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O Ministério da Educação e Cultura (MEC) está a trabalhar com o Ministério das Finanças para regularizar dívidas aos professores e mobilizar recursos para a impressão e distribuição do livro escolar para o ano lectivo de 2027.

Segundo uma actualização divulgada esta segunda-feira, está em curso a validação de dívidas relacionadas com horas extraordinárias, segunda turma, salários, progressões e actos administrativos.

O MEC informa ainda que o pagamento das horas extraordinárias referentes a 2023 está a ser feito de forma faseada, mediante disponibilidade financeira, enquanto prossegue a validação das dívidas relativas ao período de 2024 a 2026.

Os dois ministérios comprometeram-se a manter encontros mensais para acompanhar e avaliar o andamento do processo.

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Mais de 3 mil pessoas participaram, hoje, das cerimônias fúnebres do antigo Presidente norte americano Jimmy Carter na catedral de Washington. A efeméride foi marcada pela presença de dezenas de políticos deste país e do estrangeiro. 

A Cerimónia foi marcada pela presença dos antigos Chefes de Estado Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, o actual, Joe Biden e o recém-eleito Donald Trump. 

“Nós vimos Jimmy como sempre, em paz, com uma vida completamente vivida, uma vida boa, de propósito e significado, de caráter, dirigido por destino, e cheio de poder, de fé, esperança e amor. Digo de novo, fé, esperança e amor. Amou a mercê, caminhou humildemente. Que Deus abençoe um grande americano, um amigo querido e um bom homem. Que ele se levante, que ele seja levantado pelas asas de um galo e que ele se apresente para que você esteja no respiro da manhã e que ele te faça brilhar como o sol e te guarde na palma de sua mão. Deus te abençoe, Jimmy Carter”, disse o actual Presidente dos EUA.

Após o funeral de Estado, os restos mortais de Carter foram devolvidos à sua terra natal, na  Geórgia, onde viveu durante seus 44 anos pós-Presidência e onde se tornou a base de operações de seu trabalho diplomático e de seus esforços beneficientes.

Profissionais de saúde afectos ao Hospital Provincial de Inhambane decidiram paralisar o trabalho nos turnos, como reivindicação do não pagamento de subsídio de turnos desde 2022.

Os mesmos dizem que há 18 meses de subsídio de turnos que não foram pagos nos últimos 3 anos e, por isso, só voltam a trabalhar depois que se resolver a situação.

E foi entoando canções e de cartazes em punho que os profissionais de saúde decidiram lançar o grito de socorro, diante do que chamaram de injustiças.  É que, segundo eles, há pelo menos 18 meses de subsídios de turnos que não foram pagos desde o ano de 2022.

Os profissionais dizem que são marcadas faltas pelo período em que não trabalham e sofrem ameaças. A situação afecta a mais de 150 profissionais de saúde, entre enfermeiros, técnicos de medicina e agentes de serviço, todos afectos à maior unidade sanitária da província.

O Ministério da Cultura e Turismo diz que o atraso na apresentação dos resultados da equipa técnica responsável por averiguar possíveis incongruências na nova estátua de Eduardo Mondlane, na capital do país,  deve-se às manifestações pós-eleitorais.

Pairou um silêncio sobre o resultado dos trabalhos feitos pela equipa técnica destacada pelo Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, para averiguar as supostas falhas na actual estátua de Eduardo Mondlane. Dois dias após o “O País” reportar sobre o assunto, o Ministério da Cultura veio ao público, esta quarta-feira, quebrar o silêncio.

“Por dificuldade de mobilidade, no âmbito das manifestações pós-eleitorais, verificou-se um atraso na conclusão da avaliação técnica, contudo, este trabalho de perícia prossegue a bom ritmo e, no momento oportuno, o seu conteúdo será tornado público”, lê-se no comunicado enviado ao nosso jornal, o qual não especifica a data do fim do inquérito iniciado na primeira semana de Outubro. 

Sobre os trabalhos da comissão de inquérito, o executivo da Eldevina Materula esclarece ainda que “o Ministério da Cultura e Turismo reitera que está disponível para prestar todos e quaisquer esclarecimentos sobre esta e outras matérias do sector”.

A nova estátua de Eduardo Mondlane, inaugurada no dia 25 de Setembro do ano passado, custou ao Governo 22 milhões de meticais.

Mais de 100 funcionários dos órgãos eleitorais em Gaza amotinaram-se defronte das instalações do STAE, para exigir o pagamento de uma dívida de 47 milhões de meticais. O órgão reconhece a dívida e garante que vai pagá-la gradualmente.

O grupo é composto por diretores, vogais e vice-presidentes distritais e provinciais decidiu acampar nas instalações do STAE, em Gaza, para exigir que o órgão cumpra as suas promessas. Os queixosos tentaram invadir as instalações e a Polícia foi chamada a intervir.

 

A Fundza lançou, em Novembro do ano passado, a quarta Chamada Literária. A iniciativa anual pretende dar oportunidade de publicação aos jovens autores talentosos,  moçambicanos, sem nenhum custo para a publicação do livro.

Na quarta edição, foram inscritos 144 projectos literários, tendo sido seleccionados os seguintes: Escadaria de cadáveres, de Albert Dalela (Romance); O manual do silêncio e outros mistérios, de Óscar Fanheiro (Poesia); O retorno dos elefantes, de Varela Félix (Conto); Mirante do Zambeze, de Gabriel Sauzande Jeque (Crónica); Há coelhos especiais, de Angelina Neves, Noite quebrada, de Japone Arijuane, Dream, a descoberta do mundo novo, de Roberto Savanguanni, e De onde vêm as estrelas, de Yuri Lopes (Infanto-juvenil).

A mesa do júri, constituída por Bento Baloi, Daniel da Costa e Dany Wambire, também seleccionou as obras Casulo Vago – Contos de Moz, de Adriano Félix (Conto) e O vendedor de sonhos, de Orlando Jorge Mussaengana (Infanto-juvenil) como suplentes.

Das 144 propostas literárias inscritas na quarta chamada da Fundza, 53 são de poesia, 39 romances, 30 contos e/ou crónicas, e 22 infanto-juvenis.

Nas três anteriores chamadas literárias, a Fundza lançou cerca de 45 livros de autores de praticamente todo o país, o que se insere no plano de a editora descentralizar as

oportunidades de publicação.

Como resultado das chamadas, Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, foi distinguido na primeira edição do Prémio Literário Mia Couto, no género

poesia, e Estórias trazidas pela ventania, de Adelino Albano Luís, foi vencedor da 2ª edição do mesmo Prémio.

 

Otis Selimane vive no Brasil há 10 anos, e pretende realizar o seu primeiro concerto em Moçambique. Marcado ainda para o primeiro semestre deste ano, o artista afina-se também para lançar, ainda este ano, o seu novo álbum.

“Músicas de mbira e outros contos bantu” és o título do CD, uma proposta discográfica que reúne contos bantu das regiões que compõem hoje os países de Moçambique, Angola, Zimbabwe, África do Sul, Zâmbia, cujo condutor central é a Mbira (Nyunga nyunga e Dza Vadzimu), instrumentos tradicionais zimbabweanos e moçambicanos, perpassando pelo repertório tradicional dos mesmos países, releitura de composições de artistas afro-brasileiros e cancioneiro popular.

De acordo com Otis Selimane, as narrativas textuais dos contos e poesias farão parte de todo o trabalho e serão conduzidas por poetas angolanos, moçambicanos, que através da poesia falada e cantada em suas línguas nativas, narram histórias do quotidiano de suas origens, o matriarcado, as memórias pós-guerra, a transferência horizontal dos saberes africano-bantu e outros assuntos co-relatos.

O álbum, como forma de mostrar a composição do repertório das 10 faixas, será antecedido por ‘singles’ a serem lançados mensalmente. Ao todo, são seis, sendo que o primeiro, intitulado “É tanto que eu peço a Deus”, sai até finais de Janeiro, como ponto de partida.

Ano passado, Selimane foi indicado como uma das 100 personalidades mais influentes da lusofonia pelo portal Bantumen pelo seu trabalho na transformação da música em uma ferramenta de conexão e educação, promovendo Moçambique e as suas tradições no palco
internacional, enquanto cria um espaço para diálogos culturais e inovação musical.

Ainda em 2024, com o projecto “Músicas de Mbira”, lançou uma série audiovisual convidando vários artistas brasileiros e africanos para colaborarem na produção de Episódios que visavam mesclar a música brasileira com instrumentos tradicionais moçambicanos.

Otis Selimane Remane é percussionista, baterista, cantor, compositor e educador moçambicano. Iniciou-se na música aos sete anos de idade e aos 10 começou a tocar bateria.

Desde 2015, no Brasil, desenvolve diversos projectos artísticos e educacionais ligados à cultura africana e afro-brasileira, com destaque para “Músicas de Mbira” (show e projecto com a Mbira), The Otis Project, com o lançamento do disco “Tumbuluku”, apresentado no Sesc Jazz 2021 e o seu mais recente show: “Renascimento”.

Formado em Música Popular e Jazz Performance pela UNICAMP, actualmente encontra-se no mestrado em Musicologia, onde actua também como estudante e pesquisador. Otis, com o seu trabalho como educador, difunde, além-fronteiras, a cultura e ritmos de Moçambique, dando a conhecer mais sobre o país.

Já foi convidado para palestrar em várias escolas públicas, universidades e grupos de pesquisa falando sobre Moçambique e África em geral. Autor de cursos como Introdução à Musicologia Africana e Universalidades Africanas, já ofereceu cursos para os mais diversos públicos no Brasil e fora do país.

Como produtor e agente cultural no Brasil já produziu tournées de artistas africanos no Brasil. É fundador da festa voltada aos africanos residentes no Brasil ‘Sons D’África’ e idealizador da Xiphefu Produções, que é um colectivo africano independente que representa artistas africanos em diáspora no Brasil.

 

O Ministério da Cultura e Turismo reagiu, esta quarta-feira, ao atraso do anúncio das conclusões da comissão técnica que se encontra a avaliar a Estátua de Eduardo Mondlane, na avenida com o mesmo nome, na Cidade de Maputo. 

Segundo um comunicado de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, que a seguir transcrevemos na integra, o atraso deve-se aos manifestações pós-eleitorais que, impediram a mobilidade dos profissionais comprometidos com a avaliação que se segue a bom ritmo:

“O Governo de Moçambique procedeu no passado dia 25 de Setembro de 2023, à inauguração da nova estátua do arquitecto da unidade nacional, Eduardo Mondlane, tornando-a numa praça digital cuja tecnologia instalada permite aceder a uma série de documentos e factos históricos por meio de scanner.

Após a sua inauguração, o Ministério da Cultura e Turismo atendeu à sensibilidade popular e procedeu à criação de uma comissão técnica para avaliar possíveis incongruências na sua construção, tendo iniciado de imediato com os respectivos trabalhos.

Entretanto, por dificuldade de mobilidade, no âmbito das manifestações pós-eleitorais, verificou-se um atraso na conclusão da avaliação técnica, contudo, este trabalho de perícia prossegue a bom ritmo e, no momento oportuno, o seu conteúdo será tornado público.

O Ministério da Cultura e Turismo reitera que está disponível para prestar todos e quaisquer esclarecimentos sobre esta e outras matérias do sector”.

 

Duas pessoas foram baleadas, na Avenida Romãos Fernandes Farinha, após um breve comício feito por Venâncio Mondlane. 

Depois de aterrar no Aeroporto Internacional de Maputo, Venâncio Mondlane seguiu em marcha, acompanhado por milhares de pessoas, pela Avenida Acordos de Lusaka, uma marcha que desaguou no mercado estrela, onde Mondlane, em cima de uma viatura, proferiu algumas palavras. 

O momento não foi longo, porque, depois disso, Venâncio Mondlane retirou-se do  local. No entanto, segundo testemunhas, as pessoas continuaram aglomeradas e a polícia interveio para dispersar os que ali estavam.  

Na sequência da acção da polícia, duas pessoas foram vítimas de baleamento e foram socorridas por uma clínica privada, que se encontra no local. 

A unidade hospitalar não quis prestar declarações, mas um segurança do local confirma que deram entrada dois pacientes.

Po: Eduadro Quive

 

Moçambique está a viver um período que pode influenciar a transformação social e política. Ao que tudo indica haverá um país antes e um depois de 23 de Dezembro de 2024. Na verdade, a viragem terá se verificado com a morte do rapper Azagaia, a 9 de Março de 2023 que mobilizou vários extratos sociais e principalmente a juventude urbana, esta que agora lidera a contestação do processo eleitoral e,
por conseguinte, por um Estado Social.

Basta recordarmos o cenário vivido no velório do músico, a 15 de Março, com a cidade de Maputo praticamente paralisada com as pessoas a fazerem o cortejo fúnebre, desde a Praça da Independência até ao Cemitério de Michafutene. E ao longo do trajecto que embora forçado pelas autoridades que impediram que o corpo seguisse pela Julius Nyerere, supostamente por ser uma zona sensível, por a Presidência da República estar naquela avenida, as pessoas iam ficando paralisadas, prostrando-se ao corpo de Azagaia que entretanto desfilava a Avenida de Moçambique, a maior do país, com direito a escolta policial como se de um alto dirigente se tratasse ou… um criminoso

Basta recordarmos depois das manifestações que ocorreram sobre a égide da música "povo no poder" e a mensagem da liberdade de expressão, no dia 18 de Março, que culminou com o uso de força
excessiva da polícia sobre os manifestantes, com cães, gás lacrimogêneo, porrada e balas, uma das quais que tirou os olhos direitos a Inocêncio Manhique e Marcos Amélia.

Assim nascia o que passou a ser chamada Geração 18 de Março (2023), em meu entender, não só pelo sucedido nessa data, mas em paralelo com a Geração 8 de Março (1976), quando um grupo de jovens foi enviado para o estrangeiro numa missão estudantil que formaria os primeiros quadros para actuar em várias frentes do Estado Moçambicano que então se fundava após a independência.

Só depois emerge Venâncio Mondlane e todo este movimento que assistimos hoje. Antes houve a novela das eleições autárquicas de Outubro de 2023, onde depois de registo de fraude documentada, Mondlane iniciou uma onda de protestos que também paralisaram a cidade capital, com a repreensão de costume.

Que VM7, como se apelida, é um homem carismático, que não vem da tradicional política já se sabia. Mas é preciso reconhecer que a onda de insatisfação sobre os dois maiores partidos que sempre disputaram o poder entre si, era grande e gerou uma espécie de pacto da população, em que votaria em qualquer um que não fosse desses dois partidos. VM7 leu o cenário e emergiu em meio ao caos político. E o grito unificador passou a ser precisamente o que foi cantado por Azagaia, este que se inspirou em Samora Machel: Povo no Poder. A esse slogan, aplicou-se-lhe o sentido de pertença e amor à pátria: Este país é nosso. Coincidência, talvez, com um adágio popular Maconde xilambo axi xettu.

Feito o rescaldo, podemos escutar as vozes na rua e concluir que há muito que estas manifestações deixaram de ser unicamente sobre os resultados das eleições presidenciais, legislativas e para governadores provinciais. As muitas vozes que andam nas ruas reclamam um pouco de tudo, de Rovuma ao Maputo, o que podemos resumir em dois aspectos: a qualidade dos políticos e a efectivação de um Estado Social. É no último aspecto que se pensa ainda mais o fardo.

Há muito que se sente que o Estado se distanciou das suas responsabilidades com a população, sobretudo a mais pobre e vulnerável. E engana-se quem pensa que os governantes não se aperceberam disso. Basta contarmos o número de vezes que se viu o Presidente da República a abrir torneiras com direito a fitas decorativas, champanhe e uma cobertura mediática em cadeia nacional. Um país em que abrir fontes de abastecimento de água faz manchete diz muito da sua realidade. Há problemas sérios no acesso a serviços básicos, as pessoas têm de meter os pés nos rios, ceifar excrementos de animais e tirar água para beber; as pessoas têm de percorrer quilómetros para ter acesso a serviços de saúde, sendo que estes, na sua maioria, funcionam no horário normal de expediente nas repartições de Estado, das 7h30 às 15h30, e quase sempre faltam medicamentos; a electricidade para todos é uma miragem; a educação tem se resumido ao debate sobre salas de aulas (que são árvores), o livro escolar que nunca chega – e se chega tem erros graves – e a falta de pagamento aos professores. Podemos parar por aqui porque a lista é extensa.

Ora, se a rede hospitalar pública não chega para todos, sobretudo os mais necessitados, e tem a limitação horária dos gabinetes dos ministérios, o que acontece com quem ousa ficar doente fora das horas? Fora dos centros urbanos grande parte da responsabilidade fica para os saberes tradicionais, dos curandeiros e das pessoas vividas, que foram aprendendo a curar enfermidades através de ervas, com seus avós, suas mães e anciãos. Na cidade, a tarefa fica com as farmácias onde só dizemos o que sentimos e empurram-nos para uma medicação conveniente. E quando essas alternativas falham, agrava-se o estado de saúde, e vamos na boleia de uma camioneta para os hospitais centrais ou gerais, percorrendo quilómetros em estradas de terra batida ou com buracos assassinos, morrer é o caminho menos tortuoso.

A Educação vai caindo em desgraça. O ensino público, principalmente o nível básico (1a a 6a classe) foi se afundando ano após ano. Nos últimos anos apenas escalamos o cúmulo da desolação. Se por um lado parece se ter vencido o desafio de quase em cada bairro ou aldeia ter uma escola primária, não se pode dizer o mesmo sobre a aprendizagem, o livro escolar e a infraestrutura. Antes utilizei
uma afirmação de Ungulani Ba Ka Khosa, que para além de um grande escritor foi professor em tempos do socialismo, que se refere ao estado da educação pelo que se vê e escuta no discurso do governo –
construção de salas de aulas. Mas vamos ao verdadeiro problema: a escola pública deixou de ensinar com qualidade em grande parte do país; os professores já andavam desmotivados pelas condições de
trabalho, mas o circo melhorou com a falta de materiais de apoio para o aluno; o livro escolar que quase sempre não chega para todos e, de repente, nos últimos dois anos chegou no meio do ano (em 2024 foi
destruído no último trimestre do ano lectivo). O livro sempre tem erros graves. Entretanto a educação avança, com construções de salas de aulas que nas chuvas seguintes vão logo abaixo, com os alunos no seu
normalíssimo relento. As consequências imediatas e que directamente são associadas ao mau processo de formação são as admissões nas universidades ou ainda, cada vez mais recorrente, admite-se mesmo
assim os estudantes com dificuldades e depois o problema vai se ver lá à frente. Foi notícia em 2021 a reprovação em massa de candidatos a magistrados, no Centro de Formação Jurídica e Judiciária.

Os males que resultam da má Educação e nada focada no Desenvolvimento Humano, aliado a uma governação reactiva, andam à vista de todos. Quando chega a época chuvosa e eclode a cólera em muitas comunidades acredita-se que os produtos usados para purificar a água é que causam a doença. Pois é, a população sempre partilhou a água com os animais ou retiram a água dos poços, do nada elas vêem pessoas a vir das cidades, deixadas nas sedes dos distritos de viaturas de alta cilindrada, com detergentes para meter na sua água. E depois a cólera simplesmente não acaba e as pessoas continuam a adoecer.

Ir ao lar continua a ser a maior oportunidade de singrar na vida para as famílias, com as raparigas a terem de entrar no jogo do prestígio de toda a rede familiar, engravidando e casando cedo.

Os rapazes continuam a ver oportunidades nas ruas, às vezes em actividades criminosas. Mesmo formados e capacitados, as oportunidades de emprego são escassas ou precárias, até para os que veem as multinacionais a instalarem-se nos seus distritos. Muitos foram os que imigraram para Maputo na ilusão de que as coisas sejam melhores aí, mas depararam-se com uma precariedade que está em
níveis tão escandalosos como os ricos e endinheirados em 24 horas, que se exibem nas redes sociais e nas avenidas. Pensemos nas pessoas que armaram barricadas e cobraram uma taxa para passagem, e
lembremos dos homens que se sobrepõem às autoridades municipais na cidade e cobram também pelo estacionamento e guarnição das viaturas? Sabemos todos o que acontece com quem ousa desafiá-los,
mas preferimos fingir que damos-lhes os 10 meticais como uma contribuição para as suas vidas miseráveis ou por uma troca de serviços sem termos e condições nem direito a recusa.

E não é que tinha dado nas modas ver jovens e adultos a exigir a sua «parte» do país ou a pedir as «chaves» para abandonar o país à procura de oportunidades no estrangeiro, num tom claro de não vislumbre de um horizonte e perspectiva de vida nas condições sociais actuais, mas também da frustração com as lideranças políticas, muitas vezes falaciosas, pouco dadas a cumprir com as promessas.

Em suma, assistiu-se a um Estado Social falhado, onde as diferenças foram crescendo a olhos vistos, sem um atendimento adequado a quem vivem com maiores carências, sem proteger os cidadãos, muito menos promover a igualdade de oportunidades para todos.

No meio disso, as igrejas foram se multiplicando, sendo as instituições mais presentes no país, em terra, na televisão e nas redes sociais. Elas passaram a expor-se como o alento e a esperança das pessoas. Expulsam demônios, purificam as almas e mostram a luz no fundo do túnel. Curam as doenças espirituais e a dor física, com as suas poções mágicas e orações que não cessam de dia e de noite. Nas cidades o cenário é pior, há leilões de arrendamentos de cubicos entre a igreja e a barraca, como na luta titânica entre o diabo – álcool, drogas – e os anjos – a palavra dos pastores e profetas. Os cultos são de hora em hora, mais as horas extras que os pastores(as) fazem acompanhando a vida privada dos fiéis, que contam-lhes tudo e mais alguma coisa do que lhes acontece. O emprego, os negócios, a saúde, a segurança (pois que com Deus não há mal que vença), as relações amorosas, a procriação, e em tudo, passou-se a confiar à “mão de Deus”. E, claro, tudo isso contando que se entregue a décima parte de rendimentos que as pessoas mal conseguem ter.

A igreja ocupa espaços do território moçambicano que nem o Estado alcança, fazendo elas, o que muitas vezes devia ser o outro a fazer. O verdadeiro poder, hoje, está no “evangelho” e  “profecias” que, por exemplo, no que a escola ensina e no tratamento hospital. Hoje, as histórias de sucesso são contadas em programas de televisão, pois as igrejas são os melhores clientes das emissoras, com testemunhos de
pessoas que abandonaram tratamentos que “não resultavam” pelo poder do “espírito santo” ou então prosperaram nos negócios, tiveram empregos, resolveram situações complicadíssimas, injustiças ou
feitiçaria, problemas em conceber e as tradições dos cônjuges.

Pois, mais uma vez, não tenhamos ilusões, também isso os políticos e governantes sabem, basta ver que todos vão às igrejas para pedir voto e receber o poder do "espírito santo" para alcançar o poder sobre o povo e governar. Não é atoa que a imagem da veneranda juíza presidente do Conselho Constitucional “viralizou” nas redes sociais quando colocada no contexto das vésperas da proclamação dos resultados das últimas eleições, como se de uma decisão entre o bem e o mal, se tratasse. Escusado será fazer menção que os últimos presidentes da Comissão Nacional de Eleições eram líderes religiosos. Mais ainda, organizações religiosas fazem observação eleitoral. E porque sempre vale a pena, podemos recorrer ao próprio governo que está a cessar as funções que têm um Ministério da Justiça, Assuntos Religiosos e Constitucionais, será para garantir a laicidade do Estado?

E no meio disso tudo percebemos que, de facto, quem tem fé não está errado, parece que vai precisar-se de um autêntico milagre para que saiamos da encruzilhada em que estamos ou da coragem dos homens de bem para que não seja a sorte a ditar a nossa sina. Certo é que o próximo ciclo de governação carrega o grande peso de descer às profundezas dos problemas e fazer uma abordagem que não seja sob pressão de cortar fitas, fazer fotos e “postar” nas redes sociais para o povo ver que fez. Sobre o que fazer, as ideias vêm de todos os
lados e este é o momento de se ver com os olhos de ver.

Para não fugir a regra da piada facebookiana que nos retira o direito à reflexão, P.S: isto não é sobre igrejas.

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