O País – A verdade como notícia

A TotalEnergies não exportará o Gás Natural Liquefeito (GNL) de Moçambique antes do ano 2027, no mínimo, pois considera que se deve reiniciar um projecto interrompido há dois anos por uma insurgência ligada a ataques terroristas.

A gigante francesa da energia declarou força maior – uma pausa legal num contrato devido a eventos imprevistos – em Abril de 2021, depois que rebeldes ligados ao Estado Islâmico invadiram uma vila-sede próxima, matando dezenas de pessoas. A retoma do projecto de 20 mil milhões de dólares é vista como crucial para o futuro económico de Moçambique e ganhou maior significado global depois que a invasão russa da Ucrânia obrigou as nações europeias a buscar fontes alternativas de combustível.

“A partir do momento em que reiniciarmos a produção, precisamos de mais quatro anos para construir a instalação”, disse Stephane Le Galles, director de projectos da TotalEnergies, durante uma visita ao local no nordeste de Moçambique, na semana passada. Isso significa que as exportações de gás natural liquefeito só começariam em “2027, na melhor das hipóteses”, acrescentou, citado pela Bloomberg.

Desde o ataque a Palma – a vila distrital mais próxima do local do projecto — o Governo moçambicano pediu ajuda militar ao Ruanda e à Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para conter a insurgência. A situação de segurança melhorou, especialmente ao longo da faixa costeira, no extremo norte, onde o projecto está localizado.

Para a TotalEnergies suspender a força maior, há quatro ou cinco condições que precisam de ser atendidas, de acordo Le Galles, das quais se destacam a necessidade de funcionários do Governo retornarem às regiões vizinhas de Palma e Mocímboa da Praia; a manutenção do custo do projecto “como era antes”; condições de segurança melhoradas; e uma avaliação positiva das condições dos direitos humanos na província.

É impossível dizer quando essas condições serão atendidas, de acordo com Le Galles, que considera que o progresso está em uma “boa direcção”. Em Fevereiro, o CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanne, visitou o projecto e nomeou um especialista em direitos humanos, Jean-Christophe Rufin, para avaliar a situação na província de Cabo Delgado, antes de decidir sobre qualquer reinício.

Rufin esteve um mês em Moçambique a falar com o Governo, comunidades e agências de fomento, e está em fase final de elaboração de um relatório, de acordo com Laila Chilemba, vice-presidente para o desenvolvimento socioeconómico da unidade de Moçambique da TotalEnergies. O relatório deve ficar pronto nos “próximos dias”, garantiu a responsável à Bloomberg.

 

SUBEMPREITEIRO ANUNCIOU RETOMA DO PROJECTO DA TOTALENERGIES EM JULHO

No fim de Fevereiro, a empresa italiana de engenharia Saipem anunciou que a construção da fábrica de liquefacção de gás da TotalEnergies em Cabo Delgado deverá ser retomada em Julho.

“Esperamos reiniciar gradualmente o projecto, de acordo com informações recebidas do nosso cliente, a partir de Julho deste ano”, disse o director-executivo da Saipem, Alessandro Puliti, citado pelo portal especializado do sector petrolífero Upstream.

Alessandro Puliti falava durante uma intervenção na Internet (“webcast”) realizada, recentemente, para apresentar a analistas os resultados do quarto trimestre de 2022.

A Saipem lidera o consórcio CCS, que também inclui a japonesa Chiyoda e McDermott dos Estados Unidos da América, responsável pela construção de duas linhas de liquefacção de gás com capacidade combinada de 13 milhões de toneladas por ano (mtpa) em Afungi.

A construção do complexo industrial foi suspensa em 2021 pela petrolífera francesa TotalEnregies, após um ataque à vizinha vila de Palma, na sequência da insurgência armada que atinge Cabo Delgado desde 2017.

O empreendimento tido como o maior investimento privado em aberto no continente africano, orçado em 20 mil milhões de euros, inclui linhas de captação de gás a grande profundidade, na Bacia do Rovuma, 40 quilómetros ao largo, liquefacção e cais de exportação para cargueiros especiais.

Nele está ancorada boa parte das perspectivas de crescimento da economia moçambicana, bem como de pagamento da sua dívida soberana.

A província de Cabo Delgado enfrenta há cinco anos uma insurgência armada com alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

A insurgência levou a uma resposta militar desde Julho de 2021 com apoio do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), libertando distritos junto aos projectos de gás, mas surgiram novas vagas de ataques a sul da região e na vizinha província de Nampula.

O conflito já fez um milhão de deslocados, de acordo com o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e cerca de 4000 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos ACLED.

Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa anunciou, na passada sexta-feira, 10 de Março, que foram seleccionados, através de concurso, dois consórcios internacionais para continuarem na corrida e tornarem-se parceiros estratégicos do projecto de energia, de acordo com o portal Furtherafrica.

São eles a ETC Holdings, ZESCO Limited, CECOT (uma subsidiária da Mota-Engil) e a PetroSA (uma subsidiária do Fundo Central de Energia, África do Sul), e o grupo Électricité de France (EDF), Total Energies e Sumitomo Corporation.

O processo de concurso internacional para seleccionar um parceiro estratégico para associar-se à Electricidade de Moçambique (EDM) e à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) começou no ano passado e envolveu sete consórcios.

O concurso conta com o apoio do Banco Mundial, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), da Corporação Financeira Internacional (IFC) e da Southern African Power Pool (SAPP), sendo que agora vai passar para a fase de avaliação das propostas, em conformidade com a Lei de Parcerias Público-Privadas (PPP) de Moçambique.

“A avaliação será feita por um comité presidido pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) e constituído pela EDM, HCB, Ministérios da Economia e Finanças, da Terra e Ambiente, do Trabalho, Emprego e Segurança Social e do Banco de Moçambique (BdM)”, explicou o sítio  na sua publicação desta semana.

A selecção final basear-se-á nos critérios de capacidade técnica, solidez financeira e experiência internacional, especificamente no desenvolvimento de projectos hidroeléctricos e, para além destes requisitos, os proponentes terão de contratar uma garantia financeira de concurso no montante de 10 milhões de dólares.

A central hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa de 1500MW é um projecto avaliado em cerca de 4,5 mil milhões de dólares e está localizado na província de Tete, no Centro do país.

Moçambique é um dos seis países com mais desigualdades no continente africano, conclui o mais recente relatório do Banco Mundial, publicado na última sexta-feira. Por isso, a instituição financeira internacional sugere que o país troque o seu modelo de crescimento e aposte mais nos serviços.

Os níveis de pobreza em Moçambique continuam altos. Em 1996, cerca de 96% da população era pobre, uma cifra que, em 2015, mudou para 65%. E, actualmente, a agricultura emprega, no país, cerca de 70% da população, mas há um problema: a produtividade é fraca, daí que o nível de inclusão é muito baixo.

“É difícil, se não impossível, promover o desenvolvimento inclusivo sem aumentar ou melhorar a produtividade no sector agrícola”, referiu Fiseha Haile, economista do Banco Mundial.

Em termos de criação de emprego, o país está muito longe de satisfazer a procura. Por exemplo, a indústria de carvão e alumínio, que dão 70% de receitas ao Estado de exportações, contribuem com apenas 0,3% na criação de empregos, segundo aponta o relatório.

“Actualmente, a economia moçambicana cria quase 25 mil empregos no sector formal, mas a demanda de emprego é muito alta. O número de pessoas que entram no mercado laboral em Moçambique, a cada ano, é de 500 mil. Então, a diferença entre a oferta de emprego e a procura é muito grande”, avançou Fiseha Haile, durante a apresentação do documento.

Estes dados constam do relatório do Banco Mundial sobre a actualidade económica de Moçambique. O documento apresentado, sexta-feira, em Maputo, aponta ainda que é preciso reduzir as desigualdades entre as pessoas em Moçambique.

“O crescimento forte naquelas décadas não ajudou muito em termos de redução das desigualdades de rendimentos. Moçambique é um dos seis países com mais desigualdade em África, daí a necessidade em promover o desenvolvimento em sectores não extractivos e acelerar o processo de transformação económica e de criação de emprego. Um dos desafios que Moçambique enfrenta é a dualidade. A estrutura económica mostra que a agricultura emprega quase 70% da população, mas o nível de produtividade é muito baixo em comparação com o potencial que o país tem, mas também em comparação com outros países da região”, aponta o documento produzido pelo Banco Mundial.

Para ser um país de rendimento médio até 2043, conforme prevê a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, Moçambique teria de crescer em média 12% ao ano, por quase 20 anos, segundo o Banco Mundial. “Então, seria difícil alcançar esse objectivo sem alavancar outros sectores”, disse Haile. Para reverter o cenário, o Banco Mundial sugere que o país aposte no sector dos serviços, por fornecer diversas oportunidades.

“Os serviços privados representam 45% do crescimento do emprego que aconteceu nas últimas duas décadas. Então, serviços privados e públicos representam 57% do crescimento do emprego, o que indica o potencial que o sector tem. Os serviços são também o maior factor para o crescimento da produtividade. Quase 65% do crescimento da produtividade de 2007 a 2018 foi devido a empresas de serviços. O sector dos serviços tem mais ligações com outros, em comparação com o de infra-estruturas. Para cada emprego criado pela manufactura, são criados 13 empregos no sector dos serviços”, referiu o economista do Banco Mundial.

Como não basta identificar problemas, o Banco Mundial sugere algumas reformas. “Regulamentos laborais são alguns dos desafios que as empresas dos serviços enfrentam em Moçambique. A lei de 2007 define quotas específicas para a contratação de trabalhadores estrangeiros, uma quota que é muito restritiva. Moçambique precisa de usar mais trabalhadores estrangeiros. Grandes empresas não podem ter mais de 5% da sua força de trabalho composta por estrangeiro. É preciso abrir mais. Por outro lado, a taxa de juro do país é das mais altas da região e, assim, é difícil acelerar o crescimento económico e a criação de empregos”, disse o economista do Banco Mundial.

Presente no lançamento do relatório, o ministro da Economia e Finanças disse acolher a proposta da instituição, sem se esquecer dos outros sectores. Entretanto, a vice-presidente do Banco Mundial para África diz que é preciso apostar na formação do capital humano, para que os resultados comecem a surgir.

O Banco Mundial prevê um crescimento da economia nacional de 5% este ano e de 8,3% em 2024, impulsionado pela indústria de hidrocarbonetos.

 

FUNDO DE GARANTIAS TERÁ FINANCIAMENTO DO BANCO MUNDIAL

O Conselho de Administração do Banco Mundial poderá aprovar, no dia 30 de Março, uma linha de financiamento de 300 milhões de dólares para o Fundo de Garantias Mutuárias, criado pelo Governo. Prevê-se ainda a aprovação de 85 milhões de dólares para o financiamento de pequenas e médias empresas.

Com base em experiências de outros países, semelhantes a Moçambique, o Governo criou, recentemente, o Fundo de Garantias Mutuárias para apoiar as pequenas e médias empresas. Neste momento, o Executivo está a mobilizar recursos para o fundo e tem como principal parceiro o Banco Mundial.

“Houve uma missão que esteve em Maputo há cerca de três semanas, foi concluída. Financiámos documentos iniciais para permitir a aprovação por parte do banco e esperamos que, no dia 30 de Março, o Conselho de Administração possa aprovar uma linha de 300 milhões de dólares americanos, que contemplam a componente para o Fundo de Garantias Mutuárias e cerca de 85 milhões de dólares para uma linha de crédito de financiamento de pequenas e médias empresas”, explicou Max Tonela, ministro da Economia e Finanças.

O Executivo já está em negociações com a banca para definir as empresas que serão financiadas pelo fundo.

“Estamos a discutir toda a mecânica e todo o quadro do relatório com os bancos. Estamos a trabalhar com o Banco de Moçambique na sua revisão e na definição do perfil de empresas a eleger, montantes a estabelecer e a conjugar a proposta de estabelecimento do fundo de garantias e a conjugar a proposta de estabelecimento com linhas de crédito, sobretudo de pequenas e médias dimensões.”

O objectivo é reduzir o custo de financiamento na economia e os riscos associados aos empréstimos que têm sido barreiras para o acesso ao financiamento.

O ministro da Economia e Finanças falava, na última sexta-feira, no evento de lançamento do relatório do Banco Mundial sobre a actualidade económica de Moçambique.

 

O Banco Mundial diz que só vai apoiar a exploração de gás natural em Moçambique se esta fizer parte de um “plano maior” de transição energética. Aliás, a vice-presidente para África Austral e Oriental, Victória Kwakwa, entende ser a fonte mais indicada para a transição mundialmente

O mundo lida, agora, com a crise ambiental provocada, em grande medida, pela utilização de energias fósseis, ou seja, sujas, como, por exemplo, o carvão, o petróleo, gasolina e outros. Solução? Reduzir para zero o seu uso até 2050. Isso implica a substituição das fontes por outras mais limpas como água, ar e sol.

O Banco Mundial tem estado a reduzir também o apoio a investimentos para energias não-limpas. O gás natural também não é limpa. Porém, o gás de Moçambique “pode jogar um papel importante para a transição global”.

Moçambique começou a explorar o gás natural liquefeito no ano passado, com a exportação do GNL para a Grande Britânia, através da British Petroleum (BP), num contrato prefeito com o Consórcio da Área 4 da Bacia do Rovuma.

Kwaka citou isso como exemplo da importância para a transição global. “Vemos que a maior parte do gás de Moçambique está a ser exportado para a Europa, então aquele continente está a beneficiar-se do gás moçambicano e afasta a Europa de voltar às fontes de energia menos limpas, num momento em que a invasão russa à Ucrânia causou problemas consideráveis na segurança energética e suplemento da mesma”.

Moçambique precisa de apoio financeiro para participar neste negócio. E o Banco Mundial não se fecha a prestar o apoio, mas há condições que devem existir para que tal aconteça. “Podemos apoiar se não houver outras opções com custos baixos e se for no contexto de um plano de transição claramente articulado”, esclareceu Victória Kwakwa, que esteve em Moçambique de visita a diferentes locais e que manteve diferentes encontros com várias individualidades, incluindo o Presidente da República.

Falando numa entrevista concedida ao “O País”, Victória Kwakwa foi peremptória e disse-o várias vezes, “sim, a exploração de gás pode contribuir para o crescimento, mas vocês precisam de outros sectores para serem parte do crescimento para prover taxas de crescimento mais altas e que sejam inclusivas”.

Por inclusão, Kwakwa diz que se deve entender o uso das receitas do gás para impulsionar outras áreas. Ou seja, “deve ser gerido de maneira que facilite a diversificação do resto da economia, o que inclui a agricultura e o aumento da produtividade; o turismo é outro sector por se dar atenção e os serviços são outra área. Então, é possível e tu encontras outros países que usaram recursos naturais para fazer diversificação do resto da economia”, disse.

Sem histórico expressivo de produção de café para fins comerciais, Moçambique faz parte do acordo trilateral entre Brasil e Portugal, que tem o país como beneficiário. Intitulado “Produção Sustentável de Café no Parque Nacional da Gorongosa e Sistema Agroflorestal Integrado no Contexto da Desflorestação, Alterações Climáticas e Segurança Alimentar”, o projecto prevê, entre outros objectivos, a formação de agricultores moçambicanos.

“A vida mudou muito, muito mesmo. Agora consigo alimentar a minha família. Antes do projecto, estava sem trabalho e era muito difícil comprar alimentos e vestuário. Foi uma mudança muito positiva”, o testemunho é do produtor moçambicano Eugideo Alberto Braga, morador do Parque Nacional da Gorongosa, sobre o projecto desenvolvido por pesquisadores brasileiros e portugueses, falando para a Conexão Safra.

Mas, todo esse trabalho só é possível graças ao vasto conhecimento e tecnologia empregados ao longo de décadas na cafeicultura brasileira, aponta o pesquisador e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus São Mateus, e coordenador da parte brasileira no projecto, Fábio Luiz Partelli,

“Todo o histórico de conhecimento adquirido ao longo de décadas que o Brasil tem em produção, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico da lavoura cafeeira, nos permite essa ajuda a Moçambique no manejo das lavouras, naquilo que é possível dentro da realidade deles”, pontua o especialista brasileiro.

INICIATIVA ENVOLVE AGRICULTORES E ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Se de um lado os conhecimentos são transferidos na prática, por meio do ensino de técnicas de gestão com eficácia comprovada, por outro, a troca dá-se através de pesquisas de mestrado e doutoramento. Ao todo, 17 bolsas de estudos foram oferecidas aos moçambicanos.

Niquisse José Alberto , de Nampula,  é um dos beneficiados. Formado em ciências agrárias, actualmente vive no Brasil onde já concluiu o mestrado e iniciou o doutoramento em genética e melhoramento na Ufes.

Vinculado ao núcleo de pesquisa de excelência em café conilon da universidade, em paralelo aos estudos no Brasil, Niquisse também contribui com a pesquisa feita no Parque Nacional da Gorongosa, onde é avaliada a diversidade do café arábica.

“Uma grande oportunidade de fazer o mestrado e doutoramento num país de alta tecnologia e ‘expert’ na cultura de café. Com as experiências e conhecimentos adquiridos aqui, vou poder contribuir significativamente para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura em Moçambique que, por sinal, como nova fronteira na cafeicultura, vai ser significante no ponto de vista social e económico das famílias envolvidas, bem como para a biodiversidade no contexto de mudanças climáticas”, explicou o doutorando.

Crimildo Cassamo, da Cidade de Maputo, defendeu, em Julho do ano passado, a sua tese de doutoramento, intitulada “Produção sustentável do café em Moçambique e sua qualidade em sistema agroflorestal da Serra de Gorongosa”. O trabalho de campo foi feito na Serra da Gorongosa e a parte de laboratórios, em Portugal, país com uma longa história de intercâmbio científico com o Brasil.

“Considero essa uma oportunidade única. Eu integrei-me a uma equipa de pesquisa em café com longa tradição e de renome internacional. Tive a oportunidade de aprender e vivenciar experiências com assistência do pesquisador de um país que é o maior produtor em nível mundial, o Brasil. A cafeicultura no meu país é bastante embrionária e sem tradição de produção comercial, embora haja condições de cultivo em algumas zonas. Com essa aprendizagem, poderei contribuir para o estímulo do relançamento e do fomento da cultura em Moçambique”, destaca Crimildo Cassamo.

Executado pela Ufes, Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e Parque da Gorongosa, e financiado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), Ministério das Relações Exteriores, Administração Nacional de Áreas de Conservação (Anac), Ministério da Terra e Ambiente de Moçambique, Camões Instituto da Cooperação e da Língua de Portugal, o projecto, assinado em 2017, beneficia cerca de 500 famílias de agricultores do Parque Nacional da Gorongosa em situação de vulnerabilidade social.

Implantado numa área de cerca de 240 hectares, a meta é produzir café de qualidade, orgânico, cultivado sob espécies nativas do parque e, assim, amenizar os efeitos da deflorestação, aumentar os rendimentos por meio da produção e promover a segurança alimentar na região.

Fábio Partelli explica que Moçambique tem solo e clima ideais para o cultivo do café. Porém, até à chegada dos pesquisadores brasileiros e portugueses, a cafeicultura resumia-me em plantar. Com potencial de produção médio, por ser uma área limitada e com muitas árvores, o conhecimento dos pesquisadores e as experiências e pesquisas citadas pelo professor ajudaram os moçambicanos a obter resultados positivos.

“Moçambique tem potencial de solo e clima, mas é um processo lento. Tudo é mais devagar que no Brasil para acontecer. Ajudamos nas orientações para ter uma produção melhor, correcção do solo, adubação; ajustamos os espaços e orientamos um local de secagem, entre outras práticas”, disse Partelli.

Inicialmente, o acordo terminaria em 2022, mas, devido à pandemia da COVID-19, as acções integradas vão durar mais um ano. O projecto será concluído com a produção de um manual sobre cafeicultura.

O Banco de Moçambique confirma a proliferação de esquemas de fraude financeira no país, que consistem na captação de depósitos de pessoas por entidades não licenciadas. Por isso, alerta que aderir ao grupo é bastante arriscado e pode resultar em graves perdas de dinheiro.

É um sinal de que criminosos perderam medo e “operam” em sistemas fraudulentos para captar depósitos, fazendo-se passar por instituições financeiras, embora não tenham licenças para tal.

É uma nova forma, disfarçada, de actuar, encontrada pelos larápios, para enganar pessoas e ficar com o dinheiro delas. A situação já inquieta o Banco de Moçambique.

“Geralmente, as instituições que actuam ilegalmente na área financeira aderem ao esquema de pirâmide financeira. As pirâmides financeiras são esquemas de negócios fraudulentos que se caracterizam pela promessa de ganho de dinheiro a curto prazo, normalmente, na forma de juros sobre os valores depositados. Estes juros são, frequentemente, muito mais altos do que a média praticada no mercado e aumentam com a angariação de mais depositantes”, alerta o Banco.

Face à situação que tende a ficar mais crítica, o banco central alerta para os perigos associados.

“À medida que a pirâmide cresce, fruto da confiança dos depositantes no esquema, falta dinheiro para pagar a todos e, no fim, a maioria fica com prejuízos. Portanto, o recurso a estas entidades representa um elevado risco e pode resultar em graves perdas para os envolvidos, uma vez que elas (as entidades) não se encontram sujeitas a deveres de informação e a limites prudenciais que salvaguardam os interesses dos consumidores”, indica um comunicado do banco central.

Os esquemas podem ser detectados de várias formas, tais como (i) a oferta de comissões elevadas ou outros bens pelo recrutamento de novos clientes; (i) a adopção, pelos promotores das entidades, de nomes fictícios, tal como “investidor”, “vencedor” e “milionário”; e pouca informação a respeito da entidade, que pode não ter sede, ou ter a sua sede localizada num escritório virtual.

Por estas e outras razões, o banco alerta para mais vigilância na hora de aplicar o dinheiro.

A escassez de divisas e produtos básicos nas prateleiras dos supermercados do Zimbabwe está a forçar uma nova corrida dos cidadãos daquele país ao mercado moçambicano para se abastecerem, numa altura em que aquele país regista um recorde da sua dívida pública.

Autoridades migratórias moçambicanas confirmaram que o número quadruplicou nos primeiros 45 dias deste ano, em relação ao mesmo período de 2022. Em Machipanda, a principal fronteira terrestre entre Moçambique e Zimbabwe, trouxas nas cabeças com arroz, sabão, açúcar, óleo vegetal e até fraldas descartáveis denunciam o agravamento da crise que há duas décadas já obrigava muitos zimbabweanos a atravessar a fronteira em busca de alimentos.

Em declarações à VOA, a zimbabweana Rosi Mutchenga disse que a escassez de divisas está a dificultar a compra de alimentos que também são escassos nos mercados, sendo que algumas pessoas atravessam com produtos não alimentares que vendem em Moçambique para comprar comida.

 

FALTA TUDO… “SÓ A GRAÇA DE DEUS”

“Nós estamos a viver pela graça no Zimbabwe, mesmo quando a crise aperta, sentimos que Deus ainda ama o país”, afirmou Rosi Mutchenga, em alusão à ausência de um Governo capaz de travar uma recessão económica que está “a rasgar o poder de compra da população”.

Outro zimbabweano, Tawanda Ndwere, disse ser necessário ter coragem para viver no país e ter de enfrentar uma “vida toda de dificuldade”, desde a escassez de divisas ao colapso do sistema comercial, de saúde e educação.

“As coisas estão difíceis no Zimbabwe, é preciso coragem, e entendemos que vivemos pela graça de Deus”, aponta Ndwere, que cita a hiperinflação.

O movimento de zimbabweanos que entraram e saíram do país quase que quadruplicou nos primeiros 45 dias do ano em curso.

Dados dos Serviços Provinciais de Migração de Manica indicam que 9524 zimbabweanos atravessaram a fronteira de Machipanda entre 1 de Janeiro e 15 de Fevereiro corrente, contra 2380 no período homólogo de 2022.

“Isso revela um crescimento do movimento migratório de zimbabweanos”, disse Abílio Mate, porta-voz dos Serviços de Migração de Manica, realçando que um número grosso dos passageiros segue até a Beira, onde fica o principal porto que abastece os países do interior do continente.

 

JOAQUIM CHISSANO PROCURA SAÍDAS PARA A DÍVIDA DO ZIMBABWE

Nesta quinta-feira, 23, o antigo Presidente moçambicano, Joaquim Chissano, reuniu-se com o director do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Akinwumi Adesina, para mediar a liquidação da dívida em atraso do Zimbabwe.

Em Setembro de 2022, a dívida pública do Zimbabwe era de 17,63 biliões de dólares, dos quais 750 milhões de dólares devido ao BAD, até Dezembro do mesmo ano.

Entretanto, o Governo continuou a contrair empréstimos externos, usando as matérias-primas como garantias, e ampliou os seus empréstimos domésticos por meio da emissão de títulos da dívida, noticiou a imprensa local.

Os gastos do Governo para o ano fiscal de 2023 estão subfinanciados no valor de 1,56 biliões de dólares na sequência da depreciação do dólar zimbabweano, para continuar a financiar despesas públicas e as reformas económicas e de governação, além de compensar os antigos proprietários brancos, cujas propriedades foram expropriadas numa reforma agrária em 2000.

A empresa italiana de engenharia Saipem anunciou que a construção da fábrica de liquefacção de gás da TotalEnergies em Cabo Delgado, deverá ser retomada em Julho.

“Esperamos reiniciar gradualmente o projecto, de acordo com informações recebidas do nosso cliente, a partir de Julho deste ano”, disse o director-executivo da Saipem, Alessandro Puliti, citado pelo portal especializado do sector petrolífero Upstream.

Alessandro Puliti falava durante uma intervenção na Internet (“webcast”) realizada, esta semana, para apresentar a analistas os resultados do quarto trimestre de 2022.

A Saipem lidera o consórcio CCS, que também inclui a japonesa Chiyoda e McDermott dos Estados Unidos da América, responsável pela construção de duas linhas de liquefacção de gás com capacidade combinada de 13 milhões de toneladas por ano (mtpa) em Afungi.

A construção do complexo industrial foi suspensa em 2021 pela petrolífera francesa TotalEnregies, após um ataque à vizinha vila de Palma, na sequência da insurgência armada que atinge Cabo Delgado desde 2017.

A obra é o maior investimento privado em aberto em África, orçado em 20 mil milhões de euros, inclui linhas de captação de gás a grande profundidade, na Bacia do Rovuma, 40 quilómetros ao largo, liquefacção e cais de exportação para cargueiros especiais.

Nele está ancorada boa parte das perspectivas de crescimento da economia moçambicana, bem como de pagamento da sua dívida soberana.

A TotalEnergies anunciou, no início de Fevereiro, ter pedido a um especialista em direitos humanos, Jean-Christophe Rufin, médico, escritor e diplomata, uma avaliação sobre a situação em Cabo Delgado para depois tomar uma decisão.

Alessandro Puliti adiantou que os trabalhos deverão ser retomados em Julho, com uma renegociação de certas partes do contrato original de engenharia e construção no valor de 3,5 mil milhões de euros, adjudicado em 2019.

A província de Cabo Delgado enfrenta há cinco anos uma insurgência armada com alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

A insurgência levou a uma resposta militar desde Julho de 2021 com apoio do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), libertando distritos junto aos projectos de gás, mas surgiram novas vagas de ataques a sul da região e na vizinha província de Nampula.

O conflito já fez um milhão de deslocados, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e cerca de 4000 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos ACLED.

CUSTO DO PROJECTO SERÁ DETERMINANTE PARA TOTAL RETOMAR

O custo do projecto de gás natural localizado na Bacia do Rovuma vai determinar a retoma das actividades da TotaEnergies em Moçambique, defendeu, em Fevereiro, o CEO da empresa. Citado pela agência de informação financeira Bloomberg, o gestor referiu ainda que a questão dos direitos humanos vai influenciar na decisão.

Os pronunciamentos foram feitos cerca de dez dias depois de o CEO da Total, Patrick Pouyanne, ter visitado a província de Cabo Delgado, para ver de perto se há ou não condições de retoma do projecto no Norte do país.

Patrick Pouyanne falava em uma conversa telefónica com investidores, citada pela Bloomberg. “Não tenho pressa para recomeçar. Se virmos os custos a subir muito, vamos esperar”, diz Pouyanne. Tais custos estão ligados à renegociação de contratos com fornecedores e subempreiteiros.

O projecto, orçado em mais de 20 mil milhões de dólares, está suspenso devido à insegurança na região Norte do país, causada pelo terrorismo. Diante da situação, o consórcio liderado pela TotalEnergies decidiu declarar força maior para suspender as actividades.

Além do custo, o CEO da TotalEnergies diz aguardar pelas conclusões do estudo que a empresa encomendou sobre a questão dos direitos humanos na província de Cabo Delgado. Espera-se que o relatório fique pronto ainda este mês.

Na conversa, o líder da petrolífera francesa rejeitou a ideia de que terá de haver uma escolha entre o regresso a Moçambique ou a aposta no mercado de gás natural liquefeito, dizendo: “Estamos prontos e temos a capacidade para financiar ambos”, escreve o Notícias ao Minuto que cita a Bloomberg.

Com a suspensão do projecto, os investimentos no país reduziram drasticamente. De Julho a Setembro de 2022, segundo o banco central, o sector da indústria extractiva, que era a maior fonte de entrada de Investimento Directo Estrangeiro, caiu 99,6% face a igual período de 2021.

A Electricidade de Moçambique (EDM) registou um prejuízo de cerca de 50 milhões de Meticais devido às chuvas e ventos fortes que têm afectado o país. 

Cerca de 30 mil clientes chegaram a ficar sem electricidade como resultado das chuvas que afectaram as zonas Sul e Centro do país desde o início do mês de Fevereiro.

O distrito de Boane e a Cidade de Maputo foram os pontos mais afectados na região Sul de Moçambique. As autoridades revelam que cerca de 4200 famílias ainda estão sem electricidade, devido a cortes e avarias na rede.

Dados oficiais mostram também que, devido à passagem da tempestade tropical Freddy, cerca de 130 mil clientes das províncias de Maputo, Manica e Sofala ficaram, esta quarta-feira, sem corrente eléctrica.

De acordo com o comunicado da Electricidade de Moçambique (EDM), as subestações da Costa do Sol, Zimpeto e de Marracuene, na Cidade e Província de Maputo, ficaram fora de serviço, afectando os clientes dos bairros do Zimpeto, Magoanine A, B e C e todos os bairros do distrito de Marracuene. Entretanto, o fornecimento de energia eléctrica já foi restabelecido nestes bairros.

Porém, 30 mil clientes da Vila de Mafambisse e do distrito de Gorongosa, na província de Sofala, bem como os clientes da Vila de Inchope, na província de Manica, continuavam sem energia.

Neste momento, várias equipas técnicas da EDM encontram-se no terreno, com o objectivo de restabelecer o fornecimento normal de energia eléctrica às zonas afectadas o mais breve possível.

A EDM refere que as inundações causadas pelo ciclone tropical Freddy causaram maiores obstáculos e inacessibilidade em alguns locais, o que concorre para a demora na reposição da corrente eléctrica.

A empresa salienta que, por razões de segurança, em algumas zonas, o corte preventivo do fornecimento de energia deve-se ao alagamento de Postes de Transformação (PT) e outros equipamentos eléctricos que, estando ligados, podem perigar a vida humana.

Por esta razão, a EDM apela à observância das medidas de prevenção, sobretudo nas proximidades de equipamentos que transportam corrente eléctrica.

Em Moçambique, a ocorrência de inundações é recorrente nesta altura do ano, mas, ainda assim, a pluviosidade esteve acima do esperado durante o mês de Fevereiro.

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