O País – A verdade como notícia

A realização de Binho Nhazua é intitulada A força da natureza e retrata os danos causados pelo Ciclone Idai, no Centro do país. A curta-metragem tem cinco minutos de duração e foi a grande vencedora do Concurso de Curtas-metragens Shortcutz, semana passada.

Dois anos depois de o Ciclone Idai ter arrasado a região Centro do país, Binho Nhazua decidiu avançar num projecto cinematográfico que procura homenagear as vítimas daquela calamidade natural. A decisão, na verdade, surgiu quando o realizador ficou a saber da primeira edição do Concurso de Curtas-metragens Shortcutz, apoiado pelo Camões – Centro Cultural Português e pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão. Assim, Binho Nhazua reuniu o elenco e todos puseram-se a projectar a curta-metragem intitulada A força da natureza.

Produzida pelo Grupo Mangues Films, com efeito, a curta-metragem é baseada em factos reais, retratando a situação dramática do Ciclone Idai, que se fez sentir no Centro do país em Março de 2019. A ideia do realizador foi aglutinar em poucos minutos parte do que a intempérie representou para os moçambicanos: “Com duração de cinco minutos, conseguimos trazer uma reflexão daquilo que foi o fenómeno natural, sobretudo na Beira, no Búzi e em outros distritos de Sofala”.

A força da natureza foi rodada em um dia. Depois disso, seguiu-se a utilização de imagens de arquivo num sincronismo com a realidade.

O elenco da curta-metragem conta com três actores, nomeadamente, Simão Sande, António Gavumende e Dércio Gadiel. As câmaras foram ‘comandadas’ por Manuel Sequisse e Jorge Sande, tendo como cinegrafista Ester de Vontade. Portanto, Binho Nhazua realizou e editou o filme.

Na primeira edição do Concurso de Curtas-metragens Shortcutz, A força da natureza distinguiu-se como a melhor do evento. “Para nós, é um grande prémio, porque nos vai ajudar a melhorar a qualidade das próximas curtas-metragens”.

Por ter vencido o concurso, Binho Nhazua recebe um mini-drone profissional e um certificado.

Binho Nhazua é natural da Cidade Beira, cineasta e sonoplasta. O seu primeiro filme é intitulado Comunidade em pânico e já trabalhou para as seguintes mini-séries: Casal em casa e As Matabitas.

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Cheetah trepou para o topo do morro de muchém.

Olhou ansiosamente os tandos que a circundavam em busca do mais leve movimento. Nada agitava o capim. Nem sequer o vento. Para onde tinham ido as manadas de búfalos, das impalas, dos gnus? Cogitou o estranho sumiço dos antílopes, javalis e até dos coelhos.

Já tinha perdido a conta às luas que se alternavam com o esbraseador sol sem ter conseguido caçar o mais parco alimento. Também nunca mais viu qualquer outro companheiro da sua espécie e diga-se, que das outras também não, com excepção dos incansáveis necrófagos.

Será que teria de fazer como as kizumbas, marabus e abutres? Se alimentar de carne morta?

Mas nem isso tinha conseguido, insatisfazendo a sua fome, que lhe colava as costelas à pele e fazia seu estômago rosnar. O seu corpo dantes esbelto, musculoso e esguio apresentava uma magreza insana e o seu pelo dourado salpicado de belas manchas, tinha perdido todo o seu brilho. Pulgas e carraças pelejavam ferozmente pelo pouco sangue que lhe restava.

Quando via no ar os círculos vagarosos dos abutres sabia que alguém tinha tombado. Mesmo pressurosamente se apressando, quando chegava ao local, só ossos havia para disputar. As carcaças estavam limpas. Apenas crânios desdentados dos outrora majestosos paquidermes e esqueletos dispersos pelo chão. Suas presas há tempos tinham sido cortadas. Tal como os cornos dos poderosos perissodáctilos e suas peles desaperecidas.

Os deuses estavam zangados. Tinham lançado estranhos trovões que abriam crateras na terra e secavam os lagos e poças de água onde habitualmente se dessedentava. O sol, qual pústula sangrenta, teimosamente se erguia, diariamente, no céu coberto de espessas nuvens cinzentas. Insistia em gretar ainda mais a terra exangue de vida.

Cheetah se interrogava. Que tinham feito os animais para merecer tamanho castigo?

Não eram os trovões habituais do verão, assustadores é certo, mas não mais do que isso, porque sabia que prenunciadores da chuva abençoada que refrescava o corpo e fazia crescer o capim, camuflagem perfeita para as caçadas. Acompanhados das cintilantes luzes feéricas que iluminavam os tandos e por vezes faziam arder archotes nas árvores. Aqueles diferentes, traziam outra chuva, muito estranha, que não molhava mas incandescia, de cinza negra de cheiro pestilento e de sabor acre. Onde caiam, tudo despedaçavam, até os enormes rochedos.

As sombras benignas também não abundavam. As antigas florestas, em tempos exuberantes, tinham praticamente desaparecido. Escutava com frequência ruídos misteriosos, mais fortes que os rugidos do majestático leão e notado ao longe as árvores se abatendo. Resguardava-se prudentemente em local seguro, afastada do estrépito dos troncos tombando. Quando tudo se aquietava, voltava para observar o que teria sucedido. Tinham somente restado tocos do outrora frondoso arvoredo de pau-preto, pau-rosa, ébano, nkula, sândalo e até das árvores-de-fruto, mafurreiras, mangueiras, canhoeiros, maçaleiras.

Cansada mas ainda de sentidos apurados, ouviu subitamente um restolho na erva. Divisou um esquálido láparo que tinha ousado sair da toca. Deu o melhor de si numa louca e frenética corrida mas o esquivo coelho conseguiu esgueirar-se e perdeu-o de vista.

Esgotada Cheetah, estirou-se no capim seco.

Olhou para o céu e viu os bandos de abutres e marabus circunvolteando lá no alto por cima do seu corpo estendido.

E então compreendeu.

Aquela tinha sido a sua última corrida.

 

Cascais, 21 de Julho 2021

A escritora acusou, esta sexta-feira, na Cidade de Maputo, a editora Ndjira de se apoderar dos seus livros e de os imprimir sem o seu consentimento. Paulina Chiziane rescindiu o contrato com a Ndjira em 2011.

Semana passada, Paulina Chizina ‘passeou’ pela Cidade de Maputo e, inevitavelmente, passou por uma livraria. Ao entrar, viu que lá estavam à venda alguns livros seus, editados pela Ndjira. Até aí, parece tudo normal. Mas não é, afinal, em 2011, a autora de O sétimo juramento rescindiu o contrato com aquela editora por causa de algumas questões com as quais não se identificava. Por exemplo? “Balada de amor ao evento é um livro com 30 anos. Nunca a editora se lembrou de sentar com a autora para perguntar se precisa de rever alguma coisa. Os outros livros, de vez em quando abro e leio e descubro que há algumas alterações daquilo que foi por mim escrito. Então, o livro que está a sair de quem é?”

A pergunta da escritora é retórica, mas a indignação é bem real, tão real que Paulina Chiziane resolveu denunciar o que define como um desrespeito ao seu trabalho, pois, 10 anos depois do contrato rescindido com a Ndjira, as obras pela autora escritas continuam a serem impressas pela editora sem o seu consentimento. Assim, ano passado, Paulina Chiziane voltou a “gritar e a dizer basta!’. Segundo disse, esta sexta-feira à noite, sentada em sua casa, na Cidade de Maputo, não a querem ouvir e, por isso, os gritos a plenos pulmões. “Não me informam de nada. Como é que uma editora chamada Ndjira apodera-se de um trabalho que é meu?”

A segunda pergunta retórica de Paulina Chiziane serviu, nessa ocasião, para a contadora de histórias fazer uma pausa, como que a puxar o ar para serenar as emoções. Como escritora que é, Paulina segurou uma esferográfica de tinta azul e, num caderno preto de capa dura, pequeno, daqueles que os meninos utilizam na escola secundária, pareceu escrever algumas linhas. Não passaram de duas. A seguir, voltou à carga, dessa vez, para convocar mais uma entidade à conversa: o Governo. “Não tem o controlo sobre nada. Que eu saiba, os nossos textos fazem parte dos livros escolares. Não me recordo de um dia ter ouvido um escritor moçambicano dizer ‘que recebi alguma coisa pelo facto de o meu texto ser sido publicado num livro escolar’. Mas, numa conversa que tive com um ministro da Educação, fiquei a saber que existe esses acordos em pagamentos. Então, para onde vai o dinheiro que o Estado dá às editoras para se produzir o livro escolar com os textos do autor?”.

Sem resposta, Paulina Chiziane entende que os escritores são tratados como marginais. “Mas nós trabalhamos e alguém está a ganhar com isso”.

À pergunta por que coloca esta questão agora, na imprensa, Paulina Chiziane lembrou que tem mais de 30 anos de carreira. “Se sou tratada assim, como é tratada uma escritora ou um escritor que acaba de surgir? Não estou feliz com o que se passa com algumas editoras moçambicanas e, concretamente, com a Ndjira. Porquê me ignoram? Porquê usam o meu trabalho. Quer dizer, o meu nome está no livro, mas eu nem tenho a garantia de que o que está no livro fui eu que escrevi. Há aqui um problema que precisa de ser resolvido com muita urgência. Vivemos dificuldades, mas somos trabalhadores. Nós recolhemos a memória de um povo e fazemos a arte”.

E a pergunta que não quis calar? A Ndjira cumpre com os pagamentos dos direitos do autor? “Eles de vez em quando mandam umas coisas que chamam de mapas de venda. Mas o que eu sei sobre isso? O que me garante que aquilo que dizem ser, é? Por isso optei em ter o controlo sobre o meu trabalho, em 2011. Quando eu digo que não, lá estão eles a reeditar. Aliás, nem é reeditar. Aquilo é reimprimir. Quem os autorizou a reimprimir aquilo que é meu? Não sei dizer. Estou desapontada e peço ao Ministério da Educação, ao Ministério da Cultura e aos artistas para intervirem em defesa de quem trabalha na cultura”.

Além de sublinhar que há mais de 30 anos que não sabe o que é receber um pagamento pela publicação de um texto seu num livro escolar, Paulina Chiziane lembrou que o livreiro ganha, o estado desembolsa e o produtor (escritor) fica a pedir esmola. Farta disso, a escritor também ‘gritou’ para que os novos autores não atravessem esse caminho sinuoso que dura uma vida.

 

A REACÇÃO DA NDJIRA

A Ndjira respondeu às questões com rapidez e clareza, quando contactada para reagir à indignação de Paulina Chiziane. Numa chamada telefónica, o representante da editora, Pedro Macedo, reconheceu o problema apresentado pela escritora, pediu desculpas em nome da Ndjira e prometeu a editora vai resolver a situação de modo satisfazer a reivindicação de Paulina Chiziane.

Exposição fotográfica De: catchupa para: matapa foi inaugurada esta quinta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. A mostra ao ar livre junta trabalhos de 10 fotógrafos e pode ser visitada até próximo mês.

Catchupa até pode parecer uma palavra estranha para muitos moçambicanos. No entanto, quem já saboreou a gastronomia cabo-verdiana deve saber que, na verdade, catchupa é o nome de um prato característico daquele arquipélago, contendo carne ou peixe que se mistura com feijão e milho estufado. Claro está, a explicação é desajeitada, mas isto é tudo menos um artigo sobre receitas ou coisas assim. Na verdade, o termo aparentemente crioulo é para aqui convocado por catchupa é parte do que os fotógrafos moçambicanos ‘servem’ na colectiva patente nas grades exteriores do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo.

Ora, para os que não gostam ou não pretendem experimentar a catchupa, provavelmente por ser um prato exótico, ‘malta’ Mauro Vombe, Nuno Silas, Yassmin Forte, Edilson Tomás, Emídio Jozine, Vladimir Sousa, David Aguacheiro, Tina Krüger, Filomena Mairosse e Silasse Salomone, que nem são cozinheiros, também ‘servem’ outro prato. Mas esse é bem mais familiar para os moçambicanos: matapa. Ou seja, De: catchupa para: matapa sugere algo gastronómico e com algum movimento. No entanto, esse é o título da exposição fotográfica que pode ser visitada até próximo mês.

A colectiva fotográfica resulta de residências artísticas designadas Catchupa factory – novos fotógrafos e é realizada pela Associação AOJE, de Cabo Verde. As residências incluem fotógrafos e artistas em ascensão dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O objectivo da residência é incentivar a criação artística, afirmando-se como uma rede com mais de 40 criadores africanos.

Ao fim de cinco anos participando, cada um no seu momento, os fotógrafos moçambicanos que integram a iniciativa decidiram apresentar parte do que experimentaram em Cabo Verde. Quem sabe, assim, a catchupa deixa der algo estranho para quem está habituado a comer matapa? Yasmin Forte não respondeu à pergunta que a ela não foi colocada. Além disso, esta quinta-feira, durante a abertura da exposição, explicou: “Em cada uma das cinco edições do Catchupa factory, participou pelo menos um moçambicano. O que nós fizemos foi trazer um pouco do trabalho de cada um desses fotógrafos. Este é o resumo do que foi feito nessas residências”.

Conforme entente a curadora Forte, expor as obras ao ar livre dá aos fotógrafos a capacidade de chegarem a muita gente, incluindo àquela que, de outro modo, não iria ao Franco-Moçambicano para visitar a colectiva. Quem também pensa assim é Tina Krüger: “É muito bom ver como é que diferentes pessoas, que trabalharam em anos diferentes, apresentam os seus pontos de vista. Temos aqui nesta exposição muitas particularidades do que encontramos na Ilha de São Vicente. E a ideia dos curadores apresentarem as obras nas grades exteriores é muito bonita e deve continuar a acontecer mesmo depois da COVID-19”.

Para Filomena Mairosse, outra fotógrafa, a ideia da exposição nas grades exteriores é igualmente bonita porque constitui uma forma de os integrantes interagirem com a cidade e com os munícipes de uma forma mais aberta.

Assim, a qualquer altura, até 12 de Setembro, os apreciadores da fotografia podem visitar a colectiva nas grades exteriores do Franco. Aí entenderão a outra metáfora por detrás da catchupa e da matapa.

Por: Edna Matavel

 

Tudo começou quando o cadáver do mordomo foi enterrado ao redor da casa (dlhekene). O que a família não sabia é que a sua paz também estava sendo enterrada.

Os mortos reclamam, os mortos têm desejos, e, quando eles decidem, nem mesmo os grandes maziones têm poder sobre eles. Os nossos antepassados tiraram a vida daquele pobre coitado sem pensar na geração vindoura. Nós vimos a morte aproximar-se como se fosse um galo cacarejando a madrugada, mas aquela era a morte mais atípica, porque se cumpria a vontade daquele cadáver, quando em surdina, dizia: Eu levarei um a um. O vosso sangue servirá de vingança pela minha morte. E quando chegar a vez, levarei a todos para que ninguém sobre a testemunhar, até mesmo a geração futura dessa miserável família.

Os meus antepassados morreram como se fosse um recrutamento. Antes mesmo de darmos o devido choro, mas um atravessava a fronteira da vida, como se fosse um campeonato de atletismo. Do mesmo jeito que um ladrão invade uma residência, assim era a morte para a família, ela só entrava e somente ouviam-se os gritos (nhandayeyos). Até mesmo os vizinhos conheciam os gritos da nossa desgraça.

A morte dói, mas nós não mais sentíamos essa dor. Ela fazia parte de nós, entrava e saia quando bem entendesse.

E hoje, depois dela ter chamado os nossos antepassados, é a vez da outra geração (nossa geração) entregar o seu sangue em obséquio da felicidade e realização de um defunto que nem sequer o vimos respirar.

Que culpa temos de ter nascido nesta família amaldiçoada? Até quando pessoas inocentes irão sacrificar suas vidas para se cumprir a vingança de um cadáver, porah?! Nascemos para a desgraça… Não temos o privilégio de viver e conhecer a nossa geração. Estamos amarrados à velha.

São noites mal dormidas, pensando em como e quando será a vez de cada um. Nem mesmo os sonhos mais profundos e estupendos tínhamos mais por conta dessa estranha paixão que a morte despertou por nós. Nas madrugadas, debaixo da fogueira, entre irmãos e primos, fazíamos promessas: Se eu for primeiro, não chorem porque do mesmo jeito que os nossos pais partiram para o além, assim partiremos. Enquanto os mais fracos derramavam lágrimas de dor, os outros iam debaixo das árvores para fazer o ritual khupalha para ver se algum antepassado falava pela boca de um vivo, mas nem eles tinham mais poder sobre nós, eles foram bloqueados. Noites de lamentações, até que um mazione conseguiu desvendar o real motivo e a solução para tamanha desgraça.

O espírito proferiu as seguintes palavras pela boca do mazione: Vocês foram amaldiçoados por conta dos pecados dos vossos antepassados. Como forma de vingança, morrerão. A morte de um será aviso de mais uma morte. Mas se fizerem uma casa para mim e me darem um marido para me servir durante a noite, farei tudo diferente, até mesmo riquezas poderão adquirir.

Oh! Mas quem aceitará entregar sua carne e ser chamado marido do defunto, entregar a sua vida e juventude para salvar a família?

E aí tudo começou a mudar. Havia muita discrepância porque cada um queria viver a sua própria vida, longe da desgraça. Foi aí que outros viram a oportunidade de sacrificar o sangue do seu irmão para lançar azares, outros até obtiveram riquezas com o sangue do seu sangue. Outros questionavam se todas aquelas mortes ainda seriam motivadas pela morte do mordomo ou havíamos herdado uma índole assassina, desgraças! Já que é fácil enriquecer com o sangue da família, vou ao curandeiro sacrificar o sangue do meu irmão, outros vão pensar que é normal porque ela vem desde os primórdios, que se danem os maziones.

Enquanto uns mandavam fumar os maziones, nós outros abraçamos a doutrina dos nossos antepassados (zione) e nunca confiamos nos curandeiros porque nem mesmo eles os confiaram em vida. Um dia depois, decidimos ir às campas (matunene) dos nossos, para tentar fazer um pequeno ritual. Desta vez, levamos até à bebida tradicional (xindere) para que eles ficassem jubilantes, mas não tínhamos certeza se eles estavam aptos a responder. Invocamos todos eles e houve um súbito vento em que as folhas das árvores caíram sobre nós. Sem entender, ficamos debruçados diante das campas e entre abraços e choros confiamos que um dia eles pudessem nos proteger de tanta maldição.

Nós conhecemos a paixão da morte, aquela que não pedia permissão, mas com o latejar do coração entrava, descansava e levava o que lhe pertencia a alma.

 

A actriz, produtora e realizadora, Hermelinda Simela, morreu esta terça-feira, no Hospital Geral José Macamo, em Maputo, depois de complicações durante o serviço de parto.

 

No minuto 69 do filme Comboio de sal e açúcar, uma personagem dá à luz uma menina durante um tiroteio. Guerra. Na impossibilidade de ser levada a um hospital, rapidamente, algumas mulheres a rodeiam com capulanas estendidas e impedem que os homens vejam o que não devem. 19 minutos depois, numa linha férrea há uma explosão violenta e, por consequência da bomba ou de uma bala que a atinge no peito, a personagem, ainda a gozar a emoção da maternidade, morre e a recém-nascida acaba nos braços da protagonista da história.

O filme de Licínio Azevedo estreou na Cidade de Maputo em 2017. Quatro anos depois, a mulher que interpretou o papel da personagem que morre naquele episódio do filme Comboio de sal e açúcar não resiste às complicações de saúde causadas durante o parto. Foi isso o que aconteceu a Hermelinda Simela. A realidade quase que imitou a dura ficção e, por volta das 18h ou 19h desta terça-feira, no Hospital Geral José Macamo, na Cidade de Maputo, a actriz, produtora e realizadora partiu, mas protegeu a filha que goza de boa saúde até ao limite das suas forças.

A notícia do falecimento de Hermelinda Simela chocou os actores, encenadores e os artistas em geral. Alvim Cossa, colega e amigo de longa data, disse, esta quarta-feira, que Moçambique perdeu uma grande actriz de palco, uma produtora notável, responsável pelo sucesso de muitos eventos realizados no Centro de Teatro do Oprimido (CTO). “E ela foi uma grande coringa, montou espectáculos e, por detrás daquela actriz, estava a financeira do CTO”. Por isso, Alvim Cossa salienta, “o país perdeu uma mulher forte, resiliente, mãe exemplar e, acima de tudo, um motor dos nossos sonhos. A Hermelinda impulsionava as pessoas do teatro e criava oportunidades para que os actores tivessem êxito”.

“Morreu a minha actriz. Estávamos a trabalhar juntos no Nhinguitimo. Essa notícia chocou-me muito”, disse Licínio Azevedo.

Com apenas 38 anos de idade, a filha de António Simela e Ancha Mopeia partiu, mas deixou uma irmãnzinha para Malaica (a filha mais velha com 10 anos de idade) e mais uma filha para Adriano Cossa, o marido que, agora, tem de viajar de Tete para vir sepultar a mulher que amou.

Hermelinda Simela nasceu a 7 de Outubro de 1982, em Nampula. Já em Maputo, ajudou a fundar o grupo Centro de Teatro do Oprimido. Como actriz, trabalhou em todo o país, ora formando actores, ora dando voz ao teatro e/ou ao cinema. Igualmente, trabalhou fora de Moçambique. Por exemplo, no Brasil, nos Países Baixos, na Alemanha, na Índia e em Espanha.

Para trás, Hermelinda Simela deixa contribuições de peso nos filmes Virgem Margarida (que a permitiu ser distinguida com o prémio Melhor Actriz Secundária no Africa Movie Academy Awards), Comboio de sal e açúcar, Nhinguitimo (em pós-produção), de Licínio Azevedo, e Mosquito, do português João Nuno Pinto. Este ano, o filme Fénix em hibernação, realizado por Hermelinda Simela, foi premiado como Melhor Curta-metragem no concurso do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

Hermelinda Simela partiu…

 

 

 

 

O locutor do programa de rádio Hip-Hop Time, rapper e DJ, Hélder Leonel, vai participar no debate internacional sobre Rap e liberdade de expressão. A sessão, inserida numa conferência que se vai realizar em Setembro, está marcada para esta quarta-feira, a partir das 18 horas de Maputo.

 

O Activisms in Africa promove, esta quarta-feira, o debate “Rap e liberdade de expressão: há espaços para apresentar livremente o Rap e o activismo nos países africanos?”. Para a sessão que vai acontecer de forma virtual foram convidados autores africanos e brasileiros, entre eles o consagrado Hélder Leonel.

Assim, a transmissão do debate sobre Rap e a liberdade de expressão está prevista para 18 horas Moçambique, através do canal do Youtube do Centro de Estudos Avançados (CEA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A terceira conferência internacional “Actitivisms in Africa”, que antes seria sediada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) campus Recife, será agora inteiramente online diante da crise sanitária de coronavírus. Seja como for, a conferência virtual está marcada para os dias 14, 15 e 16 de Setembro de 2021. No entanto, como preparação para o evento, ocorrerão debates de diferentes temáticas a cada mês precedente à data de realização, como é o caso de “Rap e liberdade de expressão: há espaços para apresentar livremente o Rap e o activismo nos países africanos?”.

“A luta pela liberdade de expressão representada dentro do Rap africano por meio da contestação à regimes fechados e convocação para manifestações sociais é o enfoque principal do debate, que acontecerá no dia aniversário de 48 anos do Hip-Hop, já que o Rap está inserido na cultura Hip-Hop. Os convidados à participar da quinta mesa do evento são artistas residentes de alguns países, nos quais casos de censura, repressão e prisões ocorreram. Esses artistas irão abordar as possibilidades de expressão nesses locais”, lê-se na nota do evento.

No debate desta quarta-feira irão participar, além de Hélder Leonel, MAMY, rapper, apresentadora de rádio e jornalista angolana; Negro Bey, autor e activista cultural que representa a Guiné Equatorial; a brasileira Jacqueline Santos, doutora em sociologia e professora de Hip-Hop na Universidade Estadual de Campinas.

A mediação ficará a cargo do professor de jornalismo da Universidade Federal do Cariri, Carlos Guerra Júnior, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra que realizou uma pesquisa comparativa sobre o Rap em Brasil, Angola e Portugal.

 

A artista plástica moçambicana, Cassi Namoda, participou, recentemente, na exposição A força da transformação, em Nova Iorque, nos Estados Unidos de América. A colectiva foi organizada pela ONU Mulheres e procurou contribuir para elevar a consciência do poder transformador da arte das mulheres negras nos movimentos de justiça social.

Cassi Namoda até pode ser um nome pouco conhecido em Moçambique, mas a artista leva consigo a Pátria Amada no sangue e na alma. As suas pinturas, evidentemente, revelam uma ligação acentuada da artista com todo um imaginário que se adivinha moçambicano. Por exemplo, as telas “A Spiritual Declaration, Under the weight of it all”, “We have become strangers (Fight with a javelin and boron). An ode to Goya”, “Zambeziana remembers Tchaubo tongue” e “Womb” apresentam uma artista que, mesmo estando tão longe da sua origem, da sua terra natal e da sua gente, não se desliga do que a identifica e muito menos das suas culturas. São telas como aquelas que Cassi Namoda levou, há uma semana e meia, à primeira exposição e leilão de venda global organizada pela ONU Mulheres, em Nova Iorque, nos Estados Unidos de América.

Intitulada A força da transformação, a colectiva de artes plásticas envolveu 26 artistas do sexo feminino, entre consagradas e em ascensão, todas de ascendência africana. Com a mostra, a organização procurou reconhecer e elevar a consciência do poder transformador da arte das mulheres negras nos movimentos de justiça social, contribuindo, desse modo, para a materialização do Programa Global da ONU Mulheres sobre Mulheres Negras.

Reconhecendo a importância das artes na promoção do debate sobre determinados temas sociais indispensáveis, a artista moçambicana associou-se à colectiva, pintando narrativas alicerçadas na nas culturas moçambicanas e africanas. Disse, Cassi Namoda: “Eu gosto de contar histórias com base na realidade moçambicana e da África Oriental. Esta é a razão por que me juntei ao projecto A força da transformação. Trabalhar, contando histórias, é uma forma de impactar o mundo”.

Essencialmente, a exposição A força da transformação desafiou-se a angariar fundos para apoiar movimentos e organizações de mulheres negras em diferentes partes do mundo. Com isso, a organização almeja estreitar laços e dar maior poder às acções femininas. “Eu Acho que a minha ligação a esta iniciativa ajudar-me-á a atingir a escala global e a transformar através da arte”, afirmou, este domingo, Cassi Namoda.

Na percepção da artista plástica, o intercâmbio proporcionado pela mostra foi óptimo porque interagiu com mulheres do continente africano e com tantas outras que promovem as artes ao nível internacional, incluindo artistas que habitualmente são discriminadas. “Isso mostra que as coisas estão a mudar, e isso é motivador”, acrescentou.

As obras de arte de Cassi Namoda e de outras artistas envolvidas na colectiva A força da transformação estiveram à venda no Artsy, importante mercado global de arte online, entre 16 e 30 de Julho. Devido ao seu carácter filantrópico, 50% das receitas dos leilões destinam-se ao lançamento do Programa Global das Mulheres Negras, concebido para conectar as mulheres de origem africana no continente e no estrangeiro, bem como abordar a violência contra as mulheres.

A mostra colectiva de artes plásticas, segundo a ONU Mulheres, é interdisciplinar e incluiu artistas com idades compreendias entre 24 e 86 anos, vivendo e/ou trabalhando em países como África do Sul, Tanzania, Quénia, República Democrática do Congo, Nigéria, Jamaica, República Dominicana, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos.  

Cassi Namoda nasceu no Hospital Central de Maputo, em 1988. A artista é filha de mãe moçambicana (de Quelimane) e pai americano. Conforme se pode ler na sua biografia, “por meio de pinturas figurativas repletas de referências pessoais, culturais, históricas e teológicas, a artista contemporânea Cassi Namoda tece narrativas pós-coloniais complexas que cruzam fronteiras geográficas, temporais e espirituais”. Portanto, a sua produção artística, lê-se ainda na biografia da artista, é o culminar de sua conexão pessoal com Moçambique e com as culturas africanas e globais mais amplas vivenciadas durante suas viagens. Cassi Namoda é formada em cinematografia na Academy of Art University em San Francisco, nos Estados Unidos.

Foram hoje a enterrar os restos mortais da professora Isabel Mabote, que perdeu a vida vítima de doença. Familiares, amigos e colegas prestaram, a última homenagem àquela que, mais do que professora, foi mãe e mentora de muitos profissionais da música moçambicana.

Numa cerimónia marcada por muita emoção, foram recordados alguns feitos de Isabel mãe, professora e colega de trabalho de várias pessoas.

A professora Isabel, como era carinhosamente tratada pelos seus alunos, para além das obras artísticas que deixa como legado, vai deixar saudades para muitos.

O corpo da professora de música, maestrina e mãe, Isabel Mabote foi levado à sua última morada, no cemitério de Michafutene, província de Maputo.

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