Três medalhas conquistadas no Portugal Open G1 confirmam o crescimento do Taekwondo moçambicano, mas a Federação alerta que a escassez de financiamento, a ausência de equipamentos de competição e a dependência das famílias continuam a comprometer o sonho olímpico dos atletas nacionais.
As três medalhas conquistadas por Moçambique no Portugal Open G1 representam muito mais do que um resultado positivo para o taekwondo nacional. Num dos torneios internacionais mais competitivos do circuito mundial, a selecção moçambicana voltou a provar que possui atletas capazes de enfrentar adversários de elevado nível e disputar lugares no pódio. Contudo, por detrás do brilho das medalhas esconde-se uma realidade menos animadora: o crescimento da modalidade continua condicionado pela falta de financiamento, pela insuficiência de equipamentos modernos e pelo enorme esforço financeiro suportado pelas famílias dos atletas.
A prestação alcançada em Portugal ganha maior relevância quando se observa o nível da competição. O campeonato reuniu mais de 50 países, cerca de mil atletas e vários competidores olímpicos. Ainda assim, Moçambique regressou com uma medalha de prata, conquistada por Helena Safrão, e duas medalhas de bronze, obtidas por Laysa Kumbu e Stélvio Machava, confirmando que o país consegue competir de igual para igual com selecções que dispõem de melhores condições técnicas e financeiras.
Para o vice-presidente da Federação Moçambicana de Taekwondo, Raja Kanji, estes resultados não surgem por acaso. São consequência de um trabalho iniciado muito antes das competições internacionais, envolvendo famílias, clubes, treinadores e associações provinciais. Segundo explica, as medalhas são apenas a expressão visível de um processo de formação desenvolvido ao longo de vários anos e demonstram que Moçambique possui capacidade técnica para competir ao mais alto nível.
Um dos aspectos que mais entusiasma a direcção da Federação é o desempenho do sector feminino. Das apenas três atletas integradas na delegação nacional, duas conquistaram medalhas. Para Raja Kanji, este dado deve servir de alerta para que o país invista mais na formação e promoção do taekwondo feminino, uma vez que os resultados obtidos mostram que existe um enorme potencial competitivo ainda por explorar.
Apesar dos resultados encorajadores, o dirigente não esconde que o principal adversário da modalidade continua a ser a falta de recursos financeiros. O financiamento é apontado como o maior obstáculo ao desenvolvimento do taekwondo moçambicano, afectando desde a preparação dos atletas até à participação em competições internacionais, fundamentais para a conquista de pontos no ranking mundial.
Segundo Raja Kanji, são frequentemente as famílias que assumem uma parte significativa das despesas relacionadas com viagens, estágios e participação em torneios internacionais. Paralelamente, a Federação procura mobilizar parceiros e patrocinadores para garantir que os atletas mais promissores não fiquem impedidos de competir por falta de recursos. Ainda assim, reconhece que o esforço continua insuficiente perante as exigências do calendário internacional.
Outro desafio considerado decisivo prende-se com a ausência do Sistema Electrónico de Combate (PSS), equipamento utilizado em praticamente todas as competições internacionais de alto nível. Este sistema electrónico é responsável pela validação automática dos pontos durante os combates e constitui hoje um elemento indispensável na preparação dos atletas.
Sem acesso regular a esta tecnologia, os taekwondistas moçambicanos apenas têm contacto com o equipamento quando chegam às competições internacionais, enfrentando adversários que treinam diariamente com o sistema. Para Raja Kanji, esta diferença coloca os atletas nacionais em desvantagem competitiva logo à partida e torna ainda mais valiosas as medalhas conquistadas por Moçambique no estrangeiro.
Mesmo perante essas limitações, a Federação acredita que o sonho olímpico continua ao alcance. O Portugal Open G1 atribui pontos para o ranking internacional, factor determinante para o processo de qualificação aos Jogos Olímpicos. Helena Safrão, por exemplo, somou seis pontos importantes para a classificação mundial, enquanto outros atletas também melhoraram a sua posição, aproximando-se dos critérios exigidos pela World Taekwondo.
Para transformar este potencial em resultados consistentes, Raja Kanji considera indispensável garantir uma participação contínua em torneios internacionais de ranking. É precisamente aí que surgem novas dificuldades, uma vez que os custos das deslocações e da logística reduzem o número de atletas que Moçambique consegue inscrever nas provas internacionais.
Além do trabalho desenvolvido com a selecção nacional, a Federação destaca avanços alcançados nos últimos anos ao nível da organização interna da modalidade. Entre eles figuram a criação de associações provinciais nas onze províncias do país, a formação de árbitros e treinadores certificados internacionalmente, a realização de grandes eventos regionais em território nacional e o crescimento exponencial do número de praticantes, que passou de cerca de dois mil para mais de dez mil atletas.
No segundo mandato da actual direcção, o objectivo mantém-se claro: conquistar mais pontos internacionais, atrair novos investimentos, adquirir o sistema electrónico de combate e colocar atletas moçambicanos nos Jogos Olímpicos da Juventude e, posteriormente, nos Jogos Olímpicos seniores. A convicção da Federação é que o talento já existe. O que continua a faltar são condições para que esse talento possa competir em igualdade de oportunidades com o resto do mundo.
As medalhas conquistadas em Portugal mostram que o taekwondo moçambicano já deixou de ser uma promessa. O desafio agora é outro: impedir que a falta de investimento transforme conquistas internacionais em episódios isolados, quando poderiam representar o início de uma nova página na história do desporto nacional.