O País – A verdade como notícia

O Governo pretende proteger as obras de folclore para que a sua captação, reprodução, divulgação e publicação seja feita por via de um documento comprovativo de anuência ou assentimento do Estado moçambicano.

A pretensão está patente na Proposta de Lei de Revisão da Lei n° 4/2001, de 27 de Fevereiro, Lei dos Direitos de Autor e Direitos Conexos, um instrumento que tem por objecto a protecção das obras literárias, artísticas e científicas e dos direitos dos respectivos autores, artistas, intérpretes ou executantes, produtores de fonogramas e de videogramas e dos originais de radiodifusão, visando a criação e a produção do trabalho intelectual na área da literatura, da arte e da ciência.

Segundo a ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, com esta proposta de lei, pretende-se desencorajar todas as formas de uso de uma obra sem o consentimento do autor e estabelecer o uso de novos métodos de protecção das obras.

Falando esta quinta-feira, na sede do Parlamento, em Maputo, durante uma audição parlamentar organizada pela Comissão da Agricultura e Economia e Ambiente (CAEA) da Assembleia da República, a governante assegurou que a nova legislação vai permitir a reprodução em formato acessível para portadores de deficiência visual e qualquer outra deficiência que impeça o manuseamento de um livro.

Em sede da audição parlamentar, Materula referiu-se à pertinência desta revisão para adequar a legislação moçambicana aos princípios dos Direitos de Autor e Direitos Conexos que norteiam os países-membros da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e da Organização Regional Africana da Propriedade Intelectual (ARIPO)

Adequar a legislação sobre Direitos de Autor e Direitos Conexos ao Código Penal vigente no país, para desencorajar a prática de crimes de violação destes direitos com recurso a meios informáticos, usurpação e contrafacção, entre outros, é a outra pretensão do Executivo moçambicano patente na Proposta de Lei de Revisão da Lei n° 4/2001, de 27 de Fevereiro, Lei dos Direitos de Autor e Direitos Conexos.

Para além da ministra da Cultura e Turismo, a Comissão da Agricultura e Economia e Ambiente (CAEA) da Assembleia da República auscultou a Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), no âmbito da recolha de subsídios

Foto: gala-gala

 

Irene Mendes irá lançar o seu mais recente livro às 18 horas desta sexta-feira. A cerimónia está marcada para Universidade Politécnica, na Cidade de Maputo.

Não se trata de um conjunto de textos escritos durante as aulas, como podem imaginar os que têm a memória fresca dos anos de escola. Os meus apontamentos (1) – estórias de Nampula e do Sul de Moçambique, na verdade, é um exercício quotidiano que explora aventuras, sensações e momentos de deleite. O livro foi escrito ao longo de 10 anos, sem qualquer urgência em publicá-lo. Quando o momento certo chegou, Irene Mendes foi ter com três editoras, no entanto, apenas a gala-gala é que se mostrou disponível para a editar.  Porque o projecto inicial era muito volumoso, a editora sugeriu que fosse lançada, inicialmente, um primeiro de três volumes.

Assim, nesta sua terceira publicação em livro, com Os meus apontamentos, que inaugura a colecção Hinyambaan, a doutorada em Linguística na especialidade de Lexicologia pela Universidade Nova de Lisboa, Professora na Universidade A Politécnica, espera que os seus leitores possam deixar-se levar por uma escrita simples e que a acompanhem pelas suas aventuras. Assim, quem sabe, os leitores poderão tirar da cabeça a ideia de que o turismo, em Moçambique, é caro. “Eu, muitas vezes, saí de chapa ou de oliveiras para conhecer o meu país”, lembrou a autora, na véspera do lançamento.

O livro de Irene Mendes está dividido em três partes, desiganadamente: “O salto”, onde a autora retrata situações particulares, ocorridas depois do 8 de Março; “Experiências da Província de Nampula”, parte com base nos eventos revelados por uma contadora de historias, com algumas situações picantes; e “Maravilhas do Sul de Moçambique”, reservada a aventuras realizadas em diferentes locais.

Os meus apontamentos é constituído por 120 páginas e reflecte o prazer que Irene Mendes tem pela escrita. “Sempre gostei de registar tudo, de escrever o que acontece comigo”.  Além deste livro, Irene Mendes (Maputo, 1960), é autora de O léxico no português de Moçambique: aspectos neológicos e terminológicos e Da neologia ao dicionário: o caso do português de Moçambique.

Na A Politécnica, o livro Os meus apontamentos será apresentado pelo professor de litertura Gilberto Matusse.

 

 

 

 

 

 

Por: Marcelo Panguana

 

Nem sempre é fácil migrar para esse país antigo — a infância que deixamos para trás quando nos tornamos adultos. Há que se reaprender o idioma, redescobrir palavras, conversar com as crianças para recuperar o ritmo das frases. Só assim obtemos o visto de entrada e podemos circular com naturalidade nesse país.

                                                              Silvana Tavano

 

 

Aquilo que me fascina num livro que se escreve a pensar nas crianças, quer dizer, nos menos adultos, é, sobretudo, a sua leveza, a extrema simplicidade da sua narrativa, a sua pureza, talvez porque não necessita de ser depositário do que quer que seja para se afirmar e cumprir o seu papel. Talvez porque aquele que escreve esses livros deixou de pensar em benefícios, para se preocupar, apenas, com essa vontade incontrolável de criar universos capazes de seduzir os mais novos e lhes mostrar o lado mágico e fantástico da vida. Nada mais que isso.

Devo confessar que as minhas leituras, agora enriquecidas pelo livro “ A Estranha Metamorfose de Thandi”, escrito por Mauro Brito, fizeram-me concluir que um livro infantil é o melhor de todos os livros. Porque tem uma estória para contar. Oferece personagens sublimes. Descreve lugares inimagináveis. Faz-nos sentir aromas desconhecidos. Coloca-nos perante enredos cada vez mais difíceis de encontrar nos livros destinados aos adultos. E sobretudo porque existe uma moral que nos é transmitida no término da estória. Tudo isso nos faz concluir que devemos fazer da Literatura Infantil parte da vida dos mais novos, porque estimula a criatividade, a empatia, o raciocínio, o respeito, a imaginação, o desenvolvimento cognitivo e da linguagem, para além de proporcionar uma visão mais ampla do mundo.

Quando tenho um livro infantil entre as mãos, como agora está a acontecer com “ A Estranha Metamorfose de Thandi”, deixo-me levar, mesmo antes de iniciar a sua leitura, pelo desenho da capa e também das ilustrações que decoram o interior, contrariamente ao que acontece com os livros destinados aos mais velhos, onde nos deixamos cativar, primeiro, pela beleza das primeiras páginas. Fiquei a gostar do livro de Mauro Brito antes de lê-lo. O Samuel Djive, seu ilustrador, sugeriu-me esse mundo de fantasia que Mauro imaginou. Vi pássaros. Luas. Estrelas. Lagartos. Flores. Mulheres. Vi cores. Vi a vida, isto é, a poesia. Quase que senti o perfume que dominava esse lugar que o escritor imaginou. Apaixonei-me.

Não sei dizer, se entre nós, o livro infantil tem a importância que se deve atribui-lo. Penso que não deve ser diferente do livro comum. Isto é, num país onde não se lê suficientemente, onde o livro não é prioritário, torna-se difícil prestar a devida atenção ao livro infantil. E é pena que assim seja. Porque estamos nos tempos em que os mais novos estão sendo intoxicados por outras vias, perversas, se diga, quase que incontornáveis, reconheçamos. A este propósito, o escritor brasileiro, Flávio Carneiro, autor de  “Falsa Ficção”, dizia que é necessário conceber que a escola ocupe, duma vez por todas, o seu espaço de formação: “Que façamos chover muito. Que as águas levem de vez, numa enxurrada, toda forma perversa de apropriação do imaginário, toda pseudo ficção que se procura vender como pílula mágica para adultos e crianças, e que essas mesmas águas tragam antigas e novas fantasias, capazes de garantir o exercício da imaginação, única garantia de futuro para quem ainda acredita em fadas.”

Apesar desta realidade, desta fuga que está a acontecer em relação ao género infantil, e não só, Mauro Brito investe neste género narrativo e traz para “A Estranha Metamorfose de Thandi” toda a sua capacidade descritiva, toda a poesia, todos recursos técnicos capazes de tornar um texto sublime e fazer nos acreditar em fadas. O Mauro sabe que está enveredando por um género de escrita que dificilmente conduz ao reconhecimento público. Creio que não lhe interessam as palmas, muito menos as palavras dos críticos omniscientes. Nada disso tem importância. O seu público, o seu prémio e satisfação é essa vasta legião que são “as flores que  nunca murcham”. E todos nós outros que ainda nos deixamos seduzir pelos universos mágicos.

Se me pedissem para contar a estória deste livro eu preferiria buscar as palavras inscritas no verso da obra e que dizem assim:

 

“Tudo começou quando a Thandi desfilava pelo caminho de volta do rio, na companhia de borboletas e pássaros. Dum momento para o outro, folhas e galhos soltaram-se das árvores. As nuvens zangaram-se e logo formaram um manto escuro sobre a terra. Sem demora trouxeram a chuva. Não era uma chuva miuda. Era uma cascata por dentro da qual a menina seguia, ao longo de todo o caminho para casa. A Mbali, mãe de Thandi, sempre a alertara para os perigos da chuva; se, para algumas pessoas, esta é benéfica, para outras, pode trazer consequências graves. Esse era o caso da menina que nascera com o corpo da textura e cor de barro…”

 

O resto da estória vão apreendê-la ao ler o livro. Cada leitor vai tirar a sua conclusão. O meu texto termina aqui. Breve como a estória de Mauro Brito. Ao terminá-lo, apenas confessar que a leitura desse conto tornou-me, de novo, uma criança. Fez-me regressar ao mundo da pureza, da simplicidade, à um universo onde as palavras não precisam de serem muitas para mostrarem a verdade das coisas. Como diria o escritor russo Boris Pasternak, para percepcionar as coisas o nosso olhar tem de ser dirigido pela paixão. Somente ela ilumina o objecto do seu  fogo e intensifica a visão. Foi exactamente isso que direccionou o trabalho do Mauro: a escrita pela paixão. O resto podemos encontrar nas breves páginas do livro, como estas palavras que agora se seguem:

 

“No novo dia,  a Lua ainda emprestava o seu encanto ao céu azul-cinza quando o Sol, como uma flor amarela, sobrevoou lentamente os campos, até galgar o horizonte, mais tarde que o habitual. Talvez por isso, o orvalho ainda se estendia sobre as folhas como uma película fina. Embarcaram, sentindo ambas uma brisa fresca a acariciar-lhes as faces. Um rasto de fumo ficava para trás e, no ar, viam-se lenços estendidos por inúmeros braços que esboçavam, naquele aceno, uma saudade antecipada. O comboio seguia chinelando por entre montanhas e vales verdejantes, parando de vez em quando para descarregar e carregar mais sonhos e vontades”

 

Quem é o Mauro Brito? Sabe-se que pertence a uma família crioulo-moçambicano e que é o primeiro aviador da nova geração de poetas. Acrescenta-se também uma breve, mas intensa, incursão pelo teatro de rua e por outros movimentos activistas e de voluntariado. Passou de raspão pelas ciências contábeis, mas foi traído pelo espírito digressivo que empresta aos livros infanto-juvenis que vai escrevendo, de quando em vez, e dos voos que alça quando se faz bom tempo. Foi a aspiração dos ares que o levou ao brevet de piloto aviador e quando voa sente que aquela casa de ferro encontrou em si o inquilino perfeito.

 

 

Pretória/NOV/2021

 

O Prémio Camões 2021 irá promover o seu primeiro álbum, Cantos de esperança, em Luanda e Huambo. Paulina Chiziane viajou a Angola esta terça-feira, onde irá manter parcerias e intercâmbio com artistas angolanos.

“Muhethi wa mbilu yanga” (do changana/ rhonga, “Dono do meu coração”) é um dos temas favoritos de Paulina Chiziane. Composto pela escritora e, agora, cantora, a música é interpretada por Grande Homem e Helena Promise, como que a retratarem os batimentos cardíacos de quem ama e deixa viciar-se por sentimentos cor-de-rosa.

“Muhethi wa mbilu yanga” é a décima faixa do álbum Cantos de esperança, da autoria de Paulina Chiziane, e, à semelhança de outras músicas, é uma proposta que procura lembrar que “o amor é a pedra basilar na construção da Humanidade”. Além de “Muhethi wa mbilu yanga”, integram o primeiro disco da escritora faixas como “Oração da família”, “Quando o amanhã chegar”, “Olhar para ti, África”, “Dom de Deus”, “Guruè” e “Mhamba ya Mondlane”.

Editado em 2019, Cantos de esperança teve pouca repercursão em Moçambique. Talvez, por essa razão, Paulina Chiziane aceitou o convite de ir a Luanda e Huambo para promover o trabalho discográfico que pretende ser, na verdade, o primeiro dos vários discos que deverá lançar nos próximos tempos. Para quem a conhece apenas da escrita, não se espante, a paixão de Paulina Chiziane pelas artes em geral é muito antiga. Ainda menina, pintou de tudo um pouco. Só depois veio a escrita, que, meio ao som da timbila do povo chope, sua etnia, pôde dar um título com sonoridade ao seu primeiro livro: Balada de amor ao vento. Aliás, em 2015, com os Timbila Muzimba, Paulina Chiziane lançou o projecto musical e/ou cultural “África, liberta-te”, na Cidade Maputo.

Portanto, depois de alguns anos a conter em si certo legado artítico-cultural do seu povo, Paulina Chiziane decidiu compor e investir na produção das suas músicas. Para o efeito, contou com a imensurável colaboração de artistas como Eduardo Salmo, Grande Homem, Firmina da Neta, Helena Promise e Larícia Rita. É com estes artistas que, esta terça-feira, a escritora partiu de Maputo para Luanda. Na capital angolana e em Huambo, mais a Sul, Paulina Chiziane irá promover o seu disco durante duas semanas e manter encontros com artistas angolanos.

Ora, como surge o convite que geralmente é feito à escritora e nunca à compositora ou cantora? Um feliz encontro. Em Dezembro do ano passado, o cantor angolano Yuri da Cunha foi ao Bairro Albazine, na Cidade de Maputo, para visitar a escritora. A pretensão foi felicitá-la pelo Prémio Camões 2021 e manifestar a sua admiração. Ainda nesse encontro, Yuri da Cunha referiu-se ao grande trabalho que a autora tem desenvolvido pela afirmação da tradição e pelo resgate dos valores dos africanos, dentro e fora do continente.

Ainda em Angola, Paulina Chiziane pretende divulgar um projecto relacionado com a realização de concertos musicais em Moçambique, pelo menos duas vezes ao ano. Claro, os angolanos que a conhecem da escrita, não ficarão defraudados, afinal, Paulina leva na bagagem o seu mais recente título, A voz do cárcere (em co-autoria com Dionísio Bahule) e novas edições de Niketche e Balada de amor ao vento, pela editora Matiko.

Cantos de esperança é um disco composto por 12 faixas e conta com colaboração do rapper Azagaia, na música “Tenta”.

 

 

 

 

 

 

Por: Martins JC-Mapera

Universidade Licungo/FLH

jose.mapera@ua.pt

 

 

Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece (João 9:41).

 

É a segunda vez que apresento Adelino Timóteo, exactamente, neste espaço cultural do Instituto Camões. A primeira vez, foi em Dezembro de 2018, quando nos brindou com uma obra magnífica, intitulada A volúpia da pedra. Nessa apresentação, considerei Timóteo “um escritor de civilização alta”, de uma visão e de um olhar atentos ao que a paisagem emocional oferece para contemplar e para sentir, configurando uma rara excepção na sociedade moçambicana. Ou seja, o autor de A luz diáfana do amor, obra que nos apresenta, aborda temas de tradição greco-romana, muito além das metáforas de amor platónico. As suas obras têm um simbolismo bíblico muito forte, o que aumenta o nível da minha desconfiança em relação à sua formação humana, à cultura e às tradições.

No dia 19 de Janeiro de 2022, recebi uma chamada virtual de Alemanha, esse território que nos lembra os temores do nazismo de Adolfo Hitler, com a sua ideologia de constituição de um império mundial sem judeus. Não me assustou, porque, hoje, o mundo está globalizado e o papel de academia, da cultura e da arte reduziu, de certa forma, as tensões políticas internacionais. Com razão, afinal era o Adelino Timóteo quem estava doutro lado do oceano. As saudações foram dilatadas, preenchendo o vazio que o tempo criou, desde 2018, que não nos víamos e nem falávamos. A meio das mesuras, Timóteo procurou absolver-se perante essa distância temporal.

E, finalmente, veio a conversa mais importante sobre A luz diáfana do amor e O voo das fagulhas. Chanceladas por Alcance Editores, as duas obras celebram os 20 anos de produção literária de Adelino Timóteo. É uma celebração devida, por um lado, voando sobre os céus do amor até transpor “a fronteira do sublime”, e, por outro, iluminando o caminho do amor, atravessando as mazelas que o próprio fogo faúlha em forma de chama ardente, que só ao peito de quem ama se sente e se recente.

As duas obras apresentam-nos o mesmo objecto temático, o amor, diferindo apenas a forma como ele se manifesta na atmosfera sentimental do sujeito poético. Por exemplo, em O voo das fagulhas, chancelada em Janeiro de 2021, Rui Rocha, o editor, apresenta o perfil artístico de Adelino Timóteo, na sequência dos vinte anos de carreira, cuja caracterização se ajusta ao cunho literário que o autor ocupa no campo da poesia, do romance, da arte plástica e da arte da sensualidade óptica e verbal. O primeiro poema desta obra, com o título “Os segredos da arte de amar”, testemunha essa noção pedagógica do amor: “Um amor não merece as pedras // que todos os dias lhe atiramos”. Este conselho é pragmático e primoroso, e é religiosamente ético. Para ele, o amor deve ser visto com “virtude de um pássaro // que quer voar em direcção // à larga linha do horizonte”. Nestes versos, o conceito do pássaro é polissémico, significando, contextualmente, a noção da liberdade e paz, da cultura e do humanismo, com recurso a metáforas que levam a voar sobre o horizonte do pensamento e da educação.

Em A luz diáfana do amor, o poeta Adelino Timóteo lembra-nos a parábola de João (9:41): “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece”. O pecado de Timóteo é justo e indescritível. Hoje em dia, é preciso amar. A nova ordem mundial exige que nos amemos uns aos outros; que enterremos o machado da guerra para que a paz predomine.

A luz e o fogo são metáforas co-simbólicas de uma mesma construção filosófica. O fogo, enquanto arquétipo poético é representado pelos substantivos “fagulha” e “luz” que titulam os dois livros de Timóteo. A luz não só ilumina, mas também acaricia os nervos e, em última estância, queima. A fagulha provoca sessação térmico-luminosa apaixonante, penetrante e agradável de ver no peito e nos olhos. Isso tudo transforma o homem em autêntica labareda, como afirma São Martinho: “a sua lei, como a de todos os fogos, é a de dissolver e unir à fonte de que está separado” (cf. Chavalier & Gheerbrante, 2010, 331).

Considerando esta relação íntima entre o fogo e o corpo, a literatura budista de Sumyttanikaya, substitui o fogo sacrificial do hinduísmo pelo fogo interior, que é ao mesmo tempo conhecimento penetrante, iluminação e destruição do invólucro: “Atiço em mim uma chama… O meu coração é o lar, a chama é o Eu domado”. Perante isto tudo, a poética de Adelino Timóteo parece romantizar o mundo dos prazeres, ao considerar o que já sabíamos da História da Sexualidade, de Foucault, que defende que a sexualidade é co-extensiva com o poder, não reconhecendo, portanto, as relações concretas de poder que constroem e simultaneamente condenam a sexualidade existencial. Nesta perspectiva, os versos de Timóteo constroem um mundo que ultrapassa as categorias de sexo e identidade. Vejamos as seguintes declarações do sujeito poético em A luz diáfana do amor:

Temo muito a indolente sucessão interminável da desgraça que o fogo planteia. É o temor um acto de amor. Subitamente, para matar essa inquietude, um tempestuoso vento entra-nos de golpe pela janela, espalha a sua quente e imperceptível aragem com a sua mecânica e tenebrosa força, com a sua espectral luz, a vela cai e num silvar defuma-se, a luz morre, submergindo-nos na penumbra (LDA, p. 20).

A estrutura icónica de A luz diáfana do amor condiz com essa concepção simbólica da sexualidade, uma construção ontológica do genótipo do amor cuja acção materializa os desejo, o belo e o lazer. Nesta obra, parece haver preocupação em mostrar que os apetites e as emoções não devem ser sexualizados, considerando importante a contemplação comediante da realidade lasciva do corpo feminino, mesmo nas trevas, por isso, quando atinge o clímax, “a vela […] defuma-se [e] a luz morre”.

Do ponto de vista da superestrutura, O voo das fagulhas apresenta uma composição que oscila entre verso e prosa, surgindo de forma fragmentada, mas coesa e coerente. É na prosa poética onde a estética do amor, liminarmente interpretada como a doutrina do prazer, se assume como um espaço de presentificação humanística e de refúgio. Vejamos este trecho:

És um livro que me leva errante a furnas da alegria, como uma escada de subir aos céus, lenta e aos beijos. És o livro de evitação, e imitas uma borboleta em êxtase em haste dos céus infinitos, a leveza de uma libélula em êxtase, em voo, depois ao que aos olhos se dá a sua cauda túrgida. És o antepassado de uma bebedeira natural, por isso quando há guerra refugio-me em ti, por isso quando há fome busco em ti o alimento, o pão, a água e me entontece com o cálice de vinho do teu corpo. (VdF, p. 50).

Está visível que o interlocutor do sujeito poético ocupa um estatuto enciclopédico, uma figura demiúrgica, porque, pela natura social, e nas sociedades tropicais, a mulher é quem confecciona o alimento da vida e, ela própria se transforma nesse alimento que mata a fome dos prazeres.

As duas obras que nos são apresentados pela Alcance Editores são também o pão e a água que a sociedade necessita para alimentar a humanidade. Por isso, o que aprendemos d’A luz diáfana do amor (2022) e d’O voo das fagulhas (2021) situa-se entre o bem e o mal, ou seja, o autor mostra como ele, no sentido de um simbolismo cristão, se esforça por quebrar a maldição que a falta de amor, a ausência da noção da diferença e da alteridade,  distribuindo as partículas luminosas do amor aos leitores, que conduzam ao bem-estar do espírito, à paz e à reconciliação.

Bem-haja, Albino Timóteo, porque está muito bem acompanhado pela Alcance Editores nesse voo que procura alcançar a aragem do bem.

Beira, 10 de Fevereiro de 2022.

 

 

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) não concorda com a possibilidade de transformar o prémio literário José Craveirinha em galardão internacional. Entretanto defende a criação de um prémio de âmbito universal.

Falando durante uma entrevista ao jornal O País, no dia 29 de janeiro do ano corrente, Zeca Craveirinha, filho do poeta, disse que é preciso transformar o “Prémio Literário José Craveirinha” em galardão internacional, como homenagem ao seu pai. Uma posição que também veio a ser assumida pela Fundação José Craveirinha, que o mesmo dirige.

O País ouviu, por sua vez, na última segunda-feira, o Secretario Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, que diverge com a ideia, e diz que deve se criar um prémio de caracter internacional porque segundo Carlos Paradona, haveria um vazio no reconhecimento dos escritores Moçambicanos.

“Não me parece que seja certo a transformação de um prémio meramente nacional, para o reconhecimento da carreira literária daqueles que durante vários anos, passaram noites sem fim, a dedicar essa literatura”.

Não concorda com a transformação, mas assume a ideia de se criar um galardão de literatura para o reconhecimento internacional. “A associação dos escritores moçambicanos são por uma criação de um prémio internacional de José Craveirinha”, disse Carlos Paradona, Secretário-geral da AEMO.

Trata-se do maior prémio de Literatura que é atribuído aos escritores moçambicanos em homenagem a José Craveirinha, que se fosse vivo completaria 100 anos de idade em Maio.

A Companhia Nacional de Canto e Dança parte no dia 14 do corrente mês para os Emirados Árabes Unidos, onde vai actuar na maior exposição do mundo, em Dubai.

A nação moçambicana já fez a sua estreia cultural no principal evento de exposição mundial, a “Expo Dubai”, com a actuação de músicos como: Onésia Muholove, Valdemiro José e Mr. Kuka.

Desta vez, é confirmada a partida da Companhia Nacional de Canto e Dança, que vai também ecoar a sua arte em representação do povo moçambicano.

Na cerimónia de ensaio e despedida, o vice-ministro da Cultura e Turismo, Fredson Bacar, deixou ficar o desafio de carregar os 30 milhões de moçambicanos em prol da cultura.

Para além de apresentar as danças mais representativas do país, será destacada uma obra intitulada “Planeta azul”, a representação, segundo o director-geral, da Companhia Nacional de Canto e Dança, André Massabo, pretende chamar atenção ao mundo sobre a forma de lidar com o planeta.

O académico, filósofo e vice-reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, José Castiano, lançou, ontem, na Cidade de Maputo, um livro intitulado “Do Espírito de Tradição ao Espírito de Reconciliação”, com o qual pretende mostrar os caminhos para a reconciliação entre os moçambicanos.

Desde os tempos remotos, a sociedade moçambicana tem sido marcada por conflitos sem fim à vista, o que, segundo José Castiano, a sua obra vem preencher o vazio do pensamento académico sobre os caminhos que a reconciliação pode seguir.

Essa reconciliação, diz o autor, vai para além da preocupação com o calar das armas, mas que permite que as partes assumam a necessidade de viver num ambiente de paz e harmonia.

“É importante que a filosofia e os filósofos respondam a esses sinais do tempo. Este início da nossa vida familiar, que eu chamo tradicional. É preciso compreender como este recurso pode se transformar num recurso importante para resolver os conflitos de hoje.

De acordo com o autor, esta obra mostra a presença africana no pensamento filosófico.

Por sua vez, o reitor da Universidade Pedagógica de Maputo diz que os moçambicanos precisam de se reencontrar. “O nosso país continua pouco reconciliado, as nossas gerações são de conflito e não me parece que esteja a encontrar discursos reconciliatórios. É um apelo a que possamos dialogar mais, procurar e encontrar mais os pontos que nos unem”.

O livro foi apresentado pelo sociólogo e Professor Filimone Meigos, com a contra apresentação do Professor e filósofo Severino Ngoenha.

A artista plástica Manu Madeira inaugurou quarta-feira, na Cidade de Maputo, uma exposição intitulada “Batota dos Sonhos”, através da qual procura criar esperança na vida das pessoas. A obra está aberta ao público na Fundação Fernando Leite Couto.

Nesta exposição individual, Manu Madeira traz personagens diversas, com maior destaque para as mulheres. Utiliza uma técnica mista, com óleos, tintas e acrílicos sobre painéis de gesso na tentativa de mudar o mundo dos sonhos para a realidade.

“Os desafios e inspirações que temos, uns realizam-se, mas outros não, mas há sempre uma esperança”, afirma a artista, acrescentando que a “Batota dos Sonhos são os riscos que enfrentamos diariamente, mas com a vontade de um dia dar certo”, acrescentou.

Membro e co-fundador de duas casas de arte na Irlanda, a artista expõe em Moçambique pela primeira vez. “Sinto-me muito honrada pela oportunidade.

Manu Madeira avalia o momento como sendo de grande importância e, depois de expor em várias partes do mundo, diz que trazer suas obras a Moçambique marca o seu melhor momento.

A mostra marca o início de actividades, este ano, na Fundação Fernando Leite Couto.

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