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O País – A verdade como notícia

Por: Noemi Alfieri 

Investigadora/ Universidade Nova de Lisboa

 

No verso da cicatriz é o segundo romance do jornalista moçambicano Bento Baloi, editado em Portugal pela Ideia Fixa, do grupo Alêteia Editores, e em Moçambique pela Índico (ambos em 2021). O livro aborda os acontecimentos da história de Moçambique entre 1974 e 1992, ou seja, no intervalo de tempo que decorreu entre a assinatura do Acordo de Lusaka entre Portugal e a FRELIMO e o Acordo de Roma, que pôs fim à Guerra Civil Moçambicana, eclodida em 1977. Mencionadas explicitamente, essas datas ganham valor não só em função do marco que deixaram na vida política do país,mas também – e sobretudo – pelo reflexo e pelas consequências que tiveram na vida da população, na sua percepção do país, na sua forma de imaginar e viver a relação com o território e com as convulsões e mudanças que Moçambique viveu ao longo dos quase 20 anos que a narração aborda. A relação de Bento Baloi com a escrita vem de longe, tendo-se ele dedicado à redacção de peças de teatro transmitidas em emissões da Rádio Moçambique,de contos e poemas publicados em jornais e revistas, e da carreira jornalística que vem desenvolvendo há cerca de trinta anos. É este o caso em que podemos, sem sombra de dúvida, afirmar que muito temos do escritor na obra, como ele próprio esclarece, aliás, na “Nota final” que encerra o volume da edição portuguesa. A escolha do enredo tem, portanto, razões históricas, mas tenciona ao mesmo tempo homenagear aquela parte da história familiar que se funde e entrelaça com a colectiva.

Dividida em três livros (A ferida, O sangue e A cicatriz), a narração percorre o país, desde Maguaza (distrito da Moamba, província de Maputo) até Carico, passando por João Belo (hoje Xai-Xai), Inhambane, Quelimane e o Tetechegando, até a fronteira com o Malawi. A história de Bernardo Penicela Muhlanga e de Maria Helena, ambos originários de Maguaza, é assim o fio condutor de uma ficção que denota uma preocupação com a fé e com os acontecimentos à volta da comunidade das Testemunhas de Jeová em Moçambique a partir de meados do Século XX, mas que não se reduz à narração desta história. A violência do colonialismo antes e da guerra civil depois, as ingerências estrangeiras em Moçambique, os temas dorefúgio e das fronteiras, mas também do amor, são longamente abordados, numa narração na primeira pessoa e frequentemente no tempo presente, com um recurso estilístico que cola o leitor às páginas e o traz para o decorrer dos acontecimentos, aproximando-o tanto da vivência das personagens, como da crueza dos eventos

 A partir das primeiras páginas, fica evidente a pressão à qual o país esteve sujeito imediatamente após a Independência, que se refletiu, entre outras coisas, nos receios e na dificuldade geral da população em entender a escolha da comunidade Jeová em recusar qualquer alinhamento com a política, escolha essa que frequentemente foi encarada com desconfiança por parte de quem muito lutou contra um inimigo comum que muito sofrimento causou no povo moçambicano. Como o autorexplicita nas primeiras páginas:

“Não há dúvidas que as novas autoridades tenham alguns temores. Temem a reedição da tentativa de se desvirtuar a independência de Moçambique através dos acontecimentos de 7 de Setembro e 21 de Outubro que culminaram com a morte de centenas de pessoas nas ruas de Lourenço Marques. Temem a incursão de agentes da antiga PIDE-DGS que continuam a ter laços fortes com interesses coloniais em Moçambique. Temem a reacção de todas as forças, nacionais e estrangeiras, contrárias à independência de Moçambique e que podem pôr em causa a sobrevivência do próprio Estado.” (p. 38)

Neste contexto, quando o protagonista Bernardo é falsamente denunciado como sendo membro dos Jeovás pelo pai de Maria Helena, Secretário da aldeia e contrário à relação entre os dois, as longas viagens do jovem nosmachimbombos em direção aos Campos de Reeducação da zona norte do país são acompanhadas por certo sentimento de incredulidade. Consciente de que caiu numaarmadilha, Bernardo descobre o país ao mesmo tempo que descobre a violência e as contradições que são o preâmbulo da laceração que acontecerá nos anos seguintes, a ferida que dá o nome à primeira parte que constitui o livro.

Deparamo-nos, ao mesmo tempo, com a solidariedade e a determinação de uma comunidade outrora perseguida pelas autoridades coloniais pela ameaça que, segundo estas, constituíra para a chamada “unidade nacional portuguesa” e para a religião católica, outro pilar da doutrina salazarista. Desta forma, a mesma comunidade acusada em época colonial de predicar a “liberdade para todos” (posição, essa, considerada demasiado próxima do comunismo) foi, na fase de transição que caracterizou a altura imediatamente posterior à extinção dessa mesmaordem colonial, isolada por causa da sua neutralidade. OsCentros de Reeducação para os quais as Testemunhas eram enviadas não foram, contudo, os únicos existentes naquela época no país. O romance aborda também a questão da reeducação dos chamados marginais, ou “improdutivos”, civis desprovidos de documentos que foram na época enviados para a norte do país, com o intuito de favorecer o povoamento das zonas mais remotas e com densidade populacional baixa ou quase nula. Estes também aparecem na narração, representando um universo distinto do das comunidades das Testemunhas, a este acomunado, porém, pela coerção e pelo desespero gerado pelo deslocamento e pelas duras condições da reinstalação, ganha a golpes de machado cortando o denso capim.

 A fronteira, porém, não é só a fronteira interna, nem selimita à da linha Ressano-Garcia que garante a ligação entre Maputo e a África do Sul. Envolve, também, a fronteira com o Malawi, outrora transposta pelas comunidades de Testemunhas que se instalaram na zona de Carico onde, a partir de 1976, aldeias de malawianos e moçambicanos formaram-se sob a vigilância das forças militares e dedicando-se ao trabalho agrícola nasmachambas. Assim, a fronteira é transposta pelos civis das aldeias durante as fugas dos ataques de guerrilha depois da eclosão da guerra civil: é nesta altura que se aborda, após a questão das torturas, das violências contra os civis e das chacinas, a questão do refúgio, mas também da ingerência estrangeira na vida política do país e na precariedade e insuficiência do sistema de ajuda às populações por parte da comunidade internacional. Transposta a fronteira com o Malawi, alguns entre os maiores campos de refugiadosmoçambicanos, como o de Mulanji, instituídos por aquelegoverno com a colaboração das Nações Unidas e da Cruz Vermelha, representam mais uma vez um ponto de passagem precária, longe de serem um porto de abrigo para as populações que fogem dos saques e das matanças nas aldeias. Populações, essas, que enfrentam o risco de minas nas matas que separam os dois países. A coerção política e o doutrinamento, são presentes, tal como a sensação de invisibilidade que acompanha as deslocações:

“O cortejo arranca para uma longa viagem que atravessa Malawi ao meio. Nas vilas e aldeolas por onde a coluna passa, há sempre vendedores ambulantes que se desinteressam imediatamente assim que descobrem a natureza dos passageiros: refugees. Como quem diz «nem têm onde cair mortos».” (p. 202)

A  hipocrisia do apoio internacional irrompe tanto na denúncia das condições dos campos, da sua arbitrariedade e submissão a interesses políticos, como na insensibilidade das missões humanitárias e académicas, interessadas ao estudo de objectos e da cultura moçambicana numa lógica extractivista, que chega a ser isenta de sensibilidade e empatia para com a situação extrema que a populaçãoenfrenta. A fronteira é, assim, precária, representada por uma estrada de terra batida que só é transponível poralguns, e cuja travessia lembra simbolicamente a fronteira entre o tempo antes e depois da eclosão da guerra. Da mesma forma, as pessoas e as suas vivências convertem-se em testemunhas vivas da divisão. Como narra Maria Helena, uma das protagonistas:

“O velhote vira-nos as costas e segue o seu caminho. Volta ao trilho que separa os dois países. É como se ele próprio fosse a fronteira. A perna e o braço do lado direito estão no Malawi acomodados num campo de refugiados qualquer vivendo em tendas das NaçõesUnidas e alimentando-se de donativos quando não são desviados. A perna, o braço, o olho esquerdo e sobretudo o coração estão em Moçambique vigiando uma fortuna de terras que viraram mato denso cheio de minas. Ele caminha em passo firme e lento até desaparecer com a estrada na linha do horizonte.” (p.209)

A figura de Maria Helena, tal como a de Sofia e Nélson Chiláule com os quais tanto o percurso dela como o de Bernardo se entrecruzam, faz de contraponto à violência e traz para o campo a ideia de solidariedade em toda a sua complexidade. Determinada a viver a sua vida com o homem que ama, o desespero causado pelas condições do país e pela separação não impede à Maria, nem às outras figuras femininas do romance como a sua mãe, Sofia e Zuleica, de serem resolutas e tenazes e de constituir umponto firme para comunidade e para os seus homens. É a sua força que faz com que os homens continuem a resistir imaginando o futuro que elas representam e, diríamos, não é um mero acaso o facto de a parte do livro em que o seu ponto de vista é mais presente ser “O sangue”. As mulheres na guerra são despidas não só dos seus pertences, mas violadas na sua intimidade, os alvos mais fáceis da crueza e dureza do conflito. Elas, desde as mais novas até às mamanas, vivenciam na sua pele a violência sem exercê-la, a guerra sem pegar nas armas, contrariando e contrastando, contudo, as decisões dos homens quando determinadas a escolher o seu rumo.

A esperança e a determinação do povo moçambicano,constante durante e depois da época colonial reflete-se nas palavras de Nélson, que fazem parte da primeira parte do livro, mas que poderiam, igualmente, integrar a última, no horizonte que parece ser mais uns dos fios condutor da narração:

“Mas os homens da minha terra sempre tiveram um horizonte. No seu submundo, redes aconteceram, conexões solidificaram-se, sangue derramou-se e a subversão triunfou. Os homens da minha terra voltaram a pisar com firmeza a sua própria terra, o seu próprio chão, e voltaram a respirar o perfume das flores da vida.” (p. 51)

São estas conexões, diz-nos o romance, que permitem que a ferida sare numa cicatriz. Não será essa a solução que Bento Baloi propõe para o florescimento do país, para que todos os moçambicanos possam respirar a vida plenamente?

O artista plástico Mankew perdeu a vida esta segunda-feira, em casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Mankew estava doente há algum tempo.

Em Outubro do ano passado, Mankew perdeu a esposa Alice Uamba. Nessa altura, o artista de Marracuene, Província de Maputo, já não gozava de boa saúde. Viu a esposa partir e, assim, ficou a travar, sem a companheira, uma difícil luta pela sobrevivência. Mankew não se deixou abalar, no entanto, a sua saúde não colaborou. Além do peso da idade já avançada, o artista teve de enfrentar mais uma difícil realidade: a vista começou a falhar. Sem visão, não há pinceis, paletas de cor, telas, enfim, não há pintura ou desenhos. Mankew susteve a dor de perceber que a visão se esfumava vagarosamente e até participou numa colectiva intitulada Tempos e percursos em 3D, exibida no Museu Nacional de Arte, com os seus companheiros Noel Langa e Makamo.

Este ano, além da saúde frágil, o artista plástico perdeu um filho há três meses. Na verdade, foi a terceira vez que Mankew perdeu um filho seu. Entre o luto, a vontade de pintar e a vista sem nenhum vigor, Mankew ainda foi debilitado por um tumor maligno no ouvido. Muita coisa para um só homem que, há nove meses, preparava uma individual que já não vai acontecer na sua presença. Hoje, dia 13 de Setembro de 2021, por volta das 17 horas, Mankew Mahumana cedeu à morte que bateu à porta da sua casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Morreu, surpreendendo os filhos que até aí cuidavam dele.

Além de um grande artista, para Alda Costa, Mankew é um homem de uma geração importante moçambicana, um artista de transição, originário das zonas rurais, que vai à cidade colonial, que não está aberta a outras expressões culturais, para expor a sua arte. “Eu diria que Mankew faz parte de um conjunto de artistas tutelares, de uma geração que viveu o contexto colonial e que se afirmou nos primeiros anos da independência. Era uma pessoa simples, não se expunha muito”, afirmou, esta segunda-feira, a historiadora de arte.

Nos momentos altos da sua carreira, Mankew teve a oportunidade de mostrar no estrangeiro o que era Moçambique culturalmente. O artista participou em várias exposições e intercâmbios artísticos na Alemanha, onde recebeu uma medalha da Academia de Belas Artes. “É uma pessoa que só nos merece muito, muito respeito”, acrescentou Alda Costa, “por isso desejamos que a sua obra e da sua geração seja estudada, porque é a melhor forma de valorizarmos o artista. Acho isso fundamental. Não podemos fazer a história de um certo período sem referência a figuras como Mankew. Temos de continuar a estuda-lo”.

Uma das últimas exposições de Mankew foi a colectiva Simbiose, que esteve patente na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Nessa mostra, Mankew expôs com Sebastião Matsinhe, para quem Moçambique perdeu um pai, que muito contribuiu para inspirar artistas do seu tempo. À semelhança de Alda Costa, Matsinhe defendeu, esta segunda-feira, que a melhor forma de honrar Mankew é estudando o seu trabalho artístico, produzido ao longo de várias décadas.

Quando, em Dezembro do ano passado esteve numa das actividades de promoção da colectiva Tempos e percurso em 3D, no Museu Nacional de Arte, Mankew afirmou determinado: “Com esta exposição, nós quisemos dizer que ainda estamos aqui. Ainda estamos vivos e com a nossa arte. A exposição é para lembrarmos aos amantes da nossa arte, aos que nos apoiam, aos nossos governantes que continuamos com talento forte e cada vez mais forte, em relação ao que fizemos no passado”. O artista disso isso mesmo a justificar uma individual em preparação. Bastava que houvesse saúde.

Mankew Mahumana nasceu 1 de Janeiro de 1934, no Distrito de Marracuene, na Província de Maputo. Com 20 anos de idade, emigrou para trabalhar nas minas da África do Sul. Algum tempo depois, voltou a Moçambique e aí começou a pintar na área da construção civil. Lá esteve cinco anos. Quando se fartou, preferiu investir na agricultura, no seu distrito natal. A partir de 1971, decide investir nas artes plásticas, o que lhe garantiu muitas oportunidades, como exposições e intercâmbio artístico nos seguintes países: Zimbabwe, África do Sul, Egipto, Tanzânia, Alemanha, Áustria, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Itália, Cuba, Nigéria e Portugal.

Por: Belchior Eduardo

 

Ninguém soube ao certo o que era aquilo. O bairro todo ficou atónito sem nada puder fazer. A pessoa na qual fora chamar o secretário ficou mais de meia hora e 15 minutos ainda lá.

Eu desesperado não sabia o que fazer, casa rodeada e sem se saber como agir diante do evento. A pressão era tanta. Como é possível uma cobra em chamas de mais de 100ºc ter sido transformada ou transformou-se em borracha. O corpo da cobra é revestido por pele e interior a sangue frio. Veneno talvez, porque a maior parte tem sido venenosa.

Não sei, ninguém soube ao certo o que naquele instante se passara. Idosos ao redor, vizinhos, aquele acontecimento foi demais.

– Aí vem o secretário. Ouviu-se uma voz na multidão.

O secretário era um homem afago, vestido na moda antiga, cabelo despenteado e barbas desorganizadas, realmente um secretário mesmo de zona. A última vez em que vi-o foi no dia que mudei-me para cá.

– O que é isso senhor secretário, sabes dizer pai? Perguntei ao secretário.

Ele todo atónito, não teve uma resposta ao certo. Olhou ao redor e a multidão, viu as chamas.

Ignorou-me como quem não tivesse uma resposta atempada a pergunta ou como quem não tivesse sido perguntado algo. No mesmo instante, viu meus olhos e disse:

– Peço um pauzinho por favor.

Ordenei que pudessem satisfazer seu pedido.

O secretário revirou as chamas, revirou a borracha, borracha não, uma cobra sim, não, uma borracha sim que antes fora cobra.

No mergulho dos murmúrios vindos da multidão acirradamente, pediu silêncio.

– Calem-se todos por favor, quero falar.

Aquela frase constitui um trampolim para mais murmúrios vindos da multidão e acirradamente pediu silêncio:

– Calem-se todos por favor, quero tecer umas palavras.

Aquela frase constituí um trampolim para mais murmúrios e continuaram dessa vez com mais força.

– Calem-se todos não estão a ouvir o secretário? Falei fervosamente.

Na mesma hora Lina levantou a voz:

– Não estão a ouvir? Calem-se todos. Calem-se, o secretário deseja falar. Se não tem respeito ao meu marido respeitem ao menos o secretário do bairro nosso pai da zona.

Veio aos meus ombros e colocou-se a chorar como se de criança se tratasse.

– Calma Lina, fique calma, decerto que correrá bem. Acalmei-a.

Naquele mesmo instante o secretário tomou a palavra e disse:

– Meus senhores, este é um fenómeno que transcende a nossa compreensão e capacidade. Tratasse de uma prática de magia negra, da feitiçaria e do que chamamos da religião de África.

– Mas como assim senhor secretario, como assim!?

A pergunta sussurrava em frente a multidão toda.

O secretário arrancou novamente a palavra e continuou:

– Não é possível que uma cobra se transforme em uma borracha exposta principalmente a essa temperatura muito alta. Este caso é mesmo anormal.

– Quem poderá ter feito isto a essa família. Uma voz ouviu-se na multidão.

Murmúrios tomaram parte naquela multidão.

– Meus senhores o que pode-se saber é que realmente a mágia africana existe, para quem tinha dúvidas estão decepadas.

Falando isso acrescentou o secretário:

– Ora vejam, entre um Homem e uma cobra quem é o mais forte, quem tem uma composição de organismo muito intacta?

Viu-se um silêncio, apenas olhos contra outros olhos.

– Porque fariam isso connosco? Que mal fizemos? Somos iguais a todos que nos circundam, que mal fizemos para tamanha barbárie? Perguntei ansioso a ouvir a resposta.

De imediato meu compadre, de frente a mim disse:

– Compadre, realmente esse é um caso de feitiçaria e mágia negra. Recordo que por onde morava uma cobra presa transformou-se em mexa de dia.

O caso não é de facto um insólito como tal porém pesa-me a responsabilidade de o ter acontecido directamente a mim. Parei e pensei.

O secretário tomou a palavra e disse:

– Não sei o que devemos fazer nesse momento, o caso é o primeiro em mais de vinte anos nessa função.

Logo sugeri que procuremos um curandeiro para solucionar o facto.

Na multidão ouviam-se vozes dizendo que pudessem queima-la novamente.

O secretário cogitou a ideia do curandeiro e perguntaram-lhe:

– O que faremos então. Lina Perguntou.

– Também não sei o que fazer, vejo que o secretário desconheci a solução para o dilema. Já vai chegar a noite e nenhuma solução surgira.

O evento chocava o bairro todo e o secretário tomou a palavra e disse:

– Faremos um holocausto. E todos calaram-se.

 

 

 

 

 

Maira Armando Isaías Taucale tem 23 anos de idade e ganhou uma bolsa de estudo da Multichoice Talent Factory (MTF) de dois meses para os Estados Unidos da América, onde vai receber capacitação em matérias de produção de conteúdos cinematográficos.

De acordo com uma nota de imprensa, a cineasta moçambicana vai estudar na New York Films, uma das academias mais famosas em termos de produção de talentos para a indústria do cinema. “Vão ser dois meses intensos, primeiro, porque vou a um país que está no ramo de cinema há muitos anos e isso me deixa muito entusiasmada. Segundo, é pelo tipo de faculdade. Vou a New York Films, e é uma das referências. Muitos dos artistas que estão no mercado vieram de lá. É uma responsabilidade, vou para uma grande cidade, as distrações são muitas, mas devo ter foco”, disse Maira Armando Isaías Taucale.

A cineasta leva os Estados Unidos três projectos de séries na manga. Sem entrar em detalhes, a cineasta disse que os três projectos que já estão no papel são histórias ligadas ao empoderamento da raça negra e no engajamento da mulher.

A expectativa da bolseira, segundo lê-se na nota de imprensa, é que, ao consolidar o seu conhecimento nos EUA, possa desenvolver uma linha que torne os três seriados universalmente aplicáveis em diferentes contextos que não sejam só moçambicano.

Maira Armando ganhou a bolsa de estudo da Multichoice Talent Factory (MTF) para os EUA depois de ter participado de uma formação na academia desta iniciativa, na Zâmbia, e que durou um ano, tendo ficado em primeiro lugar, sendo que a formação decorreu, numa primeira fase, no modelo presencial, e na segunda fase, através das plataformas digitais, por conta da pandemia do novo coronavírus.

A vencedora da bolsa de estudo disse que a formação na Zâmbia foi de mais valia porque permitiu que se munisse de ferramentas para enfrentar o mercado cinematográfico.

 

Por: Leonel Matusse Jr.

 

De 13 a 19 de Setembro deste ano, nove instituições culturais servem arte performativa online e exposições abertas ao público presencialmente, na programação da segunda edição do Festival Gala Gala.

Durante sete dias a Fundação Fernando Leite Couto, 16 Neto, Associação Kulungwana e os Centros Culturais Brasil-Moçambique (CCBM), Moçambicano-Alemão (CCMA), Franco-Moçambicano (CCFM) e Camões (CCP), trarão 18 eventos de propostas diversificadas.

Este ano juntam-se ao festival mais duas instituições, nomeadamente, o Museu Mafalala e a Embaixada de Espanha, que não estavam integradas na primeira edição que decorreu entre os dias 7 e 13 de Setembro do ano passado.

Haverá literatura, música, artes visuais, teatro, audiovisual e multidisciplinar apresentado por artistas moçambicanos.

A iniciativa do colectivo pretende dinamizar o sector das artes no país, criando uma experiência única de fruição de arte. Este ano, à semelhança do ano passado, os eventos serão transmitidos nas páginas do Facebook de cada instituição envolvida e na página do festival Gala Gala.

Espera-se gerar, nos próximos anos, quando os eventos presenciais forem autorizados, um movimento articulado de consumo de arte na cidade de Maputo, envolvendo diferentes instituições culturais, através de uma curadoria única.

O Festival Gala Gala conta com financiamento da União Europeia que nos últimos anos tem apoiado o sector das artes e da cultura, como comprova, por exemplo, o PROCULTURA.

A inauguração da Exposição “Kathla”, do Concurso de fotografia “Viagem do plástico”, na Galeria da Kulungwana, no dia 13, às 18.30 e a transmissão da Embaixada de Espanha do concerto “Njinjiritane de D. Quixote” dos conjuntos Basadi Ba Mintsu e Meninos da Minerva, às 19.30 simbolizam a abertura do festival.

Na terça-feira, dia 14, às 18.00 horas, é inaugurada a exposição “Três dimensões: percursos, densidades e possibilidades” coorganizada pelo CCFM e CCBM a partir das suas respectivas colecções e do Museu Nacional de Arte, da Moçambique Telecom (TMCEL).

Através desta mostra, conta-se, explicou Vincent Frontczyk, director do CCFM, a história da cerâmica moçambicana. Ainda no mesmo dia, às 19.00, estreia no Camões a performance audiovisual MUAVE.

Na quarta-feira, às 17.00 horas a Fundação Fernando Leite Couto fará a apresentação do livro digital “Os Olhos Deslumbrados: Ficção sobre os Mercados”, que resulta de uma Oficina de Ficção Narrativa cujos monitores são o editor da FFLC, Celso Muianga, a tradutora e editora Sandra Tamele e Marcelo Panguana. Logo às 18.00 horas, Vanize apresentará uma live do concerto “Não sou de ferro”, na 16 Neto.

Continuamos na quinta-feira, dia 15, às 17.00 horas, com a inauguração da primeira exposição individual de fotografia do moçambicano Douglas Condzo, intitulada “Outros/Others”, no “Camões”. Segue-se, às 18.00 horas, com a estreia da peça de teatro “Carne de mulher” de Dário Fo, encenada e adaptada por Evaristo Abreu, no Facebook do CCBM. E o dia termina com “Mussiro” do músico Radjha Ali numa colaboração com o Tufo da Mafalala, às 19.00 horas, no Facebook do CCMA.

Na sexta-feira às 17.00, a Kulungwana estreia “Quem ouviu o leão rugir?”, documentário que conta a história do jornal de banda desenhada Kurika que foi concebido e editado pelo jornalista, cronista Machado da Graça. Às 18.00 horas, a 16 Neto fará a live do sarau literário Incluarte e às 19.30 estreia, no CCFM, o evento multidisciplinar Degradação (Re)generativa do projecto Miss, integrado por Tina Krüger, David Aguacheiro, Nandele Maguni e José Jalane.

Iniciamos o fim de semana com artes plásticas, às 17.00 horas, organizado pela Embaixada de Espanha, que irá mostrar “Quixotes plásticos” DE Nália das Dores R. J. Agostinho. Às 18.00, estreia o espectáculo de teatro “Chovem amores na rua do matador”, encenado e adaptado por Maria Clotilde e Victor Gonçalves, do conto com o mesmo título dos escritores Mia Couto e Eduardo Agualusa. Às 19.30, estreia o concerto “MIP – 5 anos”, do rapper Kloro, que marca meia década do lançamento do seu primeiro álbum a solo, o “Xigumandzene”.

No domingo, último dia, haverá teatro no CCMA, das 14 às 17. A proposta é uma live designada “Entre corpo e alma”, na qual serão apresentadas as peças “Pela pátria?” e “Xitchuketa” de Mateus Francisco Nhamuche, “Piolhos e actores” do grupo Os Anónimos, e “Entre corpo e alma” do grupo Fragmentados.

Às 17.30 a Kulungwana irá divulgar o vencedor do Concurso de fotografia “Viagem do plástico” (Exposição Kathla). E o festival encerra com “Back home”, projecto África, às 18.00 horas, no Museu Mafalala.

A comunicação e coordenação desta edição estão a cargo da Fundação Fernando Leite Couto e o Centro Cultural Franco Moçambicano.

 

Por: Rudêncio Morais

 

Há uma geração de jovens que parece remar numa direcção cuja busca nutre o ser que se nos foi sendo primeiramente transmitido em livros bíblicos, uma visão “Genesiana” se assim se pode dizer para chamar a nós o livro do Gênesis: “Homem e Mulher Deus os fez”, há nesses jovens o gosto pelos laços que o amor gera e os convoca a essa vocação bíblica de fazer do amor, a família e os filhos, a sua maior “ostentação”.

Ubakka, jovem músico, que deixou de ser uma promessa cimentada nos tempos de “Sunangai”, seu primeiro álbum, é quem nos convida a vestir o corpo e a alma dessa ostentação devota a família e ao amor na sua essência e cheiro. O jovem vestiu-se das ferramentas que melhor domina, armou a sua voz, escolheu os melhores instrumentos e melodia, para bem alto gritar: “minha ostentação é minha família”, uma música que preenche os cantos que fazem Moçambique, para depois transbordar para os países que com Moçambique partilham a alma através da língua, esse português que Ubakka parece esculpir nele um novo léxico acusticamente elaborado e que se estende ao “xironga” numa transição quase que invisível pela forma como compõe e nos oferece a sua voz.

“Eu tenho carro, eu tenho casa, eu tenho terreno, eu tenho uma conta gorda lá no banco, mas o meu maior orgulho é ter família, ouvir marido até já, até já … minha ostentação é minha mulher…” percebe-se, nessa passagem, uma viagem missionária que Ubakka faz no coração das famílias, uma homilia dominical que se nos oferece de alma descalça, sendo-nos, não só uma música, mas o ecoar melódico de um sacerdote do amor que nos devolve aos tempos do Padre Zezinho e à célebre oração da família.

Há em Ubakka, e nas suas composições, um regresso ao “Ser” e a igreja missionária moldada no brilho das famílias moçambicanas. A sua música é revestida de uma teologia dos tempos e dos espaços, sendo-nos um ecoar que nos convoca a um permanente reflectir com profundidade; o amor e a instituição família vestindo-nos de Moçambique através de um ensaio melódico que parece rebuscar o pandza para um novo começo.

Abraços Ubakka

 

 

O antigo ministro da Defesa Nacional, Atanásio Salvador M’tumuke, lançou o seu primeiro livro em Nampula em que nele conta a última batalha contra o colonialismo português, que dirigiu em Agosto de 1974. Conta que sem disparo de um único tiro, ele e os seus homens recorreram a um megafone, tendo conseguido capturar 142 soldados portugueses.

A narrativa da considerada Última Batalha da Luta Armada de Libertação Nacional é contada por Atanásio Salvador M’tumuke, que, num duplo papel de escritor e personagem principal, começa por contar a missão que recebeu de Samora Machel em 1974, quando o convidou para Nachingweia, na Tanzânia, com o objectivo de o desafiar a aniquilar os últimos aquartelamentos de soldados portugueses que propositadamente tinham sido montados ao longo da fronteira com a Tanzânia, um corredor estratégico para a Frente de Libertação Nacional, que tinha a sua base político-militar naquele país vizinho.

O megafone que pediu lhe foi disponibilizado e é precisamente este o instrumento de comunicação que foi determinante para o assalto às bases de Omar no distrito de Mueda, província de Cabo Delgado, a 1 de Agosto de 1974. Com mensagens “rendam-se, tomados a terra e o espaço”, os guerrilheiros da FRELIMO naquela operação conseguiram fazer render-se 142 soldados portugueses sem necessidade de efectuar um único disparo de arma de fogo.

O livro “O Fim da Luta de Libertação Nacional: Operação Omar” foi prefaciado pelo Presidente da República, o mesmo que incentivou M’tumuke a escrever esta história epopeica e inusitada.

Atanásio Salvador M’tumuke é natural de Cabo Delgado, aos 16 anos, entrou na Luta de Libertação Nacional. Aos 24 anos, atingiu a elevada patente  de Major-General. De 2015 a 2019, foi ministro da Defesa Nacional. Agora, é Major-General na reserva.

“Que homem pode viver e não ver a morte,

ou livrar-se do poder da sepultura?”

Salmos 89:48

 

 

A morte bateu à porta do velho Cossa. Não avisou. Aliás, este é o seu modus operandi. Nunca avisa. O velho Cossa não se queixava de alguma doença. Até ao momento da sua partida para a “inadiável viagem”, tudo indicava ter uma boa saúde. Quis o destino que ele morresse saudável, sem ter adoecido. Sem ter dado muito trabalho a sua esposa.

O velho Cossa deixa uma viúva. Os filhos do casal já os tinham abandonado há anos por alegações de os pais serem feiticeiros. Na verdade, este é o preço da velhice no país do pandza. São milhares de pessoas que temem atingir a terceira idade. Neste país, a velhice é sinónimo de feitiçaria. Todos os dias a comunicação social relata casos de idosos que são mortos pelos seus próprios filhos sob alegação de serem feiticeiros e estarem a inviabilizar as suas vidas.

A velha Catarina, quando viu o seu marido estatelado no chão sem manifestar nenhum sinal de vida, não levou a sério. A morte seria a última coisa a passar pela sua cabeça. Aproximou-se do seu marido. Mexeu-o. Não houve nenhuma reacção. Não conseguiu digerir o assunto que estava vendo. Parou por alguns segundos a pensar se estava a sonhar ou era realidade. Ficou sem saber. Pegou no telefone. Discou o contacto de emergência dos serviços da saúde. O telefone tocou do outro lado.

– Boa noite, aqui fala a avó Catarina. Ligo-vos a partir do bairro dos esquecidos desta cidadela do país do pandza. O meu marido parece que desmaiou. Não está a se mexer. Não sei o que poderá estar a acontecer com ele. Por favor, ajudem-me com muita urgência… – Explicou a avó Catarina ao recepcionista do centro de saúde.

– Percebemos, mãe. Nós agora estamos a caminho da sua casa. Mantenha calma. – Respondeu a outra voz do outro lado do telefone.

– Está bem, estou à vossa espera. Não demorem, por favor! Salvem a vida do meu marido. Ele é a única pessoa que tenho na vida. Por favor… – Implorou a velha Catarina.

– Não te preocupes. Dentro de instantes estaremos aí. – Garantiram os profissionais de saúde.

A velha Catarina desligou o telefone. Conhecendo a morosidade dos profissionais da saúde, deduziu que levariam muito tempo para chegarem à sua casa. Apenas desatou a chorar lágrimas de dor. Fez mil e uma orações pedindo ao altíssimo que devolvesse a vida do seu amado marido. Não pára de chorar pelo seu marido. Ama-o bastante. Seus olhos ficaram inundados de lágrimas. São lágrimas de dor. Pensa em como a vida vai ser sem o seu marido. Sem trabalho. Sem os seus filhos. Será uma total desgraça.

Minutos depois, a velha ouve sirenes de um carro que vinha a uma alta velocidade. Levantou-se. Espreitou. Era a ambulância que vinha para salvar o seu esposo. Parou de chorar, pois estava a ver os deuses que poderiam salvar a vida do seu amado marido. Abriu a porta do quintal, a ambulância entrou. Carregaram o madala Cossa, colocaram-lhe na ambulância. Um pingo de esperança nasce no seu interior. É esperança de que o madala Cossa voltaria do mundo dos mortos. Terá o prazer de o abraçar, beijar e partilhar a mesma cama com ele como sempre foi.

A velha Catarina subiu na ambulância. O motorista da ambulância conduziu de regresso ao hospital. Pelo caminho, os profissionais de saúde iam tentando a todo custo reanimar o madala Cossa. Infelizmente a reanimação não surtiu nenhum efeito. A tristeza voltou a habitar nas entranhas da velha Catarina.

Minutos depois já estavam no centro de saúde. A velha Catarina, mandaram-lhe ficar na sala de espera, enquanto orava pela vida do seu amado esposo. Os médicos levaram-no para um laboratório onde lhe reanimaram. Fizeram uma bateria de exames. Fizeram de tudo que estava ao seu alcance para devolver a vida ao madala Cossa. Mas não foi possível. Ele tinha partido.          Depois de esgotarem todas as suas forças sem lograr algum sucesso, os médicos deram-se por vencidos. Não havia mais algo que podiam fazer para ver o velho Cossa vivo. A sua missão aqui na terra já tinha terminado. Faltava-lhe apenas cumprir outras missões celestiais. Os médicos saíram do laboratório cabisbaixos e muito tristes. Não conseguiram devolver a vida do velho Cossa. Dirigiram-se à sala de espera onde se encontrava a velha Catarina para lhe darem a triste notícia da morte do seu marido. A velha Catarina os viu. A ansiedade tomou conta de si.

– Que tal, sobreviveu, nem? Conseguiram trazer de volta a vida do meu amado marido? Vai, falem. Conseguiram impedir com que o meu marido fosse ao mundo dos mortos? conseguiram… – Perguntava a velha Catarina num tom de desespero.

Todos os médicos não tinham a coragem de dar-lhe a triste notícia. Mas, tarde ou cedo ela saberia. Por isso, os médicos ganharam mais coragem.

– Minha senhora, lamento muito ter que dizer. Mas o seu marido evoluiu para óbito. – Disse o porta-voz dos médicos, com o seu semblante ostentando tristeza.

– O que é isso de óbito? Quer dizer que ele sobreviveu? – Questionou a velha Catarina, que estava muito desesperada.

– Nada disso. Óbito quer dizer que está morto. – Respondeu o médico.

– Vocês são médicos. Salvam vidas. Não podiam salvar a vida do meu marido? – Questionou a velha Catarina, enquanto os seus olhos jorravam um rio de lágrimas de tristeza.

– Tentamos, minha senhora. Infelizmente não foi possível. Demos o nosso máximo, mas não foi possível devolver a vida do madala Cossa. Não há mais nada que possamos fazer. – Respondeu o porta-voz dos médicos.

A velha Catarina digeriu mal a triste notícia. Desmaiou. Os médicos ficaram preocupados. Pegaram-na antes mesmo que caísse. Nas suas mentes começou a pairar dúvidas. Será que ela está a seguir o caminho do seu marido para aquela viagem, a morte? Reanimaram a velha, mas nada. Insistiram na reanimação. A velha não reagia. As esperanças diminuíam a cada tentativa sem sucesso. Insistiram novamente. Nada. Insistiram mais uma vez. Felizmente reagiu. A velha Catarina despertou. Os médicos sorriram de alegria.

– Cossa, Cossa, diga-me que está vivo. Diga-me… – Dizia a velha Catarina logo que acordou do desmaio, muito desesperada.

– Senhora, tenha calma. O seu marido está morto. – Disse o médico. – Aliás, tu precisas descansar. O dia de hoje foi longo. O corpo do seu marido vai ficar aqui na morgue do hospital. Vamos te levar até a sua casa para descansares. Amanhã, logo de manhã, venha para tratar os assuntos atinentes ao funeral do seu marido. Os homens do município estarão aqui para o tratamento de toda papelada. Entendeu? – Acrescentou o médico.

– Está bem. – Respondeu a velha Catarina, enquanto chorava por a dor ser maior. Anoiteceu. Os médicos acompanharam a velha Catarina para sua residência e depois foram-se para as suas casas. A velha Catarina pernoitou. Não conseguia ter sono. Pensava somente no seu saudoso marido.

Amanheceu. A velha Catarina preparou-se e dirigiu-se ao hospital. Os homens do município já estavam bem posicionados para a tramitação da papelada para o velório e funeral de madala Cossa.

– Bom dia, senhora! Em que podemos ajudar? – Saudou-a um dos profissionais do município que já se encontrava bem posicionado naquele centro de saúde para a tramitação de toda a papelada que seria necessária para que pudessem ir deixar o corpo de madala Cossa na sua última morada.

– Eu sou a viúva do senhor Cossa. Venho tratar a documentação para poder prosseguir com os processos fúnebres do meu marido. Quero-lhe oferecer um funeral e sepultamento condigno. – Respondeu a velha Catarina.

– Óptimo. Onde é que está o dinheiro? – Questionou o funcionário do município.

A velha Catarina tomou um susto. A palavra dinheiro é a última coisa que esperava ouvir naquele momento mais triste e difícil da sua vida.

– Dinheiro? Que dinheiro? – Questionou a velha Catarina, num tom admirativo.

– Espera eu te explicar. A reserva de espaço para enterrar um cadáver aqui custa quatro mil e quinhentos meticais contra os mil e quinhentos meticais anteriores. Já a chapa de identificação da campa passa a custar quatrocentos meticais contra os anteriores cem. Quanto ao preço de cremação de cadáveres, aumenta dos actuais quinhentos para cinco mil meticais. A exumação de corpos passa dos mil meticais para dois mil e quinhentos meticais. Já a licença para a construção de campa em cimento custa mil e quinhentos meticais contra os anteriores mil meticais. Se for a usar mármore, o preço subiu de dois mil para três mil meticais. Por último, caso queira Jazigo, aí já o preço será cada vez maior. Terá de pagar dez mil meticais contra os anteriores cinco mil meticais. – Explicou-lhe o funcionário do município, ao mínimo detalhe. – Esta é a nova lei que acabou de ser aprovada. Agora é só escolher a forma como quer enterrar o seu ente querido.

A velha Catarina ficou confusa e preocupada ao ouvir aqueles números altíssimos. Nunca pensou que morrer já tinha se tornado carro nesta terra de pandza. Não chegou a equacionar que o luto um dia viraria negócio muito lucrativo. Enterrar um ente querido tornou-se muito caro. Viver custa. Agora morrer também custa. O silêncio tomou conta da velha Catarina. Estava a reflectir em como procederia. Infelizmente chegou à conclusão de que não reunia as condições necessárias para oferecer um enterro condigno ao seu parceiro. Decidiu quebrar o silêncio que já durava alguns segundos.

– Como assim? Encarecer o enterro de um morto? Não é possível. Assim estão a transformar algo eminentemente social em negócio? Não pode ser… – Berrava a velha Catarina, quando o funcionário do município a interrompeu.

– Senhora, não se exalte aqui. Nós apenas estamos a cumprir a lei que a assembleia municipal aprovou. Não fomos nós que escrevemos e aprovamos estas leis. Lei é lei e deve ser cumprida – Disse o funcionário do município.

– E nós que não trabalhamos, onde é que vamos buscar o dinheiro para que consigamos oferecer um enterro condigno aos nossos ente queridos? Eu quero oferecer um enterro condigno para o meu falecido marido, mas não tenho esse todo dinheiro que vocês estão a cobrar. Digam-me, agora como é que vou fazer? – Questionou-lhes.

– Bem, o que a senhora pode fazer é tratar um atestado de pobreza para poder beneficiar destes serviços gratuitamente. – Explicou-lhe.

As palavras “atestado de pobreza” e “gratuita” não fazem parte do vocabulário da velha Catarina. O nível do português foi elevado.

– Ok! – Respondeu a velha Catarina e de seguida retirou-se do local, mesmo não sabendo o significado de atestado de pobreza e muito menos da palavra gratuito.

A velha Catarina saiu daquele local muito confusa, chateada e revoltada com a atitude do município de encarecer os serviços fúnebres numa altura em que o custo de vida não anda de mãos dadas com os salários. Há muito que não se aumenta o salário mínimo. Foi-se embora daquele local e desistiu de realizar um enterro condigno do seu parceiro.

Passaram-se muitos meses. O corpo do velho Cossa não estava a ser reclamado na morgue do hospital. As autoridades de saúde viram-se obrigadas a levar o corpo do velho Cossa e de outros que foram abandonados naquela unidade sanitária, para uma vala comum, um recurso considerado para os mais carenciados. É na vala comum onde são enterrados os cadáveres abandonados, sem a realização de cerimónias fúnebres. É como se fosse um enterro de um cão. O corpo do madala Cossa foi jogado na vala comum, juntamente com outros que não estavam a ser reclamados.

 

Etdaniel21@gmail.com

 

O poeta moçambicano, Álvaro Taruma, que é rosto habitual nos eventos do Instituto Camões – Centro Cultural Português (IC-CCP) em Maputo, fará a apresentação do seu mais recente livro “Animais do Ocaso” na Feira do Livro de Porto e na Feira do Livro de Lisboa, respetivamente, nos dias 4 e 11 de Setembro em curso.

Taruma escala Portugal a partir de hoje com vista à participação nas Feiras do livro de Porto e de Lisboa, e outras demais actividades, nas quais apresentará ao público o seu mais recente livro, sob chancela da portuense Editora Exclamação.

No dia 4 de Setembro, Taruma fará a sua estreia na Feira do Livro do Porto, e estará presente no stand da sua editora para autografar os livros e trocar experiência com outros autores. No dia 11 do mesmo mês, caberá a vez da Feira do Livro de Lisboa receber Taruma e apresentar aos leitores o seu mais recente livro.

“Animais do Ocaso” é o terceiro livro de Álvaro Taruma e é precedido de “Matéria Para Um Grito” (Cavalo do Mar, 2018) também lançado no IC-CCP. O mesmo foi galardoado com o prémio BCI de Literatura, na edição de 2019. Note-se que Álvaro Taruma foi agraciado no ano passado como um dos Escritores do Ano pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD), galardão que se espera venha a receber também durante a sua estadia em Portugal.

O prefaciador da obra, o escritor e crítico literário, António Cabrita, destaca na escrita de Taruma o seu forte apelo lírico e sua poesia de cunho existencial, considerando-o um poeta que não receia pôr os dedos nas feridas, não alienando na palavra o seu testemunho histórico e social, e isto embrulhado numa prosódia segura que faz de si um dos nomes cimeiros da atual poesia moçambicana.

A presença do autor em Portugal e a divulgação da obra em Moçambique contam com o apoio do IC-CCP e insere-se na promoção de novos valores literários no espaço da língua portuguesa, suas culturas, bem como na valorização da sua diversidade. “Animais do Ocaso” será também apresentado brevemente no IC-CCP em Maputo e na Beira, acompanhado de uma conversa que contará com o prefaciador

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