O País – A verdade como notícia

Isabel Mabote, vítima de doença, morreu aos 58 anos de idade. Além de professora musical, a malograda foi também júri em concurso musicais de STV, e até à data da sua morte, era directora da Escola Nacional de Música.

Na verdade, é mais um membro do jurado do concurso Fest Coros, que se vai. Primeiro, foi Hortêncio Langa, no princípio do ano e, agora, morreu Isabel Mabote, membro de júri em todas as edições do concurso da STV.

Do grupo, ficam Teresa Chiziane e Arão Litsuri, este último que, falando ao “O País”, reconheceu que vai ser “difícil” voltar a juntar um jurado tão coeso quanto era com a presença de Isabel Mabote.

“Eu e o Hortência tínhamos os conhecimentos que tínhamos sobre a música, mas nos sentíamos mais fortes quando ela estivesse connosco em termos de avaliação e opinião musical. Vai ser complicado outras pessoas para esta grande tarefa”, disse Litsuri.

E de tarefas grandes foram feitos os 58 anos de idade de Isabel Mabote, que dedicou maior parte da sua vida à música. Ora sendo maestrina, ora sendo professora ou então como júri nos grandes concursos da STV.

Aliás, passavam mais de 10 anos desde que tinha sido indicada para dirigir a Escola Nacional de Música. Mas não era isso o mais impressionante da pessoa que este sábado partiu. O seu colega David Abílio fala do seu carisma quando interagisse com alunos e com grupos de canto.

Era impressionante “o modo como ela tratava os alunos e como esses respondiam a ela era qualquer coisa que nós outros, que também geríamos grupos de canto, inspirava-nos bastante”, comentou David Abílio.

E parte desse carisma era visível a cada vez que avaliasse grupos corais, por exemplo, no fest Coros. As suas avaliações começavam com os melhores aspectos do grupo.

Mas, atenção, que esse carisma não se confunda com falta de conhecimento, tampouco que ela fosse menos exigente. Depois dos elogios, vinha a Isabel Mabote que queria mais trabalho.

Elogiava, criticava e apontava soluções de acordo com as especificidades de cada grupo. Para ela, os grupos precisavam escolher canções fáceis e que fossem boas para escutar e apreciar.

Por falar em apreciar, quem nunca elogiou o saxofone de Moreira Chonguiça? Poucos levantariam a mão, até porque este sopro é do que mais soam em Moçambique e pelo mundo inteiro. E foi pelas mãos da professora de música Isabel Mabote que tudo começou.

Para Chonguiça, Mabote representa muito mais do que uma professora de música. “Deu aulas de canto, de piano e musicalidade. Ela representa uma multiplicidade para mim”, contou o conceituado saxofonista.

E essa multiplicidade não foi apenas com Moreira, até porque Mabote tinha conhecimentos e que iam para lá da música, tal como ele mesmo testemunhou. “A professora Isabel tinha conhecimento de pedagogia e de gestão de crise institucional”.

Ao que tudo indica, também sabia gerir as emoções dos seus alunos. Que o diga Nelson Nhachungue. Lá, no princípio da sua carreira, o jovem cantor teve Isabel Mabote como professora na academia do Fama Show, também da STV.

Ele conta que tinha problemas em assumir que não conseguia fazer falsetes, mas “a professora me ensinou a ser natural e usar a minha voz tal como ela é”.

Nelson foi treinando com o acompanhamento da professora Isabel Mabote na academia do Fama Show. Daí que Nhachungue assume dever tudo que tem, enquanto cantor, à Isabel Mabote. “Tudo que faço em palco é graças a ela”.

Nelson e Moreira não são os músicos moçambicanos que passaram pelas mãos de Isabel Mabote. A lista inclui, mas não apenas, Ivan Mazuze, Sheila Jesuíta e até a actual ministra da Cultura e Turismo, musicalmente conhecida como Kika Materula.

Isabel Mabote deixa quatro filhos, dos quais, uma seguiu a carreira da mãe, que é Cídia Mabote. A cerimónia do adeus à professora de música tem lugar amanhã, às 09 horas, na capela do Hospital Central de Maputo, e as 11 horas no cemitério de Michafutene.

O segundo romance de Bento Baloi é intitulado No verso da cicatriz e chega às livrarias moçambicanas e portuguesas esta quinta-feira. O livro que recupera um passado particular da história de Moçambique poderá ser lançado na Feira do Livro de Lisboa.

 

Os pássaros rasgam os ares de regresso aos seus ninhos. A brisa forte tinge-se do avermelhado da areia. As paredes outrora brancas das casotas pré-fabricadas que corporizam a pacata estação dos caminhos de ferro reclamam pintura. Este é o primeiro parágrafo do novo romance de Bento Baloi. Evidentemente, nesse excerto não se nota que há aí uma história de amor a convocar tantas outras narrativas reais e fictícias sobre Moçambique. Esse apenas é um start, diriam alguns, como se a ficção tivesse uma ignição capaz de colocar o motor a funcionar. Seja como for, um start é um princípio e é a partir daí que o romance No verso da cicatriz vai buscar ao passado fragmentos que de uma memória colectiva que não se devem perder no tempo.

No verso da cicatriz é um livro constituído por 321 páginas, escrito e amadurecido ao longo de vários anos. O autor descreve-o como uma viagem emotiva, de paixões, de perseverança, de luta e de dor, que, com efeito, procura trazer um pouco da História de Moçambique. Assim, o enredo situa-se, em termos temporais, nos primeiros anos da independência nacional. Simultaneamente, No verso da cicatriz é uma história de amor e que retrata esse diálogo com acontecimentos sociais, económicos e até políticos que caracterizam o país recém-nascido.

Quanto ao espaço, ao contrário do que acontece nas primeiras obras literárias de Bento Baloi, neste seu novo romance a zona rural é o lugar de eleição de uma narrativa intensa e profunda. É como disse o escritor, esta quarta-feira, durante a conferência de imprensa realizada no Centro Cultural Brasil-Moçambique, na Cidade de Maputo: “O livro é o corolário de um trabalho intenso, de muitos anos”. Finalmente ficou pronto, graças ao trabalho coordenado de duas editoras: a Índico, de Moçambique, e a Alêtheia, de Portugal. Por isso mesmo, o terceiro livro de Bento Baloi chega às livrarias moçambicanas e portuguesas simultaneamente, a partir desta quinta-feira. Apenas às livrarias, porque a cerimónia de lançamento terá de ser reprogramada.

Na verdade, a cerimónia de lançamento com presença do público está prevista para acontecer no fim deste mês ou no início de Setembro. Como tem sido hábito, nos últimos tempos, tudo dependerá do relaxamento ou não das medidas de prevenção contra a COVID-19. Se as condições forem favoráveis, Bento Baloi vai viajar para Península Ibérica e participar na cerimónia de lançamento do romance na Feira do Livro de Lisboa, na segunda semana do próximo mês. Enquanto isso não acontece, e porque o futuro nunca foi tão incerto, os leitores já o podem ler.

No verso da cicatriz possui três livros. Sim, três livros. Se preferir, três secções, designadamente: a ferida, o sangue e a cicatriz. São estas as palavras que, em parte, resumem a história de amor mergulhada na guerra e em toda uma atmosfera hostil.

No verso da cicatriz é um romance que resgata e reconstrói perspectivas da realidade moçambicana com os olhos – se bem que um romance tem olhos – postos numa ideia de futuro. E porque é justo que o leitor tenha mais uma ideia sobre este livro com dois narradores, este artigo termina praticamente como começou, com um excerto do romance: Nelson e Sofia atravessam os atalhos de Carico num silêncio cúmplice que disfarça a violação do trato acabado de celebrar. Ambos não param de sonhar. A nuvem branca que ora esconde o luar, ora deixa que a lua resplandeça incendiando os céus, leva Sofia a sonhar com um vestido cor de algodão com uma cauda tão longa quanto o tempo que dura o seu amor por Nelson. Ela não tira o olhar dos céus, deixando que o brilho do véu que se forma nas nuvens se reflicta numa retina cheia de amor para dar.

Por: Ricardo Mutita

 

Não precisou de mais avalanches para ver o seu dia afundado. Aquela ligação do agente do SERVINCER já lhe era suficiente. Pensava, Djampirito, que o caso estivesse encerrado, mas enganou-se. Até que, antes disto, passou-lhe pela cabeça a ideia de imitar o profeta Abrão: sacrificar o seu primogénito. Isto, para ele, seria pôr na bolada a sua máquina de último grito, para ver se calava, de uma vez por todas, o silêncio e a trombeta do ilustre agente. Contudo, suspeitava levar a situação ao pior, uma vez que, na última conversa que tivera com ele, não se ter dito coisa com coisa, por isso que a notícia da transferência do caso era, para o tio do Hantsa, péssima e boa, ao mesmo tempo. Na verdade, o que mais queria, naquele momento, era livrar-se do bang-bang daquela bolada, de uma vez por todas.

– Desculpa, não percebi. Como assim o caso foi transferido? Pensei que este assunto estivesse encerrado. Reagiu, Djampirito, bem arreado.

– O senhor só deve estar de brincadeiras connosco, nem? Os casos de justiça nunca se encerram sem a devida responsabilização ou esclarecimento dos actos. O meu colega, agente Djemba, está aí na sua zona. Ainda hoje, vai lhe ligar. Peço que colabore para não piorar a sua situação.

– Como quiser. Agora tenho que desligar. O meu sobrinho acaba de chegar e não quero estragar-lhe o dia com esta notícia irritante. Se me der licença, tenha uma boa tarde.

– Senhor Djampirito, se eu fosse o senhor, não me comportaria dessa maneira diante de uma autoridade. Depois, não diga que não avisei. Boa tarde para si, também.

Aquela noite foi pesada e longa de mais para Djampirito. Mal esperava pelo cacarejar do galo, nascer do sol ou uma qualquer outra luz que o representasse dia e, portanto, início das actividades. Então, decidiu ir fazer um compasso de espera ao quatro do seu sobrinho.

– Hantsa, posso entrar?

– Espera lá aí, ckota. Uns dois minutos só. Tó para berrar a sena.

(…)

– E, então, porque você faz isso?

– Oh…ckota, gramo manning desse wey. Me alivia o estresse e não me txula minha mola como aquelas pitas do Axinene. É só um pedacinho de sabão, pouquinho de água nos meus cinco dedinhos mágicos e já tó a sentir a vaibe. Não sei se vais entender a bolada, mó ckota.

– Se assim dizes, nada posso dizer contra. A propósito, não me contaste sobre as tuas aulas. Como vão?

– Dispensei todas disciplinas. É por isso que tó aqui a curtir férias.

– Como assim, pah? Se nem o teu próprio nome consegues escrever…

– Ah, boladas, meu tio. Esses titchas de agora gramam maning de mola. Um gajo não pode se dar muito job nos buks, enquanto há outra porta nessa shite.

– E assim como te sentes?

– Ah, na boa, se já passei…. Tenho uns colegas aí que se fazem de marrões, excluíram todos os cabrões. Outra pita da minha turma, negou dar as senas a um titcha aí, de Biologia, lhe matrecaram na hora também.

– Ok, ok… já chega. Onde conseguiste o valor que passaste ao professor?

– Mas também, tio, que pergunta é essa? Tratei umas boladas aí, com meus trutas da hud.

– Boa noite. Voltamos a conversar sobre isso, amanhã.

– Tá nice, ckota. Vai lá ferrar.

Apesar de não concordar com os procedimentos usados pelo o seu sobrinho para passar de classe, sentiu-se um pouco distraído. Uma vez sentado no sofá, tentava, através de uma leitura previsível das ocorrências do amanhã, ir ao encontro do sono. Mas enganava-se ainda mais – o sono recusava-se em lhe fazer companhia por causa das constantes humilhações noturnas que recebera de seus olhos nos tempos do “de ti, ninguém me larga”. Preferia passar a noite inteira grudado ao telemóvel a viajar com o sono para os seus destinos incertos.

Pela madrugada, antes do galo cacarejar, enquanto procurava perceber como foi amnistiado pelo arrogante sono, o ilustre telemóvel tririntava:

– Tririntim…tririntim…tririntim…tim…

Espreitou e, com muita raiva, leu: – Agente SERVINCER. Julgou melhor não o atender para não inverter os papéis e pecar contra Deus. Tarde de mais. O outro já tinha escrito e clicado na opção enviar. Lia-se na mensagem:

“Senhor Djampirito, veja bem o que estás a fazer para, depois, não nos procurarmos com arrependimentos. Nessa hora, será tarde de mais para si. Aguardamos pela sua presença aqui nos escritórios do SENVINCER, pelas 7h de hoje”.

Espreitou e leu, abatidamente, a mensagem. Ainda julgava melhor não reagir para ver se recuperava o seu lado vivo, uma vez que não tinha mais nem chão nem céu. Era como se se tivesse perdido de si mesmo. Mas como o que ele mais queria, naquele momento, era livrar-se daquela tortura cerebral, recompôs-se e saiu andando em direção ao local, acompanhado por um amigo da família, de largas influências sociais, Ramussa Walaya, jovem arranjado, de média estatura, fortinho e com um discurso paracetamol. Era a sua última estação.

– Mande-lhe uma menagem a dizer que estás aqui enfrente ao carro do director do SERVINCER. Direccionava, Ramussa Walaya, ao seu acompanhante.

– Bom dia! Já estou aqui no SERVINCER. Aqui ao pé do carro do director.

– Como sabes que é carro do director? Venha até aqui no bloco da secção II, sala de auscultação de reclusos.

Mesmo estando acompanhado por um paracetamolista, Djampirito sentia, cada vez mais, na pele e no osso que o assunto era mesmo de chamar ambulâncias.

– Vamos entrar. O acompanhante pode continuar lá fora. Ou é advogado?

– Não… Nem precisou, Djampirito, de concluir a frase, logo o agente sentenciou:

– Então, é melhor ficar de fora.

– Olha, prezado, desculpe-me pela ousadia, mas eu gostaria de acompanhar o processo todo no qual o meu sobrinho está envolvido. É um favor de um tio que está há meses sem conseguir dormir, devido à esta situação que consideramos ser, extremamente, delicada. Por favor, não me negue este pedido.

– Como quiser. Mas seria bom para o seu sobrinho se o senhor ficasse de fora, mas já que insiste… Então, é o senhor que, por todo esse tempo, andou a nos provocar dores de cabeça, nem? Djampirito Sufo Muriparipa… o seu documento de identificação, por favor…

(…)

– Então, estes actos todos saem do SERVINCER, em Nampula. Como pode ver são tantas páginas e todas elas apontam o senhor como arguido. Aconselho-lhe a chamar o seu advogado, se tiver, é claro.

(…)

– Senhor Djampirito, tem advogado? Tem o direito de responder todas as acusações que pesam sobre o senhor na presença do seu advogado. Estamos aqui perante uma situação de assalto a uma residência…  

(…)

– Podemos prosseguir com o processo?                          

(…)

– Bom, meus senhores, como podem ver o jovem está, completamente, abatido. Sem forças para, absolutamente, nada, e eu, humildemente falando, não percebo muito bem isto de lei. O que eu peço é que tratemos deste assunto de modo a encontrarmos os tais responsáveis por este assalto. Sinceramente, quero vos garantir que este jovem não tem nada a ver com isto. Não sabe de nada, este. É mais uma vítima dessas boladas de cá. Hoje em dia, como sabem, os jovens saem à procura do mais barato, sem olhar muito para este lado dos riscos. É mais ou menos isto que eu peço aos ilustres, olhando para os passos subsequentes que podem ser prejudiciais para o coitado. Agradecia por muito mesmo.         

– O senhor disse que não é advogado, mas está aqui a falar como se fosse. Isso que o senhor está aqui a pedir não depende de mim nem de qualquer outro agente aqui presente. Tudo está nas mãos do seu sobrinho. Ele sabe muito bem onde se meteu e, portanto, deve também saber como sair. Já agora, sabe com quem comprou o telemóvel?

– Sim, com um jovem de nome Seraldino Mohoyo, de pele clara, aliás, mulato mesmo, um pouquinho baixinho, não sei bem dizer se é forte ou gordo, mas é de corpo mesmo, gosta de fazer penteados tipo uma menina e deve estar a estudar naquela universidade da caridade, em Nampula.

– Onde mora?

– No bairro da Expansão, passando dali do quatro caminho para quem vai à uma escolinha lá enfrente, ao pé dum instituto de saúde de uniforme cor de leite e azul, verde ou coisa parecida, bem ali atrás. Deve ser a primeira ou segunda casa, de portão preto, gradeado.

– Na hora da compra, havia testemunhas?

– O amigo dele. Se a memória não me trai, chama-se Simpestre Janeke que também mora lá no bairro da Expansão. Também baixinho, escurinho assim, mais gordo que o outro. Deve estar também a estudar nessa mesma universidade que falei.

– O senhor conhecia a origem, proveniência desse celular? Sabia que era fruto de assalto a uma residência?

– Não, não… nem tao pouco, chefia. Eu juro que não sabia nada disso.  

– Como ficou a saber sobre a venda do celular? O nome destes dois jovens, sua morada e escola?

– Eu mesmo saí à cidade para ver se conseguia um celular que me saísse ao valor que, naquele momento, tinha. Foi quando o Seraldino fez-me parar e exibiu-me o celular a um bom preço, tendo, por sua vez, o seu amigo, Simpestre, garantindo-me que não me iria arrepender, aceitei e fechamos o negócio.   

– Hei… para com isso! Negócio de o que? Usa o termo que vocês costumam a usar – “boladas”, nem? Vai, fala “(…) fechamos a bolada”… e depois?

– Depois de um tempinho, vi que aquele celular tinha problemas, e, através de algumas fotos, screemshots e pautas da faculdade que ficavam no celular, consegui identificar os jovens no facebook. Passaram-me seus contactos e marcamos para nos encontrarmos bem ali no Quatro Caminho, enfrente a um “botle store”. Pediram-me para que fôssemos discutir o assunto na casa do Seraldino. Chegado lá, enquanto Seraldino pedia-me que deixasse o celular e, depois de uma semana, voltasse para levar o meu dinheiro, o Silvestre sugeria-me que aumentasse o valor para levar um outro mais potente. Este, então.

– E você?

– Estive confuso. Queria apenas sair com um bom celular que me pudesse oferecer uma alta funcionalidade. Então, concordei com a ideia do Silvestre, mas sem ter que dar mais nada porque a culpa não era minha. Mostraram-se, os dois, insistentes, um contra o outro e todos contra mim, mas acabaram por me dispensar o celular, e sai com o meu moto-taxista. Um jovem baixinho, forte e escuro que tem circulado por aquelas bandas da rotunda do aeroporto. Se a memória não me trai, o seu nome é Saíde ou Momade. Coisa parecida.

– Bom, o senhor sabe ler, nem? Pode ler esta parte aqui…

E lia-se:

“(…) fica, devidamente autorizado a qualquer agente do SERVINCER (Serviço de Investigação de Celulares Roubados) ou autoridade competente, a busca e apreensão do celular da marca Iphone, cor cinzenta, com o número de IMEI: 91Np2091Cd0910910Bl9103, que se encontra na posse do cidadão Djampirito Sufo Muriparipa, com observância de todas as formalidades nos autos de instrução precatória do Ministério Servincensual, dispostas ao abrigo 13º do artigo 14 da lei n°:0/02 de Janeiro, conjugado pelo artigo 122 do código servincensual, a qualquer hora, isto é, do nascer ao pôr do por do sol.

CUMPRA-SE!”

– Muito bem! Então, já pode tirar tudo de seu interesse do celular. Apagar ou formatar, o senhor é quem sabe, e entregar-nos o celular, agora. Pedimos que arranje um outro para se manter comunicável, pois, a qualquer momento, podemos o solicitar para passos subsequentes.

À camara-lentas, o coração, as mãos e os olhos se compunham em direção ao telemóvel, para ver se o conseguiam dizer o último adeus. Atrasavam-se de iniciar com a acção – apagar ou formatá-lo, na esperança de ver um milagre acontecer e todas aquelas ocorrências, desde a compra do azar, a sua primeira manifestação – o telefonema do agente do SERVINCER, até ao roçar da carne e osso – a transferência do caso, aliás, busca e apreensão do celular, não passasse de mais um daqueles sonhos que todo o mundo conhece o seu pavor. Entretanto, continuava a engar-se, Djampiro, em todas as suas deduções. Nenhum dos resultados por ele previstos, conseguia inverter os dados das boladas de cá. Tinha mesmo, de sacrificar o primogénito. Já não se tratava de querer ou não imitar a ideia do profeta Abrão. Não tinha outra saída, embora fosse, aquela, para ele, uma grande vantagem no processo do caso, segundo Walaya:

– Faça lá isso. Será melhor para si. Você trabalha, vai comprar outro. Por favor, desta vez, na loja. Na loja mesmo, para evitar estas chatices todas.       

O lado consciente de Djampiro encontrava-se em sintonia com a morte. Arrependia-se, cada vez mais, de ter seguido à Waresta, a partir daquela bússola que deixa a qualquer um nampulense e/ou visitante, meio confuso. Talvez, se tivesse seguido à Namicopo, não carregaria tantas cotoveladas. Claro que lá, não escaparia de uma saudação daquelas dos “vamos comer aonde?”, em forma de entrevista para vida militar, clara e objectiva, em plena luz do dia. Daí que, o bom, seria ele a procurar e não a ser procurado. Os boladeiros namicopuenses tratam com modéstia as suas boladas. Nunca comprometem as suas fontes para que, amanhã, lhes possam voltar a servir. Em Namicopo, bolam-te, hoje, um produto e, antes de começarem a chover os bang-bangs, recuperam-no de imediato, no dia seguinte, para preservar a boa honra do prezado cliente.

Se tivesse seguido à Namicopo, precisaria, apenas, de um pouco mais de paciência naqueles autocarros debilitados, com a garganta furada e improvisada com borracha, que nunca se fartam dos trocados de Namiepe, mesmo com gritarias e bofetadas. Precisaria de multiplicar por três a sua inteligência e capacidade de leitura para interpretar a complexidade dos gafanhotos voadores na estrada do sacrifício. Precisaria de fazer Marketing e Publicidade ou curso afim para puder controlar a sua emoção e não cair na tamanha tentação dos produtos brilhantes a preços super promocionais. Precisaria de se formar em Urbanização e Expansão Territorial ou coisa parecida para não cair de vertigens ou, pior, perder-se de si mesmo ao tentar atravessar as ruas ou conhecer lugares. Precisaria de entender um pouco mais sobre Necessidades Especiais Específicas, para perceber quem, realmente, é uma pessoa com deficiência e prestar solidariedade, sob o risco de sustentar vícios ou teorias boladistas como “cabrito come onde está amarrado”, “vamos comer aonde?”, “cada um à sua sorte” entre outras. Precisaria de mais treinamento em matéria de masculinidade, sexo e estabilidade emocional, para puder resistir à estravagância das muthianas oreras que, 24 sobre 24, se encontram na estrada do sacrifício com grifes de atrizes de novela, aliás, são mesmo verdadeiras fazedoras de novelas e, portanto, conseguir distinguir uma paixão à primeira vista de uma simulação sugadora de comes e bebes.

Enfim, torna-se, cada vez mais, evidente a relatividade dos casos nestas boladas de cá. O certo é que cada bolada é uma bolada e a sua onda de jogada deve ser, pelos seus interboladeiros, respeitada. Geralmente, usa-se a onda do “é pegar ou largar”, “tomá-lá, dá-cá”, “demorou, perdeu”, “curvar é curvar”, “warina awé” (quanto tiver) entre outras que tendem a aliciar tanto os “mai-mai” assim como os “vamos comer aonde?”. Cá, bola-se tudo menos e como nada. A diferença é que enquanto para uns, a luta é pela sobrevivência, para outros é pela sobreriqueza.

 

[i] Texto inspirado numa história real

A artista plástica Carmen Muianga vai inaugurar, esta quarta-feira, a exposição individual O homem que cai na terra. A mostra pode ser visitada na Fundação Fernando Leite Couto até próximo mês.

 

A inauguração da exposição de Carmen Muianga está marcada para esta quarta-feira, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Quando forem 18 horas, os apreciadores de artes plásticas poderão ver nas paredes da galeria O homem que cai na terra, individual na qual se destaca a cor azul.

Segundo a nota de imprensa da Fundação Fernando Leite Couto, a mostra de Carmen Muianga é constituída por pinturas, desenhos, gravuras, telas e técnica mista, e a cor azul predominante pode significar tranquilidade, serenidade, harmonia e espiritualidade: “O azul pode ainda estar associado à frieza, monotonia e depressão. Igualmente simbolizar a água, o céu e o infinito. Como inclusive sugere o texto de apresentação da exposição assinado pela artista multidisciplinar Eliana N’Zualo”.

A exposição de Carmen Muianga, acrescenta a nota da Fundação Fernando Leite Couto, realça um imaginário e um olhar sobre a realidade que se lê de forma crítica e sensível, cujo resultado são outras sugestões de interpretação do mundo.

A individual O homem que cai na terra estará aberta ao público até 5 de Setembro, entre 9 e 18 horas. As visitas, avança a Fundação Fernando Leite Couto, deverão obedecer as medidas sanitárias instituídas para a prevenção da COVID-19. Por isso, a galeria só poderá receber, simultaneamente, até 12 pessoas.

A artista plástica Carmen Maria Muianga nasceu na capital moçambicana a 8 de Outubro de 1974. Foi co-fundadora do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART), que agitou as águas das artes plásticas moçambicanas, mudando a percepção de identidade africana, constata a Fundação Fernando Leite Couto. A obra da artista explora o abstracto, tendo a natureza como um universo fértil para a criatividade, o que se evidencia na presença de elementos vegetais nos seus trabalhos.

Em 1989, Carmen Muianga concluiu o curso básico da Escola de Artes, tendo prosseguido o ensino técnico médio, entre 1992 e 1997, na Escola Nacional de Artes Plásticas de Havana, capital cubana, onde abraçou a docência, leccionando Pintura na Escola Lopes Penha, nos anos 1995/6. Entre 1997/8, foi docente de Gravura, Anatomia Artística e Desenho Analítico na Escola de Artes Visuais e de Artes Visuais na Escola-Galeria Eugénio Lemos. Na Namíbia, Carmen leccionou no Centro de Arte John Muafangaio.

De regresso ao país, tornou-se professora na Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV) e na Escola-Galeria Eugénio Lemos.

Considerada a principal divulgadora da técnica da colagrafia no país, segundo aponta a Fundação Fernando Leite Couto, Carmen Muianga representou Moçambique na Expo’98, em Lisboa, Portugal, e, no ano seguinte, participou na 4ª Mostra Trienal Internacional de Gravura Kochi, no Japão, e foi distinguida com o 1º Prémio (em Gravura) na Bienal TDM, com uma Menção Honrosa no MUSART e 2º Prémio (em Pintura) no concurso/exposição Reconstrução.

Carmen Muianga participou em várias exposições colectivas no país e nos seguintes países: Namíbia, Japão, China, Itália, Finlândia, Holanda e Portugal.

Por: Edna Matavel

 

Lá, naquele bairro, no bairro onde nasci, crescemos e vivemos como um grupo de quartéis de droga, sem importar a idade, e sim a proveniência do mesmo. Onde nunca se conseguia distinguir as tardes e as madrugadas, pois, parece que o dia fazia sentido somente nas madrugadas. Sem se importar com o dia de semana, todos naquela comunidade reuniam-se na rua baptizada com o nome Soweto. A vida era realmente um Soweto sem fim… bastava-se ouvir a música Umlilo que toda população fazia-se às ruelas do então “Soweto” para juntos compartilharem da mesma cerveja, a vida era realmente vivida se tivesse a famosa Txilar, Heineken e, por vezes, o famoso Top21. E para que a madrugada tivesse mais sentido, faltava o elo mais forte “soruma”, mas num bairro como aquele isso era o mais fácil de se achar.

Todas 3h de madrugada, diante de toda aquela fumaça onde nem se vislumbrava o devido quem, todas cabeças juntas se mexiam como se fosse uma noite em Califórnia. Gritos e gritos de felicidade porque nunca faltava um trocado para adquirir a soruma, a vida estava baseada em droga em cima de droga.

Somente era gente quem realmente fazia parte daquele mundo cheio de abismo. Mas como ficam as tardes se todo foco e energias estão voltados à madrugada… Para muitos, as tardes não faziam muito sentido e, para outros, seriam uma espécie de concentração para se discutir o plano de mais uma madrugada em benefício do txiling e da droga.

Neste pequeno gueto, os crentes eram vistos como meros quadrados e retrógrados da vida, porque só era jovem e adolescente quem sacrificava sua madrugada para gritar com os outros o quão doce é a vida acompanhada por uma 2M. Todavia, alguns crentes não resistiram a essa pressão da vida e trocaram as noites de louvor e adoração a Deus em noites profícuas para realmente ouvir o som do Something Soweto e Maphorisa e outros até mesmo as escrituras trocaram por uma cerveja que não duraria nem meia hora.

A chuva parecia atrair mais aquela população, pois acreditava-se que ela fosse símbolo de um txiling abençoado. Nos becos fazia-se sentir o cheiro da fumaça, até quem não fumava ganhava gosto por aquilo. Mas nem todas as madrugadas eram tão boas… haviam aquelas em que os próprios chegavam aos socos por conta de uma cerveja e no meio daquela fumaça partiam-se as garrafas e outros saiam feridos, mas aquém darás culpa se tu mesmo estás tão embriagado que não consegues nem ver o sangue escorrer até aos ouvidos. Enquanto outros gritam de susto, outros gritam de alegria porque para eles estavam vivendo o verdadeiro Soweto num pequeno bairro e numa pequena rua designada Soweto.

Mas, para tudo há uma explicação. O que poder-se-ia esperar de pessoas que cresceram vendo os seus progenitores nos becos jogando o famoso “batota” para depois gastar tudo com um gole de tentação e um cigarro calçado na orelha para realçar a visão e acreditar nas ilusões do vício.

Pergunto-me, como será a vida dos antecedentes deste gueto, quiçá tudo mude, só Deus…

 

 

Escritore, poetas e editores vão debater o tema Literatura e viagem na primeira dição da Feira Internacional do Livro de Quelimane. O evento vai realizar-se de forma virtual, a partir desta quarta-feira.

 

A primeira edição da Feira Internacional do Livro de Quelimane vai iniciar esta quarta-feira, na capital zambeziana. Ao longo de três dias, autores, editores, pesquisadores, jornalistas e gestores culturais de sete países, segundo a organização do evento, estarão reunidos para debater em torno do tema Literatura e viagem.

A conferência de abertura da celebração literária será feita por Ungulani Ba Ka Khosa e o concerto inaugural será realizado pelos músicos de Quelimane, que irão revisitar poemas do autor homenageado nesta edição: Armando Artur.

Referindo-se ao evento que considera importante, o curador da Feira, Amosse Mucavele, lembra o que já foi feito até aqui: “Há sensivelmente um mês, a Cidade de Quelimane fez um ensaio da Feira do Livro, a que denominou pré-lançamento, o qual se notabilizou pela afluência em massa dos munícipes ao local onde decorria o certame, um impacto impressionante para a vida cultural da capital da Província da Zambézia, os livreiros, leitores, estudantes e escritores, reconheceram que Quelimane, com a realização da Feira do Livro, entra no mapa das cidades onde a cultura tem um valor estruturante e preponderante para o desenvolvimento humano e sociocultural”, lê-se na nota de imprensa.

A Feira Internacional do Livro de Quelimane pretende contribuir para a massificação dos hábitos de leitura e formação de leitores, envolvendo escolas e bibliotecas municipais. O propósito, segundo a organização, também é promover práticas leitoras numa cidade onde o livro e a leitura não têm merecido destaque: “Quelimane ressentia-se de acções que concorrem para a implantação da indústria do livro e da leitura. Esta Feira veio para construir novos sonhos”, assim é citado Amosse Mucavele, na nota de imprensa.

A ideia da Feira Internacional do Livro de Quelimane surgiu em Junho deste ano. Nessa altura de pré-lançamento, a sessão contou com a presença de vários escritores e pesquisadores de diferentes geografias literárias. Por exemplo, Sónia Sultuane, Pedro Pereira Lopes, Julieta Valentim (Angola), Eliane Debus (Brasil) e Nuno Gomes Garcia (Portugal). A iniciativa de pré-lançamento foi pensada para debater literatura, expor e lançar livros e informar as novidades da primeira edição da Feira Internacional do Livro de Quelimane.

Devido às restrições impostas pela COVID-19, a feira será virtual.

O programa da primeira edição da Feira Internacional do Livro de Quelimane incluirá debates, contadores de histórias, palestras, depoimentos, entrevistas e conversas, esmerando-se em tornar a Cidade de Quelimane na capital cultural e turística de Moçambique.

A Feira de Quelimane reúne escritores e autores de Moçambique e de outros países que têm a língua portuguesa e espanhola como oficial, designadamente, Portugal, Angola, Cabo Verde, Espanha, México e Brasil. Nesta edição, ao todo, são quase 30 autores que vão celebrar a arte literária. Entre eles, Juvenal Bucuane, Hirondina Joshua, Mia Couto, Aurélio Furdela, Daniel da Costa e Ungulani Ba Ka Khosa. Do estrangeiro, conta-se com Nuno Júdice, Gabriela Ruivo Trindade, Julieta Monginho, João Morales, Isabel Rio Novo, Paulo M. Morais, Maria João Cantinho e Luís Castro Mendes (Portugal), Nara Vidal, Luiz Ruffato, Wanda Monteiro e Vladimir Queiroz (Brasil), João Melo, João Fernando André e Amélia Dalomba (Angola), José Luís Hopffer Almada e Eurídice Monteiro (Cabo Verde).

No primeiro dia, esclarece a nota de imprensa, o edil Manuel de Araújo fará a abertura oficial e, de seguida, Ungulani Ba Ka Khosa vai conduzir a Conferência de Abertura do Encontro, à qual se segue a primeira mesa de debate. Hélder Muteia, Nuno Júdice, Wanda Monteiro, Amélia Dalomba, Vladimir Queiroz e João Morales serão os primeiros a assumir o desafio de debater perante o público o tema que a organização lhes propôs: “Fora do poema o poeta não existe ” – o verso é do poeta português Luís Costa.

A vertente pedagógica do evento está uma vez mais presente e a Feira do Livro realiza sessões com escritores para o público infanto-juvenil. Durante a programação, Eliane Debus e Ana Maria Castelo Branco vão dinamizar sessões de narração de histórias e leitura dramática.

A Feira Internacional do Livro de Quelimane é organizada pelo Conselho Autárquico local e com produção-executiva da Óptica Textos.

 

O guitarrista e fundador da banda francesa Kassav, Jacob Desvarieux morreu na sexta-feira, vítima da COVID-19, anunciou a produtora do grupo.

Desvarieux foi hospitalizado no dia 12 de Julho, depois de ter contraído a COVID-19 e colocado em coma induzido, devido a um estado de saúde debilitado, na sequência de um transplante renal, indicou a empresa, citada pelo Notícias ao Minuto.

Devido à situação, a banda cancelou, recentemente, todos os concertos programados.

Em reacção à sua morte, o cantor senegalês Youssou Ndour endereçou uma mensagem do último adeus ao malogrado, tendo sido divulgada na sexta-feira à noite, na rede social Twitter.

“As Índias Ocidentais, África e a música acabam de perder um dos seus maiores embaixadores. Jacob, graças à sua arte, aproximou as Índias Ocidentais e a África. Dakar, onde viveste, chora por ti. Amigo de despedida”.

A banda Kassav lançou o primeiro álbum “Love and Ka dance” em 1979, e atingiu o auge da popularidade, com o “Zouk”, estilo de música que deu origem a êxitos mundiais cantados em crioulo, como “Zouk la sé sèl médikaman nou ni” (1984), ou “Syé bwa” (1987).

Refira-se que Desvarieux nasceu na capital francesa, Paris, em 1955, e morreu com 65 anos de idade.

Morreu, hoje à tarde, em casa, o músico Dimas. O autor de Txotxoloza encontrava-se doente há vários anos e não resistiu à enfermidade que o afligia.

Para os mais novos, o nome Dimas até pode não dizer nada. No entanto, para aqueles que nos anos 90 já ouviam rádio e ligavam a televisão, certamente, deve dizer muita coisa. Na verdade, Augusto Samuel Dimande, nome de registo, começou a cantar mais cedo, muito provavelmente nos anos 70. 20 anos depois, já era aquela voz vibrante que se destacava pela sua precisão musical e colocação vocal. Dimas cantou de forma particular, exprimindo, através da música, sentimentos verosímeis e acutilantes. Txotxoloza, eventualmente o seu maior êxito de sempre, é exemplo dessa capacidade que o autor teve na representação de uma época e de um povo. A música, por isso, continua actual, com aquele teor moral e educativo.

Dimas abandonou os palcos lá vai um bom tempo. A saúde foi-lhe um bem muito precioso, difícil de manter. Nos últimos cinco anos, mal se ouvia a sua voz. O artista recolheu-se ao seu lar para recuperar o vigor de outros tempos. Lutou uma vida inteira. Cinco anos doente é uma vida inteira. Por isso, enquanto lutava pela vida, essa coisa efémera, os mais novos não viram e nem ouviram Txotxoloza. Talvez, porque a música não é abundante no YouTube, mas o tema até se refere ao destino que esses mupfanas (rapazes) podem ter se não souberem ouvir e aprender.

Dimas não cantava apenas, interpretava a vida no mais profundo sentido da palavra. As notas altas e prolongadas eram suas. Com ele parece que cantar era fácil e, não poucas vezes, a música parecia uma recriação da dor. Esse terreno também era seu. Originalmente seu. Também por isso fazia de temas taciturnos uma receita para a arte de interpretar o que pode ser âmago de um sofredor. Hlomulo – outro hit dele, diriam os mais novos, aqui opta-se por clássico – encontra-se nessa fronteira entre o drama, o trágico, a frustração e a catarse. Nyandayeho! (Do rhonga, socorro em português). Na música se ouve essa palavra intensa, dita apenas em momentos muito específicos. Essa também é uma palavra actual e continuará a ser enquanto houver sofrimento.

Dimas cantou o sofrimento e com a música expurgou-o, de certo modo. Quando abandonou os palcos, muitos sentiram a sua falta. – Por onde anda o Dimas? Perguntavam os mais velhos, esses cuja memória atravessava séculos na ansiedade de recuperar, no passado, parte do que Moçambique teve de encantador ao nível musical.

Dimas morreu 15 dias antes de completar o seu 65º aniversário. O artista nasceu no dia 13 de Agosto de 1956, no Distrito de Manhiça, Província de Maputo. Muito provavelmente, começa a cantar nos 70, mas foi nos anos 90 que se destacou. Além de cantar, foi Presidente da Mesa da Associação dos Músicos Moçambicanos, funcionário público, empresário na área musical e fundador da editora Diamante. Com este sumiço eterno, o autor do célebre Txotxoloza deixa viúva e seis filhos.

Resultando de uma residência artística de 15 dias de duas artistas francesas, Albertine Trichon e Caroline Aycard, a exposição “Maputo, Cidade Portuária” será inaugurada esta quinta-feira, a partir das 17 horas.

A cerimónia de inauguração será restrita e vai realizar-se com a presença das autoras da colectiva.

De acordo com uma nota do Centro Cultural Franco-Moçambicano, cada artista, na mostra, apresenta-se com diferentes meios, gravura em monotipia e pintura em técnica mista.

A colectiva resulta do programa de residências artísticas, de periodicidade anual e especialmente dirigido a artistas franceses/as e francófonos/as, surge no âmbito das missões do Centro Cultural Franco-Moçambicano e da Embaixada de França de valorização e difusão das culturas francófonas em Moçambique, com o objectivo de fomentar a colaboração, cooperação e intercâmbio entre culturas.

Albertine Trichon é pintora. Depois de estudar línguas e literatura na Sorbonne, ingressou na Escola de Belas-Artes de Paris (ateliers de Vincent Bioulès e Jean-Michel Albérola), e praticou litografia e gravura. Após os seus estudos superiores, expôs em França, no Japão, na Alemanha, na Croácia e na Grécia. Os temas das suas obras remetem aoos encontros com lugares e os seus contemporâneos, colocando-os em perspectiva ou simplesmente as viagens diárias que a inspiram.

Além de Albertine Trichon, a nota do Franco refere-se a Caroline Aycard, pintora e escultora. Depois de estudar direito e administração no Pantheon, mudou radicalmente de direcção, entrando na Escola Nacional Superior das Belas-Artes de Paris. Enquanto frequenta a oficina de escultura dirigida por Bruno Lebel e depois Richard Deacon, aproveita, ao longo de cinco anos, para abordar diversos meios de expressão plástica. Desde então, a par da actividade de docente em escultura, desenho e pintura, dá continuidade à sua prática artística e expõe regularmente em França. A vida quotidiana, as pessoas ao seu redor e os seus desejos em outros lugares inspiram o seu trabalho, que assume a forma de desenho, pintura, gravura ou escultura.

 

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