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O País – A verdade como notícia

AEMO ferida de amnésia institucional

Passei há dias pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) para consultar a acta da última Assembleia-Geral. Passam meses, depois da sua realização e, infelizmente, a acta ainda não está disponível. Nesse ínterim, reparei que a galeria com as fotografias das sucessivas direcções da AEMO continua despregada das paredes.

Desde a reabilitação do edifício, a minha primeira interpretação foi compassiva e pensei que se tratasse apenas de uma consequência daquela reabilitação, havida à luz da visita presidencial à casa dos escritores, embora um outro aspecto me deixasse a pensar, e soou-me estranho que, quando se esperava uma visita de tão alto nível, os rostos daqueles que construíram a história da instituição deixem de estar visíveis.

Tivessem, de facto, esses rostos regressado às paredes, depois de, por hipótese, sido retirados por razões de obras ou de reorganização do espaço, seria perfeitamente compreensível. Mas, durante uma visita dessa importância, não deve haver dúvidas de constituir uma oportunidade para apresentar a história da instituição, os seus antigos Secretários-gerais e Presidentes da Mesa, alguns deles fundadores da agremiação, uma verdadeira montra histórica dos dirigentes, nas suas diferentes gerações, daqueles que, antes dos actuais ocupantes, deram corpo à AEMO.

Não se recebem grandes visitantes apenas apresentando o presente. Também se apresenta o caminho que tornou possível esse presente, aliás essa magna visita e tudo o resto, como foi referido no acto pelo próprio visitante, ocorreu em resposta ao convite formulado pelo anterior Secretário-geral, portanto nada de phapharatismos!

Durante anos trabalhei na biblioteca da AEMO e vi, muitas vezes, estudantes e demais visitantes a deterem-se diante daquelas fotografias, os primeiros de papel e caneta na mão em notas com finalidade académica. Visitantes perguntavam quem eram aqueles escritores dispostos numa sequencia cronológicas de mandatos, neste ou naquele quadro onde a legenda era imprecisa, em que período tinham dirigido a instituição e qual tinha sido a sua contribuição. A galeria era, portanto, mais do que decoração, era uma pequena aula de história institucional. É aqui que os dois factos acabam por se encontrar.

Pois, de um lado, procuro a acta da última Assembleia geral e descubro que ainda não está disponível quando, por outro, se mantem eclipsada a galeria que durante anos tornou visível a sucessão das direcções da AEMO. Rui Nogar, Albino Magaia, Pedro Chissano, Hélder Muteia, Lília Momplé e tantos outros que os rostos parecem deixarem de ter impotência para a actual direcção.

Com a acta temos uma memória escrita que não está acessível e, com a galeria, uma memória visual que deixou de estar exposta. Talvez sejam apenas circunstâncias independentes ou ainda existam explicações razoáveis para ambas. Mas, deve ficar claro que em mais de quadro décadas de actividade uma acta ficou inacessível por mais de duas semanas, após a realização de uma Assembleia-Geral, e nós outros temos consciência tranquila sobre tudo o que falamos nessa reunião e queremos ver plasmado em acto, e não queremos pensar que alguns estejam receosos em ver as posições que defenderam a ficarem registadas no livro de actas, cientes de que a História não irá absolver com os mesmos olhos vendados de hoje.

Por ora, numa instituição como a AEMO, essa questão da galeria merece reflexão, pois os nossos antecessores não são um incómodo a esconder, são a nossa genealogia institucional. Alguém precisa ter muita coragem, ou um grande desatino para ordenar o apeamento de Orlando Mendes, Aníbal Aleluia, Sérgio Vieira, José Craveirinha ou Júlio Carrilho do cimo das paredes do salão Nobre da AEMO, nem precisamos aqui de entrar na relevância histórica ou mérito literário de que assim o ordenou.

Parece que o ódio e a mesquinhez, quando se fundem no âmago de um mesmo ser, podem arrasar mortos e vivos com um único golpe de vista. Com este artigo, sei que esta será a oportunidade para contar um filme sobre as razões dessa barbárie, mas tal exercício será inoportuno, pois AEMO teve recentemente duas sessões da Assembleia-geral, espaço este onde caberia muito bem a explicação aos membros, face a essa & quot; inovação" na preservação da história da casa pela eliminação da galeria.

Uma fotografia de um antigo dirigente não é necessariamente uma homenagem à pessoa. É, antes de tudo, um reconhecimento de que aquela pessoa ocupou um lugar na história da instituição. Pode-se mudar a pintura das paredes, envernizar o soalho na véspera de uma visita, como um simples mordomo o faria com o mesmo brio, mas um verdadeiro Secretário-geral não deve, sob hipótese alguma, igualar-se a este, que se lhe escapa qualquer lógica do que venha a ser uma memória institucional.

Nisso, o mais curioso ainda, e até irónico, é quando uma decisão dessa natureza parte de uma direcção que tem a testa alguém com formação em Sociologia. Não porque um sociólogo esteja impedido de modificar uma galeria, óbvio, mas porque a Sociologia conhece o valor da memória colectiva, dos símbolos e da identidade das instituições. Ou é simples caso de quem incendeia uma floresta para se livrar de uma única árvore cheia de espinhos?

A terminar, por enquanto, dizer que uma instituição segura do seu presente não precisa de ter medo do seu passado, facto que também se traduz na vã tentativa de avacalhar os estatutos da agremiação, suprindo, por exemplo, o direito a liberdade de expressão, usurpar funções de alguns titulares de cargos eleitos, para acomodar um conselho sem nexo algum, etc., etc, etc.

PS.: Face a eliminação dos canais tradicionais ou mesmo naturais de comunicação com o actual secretariado, aqui vai o meu apelo público: Fica feio, reponham a galeria da AEMO nas paredes da agremiação, a AEMO não começou com a actual direcção e, felizmente, também não terminará com ela.

Por outro lado, como se pode ler aqui, não é preciso ser membro efectivo da agremiação para expressar alguma opinião sobre ela, bastando apenas ser um cidadão consciente. Portanto, deixem igualmente em paz os estatutos da casa, sem essa de ameaçar expulsar a escassa massa critica, fica feio … E, qual é a dificuldade de apresentar a acta da ultima magna reunião?

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