O País – A verdade como notícia

Minha casa

Por: Eunice Moreira

 

– leva-me a casa,

– casa ?

– sim, casa. A casa que não é um espaço físico, fechado, com quatro paredes e um tecto, mas de um lugar vasto e extenso.

leva-me a casa, preciso voltar para aquele lugar que posso chamar de meu, A casa que não é um espaço físico, fechado, com quatro paredes e um tecto, mas um lugar vasto e extenso, onde a terra é fértil e produtiva. Deixa-me sentir inteira, pisando sobre as minhas raízes outra vez.

Preciso voltar para confirmar se o que dizem é verdade, que agora está uma bela cidade. Andar pelas ruas sem pressa, da Expansão ao Waresta, enquanto aprecio aquelas lindas donzelas com missangas em suas cinturas.

Quero acordar como sempre foi, ouvindo a voz daquela mãe que passa às 5 horas com o seu bebé no colo, gritando “couve, alface, nheué”, ai que saudades…

E por falar em saudades, lembrei-me da caracata, do gosto sem gosto que enche a nossa pança, acompanhada de uma cafrial bem fumada.

Desejo sentir o medo do famoso bairro de Namicopo, andar com pressa com o celular no peito, rodeada dos moto-táxis, aqueles que fazem confusão em tempo de eleição, que andam descamisados dirigindo com apenas uma mão, levantando os pneus.

Preciso ver as mulheres do semáforo que julgadas são e não encontram espaço nessa sociedade dos que se dizem humanos, mas será que não são o contrário?

Leva-me a casa, mas me segura quando me ver a chorar. Não sei se consigo ver que ainda existem crianças nas ruas se marginalizando, pessoas sentadas nas portas dos supermercados à espera de um trocado para se alimentar, outros pedindo esmola às sextas-feiras, mulheres dando parto no corredor do hospital por falta de refresco para dar. Ah, como dói….

Leva-me a casa. Não posso ficar aqui sabendo que existe um lugar esperando por mim. Lá onde as mulheres crescem aprendendo como cuidar dos seus maridos, onde os homens só são homens depois de um mês num esconderijo. E como é lindo o som do batuque nos nossos ouvidos, enquanto as capulanas são amaradas, a cabanga fervendo e a comida sendo servida. Sem me esquecer da nossa tradição, antes de qualquer coisa, farinha na mão despejando de vagarzinho ao chão, enquanto vamos pedindo em oração para que os nossos antepassados nos dêem a direcção.

Lá em minha casa, quando anoitece, os jovens não sentem, continuam na rua até alta noite, jogando conversa fora. As meninas que não se atrevam a ir a cavalaria de roupa curta, podem ser despidas. Se fores magrinha, chamam-te ponta fina e se fores o contrário não poupam ao chamar-te 4X4.

E não é só isso que me faz querer ir para casa, é querer me sentir livre, meditando nas montanhas do Muhala-Expansão, é saber que ainda seguimos os mitos: “não se pede sal à noite”, “não se tira lixo à noite”, “se me saltares não volto a crescer”, tudo o que acontece connosco de ruim é feitiçaria, nunca tem sido o destino (risos). Isso é que me fascina, olhar para essas histórias todas e permanecer tranquila.

Para mim, estar ausente me dá muita pena, pois voltar para casa será sempre como a primeira vez. Deixe-me voltar antes que a saudade volte a bater.

 

 

 

 

 

 

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos