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O País – A verdade como notícia

O dia e a noite de quinta-feira registaram continuação de tumultos em algumas zonas da Cidade de Maputo no quadro da contestação dos resultados das eleições gerais de 9 de Outubro. E nesta sexta-feira, a capital continuou com um rasto de vandalização, principalmente nas zonas periféricas.

Na avenida Vladimir Lenine, por exemplo, no troço que liga a Praça do Combatentes e a Praça da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), estava ainda bloqueada, até às 09h, por barricadas e contentores colocados no meio da estrada para impedir a passagem de carros. Munícipes reclamam que há falta de transporte para chegar às suas casas e locais de trabalho. 

Munícipes saíram às ruas de forma tímida, na manhã desta sexta-feira. A Praça dos Combatentes apresenta um fluxo de pessoas e viaturas menor que o habitual. Ainda é possível, ao longo da Vladimir Lenine, ver pneus em chamas e contentores de lixo. 

Embora seja possível ver algum movimento nas estradas, munícipes temem que as manifestações continuem. 

 

Uma pessoa perdeu a vida esta quinta-feira, segundo dia das manifestações convocadas por Venâncio Mondlane, candidato presidencial apoiado pelo PODEMOS, em repúdio da morte de Elvino Dias e Paulo Guambe. Também houve vários feridos e 24 detidos só nas cidades de Nampula e Nacala, na província central de Nampula.

Na sequência dos protestos contra a morte do advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane e do mandatário e candidato à Assembleia da República pelo PODEMOS, Paulo Guambe, em apenas dois dias de protestos 4 mortes foram registradas em consequência da resposta armada da Polícia da República de Moçambique.

Hoje, milhares de manifestantes fizeram-se às ruas na cidade de Nampula e de Nacala, até que tiveram a Polícia da República de Moçambique a escoltá-los, pelo menos nas primeiras horas.

As marchas foram pacíficas, tal como referiu Selemane Augusto, membro do PODEMOS. ” Como juventude é momento de acordar para lutar e trazer mudanças efetivas e reais para a vida dos moçambicanos, chega de corrupção, chega de agendas partidárias, chega de injustiças”, lamentou.

Apesar de pacífica, no decorrer do dia houve agitação e em consequência um homem foi atingido a bala e não resistiu. Segundo a Polícia em Nampula, o mesmo teria perdido a vida a caminho do hospital. “A PRM tomou conhecimento de que houve um ferido grave que perdeu a vida a caminho do hospital”, revelou o porta-voz, Dércio Samuel.

Além da vítima mortal, mais pessoas foram atingidas por balas da Polícia, incluindo uma pré-adolescente de 12 anos que, segundo sua avó, estava no quintal da sua própria casa.

“Estavam a lançar pedras contra a polícia e a Polícia respondeu e não foi bala de borracha. Quando a criança caiu nós pensamos que caiu por medo mas quando aproximamos vimo-la a sangrar”, contou Ana Deolinda, avó da vítima.

No hospital que “O País” visitou também foram encontrados dois jovens que tiveram ferimentos graves, também a balas disparadas pela PRM.

“Eu saia de casa para o trabalho no mercado central. Quando cheguei, esperei e logo chegaram os Policiais que começaram a atirar e me atingiram com uma bala que que perfurou-se e saiu”, contou Jorgito Rui, uma das vítimas.

Em Nacala há registo de um Polícia que ficou ferido nos confrontos com a população e mais três pessoas que também foram alvejadas.

O Comando da Polícia em Nampula disse que durante esta quinta-feira foram detidas 16 pessoas em Nampula e 8 em Nacala.

O Conselho Cristão de Moçambique (CCM) pede à Procuradoria e a Polícia que sejam imparciais no esclarecer do assasinato do advogado Elvino Dias e do mandatário do partido PODEMOS, Paulo Guambe. Sobre as eleições gerais, os cristãos apelam aos envolvidos para evitar derramamento de sangue.

O Conselho Cristão de Moçambique juntou-se, por via de um comunicado, às várias vozes para falar dos assassinatos de Elvino Dias, Advogado de Venâncio Mondlane, e do delegado do partido PODEMOS, Paulo Guambe.

Os Cristãos exortam “(…) aos órgãos de justiça e legalidade (Procuradoria e Policia) para pautar sempre pela imparcialidade no esclarecimento dos casos apresentados, como é o caso de assassinato do advogado do candidato Venâncio Mondlane e do mandatário do partido PODEMOS Alvino Dias e Paulo Guambe, respectivamente”.

Sobre as eleições gerais, o Conselho Cristão considera as violações da lei eleitoral durante a campanha “erros de pouca influência no processo” e lamenta a ausência de delegados de alguns partidos concorrentes em muitas mesas de votos. 

Para melhorar o decurso do processo nas próximas vezes, o Conselho exorta que “ (…) se encontre formas de melhorar a capacitação do MMV’s e dos delegados dos partidos políticos, de modo que garanta que cada um conheça perfeitamente o seu papel e responsabilidade durante o processo nobre de votação ”.

O CCM pede, também, que a aprovação da lei eleitoral seja feita com antecedência, que permita a divulgação e assimilação dela. Lembre-se que, na presente época, a lei eleitoral só entrou em vigor no dia 24  de Agosto, nas vésperas das eleições de 9 de Outubro.

No fim do documento, os cristãos moçambicanos pedem a todos envolvidos no processo eleitoral para que evitem todos os meios e possibilidades de derramamento de sangue entre irmãos.

Alguns munícipes da cidade da Matola, no bairro da Matola A, saíram às ruas, para manifestar e exigir os seus direitos. A Polícia já se encontra no local, para garantir que as manifestações não resvalem para vandalização.

Uma população composta, na sua maioria, por jovens e algumas crianças, grita o nome do candidato presidencial Venâncio Mondlane e “povo no poder”, enquanto canta e caminha, no bairro da Matola A, próximo a Estrada Nacional Número 4 (EN4). A polícia encontra-se no local, para acompanhar a marcha.

Pontos como a Baixa da Cidade e a zona da Malanga, ao longo da avenida 24 de Julho, apresentam um movimento tímido, em relação ao fluxo habitual, de pessoas e carros. Alguns vendedores informais fizeram-se às ruas, mas reclamam da falta de movimentação. 

Este é o primeiro dos dois dias de manifestação convocados pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane. A Escola Primária do Alto-maé, a primária da 24 de Julho e a secundária da Josina Machel estão com as portas fechadas. 

O Instituto Nacional de Transportes Terrestres (INATRO) também não abriu as suas portas. Os empresários por temerem a actos de vandalismo também mantiveram os seus estabelecimentos com portas fechadas.

O escritor moçambicano, Mia Couto, defende que é preciso deixar que o processo eleitoral seja esclarecido e dar tempo para que haja possibilidade de confrontar as diferentes versões e contagens paralelas. Embora acredite que tenha havido fraude eleitoral, o escritor entende que é prematuro, neste momento, convocar manifestações e greves. 

Em entrevista à DW, Mia Couto disse que as fraudes eleitorais não devem ser usadas como pretexto para inviabilizar  todo o processo eleitoral, mas devem ser averiguadas. Para Couto, é preciso que  as actas e os editais sejam apresentados publicamente, para que se faça depois uma avaliação do que constitui fraude ou não. 

Mia Couto apelou que o processo fosse resolvido sem tumultos. “Que haja uma aceitação de todos que estão a disputar as eleições, que o processo não se resolve por tumultos, de um lado, e de outro, não se resolve com repressão policial e assassinatos. Tudo isso inviabiliza o processo eleitoral”, disse.

O escritor acrescentou ainda que, em Moçambique, deve ser criada uma ordem mais justa e mais verdadeira consigo própria.

Foram, hoje, a enterrar os restos mortais de Elvino Dias. A família descreve o advogado como alguém que, em vida, buscou por justiça de forma incessante. Já os colegas de profissão e juízes exigem responsabilização dos autores morais e materiais do assassinato de Dias.

Hoje foi o último adeus a Elvino que nunca mais verá os próximos dias. Vestida de preto e nos bancos de frente, a família directa do mandatário de Venâncio Mondlane estava aos prantos, desolada e inconsolável no velório com corpo presente, que decorreu na paróquia Nossa Senhora do Rosário, no bairro de Laulane, Cidade de Maputo.

À família do advogado, juntaram-se presentes figuras políticas, personalidades, amigos e colegas. A cerimónia foi orientada pelo arcebispo de Maputo, Dom João Carlos, e a capela esteve completamente cheia.

“A morte de um justo não é um castigo, mas um sinal de que Deus o escolheu para uma vida plena junto dEle. O nosso ente querido, Elvino Dias, mesmo com a sua partida precoce, viveu uma vida cheia de significados. Ganha significado em todos os que convivemos com ele”, referiu na pregação, Dom João Carlos, arcebispo de Maputo.

E várias dessas pessoas que marcaram presença no último adeus choram a morte de Elvino Dias e exaltam o legado que deixou, na sua breve passagem pelo mundo.

A família do advogado descreve-o como alguém que sempre buscou a justiça de forma incessante.
“Em nome desse ideal, muitas vezes relegou até o conforto e a segurança familiar, sempre pensando num bem maior. Ele sempre esteve comprometido com causas maiores, ocupando o centro das suas atenções e decisões, mostrando-nos o valor de lutar por uma sociedade mais justa”, descreveu o representante da família de Elvino Dias.

E esta luta foi para além de um meio restrito, tal como deu a conhecer Venâncio Mondlane, através do seu representante. “A admiração mútua levou a que os nossos caminhos se cruzassem e convergissem num ponto nobre: lutar por Moçambique e pelos moçambicanos, sobretudo os mais pobres, desfavorecidos, excluídos. Os seres humanos mais nobres aos olhos de Deus”, disse Dinis Tivane, em representação de Venâncio Mondlane, que esteve ausente, por se encontrar em parte incerta.

Entretanto, parece que nem todos gostaram do caminho e da luta que Elvino Dias escolheu abraçar.
“Nunca, nesse exercício, se pode compadecer com vinganças decorrentes de caprichos, rancores, vaidades dessa autodestruição das liberdades que compromete, apenas, os espíritos mesquinhos. Calaram a voz de um advogado íntegro, que lutava pelos seus ideais, fosse com a sua caneta em tantos momentos difíceis e exigentes das causas que abraçou, fosse com a voz que dava corpo às suas defesas”, afirmou Carlos Martins, bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique.

A Associação Moçambicana de Juízes diz ser inaceitável que mais cidadãos morram por defender a justiça e exige a responsabilização dos assassinos do advogado.

“Quantas mais vidas devem ser bárbara e covardemente exterminadas para que se dê um basta neste mal que corrói o nosso Estado? Por isso, a Associação Moçambicana de Juízes exorta todas as forças vivas, sobretudo os órgãos de investigação e de instrução, que levem os autores morais e materiais deste assassinato à barra do tribunal”, avançou Jafete Fremo, vice-presidente da Associação Moçambicana de Juízes.

Depois do velório, o lado exterior da capela estava totalmente cheio. Milhares de pessoas cantavam e exaltavam os feitos de Elvino Dias.

Posto isto, em cortejo fúnebre, seguiu-se viagem rumo ao cemitério de Michafutene.

Durante o percurso, muita gente estava ao longo da estrada, aos aplausos, em homenagem à vida e obra do advogado. Isto aconteceu durante todo o caminho até ao cemitério.

Já na sua última moradia, havia muita gente que queria ver e despedir de perto Elvino Dias. Até às árvores as pessoas subiram para ter uma visão privilegiada do último adeus ao “advogado do povo”.

Eis o retrato do ponto final do percurso de um homem pelo mundo, que deixa dois filhos menores e viúva.

Uma jovem de 20 anos de idade foi atingida no olho direito por uma bala verdadeira disparada por agentes da polícia durante as manifestações na cidade de Tete. A vítima, segundo apurou o “O País”, encontra-se internada no Hospital Provincial de Tete e está fora de perigo.

Imagens captadas por um vídeo amador mostram momentos em que a população tentava impedir a circulação de pessoas e bens ao nível dos bairros suburbanos na cidade de Tete.

A manifestação durou poucas horas, porque a polícia, prontamente, se fez ao local e usou gás lacrimogéneo, tendo, igualmente, disparado vários tiros para repelir os manifestantes.

Na sequência dos disparos, uma jovem de 20 anos foi atingida no olho direito por uma bala perdida, disparada pelos agentes, quando estava no seu quarto, a descansar.

O sogro da vítima diz-se chocado com a situação. Explica que, na ocasião, os mesmos agentes também tentaram agredi-lo.

Ainda no âmbito da manifestação, outro jovem ficou gravemente ferido nas duas pernas, após ter sido atingido por uma bala no quintal da sua casa. A vítima queixa-se de não estar a receber apoios da corporação.

O Hospital Provincial de Tete confirma ter recebido duas pessoas vítimas de baleamento. No entanto, assegura, as mesmas não correm risco de vida.

O Secretário de Estado em Nampula convidou, hoje, os empresários e vendedores dos mercados a fazerem-se ao trabalho esta quinta-feira, contrariando a ideia de paralisação geral das actividades. Jaime Neto garante que a Polícia estará na rua para proteger as pessoas e o património.

Jaime Neto foi quem convocou uma reunião, na tarde desta quarta-feira, para apelar aos empresários, líderes comunitários e religiosos para prosseguirem com a sua actividade normal, na quinta e sexta-feira.

Os empresários até concordam, mas querem garantias de segurança do seu património.

O pedido de segurança foi respondido pelo Secretário de Estado, que garantiu que a Polícia estará em peso nas ruas.

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