Transformar o Conselho Constitucional em Tribunal Constitucional, criar um Tribunal de Contas, garantir autonomia financeira ao poder judicial e reforçar a justiça eleitoral, bem como o combate à corrupção, são algumas das principais propostas constantes no Pacto pela Justiça e Estado de Direito Democrático.
O documento foi apresentado durante o Congresso da Justiça, realizado recentemente na cidade de Maputo, tendo o seu texto final sido tornado público esta sexta-feira pela Procuradoria-Geral da República.
Para responder aos desafios enfrentados pelo sector, o Segundo Fórum da Justiça, realizado há uma semana na capital do País, recomendou um conjunto de reformas estruturais consideradas essenciais para o fortalecimento do sistema judicial.
Entre as principais propostas destacam-se a transformação do Conselho Constitucional em Tribunal Constitucional, a conversão do Tribunal Administrativo em Supremo Tribunal Administrativo e a criação de um Tribunal de Contas.
Para além destas alterações institucionais, o documento de 18 páginas defende igualmente o reforço da independência dos tribunais, com enfoque na autonomia administrativa e financeira do poder judicial.
O pacto propõe ainda a constitucionalização da fixação de uma percentagem do Orçamento do Estado destinada ao sector da Justiça, de forma a garantir uma autonomia financeira efectiva e progressiva.
No capítulo eleitoral, o documento sublinha que a credibilidade dos resultados constitui uma condição essencial para a paz e estabilidade no País, alertando que Moçambique não deve continuar a enfrentar crises pós-eleitorais evitáveis através da implementação de reformas estruturais.
“O País não pode continuar a assistir a crises pós-eleitorais evitáveis, quando existem reformas que estão ao alcance do Estado”, refere o documento.
O Pacto pela Justiça dedica igualmente atenção ao combate à corrupção no sistema judicial, classificando o fenómeno como uma das mais graves ameaças ao Estado de Direito.
“A corrupção no sistema de justiça é a mais grave das traições ao Estado de Direito, porque subverte o único árbitro que os cidadãos têm para defender os seus direitos”, lê-se no documento.
Para enfrentar este problema, são propostas medidas como a criação de canais confidenciais de denúncia, o reforço da fiscalização das declarações patrimoniais dos magistrados e uma maior cooperação entre as instituições de justiça e a sociedade civil.
Mulheres da sociedade civil de várias partes do País apresentaram propostas de reformas no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, com foco nos sectores de recursos naturais, economia e políticas públicas, defendendo maior inclusão da perspetiva de género nas decisões nacionais.
As vozes e experiências das mulheres estiveram no centro das contribuições apresentadas à Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo. Representantes da sociedade civil reuniram-se para elaborar um conjunto de propostas destinadas a promover mudanças estruturais em diferentes sectores do País.
No eixo dos recursos naturais, as participantes defenderam reformas legais que permitam harmonizar a legislação sobre igualdade de género com as leis que regulam o sector.
Entre as propostas está também a revisão das directrizes de cálculo de indemnizações para garantir compensações mais justas às comunidades afectadas por projectos de exploração de recursos.
As mulheres propõem ainda que o Governo assuma a responsabilidade pela elaboração de estudos de impacto ambiental, incluindo avaliações detalhadas sobre impactos sociais e de saúde, assegurando que a perspectiva de género seja integrada nesses processos.
O documento, entregue nesta quinta-feira ao presidente da Comissão Técnica do Diálogo Nacional, inclui igualmente propostas para o fortalecimento do sector económico.
Entre as recomendações está a criação de programas nacionais de formação em literacia financeira e gestão de negócios, bem como a integração do empreendedorismo nos currículos escolares e universitários.
As participantes defendem também a criação de centros locais de apoio empresarial para impulsionar iniciativas lideradas por mulheres.
No que diz respeito ao acesso ao financiamento, as propostas incluem a criação de linhas de crédito específicas com taxas bonificadas sob coordenação do Banco de Moçambique, o estabelecimento de fundos de garantia e a promoção de mecanismos de microfinanciamento adaptados às necessidades das mulheres rurais e do sector informal.
A Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo afirmou ter registado as contribuições apresentadas, destacando que algumas propostas podem ter impacto imediato, enquanto outras deverão produzir resultados a médio e longo prazo.
Segundo a comissão, parte das recomendações poderá resultar em reformas legislativas, exigindo a revisão de algumas normas existentes. Outras contribuições enquadram-se na formulação ou redefinição de políticas públicas, enquanto algumas têm um papel essencialmente educativo para a sociedade.
O calendário do Diálogo Nacional Inclusivo prevê que até Março seja concluído o processo de sistematização das propostas recolhidas durante a auscultação pública que decorre desde Setembro do ano passado.
O Presidente da República, Daniel Chapo, assegurou, esta sexta-feira, que o processo de Diálogo Nacional Inclusivo em Moçambique vai respeitar rigorosamente o prazo legal de dois anos, afastando receios de que a iniciativa possa provocar atrasos no calendário eleitoral.
Falando à imprensa após a primeira sessão de 2026 da concertação política, realizada no Gabinete da Presidência, o Chefe do Estado afirmou que o processo decorrerá dentro do período estabelecido na Lei do Compromisso Político para o Diálogo Nacional Inclusivo.
“Queríamos deixar claro e inequívoco que o prazo previsto na lei, que é de dois anos, não vai ser extravasado e, consequentemente, este calendário não vai afectar o calendário eleitoral”, declarou.
Segundo o Presidente, a principal prioridade do processo em 2026 será a revisão do pacote eleitoral, cujas propostas deverão ser submetidas à Assembleia da República de Moçambique até Dezembro deste ano.
De acordo com Chapo, o objectivo é garantir maior estabilidade democrática e transparência no sistema político moçambicano.
Durante o balanço das actividades realizadas em 2025, o estadista classificou os resultados como positivos, destacando o empenho dos partidos signatários do compromisso político. No entanto, reconheceu que as fortes chuvas registadas no último trimestre do ano passado e nos primeiros meses de 2026 condicionaram o ritmo dos trabalhos.
As intempéries dificultaram a deslocação das equipas responsáveis pelas consultas públicas, deixando ainda 33 distritos por abranger no processo de auscultação nacional.
“Ficou assente no relatório que há 33 distritos por completar e, porque este é um diálogo nacional inclusivo, não faria sentido que estes distritos ficassem de fora”, explicou.
Para ultrapassar o atraso, o Governo e os parceiros políticos decidiram mobilizar equipas em simultâneo para os distritos ainda por cobrir e para os postos administrativos, de forma a acelerar o processo sem ultrapassar o prazo legal.
Além da reforma eleitoral, os restantes pontos da agenda do diálogo deverão ser tratados no início de 2027. A previsão é que, entre Janeiro e Março desse ano, as propostas finais sejam encaminhadas para as instituições competentes.
Chapo apelou ainda à participação contínua de todos os sectores da sociedade, incluindo a diáspora, sublinhando que o sucesso do diálogo é fundamental para fortalecer as instituições do país e consolidar o Estado de direito.
Segundo o Presidente, o processo poderá reforçar a confiança dos cidadãos e dos parceiros nacionais e internacionais no sistema político moçambicano, contribuindo para o desenvolvimento do país.
A Primeira-Dama da República, Gueta Chapo, reafirmou esta quinta-feira, na província de Cabo Delgado, o compromisso do seu Gabinete em continuar a apoiar mulheres, crianças, idosos e outros grupos vulneráveis, defendendo que ninguém deve enfrentar sozinho os desafios provocados pela pobreza, deslocamento e outras situações de fragilidade social.
A mensagem foi transmitida no âmbito de uma visita de trabalho iniciada no dia 3 do corrente mês, durante a qual a Primeira-Dama manteve encontros com líderes religiosos, idosos, crianças deslocadas, mulheres reclusas e membros de diversas comunidades locais, combinando gestos de solidariedade com a escuta das principais preocupações das populações.
Num encontro com a Comunidade da Mulher Islâmica, Gueta Chapo destacou algumas das actividades realizadas desde o início da visita, incluindo a entrega de bicicletas a líderes comunitários e a participação nas celebrações do Dia do Destacamento Feminino com mulheres combatentes.
A Primeira-Dama sublinhou ainda que o período espiritual vivido no país, marcado simultaneamente pelo mês sagrado do Ramadã e pela Quaresma cristã, inspirou acções concretas de solidariedade junto das comunidades locais, incluindo momentos de oração, quebra do jejum e a entrega de cestas básicas para apoiar famílias carenciadas.
Durante a deslocação à Aldeia S.O.S., onde estão acolhidas crianças deslocadas, Gueta Chapo manifestou emoção ao ouvir os testemunhos das menores e reiterou o compromisso do seu Gabinete em continuar a apoiar instituições que trabalham na protecção das crianças vulneráveis em todo o país, com especial atenção à província de Cabo Delgado. Na ocasião, anunciou também a reabilitação das infra-estruturas da instituição, tendo em conta o estado de degradação do tecto.
A agenda incluiu igualmente um encontro com idosos da província, durante o qual a Primeira-Dama apelou à partilha de conselhos e experiências de vida, destacando o papel da sabedoria dos mais velhos na orientação das acções do Estado.
A visita terminou com uma passagem pela Penitenciária Feminina de Cabo Delgado, onde transmitiu uma mensagem de esperança às mulheres privadas de liberdade e anunciou apoio material destinado a melhorar as condições do estabelecimento.
Na ocasião, Gueta Chapo recordou que o período espiritual vivido no país constitui também um momento de reflexão, caridade e renovação, valores que, segundo afirmou, devem reforçar a solidariedade entre os moçambicanos.
Os Estados Unidos, a União Europeia e outros países apelaram, esta sexta-feira, ao respeito pelo cessar-fogo no leste da República Democrática do Congo (RDC), condenando as recentes violações do acordo envolvendo o grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), alegadamente apoiado pelo Ruanda.
Num comunicado conjunto, o Grupo de Contacto Internacional para os Grandes Lagos (ICG) afirmou que todas as partes devem reafirmar, de forma urgente e clara, o compromisso de pôr fim às hostilidades e retomar o diálogo. A declaração foi divulgada pelo Departamento de Estado dos EUA, através do seu Gabinete de Assuntos Africanos, em Joanesburgo, na África do Sul.
Os signatários sublinharam que o conflito não poderá ser resolvido por meios militares. Além dos EUA e da UE, a posição foi também apoiada pelos governos da Suíça e do Reino Unido.
O ICG manifestou ainda “profunda preocupação” com as violações recentes e recorrentes do cessar-fogo acordado em dezembro entre Ruanda e a República Democrática do Congo. O entendimento foi assinado em Washington, D.C. com mediação do presidente dos EUA, Donald Trump.
Segundo o comunicado, entre as infrações registadas está o uso de drones em operações militares, situação considerada especialmente preocupante por representar um risco elevado para a população civil.
Os países envolvidos apelaram ainda ao cumprimento integral dos compromissos assumidos nos acordos e nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU, bem como ao respeito absoluto pela integridade territorial. Também foi reforçada a necessidade de garantir acesso humanitário total, seguro e sem obstáculos para apoiar as populações afetadas pelo conflito.
Desde a assinatura do acordo de paz, em 4 de dezembro, pelo presidente congolês Félix Tshisekedi e pelo presidente ruandês Paul Kagame, ambos os países têm trocado acusações sobre alegadas violações do pacto.
A região leste da República Democrática do Congo vive em situação de instabilidade desde 1998, marcada por confrontos entre forças governamentais e diversos grupos armados, apesar da presença de uma missão de paz das Nações Unidas no país.
Ao sétimo dia de conflito, reportam-se novos ataques israelitas contra o Líbano, numa altura em que Irão e Israel continuam a visar-se mutuamente. Já Washington alerta para uma intensificação dos bombardeamentos.
Numa altura em que a guerra entre os EUA e Israel contra o Irão entra no seu sétimo dia, Telavive anunciou ter dado início a uma nova vaga de ataques em larga escala contra infraestruturas-chave iranianas. Teerão, por sua vez, continua com as ações de retaliação, visando principalmente países vizinhos que albergam bases norte-americanas.
A guerra tem vindo a alastrar-se igualmente para outros pontos da região. Vários estados do Golfo Pérsico, anunciaram a intercepção de mísseis e drones enviados por Teerão, ao passo que, no Líbano, as infraestruturas do Hezbollah continuam a ser alvo de intensos bombardeamentos.
Portugal foi um dos 15 Estados-membros da União Europeia que activou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para repatriamento de cidadãos lusos que ainda se encontrem em países do Médio Oriente.
Emmanuel Macron, presidente francês, disse nas redes sociais que França não vai se envolver na guerra do Médio Oriente.
“A França não faz parte desta guerra. Não estamos em combate e não nos vamos envolver nessa guerra, a França está a proteger os homens e mulheres franceses,”.
Entretanto, os Estados Unidos, dão à Índia isenção de 30 dias para comprar petróleo russo retido por guerra no Irão.
De acordo com o secretário do Tesouro dos EUA, a medida será uma solução de curto prazo para aliviar as pressões sobre a oferta e garantiu que a isenção não dará um benefício financeiro significativo ao governo russo.
O Conselho Municipal da Cidade de Maputo realiza o Festival Municipal de Monólogos, um evento com o objectivo de promover o teatro e os seus fazedores no Município de Maputo.
O evento, que coincide com o Dia Mundial do Teatro, dia 27 de Março, é uma iniciativa do Conselho Municipal de Maputo, através do Pelouro da Cultura e Turismo, implementado pelo Ntsindya, Centro Cultural Municipal.
O Festival vai realizar-se nas instalações do Ntsindya – Centro Cultural Municipal, com o objectivo de promover o teatro e os seus fazedores no Município de Maputo.
Refira-se que o festival é de cariz competitivo, com premiações monetárias para os três primeiros classificados, com uma premiação de 30 mil meticais para o primeiro lugar, 15 mil para o segundo e 7 500 para o terceiro.
O valor do Fundo Soberano de Moçambique (FSM) cresceu 6,5% nos primeiros três meses desde que o Governo enviou a primeira tranche para o Banco de Moçambique (BM), atingindo cerca de 117 milhões de dólares americanos.
Os dados constam das informações disponibilizadas pelo banco central, nesta quarta-feira, indicando que o fundo iniciou a sua trajectória com uma evolução positiva, impulsionada sobretudo pelas primeiras receitas provenientes da exploração de gás natural liquefeito no País.
A criação do Fundo representa um dos instrumentos estratégicos definidos pelo Estado para gerir as receitas provenientes dos recursos naturais, particularmente do gás natural descoberto na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado. O mecanismo pretende assegurar que parte significativa desses recursos seja canalizada para a poupança nacional e para o financiamento de iniciativas estruturantes de desenvolvimento, com impacto tanto no presente como nas gerações futuras.
Os dados oficiais indicam que o crescimento registado no valor do fundo ocorreu entre Dezembro de 2025 e o início de Março de 2026, período que coincide com os primeiros meses de funcionamento efectivo da estrutura. No dia 2 de Março, segundo o banco central, o valor do fundo era de cerca de 117 milhões de dólares.
O ponto de partida para o Fundo Soberano ocorreu a 10 de Dezembro de 2025, quando o Governo transferiu para o Banco de Moçambique o primeiro montante destinado à capitalização do fundo. Na altura, foram depositados 109,97 milhões de dólares, provenientes das receitas iniciais da exploração de gás natural.
O valor constituiu a base financeira para o arranque das operações do FSM e para a implementação do seu modelo de gestão. Posteriormente, a 6 de Janeiro de 2026, foi realizada uma nova transferência de recursos para o fundo, desta vez no valor de cerca de 6,2 milhões de dólares.
A soma desses montantes, aliada à valorização dos activos financeiros nos quais o capital começou a ser aplicado em três bancos no exterior, contribuiu para o crescimento global do fundo ao longo dos primeiros três meses de actividade.
O Fundo Soberano de Moçambique foi oficialmente criado após a aprovação da respectiva lei pela Assembleia da República em 15 de Dezembro de 2023. A legislação estabelece as bases de funcionamento, os objectivos estratégicos e os mecanismos de governação do fundo, que deverá desempenhar um papel central na gestão das receitas provenientes do sector de hidrocarbonetos.
Entre as principais disposições da lei encontra-se a determinação de que 40% das receitas anuais provenientes da exploração de gás natural sejam canalizadas para o Fundo Soberano. As projecções indicam que, a partir da década de 2040, essas receitas poderão alcançar cerca de 6 mil milhões de dólares por ano, dependendo da evolução da produção e das condições do mercado internacional de energia.
De acordo com o Banco de Moçambique, que assume a gestão operacional do fundo, o FSM deve ser entendido como uma carteira de investimentos estruturada segundo critérios técnicos rigorosos e alinhada com a legislação nacional. A instituição esclarece que “o FSM é uma carteira de activos financeiros, gerida de acordo com os princípios, regras e procedimentos estabelecidos na lei”.
A função do banco central consiste em gerir os recursos no mercado financeiro internacional, aplicando os fundos em activos que permitam preservar e aumentar o valor do capital ao longo do tempo, respeitando simultaneamente os limites de risco definidos pela política de investimentos.
A instituição explica que a criação do FSM foi “motivada pela necessidade imperativa de garantir que as receitas geradas pela exploração de petróleo e gás impulsionam o desenvolvimento social e económico do País”.
Para além deste objectivo, o banco central sublinha que o fundo deverá desempenhar um papel importante na estabilidade macroeconómica e na construção de uma base sólida de poupança nacional. Nesse sentido, acrescenta que o mecanismo visa “maximizar os benefícios para a economia nacional e assegurar que estas receitas sirvam como um pilar de estabilização do Orçamento do Estado, bem como uma base sólida para a criação de poupança e acumulação de riqueza para as gerações futuras”.
A estrutura institucional do Fundo Soberano prevê uma divisão clara de responsabilidades entre diferentes entidades do Estado. O Governo é responsável pela supervisão global e pela definição das orientações estratégicas, enquanto o Banco de Moçambique assegura a gestão operacional e a execução da política de investimentos.
A gestão do Fundo está sujeita a mecanismos de controlo e auditoria, incluindo fiscalização interna e externa, com o objectivo de garantir transparência, responsabilidade e conformidade com as normas legais e financeiras.
A evolução inicial positiva do Fundo Soberano ocorre num momento em que Moçambique continua a desenvolver projectos de grande escala para exploração de gás natural na Bacia do Rovuma, considerada uma das maiores reservas mundiais desse recurso.
Actualmente, três grandes projectos de exploração estão aprovados para a região. Um deles é liderado pela multinacional francesa TotalEnergies e prevê a produção de cerca de 13 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano. O projecto encontra-se numa fase de retoma gradual após ter sido suspenso, devido aos ataques terroristas registados na província de Cabo Delgado.
Outro projecto de grande dimensão é liderado pela ExxonMobil, empresa norte-americana que planeia desenvolver uma capacidade de produção de aproximadamente 18 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito. No entanto, a decisão final de investimento ainda não foi anunciada, estando dependente de diversos factores, incluindo condições de segurança, viabilidade económica e evolução do mercado energético global.
Além desses projectos localizados na península de Afungi, existe ainda a Área 4 da Bacia do Rovuma, um consórcio liderado pela empresa italiana Eni. Nessa área, já se encontra em operação, desde 2022, a unidade flutuante Coral Sul, destinada à produção de gás natural liquefeito em águas ultraprofundas.
A evolução dessas iniciativas é considerada fundamental para o financiamento do Fundo Soberano, uma vez que a legislação estabelece que parte significativa das receitas geradas por esses projectos seja destinada ao fundo.
O bispo emérito da Diocese dos Libombos, Dinis Sengulane, celebrou esta quinta-feira, 5 de Março, 80 anos de vida. Ao longo de várias décadas, dedicou-se à fé, à reconciliação entre moçambicanos e à promoção de iniciativas sociais que continuam a transformar comunidades.
Considerado por muitos um peregrino da paz, Dom Dinis tornou-se uma das vozes morais mais respeitadas de Moçambique.
Filho de Salomoni Sengulane e de Rosita Massango, nasceu em 1946, no posto administrativo de Zandamela, na província de Inhambane Province. Desde cedo demonstrou uma inclinação para a vida religiosa. Conta-se que, ainda criança, inventava missas e brincava de baptizar bonecos.
Quando nasceu recebeu o nome Nyanzume, do cicopi, que significa “fazedor das coisas do céu”. Para muitos, esse nome acabou por se tornar um verdadeiro prenúncio da missão que viria a abraçar.
Com o passar dos anos, a vocação transformou-se em realidade. Em 1976 foi consagrado bispo anglicano, iniciando um percurso de liderança religiosa que marcaria profundamente a igreja e a sociedade moçambicana.
O homem por trás do bispo
Antes de ser uma figura pública, Dom Dinis é também o pilar de uma família numerosa. Aos 80 anos é pai de nove filhos, avô de vinte netos e referência para uma extensa família.
A vida familiar conheceu também momentos difíceis. Em 1998 perdeu a sua esposa, um episódio que marcou profundamente a família. Mesmo assim, decidiu seguir em frente e dedicar-se ainda mais aos filhos, assumindo simultaneamente o papel de pai e mãe.
Hoje, filhos, netos e sobrinhos reconhecem nele um conselheiro permanente, alguém que em momentos de dificuldade encontra sempre palavras de encorajamento e orientação.
Uma voz pela paz
A liderança de Dom Dinis ganhou especial relevância durante um dos períodos mais difíceis da história de Moçambique: a guerra civil que dividiu o país durante anos.
Nesse contexto, a sua missão religiosa ultrapassou os limites da igreja. O bispo passou a desempenhar um papel activo na promoção do diálogo e da reconciliação entre moçambicanos, contribuindo para aproximar partes em conflito.
Esse esforço culminaria na assinatura do acordo geral de Paz, em Outubro de 1992.
Para muitas figuras da sociedade moçambicana, Dom Dinis foi um dos líderes religiosos que ajudaram a criar pontes num momento em que o país mais precisava de reconciliação.
Transformar armas em enxadas
Depois da guerra, quando o silêncio das armas ainda ecoava na memória colectiva, Dom Dinis lançou uma iniciativa que viria a tornar-se conhecida internacionalmente.
O projecto Transformar armas em enxadas, incentivou antigos combatentes e comunidades a entregarem armas em troca de instrumentos de trabalho.
As armas recolhidas foram depois transformadas em ferramentas agrícolas e também em peças de arte, num poderoso símbolo de reconciliação e reconstrução nacional.
Compromisso social
A acção de Dom Dinis não se limitou à promoção da paz. O bispo também se destacou no combate à malária, através da campanha Fazer Recuar a Malária.
A sua intervenção ajudou a chamar a atenção para o paradoxo de milhares de pessoas continuarem a morrer de uma doença que tem tratamento, pressionando governos e instituições a reforçarem a resposta ao problema.
Ao longo do seu ministério, que este ano assinala 50 décadas de sacerdote, Dom Dinis tem sido reconhecido dentro e fora do país pela sua coragem moral e pela defesa da justiça social.
Um legado que continua
Mesmo depois de se retirar das funções episcopais, Dom Dinis Sengulane continua activo em projectos sociais e iniciativas de fé, mantendo o compromisso com a paz, a justiça e o bem-estar das comunidades.
Aos 80 anos, a sua trajectória continua a inspirar muitos moçambicanos , não apenas como líder religioso, mas como um homem que procurou transformar a fé em acção concreta.
Depoimentos
Lina Sengulane – Esposa
“É uma pessoa de fácil trato. É uma pessoa que não quer ver conflitos, não quer ver confusão. É uma pessoa calma, serena. Ele consegue ficar igual a si, mesmo, em momentos bons e em momentos difíceis. É um grande contador de anedotas. Ele conta anedotas uma acima da outra, então aí toda a gente ri, toda a gente fica feliz.Não somos só marido e mulher, somos companheiros, somos amigos”.
Esperança Mangaze – Amiga/ Crente
A ti, sacerdote para sempre, escolheu teu Pai dos céus para que fosses um outro Cristo. Para que os teus pés continuassem a caminhar nos caminhos do mundo. Eu tinha nove anos, mas essa mensagem ficou e eu olho para o Dom Dinis Sengulane a representar essa figura, não só para mim, mas para muitas outras pessoas. É aquele exemplo de pessoa que nós todos queremos seguir.
Graça Machel – Activista Social / Amiga
O Bispo foi falar com o Presidente Chissano e disse que é preciso acabar com a guerra entre moçambicanos e explicou muito bem, o que aquela guerra significava para milhões de moçambicanos (…) Encontrou-se com Afonso Dlhakama, também para o convencer de que o sacrifício enorme que era exigido ao povo moçambicano não justificava.
Joaquim Chissano – Antigo Presidente da República
Formaram um grupo que foi aos Estados Unidos da América por minha sugestão. Lá foram à procura de elementos capazes de nos conduzirem a um contato com a liderança da Renamo, para iniciarmos um diálogo mais credível, começando pela preparação. É assim que fomos dialogando até se constituir a delegação que foi à Nairobi. O bispo Sengulane disse que nós devíamos nos transformar, nós próprios, em paz, que nós somos paz, então criou a saudação: Olá Paz”
Armando Guebuza – Antigo Presidente da República
Quando ele diz Olá Paz, a gente sente que está a dizer uma coisa que vem do fundo do coração, e transmite essa convicção também,essa boa vontade aos outros, às pessoas que o ouvem, por isso,eu o conheço neste processo de paz e no processo da necessidade de apaziguar, ainda mais, os corações, as mentes dos cidadãos.
Bruno Sengulane – Filho
Dom Dinis Sengulane é pai, mas, acima de tudo, é um pilar e a fundação que moldou o homem que eu sou hoje e também que molda os valores que vou passando para as pessoas com quem convivo, especialmente para os meus filhos. É Uma pessoa que está a completar 80 anos, mas tem projectos para daqui há 10 anos e 20 anos e vai fazendo a sua vida nesse ritmo”.
Centenas de crianças falharam o regresso às aulas por falta de material escolar nos distritos mais assolados pelas cheias em Gaza. Pais e encarregados de educação, alguns em situação de desemprego, dizem-se abandonados pelo Governo após as enxurradas.
Apesar do início do ano lectivo em todo o país, centenas de crianças na província de Gaza continuam sem frequentar as aulas devido aos efeitos das cheias que destruíram escolas, casas e material escolar.
Em Gaza, o arranque das aulas ocorre num cenário considerado crítico e preocupante. As recentes inundações provocaram a destruição de cerca de 200 escolas e afectaram directamente mais de 100 mil alunos em quatro distritos.
Em alguns estabelecimentos de ensino, as condições ainda são precárias. Há escolas onde os alunos não têm sequer cadeiras para se sentar e, segundo relatos locais, poucas intervenções foram feitas até agora para melhorar a situação.
Na cidade de Chókwè, particularmente no bairro 1, pelo menos 300 crianças estão fora da escola por falta de material escolar. Muitas famílias perderam tudo durante as cheias, incluindo uniformes, cadernos, mochilas e calçados.
Entre os casos mais marcantes está o de Sara, uma menina de oito anos que frequenta a quarta classe. A criança relata que perdeu todo o material escolar durante as inundações.
“Levaram tudo: uniforme, pastas, cadernos e sapatos”, contou.
Sara vive actualmente com a avó, que está desempregada e sem meios para comprar novos materiais. A família enfrenta também dificuldades básicas, incluindo falta de alimentos e condições adequadas de abrigo.
A situação repete-se em vários bairros da parte baixa da cidade de Chókwè e também nos distritos de Guijá e Chibuto, onde mais de mil crianças vítimas das cheias enfrentam dificuldades para regressar à escola. A maioria frequenta entre a primeira e a sexta classes.
Pais e encarregados de educação apelam a uma intervenção urgente das autoridades para garantir que os alunos possam retomar os estudos. Segundo alguns encarregados, muitas crianças já perderam vários dias de aulas por falta de uniformes e material escolar.
Para aliviar a situação, algumas organizações internacionais começaram a distribuir kits escolares em zonas mais afectadas. Estima-se que cerca de 1.146 kits sejam entregues em três escolas, beneficiando alunos da primeira à sexta classe.
Mesmo assim, a ajuda ainda é insuficiente face à dimensão dos prejuízos causados pelas cheias.
O sector da educação na província de Gaza deverá pronunciar-se oficialmente sobre a situação das escolas afectadas e o andamento do ano lectivo. Enquanto isso, pelo menos quatro escolas primárias no distrito de Chicualacuala continuam com acesso condicionado devido às inundações que atingem a região desde Janeiro.

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