Numa era em que a modernidade, frequentemente, obscurece as raízes culturais, “O pastor mazione”, de Aldino Languana, uma das obras da exposição individual “Jardins de sonho”, inaugurada a 03 de Julho, na Fundação Fernando Leite Couto, emerge como um farol de resistência e introspecção, convidando o observador a um mundo onírico, onde a espiritualidade e a tradição se cruzam.
A técnica da aguarela, com a capacidade de criar transições suaves e atmosferas etéreas, é utilizada por Languana para capturar a essência visualmente envolvente.
A escolha de uma moldura discreta é eficaz, pois, permite que o observador se concentre inteiramente nas complexidades da pintura em si. Por conseguinte, o vidro protector adiciona um elemento estético e preserva a integridade da aguarela.
O uso de cores vivas e contrastantes pode ser visto como uma metáfora para a diversidade cultural e para a riqueza espiritual presentes na prática dos maziones. O laranja brilhante e os tons de azul e amarelo não só retêm a atenção, mas também exprimem a paisagem natural e a vivacidade da vida comunitária.
Os traços abstratos e as figuras sobrepostas conferem à peça uma sensação de transcendência, possivelmente reflectindo a espiritualidade e as práticas rituais associadas aos maziones, ou seja, a presença de um rosto em destaque, com olhos fechados, pode representar um estado meditativo ou de transe, comum em práticas espirituais. O outro rosto, mais subtilmente inserido, complementa a narrativa visual, representando talvez a presença de espíritos ou entidades que fazem parte das práticas rituais.
Os rostos, com as suas expressões serenas e contemplativas, são pontes entre o material e o imaterial, convidando o visitante da exposição a mergulhar na riqueza simbólica e cultural que a obra retrata. Entretanto, a especificidade do tema, centrado nas práticas culturais moçambicanas, pode limitar a compreensão e apreciação por parte de um público global. Quer dizer, a falta de familiaridade com as tradições representadas pode reduzir a conexão emocional do público de outras origens culturais.
Embora o estilo abstrato contribua para a atmosfera etérea da pintura, também pode ser uma barreira para aqueles que preferem representações mais realistas. A subjectividade necessária para interpretar a obra pode afastar os observadores que buscam uma conexão mais directa e imediata.
Com efeito, “O pastor mazione” dialoga com a nova série de notas do metical. Tanto a obra de arte quanto as novas notas do metical buscam explorar e celebrar elementos culturais profundamente enraizados na identidade moçambicana. Enquanto o quadro de Languana capta a essência espiritual e as práticas rituais, as novas notas do metical incorporam motivos e símbolos que reflectem a diversidade cultural e a riqueza histórica de Moçambique, oferecendo uma representação visualmente rica e simbolicamente poderosa da herança cultural do país. Em ambos os casos, destaca-se a importância de preservar e valorizar tradições locais, ao mesmo tempo em que promovem uma apreciação contemporânea e artística dessas práticas e símbolos ancestrais.
O quadro de Languana retrata, também, os preconceitos que os maziones enfrentam durante suas práticas religiosas que se assemelham a dos curandeiros.
A discriminação manifesta-se tanto na esfera social quanto institucional, em que os membros da igreja “Mazione” são vistos com desconfiança e desrespeito, rotulados como supersticiosos. Esta marginalização não só mina a dignidade e os direitos destes indivíduos, mas também dificulta a preservação e a valorização das suas tradições culturais e espirituais.
Ora, na realidade moçambicana, onde muitos enfrentam desafios socioeconómicos, “O Pastor mazione” emerge como uma figura de esperança, em que a transcendência se manifesta como a busca e a conexão com o divino, especialmente diante das adversidades do mundo real. Portanto, a peça ensina que, num mundo em constante mudança, as nossas raízes culturais e espirituais são fundamentais para manter a nossa identidade e encontrar equilíbrio interior, “porque o que o espírito conhece, nunca em si tem seu fim” (NIETZSCHE, 1883, p. 48). Assim, “O pastor mazione” não é apenas uma obra de arte, mas um convite à introspecção e ao reconhecimento da riqueza cultural que nos define.
Título – O pastor mazione
Autor: Aldino Languana
Técnica – Aguarela sobre papel
Dimensões – 111 x 103 cm
Ano – 2023
Nota do editor: A exposição “Janelas de sonhos”, de Aldino Languana, é constituida por 22 peças e pode ser visitada na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, até 3 de Agosto.