O País – A verdade como notícia

O Governo decidiu avançar com a renovação da parceria público-privada com a empresa Kudumba Investments, para assegurar a continuidade dos serviços de inspecção não intrusiva de mercadorias, bagagens, meios de transporte e pessoas nos principais pontos de entrada e saída do País. A medida surge numa altura em que o Executivo pretende reforçar os mecanismos de controlo aduaneiro e modernizar os processos de fiscalização nas fronteiras, portos e aeroportos.

A decisão foi tomada durante a sessão do Conselho de Ministros realizada na terça-feira, na qual foi autorizada a abertura de negociações com a empresa para a celebração de um novo contrato de concessão. O acordo actualmente em vigor aproxima-se do fim, o que levou o Executivo a desencadear um novo processo.

De acordo com o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, a renegociação será conduzida por uma equipa técnica composta também pelos ministros das Finanças, Carla Louveira, e dos Transportes e Logística, João Matlombe, que tutelam os sectores directamente ligados à gestão aduaneira e ao funcionamento das infra-estruturas logísticas do País.

Impissa explicou que a equipa terá a responsabilidade de conduzir o processo negocial e definir os termos do novo acordo de concessão, que vai continuar a ser implementado no modelo de parceria público-privada. O objectivo é garantir a continuidade do uso de sistemas tecnológicos avançados para a verificação e controlo de cargas e pessoas que atravessam as fronteiras nacionais. “O elemento principal é o nível de satisfação do serviço prestado até aqui. Estamos satisfeitos com o nível de prestação de serviços, o que determina que, em vez de avançarmos com uma contratação aberta, olhemos para esta entidade e adoptemos novos termos no âmbito da lei das parcerias público-privadas”, afirmou Inocêncio Impissa.

O Executivo explicou ainda que a opção pelo ajuste directo se deve à experiência acumulada pela empresa na prestação deste tipo de serviços em Moçambique, bem como à capacidade técnica demonstrada ao longo de quase duas décadas de operação no País. “Todos já ouvimos falar da Kudumba e do desempenho da empresa em Moçambique, nomeadamente na montagem de scanners para a passagem de pessoas e bagagens em aeroportos, portos e outras instituições, inclusive em sistemas de controlo de acesso a edifícios com requisitos de segurança específicos”, referiu.

O sistema de inspecção não intrusiva usado pela empresa baseia-se em equipamentos de alta tecnologia, sobretudo scanners de raio-X e outros dispositivos capazes de analisar o conteúdo de cargas, bagagens ou veículos sem necessidade de abertura física. Este tipo de solução permite acelerar os processos de fiscalização e reduzir o tempo de desembaraço nas fronteiras, segundo o Governo.

A tecnologia também facilita a identificação de eventuais irregularidades ou conteúdos suspeitos, contribuindo para o combate ao contrabando, tráfico ilícito de mercadorias e evasão fiscal. Para o Governo, o uso destes equipamentos representa um avanço significativo no processo de modernização da administração aduaneira e no reforço da segurança das cadeias logísticas nacionais.

O novo contrato deverá manter a prestação destes serviços em diversos pontos estratégicos do País, incluindo portos marítimos, aeroportos internacionais e postos fronteiriços terrestres, onde se regista maior volume de circulação de mercadorias.

Além de garantir a continuidade da fiscalização tecnológica, o Executivo pretende que a renegociação do contrato permita avaliar a possibilidade de actualizar equipamentos e expandir a rede de scanners para outras infra-estruturas consideradas sensíveis do ponto de vista logístico e de segurança.

Dados divulgados pelo Governo em 2024 indicam que a empresa já contribuiu com cerca de 42,8 milhões de dólares para os cofres do Estado. Paralelamente, realizou investimentos avaliados em aproximadamente 108,9 milhões de dólares na implementação, manutenção e operação do sistema de inspecção tecnológica.

Estes investimentos incluem a aquisição de equipamentos de última geração, formação de pessoal técnico e a instalação de infra-estruturas necessárias para o funcionamento dos sistemas de controlo.

Para o Executivo, a continuidade da parceria poderá contribuir para consolidar os ganhos obtidos até agora, no processo de modernização da fiscalização aduaneira e na melhoria da eficiência dos procedimentos de verificação de cargas.

Fundada em 2005, a Kudumba Investments é uma empresa moçambicana especializada em soluções de segurança não intrusiva para infra-estruturas críticas. 

A título de exemplo, a empresa estabeleceu uma parceria com a Sociedade de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC), com o objectivo de reduzir os custos de utilização do corredor de transporte de Maputo e aumentar a competitividade da rota logística na região.

A iniciativa incluiu a redução de tarifas aplicadas a diferentes tipos de carga, entre os quais arroz, peixe, cimento, fosfato mineral e carga de projecto, bem como a manutenção de algumas taxas anteriormente reduzidas a título experimental.

Com a autorização do Conselho de Ministros, o Governo pretende, agora, avançar com a fase de negociação técnica que irá definir os detalhes do novo contrato de concessão. Entre os aspectos a serem analisados, encontram-se as condições financeiras, os requisitos técnicos dos equipamentos e os mecanismos de supervisão da parceria.

O processo deverá, igualmente, avaliar a possibilidade de modernização do sistema actualmente em funcionamento, incorporando novas tecnologias capazes de aumentar a eficiência dos processos de inspecção e reduzir o tempo de controlo nas fronteiras.

A expectativa do Executivo é que a nova parceria contribua para fortalecer os mecanismos de segurança e fiscalização, garantindo maior transparência na circulação de mercadorias e maior eficiência na gestão das cadeias logísticas nacionais.

Ao mesmo tempo, o Governo considera que a continuidade do sistema de inspecção tecnológica poderá facilitar o comércio, ao permitir procedimentos de verificação mais rápidos e seguros.

Com a renegociação em curso, a Kudumba mantém-se como um dos principais actores na prestação de serviços de segurança tecnológica nas infra-estruturas logísticas de Moçambique, num sector considerado essencial para o controlo aduaneiro e para a protecção da economia nacional.

O Governo aprovou, em Conselho de Ministros, a Estratégia para a Sustentabilidade do Sistema de Prevenção e Combate ao Branqueamento de Capitais, Financiamento do Terrorismo e Financiamento da Proliferação de Armas de Destruição em Massa, acompanhada do respectivo Plano de Acção para o período 2026–2030.

Segundo o Executivo, a nova estratégia surge num momento considerado “crucial” para o país, após Moçambique ter estado sob monitoria reforçada do Grupo de Acção Financeira (GAFI), que havia identificado deficiências estratégicas no sistema nacional de combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo.

Essas fragilidades levaram à inclusão do país na chamada “lista cinzenta” do organismo internacional. Durante esse período, o Governo afirma ter promovido várias reformas, incluindo a revisão da legislação, o reforço das instituições, a melhoria da coordenação entre entidades nacionais e o aumento da capacidade de investigação e supervisão.

De acordo com o comunicado do Conselho de Ministros, o cumprimento do plano de acção acordado com o GAFI permitiu a saída de Moçambique da lista cinzenta e contribuiu para reforçar a confiança da comunidade internacional no sistema financeiro nacional.

A estratégia agora aprovada tem como principal objectivo consolidar e garantir a sustentabilidade do sistema nacional de prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, assegurando que os progressos alcançados sejam mantidos e aprofundados a longo prazo, protegendo a integridade do sistema financeiro e da economia.

O documento está estruturado em cinco objectivos estratégicos, operacionalizados através de 18 áreas de intervenção. Entre as prioridades definidas estão o reforço da coordenação institucional e da cooperação internacional, a consolidação do quadro legal e institucional, o fortalecimento dos mecanismos de supervisão e regulação e o aumento da capacidade das autoridades para investigar e reprimir o crime financeiro.

A estratégia prevê ainda medidas para promover maior transparência e integridade no sistema financeiro e económico.

Para garantir a implementação das medidas, o Governo aprovou também um Plano de Acção detalhado para o período 2026–2030, que estabelece actividades concretas, responsabilidades institucionais, prazos de execução e mecanismos de monitoria e avaliação.

A execução das acções será coordenada entre várias instituições do Estado, incluindo entidades de supervisão financeira, órgãos de investigação criminal e outras instituições relevantes.

Segundo o Governo, a estratégia deverá contribuir para fortalecer a credibilidade internacional do país, proteger o sistema financeiro nacional, prevenir o crime organizado e melhorar o ambiente de negócios e investimento.

A implementação será acompanhada por mecanismos regulares de coordenação e monitoria, estando previstos relatórios periódicos de progresso sobre a execução das actividades definidas no plano.

O Executivo considera que a nova estratégia representa um passo importante para consolidar os progressos alcançados por Moçambique no alinhamento com os padrões internacionais de prevenção e combate ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, destacando que o sucesso da sua aplicação dependerá da cooperação entre instituições públicas e do envolvimento do sector privado.

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) disponibiliza 27,83 milhões de dólares para a implementação do Projecto de Investimento Resiliente para o Empoderamento Socio-económico, Paz e Segurança (RISE-PS), uma iniciativa destinada a promover a recuperação económica, reforçar a resiliência das comunidades e impulsionar o desenvolvimento na província de Cabo Delgado. 

O projecto foi lançado, nesta sexta-feira, em Maputo, sendo implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em parceria com o Governo de Moçambique, e executado pela Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN).

Na cerimónia de lançamento, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Vala, destacou que o RISE-PS faz parte integrante do programa de reconstrução de Cabo Delgado, que inclui várias iniciativas de apoio às famílias afectadas pela instabilidade na região. 

“O RISE surge como parte integrante do programa de reconstrução de Cabo Delgado, que inclui vários programas de apoio às famílias assoladas pela instabilidade”, afirmou. O governante acrescentou que o desenvolvimento económico constitui um instrumento fundamental para consolidar a paz. 

“A paz constrói-se com a criação de oportunidades, acesso ao emprego e participação na riqueza. Compreendemos que o desenvolvimento não é apenas um objectivo da política pública, mas também um mecanismo para a construção da paz e da estabilidade”, sublinhou.

Durante o evento, o representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Moçambique, Rômulo Corrêa, referiu que o banco tem mobilizado recursos significativos para apoiar a recuperação do país, com especial enfoque no norte. 

“O BAD já mobilizou cerca de 1,6 mil milhões de dólares para Moçambique, sendo que aproximadamente 60 por cento destes recursos são destinados à província de Cabo Delgado”, afirmou.

Segundo explicou, o projecto prevê a reabilitação de cerca de 150 infra-estruturas sociais e económicas, incluindo escolas e mercados, bem como a criação de aproximadamente cinco mil empregos.

Por sua vez, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento destaca que tem vindo a desenvolver diversos programas no norte do país com o objectivo de apoiar as comunidades e criar novas perspectivas de desenvolvimento. A organização considera que Cabo Delgado possui um grande potencial económico e que iniciativas de investimento podem contribuir para dinamizar a economia local e criar oportunidades para a população.

Entretanto, o presidente do conselho de administração da ADIN, Jacinto Loureiro, afirmou que o projecto resulta de vários meses de concertação entre parceiros nacionais e internacionais. “Depois de meses de concertação, assumimos o compromisso de tudo fazer para que este projecto seja um sucesso”, disse. 

Por seu turno e presente no evento, o governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, explicou que os distritos de Palma e Ancuabe foram seleccionados como áreas piloto do projecto. Segundo o governante, “a iniciativa deverá contribuir para melhorar o acesso da população às oportunidades económicas e reforçar a ligação entre as comunidades e o sector empresarial”, concluiu

O valor do Fundo Soberano de Moçambique (FSM) cresceu 6,5% nos primeiros três meses desde que o Governo enviou a primeira tranche para o Banco de Moçambique (BM), atingindo cerca de 117 milhões de dólares americanos.

Os dados constam das informações disponibilizadas pelo banco central, nesta quarta-feira, indicando que o fundo iniciou a sua trajectória com uma evolução positiva, impulsionada sobretudo pelas primeiras receitas provenientes da exploração de gás natural liquefeito no País.

A criação do Fundo representa um dos instrumentos estratégicos definidos pelo Estado para gerir as receitas provenientes dos recursos naturais, particularmente do gás natural descoberto na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado. O mecanismo pretende assegurar que parte significativa desses recursos seja canalizada para a poupança nacional e para o financiamento de iniciativas estruturantes de desenvolvimento, com impacto tanto no presente como nas gerações futuras.

Os dados oficiais indicam que o crescimento registado no valor do fundo ocorreu entre Dezembro de 2025 e o início de Março de 2026, período que coincide com os primeiros meses de funcionamento efectivo da estrutura. No dia 2 de Março, segundo o banco central, o valor do fundo era de cerca de 117 milhões de dólares.

O ponto de partida para o Fundo Soberano ocorreu a 10 de Dezembro de 2025, quando o Governo transferiu para o Banco de Moçambique o primeiro montante destinado à capitalização do fundo. Na altura, foram depositados 109,97 milhões de dólares, provenientes das receitas iniciais da exploração de gás natural.

O valor constituiu a base financeira para o arranque das operações do FSM e para a implementação do seu modelo de gestão. Posteriormente, a 6 de Janeiro de 2026, foi realizada uma nova transferência de recursos para o fundo, desta vez no valor de cerca de 6,2 milhões de dólares.

A soma desses montantes, aliada à valorização dos activos financeiros nos quais o capital começou a ser aplicado em três bancos no exterior, contribuiu para o crescimento global do fundo ao longo dos primeiros três meses de actividade.

O Fundo Soberano de Moçambique foi oficialmente criado após a aprovação da respectiva lei pela Assembleia da República em 15 de Dezembro de 2023. A legislação estabelece as bases de funcionamento, os objectivos estratégicos e os mecanismos de governação do fundo, que deverá desempenhar um papel central na gestão das receitas provenientes do sector de hidrocarbonetos.

Entre as principais disposições da lei encontra-se a determinação de que 40% das receitas anuais provenientes da exploração de gás natural sejam canalizadas para o Fundo Soberano. As projecções indicam que, a partir da década de 2040, essas receitas poderão alcançar cerca de 6 mil milhões de dólares por ano, dependendo da evolução da produção e das condições do mercado internacional de energia.

De acordo com o Banco de Moçambique, que assume a gestão operacional do fundo, o FSM deve ser entendido como uma carteira de investimentos estruturada segundo critérios técnicos rigorosos e alinhada com a legislação nacional. A instituição esclarece que “o FSM é uma carteira de activos financeiros, gerida de acordo com os princípios, regras e procedimentos estabelecidos na lei”.

A função do banco central consiste em gerir os recursos no mercado financeiro internacional, aplicando os fundos em activos que permitam preservar e aumentar o valor do capital ao longo do tempo, respeitando simultaneamente os limites de risco definidos pela política de investimentos.

A instituição explica que a criação do FSM foi “motivada pela necessidade imperativa de garantir que as receitas geradas pela exploração de petróleo e gás impulsionam o desenvolvimento social e económico do País”.

Para além deste objectivo, o banco central sublinha que o fundo deverá desempenhar um papel importante na estabilidade macroeconómica e na construção de uma base sólida de poupança nacional. Nesse sentido, acrescenta que o mecanismo visa “maximizar os benefícios para a economia nacional e assegurar que estas receitas sirvam como um pilar de estabilização do Orçamento do Estado, bem como uma base sólida para a criação de poupança e acumulação de riqueza para as gerações futuras”.

A estrutura institucional do Fundo Soberano prevê uma divisão clara de responsabilidades entre diferentes entidades do Estado. O Governo é responsável pela supervisão global e pela definição das orientações estratégicas, enquanto o Banco de Moçambique assegura a gestão operacional e a execução da política de investimentos.

A gestão do Fundo está sujeita a mecanismos de controlo e auditoria, incluindo fiscalização interna e externa, com o objectivo de garantir transparência, responsabilidade e conformidade com as normas legais e financeiras.

A evolução inicial positiva do Fundo Soberano ocorre num momento em que Moçambique continua a desenvolver projectos de grande escala para exploração de gás natural na Bacia do Rovuma, considerada uma das maiores reservas mundiais desse recurso.

Actualmente, três grandes projectos de exploração estão aprovados para a região. Um deles é liderado pela multinacional francesa TotalEnergies e prevê a produção de cerca de 13 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano. O projecto encontra-se numa fase de retoma gradual após ter sido suspenso, devido aos ataques terroristas registados na província de Cabo Delgado.

Outro projecto de grande dimensão é liderado pela ExxonMobil, empresa norte-americana que planeia desenvolver uma capacidade de produção de aproximadamente 18 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito. No entanto, a decisão final de investimento ainda não foi anunciada, estando dependente de diversos factores, incluindo condições de segurança, viabilidade económica e evolução do mercado energético global.

Além desses projectos localizados na península de Afungi, existe ainda a Área 4 da Bacia do Rovuma, um consórcio liderado pela empresa italiana Eni. Nessa área, já se encontra em operação, desde 2022, a unidade flutuante Coral Sul, destinada à produção de gás natural liquefeito em águas ultraprofundas.

A evolução dessas iniciativas é considerada fundamental para o financiamento do Fundo Soberano, uma vez que a legislação estabelece que parte significativa das receitas geradas por esses projectos seja destinada ao fundo.

Trata-se de uma proposta apresentada por alguns bancos comerciais com o objectivo de limitar transacções em plataformas de comércio electrónico, num contexto de crescente preocupação com a saída de moeda estrangeira, fenómeno que pode estar associado à escassez de divisas e fragilidade da economia nacional.

De acordo com os bancos, as plataformas de comércio online têm sido utilizadas para realizar pagamentos internacionais, que, em alguns casos, são difíceis de rastrear, o que pode contribuir para a fuga de divisas para o exterior ou para o fortalecimento do mercado paralelo. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pelo Banco de Moçambique, nem foi oficialmente analisada pelas autoridades.

Entretanto, os economistas Octávio Manhique e Moisés Nhanombe alertam que uma decisão desta natureza pode colocar em risco o funcionamento normal do mercado. Ambos defendem que, caso o Banco de Moçambique venha a dar aval à proposta, os impactos poderão ser significativos para a economia nacional.

Para Manhique, o problema deve ser analisado com cautela, uma vez que envolve factores estruturais e regulatórios. Segundo explicou, a liberalização das transacções correntes introduzida nos últimos anos trouxe benefícios para o funcionamento do mercado, bem como espaço para práticas menos transparentes.

“A liberalização tem o seu lado menos positivo, porque as pessoas se tornam inventivas e procuram sempre mecanismos para realizar operações não autorizadas”, afirmou.

O economista considera que o sistema financeiro precisa de mecanismos de controlo mais robustos para lidar com estas situações. Para Manhique, o facto de os bancos comerciais terem avançado com esta proposta pode ser interpretado como um sinal de alerta dirigido às autoridades reguladoras.

“Se os bancos comerciais estão agora a vir a público sugerir limitações, provavelmente têm dados quantitativos que mostram que há um problema que precisa de ser resolvido”, explicou.

Ainda assim, o especialista adverte que um bloqueio generalizado das plataformas digitais poderá ter consequências negativas para a economia. O comércio electrónico tem vindo a ganhar espaço no País e constitui, actualmente, uma ferramenta importante para consumidores, pequenas empresas e profissionais independentes que dependem destas plataformas para adquirir produtos e serviços.

“Fechar todo o mercado online poderia criar uma catástrofe para uma economia pequena como a nossa, porque hoje muitas actividades dependem destas plataformas”, advertiu.

Neste contexto, medidas como a limitação de determinadas transacções ou a centralização da importação de alguns produtos podem ser interpretadas como respostas temporárias destinadas a travar a saída de divisas. “Se existem actividades ilícitas, elas deixam sempre um rasto no sistema financeiro. O importante é investigar, identificar os responsáveis e aplicar as medidas adequadas”, afirmou.

Outro desafio apontado pelo economista é o elevado peso da informalidade na economia moçambicana, que dificulta o controlo dos fluxos financeiros. Segundo explicou, muitas transacções ocorrem fora dos canais formais, criando oportunidades para práticas irregulares e tornando mais difícil a fiscalização.

Por sua vez, o economista Moisés Nhanombe considera que, embora a preocupação dos bancos comerciais com a saída de divisas possa ter fundamento, a adopção de medidas generalizadas de bloqueio de plataformas de comércio electrónico pode trazer consequências negativas para o sistema financeiro e para a economia.

Segundo explica, decisões desta natureza tendem a criar incerteza e podem afectar a confiança dos agentes económicos. “Medidas mais abruptas ou mais gerais costumam gerar uma certa incerteza regulatória e podem enfraquecer a confiança no sistema financeiro”, afirmou.

Nhanombe recorda que a economia nacional é altamente vulnerável a choques externos, pois depende de exportações de um conjunto restrito de mercadorias, usualmente chamadas de commodities, com destaque para recursos naturais.

“Estamos a falar de um país com elevada vulnerabilidade externa e grande sensibilidade da taxa de câmbio do metical em relação às principais moedas internacionais”, explicou.

O economista sublinha ainda que o comércio electrónico tem vindo a crescer no País e constitui um instrumento importante para dinamizar a economia de serviços. Na sua opinião, restringir estes canais poderá comprometer o processo de modernização económica.

“O comércio electrónico é, hoje, um segmento importante da economia de serviços e um vector relevante para a modernização produtiva”, referiu.

Segundo o especialista, um dos grupos mais afectados por uma eventual restrição seriam os pequenos empreendedores e as pequenas e médias empresas que utilizam plataformas digitais para comercializar produtos e serviços.

“Muitos pequenos empreendedores utilizam redes sociais, marketplaces e sistemas de pagamento digital para vender os seus produtos”, destacou. Para Nhanombe, limitar ou bloquear essas ferramentas pode provocar redução de receitas e aumento dos custos de transacção para estes agentes económicos, fragilizando a actividade de muitos negócios emergentes no país.

Além disso, alerta que medidas dessa natureza podem empurrar parte das actividades económicas para o sector informal.

“Quando o sistema formal deixa de oferecer mecanismos de operação, os agentes económicos tendem a procurar alternativas no sector informal”, afirmou.

Ainda assim, o economista considera que qualquer decisão deverá ser cuidadosamente avaliada pelo Banco de Moçambique. “Cabe ao Banco Central analisar os impactos dessas medidas e encontrar soluções que controlem a fuga de divisas sem comprometer o funcionamento da economia”, concluiu.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) revela que, depois de 12 meses consecutivos, ou seja, quatro trimestres de descalabro, a economia nacional cresceu, pela primeira vez, entre Outubro e Dezembro do ano de 2025.

Segundo o levantamento feito pela instituição pública, a actividade económica no País registou um crescimento de 4,7% no último trimestre do ano passado, depois de quedas de 0,85%, 0,94%, 3,92% e 5,69%, nos trimestres anteriores.

“O Produto Interno Bruto a preços de mercado (PIBpm) apresentou uma variação positiva de 4,67% no IV Trimestre de 2025, quando comparado ao mesmo período do ano 2024”, avança o Instituto Nacional de Estatística.

Segundo dados do INE, a maior parte dos ramos de actividade contribuíram para o melhor desempenho da economia nacional, com destaque para a indústria transformadora, com a variação da indústria manufactureira de 13,58%.

Ocupa a segunda posição, o sector primário, com variação positiva de 4,55%, induzido principalmente pelo ramo da Indústria de Extracção Mineira com variação de 6,64%. Por sua vez, o ramo da pesca teve uma variação de 1,12%.

O sector terciário aumentou 4,09%, induzido essencialmente pelo ramo de Hotéis e Restaurantes com variação de 21,72%, seguido pelo ramo dos serviços financeiros com variação de 7,29%, segundo as contas nacionais trimestrais.

Moçambique poderá ser gravemente afectado pela guerra no Irão, alerta o economista Joaquim Dai. É que muitos países produtores de petróleo estão envolvidos no conflito e isso pode encarecer o produto para importadores.

É mais um conflito que nos leva a lembrar o provérbio, segundo o qual, quando os elefantes lutam, o capim é que sofre. Os Estados Unidos da América e Israel atacaram o Irão e como resposta, este está a atacar aliados dos dois países.

Embora Moçambique diste de Irão em mais de sete mil quilómetros, a guerra naquele país asiático poderá trazer efeitos negativos à pérola do Índico. O alerta é do economista e pesquisador da área de hidrocarbonetos, Joaquim Dai.

“Quando cai ⅕ da oferta de combustível, o preço vai aumentar e para um país como Moçambique, que não é produtor nem refinador, vai procurar comprar no mercado internacional ao preço que estiver tabelado e isto terá impacto muito grave porque os preços vão aumentar e nosso país vai sair sacrificado”, alertou.

É que o Irão diz ter fechado o Estreito de Ormuz, localizado entre Irão e Omã, onde passam de 20 milhões de barris de petróleo por dia, usados no mundo. Dai alerta que o bloqueio vai aumentar o preço dos combustíveis para Moçambique.

“Bloqueando este pedaço do mar, fecha-se o abastecimento de 20% de combustíveis ao mundo. Isso tem impactos muito sérios. Metade deste produto que não vai passar por ali é consumido pela China, que tem sido motor de desenvolvimento mundial. Com a economia chinesa a aumentar a sua procura de combustível em outros fornecedores, o preço deste vai aumentar”, alerta.

Segundo Joaquim Dai, as reservas que o país possui são bastante limitadas. “Temos de pensar na transformação desses produtos petrolíferos para que não dependamos mais das importações. O que vai acontecer é que os próximos choques, se nós tivermos transformação de hidrocarbonetos em Moçambique, nós limitamos o choque para o nosso país”.

Diante desta situação, o economista sugere que Moçambique reinvente-se e crie condições para começar a transformar no país os hidrocarbonetos que possui.

“O impacto externo de uma falta de combustível nos mercados internacionais têm um risco de 100% de afectar Moçambique, na medida em que nós não temos neste momento combustível armazenado no país suficiente para aguentar ao preço que compramos na última vez nos próximos seis meses”, alertou Dai.

O economista falava, ontem, no programa Manhã Informativa da STV.

O economista Asif Osman defende que a prioridade do novo pacote financeiro anunciado pelo Banco Mundial para Moçambique deve recair sobre infra-estruturas estratégicas, particularmente rodoviárias, capazes de ligar pólos de produção agrícola e industrial aos principais centros de consumo e exportação. Para o analista, sem uma rede eficiente de estradas que reduza custos logísticos e encurte distâncias entre zonas produtivas e mercados, o País continuará a desperdiçar parte significativa do seu potencial económico.

A posição foi apresentada no programa País Económico, numa análise ao pacote de 10 mil milhões de dólares que o Banco Mundial anunciou para Moçambique, dos quais 6 mil milhões destinados ao sector público e 4 mil milhões, ao sector privado, com desembolso faseado até 2031. Trata-se de um dos maiores envelopes financeiros aprovados para o País nos últimos anos e que poderá representar, em média, cerca de 2 mil milhões de dólares por ano, valor equivalente a aproximadamente 7% a 8% do Produto Interno Bruto nacional.

Para Asif Osman, o montante é expressivo e constitui um sinal inequívoco de confiança internacional no potencial de crescimento de longo prazo da economia moçambicana. No entanto, alerta que o sucesso do pacote dependerá menos do volume financeiro e mais da qualidade das escolhas feitas pelo Governo. “O grande segredo é escolher cirurgicamente os projectos”, defendeu, sublinhando que cada dólar investido deve gerar o máximo impacto produtivo possível.

O economista sustenta que, ao investir em corredores rodoviários estratégicos, o País poderá dinamizar cadeias de valor, impulsionar a produção agrícola e industrial e estimular o sector privado, criando um efeito multiplicador na economia. Ainda assim, admite que sectores como educação e saúde não devem ser ignorados, desde que os projectos apresentem impacto mensurável e contribuam para aumentar a produtividade nacional.

A análise do novo financiamento não ficou dissociada da recente posição do Fundo Monetário Internacional, que optou por não avançar, nesta fase, com uma nova facilidade de crédito a Moçambique, indicando que reavaliará o pedido dentro de 12 meses. Questionado sobre uma eventual contradição entre as duas decisões, Asif Osman rejeitou essa leitura.

Segundo explicou, as duas instituições pertencem ao sistema de Bretton Woods, mas possuem mandatos distintos. O FMI, frisou, concentra-se sobretudo na estabilidade macroeconómica de curto prazo e na sustentabilidade da dívida pública, enquanto o Banco Mundial privilegia intervenções estruturais orientadas para o crescimento de longo prazo. “Não vejo como uma contradição, mas como diferença de enfoque”, afirmou.

Na mesma linha, Dimas Sinoia considerou que o anúncio do financiamento é positivo, mas recomendou prudência nas expectativas. Para o economista, é preciso recordar que se trata de um anúncio cuja materialização dependerá de processos técnicos, aprovação de projectos e cumprimento de condicionalidades. O desembolso será gradual e poderá enfrentar atrasos, caso não haja capacidade institucional suficiente para preparar e executar projectos de qualidade.

Sinoia destacou ainda que o contexto internacional tem sido marcado pela redução progressiva da ajuda ao desenvolvimento, o que torna o novo pacote ainda mais relevante.

Contudo, sublinhou que o financiamento externo, por si só, não resolve os desafios estruturais da economia moçambicana, sobretudo num cenário em que a dívida pública continua elevada e a pressão fiscal limita a margem de manobra do Estado.

A questão da sustentabilidade da dívida esteve no centro do debate. Para o FMI, a consolidação fiscal permanece uma prioridade, seja através da redução da despesa, seja pelo aumento das receitas. No entanto, ambos os analistas reconhecem que cortar despesas, especialmente em salários da função pública, é politicamente sensível e socialmente complexo, sobretudo após um período de tensões sociais.

Por outro lado, aumentar impostos pode sufocar um sector privado já pressionado por crises sucessivas, desde a pandemia da Covid-19 até aos choques externos recentes. Nesse sentido, Asif Osman defende que a solução mais equilibrada passa por expandir a base produtiva, estimulando crescimento económico que permita melhorar o rácio dívida/PIB sem recorrer a medidas excessivamente restritivas.

Dimas Sinoia acrescentou que o sector extractivo continuará a desempenhar papel determinante nas perspectivas fiscais do País. Recordou que relatórios anteriores do FMI já apontavam para a insustentabilidade da dívida no curto prazo, mas com expectativa de melhoria futura ancorada nas receitas de gás natural. Ainda assim, advertiu que depender exclusivamente desses fluxos pode ser arriscado, defendendo maior diversificação económica.

Outro ponto levantado no debate foi o risco de repetir erros do passado, quando investimentos avultados não se traduziram em melhorias visíveis na vida das comunidades. O próprio Banco Mundial tem vindo a rever a sua abordagem, privilegiando projectos com impacto directo e mensurável, incluindo agricultura, energia e apoio às pequenas e médias empresas.

Para evitar falhas de execução, Sinoia salientou a importância de alinhar os novos investimentos com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento recentemente aprovada, garantindo continuidade e coerência, independentemente dos ciclos políticos. A estabilidade institucional, a transparência e mecanismos robustos de monitorização foram igualmente apontados como factores determinantes para assegurar resultados concretos.

No entendimento dos dois economistas, o desafio central não é “angariar” os 6 mil milhões destinados ao sector público, já comprometidos no envelope financeiro, mas demonstrar capacidade técnica para apresentar projectos viáveis e de elevado impacto. Caso isso aconteça, o pacote poderá, não apenas dinamizar a economia, mas também contribuir indirectamente para melhorar indicadores fiscais.

O comércio regional Afircano continua muito abaixo das expectativas dos países, apesar dos vários apelos, acordos e adopção de políticas, como é o caso do AfCFTA – Zona de Comércio Livre Continental Africana, um acordo que liga 55 países do continente.

A primeira-ministra, Benvinda Levi, que conhece a realidade, desafiou os países a adopção de mecanismos mais actuantes por forma que, como resultado das transações comerciais melhore a distribuição de riqueza e, consequentemente, reduza a pobreza.

Levi entende que “o comércio é um instrumento de transformação estrutural”, por isso um imperativo de segurança alimentar.

“É um meio para industrializar, criar empregos dignos, reduzir a pobreza e promover prosperidade partilhada”.

A primeira-ministra referiu-se ainda ao facto de o continente ser “rico em recursos naturais”, com 30% das reservas minerais globais e 65% das terras aráveis não cultivadas, mas nada disso estar a significar riqueza para os países, nem para as populações. Fez questão de arrolar o que considera desafios.

“Insegurança alimentar, déficit energético que afecta centenas de milhões de pessoas,  níveis de comércio intra-africano ainda abaixo de 20%, dependência excessiva de exportação de matérias-primas e vulnerabilidade aos choques extremos recorrentes. Temos que transformar todo este nosso potencial em prosperidade para os povos de nossos países”.

Para inverter o cenário, a Primeira-ministra apelou ainda a reformas estruturais nas políticas comerciais.

“Uma reforma equilibrada da Organização Mundial do Comércio – OMC, que preserva o consenso e restaurar um sistema eficaz de resolução de litígios, sendo fundamental que a modernização das regras globais reconheça as assimetrias estruturais das nossas economias, de modo a garantir que o comércio internacional seja de facto motor de desenvolvimento inclusivo; uma abordagem justa nas negociações agrícolas que nos levem a corrigir as distorções prejudiciais aos nossos produtores, uma vez que, para a África, a agricultura não significa apenas uma estatística comercial; e um enquadramento do comércio eletrónico que promove a inclusão digital, a capacitação tecnológica e a transferência de conhecimento”.

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