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O País – A verdade como notícia

O Professor Celestino Joanguete foi distinguido como Doutor Académico pelo Colégio Oficial Internacional de Doutores.

A distinção é baseada na produção científica e profissional do académico moçambicano na área de comunicação.

Joanguete foi também convidado a fazer parte do Colégio Internacional de Doutores.

A entrega do título académico vai acontecer nos dias 5 e 6 de Outubro, em Lima, capital do Peru.

O edil de Maputo, Eneas Comiche, diz que muito feito nos últimos cinco anos na Cidade de Maputo, entretanto, não conseguiu cumprir com todas as promessas feitas durante a sua campanha eleitoral devido a COVID-19, a crise económica, os eventos climáticos extremos e o terrorismo em Cabo Delgado que afectaram grandemente o desenvolvimento “saudável” da Cidade de Maputo.

Comiche falava este sábado a centenas de munícipes do distrito KaMubukwana, durante o balanço da sua governação que está prestes a terminar. Apesar dos impedimentos que destacou logo no início do seu discurso, não deixou de falar dos avanços feitos nos últimos anos, a começar pela melhoria das vias de acesso, naquele distrito.

“Temos a destacar a pavimentação da Rua São Paulo e melhoramento do sistema de drenagem das Ruas transversais a esta, no bairro municipal 25 de Junho” B”, fizemos a requalificação e asfaltagem da Rua São Pedro e revestimento as valas de drenagem nas Ruas 13 e 15, no bairro municipal 25 de Junho “A”, mencionou Comiche.

Para além disso, falou de avanços na área da saúde e destacou a construção do bloco de Urgência Pediátrica no Centro de Saúde do Bairro do Zimpeto, e a reabilitação da maternidade do Centro de Saúde de Bagamoyo.

A melhoria da rede de abastecimento de água foi também mencionada pelo presidente do município, onde mencionou os bairros de Inhagóia “A”, Bagamoio, George Dimitrov, Mahlazine, 25 de Junho “A”, Inhagóia “B” e Luís Cabral, como também falou da reparação de 3.679 fugas de água em diversos bairros do distritos.

“Foi melhorada a qualidade de energia e iluminação Pública através da instalação de 12 novos Postos de Transformação de energia “PT’s” e colocação dos seguintes materiais: Lâmpadas, Balastros, Contactores, Luminárias, foto Células e acessórios como também a realização de mais de 2000 novas ligações a rede”.

A celeridade na atribuição dos títulos de Direito e Uso de Aproveitamento de Terra  (DUAT’s), neste período, foram entregues mais de cinco mil DUAT’s, aos munícipes dos Luís Cabral, Magoanine “C”, Magoanine “A”, Magoanine “B”, Zimpeto e George Dimitrov.

 

MUNÍCIPES DIZEM QUE HÁ AINDA VÁRIOS PROBLEMAS POR RESOLVER

Balanço feito, chegou a vez de os munícipes que acompanhavam o balanço de Eneas Comiche abrirem o seu coração, estes falaram do transporte, focando-se no encurtamento de rotas, maus tratos por parte dos transportadores e as chamadas “entrevistas”, perante o olhar impávido e sereno das autoridades municipais.

Falaram, também, das inundações, que sempre que chove, afectam vários bairros daquele distrito.

“Quando chove, há famílias que nem podem sair de casa, porque fica tudo alagado, outras devem ficar nos centros de acolhimento, já sabemos que esse é um problema anual, mas há outro, há estradas que ficam intransitáveis, uma delas é a avenida Sebastião Marcos Mabote, ficamos sem saber se é uma estrada ou uma vala de drenagem, sempre que chove, por isso, pedimos respostas”, queixou-se Augusto Cumbe, um dos munícipes, residente no bairro Magoanine A.

Coube a Alice de Abreu, vereadora para área de saúde e acção social do município responder a esta inquietação, falando, por exemplo, do plano de reassentamento de algumas famílias.

“Foram identificadas para a nossa cidade aproximadamente 700 munícipes, que de certa forma foram afectados por estas chuvas, foi elaborado um plano de reassentamento destas famílias, avaliado em cerca de 100 milhões de meticais”, disse.

Alice de Abreu acrescentou que neste momento o município trabalha com a província de Maputo, os distritos de Marracuene, Manhiça, Boane e Matutuine para identificação de espaço para o reassentamento das famílias.

Outro problema é a falta de sinalização rodoviária em algumas vias de acesso, como o caso da avenida 4 de Outubro que liga os bairros Malhazine, Benfica e Bagamoyo, segundo os munícipes têm acontecido vários acidentes d e viação onde as maiores vítimas são as crianças, mas que podem ser reduzidas com a sinalização.

“A estrada tem-nos ajudado muito, mas pedimos lombas, bandas sonoras e sinalização, a sinalização nem devíamos pedir é vosso dever colocar sempre que uma estrada é construída, porque assim iremos reduzir o mau comportamento dos condutores que usam a estrada para fazer rallys e andam em alta velocidade”, apontou Jossias Munguambe.

Sobre o assunto, o vereador de Ordenamento Territorial, Ambiente e Urbanização, Silva Magaia, prometeu para os próximos meses a colocação desses sinais não só nessa estrada mas em outras que não tenham.

Já sobre a colocação de valas de drenagem nas vias de acesso, para escoar água, Magaia disse que só poderá ser feito no próximo mandato, uma vez que já não há tempo e meios financeiros para o efeito.

Outra preocupação é o abastecimento de água no bairro Inhagoia, onde o representante disse que há famílias cujas torneiras não jorram água há muito tempo.

O Mando de Eneas Comiche como edil de Maputo iniciou em Fevereiro de 2019 e termina no início de 2024, ainda esta semana visitou o distrito Municipal KaTembe, para fazer o balanço da sua governação naquele distrito.

As obras do aterro sanitário da Katembe não mais irão arrancar este ano, como tinha prometido a edilidade da Cidade de Maputo. As obras só iniciam em 2024. Enquanto isso, ainda não há data para o encerramento definitivo da lixeira de Hulene.

O encerramento da lixeira de Hulene, na Cidade de Maputo, continua refém da construção de um aterro sanitário no distrito municipal Katembe, depois de sucessivas promessas desde 2018.

Entretanto, ainda não há datas previstas.

“O encerramento definitivo da lixeira está condicionado. Quando tivermos o projecto executivo do aterro e a possibilidade clara da contratação do empreiteiro aí poderemos ter um calendário claro que nos permita dizer o ano e o mês em que iremos encerrar”, disse Silva Magaia,

O vereador explicou que as obras de construção do aterro sanitário da Katembe, inicialmente previstas para 2023, só poderão arrancar no próximo ano. Para já, existe apenas o espaço identificado.

“Estamos com a expectativa de que as obras do aterro arranquem em 2024 e a sua conclusão depende também do que será o projecto executivo e só assim nos comprometemos em avançar a data”.

Encerrada, a lixeira de Hulene servirá de estação de transição de lixo, segundo explicou o presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Eneas Comiche.

“Iremos depositar resíduos sólidos na Katembe depois de terem passado por um processo de separação, porque alguns destes são recicláveis”.

Os pronunciamentos foram feitos esta sexta-feira, à margem de um seminário para partilha de experiências sobre gestão de resíduos sólidos.

Embora casos de desmaios na escola continuem preocupantes na Escola Secundária Geral 4 de Outubro, em Morrumbala, a Direcção da escola diz que os casos tendem a abrandar. Nos últimos dois dias, não houve registo de nenhum caso, depois de semanas conturbadas. De acordo com o director pedagógico do primeiro ciclo, curso diurno, Sidónio Ferrão, algumas alunas com histórico de desmaios estão em acompanhamento familiar.

Casos de desmaios na Escola Secundária Geral 4 de Outubro, em Morrumbala, na província da Zambézia, ocorrem desde o início deste ano com alguma preocupação. Até aqui, são contabilizados pelo menos 96 casos envolvendo apenas raparigas. A situação preocupa não só a Direcção da escola, como as comunidades ao nível do distrito, tendo já sido criada uma comissão técnico-científica para esclarecer as principais causas da situação.

No entanto, nos últimos dias a Direcção da escola diz que o cenário tende a abrandar. Sidónio Ferrão, director pedagógico do primeiro ciclo, fez saber que “o problema dos desmaios tem vindo a ocorrer há bastante tempo, e envolve algumas alunas. As mesmas alunas quando estão em casa, em acompanhamento familiar. O problema na escola tende a abrandar. A título de exemplo, esta terça-feira, as alunas que sempre se notabilizam com este problema estão em acompanhamento familiar e o ambiente que se viveu na escola foi de tranquilidade. Segunda-feira também não tivemos casos e estamos expectantes que a situação prevaleça neste ritmo”.

Contudo, o que a nossa reportagem acompanhou no terreno é o surgimento de um novo fenómeno. Ou seja, quando as meninas desmaiam, elas apresentam comportamentos típicos de manifestações espirituais, tal como explicou Marta José, aluna do ensino médio.

“Estamos muito mal, pois as moças têm vindo a cair de forma assustadora. Agora são manifestações em que elas caem e começam a comportar-se como pessoas com problemas mentais. Outras até chegam a correr pelo recinto escolar”, disse a estudante pedindo o fim da situação através de intervenção de todos.

Reis Tungadza, funcionário público afecto ao Hospital Distrital de Morrumbala, formado em saúde pública, diz tratar-se de histeria colectiva um fenómeno contagioso nas meninas. Chama atenção sobre a necessidade de se controlar, para evitar o seu alastramento, porque traz consequências negativas, com destaque para a esterilidade no futuro.

“As consequências da histeria colectiva são graves e são, às vezes, a longo prazo, podendo levar à irregularidade do ciclo menstrual da menina, infertilidade em casos futuros.”

Os médicos em serviço nos hospitais da Cidade de Maputo dizem-se sobrecarregados devido à greve em curso há 12 dias. Já os pacientes pedem que os médicos voltem a trabalhar.

A greve dos médicos continua no seu décimo segundo dia, e a prestação dos cuidados de saúde a quem necessita está cada vez mais condicionada nas unidades sanitárias da Cidade de Maputo.

No Hospital Central de Maputo, por exemplo, os bancos dos serviços de urgências estiveram preenchidos, esta quinta-feira. São pacientes que por horas aguardavam atendimento.

“O hospital esteve mais cheio hoje e o atendimento está muito lento, mas nada podemos fazer senão aguardar pacientes, sentados nestes bancos”, lamentou Horpa Henriqueta.

Há quatro dias, Flávio Luís aguardava um atestado médico após uma mordedura canina, mas sem sucesso.

“Eu apenas preciso de um atestado médico, mas só me dizem que devo aguardar sentado aqui neste canto. Estou preocupado, porque nem sei se irei conseguir ter acesso ao documento”, queixou-se o paciente.

No Hospital Geral José Macamo, o atendimento é também a meio-gás, mesmo com a alocação de cinco médicos militares.

A unidade sanitária conta com 50 médicos, entre especialistas e de clínica geral. Destes, mais de 30 não se fazem aos seus postos desde o primeiro dia da greve e o trabalho redobrou.

“Todos os serviços do hospital estão a ressentir-se da falta de médicos. A Maternidade está a trabalhar muito apertada. Há um médico por turno, e assim é muito difícil. No Banco de Socorros, o apoio de médicos militares não é suficiente para dar vazão a todos a tempo e hora”, explicou Luís Walle, acrescentando que as consultas externas praticamente não existem, desde o início da segunda fase da terceira greve nacional dos médicos.

Já os pacientes, que antes mesmo da greve já se queixavam de demora no atendimento e consideram agora a situação crítica, pedem aos médicos grevistas que voltem a trabalhar.

Em todo o país, mais de dois mil médicos aderiram à terceira greve nacional.

Texto: Elton Pila

 

Quatro filmes depois, Yara Costa coloca uma instalação na Ilha de Moçambique. “Nahota e a sereia” é um happening, não apenas para Ilha, mas também para circuitos de arte mais experimentados. Se temos um assombro pelo formato, o lugar para onde a experiência nos leva é um wake up call. A instalação imersiva nos faz olhar para o património marítimo da cultura suaíli e propõe caminhos de regresso a um passado que era já futuro. É a arte interventiva, a tentar fechar a última comporta antes do mundo se esvair dentro da sua própria lama.

 

Odeio a ideia de começar por aqui. Mas tem de ser. Quem é a Yara Costa?

Tento responder a essa pergunta através dos trabalhos criativos que faço. Os meus filmes e agora esta instalação artística são a forma de me ir descobrindo, definindo e de dizer quem eu sou.

Sou cineasta, com uma formação em jornalismo. Mas não é isso que me define. Não saberia dizer o que me define, mas posso dizer o que me move.

 

E o que lhe move?

A história, cultura, identidade, no sentido de saber o que era no passado, perceber o que acontece no presente para ajudar a revelar o futuro. E como é que todas as coisas estão interligadas. O que faço através do meu trabalho artístico ajuda a conectar todos esses pontos, ajuda-me a perceber quem sou eu neste mundo neste período histórico, neste agora e perceber qual é o meu papel e qual acho que deve ser o meu papel neste mundo.

 

E isso é uma preocupação até identitária?

Meu pai é da Ilha de Moçambique, o vínculo que tenho com a Ilha é através dele. Meu pai é nascido na Ilha e os meus avós são de Goa, na Índia, que teve muita ligação com a Ilha de Moçambique.

Lembramos que, durante um longo período histórico, a Ilha de Moçambique esteve sobre a governação da Índia.

Do lado da minha mãe, a minha bisavó é da Tanzânia, ela foi levada para Índia ainda criança, depois da sua aldeia ter sido atacada e ela se ter perdido dos pais. Depois de ter estado na Índia, chegou de barco a Maputo. A minha mãe é neta de duas mulheres negras africanas, que tiveram filhos com homens europeus. Parte da família da minha mãe é de Inhambane um lugar que eu gosto muito. E, na verdade, parte da ideia deste projecto nasceu quando eu estava lá em Inhambane durante a pandemia da Covid-19.

Fui nascida em 1981 na cidade de Maputo, no momento em que o país também está tentar formar-se de certa maneira. Não sei quem me deu, se os antepassados ou Deus, eu nasci assim numa incumbência de tentar encontrar respostas para estas linhas da história que determina quem somos e como os outros nos vêem.

Mas achava que era tentar encontrar respostas. Só depois percebi que não é sobre encontrar respostas e sim sobre fazer perguntas certas.

E, recentemente, depois que eu decidi me instalar na Ilha de forma definitiva passei a ter muito interesse na costa Suaíli, nesta identidade que eu acho um pouco invisibilizada em Moçambique.

Sempre me senti como se estivesse de costas para o mar. Apesar dos 3 000 km do mar, quando a gente vai ver o que está escrito nos livros, até a própria noção do país, construção do pós-colonialismo, é de costas para o mar, é como se esta identidade não existisse. Mas a maior parte das pessoas vem de lá. No mundo, 3/4 da população vive na costa e em Moçambique também muita gente vive na costa, e isso nāo é limitado apenas à actividade económica de pesca, mas é muito mais. Tudo isto pode nos servir hoje para entender como é que está a ser a transformação do planeta, do clima e de todas as mudanças que estão a acontecer. Então, tudo isso me faz quem eu sou, sou uma pessoa que está sempre a mudar. A Yara de há dois ou três anos não é a mesma. Aprendi muito durante estes 3 anos com as comunidades costeiras e hoje, tenho mais perguntas que ontem.

 

Sempre teve esta inquietude em relação a quem é desde a infância ou foi se desenvolvendo com o tempo?

Sempre tive inquietação sobre tudo, de entender porque é que as coisas são como são.

 

Qual era a tua Maputo?

A da Sommershield, não podia ser mais privilegiada. Ainda que a minha família não venha necessariamente desse lugar de privilégio, começou a estar a partir daquele momento em que se definiram as linhas do país, nos anos 80. Mas, na casa dos meus pais, entrava e saía muita gente, com muitas histórias sobre o que estava a acontecer na guerra. A minha irmã adoptiva mais velha tinha perdido os pais na guerra, o pai tinha pisado numa mina e a mãe tinha sido queimada. Eram histórias que tinha dentro de casa. E talvez posso também ter juntado com alguns filmes que via na altura. Mas sentia uma tensão de que isto pode chegar mais perto.  Lembro que, quando acabava energia, o meu avô dizia Afonsinho não está contente hoje. E eu me perguntava quem era este Afonsinho que trabalha na EDM. Levei muito tempo a perceber. É engraçado que, depois de formada em Jornalismo, a minha primeira entrevista foi com Afonso Dhlakama. Aquilo foi conhecer o Afonsinho da minha infância.

 

A inquietação, o colocar perguntas teve alguma influência na escolha de Jornalismo para a formação?

Eu não sabia bem o que eu ia fazer. Comecei por fazer antropologia social. Mas depois andei a pensar o que ia fazer com o curso. Tinha poucas opções como dar aulas na universidade, mas eu não gosto de dar aula. Eu sempre fui uma pessoa de pessoas, de sentar e ouvir falar, não me imaginava sentada num escritório fechado. E foi um amigo que sugeriu que tinha de fazer jornalismo, porque eu tinha muitas perguntas. E eu sempre tentava imaginar como seria se Moçambique não tivesse sido colonizado, se a África não tivesse sido colonizada. Eu sempre a querer questionar estas coisas e esse amigo disse que eu daria uma boa jornalista. Então, vi que haviam anunciado no jornal um convênio Moçambique-Brasil e que podias escolher o curso que querias e a faculdade que querias, tinhas que só fazer provas na altura. Então, fiz o curso de Jornalismo e Comunicação dentro de um Instituto de Cinema e Arte da Universidade Federal Fluminense. A Escola de Jornalismo estava lá dentro, então isso permitiu-me que tivesse professores de Cinema, de Jornalismo e Comunicação. Aprendi muito sobre olhar o mundo e como fazer as perguntas certas. Eu não sabia mexer numa câmara ou fazer uma reportagem, mas deram-me as ferramentas sobre como indagar ainda mais. Isso é o mais importante.

 

Já via muitos filmes na infância. Vai fazer a formação em Jornalismo e calha em um Instituto de Cinema e Arte. O caminho para tornar-se cineasta estava já traçado?

Talvez. E há outros episódios.

Vivia numa rua onde havia uma produtora de Cinema, a Ébano filmes. Eles estavam numa produção, acho que era uma das primeiras grandes produções com co-produção internacional. Era uma co-produção com Zimbabwe e com Estados Unidos. O filme era “Uma criança que vem do Sul”, era um pouco inspirada na história de Eduardo Mondlane e chamaram a Chude Mondlane para fazer parte da produção. O filme era muito de memória e era preciso encontrar uma criança mais ou menos parecida com a Chude para fazer o papel da actriz principal enquanto pequena. Fizeram o anúncio para o casting de crianças. E eu fui fazer o casting. Eram dezenas de crianças. Eu tinha 8 anos e o realizador gostou e disse vais ser tu e agora estas contratada para três meses de filmagens. Eu não sabia nada do que era aquilo, mas achava tudo incrível porque eu estava a dobrar o papel da actriz principal.

E, depois, veio um documentário. Eu fui assistente de um realizador senegalês, o Moussa Sene Absa já experimentado em filmes e o contrataram para fazer um filme sobre mulheres e microeconomia. O filme foi filmado na Índia, Colômbia, no México, Brasil, Senegal, Congo e Moçambique. No México, ele filmou num bordel de prostitutas reformadas. O filme era de pessoas, de mulheres e a visão das mulheres do mundo.

No Congo, foi com uma mulher que tinha um rosto de 100 anos, mas, na verdade, tinha 40. E lembro de ter ouvido ela dizer que tinha 17 crianças, todas filhas de violação durante a guerra, aquilo era pesado. Por acaso, em Moçambique foi a parte menos interessante, a história rondava o HIV, uma mulher que vivia com HIV ou trabalhava no hospital não me consigo lembrar bem.

 

Deste filme já adulta que era assistente de realização ao seu primeiro filme, quanto tempo se passou?

Não foi imediato. Depois da formação, trabalho com a STV como repórter-produtora de um programa que na altura chamava-se Ponto Parágrafo, apresentado no Teatro Avenida por Anabela Adrianopoulos ao vivo sobre temas não consensuais em que tinha três pessoas de cada lado. Era um pouco inspirado em alguns programas que víamos noutros países. Então fiz isso durante um tempo, trabalhei muito, ralei muito, foi duríssimo, aprendi muito. Mas tive a certeza de que a televisão não é para mim e é aí que ganhei uma bolsa de estudos Americana, a Fullbright. Fiz as provas e esperei um ano para poder estudar mestrado nos EUA em Nova York, onde me formei em Cinema-Documentário e como trabalho de final do curso era fazer um filme. Voltei para Ilha de Moçambique e comecei a interessar-me por ver imigrantes chineses e depois percebi que não era só aqui que estava a acontecer. Então, comecei a fazer esse projecto. Na Universidade, fui assistente de um professor que, ao final do semestre, levava os alunos para o Gana. E era também uma oportunidade de enriquecer o meu trabalho. Então filmei em Moçambique, Gana. E depois, de uma realizadora que conheci em um Festival, ouvi que o melhor lugar para o meu filme era o Lesotho, porque Lesotho é um lugar que nem os de lá ficam por lá, então lá fui. Encontrei lá chineses, mas era uma área muito complicada porque tinham assassinado um chinês pouco tempo antes da nossa chegada. E foi assim que eu fiz esse filme sobre chineses em África. E eu já tinha certeza de que queria fazer filmes, estar nos Estados Unidos a ver ajudou-me muito.

Como depois de 4 filmes, pensa numa instalação?

Eu já sabia da história dos Nahotas ou Nakhodhas e já tinha interesse. O Nakhodha é o capitão do dhow, embarcação à vela de origem suaíli, que conhece o mar, os ventos e as estrelas como ninguém. Alguém falou-me de um senhor que é grande conhecedor do mar e eu sempre ia conversar com ele. Era o senhor Torodji, uma grande Nahota e tivemos várias conversas. O senhor é uma biblioteca. Meu interesse aumentou. Tinha de pensar numa forma de eternizar isto. Eu absorvi tudo o que ele disse, mas não podia estar só em mim. Estava a pensar em alguma coisa. Fazer com as pessoas e para as pessoas. Então, pensei que devia fazer com os jovens da Ilha. Então fiz anúncio para quem estava interessado e acabei seleccionando seis jovens.

Começamos com formação. Era uma formação que ensinava como recolher histórias, que tipo de histórias e qual é a relevância de cada história. Na altura, só tínhamos telefones pessoais de cada um. Então, trabalhamos com os meios que tínhamos. Fomos seleccionando as pessoas com que nos interessava falar. E as histórias de Nahotas e sereias sempre passavam pelos nossos ouvidos. Não me interessava muito perceber a veracidade ou não dos Nahotas com casos com sereia mas sim como as pessoas vêem, vivem e interpretam o mundo de outras formas.

A história que ouvi era de um pescador abastado que encontrou com uma sereia. A sereia era uma figura não humana que mudava toda hora, às vezes era um monstro, às vezes era uma voz, uma cor. O que achei mais incrível ainda é a ideia de como é que as pessoas entendem o mar e o ambiente em que estão como extensão delas mesmas. Na verdade, respeitam aquelas criaturas ao ponto de casarem com elas e essa é uma maneira de ver a natureza. Ele então casou-se com a sereia, mas manteve uma promessa em que ele não podia ter uma relação terrena. Só que o pescador queria ter filhos e acabou casando. E a sereia foi desaparecendo e a partir desse tempo nunca mais voltou a pescar.

Parece ficção.

O meu olhar como artista me faz pensar este conceito do mar e humanidade, quando há um equilíbrio entre a natureza e o ser humano, quando as coisas estão equilibradas, este casamento – homem e natureza – as coisas correm bem. O homem tem o que comer, a natureza consegue se regenerar. Mas quando essa relação está descontrolada vivemos o que vemos agora. Estamos a viver uma ruptura nos ciclos, os constantes ciclones. Antes, era um em cada 40 anos, depois 20, agora, é um ou mais a cada ano. A nível do mar sobe a uma velocidade acelerada, aqui nesta região fala-se em 20 cm até ao ano de 2030!. O que estamos a ver é, no fundo, o divórcio entre natureza e humanos. A humanidade passou a extrair da natureza de forma desregrada para criar um estilo de vida que hoje o mundo já entende que não funciona, não é sustentável. Não se pode tirar da terra, chupar dela e achar que isso não tem consequências.

Então, para mim a relação do Nahota e da sereia é essa metáfora.

Há uma pesca industrial internacional que está acontecer que faz com que não haja peixe e quem sofre depois é o pescador artesanal que depois tem que ir com uma rede mosquiteira e é dele que depois a gente vai falar. Mas no fundo ele não é o problema, mas ele vive a consequência de um problema que a gente sabe onde começa. Todas essas histórias, a dimensão histórico-cultural, do conhecimento ambiental e climático, da arte música como é escrita tudo isso me interessou.  Mas não cabia num filme de 60 minutos. Então, foi aí que comecei a pensar em gravar sons, filmar e apresentá-los de outra maneira.

Nas conversas com o Nahota, ele dizia-me que do lado de cima da água, a uma grande distância ele conseguia ver o que estava por baixo das águas, e que isso foi algo que foi aprendendo ao longo do tempo. A mim, isso pareceu-me tecnologia pura. Então, comecei a enquadrar os elementos e coordenar de uma forma coerente. Foi assim que comecei a escrever “Nahota e Sereia”.

Ao ver a instalação, a coisa que passa pela cabeça é como tudo isto foi feito, como é que este material foi levado até aquele edifício que está a acontecer a exposição. Qual é que foi o processo para que tivéssemos aquelas imagens do fundo do mar. Como foi tudo isto?

Já tinha a ideia de fazer uma coisa da realidade virtual. Era muito importante para mim gravar o som o mais próximo possível da realidade e do ouvido humano. Eu queria o som do pássaro que passa, o vento, o mar, ou seja queria poder transportar as pessoas para os espaços reais através do som. Por isso, gravamos o som em 360 graus.

O termos gravado antes com o telemóvel, ajudou a mapear que tipo de material seria importante. E isso facilitou quando começamos a gravar já a sério com o Rufus Maculuve que foi fundamental neste processo.

Como é ter um projecto deste género na Ilha de Moçambique. As questões ambientais aqui se fazem sentir imenso. Mas este formato é novo para todos. Como é comunicar estas coisas?

A Ilha em algum momento já foi o centro do mundo, eu queria de alguma forma honrar isto. O berço é a Ilha. Mas o projecto pode sair daqui para outro canto, Maputo, Cape Town, Dar-es-Salam e mais longe.

Mas as pessoas, cultura, conhecimento, ciência, sabedoria, arte e engenharia da Ilha tem um grande destaque aqui. O que estou a tentar fazer é que isso seja visibilizado, promovido, celebrado e protegido e que a gente possa olhar para nós mesmo conseguindo enxergar a riqueza e diversidade que temos em todas essas áreas. Porque eu acho que sofremos da síndrome de não olharmos para nós mesmos, para dentro, para casa, para a palhota, para o macúti, para o barco, para o pescador.

Eneas Comiche diz que está a cumprir com sucesso as promessas do seu manifesto eleitoral para o actual mandato. O edil de Maputo reconhece, porém, que alguns projectos poderiam ter sido mais céleres. Comiche falava hoje, em KaTembe, após um comício popular.

Quando faltam pouco menos de cinco meses para o término do seu mandato como edil de Maputo, o presidente do Município conclui que, apesar de alguns sobressaltos, está a cumprir com êxito as promessas que fez ao eleitorado.

“Faço um balanço positivo, pois aquilo que me propus a fazer está a ser feito, e creio que estou a cumprir aquilo que prometi aos eleitores. Certamente que gostava de ver as coisas já no lugar, mas as coisas não são assim, na prática o processo leva o seu tempo”, disse Comiche.

A crise de transporte e a degradação de estradas foram alguns dos desafios do mandato de Eneas Comiche.

Questionado sobre as actividades de resselagem em curso, nalguns troços da capital do país, Comiche diz que o importante não é a resselagem, mas sim a reabilitação de estradas, e isso poderá ver-se ultrapassado com o Plano de Mobilidade Urbana, recentemente apresentado pelo Governo, através do ministro dos Transportes.

“O projecto de Mobilidade Urbana, que foi transformado em MOV, cobre, não só a Cidade de Maputo, mas também Matola, Boane e os novos municípios de Marracuene e Matola Rio. Isso é que nos vai permitir alcançar, no sentido de termos vias preparadas para podermos ter estradas com melhor qualidade, para também podermos ter meios de transporte adequados àquilo que precisamos”, defendeu.

Eneas Comiche falava esta quinta-feira, à margem do comício de prestação de contas sobre a execução do plano de desenvolvimento municipal 2019-2023, tendo dito que KaTembe avançou nos sectores de segurança, educação, saúde e mobilidade.

Comiche disse ainda que, no âmbito do ordenamento territorial, foram atribuídos 427 títulos de uso e aproveitamento de terras, uma acção acelerada pela descentralização da autorização para a aquisição deste documentos. O facto influenciou positivamente na arrecadação de receitas.

“Com a implementação da descentralização do processo de aquisição de DUAT, foi possível, a partir de Junho de 2022, aumentar as receitas, de mais de oito milhões de Meticais para, em Janeiro de 2023, situar-se em mais de 800 milhões.”

Mas nem tudo correu bem, como ficou evidente nas intervenções de alguns munícipes de KaTembe.

Cristina Txemane queixa-se da demora na conclusão da estrada que dá acesso aos bairros Chamissava e Incassane.

“Faz tempo que as obras da estrada (da subida de Chamissava) sofrem interrupções. Sofremos, principalmente, na época chuvosa. Nestas últimas chuvas, por exemplo, sofremos bastante com a falta de transporte público, devido a problemas na transitabilidade. Pedimos que os responsáveis pelas obras sejam céleres, para que paremos de sofrer.”

“Na zona Inguide temos falta de transporte. Passam cinco anos, mas não vejo melhorias no acesso ao transporte público. Ao longo da EN1, entre a baixa até Malhampfane não temos transporte. Temos que orar de joelhos para o conseguir”, disse Francisco Faduku.

Ainda nesta quinta-feira, o edil acompanhou de perto as obras de construção da estrada da rua da subida, que, segundo esta placa, deviam ter sido entregues em Fevereiro.

Um incêndio de grandes proporções destruiu dezenas de bancas e barracas no Mercado T3 no Município da Matola. O fogo consumiu centenas de fardos de roupa usada.

O incêndio deflagrou na noite da última quarta-feira, numa altura em que quase todos os vendedores já tinham saído do mercado. Na secção de venda de lenha e carvão, onde igualmente funcionava um armazém, no qual se depositavam fardos de roupa usada, tudo foi destruído e reduzido às cinzas.

Líria Francisco, junto à sua mãe, tinha uma banca de venda de roupa usada e depositavam os fardos no armazém ora destruído. As duas estão agora desesperadas: “Da noite de ontem para hoje (de quarta à quinta-feira), recebi um telefonema a informar-me que o armazém onde depositámos a roupa estava a queimar. Mas, não conseguimos vir cá naquela alta noite, viemos cá esta manhã e perdemos tudo”.

Segundo os vendedores, o incêndio foi originado por fogo posto, este que queimou as cartolinas e papelões na lixeira e, com o vento desta quarta-feira, as chamas propagaram-se facilmente, segundo contou Judite Alberto: “Veio uma mana do interior do mercado, que vende comida, com cinza quente e deitou-a ali. Depois, a cinza originou fogo nós ainda aqui. Antes de irmos, tentámos apagá-lo e fomos para casa convencidos de que tivéssemos apagado, mas às 19h/20h ligaram”.

Adélia Balói, jovem que confecciona comida no Mercado T3, esteve presente na hora em que o fogo começou e lamenta que os bombeiros não tenham conseguido debelar as chamas. “O primeiro carro de bombeiros não conseguiu, voltou e veio o segundo que também não conseguiu. Por isso, nós, os vendedores, nos juntámos e tirámos a água dentro do tanque e começámos a ajudar para apagar o fogo.”

O Município da Matola já está a remover o lixo junto do mercado e garante o apoio aos afectados. João Mucavel, director de Salubridade naquela autarquia, disse que estava a ser feita a contabilização dos estragos.

“Neste momento, a actividade que está a decorrer é a de removermos os resíduos. Vamos sentar-nos para fazer a avaliação para podermos ver o tipo de assistência a prestar.”

O jornal O País contactou o porta-voz do Serviço Nacional de Salvação Pública, Leonildo Pelembe, para obter esclarecimentos em torno do caso, mas não foi possível.

Moçambique e Zimbabwe assinaram, quarta-feira, um acordo que prevê que os dois países cooperem na gestão das águas dos rios Búzi, Púnguè e Save através de uma comissão conjunta.

O acto foi testemunhado pela vice-ministra das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Cecília Chamutota, e pelo vice-ministro da Terra, Agricultura, Pescas, Água e Reassentamento Rural do Zimbabwe, Davis Mharapira.

A comissão conjunta será responsável pela gestão dos sistemas de aviso e mitigação de cheias e secas, conservação e restauração dos ecossistemas para os meios de subsistência sustentáveis, assim como planeamento integrado das bacias dos referidos rios.

“Hoje, testemunhamos a cerimónia de lançamento da comissão das bacias hidrográficas do Búzi, Púnguè e Save [Comissão BUPUSA]. Com o nosso país-irmão, nos últimos anos, assinámos os acordos sobre a cooperação para o desenvolvimento, gestão e uso sustentável dos recursos hídricos da bacia hidrográfica dos Rios Púnguè, Búzi e, recentemente, do rio Save”, disse a vice-ministra das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Cecília Chamutota.

Cecília Chamutota acrescentou que este acordo sinaliza “vontade inequívoca e inabalável” dos dois países em contribuir para a gestão dos recursos hídricos nas bacias hidrográficas compartilhadas.

Por sua vez, o vice-ministro da Terra, Agricultura, Pescas, Água e Reassentamento Rural do Zimbabwe, Davis Mharapira, frisou que o lançamento oficial da comissão de gestão das bacias representa um marco histórico e que vai trazer vantagens para as comunidades das duas nações.

“Este memorando não vai gerir os rios. As nossas comunidades é que vão fazê-lo. Os nossos rios jamais serão geridos da melhor forma, caso as comunidades não sejam envolvidas na gestão sustentável das águas e do seu ecossistema. O próximo passo é saber o que vamos fazer. Em Zimbabwe, temos estado a enfrentar a problemática de água, por isso estamos a edificar barragens em áreas de mais de 10 mil hectares”, disse o vice-ministro da Terra, Agricultura, Pescas, Água e Reassentamento Rural do Zimbabwe, Davis Mharapira.

Recorde-se que o lançamento da comissão é o culminar de um memorando assinado em Maio deste ano, em Harare, entre o Governo de Moçambique e o do Zimbabwe, com o objectivo de melhorar a coordenação e a cooperação sobre a gestão e a utilização conjunta.

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