisboa existe O alguidar que chora ou as pedras que falam. Nesse alguidar com descrição africana vislumbra-se uma mulher que percorre a infinita extensão dos séculos à busca de desenterrar e ou reinventar a história das pedras que falam. A mulher é uma metáfora, o modelo da opressão humana, uma heroína que busca o lugar perdido, de respeito e de celebração das diferenças.

Na verdade, O alguidar que chora ou as pedras que falam é o título da peça que está a ser montada por Venâncio Calisto. Neste novo trabalho, partindo da revisitação da prática de moer o milho no alguidar, uma das principais tarefas domésticas das mulheres moçambicanas, o encenador traz um drama do que considera ao gosto da prosa poética que explora vozes que precisam de romper a muralha secular do silêncio para que possam ser ouvidas.

De modo a dar a conhecer ao público em que está a trabalhar, Venâncio Calisto vai promover um ensaio aberto de O alguidar que chora, às 19h30 de sexta-feira, na Casa Mocambo, em Lisboa. Esta foi a forma encontrada para sublinhar o carácter colaborativo do projecto. Explica o artista: “Trata-se dum work in progress, em que o encontro entre nós e com o público alimenta a dramaturgia do espectáculo. Este ensaio aberto serve de recolha de material dramatúrgico, é um momento de escuta e discussão estética, que julgamos essencial para o enriquecimento do nosso trabalho. Será uma leitura encenada com um público restrito, composto por amigos, académicos, escritores, actores e encenadores de Portugal, Brasil, Espanha e Moçambique”.

A peça de Calisto é resultado de uma residência artística com as actrizes Marina Campanatti (Brasil) e Marisa Bimbo (Portugal-Botswana), que se realiza desde Julho na Casa Mocambo. O que uniu os três artistas no projecto são as mesmas inquietações culturais, sociais, estéticas e políticas e a mesma vontade de enaltecer as potencialidades do encontro humano e/ou artístico. O projecto surgiu da vontade de cada artista aprender e partilhar com o outro as suas visões. Assim, os três esperam contribuir na construção de um mundo sem fronteiras, de inclusão, de escuta e de afecto. “A nível do discurso do espectáculo, o ímpeto que nos levou a criar este projecto foi o de dar a conhecer a nossa voz dentro do panorama do teatro português e contrariar o silenciamento, de que muitos estrangeiros, especialmente os artistas, são vítimas. Eu e as actrizes partilhamos a mesma condição de estrangeiro, uma condição que muitas vezes nos coloca num lugar de subalternidade e constante luta pela aceitação. A Marina Campanatti é Brasileira e minha colega do Mestrado. A Marisa Bimbo, apesar de ter crescido em Portugal, as suas raízes africanas muitas vezes são usadas como pretexto para ser colocada na condição do estrangeiro. E porque ambos somos artistas e conscientes do poder transformador da representatividade, decidimos fazer da nossa arte e deste projecto em particular uma forma de subverter a nossa condição de estrangeiro”.

Depois do ensaio aberto, a peça irá estrear na segunda quinzena de Dezembro, na sala Estúdio do Teatro da Rainha. “Uma oportunidade para a interacção, partilha e construção conjunta de uma dramaturgia polifónica e sensível à dor comum, a de nos sabermos contemporâneos da eterna espiral de injustiças e silenciamentos”, adianta Venâncio Calisto.

 

O processo de encenação e dramaturgia

 

O alguidar que chora ou as pedras que falam está a ser um grande desafio para Venâncio Calisto, com a particularidade de marcar uma nova etapa na sua carreira. Esta será a sua primeira encenação em Portugal, o que torna o projecto especial. “Desde o início deste processo procuro vincar a minha identidade artística, o mais importante para mim é conseguir comunicar as coisas como as sinto e de acordo com o meu universo estético. E isso não é uma tarefa fácil quando nos deparamos com um público e um movimento teatral diferente do nosso. A outra particularidade deste processo é de a produção textual acontecer em simultâneo com a construção do espectáculo. Está integrado no processo de construção da partitura cénica, serve de estímulo e orienta o trabalho das actrizes, e vice-versa. O que para mim é magnífico pois me permite ter acesso a diferentes universos e impulsos criativos, o que enriquece o texto e fortifica o sentido de pertença de todo o elenco”.

 

Neste processo criativo, Venâncio Calisto conta com o apoio da Casa Mocambo, que disponibiliza espaço para ensaiar e para apresentação pública sexta-feira. O trio de actores também conta com o apoio do Teatro da Rainha. Além das duas instituições, O alguidar que chora conta com o apoio à produção de Miguel Luís, moçambicano residente em Portugal.

 

A apresentação restrita ao público, sexta-feira, terá duração de 75 minutos (45 para performance e 30 para conversa).

 

 

A bio dos actores

Venâncio Calisto é actor, encenador e dramaturgo moçambicano. Formou-se em Teatro pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Trabalhou como Assistente Estagiário das disciplinas de Encenação e Dramaturgia na mesma instituição e como professor de Teatro no Colégio Educare. Reside em Portugal desde 2019, onde se encontra a frequentar o mestrado em Teatro e Comunidade na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa.

Em Portugal trabalha como dramaturgo e artista pedagogo no projecto Teatro ao Telefone, desenvolvido pelas companhias Teatro Umano e Teatro de Identidades dirigido por Rita Wengorovius. Em 2018, foi distinguido com o Prémio de Artes e Cultura da Mozal na Categoria de Teatro e ficou em primeiro lugar no concurso de Poesia “Ponte que liga vidas” Maputo – Katembe”, promovido pelo Centro Cultural Moçambicano Alemão (CCMA).

 

Marisa Bimbo é uma actriz portuguesa. Nasceu em 1992, no Botswana. É licenciada em Teatro/Interpretação pela Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Porto (ESMAE). Entre Novembro de 2015 e Junho de 2018, residiu em Maputo, lugar de encontro e conexão com as suas raízes africanas. Intuitivo e naturalmente cruzou-se com a dança, onde procurou exprimir-se nas danças tradicionais moçambicanas. No entanto, foi no universo da dança contemporânea que se diluiu. Teve a oportunidade de trabalhar com coreógrafos e bailarinos como Horácio Macuácua, Ídio Chichava, Janete Mulapha e a companhia de dança Culturarte Mozambique.

Integrou como bailarina a peça HÈVA, de Didier Boutiana (Ilhas Reunião), da companhia Cia Soul City, fruto de uma colaboração com o Centro Cultural Franco-Moçambicano, Maputo. Participou também como intérprete na peça teatral A crise, do colectivo (in)versos, inserida na programação do 4ºAndar, programação paralela do Festival Internacional de Dança Contemporânea – KINANI 2017.

 

Marina Campanatti é actriz formada pelo Teatro-escola Célia Helena (2013), graduação em cinema pela Universidade Anhembi Morumbi (2013). Tem uma Pós-Graduação em Arte-Educação e Sociedade pela Universidade PUC-SP. É mestranda em Teatro e Comunidade pela Escola Superior de Teatro e Cinema, Instituto Politécnico de Lisboa.

Actuou como professora de teatro no Colégio Beatíssima Virgem Maria (2012-2019) e no CCA Sinhazinha Meirelles (2013-2019). Actualmente, trabalha como artista-pedagoga no projecto Teatro de Identidades e Teatro Humano, coordenado por Rita Wengorovius. Integrante da Cia Novelo com o espectáculo de rua “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, direção Pedro Granato, contemplado pelo Circuito Sesc (2015) e Prêmio Zé Renato de fomento ao teatro (2016). Participou como actriz da peça “Diásporas”, de Marcelo Lazzaratto- Contemplada pela Lei de Fomento ao Teatro (2016) e com temporada no Sesc Pompéia (2017).

 

A poetisa, escritora, pintora e professora Sílvia Bragança morreu esta segunda-feira, aos 83 anos de idade, em Goa, quando se preparava para regressar a Moçambique.

 

Uma mulher extraordinária! Em poucas palavras, é assim como é descrita Sílvia Bragança, que, enquanto teve saúde, escreveu poesia, livros infanto-juvenis, pintou, deu aulas e afirmou-se como uma educadora apaixonada por crianças.

Aos 83 anos de idade, numa aldeia em Goa, Sílvia Bragança não resistiu a uma doença e, esta segunda-feira, perdeu a vida, numa altura em que se preparava para voltar a Moçambique. Não foi a tempo, devido à dificuldade de arranjar um voo neste tempo de COVID-19.

Sílvia Bragança nasceu a 4 de Outubro de 1937, em Goa, na Índia, e realizou uma grande obra em Moçambique. Além de artista, com exposições em Moçambique, Índia e Portugal, a viúva de Aquino de Bragança (que morreu no mesmo acidente que vitimou Samora Machel, em 1986) teve projectos de educação com crianças, ensinou na Faculdade de Educação e colaborou com o Museu Nacional de Arte. Sílvia Bragança é lembrada como uma pessoa interessada pelo que fazia, tendo deixado livros didácticos que ainda não foram impressos.

Como forma de homenagear Sílvia Bragança, às 18 horas desta quarta-feira será celebrada uma missa, na Igreja da Polana, na cidade de Maputo.

Entre as publicações de Sílvia Bragança constam: A quem a minha vida, a vida deu? (Maputo, Imprensa Universitária, 1998), Aquino de Bragança, batalhas ganhas, sonhos a continuar. (Maputo, Ndjira, 2009) e Sonho da lua (Brasil, 2015). “Nesta preciosa obra, da série Vozes da África, a escritora Sílvia Bragança, com vasta e profunda vivência em Moçambique, nos oferece dez poemas infantis sobre o universo, apresentando às crianças o mundo que está ao seu redor, visível ou não. As ilustrações da brasileira Amanda de Azevedo enriquecem ainda mais as pequenas joias poéticas de Sílvia sobre a lua, o vento, a chuva, o elefante, a aranha, as flores, os pássaros, o arco-íris e outros elementos da natureza”, destaca a editora Kapulana, que lançou o livro no Brasil.

Sílvia Bragança deixa dois filhos.

 

Um poema de Sílvia Bragança

O meu pensamento

 

O meu pensamento voa veloz,

Ultrapassa o vento, a chuva, a corrente.

Introduz-se no magma da terra,

Invade as lavas de um vulcão,

Dorme nas cinzas incandescentes.

 

Como uma broca perfura o mais duro diamante.

Descansa junto de um terno coração.

Brama no cérebro terrificante,

Produtor da máquina da morte.

Brinca com os algarismos…

Transforma-os em números

Que se vão multiplicando até ao

Infinito.

Subtrai-os, divide-os,

Encontra sempre um pouco para cada um.

Jamais encontra o nada…

Perdura através de TODOS na eternidade.

Descobre a Paz na guerra.

Existe no MUNDO!

 

In: Sonho da lua.

Enquadramento legal dos artistas – que sustentabilidade a nível de segurança Social? é o tema de debate virtual que se vai realizar logo à noite, entre 18h30 e 20h30, na plataforma Zoom Cloud Meeting e transmitido em directo para a página do Facebook do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

O debate contará com a participação de representantes da SOMAS – Sociedade Moçambicana de Autores, do Instituto Nacional de Segurança Social, do Seguro Social, do músico e jurista Aniano Tamele, do Ministério da Cultura e Turismo, do Gabinete Jurídico e da Autoridade Tributária.

Com o debate, adianta a nota do CCMA, pretende-se fazer uma reflexão sobre a situação dos artistas no que diz respeito à sua situação de segurança social.

Esta é uma iniciativa do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA) em coordenação com o jornalista cultural Frederico Jamisse.

A intensificação dos ataques na Zona Centro do país está a deixar os transportadores interprovinciais desesperados. Só no passado domingo foram quatro autocarros e dois camiões atacados por homens armados, em Sofala, facto que causou a morte de duas pessoas e o ferimento de 8.

No terminal rodoviário interprovincial da Junta, “O País” interpelou Nelson Florindo. Cobrador de um autocarro que faz o troço Maputo-Chimoio há 12 anos contou que os dias estão cada vez mais difíceis.
“Este negócio já não dá dinheiro. Na última viagem de Chimoio para cá, viemos com apenas 15 passageiros. Isso faz com que tenhamos dificuldades básicas de abastecer o autocarro”, lamentou Florindo para depois acrescentar que “vivemos dois dilemas. Se antes eram apenas os ataques que retraiam os passageiros, agora temos a COVID-19 que veio agudizar a situação. Temos notado que tendencialmente viajam passageiros que têm compromissos inadiáveis como casamentos e funerais. As poucas pessoas que viajam têm medo, porque ninguém quer morrer”, contou.

Sobrevivente em dois ataques em 2014, Florindo recordou de um que não lhe sai da cabeça.

“Estávamos numa coluna, de repente, ouvimos os tiros. No autocarro que nos seguia houve uma morte e no nosso um ferido. Foi aterrorizante, são memórias que não me saem da cabeça. Agora voltamos a ter escoltas, mas ainda não sofri ataque, graças à Deus”, confortou-se.

Pai de 8 filhos, Florindo confessou que não pensa em abandonar a actividade porque não tem outra fonte de rendimento.

“A minha família, os meus filhos vivem preocupados. Mas que posso eu fazer, dependo desse negócio para alimentar a eles. Se seu deixar de trabalhar será difícil ter outra fonte de renda para garantir o sustento da minha família. Se o meu destino é ser morto num desses ataques não tempo como impedir. Às vezes os meus filhos dizem papá não vai, mas eu não tenho como ficar porque eles precisam comer, eu preciso trabalhar e o único trabalho que tenho é este”, entristeceu.

Gestores da “junta” dizem que negócio corre risco de colapsar

Reagindo aos últimos ataques, a gestão do terminal rodoviário interprovincial da Junta descreveu a situação como sendo crítica.
“Posso dizer que o nosso esforço está reduzido a zero. Não temos passageiros que nos satisfaçam. A situação está crítica, mas o que não posso lhe dizer é até quando vamos conseguir suportar o negócio”, introduziu Gil Zunguze, adjunto chefe do terminal, para depois descrever o drama vivido pelas empresas de transporte.

“A cada ataque que sofremos é um bem que está a ser danificado e o número de passageiros transportados não compensa esses prejuízos. Maior parte destes carros foram adquiridos através de créditos bancários, associados às despesas dos ataques, os donos das empresas têm que pagar a dívida que têm com os bancos. A banca não quer saber se o carro foi atacado ou queimado naquelas circunstâncias, eles querem o dinheiro deles de volta. Acho que chegaremos ao extremo de não ter carros para colocar as pessoas a viajar porque a situação não está boa”, reiterou.

Segundo Zunguze, clima de insegurança está ter impacto noutras rotas onde não se registam ataques.

“Do jeito que os atacantes actuam quem nos garante que não chegarão a Inhambane ou a outros locais?, questionou para depois acrescentar que “as pessoas têm medo de viajar. Vive-se num clima de insegurança, ninguém quer se arriscar e isso tem graves impactos na nossa actividade”, lamentou para depois lançar um grito de socorro.
“Pedimos ao nosso Governo que faça algo para acabar com esta situação. Porque merecemos paz, merecemos circular livremente no nosso país”, concluiu.

Devido à intensificação dos ataques, os autocarros não conseguem atingir metade da sua lotação.

 

Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.

José Craveirinha, excerto de “Grito Negro”,

in “Karingana Ua Karingana

Na nebulosa tarde de 19 de setembro a cidade de Lisboa testemunhou a inauguração da mais recente exposição de fotografia de Mauro Pinto, um dos mais célebres fotógrafos moçambicanos do nosso tempo. “Blackmoney”, que numa tradução literal, podemos chamar de “dinheiro negro”, é o título desta narrativa visual, profundamente imersiva, em torno das aterradoras condições de trabalho em que são sujeitados centenas de garimpeiros das minas de carvão mineral na província de Tete.

Em “Blackmoney”, patente na Galeria 111 até o dia 09 de novembro, do corrente ano, Mauro Pinto leva-nos ao encontro da dignidade humana insubmissa à violência e à dureza do trabalho nas minas. A partir de figuras e fragmentos de corpos talhados pelo sofrimento e pela desolação, o fotografo denuncia as novas formas de opressão humana, numa sociedade em os mais pobres, pelo imperativo da sobrevivência, continuam a ser as maiores vítimas.

A propósito da dimensão política desta série, José Silvério, na nota de apresentação da exposição comenta o seguinte: “são sinalizações da acção coerciva de políticas e intervenções empresariais que vão subtraindo, ali e noutras áreas do mundo, a sustentabilidade, a cultura e a dignidade humana como força necessária ao trabalho nas entranhas da terra.” De acordo com esta perspectiva, podemos conceber esta exposição como sendo uma crítica, pertinente e incisiva, sobre as desigualdades sociais, transversais a todos lugares e povos, que ameaçam continuamente, em nome do lucro, sobrepor a humanidade.

Ao entrar na Galeria 111 somos logo confrontados por uma pirâmide de luz a emergir do fundo de uma mina de carvão. É o grande monstro mineral que nos fulmina com o seu olhar faminto de sorver o suor dos homens. Nesta primeira fotografia, que leva o título de “Vortex” (2017, impressão a jacto de tinta, papel archival fine art baryta, 80×120 cm) é o portal do desconhecido que se abre e nos convida a percorrer as suas tenebrosas entranhas. No centro da pirâmide florescente vemos dois garimpeiros que se cruzam, um que entra e outro que sai, o ciclo da vida sintetizada numa imagem de uma beleza violenta, como sabem ser as grandes obras de arte.

No interior da gruta somos recebidos por altivas figuras e fragmentos de corpos humanos, uma aparição a emergir da lente certeira do fotógrafo. O encantamento e a estupefação são inevitáveis, pois é do contraste entre o belo e a violência, entre a plenitude e o assombro que se alimenta o discurso pictórico desta serie, que vem sublinhar a maturidade artística e o engajamento político de Mauro Pinto.

As 17 fotografias que compõem esta exposição formam uma espécie de coro do silêncio. Um grito abafado que reverbera no interior de cada um de nós. Um grito que é a extensão de todos gritos ancestrais e saídos das gargantas dos milhares de operários que se ergueram contra a opressão e a exploração do Homem pela máquina do capital.

Apesar do céu nublado de Lisboa e contra todas as limitações destes tempos de pandemia, centenas de pessoas acorreram à Galeria 111 para prestigiar o excelente trabalho de Mauro Pinto. Dentre os visitantes da exposição, para além do público lisboeta, curadores e artistas, destaca-se a ilustre presença do escritor Mia Couto e do escultor Gonçalo Mabunda. Motivo para dizer que Moçambique esteve com o Mauro Pinto, neste momento especial da sua carreira e de exaltação da nossa arte, além-fronteiras.

As exposições individuais do fotografo Mauro Pinto datam do ano de 2002, sendo esta a sua a oitava. Já participou em mais de dezasseis exposições colectivas, em diversas galerias e festivais do mundo. E ao longo da sua carreira foi galardoado com importantes prémios de fotografia à nível nacional e internacional, onde se destacam os prémios Bes Photo (2012, Lisboa, Portugal) e prémio Ricardo Rangel – Fundac, Maputo, Moçambique.

Um comunicado da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) avança que estão em curso as primeiras acções para a constituição da Academia Moçambicana de Letras, uma iniciativa daquela agremiação. Com esse propósito, realizou-se na passada terça-feira, na sede da AEMO, na cidade de Maputo, o primeiro encontro da Comissão Instaladora, que integra intelectuais de diversas áreas das letras, nomeadamente o médico e escritor Hélder Martins, que preside a Comissão, Gilberto Matusse, Pesquisador e Professor de Literatura na Universidade Eduardo Mondlane, o poeta e sociólogo Luís Cezerilo, o filósofo José Castiano, o jurista Esaú Cossa, os académicos Teresa Manjate, Lucílio Manjate e Sara Jona, pesquisadores e professores de literatura.

De acordo com a nota da AEMO, os oito membros da Comissão Instaladora têm como missão criar condições formais e materiais para o funcionamento da Academia Moçambicana de Letras, com destaque para formulação de critérios de admissão de membros, os seus objectivos e campo de actuação na sociedade moçambicana.

A Comissão Instaladora da Academia Moçambicana de Letras é independente no seu funcionamento, diz a nota da AEMO, sendo que num prazo de 90 dias, a entidade que a constitui deverá apresentar as bases para a instalação da Academia Moçambicana de Letras.

Cerimónia de lançamento do primeiro livro de Lex Mucache irá realizar-se na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos, quinta-feira, em Maputo

Asas decepadas é o título do livro de estreia de Lex Mucache. A colecção de 19 contos será apresentada ao público numa cerimónia a realizar-se a partir das 18 horas de quinta-feira, na Associação dos Escritores Moçambicanos, cidade de Maputo.

Em termos de universos da história, o livro de Lex Mucache – cujos contos foram escritos entre 2017 e 2019 –, varia entre a vida urbana e rural, explorando uma série de situações quotidianas, na qual se mesclam desejos, paixões, vitórias e fracassos das personagens. Entre as 19 histórias que compõem as 65 páginas do livro constam “Asas decepadas”, que dá título ao livro, “Sofia”, “Sonho”, “Movimento”, “O retrato milagroso de Ben Mabunda”, “Moya”, “A mãe” e “Os mediadores”. Entretanto, para o autor, dois são os contos mais significativos: “Pascoal” e “Sofia”. O primeiro porque narra a história do seu falecido pai. Na verdade, antes deste projecto literário, Lex Mucache quis escrever um romance inspirado na história do senhor Pascoal. Depois de uma série de revisões e conselhos decidiu optar pelo conto. A segunda narrativa significativa para o escritor é “Sofia”, porque, de certa forma, retrata alguns dos seus conflitos no complexo papel de pai. E esta é uma história que o liga ao seu progenitor.

O livro é publicado sob a chancela da Kulera. Na percepção desta editora, com a proposta literária Lex Mucache tem o propósito de descortinar as tentações da vida com incidência nos desejos que movem as pessoas.

Na AEMO, Asas Decepadas será apresentado por Pedro Muiambo e a cerimónia de apresentação terá um momento musical com a banda 2/4+1.

Lex Mucache é o pseudónimo de Heráclito Mucache. O autor nasceu na cidade de Maputo, em 1980. É Professor e desenvolve actividades de leitura e escrita criativa nas escolas primárias. Tornou-se membro do Movimento Literário Kuphaluxa, onde passou a escrever para o jornal digital Literatas. A obra Asas decepadas foi finalista do prémio literário 10 de Novembro de 2019.

Na cidade de Tete, decorre uma capacitação de técnicos culturais, afectos ao Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas – INICC, à Direcção Provincial da Cultura e Turismo – DPCT, ao Instituto de Investigação Sociocultural – ARPAC, à Biblioteca Provincial e da Casa da Cultura.

Na capital provincial, de acordo com o Ministério da Cultura e Turismo, cerca de 60 técnicos beneficiaram da capacitação sobre o ciclo de gestão de projectos culturais e candidatura à financiamentos de projectos culturais. A capacitação decorre no Hotel Zambeze, até 20 de deste mês, e é orientada por Eugénio Santana, da Direcção Nacional das Indústrias Culturais e Criativas.

Esta actividade do Ministério da Cultura e Turismo acontece numa altura em que a Ministra Eldevina Materula encontra-se naquela província de Tete, numa jornada de trabalho.

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