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Tiro de pólvora seca

Horácio Gonçalves é, hoje por hoje, uma espécie de “menina dos olhos de todos”. Pudera, no “ad eternum” marco de uma nova era na bola indígena, foi indicado como novo timoneiro dos depreciados Mambas. Um campeonato nacional ganho em 2019, duas Supertaças Mário Coluna (ndr: o nível de desorganização evidenciada numa das edições não valoriza a lenda do futebol mundial) e um troféu no então sugestivo e apetecível Torneio Mavila Boy seduziram Feizal Sidat e seus semelhantes a apostar no técnico de 58 anos.

Com uma folha de serviço na qual se destaca a passagem por clubes de segundo plano do futebol português, Horácio Gonçalves sucede a Luís, despedido num processo com pernas para terminar em tribunal e com contornos de indemnização, caso este e a Federação Moçambicana de Futebol não cheguem a acordo de “cavalheiros”. Luís Gonçalves falhou o objectivo principal de levar os Mambas ao CAN 2022, nos Camarões, após derrota com Cabo Verde, por 1-0, no Estádio Nacional do Zimpeto, mas fala de outras “componentes” que regem o contrato rubricado com a FMF na era de Alberto Simango Jr.

Lapsos de comunicação á parte, Horácio Gonçalves foi o escolhido dentre um leque de treinadores nacionais e estrangeiros que piscavam o olho ao comando da selecção nacional. A sua escolha provocou, a mim, particularmente, quase um acesso de cólera porque esperava mais ousadia e rigor da Federação Moçambicana de Futebol na definição daquele que vai comandar a marcha da viragem na forma como abordamos os processos na modalidade rei, hoje a navegar na mediocridade e constante coro de lamentações. Esperava, sinceramente, que a Federação Moçambicana de Futebol definisse e tornasse público, antes de mais, o perfil do novo seleccionador nacional para que ficassem claros os critérios da sua escolha ou indicação. Como moçambicano, e cansado de tanta pancada a cada vez que os Mambas jogam, esperava por uma figura com qualidades reconhecida e curriculum inquestionável.

Não foi o que aconteceu.

Porca Madona.

Aristides: Como diria o outro.

Parece-me, neste capítulo, que a estratégia para o pesadelo de relações públicas há algum tempo foi definida: largar a bomba e esperar que a poeira assente. Voltando aos critérios, penso ser importante destacar o facto de ser fundamental para se operar qualquer mudança e avançar com um processo de renovação ter algum conhecimento profundo do futebol moçambicano. Ai, sem desprimor para os estrangeiros que até tem muita qualidade, penso existirem nomes nacionais com idoneidade, competência e obra feita para orientar os Mambas.

Sou claramente defensor de barro da aposta em treinadores com perfil e que conheçam as fundações do futebol moçambicano. E exemplos não faltam. Chiquinho Conde, por exemplo, já deu provas disso quando desenvolveu um bom trabalho no projecto “Locomotiva Esperança”.

Temos, e não hajam dúvidas disso, treinadores talhados como João Chissano e Artur Semedo cujo trabalho nos clubes que passaram evidenciam a qualidade de jogo das mesmas colectividades e potenciação de valores.

É preciso abandonar o oráculo de que os treinadores nacionais não servem e que a prioridade deve ser para os estrangeiros, supostamente melhor preparados. A experiência do passado já nos trouxe dissabores que bastam.

Já tivemos um ilustre desconhecido chamado Gert Engels que nada acrescentou de valor aos Mambas.

Esta política desorientada da Federação Moçambicana de Futebol e falta de visão clara das premissas para se dar o salto qualitativo, assusta. Afunda cada vez mais o futebol, decepciona os requisitantes (adeptos) de momentos para a posterioridade: sucesso dos Mambas. Feizal Sidat, meu caro, é preciso pensar alto. É preciso ser mais rigoroso e acertivo na escolha de treinadores. Precisamos de gente formada, sim, mas com capacidade reconhecida para significar os Mambas. Os processos de escolha devem ser claros, sob o risco de termos pessoas cujo valor que irão acrescentar ao futebol são zeros atrás de zeros nos seus números nas suas contas bancárias.

Já agora, e dentro dos resultados imediatos que anseamos para afogar as mágoas, foi definido que Horácio Gonçalves deve levar os Mambas ao CAN_2023, CHAN e fazer uma boa campanha no COSAFA. Para tal, claramente, é preciso que haja estrutura, cometimento, qualidade, competência e um alinhamento. A questão que não quer calar: temos estrutura e qualidade para atacar estas provas? A FMF criou condições para uma campanha tranquila, sem ruídos de comunicação e alheamento tal como aconteceu em alguns momentos da fase de qualificação para o CAN Camarões 2022? Estamos recordados do desalinhamento com Luís Gonçalves, pelo menos no aspecto da antecipação do jogo com Ruanda. Há garantias que não teremos interferência no trabalho de Horácio Gonçalves, particularmente, nas suas escolhas?

Num mundo desportivo cada vez mais aliado a ciência, os processos são estudados e ensaiados. Qual o modelo de jogo? Que trabalho sério de formação de novos valores (orientados por gente qualificada) é que a FMF tem na forja?

Ao nível de infraestruturas de qualidade e de apoio às selecções de formação, que investimento está a ser levado a cabo? E aqui, senhores, é preciso que haja clareza nos critérios de escolha dos recintos que passam a ostentar o nome de “casa das selecções de formação”? O que pesou, por exemplo, para a escolha do campo do Afrin em detrimento dos outros campos?

Há foco? Não nos vamos distrair com futilidades (com obj ectivos comerciais) quais a mudança de nome de guerra da selecção? Não nos vamos distrair com pretensões de mudar o patrocinador do equipamento, um compromisso assumido pelo elenco anterior? Não teremos atletas com reacções viscerais a queixarem-se de terem sido hospedados em pensões? É que, caros, as respostas a estas questões podem, a meu ver, ditar o sucesso ou não dos Mambas. Caso contrário, não se pode sonhar alto.

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