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Redes Sociais: Impacto na sua carreira profissional

Há algumas semanas no grupo de whatsapp “PIONEIROS USTM” no qual faço parte, recebi um vídeo de uma senhora, aparentemente inteligente e sofisticada como a sua dicção e articulação indicavam. Pelo sotaque, acredito que seja moçambicana. No dito vídeo, dentre outras reclamações, a senhora fazia menção ao facto de não poder “manter gravidezes” durante 9 meses e que o problema estaria relacionado com a empresa em que trabalhava (sector bancário). Dizia ainda que teria engravidado 3 meses depois de ter tido o seu primeiro filho e diz, passo a citar: “se o trabalho tiver que parar, que pare”; “prioridade não é mais a empresa”; “na empresa ninguém quer saber de si” (neste caso, seus colegas).

As redes sociais tornaram-se  nos últimos tempos meios incontornáveis para a promoção da imagem profissional e pessoal. As redes sociais permitem-nos partilhar informações, ideias, eventos profissionais, momentos com amigos e familiares. As redes sociais são uma plataforma ideal para a “venda da imagem”, seja na procura de trabalho ou mesmo para a venda de um produto ou serviço. Mas estes impactos positivos na esfera do usuário somente  acontecem quando estas ferramentas são bem usadas, pois, por outro lado, as redes sociais podem arruinar a carreira profissional ou mesmo a vida de um indivíduo.

Ponto de vista de um recrutador de talentos

Num processo de recrutamento, um bom diploma tem sido cada vez menos relevante na selecção do melhor candidato, pois o mercado está abarrotado de candidatos formados/diplomados. Hoje em dia é fácil para uma empresa encontrar o especialista que deseja ou formar um candidato mesmo sem sair de casa num período muito curto. Mas se  falarmos de qualidades interpessoais, os famosos  soft skills, essas são muito difíceis de serem avaliadas a partir de CVs ou de entrevistas de trabalho e/ou mesmo formar um candidato para obtenção dessas qualidades. Não obstante serem as qualidades mais exigidas pelos empregadores actualmente, cada vez menos candidatos dispõem dessas qualidades.

Sendo os soft skills qualidades fundamentais para a performance das empresas, no entanto difíceis de avaliar e encontrar nos candidatos, os recrutadores assim como os empregadores usam cada vez mais as redes sociais para  obter mais informações sobre a vida pessoal e comportamental dos seus candidatos e colaboradores. É por estas e por várias outras razões que devemos reflectir antes de fazer qualquer comentário nas redes sociais.

Caso queiram fazer comentários nas redes sociais lembrem-se sempre de: não fazer comentários negativos sobre a empresa onde  trabalha/ou aonde trabalhou; não faça comentários racistas ou homofóbicos; não façam vídeos ou mensagens quando estão sobrecarregados de emoção; não critique seus (ex) colegas e clientes de qualquer forma que seja; evite ao máximo possível expor sua vida privada.

No mesmo vídeo a mesma senhora fala do sacrifício que fazia: “…passava noites no hospital a cuidar do meu filho recém nascido, depois de um dia inteiro no trabalho, passava para dar um beijinho ao meu filho mais velho, em casa, para depois poder voltar ao hospital”. Na altura tive vontade de dizer “Bravo!!!”. Pois são estas histórias que num processo de recrutamento, nós, recrutadores, gostamos de ouvir. Estas histórias mostram coragem, motivação, comprometimento e dedicação. Mas só são boas de serem ouvidas se forem contadas no sentido positivo, sem culpabilizar a nenhum terceiro ou entidade pela situação. Um bom profissional assume sempre a responsabilidade da sua situação; um bom profissional dialoga com os seus superiores sobre seus problemas (mesmo pessoais) e caso não haja entendimento, com classe, pode, por exemplo, pedir para mudar de departamento; em último caso, um bom profissional pode considerar um pedido de demissão, mas em circunstância alguma um bom profissional fala mal da empresa com a qual têm um vínculo profissional e nem termina mal, por sua iniciativa, qualquer relação profissional;  um bom profissional tem compromisso não apenas com a empresa, mas também com seus colegas que apreciam a empresa e com a sociedade que precisa ver a empresa prosperar para o bem da comunidade; um bom profissional não pode ser um  xiconhoca*.

Ponto de vista de um empreendedor

Só um empreendedor conhece a dor de passar horas sem dormir a trabalhar e não conseguir pagar seu próprio salário em detrimento dos seus colaboradores, só um empreendedor sabe o que é ter dívidas com a banca, com o Estado, e por vezes ter de fechar as portas. Eu conheço essa dor. Portanto, ver jovens que deviam estar a dar o seu melhor para prospecção de empresas no nosso país dizerem “o trabalho  que pare de novo”, “o médico que me dê atestado novamente para eu ficar em casa”, é muito triste. Estas atitudes são na minha opinião piores do que corrupção. Corrupção podemos qualificar como uma atitude egocêntrica que pode tentar a todos seres humanos em algum momento, movidos por uma ganância em enriquecer rápidamente. No entanto estas atitudes, igualmente ou mais gravosas, classifico de sabotagem gratuita.

Se o trabalho da banca parar, quem vai fazer a transação ao fornecedor de medicamentos que o HCM precisa para a criança?  Quem vai finalizar a transação do salário do enfermeiro que está a cuidar da criança ou do médico para dar o tal atestado?

Recentemente a Olam anunciou o encerramento da fábrica de processamento da castanha de caju em Moçambique, justificando  recorrentes dificuldades em aceder a matéria-prima de qualidade nos volumes necessários. São cerca de 1750 trabalhadores directa ou indirectamente  afectados.

A Total Exploration & Production Área 1, Limitada (“Total”)  disse no passado dia 23 de fevereiro na voz do seu Director Comercial, o Dr. Leonardo Nhavoto, que algumas empresas Moçambicanas não são aceites como provedoras de serviços para os projectos da Total, pois “os seus produtos não apresentam a qualidade requerida e/ou nos seus processos de produção não cumprem com os requisitos mínimos de HSE exigidos para a prestação dos seus serviços no contexto da indústria do Petróleo e Gás.

Gostava de perguntar: Quem são essas empresas? Quem são os responsáveis pela qualidade e quantidade exigidas pela Olam e a Total?

Somos nós, nós jovens moçambicanos. As empresas são na verdade uma ficção, sem as pessoas, mesmo tendo equipamentos modernos as empresas não produzem “nem qualidade” e “nem quantidade”. Mas nós não, nós não somos ficção. Nós somos uma realidade. Portanto, somos nós responsáveis pela qualidade e pela quantidade de trabalho exigido.

Em 1776 (The wealth of nation) Adam Smith dizia: “nossa necessidade individual de satisfazer o interesse próprio resulta em benefício para a sociedade, no que é conhecido como sua “mão invisível”, segue-se que um aumento nos lucros dos empresários privados que é a base para o aumento da riqueza e da prosperidade coletivas”. Adam Smith quis dizer com isso que ao participarmos na riqueza de um único indivíduo ou das empresas, estamos a contribuir para a prosperidade de um grupo alargado de indivíduos.  Façamos disto nossa missão.

O presidente Joaquim Chissano, assim como o Dr. Helder Martins deram a sua juventude engajados no processo de libertação da nossa nação. Ou seja, estes Madalas* deram boa parte da sua juventude para que hoje, nós jovens moçambicanos sejamos “parcialmente independentes”. É nossa responsabilidade lutar para que ganhemos a outra parte da independência, que é sem dúvidas essencialmente econômica. Ninguém fará  isso por nós. É única e exclusivamente nossa responsabilidade. Se individualmente formos comprometidos com a causa, colectivamente seremos imparáveis. EU ACREDITO EM NÓS.  

*Xiconhoca – Sabotador

*Madala –  Ancião

Recomendação de livro para o mês de Maio 2021: The Secret Letters of a Psychotherapist–“Sharlene Sema Raston”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista em recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

www.kensyle-recruitment.com

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