O País – A verdade como notícia

Por: Teresa Manjate

Introdução

Kutchingaé um documentário do cineasta Sol de Carvalho, com a produção de Jacinta Barros e Rui Simões. Contou com a consultoria do antropólogo Elísio Jossias.

O filme tem a duração de uma hora e decorre todo em Inhambane. A paisagem é soberba e realista: as casas feitas de palma, ruelas estreitas e campos desnudos de culturas e ambientes domésticos com crianças e animais em quintais “comuns” e uma praia com águas límpidas, mas cercada de plásticos, indicador de problemas com a ecologia. O realismo do filme não poupou esta realidade.

O filme, de carácter etnográfico, isto é, que estuda pessoas, culturas a partir de uma análise profunda sobre os comportamentos, as crenças, as vivências e outras características da comunidade. Por outras palavras, a pesquisa etnográfica estuda os padrões mais previsíveis das percepções e dos comportamento das pessoas na sua rotina diária.

O documentário versa sobre o ritual ‘‘Kutchinga’’ praticado na região Sul de Moçambique, concretamente de Inhambane, embora seja comum em muitas outras zonas do País. O filme apresenta, pela voz de “actores” – informantes-chave – o ritual na perspectiva de mulheres, isto é, de mulheres que enviuvaram e tiveram de passar pelo ritual. Melhor seria dizer que em termos de representatividade fala de mulheres que enviúvam e têm de passar por este ritual. Na verdade, o ritual é para homens e mulheres que enviúvam.

O ritual é complexo. No conjunto das práticas, as mulheres ou homens que perdem os seus parceiros são obrigados, seguindo os preceitos de uma tradição secular, a manter relações sexuais com um familiar do finado ou da finada ou alguém contratado para se “purificar” o homem, a mulher e as suas respectivas famílias e, em última instância, a comunidade mais próxima. Mas não é o acto sexual que está em jogo: são os actos subsequentes: a “lavagem” da casa e dos filhos e a reintegração na vida familiar e comunitária.

Ao longo do país, existem rituais de purificação, porém com outras denominações. No centro do pais existe o kupita kufa. De acordo com Colher (2017) em “Cultura, em moçambique: um olhar sobre o ritual de purificação de viúvas? pita kufa e a prevenção do AIDS na província da zambézia em morrumbala”, os dados obtidos nas entrevistas no distrito de Morrumbala, literalmente a palavra pita kufa significa “afastar o morto, ou seja, pita = afastar e kufa = morto. Este processo de “afastar o morto” é feito através da prática de uma relação sexual ritual após a morte de qualquer membro numa família e que, por norma, deve ser consensual tendo em conta o tipo de ritual a ser realizado e a disponibilidade do purificador.Ainda segundo Colher (2017, op. cit), este ritual de purificação que envolve relações sexuais assenta na crença da existência de dois mundos: dos vivos e dos mortos. Esta percepção determina a existência de um ritual de passagem que marca a separação entre os vivos e morto, melhor, entre a vida e a morte. Na prática, de acordo com os entrevistadospara a realização do trabalho de pesquisa “Cultura, em moçambique: um olhar sobre o ritual de purificação de viúvas? pita kufa e a prevenção do AIDS na província da Zambézia em Morrumbala”, se as pessoas vivem uma vida comum e a partilham nas suas diversas formas, a separação por morte cria uma “condição impura” e este “estado de impureza” deve ser mantido fora do convívio da família,através da prática deste ritual. Este acto, considerado sagrado, mantém as pessoas puras e afastadas da morte e do isolamento causado pela morte de uma pessoa importante da família.

Do filme

O filme de longa-metragem é um documentário, filmado em bairros da cidade de Inhambane é arquitectado a partir de relatos e histórias pessoais de cinco mulheres e dois homens. Na verdade, do jovem que também aparece como “actor” –informante, não aprecem evidencias de ter enviuvado. Afinal, é um profissional contratado de forma recorrente para o acto de purificação, por isso parece ser um conhecedor da prática. O depoimento feito “desdramatiza” a prática, ao mesmo tempo que retira a sacralidade do ritual, por causa da linguagem que usa e das descrições que faz. É aparentemente útil para a percepção da prática, porém não agrega valor. Teria sido pensado? Com que propósito?  

O documentário não tem narrador presente ou em voz off. Os receptores/leitores percebem as lógicas e as dimensões filosóficas a partir das vozes dos entrevistados.

O filme inicia com a apresentação dos sete entrevistados: cinco mulheres e dois homens que se apresentam: dizem o nome, o lugar e o ano em que nasceram (quando sabem), o nível de escolaridade, quando e como enviuvaram. Só um entrevistado não tem experiência de viuvez, mas tem opinião sobre o que e como acontece, é Celso Jone, jovem de 25 anos, desempregado e sem “rumo na vida”. Adriano Mbondola,outro homem “actor” e informante-chave, tem valências em termos de conhecimento, mas não explora com a mesma profundidade das mulheres a perspectiva masculina como viúvo que é sobre a prática ritualística para ele, como homem.Fala da condição da sua cunhada, viúva do irmão mais velho, com quem teve de realizar o ritual.

As mulheres, com idades compreendidas entre 62 e 24 anos, vão narrando as suas histórias, a viuvez e o processo de purificação. Só uma das mulheres entrevistadas não passou pelo processo do Kutchinga. Esta sente a necessidade de dizer que está tudo bem com ela, apesar de ter perdido um filho. Mas que tem netos de outro filho, mas que está tudo bem. Que leituras deste depoimento? Linear? Entrelinhas?

No documentário, através das vozes das mulheres, percebem-se muitos aspectos culturais da comunidade Twsa: (i) as relações familiares, particularmente o papel do pater familiae(o pai da família, pai, tio ou avô) (ii) as dinâmicas dos casamentos – o lobolo, o casamento pelo registo e o religioso ou ainda o informal “união de facto” (uns arranjados, outros por iniciativa própria, mas, mesmo assim, condicionados pela vontade e poder patriarcal, do pai, do marido ou dos sogros, que se adivinha sogro); (iii) o valor das tradições.

Percebe-se, através do documentário, fundamentalmente que o ritual serve para manter a tranquilidade nas famílias, isto é, saúde e aceitação e integração na família e na comunidade. Não se fala em herança (bens materiais), pois, aparentemente, as mulheres entrevistadas são pobres e de alguma forma, autónomas, em busca de equilíbrio mais espiritual do que material. Na filosofia tradicional bantu, a mulher que se casa passa a fazer parte da família do homem com que se casa. Mantém a casa, os filhos e a continuidade não só do nome, mas das tradições. É nesta perspectiva que se justifica a percepção da ligação umbilical com as famílias do falecido, com mulheres vivas. Só assim se justifica o ritual para manter os laços de continuidade.

Pela dinâmica do filme, o nível de escolaridade não determina a aceitação ou não do ritual. Teria sido interessante tentar perceber como é que as coisas acontecem nas grandes cidades, onde há certamente rituais de Kutchinga.

Para além dos cenários e planos apresentados, dialogantes, em termos de perspectivas – cenários, planos e enfoques – o filme apresenta uma riqueza sem precedentes sobre o imaginário distante, rural ou periurbano e cheio de surpresas: afinal as mulheres afirmam-se, por exemplo fogem em busca dos seus sonhos; deixam o coração falar e seguem o que ele dita: fugir, namorar, casar. Mas, e sobretudo, investem na consciência em relação à tradição. A tradição é importante. Dem ela, nada acontece em conformidade com a vontade dos vivos.

O filme é rico por permitir explorar outros aspectos importantes: a educação (formal e informal), as relações familiares, a organização e filosofia em torno da percepção do feminino nas comunidades, as mentalidades em torno da educação (hoje senhoras, mulheres formadas) e o casamento das mulheres – por encomenda, por arranjo ou por vontade própria. Nisso o filme é rico, muito rico.

A postura das mulheres é um aspecto a ter em conta: em relação ao poder patriarcal e a (possíveis) rebeldias e afirmações individuais com a gestão das consequências dessa mesma ordem e poder.  

Do debate

O documentário “Kutchinga” é importante e necessário por duas razões: (i) por ser um registo de património imaterial que poderá eventualmente cair no esquecimento, pelo na dimensão em que que hoje é praticado: (ii) por levantar questões importantes como as dimensões “submersas” da vida decomunidades inteiras.

O ‘Kutchinga’ tem esta designação no Sul de Moçambique, mas no Centro do país tem outras designações como Kupitakufa. São práticas que dizem muito, isto é, que têm um significado profundo para as pessoas: homens e mulheres. Regista-se nos relatos e narrativas a necessidade da prática para a limpeza e continuidade (na vida, na família, na comunidade). O respeito pela tradição distende-se no respeito pelas pessoas (individuais), famílias e comunidades.

Uma das entrevistadas dizia Kutchinga” é vida, é voltar a viver. Para homens e para mulheres. Os dois homens entrevistados manifestam-se como conhecedores e como a “consciência” desta prática tradicional em Inhambane. Só uma mulher afirma não ter passado pelo ritual. Esta sente a necessidade de dizer que está tudo bem com ela, apesar de ter perdido um filho. Mas que tem netos de outro filho, mas que está tudo bem. Que leituras deste depoimento? Linear? Entrelinhas? Sem pretender ser freudiana, talvez seja a necessidade de contrariar um “estado das coisas”, isto é, à situação existente ou ao estado de coisas estabelecido, que poderá ser diferente pela personalidade que se pretende rebelde e de ruptura.

Outros aspectos poderão ser trazidos a debate consiste na necessidade de esta prática continuar a ser amplamente praticada e respeitada como acto essencial de alguém que ficou viúva (o). Que percepções? Que dimensões?  

A crítica ao ritual centra-se na prática sexual implicada. Esta é questionada particularmente por causa da eclosão do HIV/SIDA, que certamente coloca em risco as mulheres e os homens enviuvados, por causa das contaminações em cadeia.

Numa perspectiva feminista, a degradação da imagem das mulheres é um facto. A mulher torna-se objecto na consecução do acto. Os homens também o seriam por, no seguimento da relação, se verem obrigados a realizar o acto. Mbondola afirma que primeiramente fugiu para a África do Sul e só mais tarde se predispôs a realizar o acto, como inevitável.

Como é que os homens viúvos encaram o kutchinga?

Em jeito de conclusão

Do conjunto das percepções, parece-me importante revisitar, com algum cuidado práticas da religiosidade não só de Moçambique. Entre o sagrado e o profano, pode-se correr o risco de tornar profano aquilo que para as comunidades é sagrado e sacralizar aquilo que para as comunidades é profano. Segundo Mircea Eliade , pode se comparar o abismo que separa as duas modalidades de experiência – sagrada e profana – lendo-se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc.).

Para a consciência moderna, um acto fisiológico – a alimentação, a sexualidade etc. – não é, em suma, mais do que uni fenômeno orgânico, qualquer que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas regras (…) que interdiz um comportamento sexual que a moral social reprova. Esta visão permite perceber as discussões em torno deste acto de purificação.  

O que é tradição? Como respeitar as tradições? Que direito se tem de questionar e abolir tradições? Na perspectiva da descolonização, que perspectivas adoptar para perceber, respeitar práticas sob o olhar dos demais questionáveis e criticáveis? Que repercussões terão as críticas veementes de práticas seculares – praticadas e respeitadas – nas vidas das comunidades?

Referências

COLHER, Cardenito Mário. Cultura, em Moçambique: um olhar sobre o ritual de purificação de viúvas pita kufa e a prevenção do AIDS na província da Zambézia em Morrumbala, in Argumentos – Revista do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil, 2017.

ELIADE, Mircea.O sagrado e o Profano [tradução Rogério Fernandes]. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Biografia:

Teresa Manjate é pesquisadora sênior e docente do Centro de Estudos Africanos (CEA) e da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS), ambos na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, e doutora em Licenciatura Oral e Tradicional pela Universidade Nova Lisboa. Membro do Instituto de Estudos de Literatura Tradição – Patrimônios, Artes e culturas, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas daUniversidade Nova de Lisboa (IELT) e da International Association of Paremiology (IAP). Faz pesquisa nas áreas de Literaturas Africanas; Literatura Oral; Conhecimento Local; Semiótica; e Cinema. É ativista em proteção dos Direitos Humanos da Criança, colaborando com a Santac (Rede da África Austral contra o Tráfico e Abuso de Crianças), e a Terre des Hommes, da Alemanha. Já colaborou também com a Organização Internacional das Migrações (OIM). Atualmente, trabalha na coleta, no registro e na catalogação de literatura oral em Moçambique, para a elaboração de um dicionário de símbolos; e no desenvolvimento de pesquisa em torno do cinema moçambicano.

Por: Eduardo Quive

Na sua primeira visita a Moçambique, na qualidade de Presidente do Camões, Instituto da Língua e da Cooperação de Portugal, Ana Paula Fernandes conheceu, no terreno, os programas desenvolvidos em parceria com instituições nacionais nas diferentes áreas. Com um plano de cooperação orçado em cerca de 170 milhões de euros, durante cinco dias, com escalas em Maputo, Sofala e Nampula, Ana Paula Fernandes vislumbrou os passos dados e o que está por realizar, nas áreas da Língua e Cultura, Educação, Infra-estruturas e Empreendedorismo.

 

 Esta visita a Moçambique, a primeira que faz desde que ocupa o cargo. Valeu pelo contacto directo com os desafios que o país enfrenta?

 

O Camões é um instituto que é responsável pela cooperação portuguesa, pela promoção da língua portuguesa no estrangeiro e também por toda a acção cultural externa. Nesse sentido, a minha visita centrou-se nesses três pilares. No primeiro dia, muito vocacionado para a questão da língua portuguesa e da cultura, porque tivemos a oportunidade de assinar, com a Universidade Eduardo Mondlane, um protocolo de colaboração que enquadra o Centro de Língua Portuguesa e também oferecemos ali um reforço da Cátedra, uma aposta também na formação para professores. Portanto, uma óptima reunião que tive com o Sr. Reitor. Também tivemos a oportunidade de inaugurar aqui a exposição dos 50 anos do 25 de Abril. Na Beira tive a oportunidade de inaugurar a mesma exposição no Centro Cultural do Camões. E foi muito importante fazermos isto, termos a capacidade de mobilizar recursos e apoio necessários para fazermos esta exposição também fora de Maputo.

Ainda na Beira, aí também estivemos a visitar o polo da Escola Portuguesa na Beira. Há vontade em podermos aumentar a capacidade de resposta para a quantidade de alunos. Neste momento, há cerca de 300 já na lista de espera e há toda a disponibilidade do nosso lado para trabalharmos no sentido de encontrarmos uma solução para aumentar a capacidade da Escola Portuguesa na Beira.
Depois fui fazer uma parte da cooperação, que é outro dos pilares do nosso trabalho.
E aí visitei todo o trabalho que estamos a fazer com as autoridades moçambicanas na Ilha de Moçambique, os vários projectos que temos nos diferentes eixos estratégicos, na área da Educação, no empreendedorismo, também na reabilitação urbana, com diferentes parceiros portugueses, como a UCCLA, a Fundação Aga Khan, a HELPO, etc. Uma grande parceria entre entidades moçambicanas e entidades portuguesas que constitui este grande desafio que é o cluster de cooperação na Ilha de Moçambique.
Mas também há actividades já desenvolvidas em Lumbo, aliás, como também foi identificado pelas autoridades moçambicanas, como uma necessidade também de criar infra-estruturas no Lumbo. E aí tivemos a oportunidade de inaugurar uma escola e também uma nova infra-estrutura no centro de saúde. Portanto, estamos a participar neste processo de crescimento e desenvolvimento de Moçambique, sempre indo ao encontro e sempre em colaboração com as autoridades moçambicanas, que são as que definem as prioridades e, obviamente, as linhas de actuação.

A inauguração do Centro de Língua Portuguesa na Universidade Eduardo Mondlane vem abrir uma nova página na cooperação? Que actividades este centro vai desenvolver?

A língua portuguesa é falada por 260 milhões de pessoas. Há a língua portuguesa falada em Portugal, há a língua portuguesa falada em Moçambique, no Brasil, em Angola, em todos os outros países da CPLP. É muito importante valorizarmos essa língua também em Moçambique, porque é efectivamente uma forma de valorizarmos o conhecimento dos escritores moçambicanos e aquilo que está escrito em Moçambique (em matéria de investigação na área da língua, o que também inclui a importante componente inerente à formação de professores). Portanto, o Centro de Língua Portuguesa tem, neste momento, a possibilidade de fazer formação de professores. A universidade é o centro de excelência para a investigação, para os estudos. Esta possibilidade de formalização do Centro de Língua Portuguesa contribuirá para que haja mais alunos a estudarem a língua portuguesa, a estudarem os escritores moçambicanos, a fazerem também as suas dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre esses escritores. Portanto, enriquecer, apostar e investir na cultura é também muito importante para o nosso desenvolvimento e para partilha de conhecimento entre povos. Isso é parte da cooperação. A língua, a cultura e a cooperação estão sempre interligadas.

Que acções se esperam com a renovação do protocolo para o apoio à Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira, da Universidade Eduardo Mondlane?
Nós, os países da CPLP, temos investidos muito em projectos de excelência em matéria de conhecimento da língua em diferentes países. Com a Cátedra e também com o Centro de Língua Portuguesa estamos a potenciar a capacidade de conhecermos mais e de criarmos mais conhecimento sobre aquilo que também escrevem em Moçambique, a investigação e também a publicação, a crítica e os estudos feitos por moçambicanos sobre a língua portuguesa que se fala em Moçambique. É muito importante disponibilizarmos o conhecimento ao mundo, compartilharmos esse conhecimento para valorizarmos a língua. Há três componentes fundamentais para uma língua ser valorizada: ser falada e escrita, ser conhecida e estudada e ser publicada nos diferentes formatos que possam existir. Portanto, a Cátedra e o Centro de Língua estarão presentes nestas três grandes dimensões e daí a sua importância.
Temos muita honra que a Universidade Eduardo Mondlane tenha aceite este desafio no seu centro de línguas.

Tem-se dito que há uma Beira antes e uma depois do Ciclone IDAI. Estão visíveis as mudanças uma vez que visitou o Hospital Central?

Nós sempre apoiamos Moçambique nestes diferentes ciclones que tem vivido. Tivemos a oportunidade de visitar o Hospital Central da Beira, que também é um parceiro com quem temos obras, através de várias organizações que têm estado a apoiar, com o financiamento da Cooperação Portuguesa, a reabilitação pós-ciclone. O hospital foi muito afectado pelo ciclone e nós temos estado, como Cooperação Portuguesa, a responder às necessidades do hospital central, que serve cerca de 9 milhões de pessoas. Concentrámos aí muito esforço de reabilitação e de apoio à resposta.

Na província de Nampula visitou programas realizados com apoio da Cooperação Portuguesa. Que resultados está a ter o Cluster da Cooperação Portuguesa na Ilha de Moçambique?

Estamos a implementar a terceira fase de um grande projecto de cooperação que envolve uma parte do empreendedorismo, com apoio a um grupo de mulheres e associações de mulheres que produzem peças de artesanato e as artes da Ilha de Moçambique, para que elas sejam integradas. Portanto, para que crie dinâmica de valorização do património através da venda de artesanato e também de melhoria de condições de vida. Há uma parte que é feita com a UCCLA, que é uma entidade que reúne as cidades e tem toda esta valência de capacidade de planeamento urbano. Aí contemplamos a reabilitação dos bairros, a organização das comunidades nos bairros. Não só o saneamento, mas também as infra-estruturas, o acesso à água. Temos as entidades que nos apoiam na questão das bibliotecas, como um lugar para desenvolvermos a abordagem das histórias pelo conto e o conto pelas histórias. Depois visitamos a fortaleza, onde também há, neste momento, pensada a reabilitação da capela.

 

Qual será a próxima fase no projecto de cooperação para a Ilha de Moçambique?

Em termos de eixos estratégicos, vamos fazer agora a avaliação da terceira fase deste grande plano de cooperação na Ilha. Vamos avaliar o impacto das diferentes áreas e vamos nos concentrar em determinados eixos, um dos quais, desde logo, a Educação, porque temos um projecto também com a Helpo, nas escolinhas, que consiste em fortalecer toda a dinâmica educativa. Vamos reforçar o apoio aos jovens para o empreendedorismo e para a criação de emprego. Uma parte grande da cooperação tem que ver com infra-estruturas, com saneamento e com a sustentabilidade da energia e do ambiente. Será essa a próxima fase da colaboração na ilha, sempre com esta dinâmica de valorização do património, acesso aos serviços de Educação e também capacidade de gestão urbanística que permite melhorar as condições de vida das pessoas.

Numa altura que se celebra os 50 anos do 25 de Abril, que foi também importante para a independência de Moçambique, como vê os direitos humanos e as liberdades no país?

A nossa relação com Moçambique, ao longo dos anos, tem sido sempre excelente!
Portugal estará sempre presente quando necessário, obviamente, e quando solicitado.
O que é importante na história é não repetirmos os erros do passado e aprendermos com os nossos erros para construirmos um futuro, e um futuro sempre melhor. Portanto, é muito importante olharmos para os 50 anos do 25 de Abril como essa oportunidade para reflectirmos sobre o que correu mal no passado, em termos históricos, mas também para reflectirmos sobre aquilo que correu bem, no qual devemos apostar. Melhoraremos sempre e faremos sempre mais e melhor, e isso é o processo histórico. Hoje temos que pensar a liberdade e a democracia no presente e no futuro. A Educação é uma ferramenta fundamental para construirmos sociedades livres, educadas, que saibam decidir e daí a necessidade de continuarmos a apostar na educação. Penso que o governo moçambicano também está à procura de parceiros para essa área, que é uma área que considera fundamental. A Educação é fundamental em Moçambique e em Portugal. É um investimento que tem que ser diário, constante, permanente e sustentável. E temos que ir ajustando a Educação às necessidades também dos jovens e às expectativas dos jovens, para que, efectivamente, os jovens continuem a conhecer a História, o que se passou no passado para poderem valorizar o presente e construírem o futuro.
Uma sociedade que esquece o seu passado, obviamente, é uma sociedade que perde parte da sua identidade. Se nós não reconhecemos essa identidade e não construímos e investimos nessa identidade, mais dificilmente somos capazes de pensar o nosso futuro. Esse é um desafio global, é um desafio dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, muito bem colocado pelas Nações Unidas como um objectivo central do desenvolvimento, é um desafio entre sociedades como as sociedades europeias e como a sociedade portuguesa e, portanto, é um desafio para todos. E nós temos muito gosto de estarmos juntos com Moçambique para tentar encontrar as melhores soluções para continuarmos a investir na Educação desde a infância.

E porque fala em Educação, Portugal tem sido importante na oferta de bolsas para formação em várias áreas. Como é que estão esses programas e que planos tem para que cheguem a mais pessoas, tendo em conta a crescente procura e necessidade?

Temos vindo, todos os anos, a aumentar paulatinamente as bolsas em Moçambique.
Neste momento, estamos com, penso, 75 bolsas para Portugal, quando eram cerca de 50 bolsas no ano anterior. Portanto, temos vindo a crescer paulatinamente, em termos de disponibilidade. Fizemos uma alteração ao regulamento das bolsas, de forma a incluirmos, por exemplo, algo que não existia antes, que são os subsídios para habitação, porque reconhecemos a dificuldade. Por exemplo, de encontrar habitação em Portugal. Aumentamos o valor das bolsas e aumentamos o número de bolsas disponíveis. Além disso, temos também bolsas para a área da cultura, da investigação, e estamos também disponíveis para, em cooperação com as autoridades nacionais, identificar as áreas em que será necessário continuar a promover as bolsas e as áreas em que deveríamos eventualmente oferecer novas bolsas.

A cultura é uma área muito importante! O investimento em arte, cultura e música é tão importante quanto a Medicina e a Educação. O que é fundamental é que haja também condições em Moçambique para que as pessoas possam trazer benefícios aos seus estudos e, nesse sentido, as bolsas que nós denominamos bolsas internacionais são igualmente importantes como as bolsas para os estudantes moçambicanos irem estudar para Portugal, seja em licenciatura, mestrado ou doutoramento.
Em termos de volume, superamos, assim, financeiro para todos os países da CPLP. É um trabalho que temos de continuar a fazer, porque consideramos que traz muitos benefícios para quem estuda e também para a sociedade em geral.

Em geral, qual é o ponto de situação da Cooperação Portuguesa em Moçambique e do Programa Estratégico de Cooperação (PEC) de 2022-2026? Quando estamos à metade e tendo em conta as realidades que mudam, quais são as perspectiva?

Nós estamos num momento de transição, em Portugal. Tivemos, esta semana, a tomada de posse do novo governo, e, portanto, há aqui uma necessidade de falarmos com a nova tutela. Como nós dizemos, avaliar e comunicar um pouco aquilo que é o ponto de situação relativamente a essa cooperação. As linhas principais continuam a ser o investimento na Educação. Foram essas as linhas que foram acordadas no âmbito do PEC. É muito importante o investimento em património e cultura, empreendedorismo e também em toda aquela colaboração que existe em matéria de segurança e desenvolvimento, em matéria de cooperação técnico-policial. Há aqui uma série de áreas que continuam a ser uma constante da relação entre Portugal e Moçambique. O que às vezes pode ajustar é o investimento de ano para ano. Moçambique continua a ser o primeiro parceiro em termos de volume financeiro de Portugal, nesta área de cooperação para o desenvolvimento, com um PEC total de 170 milhões de euros, que foi reforçado, como sabe, até por apoio ao orçamento para efeitos também de iniciativas de implementação e também na parte humanitária, por causa dos ciclones.
Portugal tem procurado muito apoiar Moçambique na situação em Cabo Delgado. Nós contribuímos com um milhão de dólares para a OCHA, para o apoio à ajuda humanitária em Cabo Delgado, em Dezembro do ano passado. Continuaremos a fazer, sempre que necessário, esse reforço do apoio humanitário. Mas, além do apoio humanitário, estamos também com a União Europeia num projecto chamado Mais Emprego, para criarmos emprego para os jovens. Ao mesmo tempo que estamos a dar a resposta humanitária, estamos a procurar, com a União Europeia, ter uma resposta às expectativas dos jovens e à dimensão de criação da sua própria sustentabilidade financeira e económica e melhoria das suas condições de vida, para podermos dar resposta às suas expectativas, o que é muito importante em Cabo Delgado. Isso será sempre uma área, nestes próximos tempos, até que a situação, esperemos, esteja resolvida.
A minha missão desta vez não foi fazer um ponto, situação, projecto a projecto. Foi, realmente, conhecer as dinâmicas presentes. Espero vir em breve para visitar outros projectos, também noutras regiões de Moçambique, em que colaboramos com as autoridades moçambicanas para podermos, depois, fazermos essa avaliação.

José dos Remédios (de Moçambique) e Ana Bárbara Pedrosa (de Portugal) são os autores vencedores da edição de 2024 do programa de intercâmbio literário e estarão em residência, em Maio, em Lisboa, Portugal e em Outubro, em Maputo, Moçambique.

O júri, constituído pela escritora Yara Monteiro e pelos representantes do Centro Cultural Português em Maputo, Matteo Angius; e da Câmara Municipal de Lisboa, Adelaide Bernardo decidiu por unanimidade seleccionar as propostas de trabalho de José dos Remédios e Ana Bárbara Pedrosa, considerando que, no universo das candidaturas admitidas, são as que melhor se enquadram na lógica do programa de intercâmbio literário, destacando também, o impacto e benefícios destas residências e os encontros e experiências que proporcionam para a actividade literária dos candidatos vencedores e para os projectos apresentados, bem como a oportunidade de enriquecimento do seu percurso artístico.

Os dois autores juntam-se assim a Amosse Mucavele, Joana Bértolo, Eliana N’Zualo, Lúcia Vicente, Eduardo Quive, Mélio Tinga e Cláudia Lucas Chéu, escritores vencedoras das edições anteriores do programa de intercâmbio literário, criado no abrigo do protocolo de cooperação celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, através do Centro Cultural Português em Maputo, de incentivo e estímulo à criação literária portuguesa e moçambicana e aposta na internacionalização da cultura.

José dos Remédios será o escritor residente em Lisboa, em  Maio de 2024. Nasceu em Chamanculo, Cidade de Maputo. É Mestre em Educação/ Ensino de Português, pela Universidade Pedagógica de Maputo, licenciado em Literatura Moçambicana, pela Universidade Eduardo Mondlane, docente, ensaísta e jornalista. 

Iniciou a sua carreira de docente em 2008, o ensaio em 2012 e o jornalismo em 2014. Possui publicações na imprensa moçambicana, angolana, portuguesa, brasileira e eslovaca. Tem colaborado como consultor de feiras de livro, na edição literária e na promoção das artes e culturas com instituições africanas, europeias e americanas. 

Escreveu guiões de vídeos em homenagem a Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano, Ungulani ba ka Khosa, Dom Dinis Sengulane, Mia Couto, Paulina Chiziane e Luís Bernardo Honwana. Foi guionista, técnico de som e fotógrafo do documentário Maputo, a doropa, que conta histórias sobre os bairros da capital moçambicana. É autor de O horizonte e a escrita – um ensaio sobre a narrativa de Adelino Timóteo (2020) e organizou o livro José Craveirinha: a voz do nosso tempo (2022).

Ana Bárbara Pedrosa será a escritora residente na cidade de Maputo, em outubro de 2024. Romancista portuguesa. Desde 2019, escreveu e publicou três romances, com selo da Bertrand Editora: “Lisboa, chão sagrado” (2019, finalista do prémio literário Fundação Eça de Queiroz), “Palavra do Senhor” (2021) e “Amor estragado”. Este último será publicado no Brasil ainda este ano. Também para este ano está prevista a primeira publicação em literatura de não-ficção, com um volume de literatura de viagens. 

A autora escreve regularmente para vários órgãos de comunicação social, é cronista no jornal Mensagem de Lisboa, faz crítica literária no Observador e copywriting na Wook. É doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística, pós-graduada em Economia e Políticas Públicas e licenciada em Línguas Aplicadas. Atualmente, dedica-se exclusivamente à escrita.

A Editora Fundza, em parceria com o Centro Cultural Franco-Moçambicano, vão apresentar, no sábado, a primeira actividade de “Jogos Lúdicos e Populares” inspirados na obra “Toutinegra, o pássaro vaidoso e preguiçoso’’, de Miguel Ouana.

O evento terá início às 10h30, no Auditório do Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo.
“Toutinegra, o pássaro vaidoso e preguiçoso” é uma história repleta de risadas e amizade entre um menino de 8 anos, seus amiguinhos e uma ave muito vaidosa, que exibe sua beleza enquanto trabalha.

Para celebrar a magia desta estória, a actividade será animada pelo autor Samuel Nhamatate, que proporcionará uma série de jogos lúdicos e populares, muitos dos quais estão em vias de desaparecimento, promovendo a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades das crianças enquanto se divertem.

Ao final da actividade, as crianças terão a oportunidade de fazer uma sessão de fotografias com Miguel Ouana, autor do livro.

O escritor Adelino Timóteo vai lançar, quinta-feira, às 17:00 horas, na Universidade Pedagógica-sede, em Maputo, o livro “Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar”.

Com apresentação de Hélder Nhamaze, trata-se do seu vigésimo quinto livro. Trata-se uma obra que pretende ser um farol, com material inédito, buscando iluminar os acontecimentos do pós-25 de Abril de 1974, assim como o episódio trágico de 7 de Setembro, em Lourenço Marques, do mesmo ano.

Focando-se no Engº Jorge Jardim, o livro oferece um ângulo inédito e distinto de contar também sobre os derradeiros momentos da luta armada de libertação e os demais acontecimentos que lhe sucederam, vinculando-o a uma tentativa humana e de redenção de se acercar à FRELIMO, através do «Programa de Lusaka», com que buscava evitar a debandada de 250 mil brancos de Moçambique.

Debaixo da lenda desta personalidade e com informação devidamente contextualizada, o autor esmiuça os factos, que marcaram o fim do Ultramar português e a emergência de um novo conflito, debaixo da consigna da guerra fria.

Afamado como uma das mais ímpares e insignes personalidades da África Austral, purgado pela Junta de Salvação Nacional, dos capitães de Abril, Jorge Jardim, tratado como um monstro, esgrime os seus argumentos, mas não consegue impor o seu plano em cima da mesa, no tratado de Lusaka. Daí resvala-se para um plano secundário e assiste desencantado o processo dramático e trágico da descolonização desde a periferia.

“Cinquenta anos depois, olhando para o pensamento de Jorge Jardim, é possível depreender que, mais do que votar-lhe ao ostracismo e ao tabu, Jorge Jardim foi um nacionalista, que pretendeu contribuir com o seu pensar particular, que mantivesse a dignidade da maioria nativa e dos derrotados, numa harmonia comum, sem se ferirem uns aos outros”, lê-se ainda na nota de imprensa: “Ao desenterrar o perfil deste homem complexo, raro, pretensamente anti-racista, com as suas contradições e partes encantadoras, como todos os seres humanos comuns, o autor oferece a oportunidade de se esgravatar sobre a documentação e testemunhos interessantes de uma figura enigmática, esclarecendo sobre os momentos que mediaram a morte de Eduardo Mondlane, com isto demonstrando que a história é um processo dinâmico, em permanente construção”.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” é um eixo em que gravitam as sombras de muitos factos ocorridos há sensivelmente 50 anos. “A relevância de documentar com intensidade esse período de ouro da história contemporânea é um serviço à Nação”, cita-se a sinopse da obra.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” também será lançado no dia 18 de Abril corrente, às 17:30, no Centro Cultural Português, na Beira, ainda no dia 20 deste mês, em Quelimane.

Na próxima sexta-feira, às 19 horas, o encenador Evaristo Abreu vai apresentar, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a peça “O embondeiro que sonhava pássaros”.

De acordo com a nota de imprensa do Franco-Moçambicano, “O embondeiro que sonhava pássaros” é a história de uma criança filha de colonizadores (todos eles, sem distinção) que se alegrava em viver a vida como ela se oferecia, toda colorida, musical e alegre. Ela encontrava essa felicidade numa mulher que vendia pássaros encantando a criançada. No entanto, estas passeatas da Passarinheira, não eram do agrado dos seus progenitores que viam nessa mulher uma desviadora dos bons costumes nas suas crianças. Consideravam os pássaros que essa mulher vendia (embora lindíssimos) um mau agoiro para a sua sociedade, pelo que era melhor fazer essa mulher sair de circulação. Assim, juntaram-se um grupo de influentes, políticos, militares e alguma sociedade civil, no sentido de persuadir a vendedeira de pássaros a não voltar a surgir na vila.

Evaristo Abreu nasceu em Maputo a 5 de Outubro de 1966. Fez mestrado em Artes Dramáticas na Witwatersrand University, em Joanesburgo, bacharel em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane. Começou a sua carreira no teatro em 1985, trabalhou como actor para o TEJOCO, Txova Xita Duma e Mutumbela Gogo.

Em 1989, fundou o grupo de teatro Mbeu, como encenador. Criou e dirigiu o Festival Internacional de Teatro D’Agosto de 1998 a 2005. Esteve envolvido em várias peças teatrais com propósitos de mudança social, para várias organizações, incluindo do governo.

Em 2006, juntou-se à Visão Mundial para coordenar o departamento de mobilização comunitária através do teatro. Em várias ocasiões foi convidado pelo Ministério da Cultura e Turismo para fazer parte das comissões organizadoras do Festival Nacional da Cultura. Desde 2011 é Professor na ECA- Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, orientando as cadeiras de; (Encenação e Teatro aplicado). De 2015 a 2018 trabalhou como escritor no PCI Media Impacto no projecto “Ouro Negro”. Em 2022 criou e dirige actualmente a EA. TEARTES.

Entre 10 de Abril e 11 de Maio, Mário Macilau vai expor “Imediatismo”, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Trata-se de uma mostra fotográfica, na qual se explora o quotidiano. “Desde sua infância nas ruas de Maputo até sua exploração das realidades locais, Macilau mostra os desafios sociais, ambientais e económicos enfrentados pelo país. Sua série de imagens revela o impacto do desmatamento e da busca desesperada por recursos, criando uma narrativa visual sobre a intersecção entre a vida humana e a destruição ambiental”, lê-se na nota de imprensa.

A exposição “Imediatismo” desafia a noção de gratificação instantânea, destacando a importância de entender e contribuir para um presente e futuro melhores.

Mário Macilau nasceu em 1984, em Maputo, onde vive e trabalha. É um artista multidisciplinar, utilizando principalmente a fotografia, mas também explorando práticas na pintura, instalação, vídeo, som e poesia. Seu envolvimento com a fotografia teve início em 2003, e sua dedicação à profissão começou a solidificar-se em 2007, quando trocou o telefone celular de sua mãe pela sua primeira câmara fotográfica. Macilau é conhecido por seus projectos de longa duração, que abordam questões ambientais, sociais e trabalhistas no país.

Seu trabalho fotográfico destaca-se por explorar identidade, questões políticas e condições ambientais, muitas vezes colaborando com grupos marginalizados para amplificar suas vozes e conscientizar o público sobre injustiças sociais e desigualdades. Utilizando frequentemente o retrato como ponto de partida, Macilau revela uma perspectiva mais ampla da realidade que retrata.

Ao longo de sua carreira, Macilau viajou para mais de cento e cinquenta países, recebendo reconhecimento internacional por seu trabalho através de diversos prémios, como o Prémio UNESCO na França e o “The Protection Project” nos Estados Unidos. Suas obras são regularmente exibidas em exposições individuais e colectivas tanto em Moçambique quanto no exterior.

A Associação Kulemba lançou a segunda edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil. Depois de em 2023 ter laureado o escritor Carlos dos Santos, a iniciativa literária vai, este ano, laurear mais uma obra literária de um autor moçambicano.

O Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil pretende estimular a produção literária de qualidade no país, distinguindo a melhor obra Infanto-juvenil publicada anualmente. Entre 2 de Abril e 2 de Maio podem concorrer ao Prémio todos os autores nacionais com obras infanto-juvenis (prosa ou poesia) publicadas em Moçambique.

O Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil será outorgado a livros de autores moçambicanos, publicados em língua portuguesa, devendo a primeira edição ter sido publicada em 2023. Os livros concorrentes devem ter sido publicados em versão impressa; deve ser original, não podendo apresentar nenhuma parte já publicada antes em livro; os livros publicados devem possuir obrigatoriamente um número de registo emitido pela Biblioteca Nacional de Moçambique ou pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, por requisição da editora ou do autor. A ficha de inscrição e os exemplares do livro concorrente devem ser entregues na sede da Associação Kulemba, sita na Rua António Enes, Bairro do Chaimite, Cidade da Beira.

A avaliação das obras candidatas ao prémio será feita em duas fases, sendo a primeira para apurar os cinco finalistas e, a segunda, para indicar o vencedor do prémio. As cinco obras finalistas serão anunciadas no site e nas redes sociais da Associação Kulemba até ao dia 1 de Junho de 2024. Os vencedores do prémio serão divulgados no mês de Junho de 2024, durante a sétima edição do Festival do Livro Infanto-juvenil da Kulemba, FLIK 2024.

O processo de avaliação dos livros inscritos será feito por um Júri constituído pelos escritores Carlos dos Santos (Presidente), Angelina Neves e Benjamim Pedro João, que deverá reunir para decidir sobre os finalistas e vencedor.

O vencedor do Prémio será agraciado com um prémio pecuniário no valor de 100.000 MZN (cem mil meticais). 22. Caso a obra tenha sido ilustrada, o valor do Prémio deverá ser repartido, sendo oitenta mil (80.000 MZN) para o autor e vinte mil (20.000 MZN) para o ilustrador.

 

Por: Zulfikar Abdurremane

 

No tempo em que os animais falavam, em que eram os principais vectores de governação, possuíam, em peso, o domínio e controlo de tudo e todos. Aliás, eram bem avantajados, que, em sentada descontraída na selva, acordaram que a melhor forma de se adquirir o que, realmente, lhes merece era sair do monoteísmo para criação de um deus que lhes fosse “melhor” – o adulatris.

O adulatris teria, dizem – por via de qualquer coisa que fosse celestial, mostrado o caminho pleno da salvação no qual qualquer um que se fizesse no local de trabalho, derramar-lhe-ia uma bênção e, portanto, um salto galopante na vida social, económica e amorosa. Dizem mais que, nessa época, o embondeiro deixou de ser aquele ponto de referência onde se entoam cânticos à batucada e se invocam espíritos.

E há mais quem diga que, nesse corredor, teria existido um que ousasse martelar palavras das quais alguns guardas florestais da dita selva se teriam deixado embalar em relatórios de folhas verdes, triunfalistas, que escamoteiam a natureza, por, meramente, serem sensíveis à adulação, ao servilismo, ao lambe-botismo, à ocidentalização cultural turca (vulgo beija-mão), à serem prostrados com vénias e vénias.

De dia e noite, ouve-se estrondos e gritos que relatam se ter perdido sensibilidade para com os problemas do povo indígena que convive com selvagens. Afecta-se e silencia-se o que, de facto, atormenta. Ninguém se ousa a falar, se não lhe remetem à quebra. Comprometem-se ao invés de abster-se, vendem o martelo muito ao contrário de perdê-lo, abandonam o leme inversamente manobrado, perdem o controlo em oposição à resilientá-lo, não dirigem, fazem digressão de mandatos, não exercem o poder que o povo lhes confiou, recebem salário do Estado.

Custa dizer isto, mas quando os animais falavam, Adão e Eva não eram os únicos racionais (se é que eram, pois os seus descendentes provam o contrário). Hoje, a relação entre os animais é uma piada. Até a ave-rufa que nunca teve um canto e papo suficiente para suportar tantas espigas de milho, redige convites e sede bancadas a outras aves para discutir critérios de domesticação e selvatização. Afinal, revelou um agrónomo que, a partir do momento em que a espiga de milho é exposta, diferentes doenças podem ocorrer.

Ó, “anakuru[1]”!

Co’licença espíritos aí na terra!

Nasceu aqui, uma sociedade que, os seus membros, de tanto bajularem seus deuses, dentre eles o adulatris, perdeu o sentido de viver. Haveria um outro senão o bem-comum? – achamos que não. Os aninais, na selva, preocupavam-se uns com outros. Comiam-se para se satisfazerem entre si até que um ser dito racional, movido por interesses pessoais de encher a pujança, comeu-lhes e aos seus próximos a tão estupida sagacidade, hoje, actualizada em versão Pro Max.

Outro sim, a acção do inimigo, o tão dito infiltrado no aparelho de Estado, nos pontos estratégicos, nos centros nevrálgicos – uma acção com objectivos alinhados ao ponto de fuga mais alto – pretende levar o povo ao descontentamento generalizado contra o seu próprio, inabdicável, poder, levar o povo a pensar que todo e qualquer governo é incapaz (para isso basta ser governo), levar o povo a lutar contra si mesmo, agitar o povo para, depois, transformá-lo em cavalo de assalto e ele, o inimigo, ser o cavaleiro, contudo há uma infelicidade que, felizmente, prevalece – estamos numa sociedade em que o rebanho tem mais de um pastor.

[1] nakuru  cf. anakuru  significa ‘fantasma’ cf. ‘fantasmas’ – na língua Emakhuwa praticada em Nampula: cidade-capital e arredores.

+ LIDAS

Siga nos