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O País – A verdade como notícia

A frase que dá título a esta entrevista está registada no braço esquerdo de Duas Caras. Esta sexta-feira, portanto, o rapper recorreu a uma tatuagem para partilhar uma (nova) forma de estar na música. Na verdade, nas linhas que se seguem, Kara Boss falou um pouco de tudo, tendo, como mote, o seu novo EP: Afromatic. Além da sua nova fase, o rapper falou do seu processo criativo, do que quer fazer da sua música, abordou a identidade, a importância da liberdade e ainda referiu-se à temática musical que será a sua aposta daqui em diante. Claro, justificou por que só agora efectivou uma parceria em disco com… Azagaia.

 

Duas, comecemos esta conversa com uma pergunta que, na verdade, é um dos títulos de uma música do EP Afromatic?: “Qual é o assunto?” à volta deste seu quarto trabalho discográfico a solo?

É o quarto disco?! Nem sequer tinha a noção disso. Bem, Afromatic é o título que escolhi para esta minha quarta proposta discográfica, que é um marco naquilo que é a minha trajectória, com pouco mais de 20 anos. No EP faço a consolidação desta que é a minha nova forma de estar e de ser. Se em Djundava estava um bocadinho reticente, em relação ao rumo que iria tomar, no Afromatic temos o consolidar desse meu desejo de me encontrar na música. E, na verdade, é uma busca incessante por um RAP que me identifica como moçambicano e como africano.

 

Sobre a identidade, é por isso que na música “Mamyo” temos a seguinte afirmação: “Novo Duas. Então, esquece o antigo”?

A música acaba sendo um manifesto de toda a transformação interna que estou a atravessar. E quando digo transformação, é a todas as dimensões. Do ponto de vista espiritual e físico até. Tenho passado por várias transformações ao longo do tempo. Antes, porém, eu passava por essas metamorfoses, de uma forma inconsciente. Agora, mais do que nunca, nesta idade que se diz ser da consciência (a partir dos 40 anos), essa mudança é mais consciente. No passado, eu tinha as minhas dúvidas. Actualmente, estou mais seguro do que quero para a minha carreira e para a minha vida pessoal. E, no meu caso, eu sempre quero mais. Sobre isso, ainda há dias alguém me perguntava se eu tinha mais sonhos. Tenho vários, sei que não vou conseguir realizar todos, mas luto todos os dias para que isso aconteça.

 

Ou seja, conforme sugere em “Mamyo”, está a competir consigo mesmo. Desde o princípio.

Sim, sempre foi assim, desde o princípio. A tendência que as pessoas têm é de fazer comparações. Às vezes, até de forma implícita. Parece uma coisa do ser humano e nós vimos isso nas redes sociais, quando as pessoas fazem comparações que, às vezes, podem não corresponder à verdade. No meu caso, estou numa luta constante em sempre querer encontrar uma melhor versão de mim. Eu costumo dizer que se praticar algo que quero ver em mim 1% por dia, ao fim de 365 dias vou atingir 20% daquilo que quero atingir. Então, isso encaixa-se nessa busca incessante de encontrar a melhor versão de mim mesmo e não para as pessoas.

 

Nessa ordem de ideias, como é que se quer ver daqui em diante, mas considerando a sua trajectória artística que lhe permite ser um dos artistas importantes no universo da língua portuguesa?

Eu quero deixar um legado, principalmente para os mais novos. Quero contribuir para escrevermos o nome de Moçambique no cenário do Hip-Hop internacional. Acho que a melhor forma de eu fazer isso é criar nessa identidade pela qual eu busco. Acho que só poderemos ter alguma coisa a dizer não do sentido de ser mais uma réplica do RAP americano, mas no sentido de ser um rapper genuinamente moçambicano.

 

Ainda em “Mamyo” ouvimos-lhe dizer que não espera pela aprovação de ninguém, nem da família, e que é capitão do seu barco. Em Djundava assume que é ovelha negra da família. Como é que este mesmo sujeito pode contribuir para colocar o RAP moçambicano no cume da montanha, ora sendo ovelha negra da família, ora não esperando pelo seu apoio?

É uma pergunta interessante. Para começar, até onde eu sei, sou o único artista da família e tive uma trajectória bastante peculiar. Para já, o meu nome já diz tudo: Duas Caras. Na infância, eu era bastante indisciplinado, mas os meus pais nunca souberam disso. Era um excelente filho em casa. Mas também sempre fui muito introvertido. Então, Duas Caras acaba por ser uma versão melhorada de Hermínio Chissano. E sinto-me mais confortável como Duas Caras e não como Hermínio Chissano, porque Hermínio Chissano tem mais falhas e mais imperfeições. Então, o personagem Duas Caras, que eu construí, é mais interessante do que Hermínio Chissano.

 

A comunidade Hip-Hop nem quer saber do Hermínio Chissano, mas do Duas Caras, que é amado e muito exigido. Às vezes, até se tenta colocar rótulos nos estilos do rapper. Como é lidar com isso?

Quem acompanha a minha trajectória, sabe que sempre gostei de experimentar coisas novas. Xtaka Zero foi um exemplo disso. Fizemos uma mistura de RAP e Pandza e as opiniões são validas, são pontos de vista e diferem de indivíduo para indivíduo. Estou confortável com as opiniões, sejam boas ou más. O mais importante é que faço o meu trabalho com muito amor, zelo e profissionalismo. Tento dar 100% de mim para que o produto final seja agradável. Primeiro, para mim, e, depois, para as pessoas.

 

Ao longo dos anos, habituou à comunidade Hip-Hop a um certo tipo de RAP. É verdade que fez experiências como Xtaka Zero e, na altura, muitos fãs não lhe perdoaram por isso. Se optasse em fazer álbuns e EP do RAP “genuíno”, venderia à vontade, se a questão fosse dinheiro. Não acha que está a correr risco, quando faz experiências na ordem Djundava e Afromatic?

É um risco que vale a pena porque, em termos de RAP “genuíno”, sinto que não tenho mais nada a contribuir. Quem acompanha a minha carreira sabe de todas as obras que tive a oportunidade de lançar no mercado. Existem outros valores que podem levar isso adiante. Quanto a mim, quero atingir novos horizontes e continuar a ter vontade de fazer música, porque uma pessoa como eu não faz música por dinheiro. Se fosse por dinheiro, estaria a fazer outra coisa, porque não é a música que nos dá dinheiro.

 

Como é que justifica então “No Money no RAP”?

Na verdade, a marca foi uma ideia de um fã. Nós já trabalhávamos com merchandise há muito tempo, mas não queríamos que agora a marca fosse muito ostensiva. até porque há pessoas que não se sentem muito confortáveis em usar uma t-shirt com o nome Duas Caras. Acho que “No Money no RAP” acaba por ser mais positivo, mas abrangente e as pessoas sentem-se mais confortáveis, porque ao fim ao cabo acaba por ser um movimento, porque sem mola, também, não há RAP.

 

Sinto muita relação entre o que me diz nesta conversa e o que canta. Por exemplo, na música “Real talk”, de Allan, o Duas diz assim: “Amo demais o RAP, mas é assim: preciso de algo mais sex”…

Era uma forma de exteriorizar o que me vai à alma, porque já tive muita oportunidade de fazer o RAP que eu fazia. Agora, deixo isso para a nova geração de rappers. Se calhar, eles podem fazer melhor do que eu. Pessoalmente, quero experimentar novas coisas, porque isso me dá mais motivação, porque o tipo de música que faço agora não é fácil de fazer. Cada vez mais me interessam os novos fãs que estou a granjear, incluindo crianças, porque têm mais empatia e conseguem absorver melhor as mensagens do que os fãs tradicionais.

 

A dificuldade excita-lhe mais?

Sim. A dificuldade motiva-me mais. Eu já experimentava cantar há muito tempo. Todas as obras da G. Pro sempre teve a minha mão, mas era uma coisa mais tímida. Agora, estou a gostar do rumo que isto está a ter.

 

O que não quer dizer que vai deixar de fazer o RAP que nos habitou?

Não, não. Para mim, é sempre um prazer fazer aquilo que faço melhor. Faço isso há mais de 20 anos. Então, faço com alguma facilidade. O meu foco é nessa nova vertente alternativa de fazer RAP.

 

Finalmente, temos Duas Caras e Azagaia em disco. Isto nunca tinha acontecido para um disco seu ou dele. Tivemos de esperar tanto porquê?

Mas eu já participei de outros trabalhos do Azagaia que nunca viram a luz.

 

Sim, mas nunca em disco de um dos dois.

Sim. Realmente, esta foi a primeira vez que fizemos algo mais significativo. É um clássico do RAP moçambicano e eu já queria fazer isso há muito tempo. Estava à espera do momento certo e esse momento acabou por chegar.

 

Noutros países, essa parceria disparava em termos de venda…

Claro, mas acho que os números são bem decentes para aquilo que é a realidade moçambicana. Por exemplo, quando olhamos para os acessos à internet.

 

A primeira impressão da escolha do tema “Panthera”… Bem, são duas panteras da música. Foi por aí que escolheram o título?

Na verdade, o tema foi inspirado no filme Black panther, mas, também, quisemos homenagear todas aquelas figuras proeminentes do pan-africanismo. Até, a composição já existia. Eu tinha escrito para uma outra pessoa, mas parece que a pessoa desistiu. Então, peguei na letra e tive de mudar e penso que o resultado foi interessante.

 

A sua composição em “Panthera” é muito erudita. Como se diz na comunidade Hip-Hop, cuspiu barras muito fortes. Da literatura à filosofia, ou do pan-africanismo à negritude.

Exacto. Só quem está por dentro do movimento pan-africanismo consegue perceber a dimensão daquela faixa.

 

E mesmo a falar das figuras pan-africanistas, depois vai buscar uma figura muito importante, mas não tão falada: Trotsky. E Malcolm também.

Com o Trotsky foi algo muito orgânico na hora de escrever. Podia ter citado outros, mais acho que caiu bem. A biografia de Malcolm X foi um livro que operou muitas transformações em mim, principalmente na forma de ver como é que os rappers norte-americanos se comportam. Deu-me um estalo em relação à maneira como nós consumimos a música norte-americana. Em algum momento, cheguei à conclusão de que muita coisa estava errada naquilo que nós ouvimos da América. Inclusive, foi um dos motivos de querer me distanciar um bocadinho do RAP que eu já fazia, e investir numa abordagem mais afro centralizada.

 

E no Afromatic também temos uma homenagem a Ungulani ba ka Khosa, com a referência a Ualalapi.

Ualalapi foi o primeiro livro que eu li e muitos jovens não conhecem a obra. Provavelmente, ouviram na música e foram investigar na intenet.

 

Como foi esta parceria com Azagaia e Ras Haitrm, quer para a música, quer para o vídeo-clip?

Foi uma experiência interessante. Eu já queria trabalha com ambos. Com Ras Haitrm já tinha tentado antes. E como o Ras e o Azagaia já tinham trabalhado juntos numa faixa… se repares, a parte instrumental do Azagaia, em “Panthera”, é muito à cara dele. Fui buscar um bocadinho daquela música que eles fizeram juntos, que era para ele se sentir um pouco mais à vontade. A parte do Ras Haitrm é um bocado mais reggae. Depois, a música muda de sonoridade e vai para uma coisa mais RAP e aí já é a minha praia. E foi uma cena interessante.

 

A liberdade é um tema muito presente nas suas composições, neste Afromatic. Por exemplo, em “Mamyo” ouvimos: “Podem-te chamar de louco se tentares voar fora da gaiola, longe da zona de conforto”. Isto é muito profundo.

É verdade. Nessa música falo dessa liberdade de escolhermos o que queremos ser na vida. A maior parte de nós, vem a este mundo e não sabe em quem se torna e nem para quê veio ao mundo. Passamos uma vida inteira a preencher expectativas, no sentido de fazermos o que os nossos pais, amigos e fãs esperam de nós. E esquecemo-nos de fazer aquilo que efectivamente queremos. O sentido é esse. Voar fora da gaiola e buscar outros horizontes. Tem uma outra passagem da música, em que eu digo: “Não se Vêem os limites da ilha sem a observar do topo”. Gira à volta disso porque, muitas vezes, nós não sabemos o que se encontra do outro lado. Há um texto que eu li há algum tempo em que se diz que se tivermos duas portas, mas em que as pessoas estão a entrar numa delas, o mais provável é que você também siga pela mesma porta. Porque ninguém sabe o que está na porta ao lado. Isto para dizer que o desconhecido assusta sempre, mas quem sabe que a nossa felicidade está na porta ao lado?

 

Está aí uma forma de combatermos o efeito manada. Não nos deixarmos levar pelos outros…

Exactamente.

 

O quão difícil é estar neste percurso há mais de 20 anos?

Já foi mais difícil, porque houve uma época em que eu fazia música por outros motivos, diferentes dos motivos que me norteiam hoje. Agora, sou mais feliz porque faço música pelos motivos que mais gosto. Faço aquilo que a minha consciência manda e não aquilo que as pessoas estão à espera que eu faça.

 

“Eu recitaria versos for free”…

Exactamente. É uma música [“Qual é o assunto?] interessante, com o Tule, e a música gravita, mais uma vez, à volta de fazermos aquilo que gostamos. Quando fazemos o que gostamos, não nos sentimos a trabalhar nem um dia. E se formos pagos por isso, melhor ainda.

 

Para quem não comprou o EP, houve muita expectativa à volta da última música disponibilizada na intenet: “Nikensa Yesu”, com Jay Argh. Foi tudo propositado.

Para já, não sou gospel, mas gosto da música gospel. Sou um crente, mas tenho as minhas próprias crenças. Então, queria fazer esta música em forma de louvor e manifestar a minha gratidão a Deus. Precisamos de Deus em todo momento das nossas vidas. Foi a minha forma de manifestar essa gratidão.

 

Podemos dizer que as suas crenças oscilam entre o que o levou a assumir o nome Djundava e as razões do louvor em “Nikensa Yesu”?

Não sei se é pela idade, mas encontrei Deus em mim mesmo. Deus está dentro de nós. Podes ir à igreja, mas se não tiveres Deus dentro de ti, não vale a pena.

 

“Nikensa Yesu” é a música mais diferente do álbum.

Sim. E acho que terá o seu lugar, quando nós divulgarmos o vídeo-clip. Vivemos num mundo digital, em que as pessoas, mais do que ouvir, querem ver. Acho que vai despertar outro tipo de fãs, que pensava que Duas Caras fazia um tipo de música e é bom porque vai espantar esse velho fantasma de que os rappers são marginais.

 

Noto que passou a ter mais cuidado com a linguagem, ao contrário do que tem caracterizado o Hip-Hop.

Sim, mas eu acho que essa coisa da linguagem, muitas vezes, é importada do RAP americano, o que não quer dizer, necessariamente, que em Moçambique deve ser assim. Nas minhas músicas tenho-me reinventado até nesse sentido porque passei a ter fãs de várias idades, a partir do momento que passei a posicionar-me de outra forma. Crianças, inclusive. Agora tenho tendência de investir numa componente mais pedagógica.

 

Teremos regularmente um Duas Caras mais “Geração Tv”, “Gueime” e “Nikensa Yesu”. Ou seja, música para ouvir ao domingo à tarde, com a família?

É essencialmente isso. Música que se pode ouvir a qualquer momento. No carro, por exemplo, em família. É nesses momentos que temos a oportunidade de tocar a alma das pessoas.

 

Ouve o que os seus admiradores tradicionais dizem dos seus novos trabalhos?

Porque tenho a consciência de que o que eu faço é com muito carinho, com o objectivo de tocar a alma das pessoas, para terem alguma consciência sobre algumas coisas que são importantes na vida, isso, por si só, já responde a todos os comentários que podem advir do trabalho que eu faço. O exercício que eu faço é, e tenho isso escrito no meu braço: “Não me aflijo com as críticas e não me envaideço com os elogios”. O meu exercício é não ter um vínculo emocional com os comentários.

 

Numa outra conversa, a propósito do Djundava, disse-me que seria mais regular no lançamento de discos a solo. Parece que está a cumprir a promessa.

Sou capaz de lançar mais um EP ainda este ano. Não sei. Já comecei a trabalhar. Ainda não voltei ao estúdio, estou no processo de composição. Não sei se vou lançar mais um EP porque ainda temos muitos vídeos-clipes para lançar até meados do ano. Não tenho muita certeza, mas uma das coisas que gostaria de fazer é shows ao vivo, com banda, porque nunca explorei essa parte. No passado, não era nada profissional. Agora, interessa-me fazer coisas mais grandiosas, com seriedade. Penso que este é o momento certo para isso.

 

Sempre aliando o disco a uma marca?

Como diz o DJ Sidney, que trabalha comigo, o disco é um cartão-de-visita de um artista. Não levamos a venda do disco como negócio. A venda do disco é um dos poucos momentos que temos de interagir com os fãs, mas não é daí que vêm os nossos ganhos. Temos de diversificar. E uma das formas de diversificar é vendendo chapéus, t-shirts e óculos. As pessoas gostam mais de vestir do que de comprar um CD. E eu percebo. A forma de ouvir música, hoje, mudou muito. Acho que temos de investir mais naquilo que é nosso.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o livro O poder do hábito, de Charles Duhigg, e a música “Maçonaria”, de Azagaia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São retratos da maternidade. Várias fotografias que mostram diferentes momentos de mulheres durante a gestação e a altura em que dão à luz.

“Já nasceu” é o título da exposição fotográfica inaugurada ontem na Fundação Fernando Leite Couto. Com autoria de Lina Cunha, as obras retratam momentos de parto de um bebé.

As imagens foram feitas desde a preparação do parto à saída do bebé. Com este trabalho a artista partilha a sua mais profunda experiência de criação artística. “É um tema que constitui tabu na nossa sociedade, talvez mostrar desta forma ligada a arte é sempre mais aceite”.

Para o curador da exposição, Paulo Alexandre, a série de imagens representa o desafio de estimular aos pais a acompanhar de perto o processo do parto. “Temos uma sociedade relativamente muito fechada, neste momento é importante mostrar isso.

O trabalho estará à disposição do público, na Fundação Fernando Leite Couto, até o dia 30 do mês em curso.

Natural de Nampula, Lina Cunha é médica e exerce a profissão de gastroenterologista em Maputo, em finai de Novembro de 2022 realizou a sua primeira exposição fotográfica intitulada “Olhares Cruzados” na galeria do porto, em Maputo.

“Tabuleiro Semiótico ou Cálculo da Raiz Quadrada” é o título da nova obra do ensaísta e crítico Dionísio Bahule. Lançado ontem, o livro traz uma ligação entre a narrativa e a crítica, que, segundo o autor, rompe o sentido estabelecido de fazer a academia.

O cálculo da raiz quadrara não existe apenas nos números e na disciplina de Matemática. No seu livro, Dionísio Bahule traz uma reflexão que envolve teorias no universo literário, filosófico, artístico e, acima de tudo, semiótico. “A primeira previsão que tem é trazer o modo como se pensa a arte e como quem pensa a arte compreende este mesmo elemento”.

Uma das questões que estimulam o exercício de cálculos, nesta obra, tem a ver com a arte africana, em particular moçambicana. “Convocar os críticos a pensar a arte, não pelo formalismo, a pensar primeiro com uma dimensão endógena”.

Evaristo Abreu e Élia Gemuce apresentaram a obra e entendem que a mesma não só faz crítica às artes, mas, também, procura buscar soluções.

O “Tabuleiro Semiótico ou Cálculo da Raiz Quadrada” inaugura um ciclo de lançamentos da Kuvaninga cartão d’arte e o terceiro livro de Dionísio Bahule.

Discute, Bahule, nesta nova proposta literária a autonomia da arte para um contexto africano como o nosso “O que pressupõe isto? E porque nós não conseguimos ler os sinais dos nossos tempos?”, são estas e outras questões que o “Tabuleiro semiótico [ou] O cálculo da raíz quadrada” procura responder em seis ensaios, nomeadamente: “O cálculo da Raiz Quadrada”, “Crónica da Michelle Souza”, A “Toxina dos Catetos”, “A Insossegável Tarefa de Pensar e O Pós-independência e Sísifo.

O poema “Moçambique”, de Tânia Tomé, é analisado por professores e alunos secundários no Brasil.

 

O Manual do Professor Brasileiro é um livro didáctico. Nesse material pedagógico, um dos textos inserido ano passado e que continua a servir para o processo de ensino e aprendizagem no Brasil é precisamente o poema “Moçambique”, da autoria de Tânia Tomé.

O Manual do Professor Brasileiro abrange todo o ensino médio secundário e é assinado por Maria Luiza M. Abaurre, Marcela Pontara, Maria Bernadete M. Abaurre, tendo como áreas de conhecimento linguagens e as suas tecnologias.

No poema “Moçambique”, Tânia Tomé explora as suas possibilidades líricas, colocando o território nacional como um espaço colectivo e de pertença. Por isso, o sujeito poético almeja fazer desse território seu e dos outros.

O poema de Tânia Tomé faz parte do Manual do Professor para o Ensino Médio nas Escolas Públicas no Brasil, muito em particular na Amazónia, sendo, assim, analisado por professores e alunos brasileiros que, dessa forma, contactam-se com a arte literária moçambicana.

Segundo a informação partilhada por Tânia Tome, esta quinta-feira, a poeta é a única africana incluída no manual, no tópico literatura.

Com efeito, esta não é a primeira vez que Tânia Tome é estudada no Brasil. A escrita da autora é analisada desde 2012 por mestrandos, doutorandos ou pós-graduados em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, inclusive, em dissertações e teses.

 

O Poema “Moçambique” de Tânia Tomé 

 

Moçambique

Quando me sento descalça

sobre o sapato do menino pobre

que me enche o pé

muito mais que outro qualquer

me lembro que existir

não é sozinha

é com toda gente

E me lembro

que tenho de embebedar-me de ti

Moçambique

Porque tenho saudades de mim

Gémeos Parruque, Sizaquiel Matlombe, Wazimbo, Roberto Chitsondzo, Nelson e Tânia Chongo e Ivone Viegas são os artistas convidados à sexta edição do Celebrando vidas, na Casa d’Artista Kutenga.

 

A Casa d’Artista Kutenga volta à carga com mais uma iniciativa artístico-cultural. Depois de algum tempo sem promover eventos, por causa da COVID-19, a organização está a preparar a sexta edição do Celebrando vidas, cuja sessão de promoção das artes moçambicanas irá acontecer no próximo dia 23 de Abril, a partir das 13 horas, na Casa d’Artista Kutenga, no Bairro Tchumene 1, Cidade da Matola.

Depois de dois anos sem poder realizar o evento anual, a coordenadora do evento, Elvira Viegas, promete um programa de continuidade, que se esmera em preservar os valores das artes e da cultura moçambicanas. “O nosso Celebrando vidas continua a ser um evento anual e muito preocupado em contribuir para questões de identidade cultural. Por exemplo, ofertamos sumo de canhu genuíno, porque, ultimamente, ao contrário do nosso costume, o sumo tem sido vendido e misturado com açúcar e água. Nós também pretendemos contribuir para resgatar questões importantes da nossa tradição”.

À sexta edição do Celebrando vidas, na Casa d’Artista Kutenga, foram convidados vários artistas. Entre eles, Gémeos Parruque, Sizaquiel Matlombe, Wazimbo, Roberto Chitsondzo, Nelson e Tânia Chongo e Ivone Viegas. Com teatro, música, dança, literatura e momentos de gastronomia, a parte cerimonial da sessão foi pensada para durar hora e meia. Depois disso, seguirá a parte recreativa.

Para dia 23 de Abril, a expectativa da organização é enorme. Até porque, “quando falei com os convidados e com as suas famílias, em torno desta ideia, manifestaram-se muito satisfeitos. “De todas as vezes que fizemos o Celebrando vidas, houve diferentes formas de corresponder à emoção do evento, quer por parte dos artistas convidados, quer por parte do público”.

Como tem acontecido, a organização do evento não está preocupada em ter a casa cheia. O que importa mesmo é que o evento agrade por ter sido bem produzido. Por isso, Elvira Viegas recomenda aos interessados para fazerem as reservas com antecedência.

Como a sexta edição do Celebrando vidas coincide com o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, possivelmente, na Casa d’Artista Kutenga haverá exposição de livros e de discos.

 

Sobre Celebrando vidas

O programa anual Celebrando vidas é um evento artístico cultural que se realiza na Casa d’Artista Kutenga. A pretensão da organização é homenagear todos aqueles que, duma ou doutra forma, contribuem para o desenvolvimento artístico e sociocultural.

Assim, de 2014 a 2018 foram homenageadas várias individualidades, como Dilon Djindji, Ivone Mahumane, Glória Muianga e Izidine Faquirá.

Em 2020, o programa homenageou Pérola Jaime, Gilberto Mendes, Gabriel Júnior e Edelvina Materula.

 

 

Artista plástica entende que a experiência de participar em exposições nos Emirados Árabes Unidos a permitiu reinventar dinâmicas e processos criativos durante a pintura das suas telas.

 

A partir de Portugal, onde vive e trabalha, a pintora, escritora e educadora de infância, Suzy Bila, teve a oportunidade de viajar para os Emirados Árabes Unidos. Em Dubai, especificamente, a artista participou, durante 10 dias, na World Art Dubai com duas peças. Segundo afirmou, as telas seleccionadas revelam uma experiência nova, e, a sua passagem pelo Oriente reflecte a sua preocupação pelo conhecimento de novas dinâmicas que envolvem uma feira internacional de arte.

Em outras palavras, Suzy Bila considera que, na passagem pelos Emirados Árabes Unidos, nas duas últimas semanas de Março, explorou novos processos artísticos numa envolvência com o público local, “o que me permitiu divulgar o meu trabalho e dialogar com diferentes artistas do mundo”.

As duas telas que Suzy Bila levou ao World Art Dubai são intituladas “Esperança” (2020) e “Diálogo II” (2022), ambas pintadas seguindo a técnica acrílico sobre tela.

Ora, nos Emirados Árabes Unidos, Suzy Bila explorou sobretudo as novas dinâmicas e processos criativos no Pavilhão de Moçambique na Expo Dubai 2020. Foi uma espécie de unir o útil ao agradável. Por isso, a artista propôs ao Alto Comissariado da Expo Dubai inserir na programação do Pavilhão de Moçambique a sua performance, que poderia ser no decorrer da semana de World Art Dubai, onde poderia pintar ao vivo e interagir com o público no pavilhão de Moçambique. Dito e feito. Assim, a performance  foi possível no dia 23 de Março. “Em seis horas  silenciámos o tempo e vivemos o momento das coisas simples, deixando no pavilhão da terra que nos viu nascer quatro peças carregadas de esperança, de escuta  e de conexões de processos de criação de vários intervenientes”, disse Suzy Bila.

Nos Emirados Árabes Unidos, a artista, através da sua performance, quis realçar que a arte é transversal a todas as áreas. “Pretendíamos também  realçar que intervir na educação e na arte é desafiar as potencialidades das crianças para o acto criativo e para a descoberta de si”. E mais: “Nesta experiência feita no pavilhão de Moçambique, foi gratificante observar toda a dinâmica sem regras, mas a arte  como um acto natural, condicionado pela especificidade do lugar e influenciando o processo de construção da  artista”.

Suzy Bila lembra que no Pavilhão de Moçambique, na Expo Dubai, que encerrou no passado dia 31 de Março, as crianças entraram no pavilhão sem saber o que as esperava, acompanhadas pelos professores, educadores, monitores. E resume: “Os sentidos levaram-nas à timbila, que soou em diferentes tons. As crianças envolviam-se, tornando o momento único, o som característico tocava nos sentimentos, gerando curiosidade”. Claro, cada criança inventado as suas próprias linguagens.

A experiência foi tão boa para a artista moçambicana que ultrapassou o espaço do Pavilhão de Moçambique. Isto é, Suzy continuou a pintar ao ar livre, com e para um público mais diversificado.

André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s inauguram, esta quinta-feira, uma exposição colectiva para reclusas, na Cadeia Feminina de Ndlavela, em Maputo.

As reclusas da Cadeia Feminina de Ndlavela, na Matola, Província de Maputo, terão a oportunidade de comemorar o Dia da Mulher Moçambicana de uma forma diferente. Por volta das 9 horas desta quinta-feira, André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s irão inaugurar a exposição colectiva Inclusiva naquele serviço penitenciário. Com a actividade, na verdade, a ideia é levar a arte ao encontro das reclusas, como forma de lembrar que elas são como toda a gente e que o facto de estarem presas não lhes reduz a humanidade.

Referindo-se à sua iniciativa, que iniciou há dois anos, tendo sido suspensa ano passado por causa da COVID-19, a artista plástica Bena Filipe, esta quarta-feira, em Maputo, acrescentou: “O que queremos é mostrar às reclusas o que tem sido feito fora da cadeia em termos de manifestações ligadas às artes plásticas”. Assim, sublinhou a artista: “Esperamos alertar à sociedade moçambicana que, nós, os artistas, nos identificamos com as reclusas e esperamos que elas tenham esperança. Queremos contribuir para que elas estejam preparadas para a liberdade. Elas são como nós e merecem uma segunda oportunidade”.

Porque a cadeia não é um lugar de fácil abertura ao público externo, a exposição colectiva, entre 7 e 11 deste mês, será visitada pelas reclusas e pelo pessoal que lá da trabalha. No entanto, Bena Filipe explicou que, depois, a mesma mostra será exibida numa galeria ou numa sala de exposições fora do serviço penitenciário, de modo a que mais pessoas possam ver as obras em causa.

Na Cadeia Feminina de Ndlavela, igualmente, André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s irão orientar workshop e oficinas de pintura com as reclusas.

Por fim, mesmo a encerrar a Semana da Mulher Moçambicana, Bena Filipe organizou uma equipa de mulheres, desde artistas a apresentadoras de televisão, que irão disputar um jogo de futebol com as reclusas, na Cadeia Feminina de Ndlavela, no sábado.

A curta-metragem Silêncio, de Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze, foi nomeada à final do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens de Santigo, no Chile.

 

Ao concorrem ao RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens de Santigo, no Chile, o primeiro objectivo era levar a obra cinematográfica Silêncio além-fronteiras. Agora que esse propósito está alcançado, Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze esperam conseguir, através do filme, vender o cartão turístico moçambicano ao mesmo tempo que promovem temas de interesse nacional e mundial.

O filme Silêncio foi realizado por Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze com custo próprio, quando, há alguns meses, o confinamento dificultava tanto o trabalho dos artistas. Por isso, nessa altura, os dois realizadores tiveram uma equipa bem reduzida, em que as pessoas desempenharam três ou quatro funções durante as rodagens.

Referindo-se à nomeação, esta terça-feira, em Maputo, Gigliola Zacara afirmou o seguinte: “Esperamos que, através desta plataforma [RENUAC], sejamos conhecidos em mais países e sejamos convidados a trabalhar em outras produções, com outros cineastas internacionais, para que possamos continuar a aprender”.

Além da nomeação premiar a equipa, Gigliola Zacara entende que ser finalista do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens, no Chile, significa dar a conhecer o trabalho dos cineastas moçambicanos no estrangeiro. Por isso, Osvaldo Mauze não se esqueceu de todos os que contribuíram para o sucesso do filme: “Agradecer a todos os que estiveram neste projecto. Para nós, é uma honra estarmos nomeados no meio de tantos filmes que concorreram”.

Na co-produção entre o Centro de Recriação Artística e a 7 Ofícios – Rede de Mulheres
contou com o seguinte elenco: Adélia Maposse, Mabjeca Tingana, Gigliola Zacara, Khaleesi Mauze, Kawany Sango e Luís. Já a equipa técnica, aleem dos realizadores,

contou com a participação de Augusto Nhambi e Milagre Langa. Dama do Bling e Roberto Chitsondzo apoiaram com trilha sonora.

Segundo avança a organização do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-Metragens de Santigo, no Chile, o objectivo do evento é criar uma plataforma útil para a promoção da indústria audiovisual: um espaço e tempo para a divulgação e promoção de conteúdos audiovisuais, transformando-o num ponto de encontro para cineastas, favorecendo o intercâmbio de iniciativas e promovendo um mercado aberto ao desenvolvimento de novos projectos.

Os vencedores desta edição do festival serão conhecidos ainda este mês.

 

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Estranham o título?

De facto, quer a morte quer os mortos não são má companhia.

Eu sou a prova atestada disso, em história que vos contarei em seguida.

A morte é uma constante da vida. Desde que nascemos caminhamos no sentido do inevitável fim. Terreno, pelo menos.

A este propósito, veio-me à mente uma estrofe rascunhada a altas horas da madrugada.

 

E a morte quando chegar

É abraçá-la sem temor

Se sem dor

nos presentear

Para os crentes outra vida no além

Para os outros…

Pó, criação e alimento de outrem

 

E os finados?

Os defuntos que jazem frios nos seus sepulcros ou leitos de morte, nos ensinam.

Nos visitam nos sonhos. Falam connosco se soubermos escutar.

 

…

Primórdios da década de oitenta.

O ambiente na casa dos Pinto Lobo era pesado.

O decano da família estava às portas da morte, consumido por uma doença maligna.

O madeirame que sustentava os tectos altos rangia em lamento.

Até as flores dos canteiros do jardim esmoreciam, murchas de desgosto.

A família revezava-se à cabeceira da cama do marido, pai e avô, moribundo.

Em semi-coma. Por vezes as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e ele chamava pela mãe.

Porque nos refugiamos sempre no aconchego carinhoso, no colo das nossas mães nos momentos de aflição?

A altas horas da madrugada, a Fernanda minha esposa e a Bela, minha irmã mais velha, ouviram no corredor o chinelar arrastado dos passos da minha avó, que tinha ido descansar após umas horas de vigília. Ela diz-lhes que tinha ouvido o Braz chamar.

Reunimo-nos todos no quarto.

Pouco depois, agarrado à mão da minha avó Ângela, rodeado pelo filho, nora e netos, o meu avô faleceu.

Enquanto tentávamos resolver outro problema complicado, o do caixão, fomos durante a tarde à morgue depositar o cadáver do meu avô.

É que com a nacionalização das agências funerárias a falta de caixões era uma constante, ou melhor, uma certeza.

Depositar é um termo impessoal e frio, mas que outra palavra usar?

O funcionário informou-me que não havia gavetão disponível. Estavam todos ocupados.

«Então como vamos fazer?»

«Bem, se me ajudar há um morto que ninguém veio reclamar. Tiramos esse da gaveta e pomos lá o seu avô.»

Que remédio…

Abrimos o gavetão, na segunda fila a contar do chão e retirámos, a custo, um corpo não reclamado, de um homem coberto de pústulas e tumores. Embrulhámo-lo num lençol e colocámo-lo encostado a uma das paredes da sala.

Após esta operação, o funcionário dirige-se para a porta dando-me as boas noites.

Aprestava-me para sair quando aquele me diz:

«Tem de ficar. Se não vão roubar o seu avô.»

«Como assim? Só você tem a chave! Quem poderia entrar?»

«Estou só a avisar. Viram entrar um defunto novo consigo e estão à espera de roubar, pelo menos o fato com que o seu avô está vestido. Então você tem de ficar aqui, vigiando. Venho abrir às 7h,30m de amanhã.»

Ainda pensei que estivesse a brincar mas não, estava mesmo a falar a sério. Não tive outra alternativa senão passar a noite trancado na morgue.

Muitos anos depois, o meu amigo de infância Fipa Bragança, confirmou-me não só a questão dos roubos, como me contou que as morgues tinham arranjado um negócio inovador. Vendiam “água dos mortos”.

A “água dos mortos” é a água proveniente da lavagem dos corpos. Os assaltantes de casas compram essas águas, banham-se nelas e assaltam as moradias mesmo que estas tenham cães ferozes. Estes, farejando o odor a cadáver da “água dos mortos” ficam transidos de medo e fogem, deixando os bandoleiros à vontade no exercício do mister de rapinanço.

Voltando à história inicial, sem mais o que fazer, sentei-me no chão frio da morgue, encostado aos gavetões. O silêncio na sala era total, com excepção do leve ronronar das máquinas de refrigeração, que por sua vez tornavam o ambiente ainda mais frio. Muito de vez em quando, ao longe, a sirene de uma ambulância cortava o sossego da noite.

Não sei se foi por estar enregelado ou pela insensatez característica da juventude acabei por passar pelas brasas. Talvez sonhando ou em estado de vigília semi-acordado lembrei-me do meu avô e conversei com ele.

Sobre a sua paciência infinita ensinando-me o nome das plantas e das flores. Estas são rosas. Estes lírios e aqueles outros agapantos. Estrelícias e gerbéras. Os arbustos, hibiscos e crótanos. Fetos gostam de sombra. Temos de tirar as ervas daninhas da relva porque senão elas engolem tudo.

Relembrando os seus ensinamentos de música clássica quando ao final do dia regressado do trabalho na Breyner&Writh na baixa de Maputo, me pedia para colocar os discos de vinil na sua aparelhagem estereofónica, gravações da Deutche Grammophon e de orquestras dirigidas pelo maestro Von Karajan. Mozart, Bethoven, Vivaldi, Rachmaninov, Prokofiev, Bach, Schubert, Brahms, Verdi, Haydn, Wagner, Stravinsky e tantos outros de quem não me recordo. Debussy e o seu “Clair de Lune” que me encantou desde a primeira vez que o ouvi. Como se queixava de estar a perder a audição e já não conseguia ouvir todas as variações ou frequências das notas do som gravado, principalmente as graves.

As viagens à Namaacha no velho Morris e as idas ao Luna Parque, da barraca de latas empilhadas onde quem derrubasse todas ganhava um prémio e ficou apenas uma em que falhou na última bola. Quando lhe disse que não fazia mal porque tinha deitado abaixo quase todas as latas. Do encantamento com o fantástico Circo Boswell de duas pistas.

Rememorando a sua religiosa leitura diária de jornal na varanda da frente de casa, enquanto ele e a minha avó esperavam à tardinha pela Fernanda, vinda das aulas, para conversarem e eventualmente darem um passeio até à Costa do Sol, no carocha verde da minha esposa.

De mandar aquecer a sopa fumegante por não estar suficientemente quente.

Das suas queixas de má digestão e gases, emagrecimento gradual, prenúncio do cancro de estômago que acabou por o levar. Como reclamava do médico amigo de família, por entrar mudo e sair calado. Este sem saber como informar a família que o desenlace se aproximava e não havia nada a fazer porque não havia recursos na época.

Acabei até por me rir, lembrando-me das idas ao veterinário com o Pequenu[1], um rafeiro minúsculo, esperto e ladino que nem um alho, que adorava passear de carro com o focinho de fora da janela apanhando o vento nos bigodes, mas que, quando virávamos uma determinada esquina, reconhecia o caminho do consultório veterinário e se metia debaixo dos bancos e era um cabo dos trabalhos para o tirar de lá.

Dizia o meu avô desgostoso, que os animais tinham melhores cuidados médicos do que as pessoas.

As horas foram passando sem eu dar conta. E o pobre indigente estendido no chão e embrulhado num lençol, encostado à parede na outra ponta da sala.

No dia seguinte, não às 7h,30 mas largos minutos depois da hora combinada, ouço finalmente uma chave na fechadura da porta e o funcionário da morgue entrando na sala.

«Então, como estás? Os mortos falaram contigo?»

«Não, não ouvi nada durante a noite. Só lembrei de histórias com o meu avô.»

«Então falaste com o vovô… os outros mortos te respeitaram com certeza. Viram que querias ter uma conversa com esse teu antepassado. Entenderam que esse era o vosso tempo.»

«Também não é todos dias que vêm alguém dormir com o seu defunto. Gostaram de ti e não te chatearam.»

«Estes aqui, de vez em quando falam comigo. Mais mais aqueles que ninguém vem buscar. Vêm se lamentar que não vão ter preparação do corpo nem cerimónia tradicional e então vai ser difícil calmar. Vão desassossegar por aí.»

Agradeci e despedi-me para tratar dos preparativos para o funeral.

Não sei se é memória ficcionada ou não. Um dos meus colegas e amigos das Indústrias Costa vendo a aflição da família com a inexistência de caixão, arranjou uma solução.

«Sr. Director, o senhor ajuda sempre os operários da fábrica com o que é necessário para as cerimónias fúnebres. Então para o seu avô, vamos fazer um caixão com a madeira de pinho dos caixotes dos Leyland que vieram para nós montarmos.»

«Envernizamos, colocamos de lado de fora aquelas pegas dos machibombos, em aço inox, que os passageiros seguram quando estão em pé, de forma a podermos carregar o caixão. A nossa secção de estofaria fará o forro interior, com espuma forrada a napa. Vai ver que vai ficar bonito.»

E assim foi feito. Realmente, quando falecia algum familiar de um dos operários, providenciávamos panos de linho cru branco, que tínhamos para forrar as cadeiras dos autocarros, algumas grades de cerveja quando possível e alguns quilos de farinha de milho comprados a uma moageira vizinha de outra fábrica em que eu era também director.

Em casa, começaram a chegar os vizinhos e amigos. Compungidos.

De vestes escuras e lenços pretos na cabeça.

Para prestar solidariedade e dar os pêsames à família.

Afadigaram-se a minha mãe Ninette, a Bela e a Fernanda improvisando sandes e chá, o pouco que havia para servir aos visitantes naquela época de faltas.

Velar defunto condignamente tem de ser acompanhado de comida e bebida.

Anos mais tarde dirigimo-nos ao cemitério para depositar uma flor na sua tumba e na da minha avó, que infelizmente não tinha tido a sorte de falecer junto da família.

A barafunda dos arquivos era total. Folhas que tinham desaparecido, tal como alguns livros de registo. Indicaram-nos uns números das campas.

Penso que só para nos despacharem e receberem o aguardado “refresco”.

Não reconhecemos os locais que nos indicaram mas ainda assim prestámos as nossas homenagens. O meu avô e minha avó não se importaram.

Sabem como nós gostamos deles.

E os outros defuntos, fortuitamente sepultados no mesmo coval, certamente agradeceram os respeitos prestados.

 

 

Cascais, 7 de Outubro 2021

[1] Pequenu, tradução portuguesa de Pinkeltje, é um pequeno gnomo personagem de livros para crianças, criado pelo escritor holandês Dick Laan, muito popular na minha infância.

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